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16/10/2009 - 06:58

Identidades e identificações

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Quem é você? A qual grupo humano pertence? O que é esse grupo?

Respostas à perguntas aparentemente tão simples são em geral infinitamente mais complexas. Comece definindo: brasileira(o), morador(a) de tal lugar, adepto de um credo religioso. Cor de pele, profissão, ideologia política, praticante de algum esporte, interessado em alguma atividade adicional.

É isso tudo – e muito mais – suficiente para definir o que alguém é ou o que um grupo é? A impossibilidade em se reduzir o que um ser humano, ou um conjunto de seres humanos, é explica a dificuldade em encontrar e delinear o que habitualmente se chama de “identidade”.

O documento de identidade, o famoso RG, apenas nos reduz a um pequeno conjunto de informações burocráticas que nos ligam ao longo de nossas vidas ao Estado, à unidade política a qual estamos associados do nascimento à morte, mas jamais seria o suficiente para que pudessemos dizer quem é “alguém”.

A coisa apenas se complica quando ampliamos esse conceito de “identidade” para grupos formados por milhares ou milhões de indivíduos: o que é ser brasileiro? Chinês? Operário? Negro? Mulher? Ambientalista? Universitário? Militante partidário?

As ciências humanas – ou sociais – trabalham constantemente com o conceito de identidade, mas, na maioria das vezes incorrem numa espécie de pasteurização das relações humanas, da plasticidade das culturas e do livre arbítrio de cada ser humano.

Basta examinarmos alguém próximo a quem conheçamos razoavelmente bem, com pouco tempo observaremos uma série de posturas, atitudes que são contraditórias se colocadas frente a frente com a idéia de uma “identidade homogênea”.

Nem todas as atitudes do militante condizem com essa condição, o adepto do Partido Comunista que adora os jogos da NBA, a feminista que sempre sonhou em cuidar das crianças, o operário que adora música erudita e não suporta música popular, o universitário que prefere ir ao pagode do que ao show do Chico Buarque. Em verdade toda idéia de “identidade” esbarra no estereótipo e na prática histórica dos grupos humanos de buscar reduzir o diferente a meia dúzia de características, em geral opostas àquelas que imaginamos definirem o grupo ao qual pertencemos.

Todo diferente é um “bárbaro” em alguma medida como definiam parcialmente os gregos antigos, procedimento que carregamos ao longo dos milênios e que é tão difícil de ser vencido.

Recentemente o pensador francês Jean-Pierre Warnier propôs que o termo “identidade” seja substituido por “identificação”.

A diferença básica entre “identidade” e “identificação” é que o segundo conceito opera sobre o princípio da plasticidade e da volatividade das culturas, das relações humanas, dos gostos, das opções pessoais, situação que se ampliou – ou explodiu? – com o estreitamento das relações entre povos e grupos humanos diversos com as tecnologias da informação que avançaram a velocidade da luz na segunda metade do século XX.

Talvez por isso mesmo as situações que nos insinuam paradoxos tenham se multiplicado exponencialmente: japoneses que abraçaram a causa de grupos africanos ou que vêm ao Brasil tocar nas baterias de escolas de samba nos carnavais, jovens de periferias brasileiras que se identificam com ícones da política do mundo islâmico, palestinos que torcem para a seleção brasileira, alemães e holandeses que usam penteados iguais ao de Bob Marley, argelinos nos “banlieu” franceses que se identificam com os afegãos que tentam atravassar o Canal da Mancha em Calais. É claro, os grupos ainda mantêm conjuntos de valores e ítens (como bens materiais, origem étnica, nacional ou religiosa) que lhes garante a coesão, mas essa já não é vista como era há três ou quatro décadas. O mundo se complicou.

E essas “identificações”, elementos que são somados no interior de cada indivíduo e com intensidades diversas, que os ligam a outros indivíduos espalhados pelo globo através de uma rede de comunicação complexa e cheia de meandros e armadilhas (televisão, rádio, internet), se faz e desfaz o tempo todo, com volatilidade jamais vista ou imaginada. Apoios a governos, ONGs, grupos de ativismo podem se fortalecer ou ruir em espaços temporais diminutos com a divulgação de dados de uma balanço financeiro, de um escândalo, de uma atitude incorreta.

Dias atrás o principal candidato a direção da Unesco – braço da ONU dedicado a Ciência, Educação e Cultura -, um embaixador egípcio, viu sua campanha ruir e sucumbir diante da embaixadora belga diante da divulgação de comentários a respeito dos judeus e de atos que teria cometido contra a liberdade de expressão quando ocupava o cargo de ministro da cultura do Egito. Grupos ligados aos direitos humanos, a liberdade de imprensa, ao patrimônio, entre outros, moveram suas peças no tabuleiro para forçar a derrota do egípcio, contrariando todos os prognósticos de três ou quatro semanas atrás.

De fato vivemos e veremos cada vez mais um mundo organizado pelas “identificações”, pela livre associação – e tentativa constante de manipulação – dos indivíduos, pelo envolvimento em ações, valores e princípios que, mesmo que mantenham características regionais fortes (como a causa indígena no Xingú ou na Amazônia), passam a compor um conjunto de “pautas” globais. O que não significa em absoluto o fim das especificidades locais, regionais, mas apenas uma ampliação e complexificação dos envolvimentos humanos.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
22/04/2009 - 07:00

As descobertas do Brasil

Já escrevi aqui noutra ocasião o quanto algumas questões a respeito da história são, na minha humilde opinião, de menor relevância. Uma delas diz respeito justamente a “qual povo” efetivamente chegou primeiro às Américas. Um livro lançado há alguns anos, de um almirante de submarino da marinha estadosunidense, defende a tese de que os chineses foram os primeiros a zanzar por estes mares, e também pela África e Pacífico.

 

Na realidade, dizia eu, isso tanto faz como tanto fez, pois o fato inegável é que foram os europeus e não os chineses a colonizar as Américas, e é nesse fato que se funda toda história americana colonial. O resto são especulações de interesse almanaquesco.

Outra discussão que tenho para mim um tanto infrutífera é com relação a denominação do evento da chegada dos europeus às Américas: Descoberta? Invasão? Achamento?

Isso não muda também o fato de que a presença européia desorganizou as sociedades tradicionais americanas, produziu um verdadeiro genocídio indígena (e também africano, com os séculos de escravidão e tráfico), mas que também muitos povos indígenas dominados esperavam uma oportunidade para se rebelarem e dizimar seus antigos algozes. Também não muda o fato de nossas culturas americanas serem tributárias das européias e africanas, tanto quanto das indígenas.

No caso da “descoberta” do Brasil há um caso semelhante. Discute-se fartamente – em geral nos meios não povoados por historiadores de carreira – se realmente o dia 22 de abril de 1500 foi o ano da chegada dos portugueses às Américas. Teriam chegado antes e encoberto o achado? Teriam informações fidedignas da localização do novo território?

Bem como as outras questões, discutir o 22 de abril por si próprio pouca iluminação traz a questão central, que é o do marco histórico da “colonização”.

O que muda efetivamente no mundo – tanto para os povos americanos quanto para os europeus – não é a chegada a uma terra nova, mas a decisão e a ação de ocupá-la, de transformá-la, adaptá-la a padrões mentais, econômicos, materiais, espaciais oriundos de uma terra distante e profundamente diversa. Esse fato, o da “colonização”, é o que realmente transformou o mundo.

Esse processo, de ocupar, produzir, transfomar, somente teve início três décadas depois do 22 de abril de 1500. Mas, mesmo assim, ainda há outras questões.

Durante séculos o território nas Américas de posse portuguesa foram vistos como “diversos”, sem uma unidade clara. Estavam subordinados a Lisboa, a real amálgama desses espaços diversos. O Brasil como unidade é uma construção relativamente recente, e mais certamente nasce no século XIX, não no século XVI, na chegada de Cabral e sua esquadra.

Contudo, ainda assim, a unidade territorial não foi um fato imediato, nem na elevação a categoria de Reino Unido, após a chegada da Corte portuguesa em 1808, nem mesmo na declaração de Independência, em 1822. Durante anos os grupos políticos das diversas regiões se enfrentaram para que um projeto político – que garantiu a unidade territorial, politicamente centralizada, monarquica, escravista, etc – conseguisse sobrepujar os demais.

Diferentemente do que ocorreu na América espanhola, a qual, após o início do processo de independência das antigas colônias, se fragmentou em diversas nações.

Contudo, ainda assim, com unidade política, unidade territorial, etc, o “sentimento” de brasilidade, de pertencimento, ou mais tecnicamente “de identificação” ainda demoraria mais de um século para se consolidar em termos nacionais. De 1822 até a Revolução de 1930 – capitaneada por Getúlio Vargas – prevaleceu o sentimento de fragmentação, de regionalismos acima da “nacionalidade”. Não é acidental que os governos de Getúlio Vargas (1930-1945 e 1950-1954) tenham investido tanto na construção de símbolos nacionais, de imagens, personagens, sons, cores, sabores, que paulatinamente foram se consolidando como “elementos da identidade brasileira”.

Oras, o Barroco – tido como o ápice da arte brasileira – não é difundido por todo o território, nem é uniforme, mas o barroco “mineiro” passou a ser a “arte nacional” por excelência. O samba carioca não é o mesmo do da Bahia, nem mesmo dos ritmos que lhe deram origem e sobrevivem nas MInas Gerais, no Vale do Paraíba, em tantas outras regiões, mas, mesmo assim, ele se tornou “o ritmo nacional”. E assim com outros tantos elementos.

Tal era esse sentimento paradoxal de pertencimento e descolamento que um dos pilares do movimento modernista no Brasil – tanto o paulista quanto o pernambucano – foi o que se chamou de “redescoberta do Brasil”, e isso nos anos de 1920!!

O modernismo paulista assentado na idéia de modernização, de antropofagia cultural, de assimilação dos estrangeirismos sobre uma base profunda, enraizada no passado e na formação de uma suposta “cultura brasileira” (assim mesmo, no singular). O modernismo de Pernambuco, do qual Gilberto Freyre era um dos avatares, também buscando essa raíz cultural, mas negando ou recusando a assimilação de qualquer herança cultural que não fosse a portuguesa, a indígena ou a africana. Por isso Freyre defendia que em Pernambuco se consolidara a mescla mais equilibrada, mais “doce”, da melangé cultural (o famoso “mito das três raças”), mas, é claro, sempre direcionada, condicionada, tutelada pela presença da cultura portuguesa.

Talvez por conta desse longo histórico – e ainda mais pela disposição do brasileiro em se questionar em sua identidade, coisa que outros povos fazem com menor disposição, embora tenham histórias de formação tão cheias de meandros quanto a nossa – a intelectualidade brasileira insista em fazer recorrentes “redescobertas do Brasil”, como se houvesse um pais, um povo, ou uma cultura a ser “desvelada”.

No final das contas aprendi ao longo de anos de trabalho com as populações dos mais inusitados rincões do Brasil que “descobrir” ou “redescobrir” são questões de intelectuais, problemas de acadêmicos, que destoam das certezas, ou do pragmatismo, que impera na população comum. Eles não se questionam a respeito da “origem” ou do “ser” brasileiro, simplesmente tem arraigado profundamente essa noção de pertencimento, de berço, e praticam cotidianamente, com sua multiplicidade cultural inerente, as multiplas formas de ser brasileiro.

Aos que não vivem com eles, ou não vivem assim, fica a questão: “Pãos ou Pães é uma questão de opinães.”

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da América Latina, História da cultura, História do Brasil Tags: , , , ,
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