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09/11/2008 - 07:00

Sobre a carreira de historiador

Fim de ano é sempre assim: milhares e milhares de jovens tendo que decidir “na boca do caixa”, como diria um antigo professor meu, as carreiras que seguirão, ou que, pelo menos tentarão seguir.

É claro que o vestibular não é uma opção definitiva na vida de ninguém, mas creio que ninguém também quer passar um ou dois anos estudando e descobrir que não era nada daquilo que imaginava. De modo geral penso que prestar o vestibular um ou dois anos mais velho pode ser bem positivo, experienciar o trabalho, outras possibilidades depois do término do ensino médio pode ser um fator decisivo na hora de escolher melhor a profissão. Não é uma regra, mas penso que ajuda bastante.

De qualquer modo os jovens hoje são levados a ver a universidade como a seqüência obvia e imediata de sua formação. É como se fosse um novo grau depois da conclusão do ensino médio. Não é, e quanto mais claro o ingressante souber disso melhor para ele.

Os dois níveis anteriores de ensino, o fundamental e o médio, têm perfis de formação universal, são bastante tutelares, o aluno é conduzido pelos professores e outros educadores. Também tem um caráter disciplinar mais profundo do que a universidade.

Na maioria dos cursos superiores o professor não está preocupado se você está matando aula, copiando os trabalhos do companheiro ou chegando no horário. Se fora da sala de aula você se meter em encrenca, quase sempre, o problema será somente seu e de quem mais se envolver.

Tudo isso tem um sentido: na vida de adulto você é responsável pelos seus atos e responde por eles. Se estudar se dará bem, se for responsável idem. Mas, se por algum acaso, tentar enganar pode ser bem sucedido por algum tempo, mas inevitavelmente se dará mal. Você será cobrado como profissional, não como aluno ou filho. C’est la vie.

Milhares destes jovens procuraram o curso de história em infinitas universidades pelo Brasil todo – entre eles alguns ex-alunos meus dos quais me orgulho pacas. Então acho bacana compartilhar alguma coisa com quem vai encarar quatro anos, pelo menos, de formação para se tornar historiador ou historiadora e ter que pagar o leitinho das crianças com o suor de seu rosto.

Sempre fui muito honesto e sincero com meus alunos e também serei aqui, pois estamos lidando com vida de pessoas que ainda terão muitos anos pela frente. Falar bobagem ou se equivocar a respeito dos mortos é uma coisa, fazer o mesmo com relação aos vivos, e aos bem vivos, é outra bem diferente.

A primeira coisa que se deve perceber é que os cursos de ciências humanas e sociais são muitas vezes procurados por serem menos disputados. Se esta é sua motivação, meu amigo e minha amiga, repense sua decisão. São cursos menos disputados para entrar, mas difíceis de serem concluídos, exigem muita dedicação e se quiser ser um profissional bem sucedido terá de esforçar bastante, abdicando muitas vezes de prazeres banais, como sair com amigos, namorados e namoradas, dormir um pouquinho mais.

Se escolheu história não basta, para ser historiador, gostar de história. Muitos tiveram professores bacanas, críticos, ágeis, jovens, mas trabalhar como historiador, ou como professor de história, é bem diferente de falar mal do mundo e pregar a revolução, isso é um equívoco comum.

O historiador formado terá algumas opções de trabalho, todas bastante exigentes.

A carreira mais comum, que abriga ainda 90% ou mais dos formados, é a educação. Para ser professor do ensino fundamental ou médio o formado terá que fazer também a licenciatura (a não ser que seu curso seja já de licenciatura e não de bacharelado). Para ser professor de cursos especiais – como pré-vestibulares, para concursos e afins – não se exige a licenciatura. Para ser professor do ensino superior é necessário, ao menos, fazer uma pós-graduação e obter o título de mestre.

Neste último caso, o do ensino superior, os historiadores podem trabalhar em duas frentes diferentes: uma delas é dando aulas para alunos que se formarão em áreas distintas (direito, psicologia, pedagogia, ciências sociais, artes, etc.), a outra é dando aula para futuros historiadores e professores de história. Neste caso, se for em universidades públicas e algumas privadas, terá de dividir seu tempo entre a sala de aula, a pesquisa, a orientação de novos historiadores nos programas de pós-graduação ou em atividades burocráticas.

Uma das grandes demandas que temos é de historiadores que tenham perfil de administradores ou gestores. Ou seja, que entendam tanto de administração de museus, arquivos, projetos culturais, editoras, quanto entendem de história. O acadêmico brasileiro ainda resiste muito em aprender coisas que considera “fora de sua área de atuação”.

É justamente nessa segunda área que reside um mercado crescente, ainda que em menor velocidade do que gostaríamos. Trabalhar com museologia (desenhando e montando exposições), com arquivística (organizando arquivos públicos e privados, pesquisando e difundindo materiais que residem nos arquivos), com editoras (coordenando coleções, traduzindo livros, fazendo revisões técnicas de livros da área de especialização), com produção cultural (sendo consultor em projetos para a televisão, cinema, exposições, etc.) são opções que cresceram muito desde que eu entrei na área de história há mais de dez anos.

Existe ainda a demanda para profissionais na área de arqueologia e licenciamento ambiental, na qual os historiadores trabalham majoritariamente com o patrimônio cultural, ajudando a identificar, proteger, restaurar, promover o patrimônio.
É claro que cada uma dessas áreas possui necessidades específicas, perfis de seus trabalhadores: para umas é necessário o gosto pelo campo, pelas viagens (como na arqueologia), noutras o gosto pelas bibliotecas e arquivos, ou uma criatividade efervescente (como nas áreas de produção cultural).

Acredito seriamente que a formação do historiador é uma das mais universais possíveis e oferece qualidades fundamentais à profissionais que irão atuar nas mais diferentes áreas, mas, como em todas as profissões, nada cai do céu, portanto exige-se muito estudo e dedicação, um perfil constantemente ativo e pró-ativo, somado a capacidade analítica, sem dúvida encontrará trabalho em várias dessas áreas.

No mais o historiador aprende ao longo do curso a analisar situações (para compreender processos históricos), pessoas e a emitir opiniões críticas e propositivas a respeito de cada um dos temas que estuda, manifestando isso verbalmente ou através da escrita, sem contar o desenvolvimento de sua habilidade com a escrita. Ou seja, fundamentos desejáveis em muitos campos de atuação.

Mas há uma questão crucial: se não gosta de ler e escrever o curso e a carreira de história não são as melhores opções para ti. Terá de ler diariamente até 50, 70 páginas e escrever frenéticamente ao longo do curso e da vida profissional.

Seja como for, pelo menos dez ex-alunos meus (sim, até 2003 dei aulas), ingressaram na carreira de história ou estão tentando ingressar agora, outros tantos foram para carreiras correlatas (como ciências sociais, artes e geografia), o que significa que, mesmo mostrando as dificuldades da carreira (como em qualquer outra) optaram por ela.

A última informação que penso ser útil: escolha sua profissão pelo coração e não pelo bolso. Profissional bem remunerado é profissional bom, e para ser bom é necessário amar o que faz. Se, todos os dias da vida, tiver de levantar para o trabalho como quem vai à cadeira elétrica, será um mal profissional e certamente será mal remunerado, além de ganhar uma úlcera nervosa de brinde.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história, Sem categoria Tags: , , ,
15/10/2008 - 07:04

Você trabalha ou só dá aulas?

Não, a pergunta não é fictícia não, amigo meu, professor universitário de sociologia ouviu tal questão há alguns meses.

Uma aluna, no meio de um bate papo semi-informal, atirou essa a queima roupa na direção do pobre lente.

Antes que desistam de ler esse texto já vou visando: não vou fazer nenhuma reclamação chorosa da situação atual do professorado, com cheiro de naftalina (sempre há alguém que diz: Porque quando eu era aluno meu professor era meu herói!!).

Bom, o mundo mudou, como sempre aconteceu desde o início dos tempos, e os lugares da educação e do educador também mudaram.

Muita gente analisou a “crise” da educação brasileira como uma crise de sucateamento, parte de um plano maquiavélico para desgraçar definitivamente a vida de quem não pode pagar a conta de um colégio particular.

Fui professor durante bons anos (pelo menos uns cinco), embora menos do que muitos que estão na profissão há dez, vinte anos. Mas foi tempo suficiente para ver algumas coisas.

Dei aula para todas as séries, tanto do médio quanto do fundamental, e jamais tive problemas com alunos, senão pontualmente. Mas isso é inerente da vida em sociedade, basta lembrarmos de quantas pessoas não gostamos e quantas não gostam de nós.

As infindáveis queixas a respeito da disciplina dos alunos jamais fizeram muito sentido para mim. Comecei então a perceber que boa parte de meus colegas não conseguiam ver algumas coisas.

Sim, o salário era ruim, as condições de trabalho também poderiam ser muito melhores, mas boa parte dos problemas ocorria porque não se davam conta de que o mundo mudou.

A educação passou por tranbsformações radicais ao longo da história. Apenas para começar, a alfabetização somente se tornou um direito/dever há uns duzentos anos na Europa e menos de cem no Brasil.

Durante a Idade Média, quase que apenas os membros da Igreja Católica eram capazes de ler e escrever. Carlos Magno, o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, mal conseguia desenhar seu nome.

Com o passar do tempo a educação se tornou também uma obrigação na formação dos nobres, mas isso ocorreu em tempos bem recentes em termos de história.

No Egito os escribas, os homens habilitados ao uso da escrita, detinham um poder fantástico no seio da sociedade. Entre os gregos do período clássico – o dos grandes filósofos, ó apogeu da polis grega, no século V a.C. aproximadamente – a escrita engatinhava e a educação formal diferia muito de cidade estado para outra. Para os espartanos a educação devia ser eminentemente física, para a guerra, entre os atenienses privilegiava-se a capacidade de exercer a cidadania (reservada somente a parte da população), o que exigia conhecimentos de política, retórica, filosofia.

A idéia de que todo cidadão deve saber ler e escrever, dominar conhecimentos básicos sobre uma imensidão de assuntos é coisa muito recente e acompanhou a difusão da tecnologia da escrita e a crescente normatização e burocratização do Estado.

Se no mundo grego – em Atenas – ser cidadão era ser livre, homem, adulto, ateniense de nascimento, no mundo após a Revolução Francesa a educação – ferramenta para a vida política – passou a ser necessidade absoluta. E isso, obviamente, exigiu uma mudança na concepção da “cidadania”.

Portanto, numa história de 2500 anos, desde o início da difusão da escrita no Ocidente, apenas há uns 200 anos passamos a ver a educação como algo que deve ser proporcionado a todos.

Nosso pais e avós nasceram e se formaram num mundo em que a educação ainda não era universal, era privilegio, talvez venha dai o enorme respeito que tinham para com alguns professores.

Alguns, pois basta ver algum relado a respeito das escolas inglesas do século XIX para ver as barbaridades que os alunos cometiam. Até as primeiras décadas do século XX as crianças podiam fumar dentro das escolas, como é perceptível na leitura do livro do educador Alexander Neil.

Ao longo dos séculos XIX e XX a educação passou também a contemplar cada vez mais a necessidade de profissionalizar os jovens, uma demanda das Revoluções Industriais e seus desdobramentos.

Diante dessa demanda, com a queda das monarquias, o estabelecimento de governos constitucionais, a ampliação da cidadania para boa parte das populações e a explosão tecnológica das Revoluções Industriais os Estados Nacionais tiveram de regulamentar a educação formal, e chamar para si a responsabilidade. Não foi por simples bondade que a educação se universalizou, ela também foi um fruto decorrente do que Eric Hobsbawm chamou de “a dupla revolução”.

Hoje passamos novamente por uma transformação na educação, não apenas de valoração, mas cultural e cognitiva. Ou seja, nossos jovens vêem a educação de um modo diferente e apreendem de modo diferente. Seus hábitos de leitura, visualização, comunicação, expressão são significativamente diferentes de qualquer outra época da humanidade.

Talvez por isso alguns educadores estejam se dando tão bem, pois adotaram linguagem contemporâneas também para a educação.

É claro que isso tem sérias consequências se não for bem administrado, mas o que vemos não é uma crise da educação, mas uma crise cultural. Os professores, que continuarão a existir e serão cada vez mais importantes num mundo onde o conhecimento é cada vez mais ferramenta de poder e de transformação social, deverão acompanhar essa mudança, sob o risco de ficarem calvos e infartados cada vez mais jovens.

Ainda em tempo: não deixei de ser professor, deixei de dar aulas. E deixei de dar aulas por um profundo desgosto com o sistema educacional, não por qualquer desgosto com os alunos ou com a educação.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história Tags: , ,
20/07/2008 - 10:49

Entre a história acontecimento e a história interpretação

Algumas discussões ocorridas neste espaço ao longo de sua existência acabaram por me levar a uma indagação: o que elas teriam em comum, ainda que envolvendo assuntos tão distintos como imigração, Revoluções, lugares pelo Brasil a fora ou mesmo a rotina do viajante?

Cheguei a uma possibilidade de entendimento que, em verdade, abre uma discussão a respeito das relações entre ciência, fé e verdade e o papel da história dentro desse universo de relações.

Parte significativa dos problemas envolvidos aqui começam no sistema educacional. Infelizmente isso não é uma exclusividade brasileira, ou de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma pesquisa, realizada há alguns anos, demonstrava que parte significativa da população dos Estados Unidos não sabia que era a terra que girava ao redor do sol e não vice-versa. Os alunos normais franceses sabem menos a respeito da Revolução Francesa do que alunos de outros países.

O físico Carl Sagan, quando escreveu O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, denunciava isso: uma comunidade global que não conseguia se relacionar com a ciência a disposição.

É claro, a ciência NÂO é uma VERDADE ABSOLUTA, a proposta dela é justamente o contrário, é se colocar a prova o tempo todo. Uma interpretação científica somente sobrevive a medida em que, colocada a prova, consiga se sustentar. Se um pedaço de pão escapa da minha mão e não cai, em condições normais, então deveremos rever os príncios de Isaac Newton a respeito da Lei da Gravitação. Como isso não acontece continuamos a achar as idéias newtonianas boas, pelo menos para nosso cotidiano imediato.

Existem cientistas radicais, quase fundamentalistas, como o biólogo Richard Dawkins que acha que qualquer pensamento que não seja o científico é sinal de ignorância e delírio. Não creio que seja assim, e não creio que seja a opinião mais corrente mesmo entre cientistas.

Se preciso tomar uma decisão tecnica, médica, jurídica, vou me ater a ciência. Quero uma opinião científica sobre se devo me operar ou não, se devo trocar o freio do meu carro, se devo e posso processar quem me caluniou, mas posso conviver achando que há mais do que isso por trás. São Tomás de Aquino dizia que a ciência fortalece a fé e não a nega.

Mas com a história as coisas parecem ainda mais complicadas, pois as pessoas – a maioria pelo menos – pensa que a história seja ou algo objetivo (como imaginam que a ciência seja) ou algo absolutamente subjetivo (como são as “histórias”, as quais cada um tem uma). Entre os dois extremos a história fica num terreno de ninguém, sob pesada fuzilaria.

Uma consideração de Dráusio Varela ao final do Estação Carandiru me parece ser interessante, dizia ele, sobre o massacre dos 111 presos no presídio: existe a “verdade” dos presos, a da polícia e a Deus, dessas só tive acesso à dos presos.

Uma das dimensões que quem trabalha com história tem que trabalhar constantemente é justamente a que nos diz que a verdade do “fato”, do “ocorrido”, jamais nos será entregue, se é que ela existe. Além do mais, a “verdade” a respeito de algo é a de quem invadiu ou de quem foi invadido? De quem venceu ou de quem perdeu? De quem dirigia uma reunião ou de quem servia café naquele dia?

Essa margem de discussão, entre as versões a respeito de algo, não comporta a desonestidade, a ética de quem pesquisa e escreve. Mesmo que aquilo que chamamos de “verdade” seja uma convenção ela precisa funcionar, precisa se submeter a prova. Não posso dizer que Fernando Collor de Mello não renunciou à presidência da República após a abertura de um processo no Congresso contra ele, acusando-o de práticas ilícitas e pedindo sua cassação. Isto é uma “verdade” consensual. Geralmente as disputas na história e nas ciências em geral se dão nas filigranas do fato e não nele em si.

Collor foi vítima de uma conspiração? Ele realmente era culpado? Derrubaram ele por motivos obscuros os quais nem sequer sabemos? Isso tudo é passível de discussão, mediante a apresentação de provas.

Nisso a história é igual às demais ciências: toda interpretação depende de ser colocada a prova para ser aceita. Uma interpretação aceita se mantém enquanto outra melhor não surgir. E a cada dia que passa essas interpretações são postas a prova, e a medida em que não dão mais conta do recado vão decaíndo, até desaparecerem, num processo longo. Até mesmo porque idéias que caíram podem sobreviver durante muito tempo em grupos específicos, ou mesmo na maioria, quando as academias, onde se produz parte do conhecimento científico, não fazem sua obrigação que é a de interagir com a sociedade.

Eu sei, todo esse processo pode parecer complicado, mas também é divertido, e necessário.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história Tags: , , ,
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