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20/10/2009 - 07:12

Para onde vai a carreira do(a) historiador(a)?

Já está se transformando numa tradição: todos os anos, quando chega o período pré-vestibular, acabo fazendo um balanço da carreira de história, da formação dos novos historiadores e do mercado de trabalho. De certa forma vejo isso como um “conselho de colega de profissão” aos milhares de candidatos que tentarão ingressar nos diversos cursos de história espalhados pelo Brasil.

 

A carreira ainda se divide em duas grandes “especializações”: o bacharelado, voltado para a formação de pesquisadores e, posteriormente, de professores do ensino superior e a “licenciatura”, destinada aos que pretendem se tornar educadores dos ensinos fundamental e médio.

No caso da licenciatura a situação é relativamente mais simples por um lado, e mais complexa por outro: as transformações pela qual o ensino de história nos niveis fundamental e médio vem passando acompanham a transformação do ensino em geral. No caso específico do ensino de história cada vez mais se valoriza a formação reflexiva, investigativa e crítica ao invés da conhecida insistência no “conteúdo”. É claro que isso não significa que os novos educadores possam desprezar o conteúdo simplesmente, mas ele deixa de ser o objetivo para ser o “meio”, o veículo através do qual os alunos são convidados a pesquisar e criticar (no sentido de “discernir”, “refletir” e não de “falar mal”) a trajetória dos grupos humanos ao longo do tempo.

Para isso o educador tem cada vez mais que dominar o uso de diversos suportes ou ferramentas pedagógicas: música, cinema, iconografia, recursos digitais, etc. Além do mais, exige-se também a disposição para dialogar com jovens que estão sendo alfabetizados e aprendedno a se relacionar com o conhecimento de um modo profundamente diverso daquele que se empregou até hoje, graças, em grande medida, a difusão das novas tecnologias da informação.

Em resumo isso significa que o grande desafio do ensino atual, e para o futuro imediato, será conciliar a formação necessária e desejável com um mundo de informação extremamente mutante e de uma rapidez inimaginável. Crianças e jovens que se alfabetizaram pela internet antes mesmo de aprender formalmente o B-A-BA.

Além disso o educador terá de se defrontar com a permanente disputa entre autonomia e liberdade dos alunos, entre responsabilidade e maturidade, desafios que tornam as salas de aula num espaço nem sempre pacífico.

Para os que não pretendem passar pelas salas de aula e buscam cursar o bacharelado em história os desafios são de outra ordem e não desprezíveis.

No Brasil criou-se a cultura de que o historiador – bem como parte significativa dos cientistas sociais – não tem um papel prático, pragmático, produtivo no cotidiano da sociedade. Os historiadores se contentaram – boa parte deles, jamais todos, é claro – em comodamente dizer que seu papel era o de “criticar a sociedade”, numa argumentação também cheia de arrogância.

A consequência disso foi que, enquanto os cursos de história se multiplicaram pelo país, o mercado de trabalho para os bacharéis, mestres e doutores em história cresceu proporcionalmente. Quando ingressei no curso de história da Universidade de São Paulo, no final dos anos de 1990, um concurso para professor do Departamento contava com três ou quatro candidatos em média. Hoje os concursos chegam a ter quase vinte candidatos, quando não superam esse número.

O que isso significa?

Cada professor dos cursos com programas de Pós-Graduação stricto sensu (os que atribuem títulos de Mestre e Doutor) orientam vários alunos, até dez ao mesmo tempo. Entre mestrado e doutorado – requisitos exigidos na maioria dos concursos para professor de ensino superior em universidades públicas – o aluno passa cerca de seis ou sete anos estudando antes de ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, a cada sete anos em média temos um crescimento de – por muito pouco – 300 ou 400% de novos mestres e doutores aptos a concorrerem a vagas de professores em universidades.

É claro que a abertura de novos cursos jamais poderá acompanhar tal oferta de profissionais. Ao mesmo tempo os professores não podem recusar novos orientados de pós-graduação pois isso faz parte das suas obrigações enquando docente de uma universidade pública.

O resultado é que hoje o sistema de reposição dos quadros de historiadores dedicados ao ensino superior se degradou terrivelmente e beira o colapso.

Obviamente que nem todos mestres e doutores se tornarão professores universitários, mas as demais possibilidades “tradicionais” de trabalho para os historiadores (em museus, arquivos, centros de pesquisa, etc.) também não acompanhou o crescimento  da oferta de profissionais.

Parte significativa da responsabilidade dessa situação deve-se a própria categoria, que com uma falta de objetividade incrível, sequer conseguiu regulamentar a profissão, o que significa que não existem atribuições exclusivas ao historiador (como nas áreas de restaura de patrimônio, estudo do mesmo, redação de livros didáticos de história, etc.) determinadas por lei.

Mas, apesar do cenário pouco animador, acredito na incrível capacidade do ser humano de se reinventar e solucionar na prática o que falta na estrutura júrica ou burocrática.

Com isso vemos cada vez mais historiadores ocupando espaços em áreas diversas: atividades relacionadas a proteção e gestão do patrimônio cultural, cinema, teatro, jornalismo, produção cultural, consultorias específicas, até mesmo escrevendo novelas e desenhando enredos de escolas de samba.

Há quem veja a dedicação do historiador à essas atividades como algo “aviltante” (como vi certa vez uma professora aposentada da USP dizer). Eu, da minha parte, vejo nessas atividades o futuro da profissão.

Não vejo esse futuro apenas como uma opção de mercado de trabalho, mas como um encontro esperado há séculos entre o historiador e a sociedade, entre o formado e aquela que lhe custeou a formação, como ocorre em tantas outras áreas.

Contudo, isso exige do formando uma mudança de atitude e de perspectiva diante da carreira e da própria vida. Atuar no cotidiano da sociedade, e não apenas dentro dos muros das universidades, implica em ter que refletir sobre a dimensão ética de seu trabalho, de suas escolhas, responder pelas suas opções, se envolver diretamente em debates, disputas, como ocorre com as demais profissões – e que, para o licenciado em história sempre foi algo muito mais familiar do que para o bacharel.

Isso exige também que os formandos estejam aptos a dialogar com outras disciplinas, com profissionais que tenham formações radicalmente diversas como um engenheiro, um administrador, um biólogo, que estejam aptos a trabalhar em equipes multidisciplinares e se ver como um membro de um “time” e não como uma “Diva”, tal como a formação clássica insinua.

Em suma, vejo um cenário desafiador para os(as) novos(as) historiadores(as), o que é bom (para quem gosta de desafios, de “construir soluções”). E é bom também porque o(a) novo(a) historiador(a) terá que ser, antes de tudo, um(a) “cientista cidadão(ã)”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história Tags: , , , , , , ,
19/07/2009 - 07:05

Marshall Berman volta a cena com livro de “memórias históricas”

Aqui, no Brasil, temos pouca tradição de leitura de historiadores estadosunidenses, o que se justifica, em parte, pelo fato de nossos cursos de humanidades terem se formado a partir das escolas européias, sobretudo a francesa, a qual se manteve – e mantém em alguma medida – distante ou em oposição as escolas do mundo anglófono. Os textos dos historiadores dos EUA – é bem verdade – tem formas bastante distintas daquelas com as quais estamos mais acostumados, e isso colabora para que poucos deles sejam conhecidos e lidos entre historiadores brasileiros.

 

Há também – ainda – um ranço ideológico, construído durante os anos de ditadura no Brasil e de intervencionismo estadosunidense, no mundo todo, e que foi re-alimentado em tempos recentes pelas políticas internacionais de Bush I e Bush II.

Mas Marshall Berman tornou-se uma exceção quando a difusão dos autores dos EUA era ainda mais restrita, nos anos de 1990.

Seu livro de estréia por estas bandas, o qual garantiu um lugar de respeito num meio bastante hostil, discorria deliciosamente sobre o que chamou de “aventura da modernidade“. Tudo que é sólido desmancha no ar tomava não apenas o trecho famoso do texto de Karl Marx, mas o sentido “moderno” do pensamento marxista em sua origem, o sentido libertário, e da liberdade compreendida como moderna, vanguardista.

Tornou-se bibliografia essencial de quase todos os cursos de história e ciências sociais das universidades brasileiras, sendo metralhado quase que exclusivamente por professores mais ”fundamentalistas”, confortáveis com textos de autores oriundos do bloco soviético.

Eu fiz um caminho inverso, pois embora conhecesse de “orelha” o livro famoso de Berman comecei por outro livrinho simpático seu: Aventuras no marxismo. Coletânea de ensaios do historiador no qual – com singular leveza – mesclava suas experiências pessoais com história e uma fina investigação do cotidiano.

Depois da leitura desse livro fui ao Tudo que é sólido… o qual consolidou minha opinião a respeito de Berman.

É claro que alguns traços da biografia do autor concorreram para essa habilidade em escrever sobre temas duros de modo sutil, divertido, compartilhando com o leitor suas conclusões como se fossem amigos de bar, confidenciando idéias, teorias, interpretações.

Berman nasceu no Bronx, em Nova Iorque, filho de família judia que tinha um pequeno negócio em Times Square. Contudo, quando sequer havia chegado aos quinze anos, seu pai faleceu de um infarto fulminante e o restante de sua adolescência foi invadido por obrigações de adulto. Entrou na universidade e estudou com Isaiah Berlin, outro dos raros historiadores dos EUA a conseguir penetrar no restrito círculo acadêmico europeu.

Berman fez sua carreira ao longo dos anos da Guerra Fria, entre as tensões da Guerra do Vietnã, o conflito com Cuba e a luta pelos direitos civis no sul dos EUA. Sempre foi um libertário e sente-se um novaiorquino em sua essência.

Para muitos acadêmicos isso que tomo como virtudes de sua escrita – compreensíveis para seu histórico pessoal – são vícios imperdoáveis, oriundos de uma “falta de consistência”, de “rigor”, enfim, um estilo “ensaístico que não merece ser levado a sério.

Berman, depois de algum tempo distante da prateleira de lançamentos das livrarias brasileiras, ressurge com outro livro delicioso, no qual a micro história – a dele e de figuras particulares – se mistura, imbrica, com a macro história – a de Times Square e da própria cidade de Nova Iorque.

Um século em Nova Yorque, espetáculos em Times Square   é um livro semelhante a Aventuras no marxismo, mas diverso pelo fato de ter um fio condutor que o conduz através do conjunto de textos escritos ao longo de sua vida. Todos eles retomam a história de Times Square, uma das ruas mais famosas do mundo e um dos símbolos de Nova Iorque e dos Estados Unidos, mas sempre a partir de aspectos inusitados, que revelam os bastidores do século que foi chamado de “Americano” (o século XX).

Fotografias de anônimos, propagandas de jornal, publicidades, as luzes da Broadway, as casas comerciais, mega corporações, familiares vão se sucedendo ao longo desse século e iluminando os sentidos daquele lugar, oferecendo a percepção dos “porquês” de Times ser um símbolo da modernidade, inclusive em suas contradições, as quais podem conter o sentimento libertário de artistas e militantes com a tentativa de controle das ruas, do espaço “público”, por empresas como a Disney.

Em verdade – como o autor mesmo reconhece – é uma viagem às suas memórias, particulares, familiares, lembranças recolhidas ao longo de sua vida e que, agora, tomam uma dimensão histórica a medida que elas revelam “de dentro” a trajetória de milhões de pessoas que no decorrer de um século passaram pelo coração de Nova Iorque. Fazendo negócios, indo aos espetáculos ou, simplesmente, como seus pais, “tomando um banho de luzes” na luminosa Times Square.

Novamente Berman nos traz um livro que materializa uma das idéias centrais do historiador francês Marc Bloch (morto durante a II Guerra Mundial): Se não houvesse nenhuma outra utilidade para a história ainda restaria o fato de que é uma ótima diversão. Em suma: se não houvessem outros motivos, a leitura do livro de Berman valeria pelo puro prazer que proporciona.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea Tags: , , , , ,
15/05/2009 - 07:26

O direito ao esquecimento

Uma das afirmações que mais ouvimos a respeito da sociedade brasileira é que somos um país sem memória. Isso, na realidade, me parece que até diminuiu um tanto nos últimos anos – a afirmação constante de nossa suposta ausência de memória -, mas continua a ser bastante dita, ou insinuada.

 

Tanto quanto a afirmação de que não temos memória é insistente a afirmação de que o Brasil despreza sua história, que não tratamos como devemos nosso patrimônio, etc., etc.  É claro que aí há uma mistura, certa confusão, entre o que é história e o que é memória e do quanto as duas estão imbricadas, mas operam de modos distintos e com funções específicas. Desse tema, aliás, tratei inúmeras vezes aqui.

Há uns dois anos eu fazia um curso de gestão de patrimônio cultural quando numa das aulas o arquiteto/professor relatou uma história curiosa: numa certa cidade do sul do Brasil, para a qual ele prestava consultoria na elaboração de seu plano diretor, a população desejava que uma antiga mina da cidade, já desativada, fosse aterrada e sobre ela criado um parque público. O arquiteto achou isso um horror, um atentado contra a história coletiva, contra a memória, contra o passado de gerações de trabalhadores de lá. Propôs que, ao invés de ser aterrada, a mina fosse transformada num espaço de memória, um museu cênico, ao ar livre. A população recusou.

Na aula o arquiteto continuava a manifestar sua indignação diante de tal “barbárie”, exemplo da “ausência” ou “desprezo” pela memória e pela história características da sociedade brasileira.

Eu, que trabalho cotidianamente com isso, e que tenho como obrigação transitar por entre as populações e mediar os interesses e desejos de grupos diversos noq ue toca a questão do patrimônio cultural, tive de discordar do “Caro colega”.

Não é somente no Brasil que há um “partido da memória”, muito ativo, muito militante, composto por todo tipo de pessoa que defende a preservação da memória a qualquer custo, e quase sem critérios. Nos países europeus, no Japão, no Oriente Médio, sempre há um grupo defendendo a “preservação da memória”, mesmo que sem refletir muito a respeito disso.

Com frequencia me pergunto: Se a memória é constituida em um processo social, que envolve dimensões pessoais e coletivas, mas que depende profundamente do equipamento “cérebro” (e hoje, talvez, até de outras partes do corpo, como as pesquisas vêm indicando), como é possível deliberar-se assim tão pragmaticamente, objetivamente sobre a “preservação da memória”?

Em geral as pessoas confundem a preservação do patrimônio histórico, cultural, artístico, paisagístico, etc, etc, com “preservar a memória”. Proteger esses “marcos” não implica necessariamente que alguma memória seja preservada, afinal das contas as memórias existem somente enquanto as sociedades vivem, e morrem com elas. Sem os humanos não há memória alguma. Portanto, preservar um prédio, uma praça, uma mina não significa que há alguma garantia de que uma suposta memória daquilo será guardada.

Mas também há o problema da plasticidade das memórias. Faça um teste “caseiro” e pergunte aos presentes de uma festa de um ano atrás o que cada um se lembra dela, quais sensações sentiu, como as pessoas estavam vestidas. Invariavelmente “Tia Fulana” estava agradável, linda e feliz para uns e “reservada, triste, chata como sempre” para outros, e isso não é algo verificável, não é um dado objetivo, é uma “percepção” a respeito de algo, que é seletiva e filtrada pela própria pessoa que guarda a informação em sua memória.

Contudo, e apesar dessas “questões menores”, não foram esses os temas da minha contraposição às colocações do arquiteto/professor.

Para isso vou lembrar (para usar um termo adequado a esse tema) uma história batida de um conto de Jorge Luis Borges (batido é o uso do conto, não o conto do genial Borges em si…antes que algum argentino me acuse de ser “despeitado”). Borges escreveu um conto chamado “Funes, o memorioso”, a respeito de um cidadão que tinha uma memória impressionante, capaz de guardar todos os detalhes de tudo que já havia visto na vida. Lembrava-se de expressões de rosto de pessoas, de detalhes de cada folha de árvore, de cada fala, e isso era um verdadeiro pesadelo. O fato é que tão ocupado com o “lembrar-se” não sobrava tempo, nem disposição, para as outras atividades cerebrais, como a de “criar”. No mais, desconfiava-se que Funes fosse mesmo pouco dotado de inteligência.

Vejo as sociedades como “Funes coletivos”, e sua capacidade de sobrevivência, de criação, de existência cotidiana, depende dos graus com os quais mesclam lembranças e esquecimentos. Se não fossemos capazes de esquecer estaríamos muito provavelmente ainda cortando animais caçados com lâminas de pedra lascada.

Diante disso disse ao arquiteto que se as pessoas da comunidade queriam “esquecer” sua mina, esse desejo deveria ser respeitado, e ainda mais por ele que nada tinha a ver com a história. Um direito sonegado aos povos, aos grupos sociais, é o do “esquecimento”.

Esquecer-se é um ato necessário para a sobrevivência, o excesso de lembranças emperra a vida, gera recalques, ressentimentos (o “sentir novamente” e novamente, e novamente). Episódios dolorosos – guerras, surtos de doenças, tragédias naturais – não devem ser “forçosamente esquecidas” pelo desejo de grupos políticos, mas também não precisam ser “obrigatoriamente lembradas” por setores isolados. Certamente, no caso da mina, muita dor envolveu a história das famílias locais e do trabalho de extração, o que provavelmente desencadeou o desejo de, literalmente, “enterrar o passado”.

Que direito temos nós de dizer que eles não podem esquecer algo de sua própria história?

É claro que isso é uma situação específica, e cada situação dispõe novas peças no tabuleiro. As vezes algumas sociedades querem apagar traços que lembrem a história de outras sociedades, como no caso da explosão dos Budas gigantes no Afeganistão pelos talebans.

E há casos ainda mais polêmicos, como a construção de um memorial ao Holocausto no centro de Berlin, o que é terrível para muitos alemães, ou a manutenção de antigos campos de concentração no leste europeu. Uns tem o direito de lembrar, mas outros também tem o direito de esquecer, senão partimos de uma premissa de que tudo que cada povo fez ao longo da história deve ser acumulado, armazenado, lembrado e levado ao tribunal do Juizo Final.

Por mais paradoxal que possa parecer, defendo hoje radicalmente o direito dos grupos humanos de decidir pela lembrança ou esquecimento de elementos de seu passado.

No final, não creio também que a sociedade brasileira seja ”sem memória” ou despreze a história. Tenho para comigo que a história é uma das ferramentas fundamentais para a existência das sociedades, pois é ela que – através da transmissão, geração a geração – nos dá os parâmetros pelos quais nos inserimos no mundo. Basta conversar com um caboclo, ou um sertanejo qualquer que verá o quanto conhece da história que lhe é importante: de seu local, de seu ofício, de sua família. Também verá que tem muita memória. Mas, muito provavelmente, desprezará ou nada conhecerá da chamada “história oficial”, cheia de nomes, eventos, datas, relações, pois essa, para ele, não faz a menor diferença.

E se solicitado a contar a sua história dirá, como muitas vezes ouvi: Eu não conheço nada de história.

Conhece sim, mas prendeu a vida toda que história é somente aquela que é contada nos colégios, ou aquela que o caso arquiteto quer manter a força sobre uma comunidade.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , ,
05/03/2009 - 08:36

Arqueologia como rotina e como modo de vida

Desde que fui trabalhar com arqueologia algumas coisas me chamam a atenção no comportamento dos arqueólogos enquanto grupo, enquanto “bando”.

 

É claro que são considerações de um historiador, uma visão parcialmente “de fora”, e, talvez, eles não concordem com algumas delas (talvez porque jamais “pensaram” a respeito delas).

Toda profissão tem sua cultura particular, um conjunto de elementos que formam e dão unidade ao “bando”, é algo bastante antropológico em verdade. É como a preocupação que médicos e advogados tem em serem chamados de “Doutores” sem jamais terem feito um doutorado, faz parte da cultura da profissão e ir contra ela implica em ser visto como alguém estranho. Quanto mais se rebele contra essas “tradições” das profissões menos te verão como um deles.

E isso acontece com todos os grupos humanos. Historiadores costumam alimentar um gosto particular por literatura, música e cinema. Não que escrevam bem, sejam bons músicos ou façam cinema, mas se ao conversar com outro historiador ele não conhecer nada dessas áreas certamente lhe olharão meio torto.

Com os arqueólogos ocorre a mesma coisa.

Escavando no sul de Minas Gerais, olho para o campo e vejo três figuras. De longe parecem versões mais ou menos gordinhas e com ligeiras diferenças de altura da mesma pessoa.

Rodolfo, Pedro e Vinícius. Rodolfo é geógrafo especializado em geomorfologia (o estudo da formação do relevo terrestre, dos marcos geográficos como montanhas, cordilheiras, rios, etc). Pedro, português, é historiador e antes de desembarcar em São Paulo passou uma temporada com sua esposa brasileira na terra natal dela, no nordeste. Vinicius, estudante de história do interior de São Paulo, já trabalhou com toda especie de arqueologia existente no Brasil, de pré-história a lixo industrial.

Rodolfo é um bonachão, tranquilo ao extremo, anda para lá e para cá com uma prancheta e um equipamento de GPS anotando dados do terreno e, sobretudo, em que pontos do terreno os objetos foram encontrados. No final das contas a responsabilidade de organizar tudo isso “espacialmente” é dele, bem como dizer ao restante do pessoal como aquele terreno se formou, o que ajuda e muito a saber mais sobre o grupo humano que produziu o material arqueológico escavado.

Pedro é o diretor da escavação. É o mais velho, tem lá seus trinta e poucos anos, e tão tranquilo quanto Rodolfo (ou Dorfo). É um sarrista a moda portuguesa, com muita sutileza. Muito sério no trabalho, mas capaz de tornar o convivio em algo mais suave, apesar da “brutalidade” do trabalho.

Vinicius, o terceiro, é um gozador em tempo integral. Tem seus vinte e muitos anos e o humor característico dos moradores do Vale do Paraíba em São Paulo. O tempo todo está tirando com a cara de alguém, pesquisador ou trabalhador assistente de escavação. Acentuou sua verve cômica trabalhando com braçais no centro oeste do Brasil.

Uma coisa que me impressionou desde o início é o quanto a arqueologia é um universo “masculino”. É claro que existem arqueólogas, muitas aliás, mas quando elas entram no trabalho de campo se estabelece um código de conduta, de comportamento, que é muito masculino. As brincadeiras, a forma de se relacionar, de falar, é tudo muito da cultura masculina. Nesse sentido a arqueologia me lembra muito a política, outro universo no qual prevalece uma cultura masculina.

Isso não tem nada a ver, vale lembrar, com machismo. As mulheres são respeitadas da mesma forma, tem as mesmas oportunidades, mas invariavelmente, as que sobrevivem no meio, se masculinizam no trato.

Os homens, por sua vez, se mantém numa eterna sensação de “juventude”, talvez acentuada pela impressão de que a vida é uma sucessão de viagens e escavações. Não é. A arqueologia feita nas universidades escava muito pouco, a grande maioria do tempo é gasta em laboratórios e bibliotecas. Mas na arqueologia de “contrato” ou de “salvamento”, aquela que é feita fora das universidades, é comum que um arqueólogo fique meses, as vezes anos, pulando de escavação em escavação.

Com isso formam uma tribo da qual já falei aqui. Todo mundo se conhece mais ou menos no meio e há, é claro, a cadeia alimentar do ramo, na qual se tem uma idéia de quem pode mais ou menos. Sobreviver a lei da selva, literalmente, não é nada fácil.

As três figuras parecidas – todos de roupa bege, de barba e bigode, de chapéu de palha na cabeça e óculos – são sobreviventes e conseguiram em grande medida se libertar dessa sensação de “eterna juventude”, se tornaram profissionais de verdade.

O risco dessa cultura da liberdade, da juventude experimentada eternamente, é que muitas vezes leva os ingressantes a se esquecerem que antes de qualquer coisa a arqueologia é uma profissão, que a arqueologia também é um ramo instável e que somente aqueles que possuem “planos” de carreira sólidos conseguem viver dela.

Não existe uma solução universal, mas há alguns princípios que configuram aqueles que ultrapassam a barreira da “arqueologia como curtição”. Ter planos paralelos que consigam completar ou se valer da arqueologia é uma boa estratégia.

Rodolfo é pesquisador de geomorfologia e usa a arqueologia para ter acesso a dados privilegiados. Pedro toca sua pesquisa pessoal paralela e se habilita para o ensino universitário. Vinicius é historiador e no aperto volta para a antiga área. Os três adoram a arqueologia e “vivem dela”, mas não vivem só dela.

Mas há o outro lado, mesmo entre os muito competentes. Há amigos meus que estão há cinco ou seis anos saltando de lá para cá, como ciganos. Isso cansa um dia. Você chega certo dia no quarto de um hotel qualquer, muitas vezes no meio do nada, e toma um “choque de realidade”.

Ai começa a fazer a contabilidade dos anos de arqueologia, e da própria vida: o que ganhou? o que perdeu? o que aprendeu valeu a pena?

E não vai consolar muito dizer, como o poeta, que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Chegar a conclusão de que nos ultimos anos sua vida tem sido uma incessante troca de companhias, longe da família, as vezes tendo perdido a namorada (o), o que é relativamente comum depois de tantos meses fora de casa, não é um resultado muito bom se não pensou nisso com alguma antecedência.

O retorno nem sempre é fácil, implica em recuperar relações deixadas como terreno baldio, com mato a crescer, retomar estudos. Muitos abandonam amargurados a arqueologia e a maldizem pro resto da vida, quando, na realidade, foram co-responsáveis pela situação toda.

Mais do que os riscos de acidentes em campo, animais perigosos, clima implacável, creio que o maior risco da arqueologia é seduzir como sereia espíritos ansiosos por experiências limite, e depois de muito tempo cobrar o preço por isso, que as vezes pode ser bastante caro.

Isso não é para soar desistimulante. A arqueologia é fantástica, as experiências são únicas e enriquecedoras, tudo é muito sedutor. O necessário é saber do preço que se cobra por isso e buscar uma visão mais realista, mais responsável com relação a própria vida.

Como diz um ditado popular: Todo mundo vê as pingas que tomo, mas não os tombos que levo.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história Tags: , , ,
02/03/2009 - 11:50

Escravos nas cidades

Nestes dias estava pensando em escrever algo a respeito do nascimento da cidade do Rio de Janeiro, mas, sinceramente, não tinha muito mais a acrescentar a respeito. E, além do mais, não sou um profundo conhecedor desse aspecto do surgimento da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Contudo, há outro aspecto que acho dos mais fascinantes a respeito da história das cidades brasileiras, e do Rio de Janeiro em especial.

 

Muitos de nós, quando fizemos nossos cursos de história na escola ao termos aulas a respeito do escravismo no Brasil (tanto enquanto colonia de Portugal quanto Império independente) associamos o trabalho escravo às lavouras, ao espaço rural.

Quantas vezes, e ainda hoje em filmes e novelas, vemos os escravos representados como trabalhadores rurais, cortando cana de açúcar ou colhendo café.

A questão começa por entender o que efetivamente era um regime e um estado escravista. O escravo não era apenas a figura que estava nos campos, mas a base, os fundamentos da força de trabalho no Brasil. As demais modalidades de trabalho que coexistiam – o trabalho livre sob diversas formas – represnetava uma parcela bem menor das forças produtivas.

Mas, além da questão da força de trabalho, existia uma mentalidade “escravista” que perpassava todas as atividades da sociedade.

Um viajante inglês contava uma história curiosa, ocorrida com ele no Rio de Janeiro do século XIX: ao chegar ao seu Hotel percebeu que sua chave tinha problemas para abrir a porta do quarto. Ao insistir a chave quebrou impossibilitando sua entrada. No próprio hotel ninguém podia lhe ajudar. Foi à busca de um chaveiro, depois de muito andar encontrou um que se dispusesse a acompanhá-lo ao hotel. Tudo acertado o inglês perguntou ao chaveiro: Vamos então?

“Não! Não posso ainda!”

O inglês, já desesperado, perguntou para ele se todas suas ferramentas não estavam ali. Estavam. Perguntou se não estava livre naquele momento. Estava. Então, porque não podemos ir?

Simplesmente porque o escravo do chaveiro, encarregado de lhe carregar a maleta de ferramentas ainda não havia retornado de outra tarefa, e sem isso o chaveiro jamais sairia a rua, jamais se submeteria a humilhação de carregar suas próprias ferramentas. O pobre inglês, sem outra alternativa, teve de pacientemente esperar o retorno do escravo.

A verdade é que a escravidão era tanto um regime de trabalho quanto uma mentalidade, um conjunto de idéias, leis, práticas, procedimentos, tabus, crenças, um complexo gigantesco que deu sustentação a séculos de exploração do trabalho alheio. Por isso tantas idéias e preconceitos gerados há séculos continuam vivos no nosso cotidiano, apesar de avanços.

De qualquer modo, nas cidades havia um contigente enorme de escravos ocupados com tarefas absolutamente distintas daqueles realizadas pelos seus pares das fazendas. Atuavam em comércio, carregando sujeiras (como em São Paulo onde tinham de carregar os “tigres”, tinas de excrementos, posto que na época não havia sistema de esgoto), vendendo doces e outras guloseimas (como as famosas “negras de tabuleiro” do Rio de Janeiro e Salvador), carregando liteiras, carros de arruar (espécie de carruagem carregada por homens), como ajudantes de chaveiro, sapateiro, cordoeiro, como músicos, como pedreiros e escultores até (como nas MInas Gerais do ouro). Enfim, eles estavam em todas as atividades tidas como “manuais”, portanto “inferiores” e indignas para a maioria da população livre.

Viajantes que chegam as cidades do Rio de Janeiro e Salvador se espantavam com o formigueiro humano de escravos fazendo absolutamente de tudo. Diferentemente também dos campos, nas cidades era ainda mais raro haver grandes grupos de escravos pertencentes a um único proprietário. Eles tinham três, seis, dez escravos, dependendo do tamanho de seus negócios. E, em boa parte das vezes, moravam nos térreos dos sobrados onde também habitavam seus senhores, as vezes dividindo o espaço com um armazém ou loja.

Outros moravam “sobre si mesmo”, como se dizia na época. Literalmente moravam nas ruas, muitas vezes dormindo nas praias, embora fossem “propriedade” de alguém. Esses escravos que moravam sobre si mesmos, as vezes, eram os chamados “negros de ganho”, escravos que ficama livres para prestar serviços, biscates, cotidianamente e tinham como tarefa levar o ganho para seu senhor. Parte do auferido, bem pequena, ficava com o próprio escravo para o que lhe desse na telha (as vezes, depois de muitos anos, conseguia o suficiente para comprar sua própria alforria, mas houve também o que comprasse outro escravo para trabalhar a ganho para si e juntar ainda mais dinheiro).

Mas não fugiam? Raramente, pois uma das características de uma sociedade escravista é compor um sistema tão opressivo que as chances de fuga são mínimas. Os quilombos, alguns urbanos inclusive, eram uma solução limite. Nas cidades, qualquer negro andando sozinho era tido como suspeito, e se fugisse seu rosto estaria estampado em cartazes e jornais, com premios pela sua captura. Se abordado por qualquer um na rua deveria esclarecer a respeito de suas atividades, e de seu “pertencimento”.

Diga-se, aliás, que o procedimento das forças policiais no Brasil, e mesmo nos Estados Unidos e outros tantos países de passado escravista, o procedimento continua semelhante.

Nas cidades a presença dessas massas de escravos gerava certo temor de revolta, como a que eocorreu em Salvador pelos “malês”, escravos capturados em uma região islamizada da África, que eram alfabetizados e contextualmente bem politizados.

Também favoreceu a revolta o fato de em Salvador os escravos urbanos se reunirem em “cantos”, áreas da cidade onde se encontravam escravos da mesma origem étnica ou profissional. Depois disso as aglomerações de escravos nas cidades foi proibida e os cantos abolidos.

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da cultura, História do Brasil Tags: , , , , ,
21/02/2009 - 03:33

O nascimento do “trio elétrico”

É inegável que o carnaval de Salvador se tornou um dos maiores fenômenos de massa do cenário cultural brasileiro. Independentemente das opiniões favoráveis ou contrárias, ou dos que alegam que o carnaval de Salvador se descaracterizou irremediavelmente, é uma das maiores festas do Brasil e isso se deve, em grande medida, a capacidade que os musicos e empresários soteropolitanos tem de se manter antenados com o que ocorre na cultura de massa e gerenciar essa parafernalha toda de modo muito competente.

 

Em verdade esse processo revolucionário começou há décadas com os famosos Dodô (Adolfo Nascimento) e Osmar (Osmar Macedo), musicos nascidos em Salvador, especializados em tocar chorinhos e frevos, ritmos tradicionais que compunham o carnaval até os anos de 1940.

Dodô, que era além de musico, eletrotécnico aproveitou o embalo da criação das primeiras guitarras elétricas pela Les Paul no começo da década de 1940 para turbinar uma das nossas, criando com isso a “guitarra baiana”.

Anos depois, no carnaval de 1950, a dupla decidiu improvisar um Ford 1929 para receber um pequeno conjunto de musicos: Dodô, Osmar e dois percursionistas. A população enlouqueceu e mal deixou o carro sair do lugar.

Parte dessa idéia surgiu dos antigos “corsos” carnavalescos, desfiles de carros que ocorriam nas grandes cidades, levando em seu interior os foliões com mais dinheiro no bolso. O corso da avenida Paulista, em São Paulo, por exemplo era disputadíssimo nos anos de 1920 pelos jovens – e nem tão jovens – abastados da cidade.

Em Salvador era igualmente clássico o desfile de carros, mas sem música e sem o povão pulando atrás. Isso somente surgiu com Dodô e Osmar.

No ano seguinte a dupla adicionou uma terceira guitarra, tocada por Temístocles Aragão e prosseguiu nesse ritmo até meados dos anos de 1960. Apesar do sucesso o “trio elétrico” ainda não era o fenômeno de mercado de hoje e os inventores ficaram anos sem se apresentar.

Apenas na segunda metade da década de 1970 o trio elétrico ressurgiria em Salvador com força, e dai para uma escalada profissionalizante que jamais cessaria. A difusão da “música elétrica” baiana foi potencializada nessa época pelo aparecimento dos Novos Baianos e das incrivelmente competentes guitarras de Pepeu Gomes e Moraes Moreira, os quais, não por acaso, seriam eles próprios figuras dos trios elétricos baianos.

Também nessa época surgiu Armandinho, que depois compôs o grupo A cor do som, que no começo dos anos de 1980 propôs sua versão “baiana” ao florescente rock nacional.

O salto seguinte do trio elétrico esteve atrelado ao surgimento da chamada “axé music”, um termo para designar um estilo elétrico, mas com uma batida mais semelhante a que os afoxés baianos faziam e com letras fáceis e sensuais (quando não libidinosas), um prato cheio para o consumo cultural de massa.

Antes de Ivete Sangalo ou Daniela Mercury, Luis Caldas e Margareth Menezes estouravam, dando um novo ar aos trios elétricos e ao carnaval da Bahia (o qual passou a ser, entre o final dos anos de 1980 e começo dos de 1990, sinônimo de agitação, aglomeração e farra ilimitada, às vezes até demais).

As bandas de axé vieram na esteira e se transformaram em trios eletricos/blocos de carnaval: Chiclete com banana, Cheiro de Amor, Banda Eva, etc, etc. Além dos trios mais famosos, há os blocos tradicionais que não possuem a mesma expressão na musica de rádio como Os Internacionais, Crocodilo, etc. Apenas uma questão de ênfase: esses blocos investem no marketing “do bloco”, ao passo que os demais dependem da fama “da banda” que no carnaval sai no trio elétrico puxando um bloco, que pode, as vezes, ter o nome da banda.

O sucesso mercadológico dos trios elétricos – que começou despretensiosamente com os dois amigos em 1950 – tornou-se tão acachapante que grupos tradicionais – como o Olodum e o Ilê Ayê – e cantores renomados – como Caetano Veloso e Gilberto Gil – criaram seus próprios trios.

O fato é que, independentemente do gosto de cada um, o carnaval da Bahia representa uma das maiores – senão a maior – receita do estado, e certamente da cidade de Salvador, empregando milhares de profissionais e correndo o Brasil no restante do ano. O baiano mesmo tem muito o que fazer nessa época, muito mais, aliás, do que pular num dos blocos.

Enquanto isso, Dodô e Osmar envelheceram, puderam colher as glórias da invenção em vida, embora jamais tenham usufruido também do sucesso financeiro de seus “herdeiros de trio elétrico”. No mais cederam seus nomes aos dois circuitos por onde os blocos desfilam em Salvador: Dodô e Osmar.  

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09/02/2009 - 08:11

Cantando na Chuva e os impasses tecnológicos

Fui com uma amiga comprar alguns DVDs, aproveitar o final de semana para ver filmes e…bingo, encontrei uma pérola lá por R$12,90. Cantando na chuva estava lá, na gôndola dando bobeira e ele praticamente “pulou” para minha cestinha de compras.

Diversão garantida com Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds. Ok, alguns amigos dizem que sou “um clássico” e por isso gosto de coisas “clássicas”. Já disse aqui inúmeras vezes que, para mim, clássico é algo tão bom que é capaz a sobreviver aos vagalhões dos modismos.

Mas há coisas que não conseguem sobreviver a esses vagalhões da história, e Cantando na chuva trata justamente de um desses momentos. Para quem não conhece, o musical da MGM conta a história de uma dupla de astros do cinema mudo (Kelly e Jean Hagen) que são surpreendidos pela criação do cinema falado.

Lina (Hagen) tem uma voz horrenda, impossível de ser mostrada, o que é uma tragédia para a criação do cinema falado. Don (Kelly), por sua vez, que não tem esse problema, conhece acidentalmente uma atriz que tem uma voz linda (e não só a voz, Debbie Reynolds), mas que é absolutamente desconhecida e ganha a vida fazendo figurações.

Obviamente Don (Kelly) se apaixona por Kathy (Debbie Reynolds) e buscam, juntos com o amigo Cosmo interpretado por O’Connor, encontrar uma solução para o dilema. Em verdade o roteiro – como diriam os tecnicos dessa área – trata-se da história de amor de Kelly e Debbie Reynolds, o restante é apenas a caracterização do ambiente.

Mas o fantástico de Cantando na chuva é que, mesmo sendo um musical romântico, ele traz um dilema sério, que é o das superações tecnológicas. Um outro filme, o clássico O crepúsculo dos deuses, também trata desse mesmo tema, mas de forma mais contundente.

O fato é que a criação do cinema falado determinou uma crise imensa entre os atores do antigo cinema mudo, pois não era apenas uma questão de fazê-los falar, mas de toda uma estética de representação para a qual não estavam preparados. No cinema mudo imperava a profunda expressividade da face e dos gestos, todos muito exagerados para compensar a ausência de tons de voz, das pausas, de tudo aquilo que a linguagem falada traz. A linguagem do corpo devia compensar a ausência da linguagem falada.

Quando disseram aos atores que eles deveriam falar situações ridículas se processaram, como as encarnadas por Kelly no filme. No cinema mudo o ator não estava preocupado com o texto, ele tinha de transmitir uma “idéia”, reforçada pelas inserções de frases curtas na tela. Num dos momentos do filme Kelly, cortejando Jean Hagen, repete “eu te amo” uma duzia de vezes, o que no cinema falado provoca um acesso de riso na platéia.

Muitos não conseguiram fazer a transição e foram atropelados pelo vagalhão tecnológico.

Mas esse não é o único caso. Mais recentemente a Kodak quase desapareceu do mercado pois não foi capaz de acompanhar com a mesma velocidade que as concorrentes a transição da fotografia analógica para a digital. Suas fábricas de rolo quase despareceram por completo. Hoje ela sobrevive da venda de papel fotografico e outros produtos, mas foi atropelada pela história.

As vezes isso não ocorre, como no caso dos livros, cuja morte já foi decretada umas mil vezes – pelos e-books, pelos audio livros -, mas que continua firme e forte há milhares de anos.

De qualquer modo, mesmo que seja apenas para a diversão, Cantando na chuva é um filme fantástico, considerado um dos dez mais da história do cinema. Um clássico, rararar. E, além de ser ótimo, é muito instrutivo.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História e cinema Tags: , , , , , ,
05/02/2009 - 20:04

Quando o carnaval chegar…

Como tudo no mundo o carnaval também mudou profundamente ao longo do tempo, mas, apesar de muitos dizerem que os carnavais hoje não são mais como os de antigamente eu penso que a essência dessa festa se mantém inalterada.

 

É dificil determinar exatamente quando começaram os carnavais. Na realidade é possível regredir com a história dos carnavais quase até onde os registros humanos permitem. E o fato que torna a coisa ainda mais complicada é que os carnavais são festas profanas, mas que possuem um sentido “filosófico” profundo, ainda que inconsciente.

As vezes muito inconsciente.

É claro que quando o cidadão está lá na pipoca do bloco, “tirando o pé do chão”, ou na pulsação de uma bateria de escola de samba, no ritmo dos metais no frevo frenético nas ruas de Olinda, ele não está pensando muito em filosofia.

Mas, mesmo assim, a essência não muda.

Os carnavais surgiram como grandes festas coletivas de sublimação e de catarse coletiva. O carnaval sempre foi a válvula de escape das panelas de pressão sociais, pois eram – e são – as épocas do ano onde a inversão da realidade dura do dia a dia era passível de ser alterada.

Na antiga Roma ou na Idade Média já era assim. Homens vestidos de mulheres, mendigos coroados no meio das ruas, banquetes preparados para famintos e cães, enfim, tudo o que contrariava a dureza da realidade.

No seu celébre livro Notre Dame de Paris, traduzido para o português como O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo descreve uma cena carnavalesca nas ruas de Paris, festa que culmina com a coroação daquele tido como o mais baixo espécime humano, Quasímodo, o sineiro corcunda da Catedral de Notre Dame.

A festa percorre as ruas com Quasímodo sendo carregado pelo populacho que naquele dia se tornara seu povo, seus súditos. O sineiro, meio atordoado e não entendendo o que se passa festeja. Ou até entende, já que a subversão carnavalesca é a essência da festa, e publicamente conhecida.

É claro que o carnaval possui muitas nuanças, muitas variações, mas mesmo nas festas mais comedidas, como a do Carnaval em Veneza (o carnaval de máscaras) a idéia central se mantém. As máscaras servem para dissimular as personalidades, para enganar os sentidos. O feio fica belo, o pobre e o rico indiferem, a mulher idosa seduz um jovem, enfim, a máscara altera – ou revela? – as essências das pessoas.

Na Alemanha o carnaval mais conhecido e animado é o da cidade de Colônia, que tem esse nome justamente por ter sido uma colônia romana durante a invasão da antiga Germânia. De qualquer modo – e apesar do carnaval ter se espalhado pelo mundo todo – foi do mundo latino que surgiu a forma mais impactante do carnaval, o que explica que nos países latinos os carnavais continuem sendo os mais animados.

A igreja católica também acabou por assimilar o calendário antigo romano de festividades (ainda mais quando ela se institucionaliza no final da antiguidade e passa a ser a religião oficial do império romano), por isso a quaresma é contada a partir do final do carnaval, que representa o fim do período “carnal” e o início do recolhimento e da reflexão espiritual.

Na foto acima um antigo carnaval em São Paulo, na década de 1920, com os foliões sobre um carro (o que ocorria regularmente na avenida Paulista, que naquela época ainda era uma área eminentemente residencial).

No final tudo volta a antiga ordem do mundo, quem era pobre volta a sua pobreza, ”para tudo acabar na quarta feira” como diria a velha canção. E apesar dos trios elétricos, dos desfiles cinematográficos a essência é a mesma há milhares de anos.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura Tags: , ,
29/01/2009 - 22:40

Olê mulé rendeira

Terminei agora mesmo a leitura de A vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga, biografia do Gonzagão escrita por Simone Dreyfus.

 

Ok, o livro não é novo, foi publicado1996 pela primeira vez, mas o volume – adquirido em 2006 – ficou dormindo esse tempo todo na minha estante. Sou da opinião de que os livros tem “sua hora”. Há alguns autores que ainda não “encontrei”, como diria Antonio Abujamra. Com relação a biografia de Luiz Gonzaga, o atraso da leitura era mesmo uma falta de interesse por biografias numa certa época. Mas, recentemente, li numa só tacada as de Adoniran Barbosa, Astor Piazzola e Einstein. Agora dei cabo da história do Velho Lua.

A leitura acabou por reavivar minhas saudades do sertão e me lembrou de uma história curiosíssima que ocorreu quando estive por lá na terra dele, em Exú.

Durante os trabalhos lá pelo sertão fizemos amizade com Zé do Mestre, velho artífice do couro, conhecido em toda Serra do Araripe, uma celebridade em Salgueiro, no sertão de Pernambuco.

Zé, que na ocasião já contava mais de 70 primaveras, continuava morando no seu sítio, na zona rural, cuidando de sua oficina, em frente a casa, e observando os passaros da caatinga, os quais defendia ferrenhamente em sua propriedade.

O Mestre era um dos últimos grandes artesãos de couro do sertão. Os melhores gibões, chapéus, perneiras saiam de sua oficina, ofício ancestral, aprendido com seu pai, e este com seu pai e dai por diante até se perder na poeira do tempo.

A roupa do vaqueiro é sua “armadura”, não só no sentido efetivo, de proteção dos espinhos que dão em quase toda a flora da caatinga, como também no imaginário. Em poucos lugares o imaginário medieval, cavalheiresco, plantou raízes tão profundas quanto nos sertões nordestinos. Não há um só canto no qual não se ouça falar das histórias de Carlos Magno, dos Doze pares de França.

As histórias de Ariano Suassuna – que apesar de ter nascido longe do sertão adotou-o como sua pátria – trazem toda essa cultura sertaneja que regionalizou as antigas histórias da Europa medieval. O romance da pedra do Reino, as farsas, os autos, todos eles formatos medievais do teatro.

Zé do Mestre era desses homens sertanejos, como se fosse um construtor de armaduras. E além do mais, fã incondicional de Luiz Gonzaga. Inclusive, quando o sanfoneiro ainda era vivo, Zé chegou a fazer algumas encomendas para ele, roupas de palco, chapéus de cangaceiro, jóias do artesanato coureiro.

Quando o artesão ficou sabendo que iríamos até Exú, a terra de Gonzagão, não sossegou até que prometessemos levá-lo conosco. Feito, não havia porque não. Num dia de semana marcamos com ele. Buscamos no sítio e tocamos pra Exú, umas duas horas de viagem, mais ou menos.

De quebra levamos um velho e surrado aparelho de CD, e um disco do Gonzagão (Luiz Gonzaga volta para curtir, de 1972). Enquanto viajávamos colocamos o fone de ouvido no artesão e vimos seus olhos brilharem.

Chegamos na cidade de Exú, fomos para o centro e sentamos num bar. Pedimos uma famosa Cajuína, amarelinha (da qual não tenho muitas boas lembranças não). Depois fomos ao Parque Aza Branca (assim mesmo, com Z).

O Parque é uma propriedade adquirida por Gonzaga nos anos de 1960 ou 70 e que transformou em um complexo. Nele há sua casa, a de seu pai, um pátio para festividades e o museu pessoal, além de um indefectível Juazeiro (inspirador de tantas músicas).

Ao lado da casa também há o famoso viveiro de Asas Brancas, a pombinha da caatinga que inspirou Humberto Teixeira a compor o famoso hino do sertão.

Chegamos lá e Zé do Mestre parecia uma criança, lembrando de cada aniversário de Gonzagão que passou ali, de cada Missa do Vaqueiro que presenciou.

Depois de andarmos pelas dependências do parque, Zé quis visitar a casa do sanfoneiro e fomos lá acompanhá-lo. Fomos recebidos pela antiga cozinheira da casa, a qual nos levou por dentro da residência. Conversa vai, conversa vem, fotos de Zé para lá e para cá, comentamos do fascínio que Gonzagão tinha pela figura de Lampião (fascinação, aliás, entre muitos sertanejos, entre eles o nosso acompanhante Zé do Mestre).

Quando falamos isso a senhora pediu para que a acompanhássemos até o andar superior. Nos levou até um quartinho nos fundos, fechado a visitação. Lá dentro uma arca e uma estante com cortina.

Ela pegou e abriu a arca. Dentro um monte de fuzis do começo do século XX, com correias decoradas, cantis feitos de latas óleo usadas. Abriu a cortina e lá estavam cartucheiras, malotas e chapéus decorados com moedas antigas, todas com zinabre.

Gonzagão, com sua admiração por Lampião havia contactado um antigo “Macaco” (apelido pejorativo dado pelos cangaceiros aos policiais no sertão) que dizia ter sido um dos que participaram da emboscada ao bando de Lampião em Angicos, Sergipe, e que teria ficado com o espólio do bando, armas e apetrechos.

Gonzagão não titubeou, comprou tudo e levou para o Parque Aza Branca. Colocou na arca onde estavam até alguns anos (e provavelmente ainda estão). Não é possível garantir, sem alguma pesquisa, que os apetrechos que Luiz Gonzaga comprou eram realmente os do bando de Virgulino Ferreira, mas se não eram os originais eram idênticos e da mesma época (por isso até desconfio que eram mesmo).

Com isso Luiz Gonzaga – apesar de ser repreendido pela mãe toda vez que elogiava Lampião – levou vida a fora sua admiração pelo cangaceiro, embora soubesse bem de sua vida bandida. Tanto lhe admirava que chegou a gravar uma das canções cantadas pelo bando, Mulher rendeira, um tema tradicional da região, sobre o qual os cantadores improvisavam versos. Igual, aliás, Asa Branca, que era um tema antigo, tocado pelo pai de Luiz Gonzaga, Januário, em sua sanfona de oito baixos e que o compositor Humberto Teixeira tomou e deu uma ajeitada.

Depois da visita voltamos a Salgueiro, deixar o velho mestre – todo satisfeito – em seu sítio, já na boca da noite, com toda a bicharada catingueira cruzando nosso caminho pelo meio do mato.

Tanto a ida a Exú quanto a estada no sertão, o convívio com as pessoas, me fez entender melhor a obra de Gonzagão e discordar cada vez mais da imprensa nacional que pintou o sertão como lugar de fome e de pobreza, não de trabalho e energia, como o que vi.     

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
27/01/2009 - 09:39

Histórias de comidas

Uma das coisas que acho mais bacanas são as histórias das comidas. Não somente a história da alimentação, mas das comidas mesmo, dos pratos.

 

Estudei durante dois anos história da alimentação e quase me especializei nessa área, mas, por mudanças inesperadas de rumo, fui parar no estudo da cidade de São Paulo. A história da alimentação se preocupa com os hábitos alimentares ao longo do tempo, os cardápios, as dietas, as tabelas nutricionais, as mentalidades em torno do alimento e dos hábitos de produção, consumo e descarte dos produtos. É uma área fascinante, que nos leva ao que Hegel dizia ser um dos “porões da humanidade”.

A história das comidas é apenas uma parte da vasta história da alimentação, mas tão reveladora quanto. Nos pratos que consumimos está todo o universo social, cultural, econômico, tecnológico que compõe nosso mundo.

Quem nunca ouviu a história de como nasceu a feijoada? Comida de sezala, feita com feijão e restos não aproveitados pelas Casas Grandes: tripas, cabeças, orelhas, rabos, pés. Com o tempo o prato – um dos famosos pratos de “uma panela só”, como a paella, como o putchero, a cassoulet, a bouillabaisse, o yakissoba – foi promovido às mesas dos senhores, com acompanhamentos requintados e carnes nobres, costelas, lombos, carnes secas, linguiças.

Mas existem casos curiosíssimos que poucos conhecem. O famoso carpaccio, por exemplo, recebeu esse nome por um motivo insuspeito. Em Veneza havia uma senhora para a qual seu médico havia receitado o consumo de carne crua, devido a problemas gástricos. Mas comer carne crua, crua mesmo é praticamente um tabu nas culturas. Os pratos de carne crua jamais são “exatamente” cruas. Seja o kibe cru, o steak tartar, os sashimis, todos eles exigem preparações tão complexas, cortes tão especiais e precisos que não podem ser considerados “carne crua”. Então, a tal senhora procurou um de seus restaurantes prediletos em Veneza e descreveu seu problema para o dono.

No dia seguinte ele apareceu com uma receita que envolvia finas lâminas de carne sem nenhuma gordura e super macias cobertas de molho forte, para contrastar e “cozinhar” a carne sem fogo. O vermelho da carne era tão intenso e brilhante que decidiu batizar o prato com o nome de um famoso pintor veneziano, celébre pelos tons vermelhos de seus quadros, Vittore Carpaccio (1460 – 1525/1526).

Há também casos curiosos como o da atribuição a alguns piratas do nome de “bucaneiros”. Eles eram assim denominados por acamparem nas praias e cozinharem em fogões rúticos no chão, chamados de “boucan”, sobre os quais colocavam uma grelha de gravetos. Sobre essas grelhas colocavam partes de caça ou peixe para cozinharem rusticamente.

Acontece que “boucan” é um termo que vem de outro parte do mundo, na qual os franceses haviam aprendido a cozinhar dessa forma. Quem conhece um pouco da culinária indígena no Brasil reconhece bem este tipo de fogão e de técnica de cozimento, o famoso…”moquém”. Os franceses, que perambularam por estas bandas nos séculos XVI e XVII aprenderam com nossos indígenas a cozinhas no chão e adotaram a corruptela “boucan” para o moquém.

No caso das bebidas as histórias são tão deliciosas quanto as das comidas. Uma das que adoro é a da criação do drink “Side car”. feito com conhaque ou brandy, Cointreau e suco de limão. Reza a lenda que num famoso bar de Paris estava o bartender preparando seus coqueteis quando, de repente, uma motocicleta desgovernada entrou pela vidraça que dava para a rua. Inspirado pela cena inusitada misturou os ingrediente que tinha a mão e batizou com o nome do carrinho de passageiros que acompanhava as motocicletas, “Side Car”.

Recomendações de livros saborosos sobre o tema: História da alimentação no Brasil de Câmara Cascudo, Açúcar de Gilberto Freire, Comida de Felipe Fernandez Armesto, Veneza de Fernanda de Camargo Moro. E bom apetite.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Sem categoria Tags: , , , ,
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