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18/12/2008 - 19:32

Ainda sobre terras indígenas e o Estado brasileiro

Durante o genocídio que os Estados Unidos da América promoveram contra seus povos indígenas, no século XIX, um militar declarou que “índio bom era índio morto”.

Depois essa frase foi atribuida ao General Custer – bem massacrado num embate antólogico contra uma coligação de povos indígenas -, mas jamais ele disse tal coisa, ao menos não com essas palavras.

O fato é que na América Portuguesa e depois no Brasil independente jamais houve uma política ampla e declarada de extermínio dos povos indígenas. As coisas por aqui foram sempre muito mais complexas.  A Coroa Portuguesa proibiu e depois altorizou, evoltou a proibir e novamente autorizar o “controle” dos indígenas pelos brancos ao longo dos séculos, e sempre com muitas excessões. Vemos a legislação que tratava dos povos indígenas na nossa história como um imenso pêndulo, de um lado para o outro ao longo dos séculos.

Houve sim autorizações da Coroa para a escravição e extermínio de povos indígenas considerados “ameaças” para a presença portuguesa. Essas autorizações eram concedidas mediante a justificativa de que se tratava de uma “guerra justa”, contra “bárbaros”, diferentes dos povos que aceitavam a presneça portuguesa e o trabalho para estes. Parte do sertão do atual Ceará foi varrido numa dessas guerras, movida contra os cariris.

Depois da independência do Brasil a situação não ficou menos confusa e herdamos isso na República. Mas, da simples exploração ou dizimação passou-se a idéia da “integração” através do trabalho, da educação. Essa doutrina i]da integração perdurou durante décadas.

Por isso citava no posto anterior a figura de Vargas, pois durante seu governo manteve-se a linha de pensamento do tratamento indígena que vinha desde a República Velha, capitaneada por Cândido Rondon.

A Funai jamais conseguiu, por sua vez, encontrar uma política de contato com os indígenas na qual eles não fossem os perdedores.

Trabalhei algum tempo com povos indígenas – xavantes, bacairis, tukanos, nambikwaras, parecis – e é duro perceber como a grande maioria dos brasileiros não faz idéia do que ocorre em seu próprio país. Sim, temos territórios nos quais grupos indígenas isolados, que jamais tiveram contato direto com brancos, fogem desesperadamente da “civilização”. E assustados atiram sim suas flechas contra aviões. E isso não é um grupo de atores contratados.

Que há lideranças indígenas corruptas…sim, há, como há muita liderança branca corrupta. Nem por isso ouvimos alguém defender a expulsão dos brancos, somente porque temos políticos corruptos. A coisa não pode ser tratada como uma géleia geral. Há grupos e grupos indígenas, lideranças e lideranças.

E uma coisa se tornou quase um consenso entre os que trabalham com povos indígenas: a melhor coisa a se fazer com grupos não contactados é não contactá-los de jeito algum, excetuando-se casos de risco para suas vidas.

Contudo, contudo, acusamos os indígenas por se portarem tal como nós mesmos. Porque desejam roupas bonitas, tênis da moda, banho quente, carro novo, conforto. Mas na nossa sociedade isso é permitido e há formas para se obter isso. Mesmo nascendo nas camadas mais pobres da população existe a possibilidade de se tornar uma pessoa remediada. Uma minoria, mas é possível. Essa possibilidade é uma das sereias que encanta os ouvidos dos homens e mantém vivo o capitalismo, o liberalismo.

Mas, e para um indígena? Nós iremos determinar que ele continue a tomar banho gelado? A andar a pé por dias para chegar às cidades em busca de alimento ou medicamento? Nós iremos determinar que isso vai acabar com suas “culturas”? Nós?

Por outro lado, deixá-los decidirem sem oferecer a eles todas as informações necessárias, sobre riscos, implicações, efeitos é tão cruel quanto. Vi muitas vezes a “auto-determinação dos povos” ser empregada como forma de ludibriar os outros. “Deixe que eles mesmos decidam.”

Mas, eles têm todas as informações para decidir efetivamente entre as opções postas? Sabem quais são as implicações de uma coisa e outra?

E como distinguir as mudanças que são características naturais das culturas de processos de destruição das culturas? Qua é o limite entre a transformação e a desintegração?

Não estamos perto de uma solução unânime, e muito menos de certezas.

O resumo da ópera é que nenhuma resposta rápida e simples dá conta do tamanho do problema e de sua complexidade. Não é o Estado brasileiro que irá sozinho encontrar a solução – tutelando ou entregando os povos a sua sorte -, nem os indígenas isoladamente. Se há possibilidade de encontrar uma solução é através do diálogo franco entre Estado, povos indígenas, sociedade civil, justiça.

   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
16/12/2008 - 22:54

Sobre Raposa Serra do Sol e outras terras indígenas

Lendo agora a pouco os comentários na postagem de Ricardo Kotscho a respeito da saída da família Mesquita da frente do Estadão vi algo que achei, no ´minimo, interessante.

Certo leitor dizia para meu companheiro de IG que ao invés de ficar se preocupando com temas do passado, lembranças e afins, deveria estar mais atento a decisões que “lesam” os brasileiros, como a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Queria fazer uma correção, antes de tudo: não há “Reserva Indígena”, mas “Terra Indígena”. Quem tem reserva é petróleo, é Mata Atlântica, bauxita, tungstênio, baleia jubarte e afins. Indígenas tem “TERRA”.

Bom, a demarcação da Raposa Serra do Sol já rendeu milhões de litros de tinta e um palavrório interminável para algo que é relativamente simples, embora as leis brasileiras tendam a torcer as coisas até deixá-las quase incompreensíveis.

Até a chegada dos europeus toda a América, TODA, era terra indígena, ocupada há milhares de anos. Os diversos povos e etnias que ocupavam o continente se deslocavam e se assentavam pelo território mediante suas disputas particulares. Uns grupos eram nômades, outros semi-nômades, outros sedentários. Coletores, caçadores, agricultores, cada qual com sua cultura particular.

Hoje os povos indígenas não ocupam mais do que uma fração da mesma América. Muitas foram as causas da dizimação desses povos, ou do encurralamento deles, em terras cada vez mais distantes ou em situações cada vez mais “guetificadas”, como os que vivem em Parelheiros na grande São Paulo.

É claro que hoje somos uma nação plural, de muitas culturas, etnias, cores, crenças, numa mistura absolutamente irreversível e que, em grande medida, é o nosso diferencial diante das demais nações do planeta. Então, fazer um retorno à América antes de Colombo e “devolver” as terras aos indígenas não é exatamente o caso, assim como não é possível repatriar os africanos, alemães, italianos, portugueses. A história é irreversível.

Mas, da mesma forma, a história é feita aos poucos, não aos solavancos, ao trancos. Portanto, temos que distinguir casos e casos.

Um exemplo disso é a necessidade de distinguir terras que foram ocupadas pelos brancos há quatrocentos anos – como no planalto paulista – e as que foram ocupadas há poucas décadas, como do Roraima.

Para uma vida humana cinquenta ou cem anos é bastante tempo, mas para a história, e para um povo, dependendo do que se trata, não é quase nada. Entendo a revolta de colonos que chegaram há trinta, quarenta anos, mas entendo ainda mais a luta de quem estava ali há séculos, milênios.

Boa parte da ocupação do centro oeste e do norte do Brasil se deu no século XX, na Era Vargas e durante o Regime Militar, como forma de “civilizar”, ocupar e “proteger” o território nacional. Parte dos colonos levada para essas regiões vinha da região sul, onde a escassez de terras levava ao êxodo rural, a desertificação e ao surgimento de movimentos sociais como o que deu origem ao MST.

A conta da “pacificação” do sul foi paga pelos povos indígenas em grande medida. Mas não há como fazer Vargas ou os militares serem responsabilizados legalmente por isso. Mas a justiça pode evitar que outras injustiças continuem sendo cometidas.

O argumento de que sem o arroz plantado pelos colonos a economia do estado irá a falência é um subterfúgio, um sofisma para justificar o injustificável. Solucionar o problema dos colonos é responsabilidade do Estado brasileiro, não dos indígenas. É o Estado que tem que oferecer alternativas.

Mas, com grande frequencia, tende-se a inverter a lógica e atropelar as decisões que devem ser tomadas. Para evitar uma maior desaceleração da economia rompe-se com os tratados de meio ambiente, e muitos acreditam. Ora, que invista-se em tecnologia limpa, e movimente a economia com isso. Em verdade o que querem dizer é: preservem MINHA economia, MEU negócio e não a economia do mundo, ou do país.

O mesmo ocorre com a questão indígena. As terras indígenas são tidas como entraves para o “desenvolvimento”, ora, que se desenvolva de outro modo, afinal a humanidade não é quadrada.

Por fim, o argumento de os indígenas não precisam de tanta terra, ou de que não precisam da continuidade territorial é absolutamente insensível e voltado para si.

Imagine se alguém cortasse seu bairro ao meio, ou sua cidade. Imagine se alguém chegasse para você e determinasse que, a partir de agora, teria apenas meio banheiro, pois eles haviam decidido que suas necessidades não exigiam tanto espaço assim.

Cada cultura indígena se comporta de um modo diverso, possui necessidades diferentes e avaliar isso não é tarefa para quem deseja suas terras.

Há muitas décadas tornaram os xavantes – um povo que históricamente migrou – num povo sedentário às margens do rio Kuluene, no Mato Grosso. Depois tentaram lhes ensinar a cultura do arroz. O resultado, depois de anos, é a desarticulação da cultura tradicional (pois, encurralada em suas terras, não podem mais caçar), tornaram-se dependentes do arroz, o que lhes trouxe vários males que não tinham, como a obesidade, a hipertensão, a diabetes. As aldeias, antes com 300 indivíduos, se esfacelaram em unidades de 30, para que, com mais representantes, recebam mais verbas do governo. Os jovens, sem expectativa entregam-se em massa ao alcoolismo e outras drogas, usando, muitas vezes os cartões de assistência federal de seus avós, apreendidos por comerciantes locais que vendem ilegalmente bebidas alcolicas aos indígenas.

Por essas e outras, muitas das quais vi pessoalmente, creio que o Supremo – oxalá – tomou a decisão certa. E que o Estado brasileiro tome as devidas providências para garantir a eficácia da decisão e a reparação aos colonos.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História do Brasil, Política ambiental Tags: , , ,
12/12/2008 - 09:50

AI-5 e o 13 de dezembro

Página inicial do Ato Institucional 5 pertencente ao acervo do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas

 

Alguns ainda se lembram do dia 13 de dezembro de 1968, há exatos 40 anos, como um dos dias mais escuros da história do Brasil republicano. Naquele dia o governo ditatorial brasileiro decretava o Ato Institucional número 5.

Passadas tantas décadas as cores do momento parecem, para muitos, desbotadas como em velha foto de gaveta, mas, certamente para os que foram tocados pelas mãos dos ditadores, as cores ainda parecem muito vivas e as vozes ecoando na história brasileira.

A ditatura decretada com o golpe militar de 1964 havia implantado no Brasil um regime de exclusão, que alijou diversos movimentos populares, exilou lideranças políticas, assassinou adversários, mas, foi em 1968, com o AI-5, que até os militares com algum senso de democracia perceberam que a situação havia saído do controle e que mergulháramos numa noite escura.

Quando se trata da ditadura no Brasil, muitas vezes, vemos a coisa ser tratada como um monobloco e continuo, nada mais enganoso. O regime militar no Brasil teve várias fases distintas e muitos grupos disputando internamente pelo poder. Uma coisa é certa: a ditadura seguiu num crescendo de violência e de cerceamento dos direitos a partir de 1964, somente começado a ser revertido no final dos anos de 1970.

De 1968 até a distenção do final dos 70 foram os chamados “Anos de Chumbo”. Expressão que se consolidou com a redemocratização para se referir ao período no qual surgiram os grupos armados, as guerrilhas, a tortura mais cruel e desumana, o extermínio, e a explosão da massa de exilados.

Até o AI-5 a perseguição se concentrara por parte do governo ditatorial (prefiro não usar o termo militar,  pois sem a colaboração de uma grande massa civil o regime jamais teria sido possível) sobre líderes políticos da esquerda, sindicalistas, intelectuais. Mas, após o 13 de dezembro de 68, líderes estundantis, atores, jornalistas, diretores de cinema, escritores, gente “comum” passou a ser perseguida pelo governo. O que era uma caçada ideológica no início passou a ser uma luta pela hegemonia no controle da opinião e da informação. Não se tratava apenas de uma questão de regime político, de orientação ideológica, mas de atitude perante o mundo, uma questão cultural.

Lembrava na quarta feira, aqui neste mesmo espaço, dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e alguns amigos leitores comentaram dizendo que a declaração deveria ser revista, que serve apenas para salvaguardar bandidos, fascínoras, etc. Lembrei, no dia, que a Declaração servia para todos os seres humanos, criminosos ou não, e que ela havia surgido no choque da II Guerra Mundial (com suas dezenas de milhões de mortos cruelmente).

Mas hoje, penso que há mais um motivo – algo irônico - para se lembrar da Declaração, posto que o AI-5 foi decretado poucos dias após a comemoração dos 20 anos da Declaração Universal, como bizarra lembrança.

Os atos cometidos pelo governo ditatorial – contra gente comum, como eu, como você – só porque desejava exprimir sua opinião a respeito da, digamos, sexualidade, ou da condição do trabalhador no Brasil, ou de seu gosto estético, feriam e ferem profundamente a Declaração. Ou seja, não é um texto que protege “bandidos”, é um texto que nos lembra da necessidade de proteger a humanidade contra toda sorte de baixeza.

O texto do jornalista Ricardo Kotscho – aqui no IG mesmo – lembra a famigerada noite do “Golpe dentro do Golpe”, onde a ala radical suplantou a moderada, e mandou o Brasil inteiro para o purgatório. Vale a pena ler. Sobre essa noite, enquanto testemunha ocular da história, Kotscho tem muito mais o que dizer do que eu.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , ,
05/12/2008 - 18:59

Um pouco da história da ocupação da Amazônia

 

 

Mercado do Ver o peso em Belém, Pará, 2007.

 

Como tratei no último post a respeito do plano do gverno federal para barrar o desmatamento da Amazônia acho bacana tratar um pouco a respeito da história da colonização dessa região.

Ao contrário doq ue muitos pensam a Amazônia não foi um território inóspito, deixado para segundo plano durante séculos, nem foi das últimas regiões a serem colonizadas pelos europeus. Em verdade o centro-oeste brasileiro foi uma região ocupada mais tardiamente do que a Amazônia.

É claro que, quando falamos de colonização da Amazônia, estamos tratando das grandes vias de interiorização, de ocupação, ou seja, os gigantescos rios amazônicos (o Amazonas, o Tocantins, o Pará, o Madeira, o Negro, o Tapajós, o Solimões). As regiões mais distantes destes rios, ou mesmo às margens de seus afluentes menores, demoraram mais a serem ocupadas.

O fato é que ainda no século XVI, logo depois da “oficialização” da posse portuguesa sobre o território nas Américas, exploradores vários passaram a incursionar pelo Amazonas, seja subindo seu curso, seja em inusitadas viagens descendo o curso do rio desde sua nascente na América espanhola.

Talvez até mesmo alguns dos comandantes das expedições de Colombo tenham navegado pelo Amazonas, o que motivo de debate ainda hoje. 

Mas explorar não é colonizar, e a colonização de fato demandaria ainda algum tempo. As primeiras atividades colonizadoras na região se deram por oriundos de Portugal, mas, principalmente por missionários católicos (carmelitas, jesuitas e franciscanos) que foram se alojando em locais de antigas aldeias indigenas.

Vale dizer que, quando os europeus chegaram a Amazônia, esta estava vastamente ocupada por povos indígenas, desde tempos imemoriais. A grande maioria das cidades amazônias (Manaus, por exemplo) se desenvolveram sobre antigas aldeias, nas quais colonos ou missionários se estabeleceram.

Contudo, com o avanço da colonização, e os resultados trágicos do contato entre índios e europeus, levou ao esvaziamento e fuga dos indígenas para regiões cada vez mais distantes, principalmente dos grandes rios, vias preferenciais de comunicação.

Cidades inteiras foram abandonadas, como o Velho Airão.

Boa parte das ações colonizadoras se concentrava na exploração de  riquezas naturais amazônias – de modo parecido, porém sem nenhuma sustentabilidade, com o que as empresas de cosméticos oprema hoje na região. Breu, pimenta, castanhas, pau rosa e outros tantos produtos da floresta eram mandados para a Europa a partir de Belém, de onde se deu a origem do mercado Ver o peso (que tem esse nome devido a uma requisição da população da cidade para que a Coroa Portuguesa construísse um posto para se “ver o peso” das mercadorias que seguiam para a Europa).

Com a expulsão dos jesuítas e a mudança dos códigos que regulamentavam o trabalho indígena no século XVIII essa economia entrou em crise, se bem que boa parte dos indígenas – os sobreviventes ao contato – já haviam fugido para regiões mais distantes.

Um século depois foi a economia da extração da borracha que imperou na região.

Contudo, contudo, uma coisa é fato irrefutável: apesar de todas as mudanças na economia amazônica, é um fenômeno do século XX a agressão deliberada a região, com o desmatamento desmedido para a agricultira e para a pecuária. Os processos anteriores podem ter sido prejudiciais aos indígenas, aos seringueiros, mas muito menos ao bioma.

As grandes cidades também se tornaram um problema na região. Com toda a sinceridade, fiquei chocado com Manau quando a vi. Com a quantidadede ocupação desordenada, com os igarapés sufocados pela cidade. Também com Belém, um pouco menos com Santarém.

Até o século XIX e começo do XX a história da região havia sido uma história da exploração, não da degradação.

 

  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Política ambiental Tags: , ,
14/11/2008 - 10:34

As muitas Repúblicas possíveis

Quando tratados da história é preciso tomar cuidado com as palavras.

O fato de, hoje, uma palavra ter um sentido (quando designa algo abstrato, uma relação, uma idéia, um sistema de governo, um valor) não significa que tenha sempre tido esse mesmo sentido. Para dizer a verdade, quase nunca tem.

E mesmo numa mesma época a mesma palavra pode designar coisas diferentes para grupos diversos. Por isso, um pensador genial já falecido, Reinhart Koseleck, insistia na utilidade e necessidade de que se fizesse uma “história dos conceitos”.

O caso da “república” é bem emblemático.

República é uma palavra latina formada por dois radicais: “res” (coisa) e “pública” (coletiva, de todos). Logo, “república” é a coisa de todos, aquilo que à todos pertence. Essa era a designação dada a Roma antes de se tornar um Império, situação na qual o Senado (a casa que representava as famílias romanas de poder, os cidadãos) controlava os rumos do governo.

Mas há um detalhe. Como disse aqui em outras ocasiões a definição de cidadão também mudou radicalmente desde o mundo antigo clássico (épocas de Atenas e Roma). Na República dos romanos a cidadania era fundamental, mas somente as famílias de poder eram consideradas “cidadãs”.

De qualquer forma, na transição para o mundo moderno, o pensador Nicolau Maquiavel viu na Roma Republicana um de seus modelos mais estimados de governo, mesmo com as limitações da cidadania. Obviamente que também para Maquiavel fazia sentido que nem todos os homens (sim, as mulheres estavam formalmente, mas não totalmente, excluídas) fossem considerados cidadãos e dignos de serem ouvidos a respeito dos rumos da política.

No Brasil a onda republicana veio muito antes do 15 de novembro de 1889. Desde as Revoluções Burguesas (a Inglesa, a Francesa, etc) que a idéia vinha se formando na cabeça de líderes políticos. Acontece que até as últimas décadas da monarquia raramente a idéia de tornar o Brasil uma república havia passado pela cabeça das elites mais influentes. Sim, houve aqui e ali movimentos populares inspirados em ideais republicanos, com lideres regionais fortes, mas nenhum de expressão realmente nacional.

Os revoltosos mineiros (chamados um tanto equivocadamente de “inconfidentes”) jamais tiveram idéias efetivamente republicanas, como depois o próprio governo brasileiro da nascente república fez questão de difundir. Um livro bacanuxo pacas – O manto de Penélope, história, mito e memória da Inconfidência Mineira, de João pinto Furtado – é muito esclarecedor a esse respeito.

O fato é que, até a monarquia brasileira dar sinais de enfraquecimento a idéia da república não era uma opção real, séria e digna de discussão para as principais lideranças políticas do Brasil. Mas isso mudou na segunda metade do século XIX, sobretudo após a década de 1870.

Boa parte dos políticos que haviam defendido a legalidade da monarquia brasileira e que viram suas pretensões frustradas, que se sentiram traídos inúmeras vezes, abandonou suas múltiplas interpretações da política monárquica (mais liberais ou mais conservadoras) e criaram um partido republicano. Vale lembrar que, os próprios militares que lideraram o golpe que derrubou a monarquia, eram monarquistas até os últimos meses.

De tão enfraquecida que estava a monarquia brasileira não ofereceu resistência e caiu rapidamente. A família real foi enviada para a França, onde o imperador Pedro II faleceu pouco depois.

Aqui no Brasil teve início um duplo processo. O primeiro deles de arrumar a casa, botar ordem no governo e reestruturar a nação e suas instituições políticas em moldes republicanos. A segunda tarefa de difundir o republicanismo entre a população pois, como em muitos outros momentos da história brasileira, a massa assistiu a queda da monarquia sem entender o que se passava, posto que não houvera participado de qualquer modo do processo de derrubada do governo.

Nas décadas seguintes ocorreu uma verdadeira empreitada propagandística, difundindo imagens da república, da nova bandeira nacional, de heróis retirados da escuridão do passado (como Tiradentes, esquecido propositalmente durante a monarquia), ou de novos heróis (como o “civilizador” Cândido Rondon).

Ao mesmo tempo o governo da nascente República tratou com mão dura e implacável qualquer um que ameaçasse o novo regime. Canudos foi uma das vítimas mais claras. Tanto pela tomada de terras que ameaçava o status da propriedade privada no sertão quanto pela pregação milenarista de Antonio Conselheiro (que dizia da chegada do “Terceiro Reinado”, na verdade se remetendo a “época do Espírito Santo”) Canudos foi compreendida como um movimento monarquista e dizimada.

O fato é que, para a maioria da população, demorou muito para fazer algum sentido aquela movimentação política toda. A “construção” da República do Brasil ainda demandaria muitas décadas para além do 15 de novembro. Demorou mais anda, então, para que as massas populares tivessem uma participação política mais clara, efetiva e organizada na vida da República brasileira, que continuou entendendo “a coisa de todos” como de poucos.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História do Brasil Tags: , ,
22/04/2008 - 15:29

O Descobrimento do Brasil

Assunto que mais dá pano para manga nas discussões sobre história do Brasil: o descobrimento desse território pelos portugueses. E dá ainda mais discussão justamente entre não historiadores.

Uma série de fatos dão indícios contrários a idéia de que a chegada tenha sido casual e, também, que o território fosse plenamente desconhecido pelos europeus e, talvez, até por outros povos.

Os portugueses conheciam profundamente o mar, sobretudo a costa africana. Conheciam bem demais para cometerem erros crassos de navegação. A esquadra de Cabral contava com navegadores dos mais experientes, uma verdadeira seleção portuguesa da navegação marítima.

Também contavam com mapas e plantas produzidas por árabes há séculos que davam indícios de existência de terras a oeste das Canárias.

Anos antes Portugal e Espanha haviam assinado o Tratado de Tordesilhas que, além de afastar os espanhóis da costa africana (área de interesse de Portugal) garantia a posse portuguesa sobre territórios que, teóricamente, ninguém sabia que existiam.

Além do mais, a missão de Pedro Álvarez Cabral era composta pela maior esquadra posta em águas por Portugal, mais de uma dezena de barcos indo para as Índias. Mas, curiosamente, comandada por um personagem algo obscuro.

Cabral não era exatamente um homem do mar de carreira, como Diogo Cão, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães ou o próprio Colombo. Era um nobre português, e depois do retorno jamais se lançou ao mar novamente.

Essa é uma questão em aberto: porque Portugal enviou uma esquadra tão grande e tão importante sob as ordens de um capitão menos experiente?

Nos últimos dois século em vários momentos se retomou a dúvida a respeito do quanto era sabida ou não a existência de terras nessas bandas. Mapas e narrativas antigas foram desencavados a fim de tentar provar que os portugueses fizeram uma tomada de posse de território e não uma descoberta fortuita.

Nenhum indício foi conclusivo. Não há provas efetivas que os portugueses soubessem da existência desse território antes de 1500, embora os indícios sejam interessantes e fartos.

No meio dessa discussão surgiu uma segunda vertente: a que diz que em verdade o que os europeus fizeram foi uma invasão, afinal o território não só era conhecido como habitado por povos indígenas.

Sim, isso é verdade. Dezenas de etnias ocupavam as Américas na época da chegada dos europeus. Também é verdade que a chegada deles promoveu um verdadeiro genocídio. Mas, seria um equívoco achar que as coisas foram tão simples assim.

Muitas dessas etnias receberam os europeus de braços abertos, fizeram alianças, lucraram com a dizimação de povos inimigos. Não havia uma oposição efetiva entre “indígenas americanos” e “povos europeus”. Na realidade a política dessa época era muito mais complexa, pois além de envolver todas as etnias americanas incluia também várias nações européias e também a Igreja Católica, a qual respondia pelos seus interesses e não pelo dos europeus em geral.

Uma coisa écerta, com exceção dos próprios indígenas qualquer alegação de “invasão” me parece um tanto falsa, afinal, sem ela não estaríamos aqui.

No final penso por uma terceira vertente: independentemente de se os portugueses sabiam ou não da existência do território, se foi invasão ou não, se os chineses chegaram primeiro ou não (pois há também essa versão), uma aspecto compõe um fato irremediável, fomos colonizados pelos portugueses e não por outro qualquer povo.

Esse é um fato seminal.

Mais do que a descoberta, o achamento, a invasão, a colonização é um fato criador, é o que nos fez, é o que desencadeou o processo de vir a ser sempre inconcluso.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil Tags: , ,
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