09/01/2009 - 17:37
Tenho lido alguns comentários de leitores a respeito das reportagens e textos de opinião sobre o conflito em Gaza e me surpreendo (deveria?) com as manifestações de racismo e xenofobia veladas.
François Hartog, historiador francês, um dos mais brilhantes ainda vivos, se dedicou num de seus trabalhos à compreensão da representação do “outro” pelo inimigo. Para isso ele tomou o exemplo do historiador grego Heródoto, o qual escreveu fartamente sobre as Guerras Médicas (o longo conflito entre os persas, também conhecidos como “medos”, e os povos gregos). Em seu texto, escrito há mais de 2.000 anos, Heródoto se ocupava da representação dos persas para seis leitores gregos.
Inimigos terríveis para atenienses e espartanos, os persas foram descritos por Heródoto como selvagens, criaturas para além da humanidade, bárbaros (literalmente “aquele que balbucia”, ou seja, que não domina a língua culta). Apesar de dignos de admiração por algumas das qualidades, os persas não eram contemplados como seres “iguais” pelo historiador grego. No complexo jogo da representação do outro é recorrente a projeção daquilo que é nossa visão da bestialidade para a figura do outro. Em outras palavras, o que descrevemos não é o outro, mas a nossa definição de monstruosidade a qual atribuimos ao outro. Muito dessa descrição nasce do nosso próprio medo, dos nossos pesadelos.
Questão complexa esta quando se tem a opção, diante de um outro povo, de uma outra cultura, de estabelecer relações de paz ou de guerra (a troca é inevitável, basta ver ou saber para que elas comecem a ocorrer, o que transforma os conflitos aramados em questões ainda mais paradoxais).
Numa guerra a primeira tarefa de um exército é conseguir inculcar em seus soldados a idéia de que o soldado inimigo não é digno de respeito simétrico, que não é “como nós”. Eles são descritos como desumanos, bárbaros, brutos, portanto merecedores da aniquilação. Um soldado que para e pensa em seu oponente e chega a conclusão de que ele trabalha, tem família, sonhos, desejos, gostos, perde parte de sua capacidade de matar. Não matamos a nós mesmos conscientemente (a não ser em casos específicos, muitos deles patológicos), logo para matar o outro temos que criar uma imagem do “outro”, diferente de nós, oponente de nós.
No conflito entre israelenses e palestinos não é diferente. As alegações de que os palestinos usam crianças como escudos humanos (sempre “os palestinos”, “todos os palestinos”), de que os israelenses são usurpadores e radicais (todos “os israelenses”) é parte dessa luta para “desumanizar o outro”, para permitir que soldados de lado a lado dizimem uns aos outros. Pois é fato, os soldados palestinos somente não revidam proporcionalmente porque não podem, não porque não querem.
O mais assustador é quando civis começam a adotar essa mentalidade dura, sem considerações e absolutamente cega. É claro, o apertar o gatilho sempre é uma decorrência final de um processo que começa com a formação da opinião, sem o apoio civil um soldado jamais apertaria um gatilho.
De qualquer forma tão preocupante quanto o conflito armado é a proliferação de pensamentos que definem uns aos outros como “gafanhotos” (uma praga que deve ser exterminada), com desejos de que vão para “o raio que os parta”, que lêem o outro como “outro” e não como um eu apenas diferente.
Nessa escalada sempre há a reinvindicação de “isenção”, o que não existe. O que existe não é opinião isenta, mas honestidade, quem invoca isenção cria um engano e um auto-engano.
E uma das faces desse processo é definir quem pensa diferente como “parte do outro”, ou seja, você disse isso porque é “mal informado”, “mal intencionado”, porque não “conhece verdadeiramente o assunto” , ou seja, novamente buscando excluir esse pensamento, essa pessoa, de seu universo de referências, ou seja, tonando-o definitivamente o “outro”, o persa para Heródoto.
Muito desse processo é inconsciente, até mesmo porque é duro admitir o quanto é fácil nos deixarmos enredar nessa teia, sempre pensando que estamos sendo objetivos, racionais, isentos.
No final, o grande desafio humano, desde Heródoto e os persas, e mesmo antes, não é nem sermos todos iguais, nem só reconhecer as diferenças, mas nos reconhecermos como membros de uma mesma comunidade – humana – mas na qual cada grupo e cada um é um universo diferente. Somos o mesmo e somos diferentes a um só tempo. Pensar diferente, agir diferente, é um dos fundamentos da diversidade cultural humana.
O termo “xenofobia” (o ódio ao estrangeiro) surgiu justamente no mundo grego antigo, tido como “berço da civilização ocidental” e até hoje (lembremos dos filmes “300″, O resgate do soldado Ryan, Alexandre, e tantos outros) a representação do inimigo, do estrangeiro, toca em sua desumanização.
Reconhecer a humanidade do que é diferente é um passo essencial para a solução dos conflitos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da cultura
Tags: Guerra, Heródoto, Israelenses, Palestinos, Racismo, Xenofobia
06/01/2009 - 17:51
Um dos efeitos perversos dos atos desmedidos do governo israelense em seu combate ao Hamas é a inversão da opinião pública mundial, tranformando uma causa legítima (o direito ao estado pelos judeus) em um motivo de rancor que ninguém sabe efetivamente até onde irá.
Sempre que Israel toma atitudes extremadas, sobretudo contra os palestinos, uma multidão de pessoas se levanta contra a existência do Estado de Israel. As argumentações variam, mas, em geral, acusam os judeus de terem usurpado um território que estava ocupado pelos árabes e que eles, judeus, haviam abandonado há séculos, desde a Grande Diáspora.
É importante entender alguns eventos que envolvem essa história toda. A chamada Diáspora, em verdade a segunda, ocorreu após a determinação romana para que a sede do Reino judeu, em Jerusalém, fosse destruída após um levante de radicais judeus no primeiro século de nossa era.
Com a destruição da cidade e, sobretudo, do Templo (ao qual pertencia o atual Muro das Lamentações) o Reino de Israel deixou formalmente de existir. O levante havia sido organizado pelo grupo dos “zelotes”, uma linha radical do judaísmo a qual, talvez, pertencessem alguns dos discípulos de Cristo. O levante teve seu fim quando algumas centenas de zelotes foram encurralados em Massada, um pequeno platô com um palácio, e massacrados pelos soldados romanos.
Após esse final trágico – o massacre dos zelotes e a destruição do Templo – judeus fugiram de sua terra (pela qual vinham lutando há milênios), e se espalharam por praticamente todo o mundo conhecido naquela época.
Nos séculos seguintes, e alimentado pelo ódio cristão (o qual acusava os judeus de serem responsáveis pela morte de Cristo), e por outros motivos (entre eles cobiça, ganância e pura xenofobia), os filhos de Israel foram perseguidos em diversas regiões, em diversos momentos e com diversos graus de intensidade.
Isso somente fez a comunidade judaica se sentir ainda mais perseguida e cercada, fortalecendo seus laços internos (o que provocava ainda mais ódio).
Nesse período alguns eventos, como o da Inquisição Moderna, foram particularmente cruéis, com a proibição do culto judaico, espoliações, expulsões.
Até mesmo na América Portuguesa os judeus foram perseguidos, após alguns séculos de cooperação entre a monarquia portuguesa e os burgueses de origem israelita.
Quando a ocupação holandesa em Pernambuco acabou, em meados do século XVII, a colônia judaica fugiu, com medo de extermínio, partindo então para uma cidade que se tornou Nova Iorque, nos EUA.
No século XX a II Guerra Mundial foi a gota d’água dessa história. Com a perseguição nazista – e de seus muitos aliados, diga-se a verdade – 6 milhões de judeus foram exterminados em poucos anos.
O movimento sionista (movimento político que há décadas lutava pela criação de um estado judaico no Oriente Médio) ganhou força com a derrota nazista e conseguiu, graças a méritos próprios (o que inclui a pressão de poderosos industriais e banqueiros judeus sobre os governos dos países Aliados).
Neste meio tempo o antigo Império Turco Otomano havia ruído e seu vasto território se transformou em protetorados britânicos e franceses. Isso inclui um largo território na Palestina.
Durante décadas, após a Primeira Guerra Mundial, franceses e britânicos cuidaram daquela região como uma zona especial, de ocupação.
Com a criação da ONU na sequencia da II Guerra Mundial começou a se discutir a criação de dois estados novos na Palestina, um para os palestinos e outro para os judeus. Em 1948, após a aprovação da criação dos dois países tropas judaicas invadiram a área para garantir a posse, e isso com apoio britânico. Os palestinos não contaram com apoio nenhum e o acordo ficou manco.
Nas décadas seguintes uma infinidade de pendengas se desdobraram em função do fato inicial da criação de Israel (como a posse das fontes de água, das Colinas de Golã, da Faixa de Gaza, etc).
Parte dessas pendengas, com o Egito, com a Jordânia e com a Síria foram resolvidas, deixando os palestinos cada vez mais isolados em sua oposição a Israel. Restaram os extremistas que tomaram conta do Líbano depois de uma guerra civil encarniçada.
E é neste ponto em que atualmente estamos.
Só que, quando Israel bombardeia violentamente e com muito pouco critério a Faixa de Gaza, incluindo ataques a escolas da ONU onde civis se refugiavam, toda a história de luta e de sofrimento judaico é esquecida e somente se lembra do quanto qualquer ser humano é capaz de ser cruel e opressor com quem é mais fraco.
E, para quem tem o histórico do Estado de Israel e do povo judeu, isso é muito ruim.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea
Tags: Estado, Guerra, Israel, Palestina
04/01/2009 - 11:59
Certa vez, um jornalista estadosunidense que cobrira as sucessivas guerras no Oriente Médio durante 20 anos definiu a situação da seguinte forma:
“Nas últimas décadas iraquianos guerrearam com iranianos, sírios contra libaneses, xiitas contra sunitas, turcos e iraquianos contra curdos, e todos contra Israel.”
Noutra ocasião o mesmo jornalista disse que a única coisa na qual os árabes concordaram foi em jamais concordar entre si.
Mais uma vez a situação se repete no Oriente Médio, e cada personagem encenando o papel que se espera dele.
Israel, um Estado Nacional legítimo, chancelado pela grande maioria das nações do globo, se defende de atos de provocação, mas com força desmedida e com o apoio inconsequente e irresponsável dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos incentivam veladamente Israel, garantindo que, com a eterna incerteza entre árabes e israelenses, mantenha seus fiapos de poder na região, pois aparecem sempre como os “mediadores”, aqueles que sustentam um mínimo de civilidade na região. Situação, ao menos essa, que vem mudando, com o descarte dos EUA, mas sem avanços de paz ou civilidade.
Boa parte das nações árabes indignadas com o massacre de população civil, mas sem qualquer disposição em apoiar movimentos como o Hamas (os quais ameaçam os próprios governos de países como o Egito, a Turquia, a Jordânia).
Os militantes do Hamas, e de outros movimentos extremistas, dizendo que os israelenses mergulharão numa longa noite, bravatas de quem só tem a retórica como armamento de defesa.
Os europeus um pouco mais isentos, mas sem peito para enfrentar o apoio estadosunidense à Israel, da mesma forma que a Rússia e a China, os quais tem eles próprios problemas com extremistas (como no caso dos chechenos) em seus territórios.
O governo de Israel tendo de aguentar um bando de extremistas sionistas, os quais querem dialogar tanto quanto o próprio Hamas, e tendo ainda que bombardear para que, não perdendo a eleição, a situação piore ainda mais.
Ou seja, todos na mesma situação há décadas.
Quer dizer, com uma única mudança: os extremistas vem ganhando mais força a cada ano, e o massacre de civis somente joga mais fermento no pão.
Mas, no fim, no fim mesmo, a comunidade internacional, a ONU e os EUA são efetivamente os responsáveis pela desgraça toda, posto que os acordos firmados depois do final da II Guerra Mundial, que previam a criação de dois estados, um judeu e outro palestino, no Oriente Médio, só foi cumprido em sua parcela israelense.
É claro que os arábes não deram apoio aos palestinos como a comunidade judaica deu a Israel, e isso também deve ser colocado na conta das responsabilidades.
E, até que me provem o contrário, muitos israelenses e palestinos, estadusunidenses, gente do mundo todo, continua trabalhando na lógica do quanto pior para eles, melhor para nós.
A sorte, ou azar, das populações do Oriente Médio, é que estão no meio do mundo, entre a África, a Europa e a Ásia, e tem muito petróleo, pois se fosse um continente como a Oceania ou a África, europeus e estadusunidenses já teriam emparedado-os e os deixado a própria sorte, o qua talvez solucionasse o problema. Ou não é isso que as potências têm feito com a África?
Em verdade as potências mundiais só estão preocupadas com os ítens que lhes afetam: oferta de petróleo, ameaça a segurança interna por conta de comunidades judaicas e imigrantes islâmicos. Ponto final.
O resto, balas, bombas e destruição, que fique para israelenses e palestinos.
E isso também é assim há décadas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, Sem categoria
Tags: Faixa de Gaza, Guerra, Israel, Palestina
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