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06/10/2009 - 07:04

Olimpiadas e a Política

Ouvi durante estes dias, desde a escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, opiniões que vão de um extremo a outro. Uns acreditam que a vinda das Olimpíadas será um ótimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil em geral. Uma oportunidade singular para que problemas crônicos – como saúde, transporte, segurança – sejam resolvidos, uma injeção maciça de capitais no país, projeção internacional, etc. A outra parte pensa diametralmente o oposto: uma singular oportunidade para que a corrupção exploda, um desperdício de recursos e esforços, uma inversão da ordem das coisas, realizar uma Olímpiada num país que trata tão mal os esportes em geral e, especificamente, os amadores.

 

O fato essencial é que a campanha brasileira para trazer as Olímpiadas em 2016 era essencialmente um ato político amplo, uma ação no campo das relações internacionais e do posicionamento das nações no tabuleiro global.

Até então as candidaturas brasileiras haviam sido tratadas como risíveis – sobretudo a de Brasília – e o país como um todo tomado como um grande bananal. O que pesou para o resultado radicalmente diverso entre a primeira campanha e a atual Rio 2016, além da óbvia questão técnica envolvida, foi o posicionamento político do país, o qual se tornou muito mais agressivo (sem que isso implique, obviamente, em questões de “uso de força”).

Uma série de fatores corroboraram: a estabilidade política, a economia em desenvolvimento seguro e sustentado sobre pilares bastante ortodoxos, iniciativas (insuficientes, mas indicativas) para diminuir a exclusão e o abismo social brasileiro, a melhoria de índices de desenvolvimento humano, uma maior presença do país nas questões internacionais e de modo autônomo, sem rezar pela cartilha dos EUA, a aproximação com os países do BRIC (além de nós a Rússia, Índia e China), além do envolvimento com as nações africanas e da América do Sul, a criação do G20 com o Brasil a frente, a descoberta de reservas gigantescas de gás e petróleo na costa nacional.

Sem todas essas movimentações seria inimaginável pensar que o resultado das eleições do COI na sexta feira fosse diverso do que ocorrera até então: provavelmente Chicago vencendo (para não repetir o continente a receber os jogos) com um lobby fortíssimo dos EUA, tal como ocorreu na eleição de Atlanta, os europeus alinhados em torno da comodidade dos países ricos e desenvolvidos e olhando com muito desdém para as candidaturas fora do eixo América do Norte – Europa – Ásia rica.

Por sua vez o comentário de Lula a respeito da conquista da “cidadania mundial” com a vitória é absolutamente realista: depois do reconhecimento “material”, através da economia profundamente “pé no chão” do Brasil (diferente de muitos paises que continuam patinhando na crise), é necessário avançar com o país nos bens “simbólicos”, nas conquistas de valor estratégico, diplomático, como no caso da Copa do Mundo de 2014 e agora no das Olimpiadas de 2016.

A estratégia brasileira tem sido profundamente bem sucedida: cada vitória no cenário internacional alavanca a candidatura brasileira na próxima disputa, a se observar: o aumento de influência no FMI e uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A história das Olímpiadas no século XX é um pouco também a própria história política do século. Além do caso “máximo” dos boicotes recíprocos entre os EUA e a URSS durante a Guerra Fria (nos jogos de 1980 em Moscou, sem os EUA, e em 1984, Los Angeles, sem a URSS), há que se lembrar da terrível Olímpiada de 1936 em Berlin, com a tentativa nazista de provar a suposta ”supremacia ariana”. Tentativa, aliás, fracassada diante dos passos do genial corredor negro estadosunidense Jesse Owens.

Em 1968 ficou marcada a imagem dos atletas negros dos EUA no pódio com os punhos levantados e a luva negra, símbolo dos Panteras Negras, protestando contra a discriminação racial em seu país, gesto que lhes custou as medalhas olímpicas. Anos depois, em Munique, na então Alemanha Ocidental, a politização dos jogos apareceu em frente as câmeras de TV no terrível desfecho do sequestro dos atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.

Em geral apontam como diferença essencial entre as Olimpíadas Modernas e as da Antiguidade Grega a extrema politização das atuais. Sim, é fato que os jogos atuais são profundamente políticos, como é fácil perceber pelo histórico, mas, teriam sido os jogos da Grécia Antiga muito diferentes neste aspecto?

Nos acostumamos a imaginar a política como um universo a parte, autônomo, sem ligação com as demais atividades humanas. Essa divisão é recente na história do ocidente e, em verdade, é mais clara como “discurso”, como “área de estudo”, do que como elemento da vida humana.

Os jogos da Grécia antiga (e quando falamos Grécia antiga temos que pensar num “espaço cultural”, numa região que compartilhava parte de uma cultura, não num “país” como a Grécia atual) também traziam muito das relações políticas em seu interior. A vitória de um atleta nos jogos sagrados era uma afirmação da superioridade de sua cidade-estado sobre as demais naquele ramo de atividade, além de demonstrar o apreço dos Deuses por aquele mortal, que, a partir daquele instante, entrava para o panteão dos homens que seriam lembrados pelas gerações futuras, praticamente um herói.

A suspensão dos conflitos durante os jogos Olímpicos trazia para dentro destes as rivalidades estabelecidas fora, as guerras, pendengas comerciais, rixas históricas. Até mesmo a definição dos Deuses protetores de cada cidade-estado trazia essa dimensão política, visto que em diversos casos a escolha de um Deus por uma cidade previa uma disputa mitológica entre dois ou mais concorrentes.

Em Atenas, por exemplo, diz a lenda que a cidade seria dedicada a divindade que desse o presente mais útil aos homens. Palas Atena, disputando com seu tio Posseidon, enviou aos homens a oliveira, e com isso venceu a disputa. Disputa, vitória, honra, poder, influência, bens simbólicos, diversos elementos que estavam há dois mil e quinhentos anos do mundo grego antigo tanto quanto no nosso.

Por isso se há algo diverso entre as Olimpíadas Antigas e as Modernas esse elemento deve ser procurado no campo da economia, do mercado, não no das relações e valores políticos envolvidos no que, a princípio, é uma disputa “sagrada”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
26/11/2008 - 15:52

Fim de ano e previsões

Cerâmica grega mostrando uma pitonisa no oráculo de Delfos

 

Fim de ano é sempre a mesma coisa: uma avalanche de previsões para o ano seguinte, proferidas pelas maiores autoridades do assunto.

 

Uma grande celebridade irá morrer de modo inesperado, outra terá sorte no amor e vai se casar. Um cantor famoso terá de tomar cuidado com sua saúde e os governantes terão de se preocupar com os rumos da nação.

 

O time do Corinthians terá de se preocupar com as possíveis contusões e durante uma grave crise seu técnico poderá ser demitido. O mundo terá um ano difícil, de muitas guerras, conflitos. O Sol nascerá amarelo e os porcos serão animais quadrúpedes.

 

Os gregos, e tantos outros povos, sempre adoraram este tipo de previsão. Mas, ao menos, eram mais criativos: liam o futuro nas entranhas de peixes e aves, no vôo dos pássaros, aspirando vapores alucinógenos das profundas da terra e ficando doidões.

 

O vidente de sucesso, historicamente, é aquele que prevê o previsível. Maquiavel, o pensador, em seu livro “O Príncipe” revertia a lógica de pensamento de sua época inserindo o componente da previsibilidade a partir do cálculo das ações humanas. Parte do sucesso do bom “príncipe” advinha justamente de sua capacidade em calcular o futuro.

 

Quando um “vidente” prevê que o mundo será assolado por guerras no ano seguinte nada mais faz do que indicar o óbvio, ou de elaborar um bom cálculo com os fatores que possuí em mãos. Se a situação no Oriente Médio, no Leste Europeu, no Sudeste Asiático ou na África vai de mal a pior, dia mais, dia a menos, vai estourar alguma merda. Se o vidente for ainda um pouco mais esperto e estiver munido dos gráficos que indicam o aumento sistemático dos conflitos armados pelo mundo nas últimas décadas então fará uma “previsão” ainda mais acertada.

 

Tem uma história divertida a respeito de uma precisão no mundo grego antigo. Certo general, ansioso por saber o resultado da guerra, foi a Delfos consultar o oráculo mais famoso de seu tempo. Depois de aspirar vapores alucinógenos o oráculo disse:

 

“Vai à guerra. Morrerá não voltará!”

 

O pobre general entendeu como uma assertiva de que voltaria para o seio de sua família ao final do conflito. Morreu.

 

Reza a lenda que o problema todo se deveu a colocação de uma vírgula. Entendeu o general a mensagem como: “Morrerá não, voltará!”

 

Mas, em verdade, a assertiva correta seria: “Morrerá, não voltará!”

 

De qualquer modo o “oráculo” teria acertado. Um professor meu, de história antiga, costumava citar histórias semelhantes a essa para ilustrar como a idéia de “racionalidade absoluta” no mundo grego clássico – a época do florescimento da filosofia – era uma meia verdade, posto que o pensamento grego clássico comportava ambas as coisas: a racionalidade para certas questões e a crença em outras, se embaralhando continuamente.

 

Paul Veyne, historiador do mundo grego, usava o caso de um grupo africano para exemplificar como funcionava o pensamento grego: Uma certa tribo da Etiópia, de pastores de cabras, acredita que os leopardos são animais cristão e, portanto, respeitam o domingo. Mas, mesmo aos domingos nenhum pastor dessa tribo deixa de vigiar seus rebanhos e guarda-los no cercado.

 

Os árabes têm um ditado que expressa essa mescla de crença e razão: “Pede á Alá, mas amarra teu camelo.”

 

Com relação às previsões a situação é análoga. É divertido faze-las, ouvi-las, mas ninguém quase se fia nelas cegamente. A não ser naquelas que, no nosso interior, faz soar o sinal de alerta, indicando que são mais do que “previsões”, são “cálculos”.

 

E é assim desde os tempos dos primeiros caçadores, há milhares de anos, que queriam saber se a caça seria abundante na próxima estação, mas, além de observar o vôo dos pássaros ou consultar o xamã, procurava saber se os animais tinham se alimentado bem, por onde haviam passado durante as demais estações do ano, se os recém nascidos tinham sobrevivido e, portanto, qual seria o tamanho da caça disponível.

 

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Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura Tags: , , , ,
16/08/2008 - 22:05

Inventando tradições: a Tocha e a Pira Olimpica

Os historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger organizaram há vários anos um livrinho genial hamado “A invenção das tradições”.

Nele os dois historiadores, e outros tantos colaboradores, contam como foram inventadas tradições que ao público em geral parecem ter centenas, milahres de anos, mas que, na realidade, são invenções bastante modernas.

Um dos exemplos clássicos, dado se não me engano pelo historiador Hugh Trevor-Hoper, é o das padronagens dos tweeds, os tecidos de lá que são utilizados na confecção dos kilts, os famosos saiotes escoceses. A tradição diz que as padronagens das linhas dos tecidos são características dos clãs escoceses (lembram-se do primeiro Highlander? Do protagonista correndo com seu saiote pelas terras altas?), como brasões, e que seriam quase imemoriais, vindas de tempos remotos, da formação das grandes famílias (os clãs). Conversa fiada, os tweeds e suas padronagens são invenção da época da Revolução Industrial, não distintivos da Idade Média.

Pois é, o mundo é cheio de “tradições” inventadas. As Olimpiadas, tais como foram definidas pelo Barão Pierre de Coubertin e seus sucessores, é uma fábrica de “tradições”. è hino olímpico pra cá, maratona encerrando os jogos para lá, bandeira de cinco aros, gregos abrindo a cerimônia e a dupla infalível: Tocha e Pira Olímpicas.

Tudo bem, tudo bem. Não tenho nada contra elas, até gosto das tradições inventadas, acho que dão um gostinho todo especial as coisas (para além, é claro, de seus aspectos essenciais como a distinção de grupos, a hierarquização de classes sociais, etc.). Gosto de tweeds e kilts, e até gosto do primeiro Highlander. Gosto da pira olímpica e da tocha que carrega o “fogo sagrado”, rsrs.

O fato é que o Barão de Coubertin teve a idéia de usar uma tocha que buscasse uma centelha do fogo sagrado na cidade de Olímpia na Grécia e a transportasse até o local dos jogos inspirado nos antigos rituais religiosos do mundo grego antigo.

Um historiador francês do século XIX, de nome curioso aliás, Fustel de Coulanges, produziu uma pequena jóia da literatura chamada “A cidade antiga”. Neste livro, um clássico absoluto sobre o mundo antigo, Fustel descreve o início do culto ao fogo doméstico, origem das cerimônias religiosas nas quais Coubertin se inspirou.

O fato é que o domínio do fogo pelo ser humano demorou muito tempo e de todas as tecnologias foi uma das mais decisivas na vitória da espécie na luta pela sobrevivência. A religiosidade dos antigos gregos e romanos, os quais em seus tempos primordiais eram nada mais do que grupos tribais, evoluiu mantendo os cultos ao fogo.

Cada casa mantinha uma pequena lareira com fogo que jamais se extinguia. É claro que para isso sempre havia alguém responsável pela observação, e se apagasse dá-lhe uma sova.

Esse fogo familiar era algo prático, necessário, mas também simbólico, representando a própria chama da vida da família.

Mas não era apenas entre gregos e romanos que o fogo possuia lugar privilegiado na religião: entre os hebreus, entre os hindus (de diversas linhagens religiosas), entre os nativos americanos também tinha – e tem – o fogo lugar central.

Nos rituais religiosos romanos, já em tempos de religião pública e não mais familiar, existiam sacerdotisas do fogo, as vestais, as quais opravam os práticas mágicas envolvendo esse elemento e possuiam a obrigação de jamais deixá-lo morrer.

Foi inspirado em toda essa importância e simbologia que os criadores das Olimpiadas da Era Moderna inventaram a tradição da tocha e da pira olímpica, as quais trazem parte da simbologia antiga.

Diga-se de passagem que achei que, neste ano, a tocha ia apagar a qualquer momento naquele troca troca no estádio olímpico. E lá ia um atleta chinês com uma tocha na mão que parecia rojão de São João e puxava uma trava igual uma granada. Pensava eu: Vai dar m…!!

Não deu, para a felicidade de todos e a manutenção das tradições inventadas.

Conto depois um dos mitos mais importantes para a cultura grega e que está diretamente associado ao fogo.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
11/08/2008 - 10:13

Olimpiadas e política

Uma coisa é o discurso, outra é a prática.

Em todas aberturas de Jogos Olimpicos o presidente do Comitê Mundial, bem como dos comitês organizadores, chefes de estado, etc, insistem que as Olimpiadas são um momento de confraternização dos povos, um disputa pela superação humana, a celebração do esporte como agregador da humanidade. Quase ninguém acredita nisso, principalmente os que discursam dizendo isso.

Ao longo dos mais de 100 anos das Olimpiadas da era moderna ficou mais do que comprovado o caráter político de tais jogos. Seja nos boicotes estadunidense e soviético durante os anos de Guerra Fria (boicotaram-se mutuamente em Moscou 1980 e Los Angeles 1984), seja pelo trágico sequestro e assassinato dos atletas israelenses em Munique, ou pela raiva provocada em Adolf Hitler quando o corredor negro estadunidense Jesse Owens venceu em Berlim, 1936, os corredores brancos, os jogos ganharam cores políticas cada vez mais fortes.

Nas últimas décadas as Olimpiadas demonstraram ainda uma outra face da política, num mundo não mais polarizado entre os EUA e a URSS: a disputa econômica.

Escândalos de suborno foram abafados para não manchar o “espírito olímpico”, mas é público e notório, por exemplo, o investimento que o Comitê Organizador dos jogos de Atlanta fez em gordas propinas pagas aos presidentes de muitas associações desportivas internacionais e delegados que votariam na escolha da cidade sede.

Receber uma Olimpiada, além da dor de cabeça, significa investimento de bilhões e outros tantos em gastos com turismo e deslocamento das delegações, sem contar no licenciamento de produtos.

Não acho isso um problema, mas deve ser dito, pois são fatores mais importantes do que a poluição de Beijing ou a violência do Rio de Janeiro na escolha de uma cidade sede.

O fato é que os Jogos Olimpicos mesmo no mundo grego antigo tinham um caráter político acentuado. Um das diferenças entre os jogos antigos e os modernos é o caráter religioso que os primeiros possuiam, não a ausência da política.

Ter um vencedor numa das provas em homenagem a Zeus significa glorificar a cidade de origem do mesmo, era uma prova da superioridade de seus cidadãos. A guerra, lá como cá, não se fazia apenas de armas em punho, mas com a criação do imaginário de “super-potências”, manifestadas na habilidade de seus representantes.

Nenhuma alusão direta ao que os EUA fazem com jovens como Michael Phelps, mas apenas direta. As coincidências não existem em absoluto.

Em suma: não é possível dissociar as Olímpiadas do caráter político que as acompanham, tanto no mundo grego antigo quanto hoje. Que o digam, agora, os chineses.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , ,
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