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31/03/2009 - 07:00

Golpe de 31 de Março ou 1 de Abril?

Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro no dia do Golpe de 64

O Golpe Militar de 1964 ocorreu no dia 31 de Março ou no 1 de Abril? Para os militares certamente no dia 31, para os opositores, muitos deles gozadores inveterados, ansiosos por uma oportunidade de desmoralizar os golpistas, 1 de Abril, dia da Mentira.

 Na realidade o golpe tivera início há praticamente dez anos, em 1954. Os rumos tomados pelo segundo governo de Getúlio Vargas, eleito democraticamente dessa vez, vinha preocupando setores das forças armadas e das elites brasileiras. A ênfase no trabalhismo, a busca do apoio nos sindicatos, as reformas e a consolidação das leis do trabalho fazia acender a luz vermelha para esses setores da sociedade.

Curiosamente, João Goulart ou Jango (derrubado no golpe de 1964), compunha o governo de Vargas e era um dos implementadores de seus planos. Em agosto de 1954 a situação chegara a níveis de tensão intoleráveis, com agressões cotidianas e virulentas na imprensa, desferidas sobretudo por Carlos Lacerda. O atentado mal sucedido ao jornalista tornou a situação crítica e o golpe de estado era iminente.

Na noite em que Vargas se suicidou o tema da reunião com seu conselho foi justamente a resistência ou não ao golpe que viria em poucas horas. Vargas foi contrário a resistência. O presidente entendeu que isso levaria o país a uma guerra civil de proporções inéditas. Suicidou-se.

Um militar que fazia parte do comando que preparava o golpe em 1954 e que participou do golpe realizado em 1964 confidenciou ao jornalista Zuenir Ventura (em seu livro 1964, o ano que não terminou)  que: Havíamos preparado um banquete e Vargas puxou a toalha da mesa.

A morte de Vargas gerou uma comoção nacional de proporções inéditas, ainda mais com a  divulgação de sua Carta Testamento na qual acusava as forças que agiam “contra o progresso da nação”. Mesmo os militares não seriam imprudentes o suficiente para desferir naquela situação um golpe contra o governo. Café Filho assumiu a presidência e a transmitiu serenamente a Juscelino Kubitschek.

O fato é que um governo sempre sabe quando um golpe está para ser desferido. O problema é se ele conseguirá articular forças suficientes para repelir o golpe ou para dissuadi-lo. Por isso a jogada de Vargas, além de preservar sua vaidade pessoal – que não podia tolerar a idéia de ser derrubado uma segunda vez do poder -, foi brilhante, pois, sem forças fez abortar o golpe preparado.

Em 1964 o golpe, retardado em dez anos, não foi abortado, nem repelido. Derrubou o governo de João Goulart e instaurou uma longa e infeliz ditadura que se estendeu até 1989.

Um dos diferenciais fundamentais entre 1954 e 1964 é que na segunda ocasião os militares contavam com o apoio popular de uma parcela significativa da sociedade, conservadora independentemente de sua classe social.

Desde a renúncia de Jânio Quadros os militares, políticos e membros das elites (empresários, industriais, clero) tentaram de toda forma impedir a posse de Jango. Estando na China uma das possibilidades aventadas pelos militares foi a de derrubar seu avião antes dele pousar. Mas a idéia não vingou. Prevaleceu a aprovação a toque de caixa de um absurdo regime parlamentarista que retirava das mãos de Jango parte significativa de seus poderes e os repassava ao Congresso e ao Primeiro Ministro, Tancredo Neves.

Mas, pouco depois, o regime foi novamente mudado e retornou-se ao presidencialismo, o que desencadeou uma marcha segura em direção ao golpe.

A imagem de Jango, a qual vinha sendo trabalhada pela imprensa de direita como a de um “comunista”, foi paulatinamente se disseminando entre as classes que em 1954 apoiaram Vargas. A classe média fechou posição contra o governo, ainda mais quando, acuado, João Goulart passou a se aproximar ainda mais de setores que o apoiavam, como organizações estudantis, o clero progressista, sindicatos.

Mas, no pesar da balança o prato cedeu contra o governo. A marcha organizada pela Igreja Católica, em defesa da família, da fé, da propriedade, foi um sinal claro de apoio aos que queriam derrubar o governo.

Jango ainda tentou buscar apoio mais enfático entre os trabalhadores e demonstrar força, como no Comício da Central do Brasil, mas não foi o suficiente.

No dia 31 de Março teve inicio o Golpe de Estado, o qual se concretizou no dia seguinte, 1 de Abril. Por isso, se o Golpe ocorreu em 31, foi em 1 que nasceu a ditadura brasileira.

Os membros do governo, pró-governo ou de partidos de esquerda – Jango, Santiago Dantas, Darcy Ribeiro, Brizola, Luis Carlos Prestes – muito rapidamente tiveram de procurar o exílio e parte deles não resistiu, como Dantas e o próprio Jango.

Assumia o poder o General Castelo Branco, justamente o que estivera no front da II Guerra Mundial ao lado dos estadosunidenses e que também coadunara com a derrubada de Vargas em meados da década de 1940. Formado pela Escola Superior de Guerra, Castelo Branco era tido como um “intelectual” entre os militares, pertencendo ao que ficou conhecido como o “Grupo da Sorbonne”, por ser formado na ESG.

Aparentemente pretendiam ficar pouco tempo no poder, apenas o suficiente para garantir a retomada do poder por grupos mais conservadores e o bloqueio das reformas sociais que beneficiavam – populisticamente ou não – as camadas mais pobres da população, mas, sobretudo, os trabalhadores.

Mas isso não ocorreria. A ditadura criou em seu interior suas próprias disputas pelo poder, a esquerda tentou resistir, dando mais munição para os extremistas. A linha dura tomou o poder e o Brasil mergulhou num ciclo de 25 anos de pesadelo.

Muitos defendem que a ditadura acabou em 1985 com a chegada ao poder de um civil (Tancredo Neves, não tomou posse, assumindo seu vice). Mas, esse político, ex-presidente da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, o braço político e civil dos militares e seus partidários), hoje presidente do senado – José Sarney – ainda não era uma realização da democracia, a qual perdera no ano anterior a luta pelas Diretas Já.

Somente cinco anos depois elegeríamos justamente Fernando Collor de Melo para a presidência, responsabilidade de 25 anos sem o exercício da democracia e resquício dos medos que alimentaram 1964. Pois a democracia é assim, um aprendizado cotidiano que leva anos, décadas para se consolidar. Mas que pode ser destruída num dia de azar e falta de bom senso. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , , , , ,
22/08/2008 - 10:04

Um certo Agosto, em 1954.

Um dos escritores que acho mais geniais é Ruben Fonseca. Conseguiu dar ao gênero policial uma cara brasileira, sem perder o charme do “noir”. Seus livros são uma mistura de trama, intriga, paixões avassaladoras, morte, corrupção, suspense, mas também de humor, sarcasmo, ironia. Ou seja, é um batalhão de sentimentos provocados a cada página, muitos deles contraditórios, o que dá mais gosto ainda a leitura.

Comecei a ler Ruben Fonseca pelo menos óbvio: A grande arte, livro envolto na magnificfa arte do “percor” (perfurar e cortar, o que já insinua a história). Depois vieram Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, Romance noir, O selvagem da ópera, Buffo e Spalanzani. Demorou até chegar no seu livro mais famoso e mais influente: Agosto.

Talvez isso se deve a minha mania de fugir ao consensual. Se dez amigos me dizem que doce de abóbora é bom, com certeza vou pedir doce de mamão. Ok, sei que é em alguma medida burro, mas é instintivo, não chega nem a ser “estilo” pois não tem nada consciente nisso.

Muitas e muitas vezes peco tempo e prazer com essa mania. Foi assim com Agosto, do qual privei-me do prazer da leitura durante anos.

O genial de Agosto, entre outros tantos motivos, é o fato de Fonseca enredar realidade e ficção numa trama na qual chega-se a impossibilidade de distinguir uma coisa da outra. Se não foi real era bem possível que fosse assim.

Foi muito sagaz da parte do escritor escolher para o romance um dos fatos mais nebulosos da história recente do Brasil: o suicídio do presidente Getúlio Vargas.

Getúlio chegou ao poder em 1930 pela primeira vez. Liderando tropas revoltosas derrubou o governo da chamada “República do Café com Leite”, representada pela alternância de políticos mineiros e paulistas na presidência do país.

Vargas conseguiu amarrar entorno de si diversos grupos descontes com o encaminhamento do Estado brasileiro: antigos membros do movimento tenentista, estados que se viam alijados do poder, grupos sociais em ascenção.

Para o cientista político Boris Fausto a Revolução de 30 não foi uma “revolução”, pelo fato de não representar uma mudança radical no estado das coisas. O que aconteceu, em sua opinião, foi uma readequação, um acomodamento de novas forças no meio das que já existiam, ou seja, a entrada de novos grupos políticos dentre aqueles que já controlavam o poder no Brasil.

Seja como for, a década de 1930 foi marcada pela onipresença de Vargas no poder brasileiro: primeiro como presidente temporário (após a revolução/golpe), depois como presidente “legal” (após 1934), finalmente como ditador (com o golpe do Estado Novo em 1937).

Após o fim da II Guerra Mundial a situação política se inverteu significativamente, sobretudo com a influência de militares que combateram o fascismo e o nazismo ao lado dos estadunidenses. Neste mesmo momento Vargas foi derrubado do poder e o Brasil retomou rapidamente seu caminho “democrático”.

Depois de uma rápida presidência do General Dutra, em 1950, Vargas retornou a presidência da República, e mais uma vez eleito pelo voto popular.

Mas a resistência a Vargas continuava sendo absolutamente ampla entre as elites (militares, parte da classe política), e entre grupos sociais ou políticos que haviam sido perseguidos por ele (comunistas, judeus, jornalistas, etc). Dentre esses destacava-se a figura de Carlos Lacerda, inimigo encarniçado de Vargas.

Os primeiros anos do mandato foram relativamente tranquilos, mas, depois de 1953, a situação passou a se agravar visivelmente. A imprensa era cotidianamente bombardeada com declarações de Lacerda e a aproximação continua do presidente com sindicatos e trabalhadores desagradava a muitos.

A situação se tornou insustentável quando Lacerda sofreu um atentado na rua Toneleros no Rio de Janeiro. Ele próprio sobreviveu, porém um oficial da marinha a paisana que fazia sua segurança morreu, alimentando o ódio dos militares e dando munição a Lacerda na mídia.

Em meados do mês de Agosto de 1954 era claro o clima de golpe de estado que se armava no Rio de Janeiro. Vargas podia estar quase só, mas ainda tinha ouvidos espalhados pelo país e pelos quartéis. O envolvimento direto de sua guarda pessoal e de seu irmão no atentado a Lacerda lhe implicavam diretamente.

No dia 24 uma reunião no palácio da Catete reuniu os homens de confiança do presidente. O prédio já estava cercado de barricadas esperando pelo pior. Perguntaram-lhe se queria que organizassem a defesa dele convocando tropas fiéis. Vargas disse que não. Saiu da reunião e se recolheu ao quarto, sem dar muita explicação.

Pouco depois houve o desfecho fatídico. Vargas havia dado fim a sua própria vida com um tiro no coração.

Embora haja bastante gente que tenha teorias diferentes para o ocorrido (que ele teria sido assassinado em seus aposentos, etc), não existe nenhuma prova disso.

O fato é que seu vice assumiu o governo. O país, no dia seguinte, beirou a guerra civil com enfrentamentos nas ruas, queima de jornais. Mas, com o tempo, voltou a relativa normalidade. Os militares, que planejavam um golpe, tiveram de voltar aos quartéis com receio de desencadear um conflito generalizado no país.

Anos depois, um militar da reserva dando entrevista a Zuenir Ventura disse: Havíamos montado um banquete e Getúlio puxou a toalha da mesa.

O fato é que o golpe de estado de 1964 sobre o presidente João Goulart era um golpe com retardo de 10 anos. Havia sido pensado e planejado para a tomada do poder pelos militares em 1954, mas o suicídio de Getúlio adiou seus planos. Os próprios golpistas reconheciam isso. É claro que muita água rolou entre o 24 de Agosto de 1954 e o 01 de abril de 1964, mas boa parte daquele golpe estava dormindo há dez anos.

E, de quebra, os acontecimentos de Agosto de 1954 forneceram material para um dos maiores livros policiais da literatura brasileira.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , ,
05/08/2008 - 09:57

Agosto, mês do desgosto?

Diz o ditado popular que “Agosto é o mês do desgosto”.

Uma lista das tragédias ocorridas neste mês seria extensa, mas não mais extensa do que uma lista de tragédias ocorridas em qualquer outro mês do ano, de fato temos desgraças suficientes para preencher todo o ano.

Mas, reforçando a idéia de ser o “mês do cachorro louco”, Agosto efetivamente foi o mês de alguns eventos que chocaram o mundo no século XX.

Acrescente-se a isso o fato de ser o primeiro século da humanidade com larga cobertura jornalistica, por radio e televisão principalmente, os quais forneceram sons e imagens chocantes dos eventos. Até então as pessoas imaginavam as tragédias ou podiam contar com pinturas realizadas sob encomenda para os jornais.

A própria fotografia demorou para se tornar algo pratico, movel e rápido para poder acompanhar a velocidade dos ocorridos.

Uma das imagens mais chocantes, ao menos para mim, é a do grande cogumelo nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima (hoje seria bem pequeno perto dos artefatos criados desde então).

Lembro-me do dia 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova Iorque foram destruidas pelos ataques terroristas, que cheguei para minha aula de História Medieval na USP e nosso professor disse que não iria se manifestar a respeito, posto que se alguém inventou o terrorismo no século XX esse alguém foram os Estados Unidos quando lançaram duas bombas atômicas sobre populações civis e sem capacidade de defesa.

Obviamente que tal pensamento é algo distorcido, mesmo porque um ato de barbárie contra populações civis não justifica outro.

Eric Hobsbawm, o historiador inglês, comentava em seu livro “A era dos extremos: o breve século XX” que de cada dez mortos em conflitos durante o século nove deles estavam desarmados. Assim como as populações de Hiroshima, Nagasaki e Nova Iorque.

De qualquer forma foi no dia 6 de Agosto de 1945 que o avião Enola Gay vôou sobre o Japão e lançou “Little Boy” (o “menininho”) em Hiroshima.

O resultado conhecemos bem. Centenas de milhares de mortos desimados quase instantaneamente (256.000), outras centenas de milhares sequeladas nas décadas seguintes, muitos com efeitos nefastos da radiação em si e em seus descendentes. Poucos dias depois foi a vez da cidade de Nagasaki.

Os técnicos e cientistas estadunidenses (com ajuda dos melhores cérebros europeus) sabiam bem o potencial destrutivo da nova arma, desenvolvida, aliás, para contrapor o poder alemão.

Mas rapidamente, diante da derrota alemã, o Japão se tornou o alvo, inclusive como vingança pelo ataque a Pearl Harbor. Além do mais enviava-se uma mensagem para a União Soviética.

Dizem, alguns, que os aliados não teriam coragem de lançar uma arma tão maligna sobre a Europa, mas sobre asiáticos os estadunidenses se sentiram mais a vontade. Difícil de provar, o jogo de circunstâncias e a cronologia dos eventos não demonstra com clareza tal possibilidade, mas é uma situação tão crível que mesmo que não seja verdade muita gente passou a crer nisso.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
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