Um certo maio de 68
Zuenir Ventura deu ao seu livro testemunho/reportagem o título de 1968, o ano que não terminou, justamente pelo fato de entender que tantos e tão intensos foram os acontecimentos desse ano que ele – para o bem e para o mal – jamais terminou. Hoje, passados 41 anos é possível que, ao menos em parte, ele tenha finalmente acabado.
1968 realmente foi um ano intenso. Foi um ano de Beatles, de Mutantes, de Festival, de Guerra do Vietnã, da “Primavera de Praga” (uma espécie de levante libertário, civil e pacífico na antiga Tchecolosváquia contra a opressão da influência do comunismo soviético no país), do lançamento d’O Bebê de Rosemery (um marco na história do cinema de suspense), de Barbarella, para nós brasileiros foi o ano do AI-5 (o golpe dentro do golpe de estado no Brasil), de Roberto Carlos em ritmo de aventura, enfim, desde as primeiras horas o ano prometia.
Mas, efetivamente, em termos mundiais o “evento do ano”, aquele que marcou definitivamente 1968, muito provavelmente foi o chamado “Maio de 68″ da França.
Em linhas gerais seria razoavelmente fácil definir: um levante popular iniciado por estudantes, mas logo apoiado por uma infinidade de grupos ligados as classes populares francesas, que praticamente colapsou o país durante semanas e obrigou o presidente, Charles De Gaulle, a se refugiar numa base aérea francesa na Alemanha. Mas a dimensão, a gravidade e a importância do Maio de 68 só podem ser compreendidas quando observadas ao longo de muito tempo.
O século XIX, apesar de ter sido considerado o “Século das Luzes”, coroado pela “Era Vitoriana” (do máximo do luxo burguês encarnado pela longeva rainha Vitória da Inglaterra), também foi o século da formação e consolidação do pensamento social ligado as classes trabalhadoras. A Comuna de Paris, no final do século, encarnava o choque frontal entre a classe trabalhadora e a burguesia industrial, levando a cidade de Paris a relembrar os momentos mais terríveis de suas ocupações por exércitos inimigos. A Comuna foi tão traumática para a as classes proprietárias que a famosa Reforma Urbana de Paris teve como objetivo abrir espaços para impedir que novas barricadas e aglomerações viessem a ocorrer.
Décadas depois, no final da I Guerra Mundial, em 1917, pela primeira vez um levante de trabalhadores e camponeses venceu as forças regulares do Estado na Rússia e deram início a Revolução Russa, a qual foi o gérmen criador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com esse precedente as nações européias dirigidas pela burguesia passaram a ver com horror a possibilidade da expansão da revolução dos trabalhadores e não medir esforços para impedir que isso ocorresse.
Esse foi um dos motivos pelos quais França e Inglaterra não impediram veementemente o rearmamento da Alemanha e a intervenção nazi-fascista na Guerra Civil Espanhola 1936-1939 (travada entre o governo republicano, legitimamente eleito e formado por socialistas, comunistas e anarquistas, além de democratas simplesmente, contra os nacionalistas de feição fascista liderados por Franco). O medo de que a Espanha se convertesse em mais um pais comunista foi maior do que a ameaça nazista, e deu no que deu.
A derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã à União Soviética – rompendo o tratado de não agressão entre os dois países – acendeu no governo soviético uma postura muito mais agressiva em relação a expansão do comunismo e de seus aliados do que até então. O fato é que a II Guerra Mundial foi encerrada com uma divisão radical na Europa entre as nações do oeste lideradas pela Inglaterra e França e o bloco socialista – a pejorativamente chamada Cortina de Ferro -, formado pelos países que passaram a viver sob a influência direta dos soviéticos.
Em alguns países o final da II Guerra Mundial marcou um período de reestruturação, de reconstrução e de desilusão tão profundo que, por incrível que pareça, governos fortes e praticamente ditatoriais se estabeleceram. Na França, a mais ofendida das nações aliadas (e que caiu de joelhos diante do nazismo graças ao colaboracionismo de parte substancial de suas elites), surgiu a figura do General Charles De Gaulle, herói da resistência francesa aos alemães.
Apesar de ter lutado contra o nazismo e a invasão alemã, De Gaulle estava longe de poder ser considerado um “democrata” ao pé da letra, e seu governo, que se estendeu por décadas, foi marcado pela linha dura e pela pressão sobre as classes populares ou grupos libertários.
Mas, ao mesmo tempo, no leste europeu crescia a indignação contra a opressão política soviética. O fato é que parte dos grupos políticos articulados de esquerda estavam tão fartos do controle conservador de grupos como o de De Gaulle quanto estavam do estalinismo soviético (como o partido comunista Tcheco, o qual foi a a base para a Primavera de Praga, uma série de ações políticas liberalizantes, interrompidas pela invasão militar soviética).
Mas isso se espalhava para além das fronteiras francesas ou do leste europeu, a tensão criada pelo antagonismo político e ideológico dos blocos socialista e capitalista penetrava em praticamente todos os recantos da sociedade e em cada segundo das vidas. O ar realmente havia se tornado irrespirável.
Maio de 1968 talvez tenha sido o momento da gota d’água dessas tensões, disparada por uma sequencia de ações duras e impositivas do governo de De Gaulle sobre os estudantes.
O movimento começou com a paralização de estudantes secundaristas, mas rapidamente outros grupos de estudantes aderiram, depois trabalhadores, intelectuais, a classe artística. A cidade de Paris foi tomada por barricadas – apesar das reformas do século XIX – e as universidades se tornaram quartéis dos “rebeldes”. O país parou e a reação do governo praticamente instaurou um clima de guerra civil. No limite do levante o presidente se refugiou na base aérea.
Mas o grupo rebelde encontrou os mesmos problemas que os republicanos espanhóis entre 1936 e 1939: a falta de coesão do movimento, o qual reunia comunistas, anarquistas, socialistas, todos com desconfianças mutuas, e a falta de apoio do Partido Comunista, e até mesmo dos soviéticos. Desunidos e sem apoio o movimento ruiu tão inesperadamente como começou. De Gaulle retomou as rédeas do poder e adotou uma linha ainda mais dura do que até então, só rompida com a chegada dos socialistas ao poder, liderados por François Miterrand, anos depois.
Ainda resta uma sensação no Maio de 1968 de que um dos vetores do movimento fora uma espécie de catarse coletiva, a explosão de um sentimento de opressão contra um sistema, contra um ambiente que era muito maior do que simplesmente o governo francês. Para muitos, Maio de 68 foi o último levante popular legítimo, um epílogo dos movimentos libertários que tomaram corpo no século XIX.
De qualquer modo, durante anos os eventos de maio na França rondaram as cabeças dos governantes e, paradoxalmente, ofereceram argumentos para o recrudescimento da direita e do conservadorismo ao redor do mundo, somente atenuados décadas depois.
Segue o link para um video com as imagens do conflito: http://www.youtube.com/watch?v=BcDCsCGdOm4&feature=related
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea Tags: Charles De Gaulle, Comunismo, Estudantes, França, Maio de 68
