23/09/2008 - 10:17

Quando era moleque no colégio – há quem pense que ainda sou, opiniões alheias…- me borrava de medo quando no meio da aula batia aquela vontade de ir ao banheiro.
No meu colégio, o então glorioso EEPSG Visconde de Taunay em Santo André, os banheiros ficavam – e devem ficar ainda, no subsolo. Para irmos até eles tinhamos de descer até quatro lances de escada, dependendo do pavimento em que se estivesse. As únicas coisas que funcionavam perto deles eram a sala da Educação Física, o Almoxarifado e o Grêmio.
O Grêmio jamais fora usado e havia se transformado em deposito de instrumentos da fanfarra do colégio. O almoxarifado era utilizado somente para guardar produtos de limpeza, ou seja, quase nunca havia alguém ali. A Sala de Educação Física somente tinha agitação na hora das aulas, de modo que o nosso banheiro/catacumba ficava quase o tempo todo vazio, gelado, as vezes escuro e aterrorizante.
É claro que quem habitava nosso banheiro era a famosa Loira do Banheiro, uma figura de história confusa, que havia morrido em circunstâncias obscuras, e que adorava assombrar banheiros escolares masculinos. E eu não era o único, meus colegas todos se borravam na hora de ir, embora adorassem amedontrar os companheiros necessitados.
Certamente as Loiras do Banheiro tinham uma associação, posto que todo, absolutamente todo colégio tinha sua loira do banheiro residente. Aliás, elas deviam fazer parte de uma associação maior, com todas as lendas urbanas que se espalham pelo mundo a fora.
Além da Loira do Banheiro havia – e deve haver ainda – a Loira do Cemitério, a que rouba seus órgãos depois de te arrastar para uma noitada, há as pessoas que te sequestram e contaminam com sei lá o quê, enfim, o grupo é amplo e diversificado, mas sempre aterrorizante.
Há um estudioso das mitologias, já falecido, de quem gosto profundamente: Joseph Campbell. Há especialistas muito mais consagrados do que ele, como Mircea Eliade, mas Campbell tinha um jeito todo especial, didático, cativante de esclarecer a natureza e as funções da mitologia na vida humana.
Seu livro O Poder do Mito, para mim, é um clássico absoluto dos estudos da mitologia, ainda que seja somente uma entrevista concedidae depois transcrita.
Uma das idéias de Capbell é que a mitologia é algo dinâmico e criativo (dai um de seus livros, As máscaras de Deus: ensaios de mitologia criativa).
O mito é um elemento que surge na explosão cultural que foi promovida pela espécie humana há dezenas de milhares de anos. Nessa explosão criativa – que na realidade foi um contínuo processo – nos tornamos “humanos”, nos diferenciando cada vez mais de nossos outros irmãos animais. Religião, sociabilidades complexas, artefatos cada vez mais refinados, construção de estruturas simbólicas, etc, etc. Uma revolução.
Muito provavelmente a mitologia estava neste pacote criativo, e em muitos casos associada as religiões nascentes. As pinturas em cavernas, os enterramentos e os raros artefatos não utilitários (os que não são claramente ferramentas de corte, de rompimento, agulhas, arpões, flechas) insinuam a criação de todo um universo de simbolos, de crenças, de práticas que transitam entre a religião e as mitologias.
Para Campbell, ele próprio um seguidor de Carl Jung, os mitos e os sonhos possuem características semelhantes e intercambiáveis: O mito é o sonho coletivo, e o sonho é o mito individual.
O mito não é – como as vezes se ouve dizer – uma explicação para algo que não entendemos, como se fosse apenas a criação de povos ignorantes. Muito distante disso. Os mitos dão sentido para questões profundas que apenas a materialidade dos fatos não é capaz de suportar.
Por quê preciso matar outro ser vivo para me alimentar e sobreviver?
Essa é uma questão que muito provavelmente passava pela cabeça do caçador da Era Glacial, atocaiado entre a tundra européia, num inverno gélido, com pouca comida e toda a natureza lutando pela vida. Não basta entender que é uma questão de fornecimento de energia, ela também é transcendente, ainda mais para este caçador que se via como parte da natureza e não o comandante dela como em nossa cultura contemporânea.
Então é necessário buscar uma explicação, compreender o ato que ao mesmo tempo é criador e destruidor. Os povos que ainda eram caçadores até algumas décadas atrás nos forneciam indícios de como deviam operar estas sociedades antigas de caçadores do paleolítico, de mesolítico.
As máscaras de animais, usadas em rituais, as vestimentas dos xamãs, feiticeiros e outros elos de ligação entre os mundos dos homens e do mágico.
Essa memória coletiva permaneceu na humanidade e é continuamente recriada. Que o diga a extensa mitologia ligada ao universo agrícola, com seus ciclos de morte e renascimento expressos nas estações do ano, com seus deuses da fertilidade, com os sacrifícios rituais.
Mas para onde foi esse aspecto da alma humana quando passamos a habitar em cidades cada vez mais tecologicas, quando nos separamos do mundo natural, quando esquecemos os oficios milenares do caçador e do plantador?
A mitologia migrou conosco. Ela passou a invadir novos espaços, passou a habitar os computadores, os becos das cidades, os bares.
Uma das séries mais bem sucedidas da história do cinema, Guerra nas Estrelas, foi toda criada sobre sistemas mitológicos, e não casualmente orientados por Joseph Campbell, por quem Geoge Lucas nutria grande admiração.
Todos os personagens principais da trama encarnam figuras mitológicas que se encontram em inúmeras culturas humanas, e que possuem milhares de anos de história: o herói (Luke Skywalker), o herói decaído (Darth Vader), o herói sem caráter (Hans Solo), os bufões (H2D2, CP3O), a luta entre o bem e o mal (que na realidade podem inverter seus papéis ou confundir o combatente), e assim por diante.
Mesmo os nomes recorrem a mitologia milenar: o caminhador das estrelas, o Pai Escuro (Dark Father, Darth Vader).
Por isso continuamos a criar nossas mitologias, mesmo as lendas urbanas, porque elas todas estão no nosso inconsciente coletivo, fazem parte de nossa estrutura cultural milenar. As formas podem mudar – se são lobisomens ou Loiras do Banheiro -, mas a essência e as funções permanecem vivas. E isso garante que continuaremos a criar continuamente nossas mitologias, porque não basta explicar a materialidade do universo, sempre haverá a dúvida e uma fronteira distante a ser buscada.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Sem categoria
Tags: Folclore, História, mitologia
03/08/2008 - 08:21
Durante esses últimos anos tive o privilégio de poder viajar pelas mais diversas regiões do país. Estive no sertão nordestino, em várias de suas regiões litorâneas, no centro-oeste durante quase um ano todo, nos vales do Paraíba e do Ribeira em São Paulo, nas Minas Gerais, na região serrana do Rio de Janeiro, no extremo sul e no extremo oeste, desci os rios Negro e Amazonas.
Muitas vezes, às vésperas de sair a campo, nas regiões mais remotas do país, eu ouvia alguém dizer que ou eu ia encontrar uma realidade muito rústica, quase um retrato de um tempo passado, ou que encontraria uma situação plenamente desconfigurada, uma imitação de segunda categoria das grandes cidades brasileiras. Em resumo, que eu encontraria culturas em processo de desagregação ou, senão, materializações das histórias de Monteiro Lobato.
Ariano Suassuna, o grande escritor, disse certa vez que viu durante décadas pesquisadores irem ao nordeste e dizerem que o cordel estava morrendo. Pois todos eles haviam morrido e o cordel continuava vivo. Ariano é um defensor ferrenho das culturas populares e um fiel de sua capacidade de sobrevivência.
Tal defesa de Ariano não vem de uma questão somente ideológica, mas de uma ideologia constituida a partir da observação cotidiana das culturas populares.
E nisso concordo plenamente com ele.
Jamais encontrei por onde andei nem uma coisa nem outra das que me diziam que eu encontraria: nem lugares onde a cultura popular havia morrido, nem lugares onde estivesse congelada no tempo.
As culturas são dinâmicas, isso é a essência delas e sua garantia de sobrevivência. Se não fosse assim ainda estaríamos a lascar pedras como nossos ancestrais de centenas de milhares de anos. Cultura é essencialmente uma arte de mudar. Mas, apesar das mudanças, as culturas são capazes de manter o essencial, o que ainda serve, é útil e faz sentido.
O problema para aqueles que vêem o tempo todo uma “morte das culturas populares” é que aprenderam em manuais antigos “como” eram essas culturas e não “porque” ou “de que modo” essas culturas se processavam diariamente. Se prenderam as formas e não aos coteúdos. Ai ficaram a procurar gente que crê em Caiporas e Curupiras, que ainda tem as maleitas descritas por Monteiro Lobato para seu Jeca Tatú.
Talvez para o imaginário os espaços tenham ficado mais estreitos. Hoje há mais luz, mais televisão, menos fé em alguns aspectos, mais ciência e sobrou menos espaço para as chamadas “crenças populares”. Mesmo assim sempre vi nas comunidades uma fé tradicional muito arraigada, mesmo quando as pessoas mudam de igreja ou de religião.
Conheci gente também que mora em grandes cidades, que estudou, que trabalha em indústrias e vê televisão, mas morre de medo das “visagens” que ocorrem aos viajantes noturnos no extremo norte ou no centro-oeste.
Como Ariano Suassuna tenho certeza que as culturas populares, ou se quisermos chamar de “folclore”, jamais desaparecerá. Simplesmente porque é a essência da sobrevivência das culturas, daquilo que faz os humanos serem humanos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, Patrimônio histórico
Tags: Culturas tradicionais, Folclore, Patrimônio cultural, Preservação
30/07/2008 - 20:16

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como “sobre folclore”, mas vou justificar a inclusão.
Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.
Preferia o termo “cultura popular” ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.
Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma “pedra de toque” dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.
Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto “incrédulo” ou “ateu” pela de autor “medieval”, inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.
A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.
Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.
De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.
Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre “folclore”, ou, como preferia, “culturas populares”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da arte, História da cultura
Tags: Bibliografia, Cultura, Folclore, Mikhail Bakhtin, Rabelais
28/07/2008 - 09:37

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.
Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.
Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.
Mas, divergências a parte, ambos os movimentos – os modernismos paulista, pernambucano – partiam de um mesmo pressuposto.
Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.
Ao longo do século XIX o que chamaríamos de “produção cultural” brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.
Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura – excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis – reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.
Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma “identidade nacional”.
É claro que conceitos como “identidade” e “nação” são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.
A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as “raízes” brasileiras naquilo que havia antes na “invasão cultural francesa” do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.
Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os “francesismos” haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.
Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.
Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.
Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como “folclore” brasileiro.
E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da “antropofagia cultural”, do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.
Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a “antropofagia”. Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.
De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era “brasileira”. De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente “atrasada” para se tornar uma espécie de “vedete cultural”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da arte, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil
Tags: Antropofagia, Cultura Brasileira, Folclore, Mário de Andrade, Modernismo, Movimento Modernista, Semana de 22
24/07/2008 - 14:37

Algumas dicas de leitura para quem quer conhecer um pouco mais sobre “folclore” ou sobre “cultura popular”, como prefiro.
Estar acompanhado por bons livros, com boas reflexões sobre um tema é uma ótimo ponto de partida para qualquer incursão sobre um universo de conhecimento.
Tanto no Brasil quanto no exterior o tema “folclore”, bem como “cultura popular”, foi fartamente discutido ao longo de quase dois séculos de pensamento sobre o assunto. Coisas muito bacanas surgiram e outras nem um pouco. Mas é sempre melhor falar das coisas boas que foram produzidas sobre um assunto.
No caso brasileiro, sem a menor dúvida, o principal nome quando se trata de folclore e cultura popular é Luis da Câmara Cascudo. O escritor se debruçou sobre o tema ao longo de toda uma vida e produziu uma obra absolutamente fantástica. Nenhum outro pensador brasileiro produziu uma obra tão abrangente sobre nossas culturas populares.
Algumas de suas obras se tornaram clássicas, tanto pela força das idéias, quanto pela extensão do trabalho ou mesmo pelo pioneirismo.
Civilização e cultura é uma densa investigação, a moda da antropologia e da arqueologia, sobre o nascimento e a formação da cultura como traço distintivo da espécie humana. Hoje, passadas muitas décadas de sua publicação, arqueólogos e antropólogos do mundo todo continuam engalfinhados no tema, mas a análise de Cascudo não deve nada, pela época em que se escreveu, aos trabalhos mais recentes.
História da alimentação no Brasil é um trabalho pioneiro, numa época em que alimentação era tema somente de cozinheiras. Sua incursão pelo universo da cultura do que vai a boca é fantástica. Até o relançamento da obra, há alguns anos, o livro era vendido a preço de ouro nos sebos. leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema alimentação.
Dicionário do folcore brasileiro é uma obra de referência a qual sempre retorno, atualizado e aumentado recentemente – para a nova edição – o livro continua a ser um dos melhores salva-vidas para quem precisa de uma informação correta e rápida a respeito de alguma manifestação folclorica brasileira.
Mas há muito mais, Cascudo escreveu obras sobre artigos culturais brasileiros específicos (jangadas, redes, cachaça), sobre tecnicas vocais (Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Locuções tradicionais, etc), e muito mais.
Muita gente acusou Câmara Cascudo de ser direitista, autoritário e adepto do Integralismo. Muita gente foi, e, nos anos de 1930 no Brasil, era difícil dicernir com clareza os lados políticos em disputa.
Independentemente das cores políticas de Cascudo sua obra é leve, generosa, sem qualquer traço de preconceito ou discriminação. Pelo contrário, sempre foi um entusiasta do caldeirão cultural brasileiro.
É a primeira e uma das mais fortes referências para quem quer saber mais sobre folclore.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da cultura
Tags: Antropologia, Folclore, História da cultura
22/07/2008 - 21:17

Pois é!! Quem pensou que eu iria fazer um posto sobre o folclore com uma imagem do Saci Pererê, ou da Iara (jamais esquecendo a importância indelével dessas figuras para a constituição da cultura nacional, rsrs), do Curupira ou do Boitatá, se enganou redondamente.
E isso tem um porquê.
Apesar de achar que quem chegou até este blog já sabe, tenho de referenciar: folclore é um neologismo da língua portuguesa, formado a partir de duas palavras inglesas, folk e lore. Literalmente isso significa “saber do povo” ou algo bem próximo disso segundo cada linguísta.
O problema não está exatamente nas palavra em si, mas nas livres interpretações que se deram a ela ao longo do tempo. Nos Estados Unidos da América um tipo de música muito influente é o chamado “folk”, o qual influenciou muitos músicos, como Bob Dylan, Janis Joplin, Simon and Garfunkel, James Taylor, etc.
Mas se colocamos esses músicos ao lado do Saci Pererê (pois ambos estão associados ao prefixo “folk”) um certo estranhamento vai ficar. Por quê?
Pois quando usamos “folk” para designar um estilo musical ele nos remete a idéia de “popular”, “raíz”, quando “folk” está associado a mentalidades, técnicas, práticas, aprendemos a associá-lo a idéia de “popular”, “curioso”, “antigo”.
Nada mais equivocado.
Eu evito usar o termo “folclorico” ou “folclore” para designar conhecimento ou mentalidades das populações. A questão é relativamente simples: se folclore é aquilo que diz respeito ao conhecimento popular, e popular é aquilo que vem do povo – e eu me considero “povo” – então teria de considerar que tudo o que faço ou penso é “folclore”.
Mas, em geral, costumamos achar que “folclore” é aquilo que se remete ao universo de povos tradicionais, como sertanejos, caipiras, caboclos, etc. Coisas como comidas tradicionais, lendas, mitos.
Em verdade essa definição de “folclore” é relativamente recente, data do século XIX, quando pesquisadores começaram a investigar – em busca de uma idéia de “origem”, de raíz” – o passado de seus povos, sobretudo na Europa.
Mas, ao mesmo tempo em que queriam encontrar raízes de um passado que lhes desse um sentimento de pertencimento, uma identidade, eles queriam se distanciar disso, queriam se mostrar como modernos, avançados. Dai foi sendo construída essa idéia, de que o folclore é algo que é popular, mas é algo de origem, do passado, algo que nos dá uma certa identidade, mas do qual não compartilhamos mais, senão como lembrança.
Essa idéia se tornou algo tão forte, dão difundido que mesmo depois de quase um século de crítica a ela ainda não foi derrubada.
Mas, se formos entender “folclore” como o “saber popular” das duas uma: ou mudamos nossa forma de ver o que é popular e como nós nos relacionamos com isso (enquanto “povo”", ou encontramos uma palavra um tanto melhor para definir as coisas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura
Tags: Antropologia, Folclore, História da cultura
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