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19/07/2009 - 07:05

Marshall Berman volta a cena com livro de “memórias históricas”

Aqui, no Brasil, temos pouca tradição de leitura de historiadores estadosunidenses, o que se justifica, em parte, pelo fato de nossos cursos de humanidades terem se formado a partir das escolas européias, sobretudo a francesa, a qual se manteve – e mantém em alguma medida – distante ou em oposição as escolas do mundo anglófono. Os textos dos historiadores dos EUA – é bem verdade – tem formas bastante distintas daquelas com as quais estamos mais acostumados, e isso colabora para que poucos deles sejam conhecidos e lidos entre historiadores brasileiros.

 

Há também – ainda – um ranço ideológico, construído durante os anos de ditadura no Brasil e de intervencionismo estadosunidense, no mundo todo, e que foi re-alimentado em tempos recentes pelas políticas internacionais de Bush I e Bush II.

Mas Marshall Berman tornou-se uma exceção quando a difusão dos autores dos EUA era ainda mais restrita, nos anos de 1990.

Seu livro de estréia por estas bandas, o qual garantiu um lugar de respeito num meio bastante hostil, discorria deliciosamente sobre o que chamou de “aventura da modernidade“. Tudo que é sólido desmancha no ar tomava não apenas o trecho famoso do texto de Karl Marx, mas o sentido “moderno” do pensamento marxista em sua origem, o sentido libertário, e da liberdade compreendida como moderna, vanguardista.

Tornou-se bibliografia essencial de quase todos os cursos de história e ciências sociais das universidades brasileiras, sendo metralhado quase que exclusivamente por professores mais ”fundamentalistas”, confortáveis com textos de autores oriundos do bloco soviético.

Eu fiz um caminho inverso, pois embora conhecesse de “orelha” o livro famoso de Berman comecei por outro livrinho simpático seu: Aventuras no marxismo. Coletânea de ensaios do historiador no qual – com singular leveza – mesclava suas experiências pessoais com história e uma fina investigação do cotidiano.

Depois da leitura desse livro fui ao Tudo que é sólido… o qual consolidou minha opinião a respeito de Berman.

É claro que alguns traços da biografia do autor concorreram para essa habilidade em escrever sobre temas duros de modo sutil, divertido, compartilhando com o leitor suas conclusões como se fossem amigos de bar, confidenciando idéias, teorias, interpretações.

Berman nasceu no Bronx, em Nova Iorque, filho de família judia que tinha um pequeno negócio em Times Square. Contudo, quando sequer havia chegado aos quinze anos, seu pai faleceu de um infarto fulminante e o restante de sua adolescência foi invadido por obrigações de adulto. Entrou na universidade e estudou com Isaiah Berlin, outro dos raros historiadores dos EUA a conseguir penetrar no restrito círculo acadêmico europeu.

Berman fez sua carreira ao longo dos anos da Guerra Fria, entre as tensões da Guerra do Vietnã, o conflito com Cuba e a luta pelos direitos civis no sul dos EUA. Sempre foi um libertário e sente-se um novaiorquino em sua essência.

Para muitos acadêmicos isso que tomo como virtudes de sua escrita – compreensíveis para seu histórico pessoal – são vícios imperdoáveis, oriundos de uma “falta de consistência”, de “rigor”, enfim, um estilo “ensaístico que não merece ser levado a sério.

Berman, depois de algum tempo distante da prateleira de lançamentos das livrarias brasileiras, ressurge com outro livro delicioso, no qual a micro história – a dele e de figuras particulares – se mistura, imbrica, com a macro história – a de Times Square e da própria cidade de Nova Iorque.

Um século em Nova Yorque, espetáculos em Times Square   é um livro semelhante a Aventuras no marxismo, mas diverso pelo fato de ter um fio condutor que o conduz através do conjunto de textos escritos ao longo de sua vida. Todos eles retomam a história de Times Square, uma das ruas mais famosas do mundo e um dos símbolos de Nova Iorque e dos Estados Unidos, mas sempre a partir de aspectos inusitados, que revelam os bastidores do século que foi chamado de “Americano” (o século XX).

Fotografias de anônimos, propagandas de jornal, publicidades, as luzes da Broadway, as casas comerciais, mega corporações, familiares vão se sucedendo ao longo desse século e iluminando os sentidos daquele lugar, oferecendo a percepção dos “porquês” de Times ser um símbolo da modernidade, inclusive em suas contradições, as quais podem conter o sentimento libertário de artistas e militantes com a tentativa de controle das ruas, do espaço “público”, por empresas como a Disney.

Em verdade – como o autor mesmo reconhece – é uma viagem às suas memórias, particulares, familiares, lembranças recolhidas ao longo de sua vida e que, agora, tomam uma dimensão histórica a medida que elas revelam “de dentro” a trajetória de milhões de pessoas que no decorrer de um século passaram pelo coração de Nova Iorque. Fazendo negócios, indo aos espetáculos ou, simplesmente, como seus pais, “tomando um banho de luzes” na luminosa Times Square.

Novamente Berman nos traz um livro que materializa uma das idéias centrais do historiador francês Marc Bloch (morto durante a II Guerra Mundial): Se não houvesse nenhuma outra utilidade para a história ainda restaria o fato de que é uma ótima diversão. Em suma: se não houvessem outros motivos, a leitura do livro de Berman valeria pelo puro prazer que proporciona.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea Tags: , , , , ,
01/07/2009 - 06:58

Como os Estados Unidos se tornaram a “nação da liberdade”

Hoje os soldados americanos começaram a se retirar do Iraque, depois de seis anos do mais pleno fracasso, desperdício de vidas, recursos, bens materiais, paz regional. E sempre com a alegação de que o exército dos Estados Unidos da América estavam levando a “liberdade” para um país “sufocado por um ditador”.

 

Depois da II Guerra Mundial o discurso estadosunidense a respeito da “liberdade” foi cada vez mais fruto de risadas irônicas da comunidade internacional. Ao final da grande guerra os EUA mantinham a imagem de defensores da liberdade e de responsáveis pela queda do nazi-fascismo, ao lado da Inglaterra e da França. Demorou décadas até que a história do front oriental – sobretudo da batalha de Stalingrado – viesse plenamente a tona e se desvelasse o quanto a derrota perante os soviéticos foi um golpe irreversível nas tropas alemãs. Até lá os EUA continuaram como “paladinos da liberdade”.

Também nas décadas seguintes o crescente intervencionismo estadosunidense nas questões nacionais mundo a fora começou a minar sua imagem perante a comunidade internacional, culminando com a trágica e vexatória Guerra do Vietnã. Com cada vez mais poder um suas mãos, e controlando virtualmente boa parte dos organismos internacionais, os EUA cresceram sua arrogância e sua indiferença diante da opinião alheia, o que acabou por desqualificar quase que completamente sua auto-proclamada “terra da liberdade”.

O visitante que chega a Nova Iorque mal consegue imaginar a cidade sem a “Estátua da Liberdade”, símbolo nacional sem que seja “oficial”, o que certamente deve provocar alguma sensação de paradoxo na cabeça de alguns: como pode ser este o país da “liberdade”?

A questão é que, contextualmente, os EUA foram, um dia, o país da “liberdade”, expresso na sua “memória nacional”, em seus símbolos, marcos, lugares, histórias.

Até o dia 4 de julho de 1776, quando os representantes das treze colônias da Inglaterra publicaram sua declaração de Independência, tal rompimento entre colônias e metrópoles era quase que inimaginável e nenhuma ação até então obtivera qualquer sucesso efetivo.

O chamado “antigo regime” estabelecera durante séculos a relação entre as terras conquistadas nas Américas, África, Ásia, Oceania e suas metrópoles na Europa. Uma relação assimétrica, hierárquica, em aspectos econômicos, jurídicos, burocráticos, mas também sociais e culturais. As “colônias” – como o Brasil, Angola, Moçambique, os territórios espanhóis, os ingleses no Caribe, etc. – eram inferiores as metrópoles em praticamente tudo, contudo, representavam as parcelas mais “polpudas” das rendas das Coroas européias.

Na ocupação dos cargos administrativos e militares, na cobrança dos impostos, na concessão de benefícios, nas liberdades, as colônias raramente conseguiam estabelecer situações que fossem ao menos equivalentes a das metrópoles.

Em casos específicos as demandas dos colonos eram respondidas com violência ou com mais apertamento dos administradores, com a imposição de leis, tributos, regras ultrajantes, cujo objetivo era não somente produzir lucros mas, também, demonstrar a inferioridade e submissão das colônias.

Quando as treze colônia sda Inglaterra inverteram o jogo, com ajuda dos franceses, e romperam seus laços com a metrópole o que era uma possibilidade remota, uma sonho quase, passou a ser considerada um caminho viável e se tornou uma referência para gerações de lideranças regionais. Nessa época não era um ato de subserviência ou de ausência de princípios se “inspirar nos EUA”.

Apesars da inúmeras atrocidades que os os estadosunidenses cometeram para expandir seu território – como nos episódios da conquista do Novo México, na dizimação dos povos indígenas -, coisas que, em verdade, todas as nações americanas cometeram, os Estados Unidos se conformaram ao longo do século XIX como um território aberto às possibilidades. Imigrantes irlandeses, italianos, eslavos, seguiam aos milhares em busca de oportunidades, em busca de “fazer a América”. Também o fato de em meados do século o país ter se livrado da escravidão – após a Guerra da Secessão -, embora não do racismo, manteve sua fama de terra da liberdade (em certos aspectos).

Foi essa fama que os governos, e a população dos EUA, alimentaram durante as décadas. Mas, como diriam os iluministas, ”o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. O crescente poder dos EUA a partir do início do século XX (pois esse país “potência” que conhecemos é um fato do século XX) foi acompanhado também da crescente perca de alguns dos princípios que fundaram o país, e também da crescente indigestão internacional em relação aos atos dos governos dos EUA.

Algumas regiões dos EUA mantiveram esse perfil mais “libertário”, como Nova Iorque, mas o sul e o centro do país, compostos pela população mais conservadora, mais preconceituosa e menos informada a respeito do mundo, passou a ter cada vez mais importância da política nacional, carregando para a atuação dos EUA  na esfera internacional uma série de procedimentos que adoram internamente. A Estátua da Liberdade teve de se conformar com a convivência de selas, botas e chapéus de vaqueiro, como nos últimos oito anos.

Boa parte do desafio do atual presidente é justamente recompor esses princípios e recuperar a credibilidade dos EUA como “país da liberdade” tanto internamente quanto perante a comunidade internacional.

Mas há ainda outro problema: o que os EUA entenderam como “liberdade” durante esses dois séculos é muito diverso do que hoje parte da comunidade internacional entende como tal. O direito de portar seu rifle, de ter impostos baixos, liberdade de comércio, de escolha de governantes parece muito pouco diante dos desafios que o mundo enfrenta e que espera que os EUA passem a enfrentar conjuntamente. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea Tags: , , ,
04/06/2009 - 07:31

OEA tenta se reconstruir quatro décadas depois

Boa parte das instituições que organizam o mundo hoje, em suas relações multilaterais, é fruto do pós guerra. Em post anterior eu insistia no quanto a tensão entre a Coréia do Norte, sua vizinha sulista e seus aliados (EUA e Japão) refletem problemas que surgiram há muitas décadas, e que foram acentuados depois da II Guerra Mundial. Da mesma forma, mundo a fora, outros tantos conflitos e organismos são ainda resquícios de um mundo traumatizado e polarizado pelo conflito mundial.

 

Basta ver o caso do conflito israelo-palestino, ou árabe-israelense, do leste europeu, das antigas repúblicas soviéticas, e, entre nós americanos, entre Cuba e Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), entre outras foram uma resposta a um cenário internacional que havia visto serem desarticulados quase todos os organismos pré-guerra (como a Liga das Nações). Nas Américas foi criada a Organização dos Estados Americanos, a OEA, para tentar ser o fórum de debate continental.

Mas boa parte desses organismos sucumbiu diante de um controle ideológico e econômico que negou as expectativas iniciais de um ambiente plenamente democrático. Na ONU, por exemplo, a presença no Conselho de Segurança (o órgão máximo, em verdade, da instituição, embora no papel seja a Assembléia Geral) das nações vencedoras da II Guerra Mundial (Inglaterra, França, EUA, China e União Soviética, hoje substituída pela Rússia) criou uma situação na qual as centenas de “sócios” tem que se articular a um dos dois lados do Conselho: EUA, Inglaterra e França de um canto e China e Rússia do outro (embora, às vezes, os franceses divirjam de ingleses e estadosunidenses e chineses e russos raramente concordem plenamente). Sem essa articulação é praticamente impossível ver suas demandas observadas dentro da ONU.

Com isso a ONU acabou se tornando uma espécie de “corda” no cabo de guerra da bipolaridade, embora, eventualmente, houvessem situações nas quais blocos assumiam posições divergentes. Pelo menos, na ONU, havia “outro” lado para contrabalancear o jogo político. O mesmo não podia ser dito a respeito da OEA.

Nas Américas, após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos se consolidaram como nação hegemônica e no rompimento das relações diplomáticas entre eles e o governo de Cuba, em 1962, foi realizada dentro da OEA uma operação de rolo compressor a qual levou a expulsão do país socialista de seu quadro de sócios. Somando às sanções e embargos que foram sendo implantados passo a passo, Cuba se viu obrigada a aderir ao bloco liderado pela URSS para sobreviver. O isolamento da ilha acabou por incentivar ainda mais as medidas extremistas do governo socialista na manutenção de seu regime político.

Hoje, quando a Assembléia da OEA determinou o convite ao governo cubano para que volte ao organismo, os governos dos países americanos sinalizaram mudanças significativas que mostram a possibilidade de uma América mais plural.

A primeira mudança foi a constituição de independência diplomática de boa parte dos países, os quais deram o “aval” para a campanha pró-Cuba na OEA. Países como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai foram os avalistas desse processo, e com isso garantiram que países menores, como a Guatemala, pudessem também se manifestar livremente, sem a pressão arrogante dos EUA da década de 1960. Sem esse aval de países democráticos (ok, vão dizer que nossa democracia é falha, etc, etc, mas, como disse Churchil: A democracia é o pior dos regimes, tirando todos os outros.) a pressão de nações ”aliadas” de Cuba, como a Venezuela, Bolívia, Equador, não teriam qualquer chance no conjunto americano.

Vale lembrar que também a pressão desse bloco de países – Brasil, Chile, Argentina, etc. – somente foi possível porque retomaram há quase vinte anos seu caminho democrático e sua estabilidade social e financeira (apesar de todos os problemas que ainda os afligem).

Em segundo lugar tal medida da OEA só foi viável pois os EUA estão enfraquecidos parcialmente e com problemas mais sérios a serem resolvidos. Sua participação na economia mundial despencou na última década, tendência que parece se consolidar agora com a crise (que para Maria da Conceição Tavares tem sua gênese no desequilíbrio da balança comercial entre os EUA e a China, e a favor dos orientais).

Por fim, o próprio governo dos EUA está mudando. A eleição de Obama foi uma sinalização clara do povo americano que eles querem “soluções”. O fato é que até a gestão de George W. Bush a população estadosunidense chancelou a força bruta como método de convencimento do restante do mundo. Mas ela somente trouxe mais problemas, nenhuma solução: o país ficou mais pobre, mais vulnerável, mais antipático, mais distante do futuro e das demais nações do mundo.

A política do governo Obama tem sido a de flexibilizar as relações, abrir o diálogo, mas com a difícil tarefa de não deixar transparecer alguma espécie de “fraqueza”, como se eles estivessem “abrindo a guarda” ou “pedindo água”.

Do lado cubano a saída de cena de Fidel Castro (o qual continua emitindo seus pareceres construídos na década de 1960 e 1970, mas sem qualquer relevância política) possibilitou ao governo da ilha aceitar a reaproximação com nações que ignoraram o país durante décadas (o que não significa que muito em breve veremos cubanos e estadosunidenses sentados na mesma mesa de jantar). E, tanto na ilha quando na “América” (como ainda gostam de se referir a sua terra os estadosunidenses) a geração que passa a “apitar” no jogo da política é uma que nasceu após o fim da II Guerra Mundial, e no fim da chamada “Guerra Fria”. Não é a toa que um dos grupos que mais apoiou a candidatura de Obama foi o de exilados cubanos, desejosos de que, com a morte de Fidel, EUA e Cuba consigam conviver em paz e que famílias separadas há muitos anos possam finalmente se reencontrarem, sem ter quer que fugir em balsas de bóias.

Por isso, apesar do governo cubano ter dito que a readmissão na OEA não lhe interessa (e isso faz parte do jogo de “discursos”), a decisão de fazer o convite foi efetivamente histórica e a OEA dá o primeiro passo real, público, para que seja efetivamente o que jamais foi: a Organização dos Estados Americanos e não a Organização dos Estados Unidos da América.  

 

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina Tags: , , , , , , , , ,
28/05/2009 - 07:00

Efeitos retardados da Guerra Fria

Nos últimos dias o conflito entre as duas Coréias, que povoa o noticiario internacional já há alguns anos, tomou proporções de tensão somente vistas no começo dos anos de 1950 quando o conflito armado eclodiu matando aproximadamente 3 milhões de coreanos de ambos os lados, além de soldados das Nações Unidas enviados para promover a retomada de Seul, capital sul-coreana invadida pelo exército do norte.

 

Em verdade a atual tensão entre as duas Coréias mistura elementos atuais e questões mal resolvidas, decorrências retardatárias da Guerra Fria e mesmo do neo-colonialismo europeu.

Em geral há duas correntes de interpretação da chamada “Guerra Fria”. A primeira delas, mais conhecida do público em geral, defende que a guerra política, econômica, ideológica entre o bloco capitalista e o bloco socialista realmente tinha potencial para descambar para um conflito armado de proporções inimagináveis, o qual, muito provavelmente, acabaria com a vida humana na Terra tal como a conhecemos. A segunda corrente de interpretação, defendida pelo historiador inglês Eric Hobsbawm, diz que – na realidade – a Guerra Fria, por ser regulada por arsenais nucleares equivalentes (o que gerava o que se chamou de Garantia de Destruição Mútua, GDM), jamais teve chance de se concretizar, o que levou as duas grandes potências, União Soviética e Estados Unidos, a deslocarem os conflitos para as periferias do mundo, financiando guerrilhas, exércitos, milícias, etc.

De fato, tanto na Coréia quanto mais tarde no Vietnã, foi esse quadro que se viu e que “financiou” o conflito armado. No pós II Guerra Mundial ambos os blocos não mediram esforços para aumentar suas áreas de influência, mas sem se comprometer oficialmente. O norte da Coréia, que faz divisa com a China, foi fortemente influenciado pela presença dos comunistas, ao passo que o sul sofreu pressão estadosunidense. Em 1950 o conflito entre as duas áreas – a socialista e a capitalista – estourou com um rápido avanço do exército do norte que tomou Seul. Liderados pelos EUA tropas da ONU desembarcaram na península (naquela época tropas das Nações Unidas se envolviam em combates diretos, coisa que foi abolida posteriormente, por isso hoje chamadas de “tropas de paz”). O contra-ataque conseguiu empurrar o exército socialista de volta para o norte e consolitar a linha do Paralelo 38 como área de separação das tropas inimigas.

Os soldados dos EUA e da Grã Bretanha tentaram avançar sobre o norte, mas foram rechaçados pela intervenção dos chineses e soviéticos, sustentando as tropas norte coreanas. Diante disso criou-se um impasse no qual nenhum dos dois lados tinha forças suficientes para garantir a vitória sobre o adversário. Dois anos depois, em 1953, as duas Coréias assinaram um cessar-fogo, mas a guerra efetivamente jamais foi declarada encerrada.

Parte dessa política no sudeste asiático foi promovida pela intervenção de nações européis ao longo dos séculos XVIII, XIX e começo do XX, naquilo que conhecemos como “neo-colonialismo”. Mesmo processo que levou a ocupação da Índia, da Birmânia, do Camboja. Essa presença européia acentuou – via de regra – os antagoniosmos regionais, os quais existiam por si só. Grupos de adesão aos europeus e outros de resistência passaram a se confrontar diretamente e assim se mantiveram mesmo depois da saída dos colonizadores, processo que se encerrou em grande medida justamente com a II Guerra Mundial.

Por isso os grupos antagônicos passaram a se alinhar com socialistas ou capitalistas, muitas vezes por pura conveniência material: quem oferecesse melhores recursos recebia a adesão. Esse movimento, aliás, também ocorreu com as nações africanas.

Essa tensão se arrastou durante décadas e perdeu força quando no período entre 1989 (a queda do muro de Berlin) e 1991 (fim da União Soviética) o chamado mundo “bipolar” se tornou muito mais complexo, com infinitos atores no cenário. Na Europa o socialismo deixou em grande medida de ser um adversário e muitas naçõe spuderam se reconciliar depois de décadas (é claro que outras implodiram depois do fim da força que as mantinha  unidas desapareceu, como foi o caso da Tchecoslováquia e da Iugoslávia).

Mas, no oriente, a presença da China manteve ainda resquícios dessa bipolaridade, até memso porque se os elementos ideológicos perderam força o antagonismo econômico entre China e EUA ganhou, o que fez os orientais manterem sua política de braço forte na região.

Mas, no caso da Coréia do Norte, há ainda motivos recentes, criados depois dos eventos da Guerra Fria. A manutenção de líderes políticos obtusos, num país sem democracia e que investiu mais dinheiro em armamento do que em educação criou um paradoxo diante do vizinho do sul, o qual se tornou uma potência econômica, com níveis altíssimos de instrução e cidadania. Por mais absurdo que isso possa parecer o conflito entre as duas Coréias é um conflito também entre dois países que estão em “tempos” distintos de existência: um luta para desenvolver tecnologia avançada, o outro para ter petróleo e alimento. É como a cena do exército comunista chinês sendo recebido pelos resistentes tibetanos armados com lanças.

Mas, sabendo disso, os líderes norte-coreanos adotaram uma língua que todos entendiam bem nas décadas de 1950, 1960, que é o “atomiquês”, e que naquela época funcionava.

É claro que o desafio explícito dos norte-coreanos à ONU e a quase toda comunidade mundial também se assenta no conhecimento do fracasso da política internacional dos EUA nos últimos dez anos, a qual colecionou fracassos um atrás do outro (Afeganistão, Somália, Iraque). Também se fundamenta no fato de que as potências que tem mais poder e influência desrespeitam as regras que querem que os outros cumpram, tal como os EUA desrespeitaram o Conselho de Segurança da ONU ao invadir o Iraque e Israel desrespeita ao não cumprir nem uma única resolução do mesmo órgão nas últimas três décadas. Mas poderíamos ainda acrescentar a França, que realizou testes nucleares há poucos anos na Polinésia, ou o governo inglês que apoiou os EUA em todas as circunstâncias, ou o Japão, que depois de cinquenta anos de pacifismo, decidiu se “empanar” com os estadosunidenses na aventura iraquiana, situação absolutamente chocante.

No final das contas o que vemos é um país miserável empregando as mesmas manobras que as grandes potências usaram até hoje e a única línguagem que crêem que os faça serem ouvidos. Infelizmente que mais pagará por isso são so vizinhos do sul em especial, e a humanidade como um todo.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do oriente Tags: , , , , , , , , ,
07/11/2008 - 07:48

Sobre dias históricos: a eleição de Barack Obama

O historiador Georges Duby, do qual já falei aqui noutras ocasiões (e nem preciso dizer o quanto gosto de sua obra), escreveu há algumas décadas um livro chamado O domingo de Bouvines.

O domingo de Bouvines é a data de uma batalha importante para a história da França. Naquele dia o gérmen da monarquia francesa unificada venceu no campo de batalha um conjunto de inimigos que punham o reino e sua unificação em risco.

No final do dia, com a batalha vencida, dizia Duby, já havia a percepção de que se havia presenciado um dia histórico, o qual seria lembrado por muitas e muitas gerações.

Nos últimos anos, não poucos, aliás, vimos surgir uma corrente que levou a análise da história a um campo de subjetividade jamais visto. A ponto de questionar a própria existência de uma “história”. Para isso invocaram o fato de que um “evento” histórico é construído e só se torna uma “data”, um “momento” digno de ser lembrado graças a construção disso ao longo do tempo.

O caso do 7 de setembro no Brasil é um exemplo disso, e também comentei mais demoradamente a respeito do tema na época. No dia 8 de setembro não havia uma percepção de que o dia anterior teria sido um “dia histórico”, isso somente se consolidou ao longo de muito tempo e de muitas disputas.

Mas, nem sempre é assim. E é o caso contrário que Duby invocava ao falar do “domingo de Bouvines”. É o mesmo caso do 11 de setembro. É claro que a ampla cobertura dos meios de comunicação ajudam a criação de “datas históricas”, “momentos históricos” quase que simultaneamente ao seu desenrolar. Contudo, acredito, que alguns desses eventos são inquestionavelmente memoráveis e serão marcos históricos.

Obviamente que isso não é certamente bom, determinados momentos históricos eu bem que deixava passar e não faria a menor questão de ser testemunha ocular, como os atentados aos EUA.

De qualquer forma creio que o que o mundo viu na terça feira é um evento da ordem do domingo de Bouvines, ele nasce histórico, e por uma série de motivos.

Existem as questões mais claras, mais óbvias, como o fato de um homem negro ter sido eleito presidente da maior potência do planeta, a mesma potência que há algumas décadas enforcava e queimava negros em praças públicas em alguns de seus estados. A mesma potência na qual líderes negros como Martin Luther King foram assassinados e que majoritariamente manda pessoas negras para suas cadeiras elétricas e injeções letais.

Também pese o fato de ter eleito para a presidência um homem que tem o sobrenome Hussein, o mesmo do ditador derrubado do Iraque, inimigo do atual presidente, alvo de uma das maiores farsas da história contemporânea (aliás, só uma breve digressão: me incomoda muito o fato de que Sadam Hussein tenha sido derrubado e preso justamente por crimes que não cometeu, enquanto os que cometeu levou para o túmulo).

Obama também traz outras novidades, nenhuma delas tão decisiva quanto as de suas origens etnicas e sociais.

Mas há, além do mais, uma dimensão conjuntural da eleição de Obama que a faz histórica: em nenhum outro momento a oposição entre EUA e árabes foi tão intensa e, desde 1929, não havia uma crise tão profunda na economia e sociedade estadunidenses. E justamente nessa conjuntura o povo dos Estados Unidos optou não pelo aprofundamento do radicalismo e do isolamento, mas por um candidato que sinaliza com uma política mais inteligente e mais diplomática.

Ou seja, no fundo de seu túnel escuro, o povo dos Estados Unidos escolheu olhar para frente, romper com estígmas seculares, se unir em torno de alguém que é mais próximo do resto do mundo. Parece que, finalmente, os Estados Unidos da América decidiram chegar ao século XXI, com oito anos de atraso, ok, mas chegaram.

Como sempre os processos de transformação são realizados no meio de imensas dores. Certo é que Obama não será menos estadunidense do que os presidentes anteriores, e para muitas das questões não será mais democrático do que Bush, mas, em linhas gerais, faz o mundo respirar mais leve.

Devo reconhecer que eu, que não sou nem um pouco fã de inúmeros traços culturais, morais, éticos de parte da população estadunidense, fiquei positivamente impressionado com a capacidade de renovação e renascimento desse povo.

Ainda mais se lembrarmos que nos Estados Unidos existem repúblicanos ferrenhos, democratas ferrenhos, os quais quase nunca mudam de posição, e uma população que pende ora para um lado, ora para o outro, e foi justamente essa parcela do povo estadunidense que fez um caminho ao encontro do resto do mundo, diferentemente da politica de choque das republicanos nestes últimos oito anos.

Em suma, podemos ter certeza, vimos um dia histórico para todo o mundo, pois a segregação e a intolerância não são privilégios dos EUA, e esse eu creio que valerá a pena ter vivido para ver.

Para encerrar uma piadinha de um jornal mineiro em sua manchete de quarta feira: Entra Obama e sai O Bomba.

Genial.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, Sem categoria Tags: , , , ,
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