07/03/2009 - 14:28
Não vou iniciar este texto falando do bizonho e medieval caso do arcebispo de Olinda e do Recife (que saudades de Dom Helder Câmara), pois, como diria Madre Tereza de Calcutá: Se fizerem uma passeata contra a guerra não me chamem. Mas se fizerem pela paz estarei lá. Certas idéias – como a guerra – são tão abjetas que me recuso sequer a pensar nelas. A idéia de excomungar alguém e tentar torcer a lei de todos mediante a vontade de uma única fé ou credo é tão abjeta que me recuso a pensar nela.
Mas o caso todo me faz ter orgulho de viver em um Estado laico, que tem católicos, evagélicos, luteranos, budistas, muçulmanos, judeus, xintoistas, praticantes do candomblé e seja lá mais o que for, e que não são suas leis religiosas que controlam a vida de todos.
Imagine se um hinduísta ordenasse a punição ao bispo porque ele esta comendo um bife (afinal os bois são sagrados para hinduistas)? Ou se um judeu condenasse um monge por comer um inocente torresminho? Ou se um tribunal islâmico ordenasse chicotear em praça pública o padre que cometeu um ato de pedofilia?
Infelizmente a Igreja Católica (como um todo, não determinadas alas progressistas ou indivíduos em particular), enquanto organização, está voltando a pé da Idade Média, com seus horrores de obscurantismo, ignorância, desumanidade, que foram – graças a Deus!!!!, amém – superados pelo Iluminismo e pelo Renascimento.
Desde os primeiros tremores que começaram a desmontar a estrutura social, mental, econômica da Idade Média até as revoluções burguesas – no século XVIII – foram séculos e séculos de luta contra absurdos que eram cometidos pela nobreza e pelo clero (em verdade quase dois desdobramentos da mesma matriz social), e que determinaram a ida de muitos às fogueiras da Inquisição. Giordano Bruno queimou por “ser contra a fé”, assim como Galileu teve de renunciar em tribunal às suas idéias para não ter o mesmo fim.
No Brasil a divisão final entre Igreja e Estado somente ocorreu com a República, em 1889, mas, mesmo assim, a Igreja Católica continuou a influenciar muito o Estado brasileiro. O golpe de estado em 1964 somente foi possível pois as alas conservadoras da Igreja deram seu aval aos militares, garantindo o apoio de parte significativa da população.
Mas o tempo passa e, como diriam os judeus, a Roda da Fortuna gira, e nos horrores da Ditadura após 1968 a Igreja sentiu a dor na própria carne ao ver seus frades, freiras e padres serem presos, torturados e mortos.
E o fato mais absurdo é que no cristianismo original, primitivo, muitas das idéias que são elencadas pelos “doutores em teologia” (invocados pelo infeliz bispo) simplesmente não existiam. O pecado, o inferno, o purgatório são invenções que foram sendo acrescentadas ao longo dos séculos, quase todas na Idade Média (se quiserem comprovar basta ler Jean Delumeau, O pecado e o medo, publicado, curiosamente, por uma editora católica, a Edusc, ou senão O nascimento do purgatório).
É claro que o fato de um Estado ser laico não garante sua isenção total dos preceitos religiosos, afinal as decisões são tomadas diante das pressões realizadas por grupos e seus representantes (como as chamadas “bancadas” no Congresso). Mas, ao menos, a lei não é escrita por eles e não sem longas discussões, que refletem ainda o “perfil” da população.
Já disse Alexis de Tocquevile que a democracia é a “ditadura das massas”, e por isso a vontade de minorias, às vezes, é atropelada pelo desejo da maioria. E o desafio de um Estado é conseguir garantir o respeito às posições minoritárias sem que isso se torne um caos de particularismos, mas também não se torne um rolo compressor de minorias.
Apesar das deficiências do Estado laico e dos desafios da democracia, como diria Churchil, “é o pior regime, excetuando-se todos os outros”.
Nesse caso a Igreja Católica foi a minoria e o direito da criança, a opinião da ciência, dos direitos humanos de matriz iluminista e o endosso do Estado laico (embora o bispo, com apoio do Vaticano, tenha tentado desqualificar a soberania da lei e a autonomia do governo brasileiro) prevaleceram sobre a vontade de meia dúzia de homens que não conseguiram ver o mundo mudar, pois estavam fechados em alguma masmorra da Inquisição.
Para encerrar. Sinal dos tempos: o arcebispo de Olinda e Recife já foi Dom Helder Câmara, homem ilustrado, inteligente, digno, um verdadeiro defensor da vida, da liberdade, da igualdade. Num dia, com um homem preso e sendo torturado em Pernambuco, pediram a intercessão de Dom Helder. Ele ligou para o delegado e pediu pelo homem, que disse ser seu irmão. O delegado espantou-se e disse não saber que Dom Helder tinha um irmão. O religioso respondeu: Mas é meu irmão, de mães diferentes, mas filhos do mesmo pai.
O atual bispo, provavelmente, não crê nas mesmas coisas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura
Tags: Aborto, Arcebispo Olinda e Recife, Catolicismo, Direitos Humanos
13/02/2009 - 00:13
Cara (o) amiga (o), está chocado com a afirmativa que encabeça este texto? Das duas uma: espero que esteja revoltado e refute radicalmente a idéia, mas tomando posturas que efetivamente demonstrem, na prática, que é uma pessoa livre de tais males. Dois: se esta revoltado porque acha a afirmativa injusta e jamais identificou nenhuma atitude prteconceituosa e racista no Brasil então é hora de fazer uma reflexão mais profunda.
Estava lendo agora pouco um texto que o companheiro de IG, Luiz Nassif, postou em sua página, remetido a ele por um de seus leitores. O leitor pregava cautela, muita cautela, mas muita, muita, muita cautela ao investigar o caso da brasileira agredida na Suiça (que ele confunde com Suécia, apesar de dizer que mora na Alemanha!!). De acordo com ele é normal mulheres grávidas passarem por distúrbios emocionais, o que poderia ter levado a moça a se auto flagelar, se bater e provocar o aborto das crianças.
Este caro leitor está voltando da Idade Média a pé. Lá, nos tempos da Inquisição, era comum e razoavelmente aceito que o testemunho de uma mulher valesse metade do testemunho de um homem (até porque elas, oras bolas, foram feitas de uma reles costela). Como diria um amigo meu, em tom de galhofa: Quietas suas costelas!
O fato é que não há nada de engraçado nisso e sinceramente me embrulhou o estômago o comentário do leitor.
Recorrentemente as mulheres eram acusadas de feitiçaria, bruxaria, e em grande parte das vezes essas acusações vinham acompanhadas de conteudo sexual. Ou seja, acusavam-nas de práticas demoniacas associadas a sua sexualidade. Mulheres que se relacionavam com demônios, que enfeitiçavam os homens, que faziam horrores com seus poderes vitais.
O cristianismo medieval catalizou a pior parcela de muitas tradições culturais para criar uma sociedade sexista na qual a mulher podia ser vítima de quase tudo e sua sexualidade era constantemente vítima de mutilação e perseguição.
O comentário postado na página de Nassif é de caráter medieval ao associar a desconfiança da veracidade do caso à “disturbios emocionais” causados pela gravidez da moça. Antes da criação da psicanálise milhares de mulheres eram submetidas a tratamentos horrendos, com choques elétricos, banhos frios, confinamentos, lobotomias, por serem diagnosticadas como “histéricas”, doença que atribuiam aos “furores sexuais”.
Não bastasse um leitor se posicionar deste modo outros tantos vieram no seu encalço, reforçando suas iguais desconfianças. Todos homens. Coincidência ou preconceito? Porque não perguntamos às mulheres se elas quando ficam gravidas tem desejos de se mutilar, tacar a cabeça na parede, se bater até abortar?
Tratando do racismo, Florestan Fernandes costumava dizer que o brasileiro “tem preconceito de ter preconceito”, ou seja, não só é preconceituoso como é incapaz de reconhecer isso (o que seria um primeiro passo rumo a redenção).
No texto anterior expus o quanto o conceito de “barbárie” é socialmente construído e o quanto ele comporta dois pesos e duas medidas. Parece-me que minha insinuação estava correta no que diz respeito ao nosso “auto-engano”, a nossa tendência em concordar com acertivas absurdas, somente porque aprendemos há muito que “povos civilizados” não fazem certas coisas.
Dois comentários de leitores, tão medievais em suas mentalidades quanto o autor do texto: um deles dizia que a imprensa brasileira esta superestimando o caso pois precisa desviar o foco da crise econômica. O outro dizia que há mais nazistas no Brasil do que lá, e que aqui sim seria perigoso alguém ser vítima de tal agressão.
Pasmem!!
Pode ser que a história seja inventada. Sim, pode. Tudo é possível nesse mundo, mas, havemos de concordar que não é digno de uma polícia duvidar do testemunho de alguém que sofreu tal violência, e ainda destratar a representante diplomática do Brasil. Mas, para esses leitores, isso seria normal se tivesse ocorrido no Rio de Janeiro, não na Suiça.
Alguns alegavam que o Brasil anda “criando problemas” com países amigos, com os quais mantemos boas relações, tal como a Itália. Será que a memória de alguns é tão curta a ponto de não se lembrar do descaso da Suiça e da Itália em todos, todos os casos de pedido de investigação de lavagem de dinheiro sujo, evasão de divisas, acobertamento do crime organizado, da corrupção?
Será que as pessoas não se lembram que a Suiça se manteve neutralmente guardando dinheiro nazista e estadosunidense ao mesmo tempo? Isso é ético? Mas, não falamos, afinal os suiços são “civilizados”, tais coisas não ocorrem por lá, num dos maiores paraísos de dinheiro sujo do planeta.
Ok, ok, são problemas diferentes, falávamos de um caso de agressão. Então porque mencionaram crises econômicas e a posição do Itamaraty?
O pior de tudo é que o brasileiro – como categoria, genérico mesmo – tem preconceito com negros, nordestinos, pobres, mulheres e, o que é esquizofrênico, temos preconceito de nós mesmos, a ponto de atribuir o direito a dúvida ao outro, mesmo quando somos as vítimas. Em qualquer situação civilizada a vítima é vítima até que se prove o contrário – para isso existe a polícia e a justiça -, mas, quando é um caso que envolve brasileiros e estrangeiros o brasileiro é “vítima suspeita” até que seja irrefutável a culpa do outro. Não esqueçamos o caso Jean Charles ou vamos dizer que a polícia londrina foi correta no caso e na apuração das responsabilidades?
O fato é que a moça agredida além de ter sido agredida cometeu dois crimes ao nascer: nascer brasileira e nascer mulher. E desses crimes alguns brasileiros (da Santa Inquisição?) não a absolvem.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, Sem categoria
Tags: Agressão, Direitos Humanos, Neo-nazismo, Preconceito, Racismo, Suiça
12/02/2009 - 00:11
Existem situações que são capazes de chocar até mesmo os mais insensíveis. Não me considero um dos mais “frios”, mas, quem mora no Brasil, pensa que já viu de tudo, ou quase tudo.
Isso não significa que não temos de nos indignar constantemente – e apesar de tudo – com certas situações, mas chega um momento no qual pensamos que é difícil ver algo ainda mais monstruoso.
O caso que hoje foi noticiado, da brasileira atacada na Suiça a golpes de estilete por supostos neo-nazistas, e que, depois de ser agredida centenas de vezes pelas navalhas, abortou os gêmeos que esperava, é algo que somente tem paralelo nas histórias mais sombrias da II Guerra Mundial ou dos genocídios contra os africanos, no sudeste asiático ou contra os povos indígenas nas Américas. Por mais triste e estarrecedor que isso possa ser traz, no bojo, uma série de questões mais profundas.
Há alguns anos, pouco depois dos atentados de 11 de setembro aos Estados Unidos da América, intelectuais brasileiros se reuniram para escrever artigos a respeito disso, coordenados por Adauto Novaes.
O livro resultante, Civilização e barbárie, traz opiniões que resgatam o conceito de “barbárie”, que saiu de moda durante um bom tempo por ser tido como inadequado, preconceituoso.
O termo vem dos longínquos tempos do mundo grego clássico no qual a distinção entre entre os povos gregos e os demais ocorria justamente na definição do “bárbaro”, aquele que não fala nossa lingua, aquele que não é culto, aquele que não compartilha da cultura (tendo em mente que, para eles, a única cultura possível era a sua própria). Os persas, das intermináveis Guerras Médicas, eram os grandes “bárbaros”.
Exatamente por essa visão egocêntrica de “cultura” (ou “civilização”) e “barbárie” o termo foi paulatinamente abandonado. Mas, diante das Torres Gêmeas caindo muitos intelectuais, em várias partes do mundo, muito rapidamente foram busca-lo no fundo do lixo.
Estranhamente nenhum desses intelectuais foi tão a fundo a ponto de lembrar que as maiores “barbaridades” cometidas na história foram perpetradas por povos europeus, o berço da…”civilização” na mentalidade de boa parte da intelectualidade ocidental.
O caso de hoje me lembra exatamente essa dimensão. Quando ocorre algo dessa natureza numa favela carioca, nas periferias de São Paulo ou nas ruas de Brasília muito rapidamente atribuimos a isso o rótulo de “bárbaro”. Justificamos essa situação com a falta de opções, a miséria, a exclusão social, a pobreza, a ausência de educação de qualidade, a falta de perspectiva de vida, sobretudo entre os jovens. Quando vamos mais longe atribuimos isso a dissolução dos laços, das redes sociais que sustentam um grupo humano.
Mas como explicar tal coisa na Suiça?
Os historiadores atrbuiram a culpa pelo desenvolvimento do nazismo a imensa crise e humilhação na qual a Alemanha mergulhou após ao final da I Guerra Mundial, bem como outros tantos países. Mas ao que atribuimos a I Guerra Mundial? Aos desejos imperialistas de certas nações, às crises dinasticas da Europa. Ao que atribuímos o massacre de indígenas nas Américas, tanto na Portuguesa quanto na Espanhola, e talvez ainda mais da Britânica?
Não é possível atribuir isso a falta de perspectiva ou qualquer outra causa acima arrolada.
Sim, o pensamento pode ser anacrônico. Cada tempo tem suas próprias crises, disputas, mentalidades, mas isso revela o fato de que as causas não são absolutas, mas conjunturais. Na verdade elas potencializam algo que temos no fundo de cada um de nós, elas liberam o monstro que cada ser humano carrega dentro de si.
Uma decorrência dessa tão fácil e tão irresponsável atribuição de bárbarie ao que ocorre por aqui, ou pelos fundamentalistas islâmicos, sem que ofereçamos o mesmo tratamento aos povos tidos como “desenvolvidos” (e aqui me refiro especificamente aos EUA e à Europa) é a acentuação das relações preconceituosas entre os povos, e nas quais nós, bem como a África e a Ásia, historicamente levamos a pior.
Os monstros que atacaram a moça na Suiça são da mesma espécie dos que arrastaram o menino pelas ruas do Rio de Janeiro até a morte. Mas ninguém, ou quase ninguém vai dizer isso com a mesma liberdade, com a mesma facilidade com que disseram a respeito de jovens pobres e negros das favelas. E não estou isentando estes de sua “bárbarie”, apenas querendo incluir mais gente aí para sermos “democráticos”.
Pelo menos, ao que parece, os políciais suiços acharam que a moça, em choque, totalmente lacerada, e após sofrer o aborto, estava “encenando”. Afinal de contas, na mentalidade de muitos é impensável que um europeu faça isso, atacar covardemente, gratuitamente uma desconhecida grávida a golpes de estilete, até porque eles estão naquilo que se acostumou a considerar como o bloco “civilizado”, o “berço da civilização”, ao passo que o resto das culturas, o resto dos povos, continuam – tanto quanto os persas há tres mil anos – sendo os “bárbaros”.
E, ainda pior do que isso tudo, é que, cotidianamente, concordamos com eles sem nos darmos conta do absurdo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da cultura
Tags: Bárbarie, Cultura, Direitos Humanos, Neo-nazismo, Suiça
18/12/2008 - 19:32
Durante o genocídio que os Estados Unidos da América promoveram contra seus povos indígenas, no século XIX, um militar declarou que “índio bom era índio morto”.
Depois essa frase foi atribuida ao General Custer – bem massacrado num embate antólogico contra uma coligação de povos indígenas -, mas jamais ele disse tal coisa, ao menos não com essas palavras.
O fato é que na América Portuguesa e depois no Brasil independente jamais houve uma política ampla e declarada de extermínio dos povos indígenas. As coisas por aqui foram sempre muito mais complexas. A Coroa Portuguesa proibiu e depois altorizou, evoltou a proibir e novamente autorizar o “controle” dos indígenas pelos brancos ao longo dos séculos, e sempre com muitas excessões. Vemos a legislação que tratava dos povos indígenas na nossa história como um imenso pêndulo, de um lado para o outro ao longo dos séculos.
Houve sim autorizações da Coroa para a escravição e extermínio de povos indígenas considerados “ameaças” para a presença portuguesa. Essas autorizações eram concedidas mediante a justificativa de que se tratava de uma “guerra justa”, contra “bárbaros”, diferentes dos povos que aceitavam a presneça portuguesa e o trabalho para estes. Parte do sertão do atual Ceará foi varrido numa dessas guerras, movida contra os cariris.
Depois da independência do Brasil a situação não ficou menos confusa e herdamos isso na República. Mas, da simples exploração ou dizimação passou-se a idéia da “integração” através do trabalho, da educação. Essa doutrina i]da integração perdurou durante décadas.
Por isso citava no posto anterior a figura de Vargas, pois durante seu governo manteve-se a linha de pensamento do tratamento indígena que vinha desde a República Velha, capitaneada por Cândido Rondon.
A Funai jamais conseguiu, por sua vez, encontrar uma política de contato com os indígenas na qual eles não fossem os perdedores.
Trabalhei algum tempo com povos indígenas – xavantes, bacairis, tukanos, nambikwaras, parecis – e é duro perceber como a grande maioria dos brasileiros não faz idéia do que ocorre em seu próprio país. Sim, temos territórios nos quais grupos indígenas isolados, que jamais tiveram contato direto com brancos, fogem desesperadamente da “civilização”. E assustados atiram sim suas flechas contra aviões. E isso não é um grupo de atores contratados.
Que há lideranças indígenas corruptas…sim, há, como há muita liderança branca corrupta. Nem por isso ouvimos alguém defender a expulsão dos brancos, somente porque temos políticos corruptos. A coisa não pode ser tratada como uma géleia geral. Há grupos e grupos indígenas, lideranças e lideranças.
E uma coisa se tornou quase um consenso entre os que trabalham com povos indígenas: a melhor coisa a se fazer com grupos não contactados é não contactá-los de jeito algum, excetuando-se casos de risco para suas vidas.
Contudo, contudo, acusamos os indígenas por se portarem tal como nós mesmos. Porque desejam roupas bonitas, tênis da moda, banho quente, carro novo, conforto. Mas na nossa sociedade isso é permitido e há formas para se obter isso. Mesmo nascendo nas camadas mais pobres da população existe a possibilidade de se tornar uma pessoa remediada. Uma minoria, mas é possível. Essa possibilidade é uma das sereias que encanta os ouvidos dos homens e mantém vivo o capitalismo, o liberalismo.
Mas, e para um indígena? Nós iremos determinar que ele continue a tomar banho gelado? A andar a pé por dias para chegar às cidades em busca de alimento ou medicamento? Nós iremos determinar que isso vai acabar com suas “culturas”? Nós?
Por outro lado, deixá-los decidirem sem oferecer a eles todas as informações necessárias, sobre riscos, implicações, efeitos é tão cruel quanto. Vi muitas vezes a “auto-determinação dos povos” ser empregada como forma de ludibriar os outros. “Deixe que eles mesmos decidam.”
Mas, eles têm todas as informações para decidir efetivamente entre as opções postas? Sabem quais são as implicações de uma coisa e outra?
E como distinguir as mudanças que são características naturais das culturas de processos de destruição das culturas? Qua é o limite entre a transformação e a desintegração?
Não estamos perto de uma solução unânime, e muito menos de certezas.
O resumo da ópera é que nenhuma resposta rápida e simples dá conta do tamanho do problema e de sua complexidade. Não é o Estado brasileiro que irá sozinho encontrar a solução – tutelando ou entregando os povos a sua sorte -, nem os indígenas isoladamente. Se há possibilidade de encontrar uma solução é através do diálogo franco entre Estado, povos indígenas, sociedade civil, justiça.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História do Brasil
Tags: Direitos Humanos, História do Brasil, Povos indígenas, Terras Indigenas
10/12/2008 - 20:25
Lembrava hoje que, há dez anos, comemorávamos na USP os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e é curioso como na ocasião tudo me parecia mais simples do que hoje.
A carta da declaração foi composta num esforço diplomático único, ainda na esteira do choque da II Guerra Mundial, dos horrores do nazismo – não só dele, mas principalmente -, e da criação da Organização das Nações Unidas (a qual substituiu a falida Liga das Nações).
Reza a lenda que o representante brasileiro na redação da carta – Austregésilo de Athayde, acadêmico falecido da ABL – era dos mais radicais na defesa da expansão dos direitos humanos, mas, no conjunto, acabaram por optar por uma versão menos libertária do documento.
Em verdade a idéia de “Direitos Humanos” vinha sendo gestada há séculos por filósofos e juristas e deve muito ao chamado “direito natural”, ou seja, aqueles direitos que os homens recebem imediatamente ao nascer e, portanto, são direitos inalienáveis.
Um dos aspectos mais complexos da declaração é justamente o do direito a vida, o qual é negado – por exemplo – a executores de certos crimes em países como os Estados Unidos, Somália, Arábia Saudita, China.
O filósofo francês Michel Foucault descreve em seu livro Vigiar e punir a execução na Idade Média francesa da pena de morte de um jovem acusado de matar o próprio pai (crime de parricídio).
O jovem foi amarrado a um tronco em frente a uma igreja, numa das mãos estava atada a faca com a qual cometera o crime. Com tenazes arrancaram os mamilos do jovem. Jogaram chumbo derretido nos buracos feitos pelas tenazes. Sobre as mãos despejaram alcatrão incandescente.
Depois amarraram cada membro de seu corpo num cavalo e estes foram incitados a sair em disparada estraçalhando o indivíduo. Como o tempo estava chuvoso, os cavalos derraparam não arrancando plenamente os membros. O carrasco então se dirigiu ao jovem e com uma faca ajudou a cortar as juntas.
Ainda vivo – surpreendentemente – o jovem foi jogado numa fogueira e, finalmente, morreu.
Isso ocorreu antes que juristas, como Césare Beccaria (já na Idade Moderna), publicassem textos condenando a pena de morte e denunciando sua injustiça e ineficácia. Enquanto a pena de morte é um ato de vingança e de educação pelo medo outras penas são “disciplinadoras” e educam pelo exemplo.
Na constituição da Declaração Universal dos Direitos Humanos – filha tardia da Declaração dos Direitos do Homem – são ainda esses princípios que regem a carta. Foucault – nos anos de 1960, 1970 – ainda diria: Toda morte é um assassinato.
Outro aspecto que tornou-se um complicador para a implantação da carta dos direitos humanos é o fato de haver no mundo culturas absolutamente distintas, as quais os ocidentais de formação judaico-cristã temos dificuldade as vezes em entender e aceitar.
Alguns dos povos indígenas com os quais trabalhei tem ainda o hábito de matar as crianças que nascem com defeitos físicos graves. Para nós isso parece um horror, mas para eles, que tem que migrar constantemente, numa comunidade na qual todos tem que colaborar, faz sentido tal medida.
Em alguns países islâmicos – principalmente na África – a lapidação (morte por apedrejamento) de mulheres por “crimes” contra a moral faz parte dos códigos penais dos Estados (baseados na sharia, a lei islâmica). Muitos de nós acha isso bárbaro.
Nos Estados Unidos a pena de morte leve anualmente centenas de pessoas aos corredores de extermínio, em sua grande maioria negros e latinos, e eu acho isso uma barbárie, mas está inserido no código cultural de vários estados daquele país.
A Declaração dos Direitos Humanos foi um avanço gigantesco, pois norteou o comportamento de vários órgãos internacionais e se tornou mais um instrumento na defesa da vida e da dignidade humana, porém é patente que num mundo no qual há Guantánamo, os presídios brasileiros, os tribunais chineses, as lapidações em países africanos, ainda temos um longo caminho a percorrer.
Isso sem falar nos atos indiretos, como invasões militares, bloqueios, sanções econômicas, embargos, que não ferem diretamente a Declaração, mas criam situações e conjunturas que lesam sim os direitos previstos na carta.
Em suma, há que se comemorar pelos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, porém há muito mais que se refletir e investir para que tendo um mundo mais justo não seja necessário haver mais uma declaração que preveja o direito humano a dignidade e a vida, algo que, sendo obvio não seria mais lembrado.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, Sem categoria
Tags: Direitos Humanos, História contemporânea
07/11/2008 - 07:48
O historiador Georges Duby, do qual já falei aqui noutras ocasiões (e nem preciso dizer o quanto gosto de sua obra), escreveu há algumas décadas um livro chamado O domingo de Bouvines.
O domingo de Bouvines é a data de uma batalha importante para a história da França. Naquele dia o gérmen da monarquia francesa unificada venceu no campo de batalha um conjunto de inimigos que punham o reino e sua unificação em risco.
No final do dia, com a batalha vencida, dizia Duby, já havia a percepção de que se havia presenciado um dia histórico, o qual seria lembrado por muitas e muitas gerações.
Nos últimos anos, não poucos, aliás, vimos surgir uma corrente que levou a análise da história a um campo de subjetividade jamais visto. A ponto de questionar a própria existência de uma “história”. Para isso invocaram o fato de que um “evento” histórico é construído e só se torna uma “data”, um “momento” digno de ser lembrado graças a construção disso ao longo do tempo.
O caso do 7 de setembro no Brasil é um exemplo disso, e também comentei mais demoradamente a respeito do tema na época. No dia 8 de setembro não havia uma percepção de que o dia anterior teria sido um “dia histórico”, isso somente se consolidou ao longo de muito tempo e de muitas disputas.
Mas, nem sempre é assim. E é o caso contrário que Duby invocava ao falar do “domingo de Bouvines”. É o mesmo caso do 11 de setembro. É claro que a ampla cobertura dos meios de comunicação ajudam a criação de “datas históricas”, “momentos históricos” quase que simultaneamente ao seu desenrolar. Contudo, acredito, que alguns desses eventos são inquestionavelmente memoráveis e serão marcos históricos.
Obviamente que isso não é certamente bom, determinados momentos históricos eu bem que deixava passar e não faria a menor questão de ser testemunha ocular, como os atentados aos EUA.
De qualquer forma creio que o que o mundo viu na terça feira é um evento da ordem do domingo de Bouvines, ele nasce histórico, e por uma série de motivos.
Existem as questões mais claras, mais óbvias, como o fato de um homem negro ter sido eleito presidente da maior potência do planeta, a mesma potência que há algumas décadas enforcava e queimava negros em praças públicas em alguns de seus estados. A mesma potência na qual líderes negros como Martin Luther King foram assassinados e que majoritariamente manda pessoas negras para suas cadeiras elétricas e injeções letais.
Também pese o fato de ter eleito para a presidência um homem que tem o sobrenome Hussein, o mesmo do ditador derrubado do Iraque, inimigo do atual presidente, alvo de uma das maiores farsas da história contemporânea (aliás, só uma breve digressão: me incomoda muito o fato de que Sadam Hussein tenha sido derrubado e preso justamente por crimes que não cometeu, enquanto os que cometeu levou para o túmulo).
Obama também traz outras novidades, nenhuma delas tão decisiva quanto as de suas origens etnicas e sociais.
Mas há, além do mais, uma dimensão conjuntural da eleição de Obama que a faz histórica: em nenhum outro momento a oposição entre EUA e árabes foi tão intensa e, desde 1929, não havia uma crise tão profunda na economia e sociedade estadunidenses. E justamente nessa conjuntura o povo dos Estados Unidos optou não pelo aprofundamento do radicalismo e do isolamento, mas por um candidato que sinaliza com uma política mais inteligente e mais diplomática.
Ou seja, no fundo de seu túnel escuro, o povo dos Estados Unidos escolheu olhar para frente, romper com estígmas seculares, se unir em torno de alguém que é mais próximo do resto do mundo. Parece que, finalmente, os Estados Unidos da América decidiram chegar ao século XXI, com oito anos de atraso, ok, mas chegaram.
Como sempre os processos de transformação são realizados no meio de imensas dores. Certo é que Obama não será menos estadunidense do que os presidentes anteriores, e para muitas das questões não será mais democrático do que Bush, mas, em linhas gerais, faz o mundo respirar mais leve.
Devo reconhecer que eu, que não sou nem um pouco fã de inúmeros traços culturais, morais, éticos de parte da população estadunidense, fiquei positivamente impressionado com a capacidade de renovação e renascimento desse povo.
Ainda mais se lembrarmos que nos Estados Unidos existem repúblicanos ferrenhos, democratas ferrenhos, os quais quase nunca mudam de posição, e uma população que pende ora para um lado, ora para o outro, e foi justamente essa parcela do povo estadunidense que fez um caminho ao encontro do resto do mundo, diferentemente da politica de choque das republicanos nestes últimos oito anos.
Em suma, podemos ter certeza, vimos um dia histórico para todo o mundo, pois a segregação e a intolerância não são privilégios dos EUA, e esse eu creio que valerá a pena ter vivido para ver.
Para encerrar uma piadinha de um jornal mineiro em sua manchete de quarta feira: Entra Obama e sai O Bomba.
Genial.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, Sem categoria
Tags: Barack Obama, Direitos Humanos, EUA, História, Relações Raciais
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