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20/10/2009 - 07:12

Para onde vai a carreira do(a) historiador(a)?

Já está se transformando numa tradição: todos os anos, quando chega o período pré-vestibular, acabo fazendo um balanço da carreira de história, da formação dos novos historiadores e do mercado de trabalho. De certa forma vejo isso como um “conselho de colega de profissão” aos milhares de candidatos que tentarão ingressar nos diversos cursos de história espalhados pelo Brasil.

 

A carreira ainda se divide em duas grandes “especializações”: o bacharelado, voltado para a formação de pesquisadores e, posteriormente, de professores do ensino superior e a “licenciatura”, destinada aos que pretendem se tornar educadores dos ensinos fundamental e médio.

No caso da licenciatura a situação é relativamente mais simples por um lado, e mais complexa por outro: as transformações pela qual o ensino de história nos niveis fundamental e médio vem passando acompanham a transformação do ensino em geral. No caso específico do ensino de história cada vez mais se valoriza a formação reflexiva, investigativa e crítica ao invés da conhecida insistência no “conteúdo”. É claro que isso não significa que os novos educadores possam desprezar o conteúdo simplesmente, mas ele deixa de ser o objetivo para ser o “meio”, o veículo através do qual os alunos são convidados a pesquisar e criticar (no sentido de “discernir”, “refletir” e não de “falar mal”) a trajetória dos grupos humanos ao longo do tempo.

Para isso o educador tem cada vez mais que dominar o uso de diversos suportes ou ferramentas pedagógicas: música, cinema, iconografia, recursos digitais, etc. Além do mais, exige-se também a disposição para dialogar com jovens que estão sendo alfabetizados e aprendedno a se relacionar com o conhecimento de um modo profundamente diverso daquele que se empregou até hoje, graças, em grande medida, a difusão das novas tecnologias da informação.

Em resumo isso significa que o grande desafio do ensino atual, e para o futuro imediato, será conciliar a formação necessária e desejável com um mundo de informação extremamente mutante e de uma rapidez inimaginável. Crianças e jovens que se alfabetizaram pela internet antes mesmo de aprender formalmente o B-A-BA.

Além disso o educador terá de se defrontar com a permanente disputa entre autonomia e liberdade dos alunos, entre responsabilidade e maturidade, desafios que tornam as salas de aula num espaço nem sempre pacífico.

Para os que não pretendem passar pelas salas de aula e buscam cursar o bacharelado em história os desafios são de outra ordem e não desprezíveis.

No Brasil criou-se a cultura de que o historiador – bem como parte significativa dos cientistas sociais – não tem um papel prático, pragmático, produtivo no cotidiano da sociedade. Os historiadores se contentaram – boa parte deles, jamais todos, é claro – em comodamente dizer que seu papel era o de “criticar a sociedade”, numa argumentação também cheia de arrogância.

A consequência disso foi que, enquanto os cursos de história se multiplicaram pelo país, o mercado de trabalho para os bacharéis, mestres e doutores em história cresceu proporcionalmente. Quando ingressei no curso de história da Universidade de São Paulo, no final dos anos de 1990, um concurso para professor do Departamento contava com três ou quatro candidatos em média. Hoje os concursos chegam a ter quase vinte candidatos, quando não superam esse número.

O que isso significa?

Cada professor dos cursos com programas de Pós-Graduação stricto sensu (os que atribuem títulos de Mestre e Doutor) orientam vários alunos, até dez ao mesmo tempo. Entre mestrado e doutorado – requisitos exigidos na maioria dos concursos para professor de ensino superior em universidades públicas – o aluno passa cerca de seis ou sete anos estudando antes de ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, a cada sete anos em média temos um crescimento de – por muito pouco – 300 ou 400% de novos mestres e doutores aptos a concorrerem a vagas de professores em universidades.

É claro que a abertura de novos cursos jamais poderá acompanhar tal oferta de profissionais. Ao mesmo tempo os professores não podem recusar novos orientados de pós-graduação pois isso faz parte das suas obrigações enquando docente de uma universidade pública.

O resultado é que hoje o sistema de reposição dos quadros de historiadores dedicados ao ensino superior se degradou terrivelmente e beira o colapso.

Obviamente que nem todos mestres e doutores se tornarão professores universitários, mas as demais possibilidades “tradicionais” de trabalho para os historiadores (em museus, arquivos, centros de pesquisa, etc.) também não acompanhou o crescimento  da oferta de profissionais.

Parte significativa da responsabilidade dessa situação deve-se a própria categoria, que com uma falta de objetividade incrível, sequer conseguiu regulamentar a profissão, o que significa que não existem atribuições exclusivas ao historiador (como nas áreas de restaura de patrimônio, estudo do mesmo, redação de livros didáticos de história, etc.) determinadas por lei.

Mas, apesar do cenário pouco animador, acredito na incrível capacidade do ser humano de se reinventar e solucionar na prática o que falta na estrutura júrica ou burocrática.

Com isso vemos cada vez mais historiadores ocupando espaços em áreas diversas: atividades relacionadas a proteção e gestão do patrimônio cultural, cinema, teatro, jornalismo, produção cultural, consultorias específicas, até mesmo escrevendo novelas e desenhando enredos de escolas de samba.

Há quem veja a dedicação do historiador à essas atividades como algo “aviltante” (como vi certa vez uma professora aposentada da USP dizer). Eu, da minha parte, vejo nessas atividades o futuro da profissão.

Não vejo esse futuro apenas como uma opção de mercado de trabalho, mas como um encontro esperado há séculos entre o historiador e a sociedade, entre o formado e aquela que lhe custeou a formação, como ocorre em tantas outras áreas.

Contudo, isso exige do formando uma mudança de atitude e de perspectiva diante da carreira e da própria vida. Atuar no cotidiano da sociedade, e não apenas dentro dos muros das universidades, implica em ter que refletir sobre a dimensão ética de seu trabalho, de suas escolhas, responder pelas suas opções, se envolver diretamente em debates, disputas, como ocorre com as demais profissões – e que, para o licenciado em história sempre foi algo muito mais familiar do que para o bacharel.

Isso exige também que os formandos estejam aptos a dialogar com outras disciplinas, com profissionais que tenham formações radicalmente diversas como um engenheiro, um administrador, um biólogo, que estejam aptos a trabalhar em equipes multidisciplinares e se ver como um membro de um “time” e não como uma “Diva”, tal como a formação clássica insinua.

Em suma, vejo um cenário desafiador para os(as) novos(as) historiadores(as), o que é bom (para quem gosta de desafios, de “construir soluções”). E é bom também porque o(a) novo(a) historiador(a) terá que ser, antes de tudo, um(a) “cientista cidadão(ã)”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história Tags: , , , , , , ,
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