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25/09/2009 - 06:40

Mais uma da série “Mitos”: O Brasil é um país pacífico?

Quantas vezes você já ouviu dizer que o Brasil é um país pacífico? Que um dos elementos que diferenciam nosso processo de Independência do de outras nações é a ausência de conflitos armados? Que tendemos à acomodação e que países onde há processos mais “violentos” a política em geral é melhor?

 

Eu ouvi isso durante todos os meus anos escolares, e continuo ouvindo de muitas pessoas, sobretudo as de mais idade. Em geral compara-se a Independência do Brasil com a das antigas colônias da Espanha, onde a separação se deu apenas através de uma longa luta, ou mesmo no caso dos EUA e a Guerra de Independência contra a Inglaterra (culminando no ano de 1776). Comparam ainda a constituição do nosso Estado e dos nossos poderes políticos com a França, onde a Revolução Francesa (de 1789) estabeleceu um marco de rompimento e recriação parcial do país.

Em verdade essas comparações partem de dois conjuntos de desconhecimento e da construção de um mito: o desconhecimento da história dessas outras regiões, o desconhecimento de nossa própria história e a construção do mito do povo brasileiro como um povo pacífico, “afável”, tendendo sempre à acomodação.

A respeito da história desses países seria extenso e nem tão útil assim se extender, vale saber que conhecemos sempre fragmentos e que nem sempre esses povos resolveram suas disputas políticas pelo embate direto. Mesmo quando assim o fizeram as consequências foram desastrosas e traumáticas. A Guerra de Secessão dos EUA, em meados do século XIX, deixou marcas profundas no país e demorou décadas para ser superado o ódio entre o norte e o sul (e com o estabelecimento de uma grande vantagem política para o norte vencedor da guerra).

Da parte do Brasil, por outro lado, frequentemente se “esquecem” episódios que diriam algo bem diverso a respeito de nossa história. Logo após a declaração de Independência a região do Pará e do Maranhão não se posicionou imediatamente a favor da separação com Portugal (na época o Grão Pará e o Maranhão conformavam uma região autônoma em relação ao Brasil). A união com o Brasil somente foi possobilitada graças a força das armas apoiada com negociações políticas intensas. Depois da renúncia de Dom Pedro I, e antes que seu filho e herdeiro – Pedro II – pudesse ser coroado, teve início o que chamamos de “Período Regencial”, o qual o governo era formalmente exercido por um “regente” indicado para tal cargo. Nos anos da Regência pipocaram pelo Brasil movimentos que esperavam uma independência diversa daquela que se estava construíndo, o mais longo desses movimentos, a Farroupilha, somente se encerrou muitos anos depois.

Com o cenário de grande indefinição política que se instalou com a renúncia de Dom Pedro I, uma série de grupos que almejavam formas distintas de independência daquela que se havia estabelecido abriu fogo contra o governo do Império arrastando o Brasil para uma longa década de conflitos armados em praticamente todas as regiões do território.

Depois da relativa estabilidade que significou o II Reinado, com a coroação de Dom Pedro II, o país voltou a se envolver em sérios conflitos: Canudos, o Contestado, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes, A Revolução de 1930, o Golpe Militar de 1964 e daí para diante.

Estivemos longe de ser um “povo pacífico”, bem como nos mantivemos distantes de uma democracia consolidada, construída e experimentada cotidianamente, a qual somente se efetivou coma  eleição de Collor de Mello (e que deu no que deu).

Contudo, e apesar desse retrospecto, ficamos marcados como “povo pacífico” que não gosta de “embates”. Mito, é claro, que tem algo de razão quando também lembra que nossa incrível plasticidade é um traço cultural marcante, uma incrível adaptabilidade a situações e lugares (herança que herdamos dos portugueses em grande medida). Os mitos, em geral, não são “mentiras”, mas modelações de elementos reais de acordo com fins outros.

A idéia de “flexibilidade”, “pouca rigidez” veio desde tempos de colônia e das avaliações profundamente estereotipadas de viajantes europeus, parte disso herdamos também de Portugal, que entre os povos europeus – pelo fato de ter assimilado tão bem mouros e judeus e africanos e asiáticos em outros tempos – também gozava da fama de ser “meio flexível demais”.

Ingleses, bávaros, prussianos, tenderam a ser mais rigorosos no juízo dos brasileiros do que outros viajantes de raíz latina, como os franceses.

E essa idéia se transmitiu e encontrou difusores poderosos, como Gilberto Freyre e Paulo Prado, os quais viam como virtude e vício do povo brasileiro uma suposta “plasticidade”, uma “meiguice” que tendia a acomodação ao invés do embate.

Cada um deles escreveu isso e abraçou a idéia por motivos bem específicos, mas isso acabou penetrando também nas interpretações dos historiadores e - em consequência – nos livros didáticos, disseminando ainda mais a versão.

Em suma, nossa história não foi menos ou mais sangrenta do que a de outros povos, embora tenhamos – certamente – nossas especificidades culturais e históricas, e como na letra de Fado Tropical de Chico Buarque temos a capacidade de misturar no mesmo gesto o golpe duro e presto com uma alma que instantaneamente se ressente, verdadeira ou falsamente.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
15/06/2009 - 06:55

O Ministério da Cultura e a Irmã Dulce

Tenho acompanhado de perto as discussões a respeito da reforma da Lei Rouanet, a qual acho muito importante (tanto a reforma quanto a lei). Semana passada mesmo fui assistir o debate com o ministro da cultura aqui em SP, do qual o “colega de blog” Claudio Abramo também participou.

 

O fato é que é impossível chegar a um consenso absoluto a respeito do novo formato da lei, mas, por outro lado, também é possível se adotar princípios e procedimentos que acabam com práticas que incomodam a grande maioria dos envolvidos na área, e incomodariam também a parcela esmagadora da população se esta soubesse o que ocorre. Um desses “itens” é o da figura do “captador” de recursos, em verdade um lobbysta profissional, especializado em bater de porta em porta das grandes empresas (em geral naquelas que possui alguns contatos) e apresentar projetos que quase nunca criou e que não irá executar. Com isso recebe 10% do valor captado – permitido pela lei – quando não outros valores repassados por debaixo do pano pelos interessados em captar recursos para seus projetos, isso quando os próprios funcionários das empresas não recebem “agrados” para escolher este ao invés daquele projeto para destinar seus recursos (ou melhor, do Estado). Outro aspecto que deve – ou deveria – acabar é o da escolha dos projetos a serem incentivados pelas empresas, sendo que o valor entregue é do Imposto de Renda sobre pessoa jurídica, portanto dinheiro público. O terceiro aspecto que deveria ser erradicado é o do desequilíbrio entre as áreas da cultura envolvidas: cinema e música, atualmente, representam a parcela do “leão” das captações. Menos de 20% é distribuído entre todo o restante das atividades que você possa imaginar, de publicação de livro à restauro de bens históricos, de arqueologia à circo.

O MinC reconhece estas distorções e propôs uma reforma de lei que pretende diminuí-las em alguns casos e erradicá-las em outros. Não penso que a Rouanet, desde que foi criada, somente beneficiou “artistas consagrados”, como outro colega de blog, Regis Bonviccino, escreveu. Projetos sérios, de gente sem tanta projeção assim, ou que ganhou projeção a partir do investimento, se beneficiou da lei Rouanet. Mas ele tem razão quando diz que se investiu absurdamente em casos patéticos, humilhantes mesmo para o MinC e para a nação, como o do Bradesco-Cirque (o qual vendeu ingressos a R$300,00 e captou milhões no banco, que debitou isso do IR devido ao governo, investiu esses recursos numa empresa canadense, o Cirque, e que, ainda por cima, utilizou o circo para sua publicidade institucional).

Também é fato que o MinC – ou boa parte dele – confunde “cultura” com “artes do espetáculo”. Décadas foram gastas para esclarecer a diferença entre as duas, mas o ministério se faz de desentendido com relação a isso. As artes compõem o universo da cultura, mas não é a mesma coisa nem o esgota. Ou seja, quase todo o dinheiro investido em “cultura” na realidade foi para “espetáculos”, não para “cultura”.

A respeito do conceito de “cultura”, já o discuti aqui outras tantas vezes.

Mas, sinceramente, essa confusão – ou “aparente” confusão, nunca sabemos o que há por trás – tem implicações muito sérias. A declaração que Juca Ferreira fez esta semana dizendo que o MinC não tem vocação para “Irmã Dulce” é ofensiva e descabida, além de trazer em seu bojo relações pessoais que não são condizentes com pessoas que ocupam cargos públicos.

Dizia o ministro que não há na atual lei critérios que proibam artistas consagrados de serem beneficiados por ela, portanto, não haveria ferramentas legais para impedir que artistas como Caetano Veloso recebecem seus incentivos (ele solicita auxílio para sua turnê nacional). Reconhecia o ministro que Paula Lavigne, produtora e ex-esposa de Caetano, lhe telefonou para pedir esclarecimentos a respeito da negativa da comissão que avalia os projetos.

Claudio Abramo poderia discorrer com mais propriedade a respeito dessa questão, mas eu, na minha humilde condição de historiador – que trabalha cotidianamente com a “preservação do patrimônio cultural brasileiro” –  me senti profundamente ofendido enquanto cidadão por essa prevaricação assumida entre a esfera pública e a privada.

A negativa foi feita por um órgão técnico, o qual deveria ser soberano em suas decisões, cabendo recurso apenas de modo formal. Gostaria de saber se eu, por acaso, tivesse um projeto de proteção ao patrimônio arqueológico negado pela comissão poderia tomar o telefone e a liberdade de ligar para um ministro de Estado para “pedir esclarecimentos”? Isso me parece, no mínimo, anti-ético, com tendência a degenerar em ilegalidade. Ou seja: é assunto sério e que envolve uma forma de desvio de dinheiro público para a iniciativa privada, pois, nesse caso, o ministro tem poder de isoladamente reverter a decisão da comissão e considerando uma forma de pressão direta do privado sobre o público.

Diz o ministro: O show de Caetano sairia pela metade com o incentivo segundo seus produtores.

Mas, oras, Caetano já é acessivel a quase toda a população brasileira, e mesmo sem incentivo seus shows estarão lotados, e mesmo que muitos não possam pagá-lo não faltariam oportunidades para vê-lo “na faixa” em shows abertos em qualquer lugar do Brasil. Se querem torná-lo mais acessivel porque não se exige a realização de shows públicos da turnê em troca do incentivo? Simplesmente o barateamento não é justificativa. A rede SESC faz muito mais do que isso sem dar cambau no dinheiro da Rouanet (embora tenham benefícios das leis para redirecionarem valores gerados pelo comércio).

O lado ofensivo, ao qual me referi, da declaração do minsitro associa artistas bem sucedidos à concessão de benefícios e artistas “supostamente” mal sucedidos que não deveriam ter beneficios. Se não foi o que quiz dizer, foi o que acabou dizendo. Mas, voltando ao caso da arqueologia, que é uma área complexa em termos de “público”: vamos supor que estejamos necessitando de recursos para preservar uma coleção de objetos líticos (ferramentas de pedra ou o refugo da produção destas), que são importantes para a memória dos povos que ocuparam estas terras antes de nós, será que o MinC nos negaria apoio simplesmente pelo fato de que não “somos bem sucedidos” com o público? Porque não estamos na mídia? Não damos visibilidade? Será que se eu ensinar minha equipe a cantar Sampa ou Tigresa enquanto escava eles me concedem a benesse federal? Ou se ligar para Juca Ferreira me fazendo passar por “velho amigo” para pedir “esclarecimentos”?

Mas a ofensa vai mais longe, pois trata a cultura como uma área de “fortes” e “fracos” (ou o termo “Irmã Dulce” não se referiu a caridade?), e, como no filme, “os fracos não devem ter vez”. Oras, não sou dos que pensam que a única possibilidade de trânsito cultural é no “mercado de cultura”, posso citar dezenas de exemplos de como tanto as culturas quanto a produção artística independente são resistentes, mas, também não vamos nos iludir e pensar que certos produtos ”artísticos” (confundidos sempre com “cultura”) são tão difundidos não porque são “mercadorias” vendidas por grandes empresas que contam com aparatos midiáticos poderosíssimos, mas porque são incrivelmente bons e universalmente compreendidos. Se for assim vou quebrar meus CDs da Banda de Pífanos de Caruaru e correr comprar a coleção completa da obra do KLB. Se o critério que o MinC e o ministro usam para determinar quem pode ou não receber incentivos é o “sucesso”, ou uma interpretação disso, então pronto, como diriam em algumas regiões do nordeste: é a eugenia cultural e artística estabelecida, a limpeza racial através da seleção dos mais “fortes”.

No dia do debate saí bastante decepcionado, pois nada de novo foi acrescentado, apenas um ato político para uma platéia que ouviu o que queria ouvir. Depois da entrevista de Juca Ferreira fiquei seriamente preocupado com a possibilidade de piora nos rumos do investimento em cultura, afinal de contas, com o MinC administrando ele próprio os recursos e seus critérios de distribuição de investimento tão “personalistas”, o que impede que Paula Lavigne ou qualquer outro produtor ligue para “um velho amigo” para “apenas” pedir “esclarecimentos”?

Não que imagine que isso não ocorra já, nem que nunca tenha ocorrido, mas quando um ministro de Estado diz isso publicamente e acha absolutamente normal, é sinal de que as coisas pioraram…

 

 

PS: A respeito de outro assunto, mudando de “pato para ganso”. Professora Anabelle Loivos me avisa que o site oficial do projeto “100 anos sem Euclides da Cunha” está no ar, segue aí o link novo, que também está na postagem a respeito do escritor:  http://www.projetoeuclides.iltc.br

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , ,
19/04/2009 - 07:00

Mitos, mentiras e verdades a respeito dos povos indígenas

A grande maioria da população brasileira somente conhece os povos indígenas através das televisões ou dos livros didáticos. Isso se deve, é claro, ao fato de que nas regiões mais densamente povoadas – e que, via de regra, foram as primeiras a serem colonizadas pelos portugueses – os povos indígenas tradicionais foram quase que completamente dizimados aos longo dos séculos, com raras exceções.

 

Um dos efeitos disso é que a população brasileira possui imagens um tanto “distorcidas”, míticas as vezes, a respeito desses povos, de suas configurações, seu cotidiano, seu papel na sociedade brasileira.

O primeiro equívoco é sempre tratar os povos indígenas como “índios”. É claro que a legislação brasileira os trata como “povos indígenas”, uma generalização necessária para que se tenham uma uniformidade legal. Quando falamos “A lei brasileira garante o direito à terra aos povos indígenas tradicionais, etc…” está correto, pois falamos de uma “categoria” não de um grupo específico. Mas é absolutamente comum vermos no noticiário algo do tipo: “Índios invadem fazenda e expulsam seus proprietários exigindo demarcação de terra.” ou “Índios representam Brasil no Fórum Mundial sei lá do quê.”

Nesses casos além de se ignorar as especificidades de cada etnia desrespeita-se as identidades culturais. Para o indígena sua identidade “índia” caminha sempre junto da especificidade dentro da categoria, ou seja, ele pode ser pareci, bororo, nambikwara, xavante, suiá, meinako, yanomami, caiapó, xerente, guarani, pataxó, etc, etc, etc. Assim como nós somos brasileiros e não “latino-americanos” genéricos.

Some-se o fato de que, no caso deles, há um aspecto “étnico” que também é importante na definição da identidade.

Mas os equivocos vão muito mais longe. Outra idéia recorrente é ver esses povos como uma coisa só no aspecto cultural. “Isso é coisa de índio”, “O banho diário é uma herança dos indígenas”, “A farinha de mandioca foi legada aos brasileiros pelos indígenas” e coisas do tipo, disseminadas pelos meios de comunicação ou pelos livros didáticos.

Somente no Brasil existem centenas de etnias diversas, cada qual com sua história e cultura particulares. Cada uma dessa “etnias” se formou ao longo de séculos em regiões profundamente distintas, como a floresta amazônica ou o cerrado do centro-oeste. Para garantir sua sobrevivência desenvolveram práticas culturais plenamente adaptadas aos desafios ecológicos. Ou seja, não existe uma prática que seja “indígena”, mas técnicas que foram criadas por grupos específicos. Algumas dessas práticas são muito comuns, e existem entre quase todos os grupos, mas outras são muito específicas.

Os nambikwaras são agricultores relativamente simples, suas aldeias bastante rústicas, mas conhecem profundamente a farmacopéia da floresta, suas substancias de uso medicinal, alimentar ou mesmo tóxico. Os parecis são excelentes comerciantes, sua história foi forjada como um grupo especializado em trocas. Os xavantes são bons caçadores, Os guaranis muito hábeis com as mãos, assim como os meinakos, kalapalos, kamaiurás.

Resumo da ópera: O que chamamos de “herança indígena” somente existe se identificada a matriz cultural dela. No geral, a grande maioria daquilo que se entende por essa herança é de matriz tupi, por ser o povo que ocupava majoritariamente o litoral na época da chegada dos portugueses.

Da mesma forma os povos indígenas não falam todos a mesma língua, mas diversos idiomas surgidos a partir de alguns troncos linguísticos. É como nas línguas latinas: o português, o italiano, o espanhol, o francês, o romeno, derivaram do latim, que por sua vez derivou de outro idioma ainda mais antigo.  As línguas indígenas são exatamente da mesma forma e pertencem a “troncos” diferentes. 

Nem todos os povos indígenas são especializados em “caça”, e a idéia de um deles sempre portando arco e flecha é mais um dos mitos. Boa parte deles é de agricultores e coletores, mas, na maioria das vezes mistura a agricultura com a caça em medidas diferentes.

Com a demarcação das terras indígenas a prática da caça ficou profundamente afetada, pois a captura contínua numa só região provoca a escassez de animais (também por isso o nomadismo era importante para alguns desses povos). Com isso eles se tornaram cada vez mais dependentes de outros tipos de carne, obtidas junto a comunidade branca. Mas ainda é bastante comum a caça entre os grupos da região amazônica e de parte do centro-oeste.

Mas há, ainda, os que não caçam, apenas pescam, como os povos do Alto Xingu (kamaiuras, kalapalos, kuikuros, meinakos, yaualapitis, etc), cuja tradição de não violência se baseia numa recusa ritual à caça. Por isso a grande festa do Quarup (em honra aos mortos) sempre é realizada com um grande banquete de peixe assado, nada de caça.

É claro que muito das culturas indígenas vem se transformando, em grande parte pelo contato e pelo acesso aos bens produzidos pela nossa sociedade. Em boa parte das aldeias, excetuando-se os grupos indígenas mais isolados e menos tocados pelo contato com o branco, a energia elétrica prossibilita o uso de televisores, chuveiros elétricos e, em algumas, até mesmo internet. Mas essas tecnologias convivem com práticas ancestrais, como as de construção de casas (”ocas” ou “malocas” são termos que designam casa apenas em algumas línguas, noutras essas palavras não fazem qualquer sentido, embora boa parte das pessoas insista em chamar qualquer moradia indígena de “oca”) de palha e madeira, ou de cozinhar fazendo o moquém (enterrando partes dos animais em brasas ou cobrindo-os com folhas de bananeira e outras plantas).

É curioso chegar à algumas aldeias pois é visível o choque de gerações entre seus moradores. Os mais velhos tendem a manter mais intocados seus hábitos, inclusive o de andarem nús. Boa parte das vezes não falam o português, moram em áreas menos movimentadas da aldeia e ainda são respeitados como autoridades na comunidade, também são mais cautelosos e prezam pela manutenção do grupo. Os mais jovens tendem a andar sempre vestidos, tentando copiar as tendências dos jovens das cidades. Adoram carros e outras comodidades modernas, como celulares. Mas são menos aferrados às tradições, muitas vezes se recusam a passar por ritos de iniciação que supostamente representam “atraso”. Também são mais corruptíveis, em boa parte das vezes que há ilegalidades em terras indígenas (extração de madeira, garimpo, invasão) há jovens indígenas envolvidos.

É claro que há exceções, entre elas a dos que vão para as universidades e se tornam interlocutores entre suas culturas e a nossa sociedade, o que sempre gera conflitos internos intensos, entre sua tradição, sua raíz, sua cultura e a necessidade de se adequar a nossa sociedade para, inclusive, completar o curso. Depois há ainda o conflito inerente de tentar traduzir para ambos os lados – brancos e indígenas – as demandas, frustrações, esperanças, formas de ver de cada um dos lados.

Parte dos indígenas trabalha fora das aldeias, mas recorrentemente são discriminados, explorados, piorando ainda mais a relação de seus povos com nossa sociedade. Diante de desafios complexos – a perda de suas raizes culturais, o crescimento dos desejos por coisas pertencentes a nossa sociedade e a impossibilidade em serem plenamente absorvidos - surgem frustrações profundas, que levam à depressão, ao alcolismo e, muitas vezes, ao suicídio.

Também há os muito espertos entre os indígenas. Suas lideranças, ao longo dos séculos de convivência com os brancos, se tornaram tão complexas quanto as nossas. Existem líderes indígenas sérios, comprometidos com seus povos, legítimos, mas há os picaretas com no nosso caso, e utilizam a proeminência que têm sobre seus povos para se valer pessoalmente.

Uma situação que particulamente me entristece é a de boa parte dos indígenas terem aprendido na relação com os brancos a aceitar quase todo tipo de barganha. A troca de presentes entre os povos indígenas tem um caráter ritual, no qual duas ou mais pessoas criam laços de compromisso, de parceria e de dívida tácita. Mas com os brancos essas trocas perderam esses sentido e viraram apenas uma espécie de propina. Para que concedam uma entrevista, para que possibilitem a entrada num local, para que colaborem com uma pesquisa, para quase tudo. Não são todos, mas é bastante comum.

Eles estão errados? Sinceramente não sei. Não fazemos o mesmo?

A idéia de que numa aldeia o cargo de “cacique” é transmitido hereditariamente também é equivocada. Existem várias formas de se “eleger” um cacique, entre elas a hereditariedade, a qual, aliás, é pouco comum. Em algumas etnias mulheres são elegíveis “caciques”, como entre os parecis.

A própria idéia de “cacique” é um tanto distorcida. Na maioria dos casos o “cacique” é um representante da aldeia, não um líder absoluto cuja vontade deve ser atendida a qualquer custo. Em geral os caciques tem menos poder do que imaginamos, e depende sempre de um grupo que o apoie dentro da comunidade. Por isso, as vezes, quando há rompimentos significativos na comunidade, grupos saem em conjunto para criar uma nova aldeia, o que é relativamente tranquilo.

Assim, de modo geral, as culturas indigenas transitam entre graus diversos de contato com a sociedade branca e de transformação cultural, com elementos e práticas tradicionais e outros assimilados ou reinterpretados. O princípio é: jamais generalizar e jamais acreditar no que tentam apresentar rapidamente, sem cautela e baseado numa imagem romântica ou depreciativa do indígena.

No final são povos de culturas diversas, que em contato com outras culturas assimilam parte, recusam outra, cedem contribuições e se mantém como grupo ao longo da história.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da América Latina, História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
12/02/2009 - 00:11

Barbárie na Suiça?

Existem situações que são capazes de chocar até mesmo os mais insensíveis. Não me considero um dos mais “frios”, mas, quem mora no Brasil, pensa que já viu de tudo, ou quase tudo.

 

Isso não significa que não temos de nos indignar constantemente – e apesar de tudo – com certas situações, mas chega um momento no qual pensamos que é difícil ver algo ainda mais monstruoso.

O caso que hoje foi noticiado, da brasileira atacada na Suiça a golpes de estilete por supostos neo-nazistas, e que, depois de ser agredida centenas de vezes pelas navalhas, abortou os gêmeos que esperava, é algo que somente tem paralelo nas histórias mais sombrias da II Guerra Mundial ou dos genocídios contra os africanos, no sudeste asiático ou contra os povos indígenas nas Américas. Por mais triste e estarrecedor que isso possa ser traz, no bojo, uma série de questões mais profundas.

Há alguns anos, pouco depois dos atentados de 11 de setembro aos Estados Unidos da América, intelectuais brasileiros se reuniram para escrever artigos a respeito disso, coordenados por Adauto Novaes.

O livro resultante, Civilização e barbárie, traz opiniões que resgatam o conceito de “barbárie”, que saiu de moda durante um bom tempo por ser tido como inadequado, preconceituoso.

O termo vem dos longínquos tempos do mundo grego clássico no qual a distinção entre entre os povos gregos e os demais ocorria justamente na definição do “bárbaro”, aquele que não fala nossa lingua, aquele que não é culto, aquele que não compartilha da cultura (tendo em mente que, para eles, a única cultura possível era a sua própria). Os persas, das intermináveis Guerras Médicas, eram os grandes “bárbaros”.

Exatamente por essa visão egocêntrica de “cultura” (ou “civilização”) e “barbárie” o termo foi paulatinamente abandonado. Mas, diante das Torres Gêmeas caindo muitos intelectuais, em várias partes do mundo, muito rapidamente foram busca-lo no fundo do lixo.

Estranhamente nenhum desses intelectuais foi tão a fundo a ponto de lembrar que as maiores “barbaridades” cometidas na história foram perpetradas por povos europeus, o berço da…”civilização” na mentalidade de boa parte da intelectualidade ocidental.

O caso de hoje me lembra exatamente essa dimensão. Quando ocorre algo dessa natureza numa favela carioca, nas periferias de São Paulo ou nas ruas de Brasília muito rapidamente atribuimos a isso o rótulo de “bárbaro”. Justificamos essa situação com a falta de opções, a miséria, a exclusão social, a pobreza, a ausência de educação de qualidade, a falta de perspectiva de vida, sobretudo entre os jovens. Quando vamos mais longe atribuimos isso a dissolução dos laços, das redes sociais que sustentam um grupo humano.

Mas como explicar tal coisa na Suiça?

Os historiadores atrbuiram a culpa pelo desenvolvimento do nazismo a  imensa crise e humilhação na qual a Alemanha mergulhou após ao final da I Guerra Mundial, bem como outros tantos países. Mas ao que atribuimos a I Guerra Mundial? Aos desejos imperialistas de certas nações, às crises dinasticas da Europa. Ao que atribuímos o massacre de indígenas nas Américas, tanto na Portuguesa quanto na Espanhola, e talvez ainda mais da Britânica?

Não é possível atribuir isso a falta de perspectiva ou qualquer outra causa acima arrolada.

Sim, o pensamento pode ser anacrônico. Cada tempo tem suas próprias crises, disputas, mentalidades, mas isso revela o fato de que as causas não são absolutas, mas conjunturais. Na verdade elas potencializam algo que temos no fundo de cada um de nós, elas liberam o monstro que cada ser humano carrega dentro de si.

Uma decorrência dessa tão fácil e tão irresponsável atribuição de bárbarie ao que ocorre por aqui, ou pelos fundamentalistas islâmicos, sem que ofereçamos o mesmo tratamento aos povos tidos como “desenvolvidos” (e aqui me refiro especificamente aos EUA e à Europa) é a acentuação das relações preconceituosas entre os povos, e nas quais nós, bem como a África e a Ásia, historicamente levamos a pior.

Os monstros que atacaram a moça na Suiça são da mesma espécie dos que arrastaram o menino pelas ruas do Rio de Janeiro até a morte. Mas ninguém, ou quase ninguém vai dizer isso com a mesma liberdade, com a mesma facilidade com que disseram a respeito de jovens pobres e negros das favelas. E não estou isentando estes de sua “bárbarie”, apenas querendo incluir mais gente aí para sermos “democráticos”.

Pelo menos, ao que parece, os políciais suiços acharam que a moça, em choque, totalmente lacerada, e após sofrer o aborto, estava “encenando”. Afinal de contas, na mentalidade de muitos é impensável que um europeu faça isso, atacar covardemente, gratuitamente uma desconhecida grávida a golpes de estilete, até porque eles estão naquilo que se acostumou a considerar como o bloco “civilizado”, o “berço da civilização”, ao passo que o resto das culturas, o resto dos povos, continuam – tanto quanto os persas há tres mil anos – sendo os “bárbaros”.

E, ainda pior do que isso tudo, é que, cotidianamente, concordamos com eles sem nos darmos conta do absurdo.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
05/11/2008 - 19:32

Imagens do Museu Paulista

Segue aqui uma galeria de imagens do Museu Paulista (do Ipiranga) e do Parque da Independência.

http://educacao.ig.com.br///galeria/2008/11/04/museu_do_ipiranga_179010.html

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Sem categoria Tags: , ,
03/11/2008 - 10:28

Ir aos museus, o Museu do Ipiranga (ou Paulista)

Muita gente aprendeu a associar o nome “museu” a programa chato, coisa de “nerd”, de “mauricinho” e afins.

Estranhamente, desde pequeno a idéia de ir ao museu sempre me agradou, e, digo desde já, não me considero nem um “nerd”, nem um “mauricinho”. Sobre a chatice dos museus, bom, ai já é uma outra questão.

Reconheço que minha tolerância com museus sempre foi maior do que a da maioria das pessoas, mas também aprendi a olhar estes lugares com o olhar do visitante comum, aquele que quer um programa divertido, instrutivo, acessível.

Também a maioria das pessoas passou a associar museu à história, lugar de coisa antiga, velha, sem uso. O que não é verdade, ou não é sempre verdade. Existem museus e museus e essa é uma discussão que na última década vem ganhando força no Brasil embora, sejamos justos, com bastante atraso em relação a outros países.

Quando entrei na USP, há muitos anos, fui trabalhar em um de seus museus, a Estação Ciência (sobre a qual existe uma reportagem antiga que fizemos lá), que é um museu de ciências e tecnologias, um conceito diverso dos museus históricos.

A palavra “museu” significa “templo das musas”, as divindades gregas responsáveis pelas artes humanas, pela inspiração divina. Cada musa era responsável por uma das artes, e sempre gosto de lembrar que das nossas ciências a única que possuía sua própria musa era a história, Mnemosine. O que demonstra a importância e o entendimento que os gregos davam a história. Desculpe, mas isso é para quem pode (uma velha e gasta provocação aos cientistas “exatos” ou “naturais”).

Em São Paulo o “museu” por excelência é o Museu do Ipiranga (também conhecido por sua identidade secreta de Museu Paulista da Universidade de São Paulo, como o Super Homem, cujo nome real é Clark Kent). Quase todo paulistano já foi a ele, ou, na pior das hipóteses, já ouviu falar.

Como minha orientadora é professora de lá, e sua atual diretora, há alguns anos estreitei meus laços com o Museu Paulista, ou do Ipiranga (prefiro o nome do “Ipiranga”, aliás), passando a conhecer um pouquinho melhor suas entranhas.

É um passeio bacanuxo para se fazer sozinho, com a sogra, com as crianças, com a namorada, só não pode com o cãozinho, pois a entrada de animais é proibida no museu. È instrutivo, bonito pacas, com exposições bem legais, além do mais é baratinho (custa R$4,00 a entrada e meia para estudantes e maiores de 60 anos) e de fácil acesso (fica próximo à estação Ipiranga da CPTM, da Alto do Ipiranga da Linha Verde do Metrô e é assistido por inúmeros linhas de ônibus. Nos primeiros e terceiros domingos de cada mês a entrada é franca.

Lembro que, certa vez, uma colega estava a surrar os museus brasileiros, pelo suposto alto valor dos ingressos. Na Europa ou nos EUA a entrada para um museu custa uma fábula. É claro, o padrão de consumo deles é diferente, os museus também, então acho que os nossos valores são justos, possibilitam o acesso e garantem um mínimo de acréscimo aos parcos recursos governamentais. Existe sempre uma ou outra exceção, mas, no geral, os museus no Brasil são bastante acessíveis.

O Museu Paulista tem uma história interessantíssima. Ele começou a ser imaginado logo após a independência do Brasil e, antes de começar sua efetiva construção, na década de 1880, passou por inúmeros projetos. O curioso disso é que, no seu início, era para ser um museu destinado a “construção” da memória nacional, algo bastante pedagógico.

O museu deveria contar a história da independência brasileira tal como ela “realmente havia ocorrido” e disseminar o sentimento patriótico entre a população. Paralelamente criava-se todo um panteão de heróis – ou patriarcas – da independência, homens dignos de serem “imitados”.

Durante muito tempo o museu ficou incompleto, entulhado de toda sorte de quinquilharias. Somente quando Affonso D’Escragnole Taunay, filho do Visconde de Taunay, assumiu o Museu Paulista, nos anos de 1920, a instituição passou pela sua efetiva moldagem.

Foi na gestão de Taunay que surgiram as estátuas dos bandeirantes, as esferas de cristal com água dos rios brasileiros, as pinturas de José Wasth Rodrigues da São Paulo antiga e a famosa Maquete da cidade de São Paulo em 1842. Taunay e seus colaboradores trataram de criar todo um imaginário da independência do Brasil que ligasse intimamente ela às elites paulistas, bem como trataram de criar o imaginário do bandeirante e da antiga cidade de São Paulo.

Se você, quando ouve falar de bandeirantes, pensa num sujeito alto e robusto, de gibão, chapéu de aba larga, barbudo e um mosquete ou bacamarte na mão, deve isso a Taunay e ao Museu Paulista.

Nos anos seguintes o museu passou por inúmeras administrações que mudaram um pouco seu perfil, como a de Sérgio Buarque de Holanda, mas foi somente nos anos de 1990 que o MP (como o chamamos internamente) passou por uma verdadeira revolução. Nas administrações dos professores José Sebastião Witter e Ulpiano T. B. de Meneses o Museu Paulista ficou mais moderno e mais crítico com relação a história que conta.

Surgiram exposições voltadas para o cotidiano brasileiro, com as antigas cozinhas, banheiros, os hábitos alimentares, as ferramentas. Desapareceram – quer dizer, foram para a reserva técnica – objetos que estavam ali somente por serem “relíquias”.

Hoje, o visitante que for ao Ipiranga se deparará com exposições sobre a imigração japonesa para o Brasil, sobre a construção do mito dos bandeirantes, etc. Mas verá também obras clássicas como o famoso quadro do Grito, o qual ocupa o salão nobre do museu.

Em frente ao edifício – que jamais foi, como pensam alguns, residência de ninguém, muito menos do imperador Pedro I – há um imenso jardim a moda francesa, com fontes e chafarizes, que se estende por toda a colina e culmina às margens do riacho Ipiranga no monumento à Independência.

Debaixo do monumento há a cripta onde estão os restos mortais de Pedro I, e também uma exposição interessantíssima sobre a construção do monumento e do edifício do museu.

Nota curiosa é que, na construção do conjunto, uma gigantesca movimentação de terra foi realizada para que a colina ficasse mais clara e o edifício do museu restasse majestoso no seu topo. A topografia da área era bastante diferente do que se vê hoje. Da mesma forma, a chamada “casa do Grito”, uma casinha de taipa que fica na lateral do Parque da Independência nunca foi contemporânea da proclamação da independência, mas, pelo fato de estar no famoso quadro de Pedro Américo, acabou entrando para a história. Também dela há uma exposição bacana.

Enfim, um programa legal para se fazer num final de semana de sol, para poder andar nos jardins, comer pipoca e aprender um pouquinho de modo divertido. E garanto, não há nada de chato, nem de “professoral” na visita. Depois dá para dar um esticadinha e pegar um cineminha no final da tarde.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Sem categoria Tags: , ,
30/07/2008 - 20:16

Para ler sobre folclore: Mikhail Bakhtin

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como “sobre folclore”, mas vou justificar a inclusão.

Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.

Preferia o termo “cultura popular” ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.

Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma “pedra de toque” dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.

Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto “incrédulo” ou “ateu” pela de autor “medieval”, inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.

A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.

Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.

De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.

Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre “folclore”, ou, como preferia, “culturas populares”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da arte, História da cultura Tags: , , , ,
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