22/04/2009 - 07:00
Já escrevi aqui noutra ocasião o quanto algumas questões a respeito da história são, na minha humilde opinião, de menor relevância. Uma delas diz respeito justamente a “qual povo” efetivamente chegou primeiro às Américas. Um livro lançado há alguns anos, de um almirante de submarino da marinha estadosunidense, defende a tese de que os chineses foram os primeiros a zanzar por estes mares, e também pela África e Pacífico.
Na realidade, dizia eu, isso tanto faz como tanto fez, pois o fato inegável é que foram os europeus e não os chineses a colonizar as Américas, e é nesse fato que se funda toda história americana colonial. O resto são especulações de interesse almanaquesco.
Outra discussão que tenho para mim um tanto infrutífera é com relação a denominação do evento da chegada dos europeus às Américas: Descoberta? Invasão? Achamento?
Isso não muda também o fato de que a presença européia desorganizou as sociedades tradicionais americanas, produziu um verdadeiro genocídio indígena (e também africano, com os séculos de escravidão e tráfico), mas que também muitos povos indígenas dominados esperavam uma oportunidade para se rebelarem e dizimar seus antigos algozes. Também não muda o fato de nossas culturas americanas serem tributárias das européias e africanas, tanto quanto das indígenas.
No caso da “descoberta” do Brasil há um caso semelhante. Discute-se fartamente – em geral nos meios não povoados por historiadores de carreira – se realmente o dia 22 de abril de 1500 foi o ano da chegada dos portugueses às Américas. Teriam chegado antes e encoberto o achado? Teriam informações fidedignas da localização do novo território?
Bem como as outras questões, discutir o 22 de abril por si próprio pouca iluminação traz a questão central, que é o do marco histórico da “colonização”.
O que muda efetivamente no mundo – tanto para os povos americanos quanto para os europeus – não é a chegada a uma terra nova, mas a decisão e a ação de ocupá-la, de transformá-la, adaptá-la a padrões mentais, econômicos, materiais, espaciais oriundos de uma terra distante e profundamente diversa. Esse fato, o da “colonização”, é o que realmente transformou o mundo.
Esse processo, de ocupar, produzir, transfomar, somente teve início três décadas depois do 22 de abril de 1500. Mas, mesmo assim, ainda há outras questões.
Durante séculos o território nas Américas de posse portuguesa foram vistos como “diversos”, sem uma unidade clara. Estavam subordinados a Lisboa, a real amálgama desses espaços diversos. O Brasil como unidade é uma construção relativamente recente, e mais certamente nasce no século XIX, não no século XVI, na chegada de Cabral e sua esquadra.
Contudo, ainda assim, a unidade territorial não foi um fato imediato, nem na elevação a categoria de Reino Unido, após a chegada da Corte portuguesa em 1808, nem mesmo na declaração de Independência, em 1822. Durante anos os grupos políticos das diversas regiões se enfrentaram para que um projeto político – que garantiu a unidade territorial, politicamente centralizada, monarquica, escravista, etc – conseguisse sobrepujar os demais.
Diferentemente do que ocorreu na América espanhola, a qual, após o início do processo de independência das antigas colônias, se fragmentou em diversas nações.
Contudo, ainda assim, com unidade política, unidade territorial, etc, o “sentimento” de brasilidade, de pertencimento, ou mais tecnicamente “de identificação” ainda demoraria mais de um século para se consolidar em termos nacionais. De 1822 até a Revolução de 1930 – capitaneada por Getúlio Vargas – prevaleceu o sentimento de fragmentação, de regionalismos acima da “nacionalidade”. Não é acidental que os governos de Getúlio Vargas (1930-1945 e 1950-1954) tenham investido tanto na construção de símbolos nacionais, de imagens, personagens, sons, cores, sabores, que paulatinamente foram se consolidando como “elementos da identidade brasileira”.
Oras, o Barroco – tido como o ápice da arte brasileira – não é difundido por todo o território, nem é uniforme, mas o barroco “mineiro” passou a ser a “arte nacional” por excelência. O samba carioca não é o mesmo do da Bahia, nem mesmo dos ritmos que lhe deram origem e sobrevivem nas MInas Gerais, no Vale do Paraíba, em tantas outras regiões, mas, mesmo assim, ele se tornou “o ritmo nacional”. E assim com outros tantos elementos.
Tal era esse sentimento paradoxal de pertencimento e descolamento que um dos pilares do movimento modernista no Brasil – tanto o paulista quanto o pernambucano – foi o que se chamou de “redescoberta do Brasil”, e isso nos anos de 1920!!
O modernismo paulista assentado na idéia de modernização, de antropofagia cultural, de assimilação dos estrangeirismos sobre uma base profunda, enraizada no passado e na formação de uma suposta “cultura brasileira” (assim mesmo, no singular). O modernismo de Pernambuco, do qual Gilberto Freyre era um dos avatares, também buscando essa raíz cultural, mas negando ou recusando a assimilação de qualquer herança cultural que não fosse a portuguesa, a indígena ou a africana. Por isso Freyre defendia que em Pernambuco se consolidara a mescla mais equilibrada, mais “doce”, da melangé cultural (o famoso “mito das três raças”), mas, é claro, sempre direcionada, condicionada, tutelada pela presença da cultura portuguesa.
Talvez por conta desse longo histórico – e ainda mais pela disposição do brasileiro em se questionar em sua identidade, coisa que outros povos fazem com menor disposição, embora tenham histórias de formação tão cheias de meandros quanto a nossa – a intelectualidade brasileira insista em fazer recorrentes “redescobertas do Brasil”, como se houvesse um pais, um povo, ou uma cultura a ser “desvelada”.
No final das contas aprendi ao longo de anos de trabalho com as populações dos mais inusitados rincões do Brasil que “descobrir” ou “redescobrir” são questões de intelectuais, problemas de acadêmicos, que destoam das certezas, ou do pragmatismo, que impera na população comum. Eles não se questionam a respeito da “origem” ou do “ser” brasileiro, simplesmente tem arraigado profundamente essa noção de pertencimento, de berço, e praticam cotidianamente, com sua multiplicidade cultural inerente, as multiplas formas de ser brasileiro.
Aos que não vivem com eles, ou não vivem assim, fica a questão: “Pãos ou Pães é uma questão de opinães.”
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da América Latina, História da cultura, História do Brasil
Tags: 22 de abril, Brasilidade, Cultura Brasileira, Descobrimento do Brasil, Identidade
15/01/2009 - 12:45
Nós, brasileiros, somos todos, em alguma medida, árabes, e isso acontece independentemente do desejo ou da aprovação de cada um de nós.
Recentemente em seu blog Luis Nassif (a menção a ele nada tem a ver com o sobrenome, mas vá lá) comentava o quanto características culturais brasileiras, como a flexibilidade e a tendência à acomodação das discordâncias, e ainda nosso histórico de poucos conflitos externos, passou a pesar favoravelmente na escolha de executivos brasileiros para cargos em multinacionais.
Em grande medida isso se deve ao que Darcy Ribeiro (antropólogo brasileiro) descreveu como características de um “povo novo”, diferente dos povos tradicionais, ou “testemunho”, que são as populações autóctones, naturais de um local há milênios, diferentes também do que ele chamava de “povos transplantados”, povos que estão no Novo Mundo, mas que guardaram as características, quase todas, de suas regiões de origem, como é o caso dos australianos e canadenses.
Nós, bem como outros povos da América Latina, somos uma intensa mistura de absolutamente tudo que há no mundo em termos de humanidade. Se a globalização é real podemos dizer que somos efetivamente um “povo global”.
Na escola muitos aprenderam que a formação do povo brasileiro se deu a partir de três matrizes: a indígena, a portuguesa e a africana. Mas isso é na realidade infinitamente mais complexo. Além das correntes migratórias do século XIX e XX (italianos, espanhóis, portugueses, alemães, judeus, polacos, sírios, libaneses, japoneses, e mais recentemente coreanos e bolivianos) nos primeiros séculos de colonização já havíamos passado por processos de assimilação de outros povos, mesmo que pontualmente.
Quando fui ao sertão nordestino pela primeira vez, me lembro da quantidade de “sararás” que vi por lá, gente de pele morena, cabelos encarapinhados, mas louros e de olhos verdes ou azuis. Herança da holandesada que ocupou boa parte do nordeste no século XVII.
Em 2007, quando desci o Amazonas de barco, na passagem por Santarém e outras cidades da calha do Negro e do Amazonas, me espantei com a influência islâmica na região, herança de portugueses islamizados que foram retirados da África e transplantados para a Amazônia há séculos.
Mesmo entre os portugueses que chegaram aqui nos primeiros séculos era impressionante a quantidade de pessoas de origem africana, judaica, árabe, além de genoveses, holandeses, franceses. Portugal, de tão pouca população, não podia ter pudores tão profundos na escolha de suas gentes do mar, por isso se parecia muito mais com uma Legião Estrangeira do que com um exército de nobres cavaleiros medievais com suas longas (e muitas vezes inventadas) linhagens familiares.
O desencadeamento da Inquisição Moderna e a perseguição aos judeus portugueses foi um passo importante para a decadência do reino e de suas finanças.
Mas o fato é que a tal da “matriz lusitana” que deu origem ao povo brasileiro é a mais “vira lata” possível (o que eu acho ótimo, aliás). Nenhum povo europeu nos séculos XV, XVI, XVII tinha mais flexibilidade e adaptabilidade do que os portugueses, elemento o qual herdamos largamente.
Portugal aprendeu a ser assim justamente pela longa ocupação árabe na Península Ibérica, a qual se estendeu por praticamente oito séculos. Neste período os portugueses assimilaram as noções de astronomia, de higiene e saúde, a matemática, além da poesia, os cantos e a alimentação árabe. Desde o Oriente Médio os povos árabes percorreram o norte da África (que passou a se chamar “Magreb” depois de islamizado) e penetraram na Europa pelo estreito de Gibraltar.
Neste sul de Portugal e da Espanha foram criados incríveis califados que foram a glória da medievalidade Ibérica. Cidades como Córdoba, Granada, Almeria eram um lampejo de civilidade numa Europa profundamente bárbara para nossos padrões. É claro que no contexto medieval essa percepção não é cabível, mas para nós, contemporâneos, os hábitos árabes pareceriam muito mais familiares do que o dos Francos, Castellanos, Bretões e afins.
Por que isso? Exatamente porque a marca da cultura árabe se fez nos povos ibéricos, os quais trataram de difundi-la sobretudo no novo mundo.
As técnicas para a produção de açúcar, cuja economia movimentou a colônia durante séculos, é profundamente árabe, e com elas as decorrências como a doçaria. Um dos doces mais tradicionais do Brasil, o qual, de acordo com Gilberto Freyre, tinha “gosto de colônia”, os alfenins, são árabes até a raiz.
Também na arquitetura, o gosto pelos recortes nos beirais, pelos solares (que permitem tomar sol no fundo das casas sem dar vista a rua), ou os muxarabies (telas de madeira que permitem as mulheres olharem das janelas para as ruas sem serem vistas pelos passantes) são todas invenções árabes assimiladas pelos portugueses e trazidas ao Brasil.
E, em tempos mais recentes, não há quem nunca tenha passado numa “lujinha” e comprado um tecido “baratinha, baratinha”, uma verdadeira “baxinxa”, tal foi a participação dos árabes na constituição do comércio varejista no Brasil do século XX.
Por tudo isso é justo que sejamos também muito árabes em nossa cultura.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História da cultura, Migrações
Tags: Árabes, Brasil, Cultura Brasileira, História, Povo
28/07/2008 - 09:37

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.
Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.
Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.
Mas, divergências a parte, ambos os movimentos – os modernismos paulista, pernambucano – partiam de um mesmo pressuposto.
Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.
Ao longo do século XIX o que chamaríamos de “produção cultural” brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.
Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura – excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis – reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.
Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma “identidade nacional”.
É claro que conceitos como “identidade” e “nação” são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.
A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as “raízes” brasileiras naquilo que havia antes na “invasão cultural francesa” do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.
Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os “francesismos” haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.
Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.
Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.
Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como “folclore” brasileiro.
E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da “antropofagia cultural”, do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.
Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a “antropofagia”. Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.
De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era “brasileira”. De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente “atrasada” para se tornar uma espécie de “vedete cultural”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da arte, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil
Tags: Antropofagia, Cultura Brasileira, Folclore, Mário de Andrade, Modernismo, Movimento Modernista, Semana de 22
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