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04/06/2009 - 07:31

OEA tenta se reconstruir quatro décadas depois

Boa parte das instituições que organizam o mundo hoje, em suas relações multilaterais, é fruto do pós guerra. Em post anterior eu insistia no quanto a tensão entre a Coréia do Norte, sua vizinha sulista e seus aliados (EUA e Japão) refletem problemas que surgiram há muitas décadas, e que foram acentuados depois da II Guerra Mundial. Da mesma forma, mundo a fora, outros tantos conflitos e organismos são ainda resquícios de um mundo traumatizado e polarizado pelo conflito mundial.

 

Basta ver o caso do conflito israelo-palestino, ou árabe-israelense, do leste europeu, das antigas repúblicas soviéticas, e, entre nós americanos, entre Cuba e Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), entre outras foram uma resposta a um cenário internacional que havia visto serem desarticulados quase todos os organismos pré-guerra (como a Liga das Nações). Nas Américas foi criada a Organização dos Estados Americanos, a OEA, para tentar ser o fórum de debate continental.

Mas boa parte desses organismos sucumbiu diante de um controle ideológico e econômico que negou as expectativas iniciais de um ambiente plenamente democrático. Na ONU, por exemplo, a presença no Conselho de Segurança (o órgão máximo, em verdade, da instituição, embora no papel seja a Assembléia Geral) das nações vencedoras da II Guerra Mundial (Inglaterra, França, EUA, China e União Soviética, hoje substituída pela Rússia) criou uma situação na qual as centenas de “sócios” tem que se articular a um dos dois lados do Conselho: EUA, Inglaterra e França de um canto e China e Rússia do outro (embora, às vezes, os franceses divirjam de ingleses e estadosunidenses e chineses e russos raramente concordem plenamente). Sem essa articulação é praticamente impossível ver suas demandas observadas dentro da ONU.

Com isso a ONU acabou se tornando uma espécie de “corda” no cabo de guerra da bipolaridade, embora, eventualmente, houvessem situações nas quais blocos assumiam posições divergentes. Pelo menos, na ONU, havia “outro” lado para contrabalancear o jogo político. O mesmo não podia ser dito a respeito da OEA.

Nas Américas, após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos se consolidaram como nação hegemônica e no rompimento das relações diplomáticas entre eles e o governo de Cuba, em 1962, foi realizada dentro da OEA uma operação de rolo compressor a qual levou a expulsão do país socialista de seu quadro de sócios. Somando às sanções e embargos que foram sendo implantados passo a passo, Cuba se viu obrigada a aderir ao bloco liderado pela URSS para sobreviver. O isolamento da ilha acabou por incentivar ainda mais as medidas extremistas do governo socialista na manutenção de seu regime político.

Hoje, quando a Assembléia da OEA determinou o convite ao governo cubano para que volte ao organismo, os governos dos países americanos sinalizaram mudanças significativas que mostram a possibilidade de uma América mais plural.

A primeira mudança foi a constituição de independência diplomática de boa parte dos países, os quais deram o “aval” para a campanha pró-Cuba na OEA. Países como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai foram os avalistas desse processo, e com isso garantiram que países menores, como a Guatemala, pudessem também se manifestar livremente, sem a pressão arrogante dos EUA da década de 1960. Sem esse aval de países democráticos (ok, vão dizer que nossa democracia é falha, etc, etc, mas, como disse Churchil: A democracia é o pior dos regimes, tirando todos os outros.) a pressão de nações ”aliadas” de Cuba, como a Venezuela, Bolívia, Equador, não teriam qualquer chance no conjunto americano.

Vale lembrar que também a pressão desse bloco de países – Brasil, Chile, Argentina, etc. – somente foi possível porque retomaram há quase vinte anos seu caminho democrático e sua estabilidade social e financeira (apesar de todos os problemas que ainda os afligem).

Em segundo lugar tal medida da OEA só foi viável pois os EUA estão enfraquecidos parcialmente e com problemas mais sérios a serem resolvidos. Sua participação na economia mundial despencou na última década, tendência que parece se consolidar agora com a crise (que para Maria da Conceição Tavares tem sua gênese no desequilíbrio da balança comercial entre os EUA e a China, e a favor dos orientais).

Por fim, o próprio governo dos EUA está mudando. A eleição de Obama foi uma sinalização clara do povo americano que eles querem “soluções”. O fato é que até a gestão de George W. Bush a população estadosunidense chancelou a força bruta como método de convencimento do restante do mundo. Mas ela somente trouxe mais problemas, nenhuma solução: o país ficou mais pobre, mais vulnerável, mais antipático, mais distante do futuro e das demais nações do mundo.

A política do governo Obama tem sido a de flexibilizar as relações, abrir o diálogo, mas com a difícil tarefa de não deixar transparecer alguma espécie de “fraqueza”, como se eles estivessem “abrindo a guarda” ou “pedindo água”.

Do lado cubano a saída de cena de Fidel Castro (o qual continua emitindo seus pareceres construídos na década de 1960 e 1970, mas sem qualquer relevância política) possibilitou ao governo da ilha aceitar a reaproximação com nações que ignoraram o país durante décadas (o que não significa que muito em breve veremos cubanos e estadosunidenses sentados na mesma mesa de jantar). E, tanto na ilha quando na “América” (como ainda gostam de se referir a sua terra os estadosunidenses) a geração que passa a “apitar” no jogo da política é uma que nasceu após o fim da II Guerra Mundial, e no fim da chamada “Guerra Fria”. Não é a toa que um dos grupos que mais apoiou a candidatura de Obama foi o de exilados cubanos, desejosos de que, com a morte de Fidel, EUA e Cuba consigam conviver em paz e que famílias separadas há muitos anos possam finalmente se reencontrarem, sem ter quer que fugir em balsas de bóias.

Por isso, apesar do governo cubano ter dito que a readmissão na OEA não lhe interessa (e isso faz parte do jogo de “discursos”), a decisão de fazer o convite foi efetivamente histórica e a OEA dá o primeiro passo real, público, para que seja efetivamente o que jamais foi: a Organização dos Estados Americanos e não a Organização dos Estados Unidos da América.  

 

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina Tags: , , , , , , , , ,
28/05/2009 - 07:00

Efeitos retardados da Guerra Fria

Nos últimos dias o conflito entre as duas Coréias, que povoa o noticiario internacional já há alguns anos, tomou proporções de tensão somente vistas no começo dos anos de 1950 quando o conflito armado eclodiu matando aproximadamente 3 milhões de coreanos de ambos os lados, além de soldados das Nações Unidas enviados para promover a retomada de Seul, capital sul-coreana invadida pelo exército do norte.

 

Em verdade a atual tensão entre as duas Coréias mistura elementos atuais e questões mal resolvidas, decorrências retardatárias da Guerra Fria e mesmo do neo-colonialismo europeu.

Em geral há duas correntes de interpretação da chamada “Guerra Fria”. A primeira delas, mais conhecida do público em geral, defende que a guerra política, econômica, ideológica entre o bloco capitalista e o bloco socialista realmente tinha potencial para descambar para um conflito armado de proporções inimagináveis, o qual, muito provavelmente, acabaria com a vida humana na Terra tal como a conhecemos. A segunda corrente de interpretação, defendida pelo historiador inglês Eric Hobsbawm, diz que – na realidade – a Guerra Fria, por ser regulada por arsenais nucleares equivalentes (o que gerava o que se chamou de Garantia de Destruição Mútua, GDM), jamais teve chance de se concretizar, o que levou as duas grandes potências, União Soviética e Estados Unidos, a deslocarem os conflitos para as periferias do mundo, financiando guerrilhas, exércitos, milícias, etc.

De fato, tanto na Coréia quanto mais tarde no Vietnã, foi esse quadro que se viu e que “financiou” o conflito armado. No pós II Guerra Mundial ambos os blocos não mediram esforços para aumentar suas áreas de influência, mas sem se comprometer oficialmente. O norte da Coréia, que faz divisa com a China, foi fortemente influenciado pela presença dos comunistas, ao passo que o sul sofreu pressão estadosunidense. Em 1950 o conflito entre as duas áreas – a socialista e a capitalista – estourou com um rápido avanço do exército do norte que tomou Seul. Liderados pelos EUA tropas da ONU desembarcaram na península (naquela época tropas das Nações Unidas se envolviam em combates diretos, coisa que foi abolida posteriormente, por isso hoje chamadas de “tropas de paz”). O contra-ataque conseguiu empurrar o exército socialista de volta para o norte e consolitar a linha do Paralelo 38 como área de separação das tropas inimigas.

Os soldados dos EUA e da Grã Bretanha tentaram avançar sobre o norte, mas foram rechaçados pela intervenção dos chineses e soviéticos, sustentando as tropas norte coreanas. Diante disso criou-se um impasse no qual nenhum dos dois lados tinha forças suficientes para garantir a vitória sobre o adversário. Dois anos depois, em 1953, as duas Coréias assinaram um cessar-fogo, mas a guerra efetivamente jamais foi declarada encerrada.

Parte dessa política no sudeste asiático foi promovida pela intervenção de nações européis ao longo dos séculos XVIII, XIX e começo do XX, naquilo que conhecemos como “neo-colonialismo”. Mesmo processo que levou a ocupação da Índia, da Birmânia, do Camboja. Essa presença européia acentuou – via de regra – os antagoniosmos regionais, os quais existiam por si só. Grupos de adesão aos europeus e outros de resistência passaram a se confrontar diretamente e assim se mantiveram mesmo depois da saída dos colonizadores, processo que se encerrou em grande medida justamente com a II Guerra Mundial.

Por isso os grupos antagônicos passaram a se alinhar com socialistas ou capitalistas, muitas vezes por pura conveniência material: quem oferecesse melhores recursos recebia a adesão. Esse movimento, aliás, também ocorreu com as nações africanas.

Essa tensão se arrastou durante décadas e perdeu força quando no período entre 1989 (a queda do muro de Berlin) e 1991 (fim da União Soviética) o chamado mundo “bipolar” se tornou muito mais complexo, com infinitos atores no cenário. Na Europa o socialismo deixou em grande medida de ser um adversário e muitas naçõe spuderam se reconciliar depois de décadas (é claro que outras implodiram depois do fim da força que as mantinha  unidas desapareceu, como foi o caso da Tchecoslováquia e da Iugoslávia).

Mas, no oriente, a presença da China manteve ainda resquícios dessa bipolaridade, até memso porque se os elementos ideológicos perderam força o antagonismo econômico entre China e EUA ganhou, o que fez os orientais manterem sua política de braço forte na região.

Mas, no caso da Coréia do Norte, há ainda motivos recentes, criados depois dos eventos da Guerra Fria. A manutenção de líderes políticos obtusos, num país sem democracia e que investiu mais dinheiro em armamento do que em educação criou um paradoxo diante do vizinho do sul, o qual se tornou uma potência econômica, com níveis altíssimos de instrução e cidadania. Por mais absurdo que isso possa parecer o conflito entre as duas Coréias é um conflito também entre dois países que estão em “tempos” distintos de existência: um luta para desenvolver tecnologia avançada, o outro para ter petróleo e alimento. É como a cena do exército comunista chinês sendo recebido pelos resistentes tibetanos armados com lanças.

Mas, sabendo disso, os líderes norte-coreanos adotaram uma língua que todos entendiam bem nas décadas de 1950, 1960, que é o “atomiquês”, e que naquela época funcionava.

É claro que o desafio explícito dos norte-coreanos à ONU e a quase toda comunidade mundial também se assenta no conhecimento do fracasso da política internacional dos EUA nos últimos dez anos, a qual colecionou fracassos um atrás do outro (Afeganistão, Somália, Iraque). Também se fundamenta no fato de que as potências que tem mais poder e influência desrespeitam as regras que querem que os outros cumpram, tal como os EUA desrespeitaram o Conselho de Segurança da ONU ao invadir o Iraque e Israel desrespeita ao não cumprir nem uma única resolução do mesmo órgão nas últimas três décadas. Mas poderíamos ainda acrescentar a França, que realizou testes nucleares há poucos anos na Polinésia, ou o governo inglês que apoiou os EUA em todas as circunstâncias, ou o Japão, que depois de cinquenta anos de pacifismo, decidiu se “empanar” com os estadosunidenses na aventura iraquiana, situação absolutamente chocante.

No final das contas o que vemos é um país miserável empregando as mesmas manobras que as grandes potências usaram até hoje e a única línguagem que crêem que os faça serem ouvidos. Infelizmente que mais pagará por isso são so vizinhos do sul em especial, e a humanidade como um todo.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do oriente Tags: , , , , , , , , ,
05/05/2009 - 07:00

Um certo maio de 68

Zuenir Ventura deu ao seu livro testemunho/reportagem o título de 1968, o ano que não terminou, justamente pelo fato de entender que tantos e tão intensos foram os acontecimentos desse ano que ele – para o bem e para o mal – jamais terminou. Hoje, passados 41 anos é possível que, ao menos em parte, ele tenha finalmente acabado.

 

1968 realmente foi um ano intenso. Foi um ano de Beatles, de Mutantes, de Festival, de Guerra do Vietnã, da “Primavera de Praga” (uma espécie de levante libertário, civil e pacífico na antiga Tchecolosváquia contra a opressão da influência do comunismo soviético no país), do lançamento d’O Bebê de Rosemery (um marco na história do cinema de suspense), de Barbarella, para nós brasileiros foi o ano do AI-5 (o golpe dentro do golpe de estado no Brasil), de Roberto Carlos em ritmo de aventura, enfim, desde as primeiras horas o ano prometia.

Mas, efetivamente, em termos mundiais o “evento do ano”, aquele que marcou definitivamente 1968, muito provavelmente foi o chamado “Maio de 68″ da França.

Em linhas gerais seria razoavelmente fácil definir: um levante popular iniciado por estudantes, mas logo apoiado por uma infinidade de grupos ligados as classes populares francesas, que praticamente colapsou o país durante semanas e obrigou o presidente, Charles De Gaulle, a se refugiar numa base aérea francesa na Alemanha. Mas a dimensão, a gravidade e a importância do Maio de 68 só podem ser compreendidas quando observadas ao longo de muito tempo.

O século XIX, apesar de ter sido considerado o “Século das Luzes”, coroado pela “Era Vitoriana” (do máximo do luxo burguês encarnado pela longeva rainha Vitória da Inglaterra), também foi o século da formação e consolidação do pensamento social ligado as classes trabalhadoras. A Comuna de Paris, no final do século, encarnava o choque frontal entre a classe trabalhadora e a burguesia industrial, levando a cidade de Paris a relembrar os momentos mais terríveis de suas ocupações por exércitos inimigos. A Comuna foi tão traumática para a as classes proprietárias que a famosa Reforma Urbana de Paris teve como objetivo abrir espaços para impedir que novas barricadas e aglomerações viessem a ocorrer.

Décadas depois, no final da I Guerra Mundial, em 1917, pela primeira vez um levante de trabalhadores e camponeses venceu as forças regulares do Estado na Rússia e deram início a Revolução Russa, a qual foi o gérmen criador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com esse precedente as nações européias dirigidas pela burguesia passaram a ver com horror a possibilidade da expansão da revolução dos trabalhadores e não medir esforços para impedir que isso ocorresse.

Esse foi um dos motivos pelos quais França e Inglaterra não impediram veementemente o rearmamento da Alemanha e a intervenção nazi-fascista na Guerra Civil Espanhola 1936-1939 (travada entre o governo republicano, legitimamente eleito e formado por socialistas, comunistas e anarquistas, além de democratas simplesmente, contra os nacionalistas de feição fascista liderados por Franco). O medo de que a Espanha se convertesse em mais um pais comunista foi maior do que a ameaça nazista, e deu no que deu.

A derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã à União Soviética – rompendo o tratado de não agressão entre os dois países – acendeu no governo soviético uma postura muito mais agressiva em relação a expansão do comunismo e de seus aliados do que até então. O fato é que a II Guerra Mundial foi encerrada com uma divisão radical na Europa entre as nações do oeste lideradas pela Inglaterra e França e o bloco socialista – a pejorativamente chamada Cortina de Ferro -, formado pelos países que passaram a viver sob a influência direta dos soviéticos.

Em alguns países o final da II Guerra Mundial marcou um período de reestruturação, de reconstrução e de desilusão tão profundo que, por incrível que pareça, governos fortes e praticamente ditatoriais se estabeleceram. Na França, a mais ofendida das nações aliadas (e que caiu de joelhos diante do nazismo graças ao colaboracionismo de parte substancial de suas elites), surgiu a figura do General Charles De Gaulle, herói da resistência francesa aos alemães.

Apesar de ter lutado contra o nazismo e a invasão alemã, De Gaulle estava longe de poder ser considerado um “democrata” ao pé da letra, e seu governo, que se estendeu por décadas, foi marcado pela linha dura e pela pressão sobre as classes populares ou grupos libertários.

Mas, ao mesmo tempo, no leste europeu crescia a indignação contra a opressão política soviética. O fato é que parte dos grupos políticos articulados de esquerda estavam tão fartos do controle conservador de grupos como o de De Gaulle quanto estavam do estalinismo soviético (como o partido comunista Tcheco, o qual foi a a base para a Primavera de Praga, uma série de ações políticas liberalizantes, interrompidas pela invasão militar soviética).

Mas isso se espalhava para além das fronteiras francesas ou do leste europeu, a tensão criada pelo antagonismo político e ideológico dos blocos socialista e capitalista penetrava em praticamente todos os recantos da sociedade e em cada segundo das vidas. O ar realmente havia se tornado irrespirável.

Maio de 1968 talvez tenha sido o momento da gota d’água dessas tensões, disparada por uma sequencia de ações duras e impositivas do governo de De Gaulle sobre os estudantes.

O movimento começou com a paralização de estudantes secundaristas, mas rapidamente outros grupos de estudantes aderiram, depois trabalhadores, intelectuais, a classe artística. A cidade de Paris foi tomada por barricadas – apesar das reformas do século XIX – e as universidades se tornaram quartéis dos “rebeldes”. O país parou e a reação do governo praticamente instaurou um clima de guerra civil. No limite do levante o presidente se refugiou na base aérea.

Mas o grupo rebelde encontrou os mesmos problemas que os republicanos espanhóis entre 1936 e 1939: a falta de coesão do movimento, o qual reunia comunistas, anarquistas, socialistas, todos com desconfianças mutuas, e a falta de apoio do Partido Comunista, e até mesmo dos soviéticos. Desunidos e sem apoio o movimento ruiu tão inesperadamente como começou. De Gaulle retomou as rédeas do poder e adotou uma linha ainda mais dura do que até então, só rompida com a chegada dos socialistas ao poder, liderados por François Miterrand, anos depois.

Ainda resta uma sensação no Maio de 1968 de que um dos vetores do movimento fora uma espécie de catarse coletiva, a explosão de um sentimento de opressão contra um sistema, contra um ambiente que era muito maior do que simplesmente o governo francês. Para muitos, Maio de 68 foi o último levante popular legítimo, um epílogo dos movimentos libertários que tomaram corpo no século XIX.

De qualquer modo, durante anos os eventos de maio na França rondaram as cabeças dos governantes e, paradoxalmente, ofereceram argumentos para o recrudescimento da direita e do conservadorismo ao redor do mundo, somente atenuados décadas depois.

 

Segue o link para um video com as imagens do conflito: http://www.youtube.com/watch?v=BcDCsCGdOm4&feature=related

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea Tags: , , , ,
18/07/2008 - 09:34

18 de julho de 1936

18 de julho de 1936 foi um daqueles dias em que os desejos de lembrar e esquecer convivem íntimamente.

Naquele dia o General Franco deu um golpe de estado derrubando o governo repúblicano democraticamente eleito na Espanha e iniciando uma ditadura que duraria décadas.

Com o golpe comunistas, anarquistas e simpatizantes de todas as partes do mundo se mobilizaram para garantir a retomado do poder, dando início a Guerra Civil Espanhola.

Além dos motivos óbvios desse dia vergonhoso outro se soma. A Guerra Civil Espanhola foi vencida por Franco com ajuda da aviação alemã, já sob controle do governo nazista. E ninguém intercedeu, nenhum estado com força, na Europa ou nas Américas, tentou deter tal absurdo: nem o golpe de estado, nem a interferência alemã nos assuntos espanhóis.

Deu no que deu.

O silêncio dos estados dito democráticos garantiu a possibilidade de crescimento do poder dos estados nazi-fascistas e, quando se deram conta, os alemães já estavam dentro da Polônia, cerca de três anos depois.

A Guerra Civil Espanhola se notabilizou não só por ter sido a chamada “prévia da II Guerra Mundial”, mas por ter sido uma luta heróica e trágica. Com o apoio dos alemães – os quais bombardearam a cidade de Guernica, dando o mote para o famoso quadro de Picasso – a luta na Espanha se tornou deveras desigual e quase desesperada.

Pelos rádios, cotidianamente, simpatizantes dos repúblicanos ouviam as notícias da Guerra pelo mundo afora. Muitos se alistaram como voluntários em batalhões internacionais, como o escritor estadunidense Ernest Hemingway (que depois escreveu Por quem os sinos dobram, inspirado em sua vivência no front espanhol), o fotógrafo Robert Capa (o qual produziu a foto de um soldado republicano levando um tiro no peito no alto de uma montanha), o brasileiro Apolônio de Carvalho (dirigente do Partido Comunista), o inglês George Orwell (autor de 1984), entre tantos e tantos.

As brigadas internacionais, bem como os republicanos, caíram, mas, como disse aqui noutra ocasião, foi a derrota deles que venceu no campo da memória e não a vergonha nazi-facista.

Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro disse num discurso: “Perdi todas as lutas que travei: tentei salvar os índios e não consegui, tentei criar uma universidade do futuro e nos tomaram ela, tentei melhorar a educação brasileira e me venceram. Mas detestaria estar do lado daqueles que ganharam.”

Por esse mesmo motivo lembrar e esquecer a Guerra Civil Espanhola – em seus diversos aspectos – é ainda tão importante.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da Literatura Tags: , , , , ,
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