Entre a história acontecimento e a história interpretação
Algumas discussões ocorridas neste espaço ao longo de sua existência acabaram por me levar a uma indagação: o que elas teriam em comum, ainda que envolvendo assuntos tão distintos como imigração, Revoluções, lugares pelo Brasil a fora ou mesmo a rotina do viajante?
Cheguei a uma possibilidade de entendimento que, em verdade, abre uma discussão a respeito das relações entre ciência, fé e verdade e o papel da história dentro desse universo de relações.
Parte significativa dos problemas envolvidos aqui começam no sistema educacional. Infelizmente isso não é uma exclusividade brasileira, ou de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma pesquisa, realizada há alguns anos, demonstrava que parte significativa da população dos Estados Unidos não sabia que era a terra que girava ao redor do sol e não vice-versa. Os alunos normais franceses sabem menos a respeito da Revolução Francesa do que alunos de outros países.
O físico Carl Sagan, quando escreveu O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, denunciava isso: uma comunidade global que não conseguia se relacionar com a ciência a disposição.
É claro, a ciência NÂO é uma VERDADE ABSOLUTA, a proposta dela é justamente o contrário, é se colocar a prova o tempo todo. Uma interpretação científica somente sobrevive a medida em que, colocada a prova, consiga se sustentar. Se um pedaço de pão escapa da minha mão e não cai, em condições normais, então deveremos rever os príncios de Isaac Newton a respeito da Lei da Gravitação. Como isso não acontece continuamos a achar as idéias newtonianas boas, pelo menos para nosso cotidiano imediato.
Existem cientistas radicais, quase fundamentalistas, como o biólogo Richard Dawkins que acha que qualquer pensamento que não seja o científico é sinal de ignorância e delírio. Não creio que seja assim, e não creio que seja a opinião mais corrente mesmo entre cientistas.
Se preciso tomar uma decisão tecnica, médica, jurídica, vou me ater a ciência. Quero uma opinião científica sobre se devo me operar ou não, se devo trocar o freio do meu carro, se devo e posso processar quem me caluniou, mas posso conviver achando que há mais do que isso por trás. São Tomás de Aquino dizia que a ciência fortalece a fé e não a nega.
Mas com a história as coisas parecem ainda mais complicadas, pois as pessoas – a maioria pelo menos – pensa que a história seja ou algo objetivo (como imaginam que a ciência seja) ou algo absolutamente subjetivo (como são as “histórias”, as quais cada um tem uma). Entre os dois extremos a história fica num terreno de ninguém, sob pesada fuzilaria.
Uma consideração de Dráusio Varela ao final do Estação Carandiru me parece ser interessante, dizia ele, sobre o massacre dos 111 presos no presídio: existe a “verdade” dos presos, a da polícia e a Deus, dessas só tive acesso à dos presos.
Uma das dimensões que quem trabalha com história tem que trabalhar constantemente é justamente a que nos diz que a verdade do “fato”, do “ocorrido”, jamais nos será entregue, se é que ela existe. Além do mais, a “verdade” a respeito de algo é a de quem invadiu ou de quem foi invadido? De quem venceu ou de quem perdeu? De quem dirigia uma reunião ou de quem servia café naquele dia?
Essa margem de discussão, entre as versões a respeito de algo, não comporta a desonestidade, a ética de quem pesquisa e escreve. Mesmo que aquilo que chamamos de “verdade” seja uma convenção ela precisa funcionar, precisa se submeter a prova. Não posso dizer que Fernando Collor de Mello não renunciou à presidência da República após a abertura de um processo no Congresso contra ele, acusando-o de práticas ilícitas e pedindo sua cassação. Isto é uma “verdade” consensual. Geralmente as disputas na história e nas ciências em geral se dão nas filigranas do fato e não nele em si.
Collor foi vítima de uma conspiração? Ele realmente era culpado? Derrubaram ele por motivos obscuros os quais nem sequer sabemos? Isso tudo é passível de discussão, mediante a apresentação de provas.
Nisso a história é igual às demais ciências: toda interpretação depende de ser colocada a prova para ser aceita. Uma interpretação aceita se mantém enquanto outra melhor não surgir. E a cada dia que passa essas interpretações são postas a prova, e a medida em que não dão mais conta do recado vão decaíndo, até desaparecerem, num processo longo. Até mesmo porque idéias que caíram podem sobreviver durante muito tempo em grupos específicos, ou mesmo na maioria, quando as academias, onde se produz parte do conhecimento científico, não fazem sua obrigação que é a de interagir com a sociedade.
Eu sei, todo esse processo pode parecer complicado, mas também é divertido, e necessário.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história Tags: Ciência, História, Historiador, Interpretação