06/06/2009 - 07:09
A cada ano a cidade de São Paulo acumula recordes de congestionamentos. Lembro de que até alguns anos congestionamentos de 60 ou 80 Km eram tidos como “monstruosos”, agora estamos nos aproximando dos 200 Km. Uma série de fatores sempre é lembrada como causa do nosso “infarto urbano”: excesso de carros de passeio, caminhões que cruzam a cidade para irem de um lado para o outro do país, sistema de transportes públicos precário, vias mal conservadas, falta de educação, desrespeito às leis de trânsito, etc, etc.
Sem descartar nenhuma dessas causas eu acrescentaria outras duas, de ordem histórica, e que continuam sendo precariamente combatidas pelos poderes públicos. Anos atrás, quando comecei a estudar a evolução urbana da cidade de São Paulo, por conta dos trabalhos em arqueologia, fiquei impressionado com duas conclusões.
A cidade de São Paulo se desenvolveu desde seus primórdios como área de entrocamento, de encruzilhada, de rotas que ligavam diversas regiões da colônia. Do extremo sul vinham as rotas que traziam animais de carga, sobretudo mulas, e carne seca das “charqueadas”, as quais seguiam para Minas Gerais e Goiás. Para isso passavam na área de São Paulo. Depois essas rotas passaram a abastecer também o Vale do Paraíba (região de Guaratinguetá, São José dos Campos, Taubaté) e o Rio de Janeiro.
Também vinham rotas da região de Goiás e do Mato Grosso em direção ao sul ou ao porto de Santos, sempre passando por São Paulo. De Santos, por sua vez, subiam vários produtos, entre eles sal e ferramentas e chegavam através do Caminho do Mar, o qual literalmente entrava na cidade pela região do Ipiranga.
Parte significativa desses caminhos surgidos nos séculos XVI, XVII, XVIII derivavam de antigos caminhos indígenas que eram empregados tanto para trocas comerciais entre os povos originais das Américas quanto para guerras. O próprio Caminho do Mar era em sua origem um caminho indígena. Os jesuítas e colonos quando aqui se estabeleceram se apropriaram do conhecimento dos povos indígenas e, pode-se dizer, que apenas assim conseguiram sobreviver no planalto paulista.
Do centro da ocupação da região, do “quartel general”, a vila de São Paulo de Piratininga, saiam caminhos que ligavam aos assentamentos e aldeamentos jesuiticos que se espalhavam no entorno, como em Pinheiros, Cotia, Itapecerica, Embu. Assim surgiram os caminhos tradicionais da região: o caminho dos Pinheiros, a estrada para Goiás, o caminho do Norte, o caminho do Mar.
Os indígenas, ao escolherem esses traçados, muito tempo antes dos portugueses chegarem, haviam empregado todo seu conhecimento da topografia da região, optando pelas melhores opções de trânsito, considerando que o núcleo original de São Paulo está assentado sobre uma elevação entre dois pequenos vales, o do Anhangabaú e o do Tamanduateí. Em suas “costas” há o espigão onde se localiza a avenida Paulista, exatamente em sua “espinha dorsal”.
Ocorre que esses caminhos eram tão funcionais, tão perfeitamente escolhidos para quem transitava a pé ou a cavalo, que os séculos foram passando, a cidade crescendo, a população aumentando, os transportes mudando, e os itinerários se mantendo. Os antigos caminhos foram mantidos, como pequenas alterações.
O caminho que ia para Pinheiros virou a Consolação-Rebouças, o que ia para os assentamentos jesuíticos virou parcialmente a rodovia Raposo Tavares. Para outra banda da cidade, sobre o antigo caminho do Guaré, surgiu a avenida Tiradentes. Para o Norte surgiu sobre o caminho antigo a Rangel Pestana e no lugar do Caminho do Mar temos a Anchieta. Apesar de todas as modernizações dessas vias – alargamentos, duplicações – nada foi capaz de vencer a obviedade de que os caminhos antigos atendiam a antigas necessidades. Eram ótimos para quem vivia como os paulistas do século XVIII. Hoje viraram problemas.
A segunda constatação é de que, assim como há séculos, as rotas de pessoas e de comércio continuam passando pela cidade, aliás, somente se intensificaram. As mercadorias produzidas nas mais diversas regiões do Brasil continuam cruzando a cidade para chegar até o porto de Santos e tanto as estradas (Imigrantes e Anchieta) quanto a estrada de ferro estão entupidas quase tanto quanto as vias principais da cidade de São Paulo. Ou seja, não conseguimos nesse período de tempo nem imaginar formas melhores de escoar nossas produção, de fazê-la cruzar o país, nem conseguimos repensar a dinâmica de deslocamento das populações dentro da cidade e na região do entorno.
Isso foi ainda mais agravado com a “conurbação” como diriam meus amigos geógrafos, a junção de áreas urbanas de cidades distintas pelo crescimento da ocupação. Ou seja, virou tudo uma gigantesca malha de bairros que se sucedem sem que consigamos perceber claramente quando termina uma cidade e começa outra. Ligando essas regiões ainda estão os antigos caminhos de São Paulo.
Efetivamente a grande idéia em termos de deslocamento é a fuga das áreas centrais, o contorno, coisa que era desnecessária e impensável para quem andava a pé ou de cavalo, mas que para veículos automotores, que ficam horas presos em congestionamento, vale a pena. Por isso o Rodo-anel significa não apenas uma solução técnica, mas uma revolução na mentalidade de deslocamento no planalto paulista. É claro que se tívessemos investido em planejamento urbano isso teria sido começado a ser implantado há décadas. Infelizmente não foi assim.
Agora resta rezar (e cobrar) para que a fuga dos antigos caminhos fique pronta o mais rápido possível – o que parece estar difícil de ocorrer. Mesmo assim, apenas um dos problemas estará resolvido. O do trânsito interno da cidade exige ainda outra revolução mental e estrutural: estrutural para que tenhamos opções de transporte, mental para que os paulistas passem a deixar em casa uma das coisas que mais amam em suas vidas, seus carros.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Anchieta, Caminho do Mar, Caminhos, Cidade, Congestionamento, Consolação, Estradas, Imigrantes, Rebouças, Rodo-anel, São Paulo, Tiradentes, Transportes, Vias
19/01/2009 - 21:17
Dia 25 de janeiro, dia da conversão do apóstolo do “gentio”, Paulo de Tarso, tornou-se o dia da festa de aniversário da cidade de São Paulo, batizada em sua homenagem, uma cidade que – por acidente do destino – se tornou megalópole que faz jus ao seu padroeiro: uma cidade de estrangeiros.
Já escrevi inúmeras vezes aqui a repeito de Sampa (até porque é a minha humilde especialização acadêmica), então sempre fico me perguntando: O que de novo vou conseguir escrever a respeito de São Paulo em poucos parágrafos?
Pergunta um tanto besta, pois se há um lugar onde sempre há algo a se dizer – bem ou mal – é São Paulo.
Esses dias fui assistir Rebobine por favor, filme mais recente de Michel Gondry. No filme há uma frase – dita por Mya Farrow – que é lapidar e que chamou atenção minha e de meu amigo historiador que me acompanhava: “O passado nos pertence, podemos mudá-lo como quisermos.”
Verdade maior, como diria Guimarães Rosa. E o caso de São Paulo é absolutamente esclarecedor.
Surgida de um conjunto de assentamentos indígenas e de um Colégio Jesuítico implantado no começo de 1554, a vila de São Paulo de Piratininga (que só ganhou essa condição anos depois, com a anexação da população vinda de Santo André da Borda do Campo, abandonada após o grande conflito indígena que assolou o planalto de Piratininga naquela década) era um assentamento que possuia mais valor simbólico do que econômico para a Coroa Portuguesa.
Sua população se manteve absolutamente diminuta durante séculos - comparando, é claro, com as cidades litorâneas do período colonial, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
Basta lembrar que durante um bom tempo a Capitania chamara-se de São Vicente e não de São Paulo, nome que mudou quando a possessão voltou às mãos da Coroa Portuguesa.
Com o passar dos séculos São Paulo granjeou poder estratégico nos negócios da colônia, seja como bastião de defesa dos limites do sul – sempre ameaçados por espanhóis -, seja pelas descobertas de ouro, pelo fornecimento de mão de obra indígena ou, em tempos mais recentes, como grande entroncamento de rotas de comércio. Mas, até o final do século XIX jamais fora uma “grande cidade” em termos de espaço e demografia. Nem fora uma cidade opulenta, com ouro saltando dos altares como na Bahia ou nas Minas Gerais.
Entretanto, como a personagem do filme de Gondry, escritores paulistas trataram de tomar conta do passado e adaptá-lo ao seu bel prazer. Com isso criou-se toda uma mitologia a respeito do passado de São Paulo, o qual passou a ser heróico e, ao mesmo tempo, como um prenúncio, um presságio de um futuro glorioso que lhe esperava no século XX.
Quando a cidade fez 450 anos lembro-me de uma revista que trouxe estampada na capa a notícia: “O século paulista”. Muito sintomático dessa interpretação. Como se a cidade tivesse brotado como um cogumelo após as chuvas, lá pelo final do século XIX.
O fato é que a cidade vinha se armando desde o final do século XVIII, quando saída de uma crise violenta – a qual chegou a levar a extinção administrativa da Capitania de São Paulo em 1748 – começou a se reorganizar sobre uma nova economia eminentemente mercantil, comercial. O ouro que faltava nos altares das igrejas de São Paulo, e que levou muitos historiadores a interpretarem a cidade como “pobre”, estava sendo investido, guardado, emprestado, gerando condições materiais que possibilitaram o salto econômico entre o século XIX e XX.
A cidade não ganhou na loteria, como muitos entenderam, mas fez sua caderneta de poupança secular. São Paulo há séculos vinha se tonando uma investidora conservadora nos gastos supérfluos, o que permitia o uso dos excedentes em novos negócios.
E raramente se comportou como um núcleo preconceituoso – claro, racismo e preconceito existem em todos os lugares e contextos -. A cidade assimilou rapidamente os grupos de estrangeitos ou de brasileiros de outras regiões. Mesmo o ranço dos famílias das elites paulistas, que no começo do século XX ainda ficavam propalando sua história “quatrocentona” (alegando que suas famílias estavam na cidade desde a época de sua fundação), não chegou a comprometer o conjunto da sociedade paulista.
Os pensadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – o IHGSP – entre o final do século XIX e começo do XX fizeram um esforço fenomenal pra moldar a história de São Paulo aos desejos dos vivos, aos desejos das elites paulistanas ansiosas por justificar a grandeza do estado e da cidade e a dívida que a nação tinha para com eles.
Por isso uma professora minha costumava dizer que na USP não ensinávamos a história de São Paulo pois todas as disciplinas lá eram uma espécie de “história de São Paulo”. De fato a leitura corrente ainda hoje da independência do Brasil é uma interpretação “paulista” dos fatos, a qual coloca os politicos e as elites de cá em situação de protagonismo absoluto.
Seja como for, ainda creio que São Paulo se tornou uma cidade generosa que ao invés de insistir no que é “tradicionalmente paulista” criou uma interpretação pelo avesso: tudo o que está em São Paulo é a cara de São Paulo. É uma identidade que se define pela pluralidade e pela “antropofagia”, como queriam os modernistas de 22, não pela exclusão.
Por isso a escolha de São Paulo – apóstolo de “estrangeiros”, a definição de “gentio” - foi curiosamente adequada a cidade.
Com seus 455 anos de existência a cidade continua jovem e com uma incrível capacidade de se amoldar a novos desafios, a novas situações, é um incrível caso de regeneração.
Obviamente que é uma cidade que carrega seus milhões de problemas e desafios – e muitas promessas não cumpridas por sucessivos prefeitos e governadores -.
Por fim, segue a maravilhosa letra da canção São Paulo, São Paulo do Premeditando o Breque (Premê para os íntimos) que mostra exatamente esse apreço pelo incongruente, pela dissonância, pelo paradoxo, pela ironia que é a cidade de São Paulo, enternamente dividida entre o amor e o ódio de todos.
É sempre lindo andar na cidade de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São PauloNa grande cidade me realizar
Morando num BNH.
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo
Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo
E pra você criança muita diversão e poluição
Tomar um banho no Tietê ou ver TV.
Na grande cidade me realizar
Morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali
Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi
Pari,
Butantã, Utinga, Embu e Imirim, Brás, Brás, Belém
Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo
Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé
Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo
Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro
Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo
Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá.
Na grande cidade me realizar morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia
Na periferia a fábrica escurece o dia
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Sem categoria
Tags: 455 anos, Aniversário, Cidade, História, São Paulo
19/08/2008 - 20:48

Já devo ter escrito isso aqui em algum outro momento, mas como nunca é demais lembrar certas coisas lá vai uma mea culpa: não conheço as “cidades históricas” de Minas Gerais.
Apesar de conhecer regiões muito improváveis do Brasil, outras absolutamente distantes, remotas, etc, jamais fui as cidades que são consideradas um dos patrimônio maiores de nosso país.
Quer dizer…não conhecia.
Estava há algumas centenas de quilômetros de Tiradentes, uma das cidades mais a leste de Minas Gerais, mais próxima da divisa com o Rio de Janeiro. Depois de alguma confabulação decidimos, eu e minha equipe, empreender uma viagem rápida a Tiradentes. Bate e volta.
Muitas horas depois chegamos a cidade que tem o nome do mártir da Inconfidência Mineira, o alferes José Joaquim da Silva Xavier.
Muito simpática, muito agradável, muito bonita e muito cara a cidade de Tiradentes. Creio que a cidade hoje encarne um dos problemas gerados pelo binômio turismo histórico (ou cultural) e desenvolvimento social.
Há algumas décadas a idéia de aproveitar o turismo para desenvolver cidades e gerar renda, sobretudo em cidades que abrigam patrimônio histórico e cultural ou cidades que possuem um patrimônio ambiental interessante (florestas, montanhas, cachoeiras, lagos, fauna, etc), ganhou muita força.
O turismo virou uma panacéia, a solução para todos os males. Em alguns casos o turismo realmente gerou novas possibilidades de trabalho, ajudou a recuperar estruturas urbanas, aumentou a arrecadação municipal. Em outros casos as experiências não foram tão bem sucedidas, por diversos motivos. Mas mesmo as experiências tidas como “bem sucedidas” depois de alguns anos começaram a mostrar “efeitos colaterais”.
Onde há dinheiro há afluxo de pessoas, e afluxo de interesses econômicos, muitos deles novos para as regiões e as realidades locais.
Os problemas são inúmeros e podem aparecer individualmente ou em grupo: exploração do trabalho, prostituição (ainda mais a de menores), especulação imobiliárias, máfias locais que controlam as licenças de operação dos negócios, invasão de empreendedores de fora da cidade, empregando os moradores tradicionais em sub-empregos, descaracterização das cidades, aceleração da degradação do patrimônio cultural e ambiental. Em suma: a medicação pode matar o paciente.
Uma coisa que particularmente me irrita é o excesso de mercantilização das cidades. Cobra-se por tudo e cobra-se demasiadamente caro, as vezes contra a vontade do visitante.
Quando estive no bairro da Boca em Buenos Aires, recentemente, fui agarrado e extorquido por uma moça fantasiada de dançarina de tango. Meu amigo Renato Suzuki, fotógrafo, imortalizou a numa foto que se Deus quiser um dia será apagada de seu computador.
Algo semelhante, graças a Deus nenhum jogador de capoeira me agarrou no Mercado Modelo, ocorreu em Salvador.
Por isso quando olho de longe e vejo um monte de lojinhas minha testa começa a suar, fico tenso e meu prazer em estar ali começa a se esvair.
Tudo bem, tudo bem, a grande maioria adora isso, eu devo ser especialmente chato, mas creio que mesmo para a maioria existe um limite do tolerável.
Quando paramos em Tiradentes e vi as lojinhas…
O pouco tempo que tinhamos ali não dava para realizar grandes proezas históricas/arqueológicas/literárias, dava para ver as lojinhas apenas. E a grande maioria delas com preços exorbitantes vendendo artigos com pouca ou nenhuma identificação com a cidade: bonecas de cabaça a R$300,00, jóias em prata por outras centenas de reais, mas pouco que me contasse mais sobre a cidade e sua gente.
Fiquei um tanto decepcionado. Não ocorreu a epifania que meus amigos diziam que ocorreria quando eu finalmente fosse às cidades históricas de Minas Gerais, o céu não se abriu e o Senhor não falou comigo. Talvez tenham sido os coches que a cada dois minutos quase me atropelavam nas ruas.
De resto, tentando bloquear essas questões, a cidade é gostosa e deve ser melhor ainda mais vazia. Pequenina, uma das “caçulas” das cidades históricas. Surgiu no meio do caminho entre as áreas mais importantes de exploração de ouro no século XVIII e o Rio de Janeiro, por onde ele era escoado para a Europa.
E tecnicamente não posso mais dizer que jamais fui as cidades históricas de Minas Gerais.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Patrimônio histórico
Tags: Cidade, Minas Gerais, Patrimônio histórico, Tiradentes, Turismo
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