12/06/2009 - 21:40
Antes do cristianismo se espalhar pela Europa no começo da nossa era a nova religião passou por diversas alterações que acentuaram seu caráter “judaico”. Os pesquisadores da história do cristianismo concordam que o formato que a religião tem hoje difere muito da que foi estabelecida na Palestina há dois mil anos. Até a conversão de Saulo de Tarso – o Apóstolo Paulo, o único dos apóstolos convertido após a morte de Cristo – todos os seguidores eram judeus. De diversas correntes do judaísmo, mas judeus.
É difícil saber ao certo até que ponto o movimento de Jesus e seus seguidores era um rompimento com o judaísmo ou a tentativa de uma “reforma” do mesmo. O que sabemos hoje foi obtido através do estudo de textos diversos escritos naquela época, como os manuscritos do Mar Morto ou textos romanos (como do “historiador” judeu convertido Flávio Josefo), de escavações arqueológicas ou de textos cristãos, todos eles escritos muitos anos após a morte de Cristo. Por isso é complexo determinar o que exatamente se passava na pequena comunidade de seguidores do “Rabi” (como eram chamados os doutos nas leis judaicas que tinham o direito de ensiná-las).
Outra coisa que se sabe é que a influência de Paulo – que era grego, por isso chamado de “apóstolo do gentio” (gentio era a palavra grega para designar os “não gregos”) – foi fundamental nesse processo de atenuação do caráter judaico do cristianismo. Com isso o cristianismo foi definitivamente se consolidando como uma nova fé e não mais – se é que o foi algum dia – uma reforma do judaísmo.
É provável que parte do ritual da comunhão – ou talvez ele todo – seja de origem grega e não judaíca, entre outros elementos. De qualquer forma o fato é que o cristianismo se valeu de uma incrível plasticidade para se difundir mundo a fora. Ele foi agregando elementos de diversos credos, tradições, dando novos sentidos a antigas práticas e garantindo sua difusão. Por isso se tornou uma religião de grande expansão, diferentemente do islamismo, que se difundiu, entre outros motivos, por atender às demandas dos povos mais pobres e de estabelecer uma ligação direta entre os sentidos da religião e o cotidiano das sociedades.
Quando o cristianismo começou a se espalhar mais rapidamente pela Europa, no começo da Idade Média, uma das práticas mais eficientes na conversão dos povos foi a da criação de um grande grupo de santos e santas, seres humanos como qualquer um, mas que, segundo os católicos possuem uma conexão especial com o divino, portanto capazes de interceder em favor do resto da humanidade. É importante lembrar que até a Reforma Protestante, já no começo da Idade Moderna, a existência dos santos era reconhecida como comum ao mundo cristão – católico, ortodoxo ou de outras vertentes que já existiam. Somente depois houve uma recusa por parte dos reformistas – luteranos, calvinistas, etc. - da pertinência da devoção aos santos, o que foi a base do princípio comum hoje aos cristão evangélicos, pentecostais, etc.
De qualquer modo os santos foram “incorporando” características oriundas de antigas crenças e características locais. Por isso tantas manifestações de “Nossa Senhora”, em cada região ela assumiu uma feição diversa.
Mas há casos bastante interessantes, como os dos santos irlandeses ou do Oriente, como o próprio São Jorge.
Antes do cristianismo se difundir a religião romana – em boa parte desdobramento das crenças gregas clássicas – já havia se espalhado pelas regiões dominadas pelo Império. Depois de séculos de ocupação romana muitas populações se sentiam praticamente romanos, embora fossem de regiões que hoje pertencem a Espanha, Portugal, França, Alemanha. Com isso estruturas comuns as cidades romanas na península itálica – berço do Império – começaram a se espalhar também pelas demais áreas da Europa, como Coliseus, Fóruns, Termas, etc. Também templos dedicados às divindades romanas foram erguidos por todos os lados.
Santo Antonio, na verdade Martim Antonio Franciscano, nasceu em Lisboa, no final do século XII, e ingressou na ordem franciscana. A convite do próprio Francisco de Assis partiu para a Itália e para a França. Na Itália pregou, e faleceu, na cidade de Pádua, em 1231 - por isso é chamado também de Santo Antonio de Pádua -, onde havia um gigantesco templo dedicado a deusa Ceres, protetora da agricultura e da fertilidade para os romanos. No templo de Ceres as mulheres que queriam engravidar ou que procuravam maridos faziam oferendas ou pequenos rituais em homenagem a deusa.
Santo Antonio provavelmente foi associado “aos casamentos” justamente pelo fato de ter se ligado a Pádua. A tradição defende que Antonio era um exímio conciliador de “casamentos”, mas enquanto era vivo sua fama era a de grande doutor no evangelho e nas leis, por isso apelidade de “martelo dos hereges”.
Sua fama de casamenteiro se difundiu muito mais em Portugal e no Brasil do que na própria Itália e a quantidade de práticas recomendadas às moças “casadoiras” para encontrar marido é quase que infindável: colocar a imagem do Santo de ponta cabeça, tirar o menino Jesus de seus braços, afogá-lo, amarrar com corda, carregar o pau de sua bandeira ou fazer chá da casca do tronco, ou as mais modernas como colocá-lo no freezer, como vi dia desses. Mas Santo Antonio não foi o único a receber atributos de deuses pagãos, o mesmo ocorreu com inúmeros outros e garantiu a aceitação do cristianismo pelos povos ao redor do mundo.
Por isso, não perca-se tempo: é do dia 12 para 13 de junho que o pobre do Santo deve ser “cobrado”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História medieval
Tags: Casamenteiro, Catolicismo, Franciscano, Lisboa, Pádua, Santo Antonio
07/03/2009 - 14:28
Não vou iniciar este texto falando do bizonho e medieval caso do arcebispo de Olinda e do Recife (que saudades de Dom Helder Câmara), pois, como diria Madre Tereza de Calcutá: Se fizerem uma passeata contra a guerra não me chamem. Mas se fizerem pela paz estarei lá. Certas idéias – como a guerra – são tão abjetas que me recuso sequer a pensar nelas. A idéia de excomungar alguém e tentar torcer a lei de todos mediante a vontade de uma única fé ou credo é tão abjeta que me recuso a pensar nela.
Mas o caso todo me faz ter orgulho de viver em um Estado laico, que tem católicos, evagélicos, luteranos, budistas, muçulmanos, judeus, xintoistas, praticantes do candomblé e seja lá mais o que for, e que não são suas leis religiosas que controlam a vida de todos.
Imagine se um hinduísta ordenasse a punição ao bispo porque ele esta comendo um bife (afinal os bois são sagrados para hinduistas)? Ou se um judeu condenasse um monge por comer um inocente torresminho? Ou se um tribunal islâmico ordenasse chicotear em praça pública o padre que cometeu um ato de pedofilia?
Infelizmente a Igreja Católica (como um todo, não determinadas alas progressistas ou indivíduos em particular), enquanto organização, está voltando a pé da Idade Média, com seus horrores de obscurantismo, ignorância, desumanidade, que foram – graças a Deus!!!!, amém – superados pelo Iluminismo e pelo Renascimento.
Desde os primeiros tremores que começaram a desmontar a estrutura social, mental, econômica da Idade Média até as revoluções burguesas – no século XVIII – foram séculos e séculos de luta contra absurdos que eram cometidos pela nobreza e pelo clero (em verdade quase dois desdobramentos da mesma matriz social), e que determinaram a ida de muitos às fogueiras da Inquisição. Giordano Bruno queimou por “ser contra a fé”, assim como Galileu teve de renunciar em tribunal às suas idéias para não ter o mesmo fim.
No Brasil a divisão final entre Igreja e Estado somente ocorreu com a República, em 1889, mas, mesmo assim, a Igreja Católica continuou a influenciar muito o Estado brasileiro. O golpe de estado em 1964 somente foi possível pois as alas conservadoras da Igreja deram seu aval aos militares, garantindo o apoio de parte significativa da população.
Mas o tempo passa e, como diriam os judeus, a Roda da Fortuna gira, e nos horrores da Ditadura após 1968 a Igreja sentiu a dor na própria carne ao ver seus frades, freiras e padres serem presos, torturados e mortos.
E o fato mais absurdo é que no cristianismo original, primitivo, muitas das idéias que são elencadas pelos “doutores em teologia” (invocados pelo infeliz bispo) simplesmente não existiam. O pecado, o inferno, o purgatório são invenções que foram sendo acrescentadas ao longo dos séculos, quase todas na Idade Média (se quiserem comprovar basta ler Jean Delumeau, O pecado e o medo, publicado, curiosamente, por uma editora católica, a Edusc, ou senão O nascimento do purgatório).
É claro que o fato de um Estado ser laico não garante sua isenção total dos preceitos religiosos, afinal as decisões são tomadas diante das pressões realizadas por grupos e seus representantes (como as chamadas “bancadas” no Congresso). Mas, ao menos, a lei não é escrita por eles e não sem longas discussões, que refletem ainda o “perfil” da população.
Já disse Alexis de Tocquevile que a democracia é a “ditadura das massas”, e por isso a vontade de minorias, às vezes, é atropelada pelo desejo da maioria. E o desafio de um Estado é conseguir garantir o respeito às posições minoritárias sem que isso se torne um caos de particularismos, mas também não se torne um rolo compressor de minorias.
Apesar das deficiências do Estado laico e dos desafios da democracia, como diria Churchil, “é o pior regime, excetuando-se todos os outros”.
Nesse caso a Igreja Católica foi a minoria e o direito da criança, a opinião da ciência, dos direitos humanos de matriz iluminista e o endosso do Estado laico (embora o bispo, com apoio do Vaticano, tenha tentado desqualificar a soberania da lei e a autonomia do governo brasileiro) prevaleceram sobre a vontade de meia dúzia de homens que não conseguiram ver o mundo mudar, pois estavam fechados em alguma masmorra da Inquisição.
Para encerrar. Sinal dos tempos: o arcebispo de Olinda e Recife já foi Dom Helder Câmara, homem ilustrado, inteligente, digno, um verdadeiro defensor da vida, da liberdade, da igualdade. Num dia, com um homem preso e sendo torturado em Pernambuco, pediram a intercessão de Dom Helder. Ele ligou para o delegado e pediu pelo homem, que disse ser seu irmão. O delegado espantou-se e disse não saber que Dom Helder tinha um irmão. O religioso respondeu: Mas é meu irmão, de mães diferentes, mas filhos do mesmo pai.
O atual bispo, provavelmente, não crê nas mesmas coisas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura
Tags: Aborto, Arcebispo Olinda e Recife, Catolicismo, Direitos Humanos
12/10/2008 - 07:26

Em setembro do ano passado eu e minha equipe fomos enviados ao Vale do Paraíba, a fim de produzir um diagnóstico do universo cultural da região. Passamos por quase três dezenas de cidade, entre elas Areias, Arapeí, São José do Barreiro, São José dos Campos, Taubaté, Guaratinguetá e Aparecida.
Uma das tarefas imprescindíveis era registrar a religiosidade vale paraibana, ainda tão forte e tão plural em suas manifestações. Varremos a região em busca dos cultos a Santa Cruz, a cerimônia da Carpição, os santuários da Santa Cabeça e da Santa Perna, o casa de São Frei Galvão, as capelinhas de Santa Cruz nas estradas e, é claro, o culto a Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Fomos à Aparecida num domingo, visitamos o santuário, o qual parecia um formigueiro e nem era 12 de outubro. Ficamos profundamente decepcionados com o mercado de fé que se estabeleceu em frente ao santuário. Voltamos bastante chateados.
Mas, apesar disso, foi uma experiência fantástica ir e observar a religiosidade dos brasileiros no maior centro de peregrinação do país.
A história do culto a Nossa Senhora Aparecida é um exemplo das singularidades culturais do Brasil e da região do Vale do Paraíba especificamente.
No começo do século XVIII três pescadores – Filipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia – estavam a pescar no rio Paraíba do Sul, com o intuito de obter alguns peixes dignos de serem presenteados ao governador da Capitania na ocasião, o Conde de Assumar, que deveria passar pela região rumo às Minas Gerais.
Depois de inúmeras tentativas infrutíferas na rede veio o corpo de uma santa, sem a cabeça. No lanço seguinte da rede de pesca veio a parte faltante. Filipe Pedroso levou a santa para casa, que se tornou ao longo dos 15 anos seguintes local de peregrinação e oração. Em 1734 o culto se tornou oficialmente público com a construção de uma capela. Um século depois começou a ser erguida a primeira basílica, a qual ainda existe e é ligada a Basílica Nova pela famosa ponte.
A coroa de ouro que adorna a santa foi presente de Princesa Isabel, em novembro de 1888. Em 1929, finalmente, foi reconhecida como padroeira do Brasil.
Além da história reconhecida pela Igreja Católica há ainda uma série de lendas paralelas que se espalharam pela região. Uma delas que diz que a santa, depois de “pescada” foi lançada novamente ao rio, porém retornou na rede, até que os pescadores entenderam seu desejo em ser resgatada das águas.
Curiosamente no Vale do Paraíba existem vários registros de santos ou objetos de devoção que são pedaços de imagens sacras ou outros objetos sagrados. Além da igreja da Santa Cabeça (na realidade a cabeça de uma imagem que teria sido encontrada por tropeiros há séculos) há a Santa Perna, um culto não reconhecido pela Igreja Católica, mas com expressão significativa na região de São José dos Campos. A perna que ocupa uma pequena capela provavelmente era um ex-voto (objeto depositado em lembrança a uma graça alcançada, como pernas, cabeças, braços de madeira, velas no tamanho das pessoas ou em formato de órgãos, fotos, etc.) que foi encontrado no meio do caminho.
Mesmo as famosas pílulas de Frei Galvão, distribuídas no Mosteiro da Luz, tem sua origem na região, uma vez que o Santo era de lá. E isso nos faz perguntar o porquê desse tipo de manifestação religiosa no Vale do Paraíba.
A primeira penetração do catolicismo na região foi realizada através dos jesuítas, os quais, para difundirem o cristianismo, adotaram e reinterpretaram diversos procedimentos mágico-religiosos dos povos tupis que ocupavam a região.
A religião tupi sempre teve um componente mágico muito pronunciado, com curas, com práticas religiosas ligadas a materialidade. Em boa parte o catolicismo vale paraibano absorveu essas características.
Também o fato de várias imagens sagradas terem sido encontradas a beira dos caminhos ou nos rios justifica-se pelo fato de que acreditava-se que uma imagem quebrada não podia ser descartada de qualquer modo. Ou depositava-se numa capela de Santa Cruz, a beira de um caminho, ou lançava-se em águas correntes. Provavelmente foi aí que começou a história da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
De acordo com especialistas em arte sacra a imagem pertence ao século XVII e é feita em terracota colhida na própria região. A escuridão da imagem seria decorrente da permanência no fundo do rio e da queima de velas e incensos ao longo de séculos.
Independente de qualquer questão material, o culto a Nossa Senhora Aparecida é uma fantástica mistura dos princípios católicos com doses da religiosidade regional do Vale do Paraíba, matizada pela forte presença histórica dos povos tupis.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil
Tags: Catolicismo, Doze de Outubro, Festas Religiosas, Nossa Senhora de Aparecida, Religiosidade
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