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15/09/2008 - 07:45

San Telmo ou a Praça Benedito Calixto de Buenos Aires

São Paulo tem uma praça dedicada a venda de antiguidades, comidinhas e música ao vivo, que é a indefectível praça Benedito Calixto na Vila Madalena.

Todos os sábados ocorre alí uma feira de antiguidades na estreita praça; entre uma olhadela numa banca de bolachões de vinil e outra de talheres, pratos e copos antigos o visitante pode fazer uma boquinha no meio da praça, em uma das barracas de comidas (recomendo fortemente a alheira da barraca de comida portuguesa, impagável). No final da tarde, vira e mexe, rola uma canjinha de música que pode ser de choro, samba, mpb ou algo diferenciado. Bacanuxo pacas.

Mas, Buenos Aires não tem apenas uma praça com esse perfil, mas todo um bairro, o qual, aos domingos, se transforma numa gigantesca praça Benedito Calixto.

Ainda não consegui entender ao certo porque o porteño tem um apego tão imenso às antiguidades. Tudo bem, eles possuem alguns hábitos mais europeizados do que nós, tem um apego a sua “origem européia”, tem um clima constante de nostalgia dos seus anos dourados (na primeira metade do século XX). Mas, além disso tudo, as antiguidades – para eles, sobretudo – são um bom negócio, principalmente quando são compradas por turistas estrangeiros endinheirados.

Lá, como aqui, ou aqui, como lá, todo sábado o bairro interdita algumas de suas ruas e se tranforma numa gigantesca feira de antiguidades, artesanato (pouco) e muita música. Acho genial a disposição que o argentino tem para tocar na rua. Orquestras inteiras de tango são montadas nas ruas, com piano, violinos, bandoneons, constrabaixos acústicos e tudo que se tem direito.

Nas ruas do bairro ainda existem vielas que foram transformadas em galerias de antiguidades, o que garante a permanência desse mercado durante toda a semana. Na praça central do bairro as ruas da feira se encontram e se transformam num burburinho gigantesco, uma mistura intensa de tango, sons de guitarras tradicionais, musica erudita, gente falando pelos cotovelos e vendedores anunciando doces ou almoços nos restaurantes do bairro.

Assim como a Vila Madalena, San Telmo é um bairro que ainda guarda algumas características boêmias, embora algo já tenha se perdido diante da invasão do turismo, talvez o memso caminho que o bairro paulistano esteja fazendo.

San Telmo foi um dos primeiros bairros de Buenos Aires e durante muito tempo abrigou suas famílias mais ricas, daí os casarões que ainda ocupam suas ruas. No final do século XIX era um luxo só.

Contudo, a proximidade com um dos portos de Buenos Aires (pois eles já tiveram alguns) trouxe dois inimigos para as famílias de fino trato porteñas: a febre amarela e os imigrantes.

Paulatinamente as famílias mais abastadas foram abandonando seus casarões e buscando áreas mais salubres e distantes do porto, enquanto uma classe operária ocupava em seu lugar San Telmo. Certamente foi daí que surgiu sua vida boêmia e não das famílias ricas.

Durante muito tempo o bairro permaneceu esquecido e em franca decadência, até que nos anos de 1970 começou a ser recuperado com o objetivo de se tornar uma região de divertimento e comércio de artigos culturais (musica, antiguidades, arte e artesanato).

É um dos lugares que ainda vale a pena se visitar em Buenos Aires, desde que se tome as devidas precauções com as “antiguidades” (que sempre são um negócio arriscado) e com as ofertas de almoços (que podem ir de um extremo a outro em termos de preço, qualidade e relação de cuto benefício).

Na foto acima as peças que são a marca registrada de San Telmo: garrafas de soda das primeiras décadas do século XX amontoadas em uma das bancas da praça central (muitas delas são especializadas nestes artigos). Essa garrafas são vendidas para decoração de ambientes e se proliferam de modo fantástico. Mas são bem legais, eu mesmo tenho algumas, as quais ainda funcionam.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, Sem categoria Tags: , , , ,
11/09/2008 - 17:50

A Argentina e a memória de Carlos Gardel

Jamais havia pensado que um dia Carlos Gardel, o grande cantor de tango argentino, estaria a me pedir “una propina” num taxi meia boca em plena Buenos Aires.

Mas lá estava o cartazinho no qual o taxista, utilizando deliberadamente a imagem de “El Zorzo”, pedia para os usuários uma pequena gratificação extra pelo seu trabalho.

Não dei, inclusive porque os taxistas de Buenos Aires tem como hábito te levar para dar voltas e mais voltas pela cidade antes de te deixar no seu destino. Algo como te pegar na avenida Paulista e te levar pra Vila Mariana antes de te deixar no Butantã.

Nada mais “Lei de Gerson” do que um taxista porteño, mesmo com passageiros que conheçam a cidade.

Mas, de fato, a novidade não era o taxista mau intencionado e sim a figura de Gardel com seu chapéu quebrado de lado e o infalível sorriso malicioso a pedir sua gorjetinha (una propina em bom porteño, porque a língua que falam em Buenos Aires é certamente um dialeto derivado do espanhol).

Carlos Gardel tinha frases ótimas, uma delas a respeito de sua nacionalidade (assunto sobre o qual detestava falar): Nasci aos sete anos em Buenos Aires.

O fato é que Gardel era francês de nascimento, mas circulavam boatos obscuros sobre sua origem, alguns dos quais diziam ser uruguaio. Jamais conheceu o pai, motivo pelo qual irritava-lhe tanto falar da infância.

De fato nasceu em Buenos Aires, pelo menos no que diz respeito a sua identidade. Morou e se formou na cidade, na época dourada do tango, décadas de 1920 a 1940 mais ou menos. Aproveitando a prosperidade e influência conquistada pela Argentina nessa época se tornou um dos primeiros “latin lovers”, bem como Rodolfo Valentino.

Tinha a vantagem de ter uma voz perfeita, que, como disse aqui noutra postagem, era capaz de derreter até o coração das estadunidenses.

Tornou-se um ícone nacional e bateu asas para a Europa e depois Estados Unidos, onde foi gravar suas “películas”, musicais onde entoava “Por una cabeeeeeezaaaaaa, de un noble potrillooooo” ou senão “Elllllllll diaaaaaa que me quieeeeeeraaaaaaaaassss…”, lindas de morrer.

Numa dessa passagens pelos Estados Unidos, estando em Nova Iorque, conheceu um “chico”, garotinho esperto cujos pais, argentinos como Gardel, eran “fãnzocas” do cantor. O menino descolou uma brecha na segurança, que era quase inexistente naquela época, e foi ao apartamento de Gardel com seu bandoneón debaixo do braço.

Gardel gostou do gurí e pediu para que tocasse, o que voltou a ocorrer por alguns dias até a partida do cantor da cidade. Nessas ocasiões, enquanto o menino tocava, Gardel dava uma palhinha com sua voz de travesseiro massageador. No final deu uma foto autografada para o menino levar pra casa e presentear seus pais: para os Piazzolla.

Gardel convidou o menino, o pequeno Astor, para sair em turnê com ele, mas os pais não deixaram. Sorte deles, pois o avião de Gardel caiu, morreu o cantor e nasceu o mito.

Nenhuma estampa é mais reproduzida em toda a Argentina do que a de Gardel, inclusive pelo fato de que o tango se tornou um dos produtos de exportação do país.

Nem Evita, nem Che, nem Piazzolla, nem Mercedes Sosa são tão presentes no cotidiano argentino, sobretudo no dos turistas, quanto a figura do tangueiro. De uns anos para cá, inclusive, Gardel deixou de estar somente nas milongas (bares onde se dança a milonga e o tango) e nos cafés para invadir até o cartazinho de gorjeta do taxi.

Assim como Evita, a outra figura mais procurada, Gardel encarna as memórias de uma época dourada para a Argentina, de glamour, de luxo, refinamento, elegância. Talvez por isso sejam tão presentes, diferentemente de otras figuras, como Astor Piazzola, o qual foi mais consensual fora do que dentro da Argentina.

Pese também o fato de que Evita e Gardel morreram de formas trágicas, o que certamente alimentou suas famas.

Curiosamente o tango deixou de ser uma referência para a maioria dos argentinos. É como o choro para os brasileiros, é algo assumidamente nacional, mas não se escutaria muito dele numa casa comum. Uma nova geração tem redescoberto o tango e buscado novas roupagens para ele, incluindo a vertente do tango eletrônico de Bajofondo e Gotan Project.

Mas sempre retomam Gardel, de um modo ou de outro.

Outra frase maravilhosa de Gardel, que amava as mulheres e as corridas de cavalo, e que havia perdido com ambos muito dinheiro, era: Meu azar foram os cavalos muito lentos e as mulheres muito rápidas.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, Sem categoria Tags: , , , , ,
08/09/2008 - 16:26

Argentina no divã

Retornei da Argentina neste final de semana. Diferentemente de março, desta vez fiquei apenas em Buenos Aires e fiz uma ida rápida a San Isidro. Da outra vez cruzei o país duas vezes de ônibus e fiquei uma semana em Mendoza.

Saí do Brasil já com intenção de realizar uma análise mais sistemática da Argentina contemporânea. É claro que como historiador sei que toda análise panorâmica é imprecisa em alguma medida, e bastante impressionista. Esta é a crítica que pesa sobre os autores brasileiros da chamada Geração de 30: Gilberto Freyre com Casa Grande e Senzala de 1933, Sérgio Buarque de Holanda com Raizes do Brasil de 1936 e Caio Prado Junior com Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. Os três livros foram classificados como ensaios justamente pelo seu caráter livre e panorâmico.

Apesar disso, acredito que os três livros conseguiram captar aspectos fundamentais da história e da cultura brasileira de modo agudo, tal como nenhum estudo mais aprofundado e específico conseguiria executar. Como diria Caetano Veloso: Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Por isso uma visão, ainda que panorâmica e impressionista da Argentina hoje, ou talvez menos pretenciosamente, de Buenos Aires, não seja de toda ruim.

Os anos têm sido difíceis para o povo argentino. Não que não tenham sido para chilenos, brasileiros, peruanos, mexicanos e outros povos de nações latino americanas, mas parece que a dor argentina tem sido mais funda e mais persistente.

No alvorecer do século XX, pasmem, a Argentina era uma das maiores economias mundiais, mantida graças aos negócios agro-pastoris entre outros. Com esse dinheiro todo construiu-se toda uma nova cidade de Buenos Aires, com grandes teatros, ruas elegantes, praças, casarões, cafés, boa parte dos quais ainda se pode ver ao transitar pelas ruas centrais da cidade como a Florida, Santa Fé, Corrientes, Silpacha, etc.

Nos cafés elegantes cidadãos porteños recebiam visitas ilustres como a de Luigi Pirandello e Garcia Lorca, políticos, automobilistas. Carlos Gardel, El Zorzo, fazia sucesso nas “películas” dos Estados Unidos e derretia até mesmo os corações mais gelados da América ao som de “Por una cabeza” ou “El dia que me quieras”. Apesar de não ser exatamente um ritmo da elite – e transitar entre o bom e o mau, entre o elegante e o “bajofondo” – o tango consolidava-se como o ritmo nacional.

Nos anos seguintes a Argentina viu se estabelecer uma espécie de nobreza local com a figura do casal encantado Perón e Evita, bem como o maior campeão mundial de Fórmula 1, Juan Manuel Fangio, vinha do país dos pampas.

Mas em aproximadamente 70 anos essa mesma Argentina abandonou o glamour e o lugar de potência econômica para, dia a dia, mergulhar numa imensa crise política, econômica e social, algo que jamais observei em outro lugar, a ponto de atingir um dos maiores e mais conhecidos patrimônios nacionais argentinos: a auto estima elevada.

Talvez, nesta segunda viagem a Argentina, tenha sido a maior e mais profunda decepção e surpresa, ao menos entre os porteños.

No lugar de argentinos altivos, orgulhosos, de nariz empinado, seguros de si, vi um ressentimento crescente que não é circunstancial, em desapego cotidiano a sua propria sociedade e a sua identidade, o qual se reflete numa acentuação da precarização de inúmeros aspectos da vida nacional.

A velha piada que diz que o melhor negócio do mundo é comprar um argentino pelo que ele vale e vender pelo que ele “pensa que vale” talvez tenha de mudar, sob o risco de haver perdido o sentido.

Sim, mais duro do que uma crise conjuntural, mais duro que um abalo político é uma longa e insistente perda da posição anterior e a sucessão de frustrações.

A questão não é estar numa crise, mas olhar para trás e ver o que foi sendo perdido dia a dia. Nenhuma das opções políticas que surgiram na Argentina durante a segunda metade do século XX se mostrou eficaz. Do insistente peronismo à ditadura sanguinária, passando pelas opções a esquerda, nenhuma mostrou um rumo para a o país. E na virada do milênio a Argentina encarna uma versão ampliada de casal que não deixa o poder.

Quando Kischner assumiu o poder, Nestor não Cristina, era uma solução para uma situação de quase dissolução nacional. Quando Kishner assumiu o poder, Cristina e não Nestor, evidenciou-se um vácuo político que permitia a eleição de alguém muito inexperiente no trato político, quanto mais no comando de uma nação.

E nem todo o letramento do argentino, todos seus livros lidos durante um ano, nem suas inúmeras livrarias, seus anos de escolaridade foram capazes de produzir resultados mais críticos e mais agudos do que este que está posto agora. O que me impressiona, sobretudo quando nós, brasileiros, começamos acordar para o nosso “apagão educacional” que ameaça interromper o crescimento nacional e a melhoria das condições de vida da população mais pobre. Educação e cidadania nem sempre andam juntas, nem mesmo educação política.

A Argentina fosse um indivíduo e não uma nação recomendaria urgentemente a ida a um consultório, buscar um divã, se abrir, colocar seus fantasmas para fora. Sem o que será difícil os argentinos, mas sobretudo os porteños, se reencontrarem enquanto povo.

E vale dizer, o problema não é ser rico ou ser pobre, é ter de levantar todos os dias e não se reconhecer em frente ao espelho. Isso não há economia que resolva.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, Sem categoria Tags: , , ,
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