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08/03/2009 - 10:12

O Dia Internacional das Mulheres

Sempre fico na dúvida se ter “um” dia para se comemorar algo é bom ou mau negócio. É como o dia do “Trabalhador”, do “Índio”, da “Consciência Negra”, etc, etc. Quem defende diz que na realidade são marcos nas lutas pelos direitos dessas categorias, por isso devem ser sim comemorados. Quem critica diz que o estabelecimento dessas datas comemorativas enfatiza a desigualdade, pois não há a necessidade de se estabeler datas comemorativas para os duplos negativos, como “dia do patrão”, “dia do homem”, “dia do fazendeiro”.

 

No caso específico do Dia Internacional das Mulheres há um dado curioso, pois ele foi estabelecido na junção da luta pelos direitos das mulheres e da luta pelo direito das trabalhadoras. A data relembra o trágico desfecho de uma greve nos Estados Unidos no qual as trabalhadoras foram presas dentro da fábrica e mutas morreram com o início de um incêndio. Exatamente por isso a data acaba sendo uma união das duas dimensões, o feminismo e o trabalho.

O fato é que grande parte dos povos é originária de culturas “masculinas” (ou “machistas”), mas, a balança realmente pendeu quando o cristianismo e o islamismo (não por acaso dois desdobramentos do judaísmo) se espalharam pelo mundo.

Embora povos tradicionais – indígenas americanos, africanos, asiáticos – não possam ser vistos pelos olhos da igualdade de gêneros tal como a entendemos hoje é fácil reconhecer neles um sistema que funcionava muito mais como uma divisão de esferas de poder do que uma supremacia pura e simples dos homens.

Em diversas instâncias da vida dos povos tradicionais as mulheres tinham efetivamente mais poder do que os homens, sem contar seu poder de barganha – tal como na peça grega Lisístrata -. As sociedades eram entendidas em muitos povos como “complementares”, formadas por duas essências distintas, mas que não podiam existir sem a outra.

É claro que haviam diversas exceções entre os povos tradicionais, mas efetivamente a difusão do cristianismo no final da idade antiga e começo da medievalidade significou um influxo importante no direito das mulheres.

Não bastasse a proibição do acesso ao sacerdócio – proibição de origem judaica – as mulheres receberam a responsabilidade pelos descaminhos da humanidade. A história da expulsão do Paraíso começa pela influência da mulher e assim ela permanece através do restante das escrituras (muitas das quais foram alteradas ao longo da história para confirmar esse sentido).

No pensamento cristão medieval a mulher era suscetível às seduções do mal, e por isso devia passar a vida tutelada por um homem: pai, esposo ou Cristo, quando entravam para a vida religiosa.

Da mesma forma seus desejos eram vedados e qualquer incorrência em práticas milenares de cura, de ritos de fertilidade, podiam acarretar em uma acusação por bruxaria e levá-las as fogueiras da Inquisição.

Parece curioso para nós, hoje, que uma das provas para determinar se uma mulher era bruxa ou não era amarrá-la em pedras e jogar no rio para ver se boiava. Por mais absurdo que seja era a absoluta verdade.

E essa herança foi transmitida e resignificada geração após geração, e quando não se podia mais acusar as mulheres de bruxaria, no século XIX, acusavam-nas de “histeria”, males da mente causados por “furores sexuais”, por “destemperos”.

Mas, é claro, nem sempre era assim na intimidade dos lares. As pesquisas a arespeito da vida privada no Brasil Colônia, por exemplo, vem demonstrando que a visão de “família patriarcal” consagrada por Gilberto Freyre em   Casa Grande e Senzala não reflete a realidade. As mulheres compartilhavam o poder com os homens, e muitas vezes assumiam os negócios da família após a morte do marido (o que era bastante comum, visto que a longevidade masculina sempre foi menor do que a feminina).

A famosa escrava alforriada Chica da Silva, do Arraial do Tejuco, nas MInas Gerais, a qual ganhou celebridade por haver se casado com João Fernandes, o contratador de diamantes, foi um desses casos. Depois que o marido foi embora para Portugal assumiu sozinha a formação dos filhos do casal e os negócios da família, o que fez com grande competência.

De qualquer forma, o Dia Internacional da Mulher deveria ser comemorado, ao menos, pelo que o estudioso dos mitos, Joseph Campbell, disse ser um verdadeiro ato mitológico de heroísmo, que é o de gerar a humanidade.

Ou, como diz uma amiga minha: Se parir fosse uma atribuição masculina a espécie humana já teria acabado.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , ,
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