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25/09/2009 - 06:40

Mais uma da série “Mitos”: O Brasil é um país pacífico?

Quantas vezes você já ouviu dizer que o Brasil é um país pacífico? Que um dos elementos que diferenciam nosso processo de Independência do de outras nações é a ausência de conflitos armados? Que tendemos à acomodação e que países onde há processos mais “violentos” a política em geral é melhor?

 

Eu ouvi isso durante todos os meus anos escolares, e continuo ouvindo de muitas pessoas, sobretudo as de mais idade. Em geral compara-se a Independência do Brasil com a das antigas colônias da Espanha, onde a separação se deu apenas através de uma longa luta, ou mesmo no caso dos EUA e a Guerra de Independência contra a Inglaterra (culminando no ano de 1776). Comparam ainda a constituição do nosso Estado e dos nossos poderes políticos com a França, onde a Revolução Francesa (de 1789) estabeleceu um marco de rompimento e recriação parcial do país.

Em verdade essas comparações partem de dois conjuntos de desconhecimento e da construção de um mito: o desconhecimento da história dessas outras regiões, o desconhecimento de nossa própria história e a construção do mito do povo brasileiro como um povo pacífico, “afável”, tendendo sempre à acomodação.

A respeito da história desses países seria extenso e nem tão útil assim se extender, vale saber que conhecemos sempre fragmentos e que nem sempre esses povos resolveram suas disputas políticas pelo embate direto. Mesmo quando assim o fizeram as consequências foram desastrosas e traumáticas. A Guerra de Secessão dos EUA, em meados do século XIX, deixou marcas profundas no país e demorou décadas para ser superado o ódio entre o norte e o sul (e com o estabelecimento de uma grande vantagem política para o norte vencedor da guerra).

Da parte do Brasil, por outro lado, frequentemente se “esquecem” episódios que diriam algo bem diverso a respeito de nossa história. Logo após a declaração de Independência a região do Pará e do Maranhão não se posicionou imediatamente a favor da separação com Portugal (na época o Grão Pará e o Maranhão conformavam uma região autônoma em relação ao Brasil). A união com o Brasil somente foi possobilitada graças a força das armas apoiada com negociações políticas intensas. Depois da renúncia de Dom Pedro I, e antes que seu filho e herdeiro – Pedro II – pudesse ser coroado, teve início o que chamamos de “Período Regencial”, o qual o governo era formalmente exercido por um “regente” indicado para tal cargo. Nos anos da Regência pipocaram pelo Brasil movimentos que esperavam uma independência diversa daquela que se estava construíndo, o mais longo desses movimentos, a Farroupilha, somente se encerrou muitos anos depois.

Com o cenário de grande indefinição política que se instalou com a renúncia de Dom Pedro I, uma série de grupos que almejavam formas distintas de independência daquela que se havia estabelecido abriu fogo contra o governo do Império arrastando o Brasil para uma longa década de conflitos armados em praticamente todas as regiões do território.

Depois da relativa estabilidade que significou o II Reinado, com a coroação de Dom Pedro II, o país voltou a se envolver em sérios conflitos: Canudos, o Contestado, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes, A Revolução de 1930, o Golpe Militar de 1964 e daí para diante.

Estivemos longe de ser um “povo pacífico”, bem como nos mantivemos distantes de uma democracia consolidada, construída e experimentada cotidianamente, a qual somente se efetivou coma  eleição de Collor de Mello (e que deu no que deu).

Contudo, e apesar desse retrospecto, ficamos marcados como “povo pacífico” que não gosta de “embates”. Mito, é claro, que tem algo de razão quando também lembra que nossa incrível plasticidade é um traço cultural marcante, uma incrível adaptabilidade a situações e lugares (herança que herdamos dos portugueses em grande medida). Os mitos, em geral, não são “mentiras”, mas modelações de elementos reais de acordo com fins outros.

A idéia de “flexibilidade”, “pouca rigidez” veio desde tempos de colônia e das avaliações profundamente estereotipadas de viajantes europeus, parte disso herdamos também de Portugal, que entre os povos europeus – pelo fato de ter assimilado tão bem mouros e judeus e africanos e asiáticos em outros tempos – também gozava da fama de ser “meio flexível demais”.

Ingleses, bávaros, prussianos, tenderam a ser mais rigorosos no juízo dos brasileiros do que outros viajantes de raíz latina, como os franceses.

E essa idéia se transmitiu e encontrou difusores poderosos, como Gilberto Freyre e Paulo Prado, os quais viam como virtude e vício do povo brasileiro uma suposta “plasticidade”, uma “meiguice” que tendia a acomodação ao invés do embate.

Cada um deles escreveu isso e abraçou a idéia por motivos bem específicos, mas isso acabou penetrando também nas interpretações dos historiadores e - em consequência – nos livros didáticos, disseminando ainda mais a versão.

Em suma, nossa história não foi menos ou mais sangrenta do que a de outros povos, embora tenhamos – certamente – nossas especificidades culturais e históricas, e como na letra de Fado Tropical de Chico Buarque temos a capacidade de misturar no mesmo gesto o golpe duro e presto com uma alma que instantaneamente se ressente, verdadeira ou falsamente.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
07/08/2009 - 06:32

O que eram os “Senados” e o que é o nosso

Boa parte da população brasileira, nos últimos tempos, gostaria de registrar um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra o Congresso Nacional e, especificamente, contra o Senado (o qual, junto com a Câmara, forma o Congresso). A quantidade de “artigos” nos quais poderiam ser enquadradas as nossas “excelências” os(as) senadores(as) seria espantosa, mas, principalmente, pesaria a acusação de má fé e estelionato. Ou seja, o ato de enganar outrem e aplicar golpes contra aquele que lhe faz alguma espécie de pagamento. Como somos nós que pagamos os salários deles (bem como é nosso o dinheiro que desperdiçam ou que surrupiam direta ou indiretamente) somos os “lesados” da história, as vítimas e, portanto, portadores do direito de realizar uma queixa policial.

 

O mais impressionante disso tudo é que até então o Senado havia se resguardado da bandalheira que corria solta na Câmara. Não que fossem mais honestos, ou mais responsáveis, mas, certamente, eram mais discretos e metidos em encrencas mais grossas. Contudo a perseguição a José Sarney desencadeou um efeito dominó que – muito provavelmente irá ser arquivado, como sempre ocorreu – mas que, também, custará, que, sabe até quando, a nesga de credibilidade que ainda restava ao legislativo brasileiro.

No meio dessa barafunda, muitos se perguntam: Qual é a função do Senado se já existe a Câmara? Não é uma sobreposição de funções?

É, pelo que se tornou, mas não deveria ser, pelo que já foi.

A instituição ”Senado” é atiquíssima, embora tenha passado por inúmeras transformações ao longo do tempo. Talvez o Senado mais famoso da história tenha sido o de Roma, sobretudo em seu período Republicano. O Senado era o lugar onde os representantes das famílias de cidadãos, de patrícios, se reuniam e decidiam os rumos da cidade, da República. Sua origem ocorreu em uma sociedade absolutamente dividida entre os “cidadãos” (aqueles que eram livres, com posses, nascidos no local, pertencente a uma das famílias de originais, portanto com direito políticos) e uma massa de excluídos políticos (plebeus, estrangeiros e escravos).

Esse sistema se manteve enquanto a sociedade antiga se sustentou, e enquanto as cidades eram menores e a representação política era absolutamente pessoal e presencial. O crescimento das cidades, dos impérios, provocou mudanças nessa forma de organização, levando a ampliação do conceito de cidadania (e portanto de representação política), como no caso de Roma, que passou a aceitar homens nascidos nas províncias e nas colônias.

Com o fim do Império Romano, no século V, a “instituição” do Senado praticamente desapareceu no ocidente até o período moderno (depois do século XV), quando uma nova classe social começou a ganhar importância e força política, através do seu enriquecimento.

Essa classe social, a burguesia, paulatinamente granjeou força e forçou a concessão de direitos políticos a eles (os quais eram vedados pelo fato de não serem de origem nobre). Por mais ricos que fossem os burgueses, na maior parte da Europa, o acesso ao poder direto estava praticamente vedado pelo sistema monárquico. Contudo, na Inglaterra, a situação começou a mudar.

Lá a figura do monarca era acompanhada do conselho de nobres, mas a Revolução Inglesa, do século XVII, colocou a burguesia definitivamente no tabuleiro do jogo e o conselho de nobres teve de aceitar a existência de um segundo lugar de representação, um conselho de homens “comuns”. Daí surgiu o sistema chamado de “bicameral”, com uma ”Câmara Baixa” (dos “comuns”, dos burgueses) e outra, denominada ”Câmara Alta” (formada pelos Lords), sistema que ainda vigora na Inglaterra.

Nesse sistema o monarca passou a ter seus poderes – até então absolutos – delimitados por uma carta constitucional e pelas “câmaras”. Mas a Câmara Alta, por ser formada por nobres, geralmente estava mais próxima da figura do monarca, e mais aderente a suas perspectivas.

Deste modo a Câmara Alta servia de intermediária nas discussões cotidianas entre os “comuns” e a figura do monarca, era um braço independente, porém ligado pelas origens sociais ao rei ou rainha.

Esse sistema – depois do século das Revoluções Burguesas, o XVIII – se manteve com ou sem monarquias, e passou a ser copiado em várias regiões, principalmente nos países recém independentes das Américas.

No Brasil o sistema foi adotado desde o período monárquico. No Império Brasileiro os senadores eram nomeados pelo Imperador, e tidos como os homens mais próximos e de confiança. Em geral um político somente era nomeado senador depois de uma longa carreira, de grande destaque na política da Corte, e, também, de fortuna considerável. Era o coroamento de uma carreira política, geralmente começada muito cedo na província de origem.

Boa parte dos ministros do Império eram oriundos do Senado (e seus cargos de senador eram vitalícios).

Com o fim da monarquia o sistema teve novamente que se adequar, mas a idéia de duas câmaras, uma mais popular e outra mais restrita, foi preservada e se manteve assim até hoje.

Por isso, em geral, os senadores são políticos de grande destaque em seus estados (posto que agora tais cargos são eletivos). Basta ver a trajetória deles e se verá a quantidade de ex-governadores(as) que agora ocupa assento no Senado.

Mas, diante dos rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas o Senado foi paulatinamente perdendo seu caráter mais “elevado”, de discussões mais profundas, de lugar não de políticos, mas de “estadistas”. O Senado foi se tornando o depósito das raposas velhas, de políticos que acumularam fortunas e controlam grupos enormes, como o caso do falecido ACM, ou mesmo de José Sarney.

Esse esvaziamento das funções do Senado (que justamente por teóricamente ter um perfil mais reflexivo, mais adensado de discussão, tem mandatos de oito anos, sem renovação total da casa a cada pleito) gera a constante dúvida: O que o Senado faz que a Câmara não faz?

Atualmente muito pouco, por conta desse esvaziamento e precarização dos quadros políticos que ocupam suas vagas.

E entre os senados da antiguidade ou da modernidade e o nosso há ainda uma diferença essencial: Neles a função era exercida sem que isso se configurasse como um “emprego”, embora desde a antiga Roma senadores utilizassem suas funções para enriquecerem ainda mais (talvez com mais elegância e menor avidez, mas o faziam, inclusive com desvio de espólios de guerra, ocupação de terras em áreas conquistadas e afins). Não sendo funcionários, não tendo acesso a “administração” imediata da cidade, da República, do Reino, não podiam se valer tanto de seus cargos para situações bizarras como o favorecimento de namorados de netas e nomeações secretas.

De qualquer forma o que vemos é que o sistema de duas casas legislativas foi pensado para ter uma baixa e outra alta, mas hoje, no Brasil, temos duas casas baixas, baixíssimas aliás. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História antiga, História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , , , ,
27/07/2009 - 06:31

Os portugueses eram burros?

Há alguns anos um historiador português foi apresentar uma conferência no departamento de história da Universidade de São Paulo e abriu sua fala contando uma piada de brasileiro (as quais são comuns entre nossos amigos lusitanos). Na sequência um professor brasileiro foi comentar a conferência e começou dizendo que, ao contrário do colega, não iria contar uma piada de português. Não contaria pois, como todos sabemos, não existem piadas de português, é tudo verídico.

 

A platéia – obviamente, formada por brasileiros - ovacionou o comentário e fez corar o camarada “da terrinha”. Contudo, piadas a parte, o fato é que nossa sociedade habituou-se a tratar os portugueses como carentes de “imaginação”, sem “inteligência”. Daí a infinidade de piadas e adjetivos pouco elogiosos como “burruga” ou “burruguês”.

Mas a coisa não para por aí. Muitos alunos, quando se sentam para assistir as aulas de história, ainda são acostumados a ouvirem toda sorte de anedota sobre nossos “colonizadores”. Já ví toda sorte de comentário, quando era aluno ou quando era professor: Dom João VI era um preguiçoso, covarde, comedor de frango, burro pacas. Dona Maria, sua mãe, louca de pedra, doente, literalmente insana. Carlota Joaquina, que era espanhola, mas casada com Dom João VI, uma megera, além de ter hábitos e moral questionáveis. Dom Pedro (I para nós brasileiros e IV para os portugueses) um galanteador, uma piada como político. Ouvi também incontáveis vezes que uma das provas da burrice portuguesa é que todo ouro que retiraram do Brasil teria ido parar em cofres ingleses. E daí para diante.

Contráriamente, quanto mais se aprofunda na história de Portugal e da colonização da América, mais se impressiona com a situação diamentralmente oposta. É impossível não se espantar com a inteligência portuguesa e com a incrível plasticidade cultural que possibilitou que um reino minúsculo colonizasse regiões tão díspares quanto a América, África, Índia e extremo oriente (Timor e Macau).

Portugal foi o primeiro reino europeu a se constituir como “nação”, unido, antecipando o que, na Espanha – por exemplo – ocorreria somente séculos depois. E também na França, Itália, Alemanha, as quais somente se unificaram no século XIX.

A tecnologia naval empregada pelos lusitanos era o que havia de mais moderno no século XV e foi amparado nela que chegaram às Índia, às Américas.

Mas isso muitos já ouviram, mesmo que tenham feito questão de esquecer.

Apesar de Portugal ter sido um reino pequeno e com população diminuta sua política era respeitada entre os europeus e os negociadores portugueses tidos como duríssimos e com astúcia de raposas. A diplomacia brasileira, tida como uma das mais competentes do mundo, tem suas raízes justamente na diplomacia portuguesa, a qual, apesar de todas as fragilidades, conseguiu manter a independência do reino (excetuando-se, claro, momentos críticos como o da União Ibérica, 1580-1640, e das invasões napoleônicas no começo do século XIX).

Dom João VI, por dua vez, era tido como uma dos monarcas mais brilhantes de seu tempo, embora tenha herdado um reino de pouca força militar. A transferência da corte para o Rio de Janeiro foi uma solução de mestre, um golpe genial na política expansionista de Napoleão, pois inverteu a lógica portuguesa e tornou o Brasil – fonte da maior parte da renda da coroa – a sede do Império.

De alguns anos para cá me impressionei com um outro elemento genial da política portuguesa e que garantiu as dimensões continentais do território brasileiro. A pergunta sempre retorna: Como um reino tão pequeno conseguiu se apoderar de território tão grande?

Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, sociólogo e antropólogo respectivamente, defenderam que o incentivo – mesmo que velado – a miscigenação garantiu a ocupação do território, enquanto outros reinos buscavam ao máximo evitar qualquer mistura de seus colonos com nativos ou escravos. Mas isso explicaria apenas a densidade demográfica e não a extensão do território.

Comecei a entender melhor a questão quando passei a trabalhar em regiões fronteiriças do Brasil. Em todas elas encontramos fortalezas, cidades fortificadas ou ruinas de antigos fortes. Ao investigar um pouco sobre a história de cada lugar verifica-se que essas ocupações eram verdadeiras “cabeças de ponte”, postos avançados da colonização portuguesa. E entre estes postos avançados e as cidades dignas desse título mais próximas centenas, as vezes milhares de quilômetros restavam tal como eram antes da chegada dos portugueses: ocupados quase que somente pelos povos tradicionais.

Esse conjunto de fortalezas e outras estruturas formaram ao longo dos séculos um cordão, um rosário que forjou as fronteiras brasileiras. Tanto o é que com pequenas diferenças nossos limites territoriais em terra firme são ainda marcados por esses pontos: o forte Príncipe da Beira e Vila Bela da Santíssima Trindade no Mato Grosso, a região do antigo Presídio do Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, a área de São Gabriel da Cachoeira no Amazonas, e assim por diante.

Com isso, política deliberada, pensada pelos portugueses, todo território para trás desta linha permaneceu em propriedade lusitana, e depois brasileira. Por isso muitas áreas somente foram colonizadas e plenamente exploradas no século XX, enquanto algumas regiões de fronteira, muito mais distantes, estavam ocupadas desde o século XVII ou XVIII.

O fato é que a disseminação da fama de de “burros” dos portugueses esteve associada a motivos políticos, por disputas entre comerciantes da “terra” (brasileiros) e portugueses desde o século XVIII, e se acentuou após a independência do Brasil. Até aí, tudo bem, faz parte da disputa política, do embate entre grupos. O estranho, e dispensável – além de negativo – é insistir nisso para além das piadas.

Quando isso entra na sala de aula e o professor ensina a piada como se fosse verdade, fato, então temos um problema sério. Pois colonizados por “burros” o que seremos?

Boa parte de nossa plásticidade cultural, de nossa criatividade, resistência, deve-se a matriz lusitana de nossa cultura.

As piadas podem ser deixadas somente para os amigos portugueses.

 

PS: Talvez esteja na net. Recebi recentemente um vídeo de uma aula a respeito de uma tal “”Batalha das Toninhas” da I Guerra Mundial, travada pela marinha brasileira. Nunca vi um professor de história falar tantos absurdos, sempre denegrindo, diminuindo, ridicularizando o povo do qual ele, curiosamente, faz parte. Isso é uma decorrência de como muitos ainda tratam nosso processo de formação histórica. É possível fazer graça e ser divertido sem ridicularizar ou diminuir o outro.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
21/07/2009 - 07:00

A ferrovia que a selva engoliu

Dana Merril, fotografo dos EUA encarregado de registrar os trabalhos da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no meio da selva amazônica, nos deixou um dos mais valiosos conjuntos de imagens da luta do homem contra a natureza, a qual, como sempre, se mostrou trágica.

 

Hoje a coleção de imagens pertence ao acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, o Museu do Ipiranga, e estão preservadas para a posteridade, depois de passarem décadas em risco de desaparecimento. O mesmo não se pode dizer de parte dos elementos materiais que um dia constituíram a estrada de ferro, nem da memória de seus trabalhadores e descendentes.

O acesso ao coração da América do Sul foi um desafio desde o início da colonização européia, no século XVI, e talvez até mesmo dos povos ancestrais que habitaram as Américas pelo que as escavações arqueológicas vêm mostrando nos últimos anos. Apesar de se associar com frequencia a Amazônia ao isolamento, espaço ermo, de difícil acesso, essa idéia somente é válida com algumas observações.

Praticamente toda a Amazônia é ocupada há milênios, com maior ou menor intensidade, e os grandes cursos fluviais da região permitiram tráfego regular tanto aos povos nativos quanto aos colonizadores. A colonização das margens do Amazonas, do rio Negro, Tapajós, Jaú e outros tantos da região é praticamente contemporânea a colonização do litoral nordestino (sempre tida como das mais antigas).

Mas essa antiguidade não significa que o trânsito tenha sido – ou seja – fácil. Algumas rotas são particularmente difíceis e ainda hoje são desafios significativos. Em toda a região amazônica, talvez, a mais temida seja a do complexo de rios que une o Guaporé, o Madeira, o Beni (na Bolívia), o Mamoré, rota “natural” para quem pretende ir ao coração do continente, mas que como quase nenhum outro trajeto cobrou vidas humanas ao longo dos séculos.

As tentativas de se estabelecer uma rota regular para ligar as regiões do Guaporé até o litoral atlântico por via fluvial são muito anteriores a Estrada de Ferro Madeira Mamoré e antes mesmo do surgimento das máquinas a vapor. Desde o século XVIII, quando a Coroa Portuguesa mandou erguer Vila Bela da Santíssima Trindade, a beira do rio Guaporé, para garantir seus limites territoriais diante da Espanha, que sucessivas tentativas foram empreendidas com o objetivo de encontrar saída mais rápida e menos tortuosa para o oceano Atlântico.

Em geral a rota empregada para se chegar até a beira do Guaporé literalmente cortava o continente, indo através de Goiás ou por rio cruzando São Paulo e Mato Grosso (sempre “capitanias” e não “estados” nesse período).

Contudo a série de corredeiras, quedas d’água, grupos indígenas hostis, bandos de espanhóis armados e diversas doenças – sobretudo a malária – sempre manteve a rota em condições precárias de funcionamento.

Os planos para vencer a série de cachoeiras vem desde este período e atravessou todos os planos de construção de ferrovias no trajeto.

O fato é simples: com os saltos os comboios de barcaças e canoas devia ser descarregado, a carga carregada nas costas para subir ou descer a cachoeira através das margens. As canoas e barcaças rebocadas lentamente com cordas através do próprio salto ou em picadas abertas em terra firme, sempre demandando dias de trabalho extenuante nos quais, para piorar, as expedições ficavam ainda mais expostas aos riscos.

Com a independência dos países da América Latina as tensões de fronteira – que haviam marcado as relações entre Portugal e Espanha ao longo do período colonial – mudaram de sentido e a Bolívia recorrentemente solicitou ao Brasil que permitisse e axiliasse na obtenção de uma saída para o Atlântico. Os primeiros estudos para a construção da ferrovia datam da década de 1860.

É claro que também Brasil e Bolívia tinham inúmeros problemas fronteiriços, dentre os quais o que acabou por ceder ao primeiro o território do Acre, de posse boliviana, mas ocupado por seringueiros brasileiros.

Na negociação para a solução do problema a Bolívia colocou como condição a construção de uma rota de saída para o mar. Em verdade a situação piorara para os bolivianos quando no último conflito entre eles, peruanos e chilenos (1882). No conflito a Bolívia perdeu sua última saída para o oceano Pacífico, ficando completamente cercada no interior do continente, e sendo obrigada a aceitar a tributação peruana, ou chilena, para importar e exportar.

Até sua conclusão, já no período republicano, o empreendimento passou pelas mãos de estadosunidenses, ingleses e brasileiros e todos sifreram diante de um dos territórios mais inóspitos da Terra (retratado por Manoel Rodrigues Ferreira em A Ferrovia do Diabo e Francisco Foot Hardman em Trem Fantasma: a modernidade na selva). Além dos embates com indígenas caripunas e ataques de animais selvagens a malária, mais do que qualquer outro inimigo, ceifou a vida de centenas e centenas de trabalhadores alemães, chineses, italianos e brasileiros que se enfurnavam na selva durante o boom das mega construções.

Processo semelhante, e ainda mais cruel, ocorreu durante a construção do Canal do Panamá. A mortalidade nessas obras era tão grande que costumava-se a contabilizar os mortos por números de quilômetros ou de dormentes (exageros, é claro, mas que não reduzem os elevados números de óbitos).

O fato é que, mesmo concluída, Madeira-Mamoré jamais conseguiu se sustentar na floresta de modo estável. As fotos de Dana Merril mostram cenas assustadoras de trechos inteiros de trilhos engolidos por valas ou arrastados por enxurradas, no meio de um mundo de lama e água. De fundo sempre uma muralha de árvores testemunhando silenciosamente o trabalho sem fim dos operários.

O paradoxo da situação encontra-se justamente neste choque entre a idéia de “modernidade” encarnada pela figura da locomotiva – símbolo de uma época – e da incapacidade de se sustentá-la diante do universo natural. Euclides da Cunha, ao visitar a região dos seringais no Acre (de onde surgiu sua obra A margem da história), dizia que na Amazônia tudo é monumental, mas de uma monumentalidade inacabada, agreste, hostil, onde tudo concorre para afastar a presença humana, indesejada. A infinitude de águas e floresta – para ele – era uma natureza em revolução, sem a estabilidade de outras regiões, sem o ambiente mais acolhedor que possibilitava a humanidade.

Depois de idas e vindas a Madeira-Mamoré foi lentamente deixada para tras, para ser devorada pela floresta, com seu território reinvindicado pela “natureza revoltosa” que Euclides viu. Ainda hoje as comunidades da região são relativamente diminutas, embora a floresta tenha encontrado na soja e no gado adversários poderosos e aparentemente incansáveis. Mas, como a história da própria ferrovia demonstra, uma coisa é a vitória circunstancial, outra é a vitória definitiva, e ao que parece a derrota definitiva desse espaço monumental, cobrará antes nossa própria existência.

Mas, insistimos em incorrer em erros semelhantes (A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa  como escreveu Marx), caso contrário, décadas depois, não satisfeitos com Madeira Mamoré, nossos ditadores militares decidiram abrir sua versão asfáltica, a Transamazônica. A qual, em boa medida, repetiu a tragédia da Mad Maria.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , ,
12/05/2009 - 07:17

Viver numa sociedade escravista

Uma pessoa negra andando sozinha numa rua – principalmente a noite – é um ato suspeito, passível de ser interrompido pelas perguntas de um polícial ou guarda, ou mesmo de qualquer cidadão branco. Um negro olhando para uma loja provoca preocupação e, em geral, os vendedores e atendentes pouca ou nenhuma atenção lhe dão, ainda mais se for uma loja de objetos “caros” ou de “luxo”. Um negro dirigindo um veículo bonito e novo só permite duas opções: ou é o empregado ou o está roubando.

 

Três situações que poderiam ocorrer numa cidade da colônia no século XVII, ou XVIII, ou em qualquer cidade brasileira do ano de 2009. O fato é que, tiradas as amenizações, os avanços contra o preconceito racial (e social, ainda mais quando há um cruzamento de cor de pele e baixa renda), as conquistas dos brasileiros afro-descendentes, trazemos ainda a memória e muito do pensamento e do comportamento de uma sociedade escravista. Já diziam os pensadores sociais brasileiros das primeiras décadas do século XX que nenhuma sociedade passa impune por trezentos anos de regime escravista.

Muitas vezes a escola, a mídia, não vão até o coração da questão que envolveu – e envolve, como decorrência, como desdobramento – os séculos de escravidão negra nas Américas. Isso é um problema grave, pois passa a se interpretar o escravismo apenas como um fato do “passado” e como “uma forma de trabalho compulsório”, quando, em verdade, era algo muito mais amplo e profundo do que isso.

Se fosse apenas uma questão de mão de obra, ou de mais uma mercadoria para a América, recém ocupada pelos europeus, bastaria escravizar indígenas (não que isso não tenha sido feito também, mas em escala e com implicações diversas da escravidão negra), ou qualquer outro povo “conquistado” como ocorria, por exemplo, entre os romanos.

A escravidão no mundo moderno, que tem na chegada às Américas um de seus marcos de iniciação, veio acompanhada de uma caráter mercantil, em escala jamais vista e recoberta da capa da marca da cor da pele. Muito se discutiu já a respeito da existência do precedente escravista entre as tribos africanas, mesmo antes da chegada dos europeus e da criação da “demanda” pelo produto “ser humano”. Mas essa escravidão africana, interna, era ritualizada, com outra dimensão social, econômica e simbólica. Logo, a criação da escravidão como ramo da economia, como base de um sistema produtivo, como um dos pilares da economia no Atlântico durante a época moderna, é uma criação européia.

E isso significa que não bastava simplesmente obter esporadicamente escravos para trazes às Américas, havia que se estabelecer uma continuidade no “fornecimento”, um sistema de transporte, regras para o comércio, outras regras para que a venda na ponta, ao “consumidor”, fosse garantida e, por fim, um conjunto de leis, mentalidades, preconceitos, práticas, ideologias, que garantissem que a escravidão seria mantida, que aos escravos fosse negada quase toda oportunidade de sair dessa condição de cativo, de máquina, e que promovesse ainda segurança para a sociedade de homes e mulheres livres (posto que a quantidade de escravos era assustadoramente grande proporcionalmente). 

Todo esse conjunto de ferramentas sociais, juridicas, economicas, logisticas, compunham o “regime escravista”.

Ora, o que impediria que um negro fugido não se embrenhasse na mata e desaparecesse, ou que mudasse de vila ou cidade, passando a desfrutar de uma vida livre? Justamente a idéia amplamente disseminada de que negros eram “propriedades”, tinham donos, e, portanto, deviam andar sempre sob os olhos deste. Um negro sozinho era automaticamente suspeito e, para a segurança de todos e do regime escravista, qualquer cidadão branco e livre tinha o direito e dever de interpelá-lo. Sem justificativa para sua “liberdade” podiam ser presos e reconduzidos ao cativeiro.

Sem a possibilidade de obter ajuda na sociedade, mesmo com o mais pobre dos homens livres (os quais também tinham escravos), a grande maioria optava por manter-se com seu dono, o qual, por sua vez, tentava amenizar as tensões com pequenas concessões aos escravos (como festas, áreas para plantio ou criação de animais, dias de folga, bebida, etc). Os escravos, por sua vez, aprenderam também a mesclar o conflito direto com a negociação (como no título do livro do historiador João José Reis).

Mas a sociedade brasileira se comportou de modo diverso da sociedade do sul dos Estados Unidos, por exemplo. Lá uma única gota de sangue negro era o suficiente para que uma pessoa fosse tratada como o mais negro dos negros, sem distinção, sem possibilidade de escapar, de criar subterfúgios. No Brasil a situação foi diversa.

Certa vez um viajante europeu, Henri Koster, viajando pela Bahia se espantou com uma situação. A legislação portuguesa proibia que pessoas negras ocupasse cargos oficiais. Mas Koster conheceu um Sargento Mor negro e sua cabeça deu um nó. Perguntou então a outro funcionário se a lei portuguesa não proibia negros de ocuparem cargos oficiais. O funcionário concordou: Sim, é assim mesmo.

Koster então perguntou: Mas fulano (o tal Sargento Mor negro) não é sargento? E o funcionário novamente lhe respondeu: Sim, ele é.

Por fim, para o xeque mate, Koster perguntou: Mas o Sargento Mor não é negro? E o funcionário revidou: Não, ele “era” negro, hoje ele é Sargento Mor.

Essa complexidade das relações raciais no Brasil se mantiveram ao longo dos séculos, de modo que a condição social, a renda e a formação dos negros escalona os graus de preconceito aos quais estão expostos.

Discussão antiga de faculdade (e que parece ainda nortear alguns debates sobre a questão das cotas, por exemplo): O preconceito no Brasil é mais racial ou social?

Tenho para mim que nem uma coisa, nem outra: os preconceitos são acumulativos.

Costumavamos dizer que na sociedade brasileira ser negra, mulher, pobre, nordestina, homossexual e deficiente física é o máximo possível em termos de preconceito (mas deve haver mais algo para se adicionar, preconceito é o tipo da coisa que tende ao infinito).

E todos esses elementos – a condição feminina, a cor de pele, a regionalidade, opção sexual, a condição social – são principios construidos pela nossa sociedade há séculos, não são invenções recentes.

De todas as regiões das Américas que tiveram escravismo negro o Brasil é a que apresenta maior complexidade – apesar de todas terem suas especificidades -, exatamente por conta dessa infinidade de arranjos possíveis, de situações diversas com resultados inesperados.

E hoje ainda não é assim? Em menor intensidade, talvez, mas ainda assim? Se olhamos para as periferias, para o Congresso Nacional, para as penitenciairias, supermercados ou nas ruas, ainda não é essa mescla de preconceitos herdados de séculos com adaptaçõe sregionais, brechas, exceções?

De fato a Abolição da Escravatura no Brasil pode encerrar o capítulo do trabalho escravo, do trabalho compulsório previsto e garantido pela lei, mas a abolição das mentalidades não veio, ao menos não ainda plenamente. Esta ainda aguarda sua definitiva abolição no Brasil.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História Moderna, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , ,
02/04/2009 - 08:18

Ainda sobre o Golpe militar de 1964

Uma da dimensões que envolve a discussão sobre o passado, ainda mais quando esse passado é relativamene recente, é a memória das pessoas, individual ou coletivamente.

 

Lendo os comentários a respeito do texto sobre o Golpe Militar de 1964 foi inevitável não pensar nisso. Nas mensagens uma questão recorrente é a do famoso “naquele tempo”. “Naquele tempo não havia violência”, “naquele tempo isso não aconteceria”, “naquele tempo havia recato, bons modos”, etc, etc.

Boa parte das pessoas que escreveu esses comentários, bem como boa parte dos que já vi dizendo isso, sequer tinham idade para poder ter algum parâmetro a respeito dessas questões. O Golpe completa 45 anos, para que uma pessoa pudesse ter consciência suficiente para poder comparar essas questões deveria ter lá seus 15 a 20 anos, ou seja, seriam senhoras e senhores de seus 60, 65 anos de idade, no mínimo.

Mas não creio que todos que escreveram tenham essas idades. Além do mais haveríamos de ter de comparar o “antes” também, para poder decidir se o Regime Militar realmente proporcionou mais “segurança”, “progresso”, “respeito”. Pois se estas coisas já haviam antes do Regime, então ele nada tem a ver com isso.

Outra questão do campo da memória é a seletividade dos fatos. Lembramos aquilo que nos é conveniente, de um modo ou de outro, ou porque foi extremamente traumático ou porque foi extremamente bom. A memória sempre é seletiva. Então algumas comparações a respeito da “violência” no Regime Militar, por exemplo, ignoram que foi justamente nele que surgiram os chamados “Esquadrões da Morte”, que disseminaram o horror nas periferias das grandes cidades. Foi no Regime Militar que a polícia, que deveria ser civil e cidadã, se militarizou e se tornou o braço amado da truculência quando as tropas começaram a voltar aos quartéis. Menos soldados de verde, mais soldados de cinza. Hoje lutamos justamente para que a polícia volte a ser parceira do sociedade, caminho longo e tortuoso.

Escreveram a respeito da corrupção que assola o país, coisa que concordo. Mas se esqueceram de que Paulo Maluf foi indicado “Governador Biônico” de São Paulo justamente pelos militares, que ACM, José Sarney, Marco Maciel e tantos, tantos outros – inclusive alguns citados aqui como exemplos de escândalos de corrupção – participaram ou colaboraram com o regime militar.

Escreveram ainda que nesse período o país cresceu como nunca e fortaleceu seu parque industrial, investiu em infra-estrutura. Mas se esqueceram que esses investimentos geraram dívidas colossais, que os benefícios do “Milagre Econômico” não foram partilhados por todos, sobretudo pelos mais pobres, esqueceram que os economistas dos militares escondiam os dados reais da economia e que isso gerou uma crise de carestia nos anos de 1982, 1983, 1984 que levou milhares de trabalhadores a pararem simplesmente porque não tinham como alimentar suas famílias. Esqueceram que o nordeste viveu nessa época uma de suas crises de seca mais profundas e o governo assistiu passivamente milhares de nordestinos morrerem de sede e fome fugindo do sertão.

Disseram que os militres deveriam ter “acabado” com essa “raça” que hoje ocupa o governo, mas se esquecem que foi graças a democratização e ao retorno do Brasil ao rol dos países livres que passamos a ser mais respeitados e ouvidos no cenário mundial. Nenhum presidente militar, com seus planos de bomba atômica, jamais chegou a ter a influência que Fernando Henrique Cardoso ou Luis Inácio Lula da Silva, sobretudo, tem no cenário internacional.

Mas a memória é assim mesmo, sempre seletiva. Mas é justamente para que não sejamos eternamente “prisioneiros da memória”, como diria um antigo professor meu, que existe a história, que também é seletiva, mas que procura elucidar e esclarecer coisas obscuras, como aquilo que ficou debaixo do tapete por 25 anos do Brasil.

No final, vale o que uma professora de história da América Latina disse certa vez em sala, na USP: Quando ocorreu a Revolução Cubana acreditávamos na possibilidade de uma “ditadura do proletariado”. Mas em 1964 nós mesmos entramos numa ditadura. Então percebemos, duramente, que ditaduras, sejam lá quais forem, sempre são ditaduras. E nenhuma delas presta à humanidade. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , , ,
02/03/2009 - 11:50

Escravos nas cidades

Nestes dias estava pensando em escrever algo a respeito do nascimento da cidade do Rio de Janeiro, mas, sinceramente, não tinha muito mais a acrescentar a respeito. E, além do mais, não sou um profundo conhecedor desse aspecto do surgimento da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Contudo, há outro aspecto que acho dos mais fascinantes a respeito da história das cidades brasileiras, e do Rio de Janeiro em especial.

 

Muitos de nós, quando fizemos nossos cursos de história na escola ao termos aulas a respeito do escravismo no Brasil (tanto enquanto colonia de Portugal quanto Império independente) associamos o trabalho escravo às lavouras, ao espaço rural.

Quantas vezes, e ainda hoje em filmes e novelas, vemos os escravos representados como trabalhadores rurais, cortando cana de açúcar ou colhendo café.

A questão começa por entender o que efetivamente era um regime e um estado escravista. O escravo não era apenas a figura que estava nos campos, mas a base, os fundamentos da força de trabalho no Brasil. As demais modalidades de trabalho que coexistiam – o trabalho livre sob diversas formas – represnetava uma parcela bem menor das forças produtivas.

Mas, além da questão da força de trabalho, existia uma mentalidade “escravista” que perpassava todas as atividades da sociedade.

Um viajante inglês contava uma história curiosa, ocorrida com ele no Rio de Janeiro do século XIX: ao chegar ao seu Hotel percebeu que sua chave tinha problemas para abrir a porta do quarto. Ao insistir a chave quebrou impossibilitando sua entrada. No próprio hotel ninguém podia lhe ajudar. Foi à busca de um chaveiro, depois de muito andar encontrou um que se dispusesse a acompanhá-lo ao hotel. Tudo acertado o inglês perguntou ao chaveiro: Vamos então?

“Não! Não posso ainda!”

O inglês, já desesperado, perguntou para ele se todas suas ferramentas não estavam ali. Estavam. Perguntou se não estava livre naquele momento. Estava. Então, porque não podemos ir?

Simplesmente porque o escravo do chaveiro, encarregado de lhe carregar a maleta de ferramentas ainda não havia retornado de outra tarefa, e sem isso o chaveiro jamais sairia a rua, jamais se submeteria a humilhação de carregar suas próprias ferramentas. O pobre inglês, sem outra alternativa, teve de pacientemente esperar o retorno do escravo.

A verdade é que a escravidão era tanto um regime de trabalho quanto uma mentalidade, um conjunto de idéias, leis, práticas, procedimentos, tabus, crenças, um complexo gigantesco que deu sustentação a séculos de exploração do trabalho alheio. Por isso tantas idéias e preconceitos gerados há séculos continuam vivos no nosso cotidiano, apesar de avanços.

De qualquer modo, nas cidades havia um contigente enorme de escravos ocupados com tarefas absolutamente distintas daqueles realizadas pelos seus pares das fazendas. Atuavam em comércio, carregando sujeiras (como em São Paulo onde tinham de carregar os “tigres”, tinas de excrementos, posto que na época não havia sistema de esgoto), vendendo doces e outras guloseimas (como as famosas “negras de tabuleiro” do Rio de Janeiro e Salvador), carregando liteiras, carros de arruar (espécie de carruagem carregada por homens), como ajudantes de chaveiro, sapateiro, cordoeiro, como músicos, como pedreiros e escultores até (como nas MInas Gerais do ouro). Enfim, eles estavam em todas as atividades tidas como “manuais”, portanto “inferiores” e indignas para a maioria da população livre.

Viajantes que chegam as cidades do Rio de Janeiro e Salvador se espantavam com o formigueiro humano de escravos fazendo absolutamente de tudo. Diferentemente também dos campos, nas cidades era ainda mais raro haver grandes grupos de escravos pertencentes a um único proprietário. Eles tinham três, seis, dez escravos, dependendo do tamanho de seus negócios. E, em boa parte das vezes, moravam nos térreos dos sobrados onde também habitavam seus senhores, as vezes dividindo o espaço com um armazém ou loja.

Outros moravam “sobre si mesmo”, como se dizia na época. Literalmente moravam nas ruas, muitas vezes dormindo nas praias, embora fossem “propriedade” de alguém. Esses escravos que moravam sobre si mesmos, as vezes, eram os chamados “negros de ganho”, escravos que ficama livres para prestar serviços, biscates, cotidianamente e tinham como tarefa levar o ganho para seu senhor. Parte do auferido, bem pequena, ficava com o próprio escravo para o que lhe desse na telha (as vezes, depois de muitos anos, conseguia o suficiente para comprar sua própria alforria, mas houve também o que comprasse outro escravo para trabalhar a ganho para si e juntar ainda mais dinheiro).

Mas não fugiam? Raramente, pois uma das características de uma sociedade escravista é compor um sistema tão opressivo que as chances de fuga são mínimas. Os quilombos, alguns urbanos inclusive, eram uma solução limite. Nas cidades, qualquer negro andando sozinho era tido como suspeito, e se fugisse seu rosto estaria estampado em cartazes e jornais, com premios pela sua captura. Se abordado por qualquer um na rua deveria esclarecer a respeito de suas atividades, e de seu “pertencimento”.

Diga-se, aliás, que o procedimento das forças policiais no Brasil, e mesmo nos Estados Unidos e outros tantos países de passado escravista, o procedimento continua semelhante.

Nas cidades a presença dessas massas de escravos gerava certo temor de revolta, como a que eocorreu em Salvador pelos “malês”, escravos capturados em uma região islamizada da África, que eram alfabetizados e contextualmente bem politizados.

Também favoreceu a revolta o fato de em Salvador os escravos urbanos se reunirem em “cantos”, áreas da cidade onde se encontravam escravos da mesma origem étnica ou profissional. Depois disso as aglomerações de escravos nas cidades foi proibida e os cantos abolidos.

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da cultura, História do Brasil Tags: , , , , ,
15/01/2009 - 12:45

Os povos árabes na formação das culturas brasileiras

Nós, brasileiros, somos todos, em alguma medida, árabes, e isso acontece independentemente do desejo ou da aprovação de cada um de nós.

 

Recentemente em seu blog Luis Nassif (a menção a ele nada tem a ver com o sobrenome, mas vá lá) comentava o quanto características culturais brasileiras, como a flexibilidade e a tendência à acomodação das discordâncias, e ainda nosso histórico de poucos conflitos externos, passou a pesar favoravelmente na escolha de executivos brasileiros para cargos em multinacionais.

Em grande medida isso se deve ao que Darcy Ribeiro (antropólogo brasileiro) descreveu como características de um “povo novo”, diferente dos povos tradicionais, ou “testemunho”, que são as populações autóctones, naturais de um local há milênios, diferentes também do que ele chamava de “povos transplantados”, povos que estão no Novo Mundo, mas que guardaram as características, quase todas, de suas regiões de origem, como é o caso dos australianos e canadenses.

Nós, bem como outros povos da América Latina, somos uma intensa mistura de absolutamente tudo que há no mundo em termos de humanidade. Se a globalização é real podemos dizer que somos efetivamente um “povo global”.

Na escola muitos aprenderam que a formação do povo brasileiro se deu a partir de três matrizes: a indígena, a portuguesa e a africana. Mas isso é na realidade infinitamente mais complexo. Além das correntes migratórias do século XIX e XX (italianos, espanhóis, portugueses, alemães, judeus, polacos, sírios, libaneses, japoneses, e mais recentemente coreanos e bolivianos) nos primeiros séculos de colonização já havíamos passado por processos de assimilação de outros povos, mesmo que pontualmente.

Quando fui ao sertão nordestino pela primeira vez, me lembro da quantidade de “sararás” que vi por lá, gente de pele morena, cabelos encarapinhados, mas louros e de olhos verdes ou azuis. Herança da holandesada que ocupou boa parte do nordeste no século XVII.

Em 2007, quando desci o Amazonas de barco, na passagem por Santarém e outras cidades da calha do Negro e do Amazonas, me espantei com a influência islâmica na região, herança de portugueses islamizados que foram retirados da África e transplantados para a Amazônia há séculos.

Mesmo entre os portugueses que chegaram aqui nos primeiros séculos era impressionante a quantidade de pessoas de origem africana, judaica, árabe, além de genoveses, holandeses, franceses. Portugal, de tão pouca população, não podia ter pudores tão profundos na escolha de suas gentes do mar, por isso se parecia muito mais com uma Legião Estrangeira do que com um exército de nobres cavaleiros medievais com suas longas (e muitas vezes inventadas) linhagens familiares.

O desencadeamento da Inquisição Moderna e a perseguição aos judeus portugueses foi um passo importante para a decadência do reino e de suas finanças.

Mas o fato é que a tal da “matriz lusitana” que deu origem ao povo brasileiro é a mais “vira lata” possível (o que eu acho ótimo, aliás). Nenhum povo europeu nos séculos XV, XVI, XVII tinha mais flexibilidade e adaptabilidade do que os portugueses, elemento o qual herdamos largamente.

Portugal aprendeu a ser assim justamente pela longa ocupação árabe na Península Ibérica, a qual se estendeu por praticamente oito séculos. Neste período os portugueses assimilaram as noções de astronomia, de higiene e saúde, a matemática, além da poesia, os cantos e a alimentação árabe. Desde o Oriente Médio os povos árabes percorreram o norte da África (que passou a se chamar “Magreb” depois de islamizado) e penetraram na Europa pelo estreito de Gibraltar.

Neste sul de Portugal e da Espanha foram criados incríveis califados que foram a glória da medievalidade Ibérica. Cidades como Córdoba, Granada, Almeria eram um lampejo de civilidade numa Europa profundamente bárbara para nossos padrões. É claro que no contexto medieval essa percepção não é cabível, mas para nós, contemporâneos, os hábitos árabes pareceriam muito mais familiares do que o dos Francos, Castellanos, Bretões e afins.

Por que isso? Exatamente porque a marca da cultura árabe se fez nos povos ibéricos, os quais trataram de difundi-la sobretudo no novo mundo.

As técnicas para a produção de açúcar, cuja economia movimentou a colônia durante séculos, é profundamente árabe, e com elas as decorrências como a doçaria. Um dos doces mais tradicionais do Brasil, o qual, de acordo com Gilberto Freyre, tinha “gosto de colônia”, os alfenins, são árabes até a raiz.

Também na arquitetura, o gosto pelos recortes nos beirais, pelos solares (que permitem tomar sol no fundo das casas sem dar vista a rua), ou os muxarabies (telas de madeira que permitem as mulheres olharem das janelas para as ruas sem serem vistas pelos passantes) são todas invenções árabes assimiladas pelos portugueses e trazidas ao Brasil.

E, em tempos mais recentes, não há quem nunca tenha passado numa “lujinha” e comprado um tecido “baratinha, baratinha”, uma verdadeira “baxinxa”, tal foi a participação dos árabes na constituição do comércio varejista no Brasil do século XX.

Por tudo isso é justo que sejamos também muito árabes em nossa cultura. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História da cultura, Migrações Tags: , , , ,
28/10/2008 - 21:04

O tatu e a arqueologia

Semanas atrás o pobre tatu teve a honra de, com a equipe que o estudou, ganhar o prêmio IgNobel de “arqueologia”.

Para orgulho de nós brasileiros a equipe, e os tatus que compuseram a pesquisa, são brazucas. Como diria Galvão Bueno: Éeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee do Brasillllllllllllllllllll!!!

Um jornalista brasileiro, há alguns anos, teve acesso ao texto de uma pesquisa de dois arqueólogos (conhecidos meus, por sinal, ao menos de nome) que haviam estudado o efeito da movimentação dos tatus na organização das peças num sítio arqueológico. Empolgado com a pesquisa o jornalista enviou-a para os coordenadores mundiais do tão honroso prêmio (o IgNobel é o duplo negativo do Nobel, premiando as pesquisas mais absurdas do planeta). Depois de anos de averiguação decidiu-se pela premiação dos brasileiros, a qual chegou, pasmemos, antes que um Nobel desembarque em nossas praias tropicais.

O caso teve quase mais audiência no Brasil do que a descoberta das freiras mumificadas no Mosteiro da Luz em São Paulo, o que atribui aos meus colegas mais um feito memorável em prol da arqueologia.

Tudo muito divertido, pois, inclusive os agraciados com o prêmio parecem ter achado engraçada a premiação.

Fora a brincadeira toda, existem algumas coisas que restam por detrás dessa história: a pertinência científica da tal pesquisa e a dificuldade que há, as vezes, em explicar ao grande público como funciona e para quê serve a ciência.

Como já contei aqui outras vezes os sítios arqueológicos, ou seja, os locais onde houve ocupação humana e que guardam vestígios materiais da passagem do homem, são formados por acumulação de sedimentos: poeira, folhas podres, galhos, derramamento de lava, catotas de nariz que alguém tirou por ali, lixo da mais variada origem, chinelo velho, terra, terra, mais terra, etc, etc. Isso tudo forma um pacote em formato de bolo de noiva, com um monte de camadas (o que chamamos de estratos ou níveis).

E o que isso tem a ver com o coitado do tatu?

Ocorre que quando temos uma área profundamente revolvida as peças arqueológicas mudam de posição no nosso “bolo de noivas de lixo”, ou seja, algo que estava no topo do bolo e foi produzido por um ser humano a mais ou menos 2.000 anos pode ir parar no fundo do bolo, levando os arqueólogos a se confundirem.

É como se no meio de um lixo com um monte de porcarias de 1980 (como roupas coloridas, discos de bandas de rock descartáveis das quais ninguém se lembra mais, spray de cabelo, bonecos do Bozo e afins) encontrássemos um CD do Edson e Hudson. Raios!!! O que faz uma tranqueira dos anos de 2000 no meio de tranqueiras dos anos de 1980??

Será que havia um viajante do tempo? Alguém muito a frente de seu tempo? Será que a tranqueirada não era dos anos de 1980 ou o Edson e Hudson não é de 2000 e trá-lá-lá?

Ou seja, isso complica muito a vida de quem quer entender uma época específica.

E existem vários responsáveis por esse tipo de crime contra os arqueólogos, transformando suas vidas num eterno e triste dilema: pode ser um arado (usado para revolver a terra para o plantio), pode ser animais que chafurdam na terra, pode ser o efeito da água (por erosão ou pelo movimento de ondas) e, quem, quem, o bendito do tatu.

É curioso? É!

É ridículo? Também é!

Mas nem por isso deixa de ser real.

Na África um problema semelhante exigiu décadas para ser resolvido.

Estudando espécies de hominideos (australopitecus e afins) os arqueologos e antropólogos encontravam mais crâneos e dentes do que costelas, pernas, braços. E encontravam vários deles dentro de cavernas.

Oras, porque? Será que eles tinham rituais de enterramento só das cabeças? Será que iam para as cavernas para morrer?

Não. Estudando os hábitos de caça e alimentação dos grandes felinos percebeu-se que, em primeiro lugar, eles comem e mastigam as partes mais fáceis, ou seja, pernas, costelas e braços.

Lembre-se do Brutus, seu cachorrinho de estimação que pesa 80 Kg e a mordida tem a força de um retro-escavadeira; o que ele prefere comer?? Uma cabeça ou um suculento osso de perna? Ele não é um grande felino, mas seus ancestrais eram grandes predadores.

Em segundo lugar os grandes predadores às vezes levam suas vítimas para dentro de cavernas, onde está sua ninhada ou onde pode comer mais tranquilamente.

Aí vem uma pergunta inevitável: Deus, nossos ancestrais eram comida de grandes predadores?

A resposta também é inevitável: Sim!! E pelo jeito eramos bastante saborosos, dado o fato que sobrou pouco para contar história.

O caso dos tatus brasileiros é análogo ao dos felinos africanos: animais que interferem nos dados que a ciência coleta.

Mas ainda há o segundo problema da questão: a diferença que há entre produção de conhecimento e a difusão do conhecimento.

A ciência tem perguntas que as vezes parecem absolutamente idiotas. As vezes não são, noutras vezes são mais do que idiotas, são perda de tempo e de recursos. Mas essa é a minoria.

Ocorre que, para chegar numa determinada informação, os caminhos não são lineares. É preciso investigar coisas que parecem ser esdrúxulas ou fazer séries de testes curiosos, ou memso cruéis para a maioria das pessoas.

Também acho curioso quando médicos dão placebo para pacientes para ver se eles melhoram somente com auto-sugestão ou para ver a eficácia do mesmo. Boa parte das pessoas perguntaria: Não é absurdo das pílulas de farinha para quem está doente?

Mas é necessário. É a melhor forma de se testar algumas coisas.

O mesmo ocorre na física, na química, na biologia, que possuem pesquisas bastante estranhas.

Mas é claro, o tatu ainda é o meu preferido, e vale um IgNobel.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia Tags: , ,
05/10/2008 - 07:13

Da mandioca a biometria: a história das eleições no Brasil

Neste final de semana mais uma vez a gigantesca massa eleitoral brasileira volta às urnas para escolher seus prefeitos e vereadores. Simultaneamente comemoramos os 20 anos da Constituição de 1988.

Nos últimos anos, diante de tanta bandalheira (que ainda guarda um mistério: há mais bandalheira ou apenas sabemos mais das bandalheiras que já haviam?), parte do eleitorado brasileiro tem tomado uma postura cada vez mais cética diante da política e das eleições. Isso nos faz esquecer a importância de ambas as coisas para a história, e, ainda mais, como conquistas populares.

“Constituição” é um termo que merece alguma atenção, dado que na maioria das vezes esquecemos de perceber que não é um nome qualquer. Uma nação nasce de um sentimento de pertencimento, o qual reune em sí uma série de valores, essa é a tese clássica do historiador inglês Benedict Anderson. Mas, legalmente, uma nação nasce com sua “constituição”.

A palavra revela: a chamada “carta magna” (ou texto maior), é o documento no qual a sociedade – a qual é composta de múltiplos grupos – decide “constituir”, “formar” algo. Como não é possível que cada membro dessa sociedade vá pessoalmente participar desse ato de criação, de “constituição”, elege-se seus representantes, os quais terão o poder para decidir em nome do povo.

O que é direito? O que é dever? Qual o papel e a função do Estado (Estado é apenas a dimensão diretiva de uma nação, não a nação em si)? Enfim, é nesse documento que se regulamenta a cara de uma nação, de um povo.

É claro que as percepções e entendimentos do que é cada uma dessas coisas muda ao longo da história, e por isso as “constituições” também vão mudando.

Um dos conceitos centrais das constituições é o de cidadão. Ou seja, o que pode ser considerado para uma certa nação ser cidadão?

Hoje, na Constituição de 1988 (a mais ampla de toda a história e uma das mais bem elaboradas do mundo), cidadão é todo aquele que é passível de ser considerado brasileiro, por nascimento ou por naturalização. Seja ele filho de brasileiros ou nascido no Brasil.

Mas nem sempre foi assim.

Até o fim das Monarquias Absolutas os reinos eram propriedade dos reis, e estes eram seus soberanos por direitos tidos como divinos. O povo era “súdito” e não cidadão. Com o fim dessas monarquias, através das chamadas revoluções burguesas (como a francesa, a ainglesa, etc) os paises passaram paulatinamente a incorporar a idéia de que são criações de comunidades, pertencentes a todos os seus cidadãos, constituidos através de um documento.

É claro que isso foi um longo processo e o próprio conceito de “cidadão” não era tão amplo como o de hoje. Legisladores, filósofos e políticos do século XIX se desdobraram durante muito tempo sobre o conceito de cidadania, o qual, no princípio baseou-se em grande medida no conceito empregado em Atenas e em Roma do período clássico: cidadão é aquele que tem posse, o homem livre que esta comprometido pelo fato de ter muito a perder.

Ou seja, a definição de cidadão – logo, quem tinha direitos políticos – era estabelecida sobre critérios econômicos. No Brasil, a primeira constituição a ser posta em prática, a de 1824 (a do ano anterior foi vetada pelo Imperador Pedro I entre outros motivos pelo fato de indicar que sua monarquia era estabelecida não por direito, mas por vontade dos brasileiros) previa eleições para diversos cargos legislativos, mas baseava-se no princípio censitário.

Durante muito tempo a historiografia brasileira imaginou uma sociedade extremamente excludente devido ao fato de os eleitores serem definidos por critérios de renda. Hoje sabemos que para o primeiro nível das votações (diferentemente de hoje as eleições eram realizadas em niveis, que de acordo com a renda definiam quem podia votar e ser votado, para ser candidato aos cargos do Império era necessario ser mais rico do que aqueles que se candidatavam aos cargos das províncias, os antigos nomes dos estados) não era necessário mais do que ser um pequeno lavrador.

Na tão conhecida “Constituição da Mandioca” (a de 1823 que foi vetada) o eleitor de primeiro grau precisava ter uma renda equivalente a 150 alqueires de mandioca (alqueire era também uma medida de peso, não somente de área), o que não era absurdamente muito. Além do mais, com o passar dos anos e o corrente processo inflacionário (que também existe há séculos), pessoas cada vez mais pobres passavam a ter acesso as eleições de primeiro grau (aqueles que elegiam os “eleitores”, ou seja, os que participariam das eleições em segundo grau).

Na realidade esse modelo de eleição funcionava muito mais próximo ao que é hoje o processo eleitoras dos Estados Unidos da América.

A Constituição de 1824 somente foi substituida pela de 1891, após a derrubada da monarquia, o que fez nosso sistema político e a configuração do Estado brasileiro passar por uma reviravolta.

Em 1891 a nova Constituição foi forjada já sobre os princípios de uma cidadania mais ampla e do positivismo corrente entre políticos e militares republicanos. Sobreviveu até ser substituida pela Constituição de 1834, do governo de Getúlio Vargas.

Por incrível que pareça os períodos do Império e da Primeira República foram muito mais generosos com as Constituições do que o período posterior, marcado por uma rocambolesca história de criações e derrubadas de constituições brasileiras.

Depois de 1934 houveram as de 1937 (a do Estado Novo de Vargas), a de 1946 (a da redemocratização após a queda de Getúlio) e a de 1967 (a da Ditadura Militar). Foi o período mais tenebroso para a política brasileira, o que se refletiu na dificuldade de se elaborar uma “constituição” e mantê-la em funcionamento por longos períodos. Se a constituição cai é sinal de que a sociedade que a sustenta está se redefinindo, de modo pacífico ou violento. No caso do Brasil tendeu a violência.

Sobretudo no caso da Constituição da Ditadura (que algumas pessoas insistem em chamar de “Revolução”) de 1967 foi um passo atrás, uma diminuição dos direitos, depois violentada cada vez mais através dos famigerados Atos Institucionais, os quais rompiam e suspendiam direitos fundamentais presentes na constituição (como a liberdade de expressão, de livre associação, de trãnsito, etc.).

Paradoxalmente as eleições nesse mesmo período evoluiram conceitualmente, passando a incorporar todas as classes sociais, as mulheres, os analfabetos. Mas, enquanto as eleições se tornavam cada vez mais universais no que toca aos votantes, se tornavam cada vez mais raras no que diz respeito as oportunidades.

Em diversas situações o direito do voto direto para todas as instâncias de poder foi suspenso, a último delas durante a Ditadura de 1964, retomado somente em 1988.

Quando se elegeu Fernando Collor de Melo, independentemente do que ele tenha feito, o povo brasileiro celebrava mais uma conquista, junto com a Constituição de 1988: seu direito de escolher diretamente seu governante máximo.

Mas a política e a cidadania são aprendizados, o que justifica que, depois de um século tão turbulento políticamente, estejamos aprendendo ainda a nos relacionarmos com ambas as coisas.

Como diria um ex-professor meu: Ninguém aprende com a cabeça do outro. Então estamos aprendendo ainda a respeito dos nossos direitos e deveres, e de como constituir o corpo dirigente do Estado, o que significa selecionar não só quem é honesto ou não (afinal de contas ser honesto é “dever” não é diferencial de ninguém), mas quem irá legislar de acordo com o que cada um acredita ser o melhor caminho para a nação.

Entre uma coisa e outra conseguimos dar passos importantes em direção a democracia plena, pois se há quem ponha em dúvida a segurança das eleições eletrônicas, a rapidez e simplicidade são ferramentas da democracia, só não pode faltar a transparência.

E, efetivamente, é ótimo viver num Estado no qual as disputas sociais são resolvidas dentro da legalidade, ainda que falte muito para que a Constituição de 1988, tão ampla, tão generosa, tão moderna, seja plenamente aplicada. Vale lembrar que são direitos fundamentais de todo brasileiro e dever do Estado prover a educação, a segurança, a saúde, a moradia, o trabalho. Mas, certamente, estamos melhor – como nação – do que estivemos em qualquer momento do século XX.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História do Brasil Tags: , , ,
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