24/08/2009 - 06:30
Seis horas da manhã e seu despertador toca como se fosse o carrasco te levando pra forca. Resignadamente você se levanta, vai ao banheiro, começa a se arrumar para sair, tiritando de frio, “batendo queixo” como diria um amigo. Se enrola como uma cebola em blusas, camisas de manga longa, casacos, toucas, cachecóis, luvas e sai para a batalha. Quando chega ao destino suas bochechas estão vermelhas, o nariz duro e os dedos das mãos e pés rígidos.
Se você está reclamando deveria agradecer pelos milhares de anos de desenvolvimento tecnológico e cultural que lhe possibilitaram, ao menos, ter roupas mais leves, práticas, quentes, eficientes contra o frio e a umidade.
É claro que nascemos nesse mundo, com todas essas”facilidades” tecnológicas e não nos damos conta do quanto deve ter sido difícil viver lutando contra os fatores climáticos há milhares – ou mesmo centenas – de anos. A história humana foi, e é, em grande medida a história da tentativa de controlar a natureza se tornar menos suscetível aos seus fatores (a disponibilidade de alimento, o clima, o acesso à água, a proteção contra catástrofes naturais). Da Revolução Industrial – começada no século XVIII – para cá esse desejo de controlar se acelerou a ponto de colocar em risco a própria existência da espécie, com a transformação radical de alguns sistemas e o virtual esgotamento de recursos vitais. Mas este será um assunto para os arqueólogos do futuro, se nossa espécie sobreviver e se ainda houver arqueologia.
Há algumas décadas, nos Alpes, descobriu-se um cadáver mumificado pelo gelo de um homem. Sua morte datava de alguns milhares de anos e devia ser um dos últimos homens de outra espécie (sim, a nossa, a homo sapiens, é apenas a espécie que sobreviveu a evolução, ou que incorporou outra, ou outras, assunto ainda em aberto, mas nem sempre estivemos “sós”) fugindo em busca da sobrevivência.
No exame de seu corpo foi encontrado um ferimento causado por uma flexa de sílex, pequeno, mas o suficiente para minar com o sangramento as energias do homem. Seu rosto demonstrava aparentemente um esforço final para tentar se safar do ferimento, do frio e, possivelmente, de seus perseguidores. Estava vestido com botas e uma espécie de casaco de peles de animais. Portava uma faca de sílex também e outros apetrechos comuns ao caçador do período.
Sua morte foi causada pela somatória do ferimento, com a consequente perda de sangue, com o esforço físico e a baixa temperatura, tudo, certamente, acentuado e acelerado pelo frio.
Quase em todos os contextos arqueológicos ditos “pré-históricos” (detesto esse termo…mas é o que temos) o exame dos enterramentos, das condições de solo preservadas, do pólem misturado a este no passado, geralmente nos revelam terríveis dramas para conseguir se adequar as condições climáticas extremas e garantir a sobrevivência do grupo. Calor, frio, seca, chuvas torrenciais, vento, elementos que podiam gerar desafios sazonais aos grupos humanos ou promover verdadeiros cataclismas em escala global quando prolongados e pouco perceptíveis no dia a dia.
A arqueologia e outras tantas ciências que estudam o passado, humano ou não, ainda tem uma infinidade de perguntas a serem respondidas a respeito das mudanças climáticas ao longo do tempo e da dimensão da influência disso na espécie humana.
O filme A Era do Gelo (e suas sequências) – ou mesmo O dia depois de amanhã – trouxeram novamente o assunto à tona, e aí há um dos pontos pacíficos a respeito do nosso passado e da história do clima: tanto as glaciações quanto os períodos de aquecimento não só interferiram radicalmente no desenvolvimento de nossa espécie como modelaram as áreas que foram ocupadas mais densamente, nossas bases culturais.
Um período especialmente curioso, conhecido como “Jovem Dryas” (de 10800 a 9600 a.C.), estabeleceu aproximadamente mil anos de “seca”, ou seja, de diminuição do principal elemento associado à abundância de alimento: a água. O que as escavações no Oriente Médio vêm revelando é uma verdadeira involução tecnológica, social, econômica, em função da diminuição do alimento provocado pelo Jovem Dryas.
Ou seja: vilas desapareceram, grupos sedentários ou semi-sedentários voltaram ao nomadismo, grupos grandes se fragmentaram, dando origem a bandos que disputavam cada vez mais, e mais violentamente, o pouco alimento que havia disponível. A agricultura estancou seu processo de desenvolvimento tecnológico e as áreas povoadas diminuiram com uma sensível diminuição também dos grupos humanos (é difícil saber se o declínio demográfico da espécie humana foi absoluto ou apenas relativo).
Mais conhecidas do que o Jovem Dryas são as “glaciações”, períodos de diminuição da temperatura global devido a fatores ainda não totalmente compreendidos (a teoria mais forte atribui o resfriamento a mudanças nos movimentos ou na inclinação do planeta, sutis, mas suficientes para causarem tal efeito). Mas as glaciações não eram compostas apenas pela “queda da temperatura”, mas por uma rede de eventos climáticos que se desdobravam, obvimente, em uma cadeia de eventos biológicos, geológicos. Esses movimentos parecem ser cíclicos, ou seja, retornam de tempos em tempos, embora não saibamos exatamente se isso é regular ou não, e sendo regular qual é a regularidade dessas glaciações. Sabemos, contudo, que houveram grandes glaciações e outras menores, inter-cíclicas, as últimas delas em período relativamente próximo a colonização do continente americano pela espécie humana, há aproximadamente 20000.
Com o resfriamento a área de gelo do planeta aumentou, principalmente nos pólos, mas, também, nas grandes altitudes. Com o aumento da camada de gelo - o qual foi tanto horizontal quanto vertical – áreas que eram cobertas de florestas desapareceram. Outras se tornaram estepes, e, de modo geral, isso significou menos caça, menos frutos, menos comida, menos áreas habitáveis.
Essa água congelada, obviamente, provocou uma menor quantidade de água em estado líquido circulando no planeta e, por conta do peso das geleiras, pressão sobre o solo de algumas regiões. Em algumas áreas o nível do mar abaixou e aldeias costeiras ficaram mais longe de sua fonte de alimento. Áreas que eram isoladas – como ilhas e continentes – foram interligadas por “pontes de gelo”, possibilitando a migração de espécies animais, entre elas a humana.
O mundo ficou efetivamente mais violento, com graves embates entre grupos humanos para controlar áreas nas quais os recursos necessários à sobrevivência fossem mais abundantes. Nosso “antepassado”, encontrado congelado nos Alpes, provavelmente não sabia que estava vivendo num dos maiores dramas da história humana, mas seu desconhecimento não o poupou das consequências.
Ao longo de nossa história uma infinidade de tecnologias foi criada para diminuir nossa suscetibilidade ao frio: roupas mais quentes, as quais começaram com peles de animais e chegaram as fibras especiais de hoje, que evitam a perda de calor. Casas, fogueiras, aquecedores, sistemas que possibilitaram o homem chegar a um dos mais inóspitos lugares do planeta, o coração do Pólo Sul, no qual a temperatura circula facilmente na casa dos 60 graus centígrados negativos.
Mesmo em tempos mais recentes o frio – ou a ausência dele – foi um fator relevante nos rumos da humanidade. Alguns pesquisadores da Idade Média (como os franceses Georges Duby e Phillippe Arriès)alegam que uma ligeira alteração para cima da temperatura média possibilitou que as lavouras fossem mais generosas (também causado pela introdução de novas tecnologias, como a rotação e arados mais eficientes), e, consequentemente, as pessoas tivessem menos fome, e assim terem mais filhos e mais saudáveis.
Agora, certamente, estamos vivendo numa nova etapa, que possivelmente vai se acentuar, com o aquecimento planetário. Diferentemente de outros períodos da história dessa vez temos consciência de que está ocorrendo (embora muitos neguem), também, dessa vez, somos responsáveis pelo processo. Igual ao passado há uma coisa: assim como eles não sabemos se conseguiremos vencer o desafio e perpetuar a espécie e nossas culturas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Migrações, Política ambiental, Pré-história
Tags: Arqueologia, Clima, Frio, Glaciação, Jovem Dryas, Meio ambiente
19/08/2009 - 06:40
A arqueologia é um dos campos do conhecimento onde os mitos se aglutinam. Algumas ciências possuem essa característica – como a física, sobretudo a nuclear, a genética -, mas a arqueologia, certamente, é a que mais alimenta e acolhe mitos.
Há vários exemplos, desde os mais delirantes, como a busca por “Atlântida”, as inscrições supostamente fenícias da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro, a cidade perdida de Eldorado na Amazônia, até coisas relativamente mais “simples” como certas interpretações a respeito de Tróia e das pirâmides do Egito.
Sobre Tróia a história de sua busca é quase tão interessante quanto a da própria cidade.
No século XIX um jovem alemão, que lera a Ilíada (a história da guerra de Tróia) e que se fascinara com ela, Heinrich Schliemann, empreendeu praticamente toda sua vida para encontrar a cidade na qual se desenrolara todos os eventos narrados no livro atribuído a Homero, e onde brilharam as figuras de Heitor, Ulisses, Pátroclo, Aquiles, Ajax, Agamenôm, Helena.
Hoje, um século e meio de pesquisas depois, sabemos que a própria autoria do texto da Ilíada – bem como o da Odisséia – dificilmente pode ser atribuída a um único autor, e que quase com toda a certeza suas origens remontam poesias orais, recitadas por poetas populares – tais como nossos repentistas e cantadores -, transmitidas oralmente de geração à geração.
A história da Guerra de Tróia se remete ao passado arcaico do mundo grego e seus conteúdo é uma construção mítica muito particular a respeito de acontecimentos ocorridos na região.
Mas Schliemann e seus contemporâneos não pensavam assim. Pelo contrário, imaginavam – seguindo a corrente comum na época – que a Ilíada era um texto passível de ser seguido, como um guia para um mundo antigo, desaparecido, mas que deixara sob a terra seus últimos vestígios.
O pesquisador investiu em sua busca por Tróia parte significativa de sua fortuna, amealhada a duras penas ao longo de uma vida de privações e alguma sorte (na infância Schliemann fora acentuadamente pobre).
Concluiu, finalmente, que o sítio indicado a ele por camponeses turcos condizia com a descrição de Tróia contida na Ilíada. Arregimentou dezenas de trabalhadores e iniciou uma escavação no local quase sem critérios metodológicos como os entendemos hoje. Esse período, antes da consolidação das modernas técnicas de escavação, faziam com que a arqueologia se parecesse muito mais com uma caça ao tesouro do que com ciência.
Mas o que se buscava era em grande medida um tesouro, e nem tanto o conhecimento a respeito de um passado específico. As escavações conduzidas pelo alemão abriram valas terríveis em sua “Tróia” e objetos tidos como de menor valor (cerâmicas, telhas, tijolos) foram desprezados em benefício das buscas por objetos de ouro ou pedras preciosas, estátuas, armas.
Durante muito tempo a idéia de que se encontrara Tróia permaneceu. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a cidadela escavada pelo alemão foi revisitada por uma equipe estadosunidense de arqueólogos – cujo chefe havia composto a equipe de Schliemann. Com outros objetivos – que não o de caçar tesouros – e municiado de uma metodologia muito mais consistente um novo cenário começou a se delinear.
O próprio Schliemann notara em suas escavações que havia uma sequencia de “estratos” que provavelmente revelavam cidades que foram se sucedendo como camadas de um bolo. Escolheu entre elas aquela que mais se assemelhava a idéia que havia composto em sua mente sobre Tróia e a batizou como a “Tróia Homérica”. Todas as demais foram descartadas.
Contudo, para as novas equipes de arqueólogos, o interesse se alterara e todas as “Tróias” (quantas seriam?) lhes eram importantes. Sete momentos distintos foram identificados, sete Tróias, que acompanharam a história da ocupação humana no Oriente próximo, ao longo das idades do metal (bronze, ferro).
Nessas “Tróias” não se buscava os túmulos de Príamo, de Heitor, nem o Cavalo de Madeira, mas restos de comida, ossos, tijolos, pedaços de potes e tijelas, qualquer coisa que revelasse os cotidiano dessas sociedades.
Talvez para o grande público a história acreditada por Schliemann seja mais cativante, mais sedutora, e ados arqueólogos contemporâneos “excessivamente” técnica. O mesmo ocorreu com as escavações no Egito, sobretudo no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon por Howard Carter. Os mitos excedem em muito a capacidade de difusão da ciência arqueologia, mas, ao mesmo tempo, realimentam o interesse do público, sobretudo das crianças e jovens, pela área. E não vejo isso como algo ruim, são dimensões diversas e cada uma tem seu lugar, seu espaço e sua função.
E sempre é o sonho que move primeiro, depois os interesses “técnicos”. Alguns arqueólogos se sentem desconfortáveis com isso, e criam verdadeiros “cavalos de batalha” (sem qualquer alusão ao cavalo de madeira troiano) na defesa de uma “ciência asséptica”, sem contaminações dos mitos ou dos sonhos. A mim isso só empobrece, diminui o interesse, e nada acrescenta a ciência, nada traz de novo, nem melhor, nem a mais.
Sorte da ciência que consegue atrair para si pessoas movidas pela imaginação e não apenas pela satisfação financeira.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga
Tags: Arqueologia, Heinrich Schliemann, Mito, Troia
31/05/2009 - 07:00
Esses dias estava conversando com um amigo sociólogo que me dizia que fez um texto on-line da WWF (a World Wildlife Found, uma das ONGs gigantes do meio ambiente) para ver o impacto que ele causa no meio ambiente. De acordo com ele, e não tenho porque desacreditá-lo, seus banhos jamais passam de cinco minutos, mora em frente ao trabalho, portanto não usa carro cotidianamente, consome moderadamente, enfim, não tem nenhum habito que pudesse lhe indicar um “risco” para o planeta.
Mas o teste da WWF teve opinião diferente e o resultado demonstrou que, se todos os seres humanos consumissem como ele, precisaríamos de três planetas Terra para suportar tal impacto. Certamente o teste parte do principio de um “mundo ideal”, muito mais preservado, alias, do que este em que vivemos, mas, de qualquer modo, o resultado ainda é estarrecedor.
Infelizmente, para todos humanos, a conclusão do exame de impacto ambiental por padrão de consumo é real e se comprova inclusive arqueologicamente. Nossa sociedade não é a primeira a abusar dos recursos naturais, ao longo da historia humana varias culturas entraram em colapso e muitas delas simplesmente desapareceram por conta de esgotamento ambiental.
Um caso particularmente famoso é o da Ilha de Páscoa, a qual teve quase toda sua cobertura vegetal de grande porte derrubada para ser empregada na edificação dos Moais, as gigantescas esculturas de pedra. O resultado foi uma crise ambiental que provocou o desaparecimento da cultura Hapa Nui. Na atual Turquia há um sitio arqueológico particularmente importante, Çatalhoyuk, uma das primeiras cidades da humanidade, mas que desapareceu diante do caos ambiental que ela mesma provocou no seu entorno. As escavações arqueológicas, que dataram a ocupação com varias fases entre 9000 e 7000 a.C., são chocantes diante dos indícios de como teriam sido os últimos dias da cidade. Montanhas de lixo se acumulando por todos os lados, restos de material orgânico apodrecendo ao ar livre, contaminando o ar e difundido doenças. A caça no entorno desaparecida diante da falta de controle, a terra esgotada e imprestável para a agricultura, os ribeirões que abasteciam a cidade com a água suja e sem qualquer utilidade.
A cidade morreu, súbita e dolorosamente, sem deixar rastros. Provavelmente seus últimos habitantes, deixando os mortos para trás, rumaram para outro lugar, onde podem ter sido absorvidos ou dizimados por outro povo, ou levado sua vida ate os últimos representantes da comunidade.
Estudos realizados por antropólogos, arqueólogos e biólogos – a partir das informações que temos sobre padrão de consumo nas culturas ditas “pré-históricas” – indicam que jamais o planeta teria condições de suportar a população que temos hoje, mais de seis bilhões de indivíduos. Um bilhão seria um numero bastante otimista para os especialistas. Na realidade o que nossa espécie fez ao longo da historia foi criar uma serie de tecnologia e macetes para driblar as limitações naturais.
Essas tecnologias são a base da espécie humana e somente foram melhoradas com o passar do tempo. Agricultura, pastoreio, profilaxia, habitação, ferramental, não muito mais do que isso. São estas tecnologias que nos sustentaram. A agricultura hoje pode ser feita com tratores de ultima geração, quase autômatos, mas ainda é “agricultura” e emprega o principio elementar que possibilita uma planta produzir mais alimento do que ela produziria em estado selvagem. O mesmo ocorre com os animais domesticados.
Contudo, até mesmo estas tecnologias parecem ter seus limites de eficácia e não é muito inteligente abusar na aposta de que sempre conseguiremos desenvolver algo mais eficiente. Caso contrário corremos seriamente o risco de encontrarmos nosso fim tal como nossos antepassados da Ilha de Páscoa ou da Anatólia.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura
Tags: Arqueologia, Ilha de Pascoa, Meio ambiente, Populaçao, Turquia
26/05/2009 - 07:21
A arqueologia é uma ciência que depende muito da capacidade interpretativa dos arqueólogos. Essa capacidade, por sua vez, depende da confiabilidade dos dados coletados durante uma escavação.
Grande parte das pessoas imagina que a única coisa que interessa a um arqueólogo durante uma pesquisa são os objetos resgatados durante as escavações, mas isso – hoje – não é mais uma verdade. Através do uso de técnicas modernas de diversas ciências informações cruciais são passíveis de serem obtidas.
Um exemplo que acho genial é a determinação das idade, sexo e época de abate de certos animais selvagens – caçados por homens de sete ou oito mil anos atrás – através da análise da dentição dos mesmos, encontradas em sítios arqueológicos. Alguns tipos de gamos possuem dentes que mudam seu esmalte ao longo do ano, quando morrem esse processo acaba. Assim é possível saber em que época o animal foi caçado e cruzando com dados de vários outros determinar as épocas preferidas de caça de nossos ancestrais.
Técnicas engenhosas como essa são empregadas também para o estudo dos solos, encontrando os tipos vegetais preferidos, ou do revestimento formado em foices de pedra pelo corte continuo de ramos de cereais. Através desses procedimentos é possível se determinar qual era a dieta das pessoas que usaram esses objetos ou viveram em certa região.
Por isso, a cada geração de arqueólogos, surgem técnicas que permitem melhores interpretações dos achados arqueológicos e uma melhor compreensão da vida de grupos humanos que desapareceram há milhares de anos.
A arqueologia nas Américas ficou durante muito tempo dominada pelo estudo das grandes civilizações pré-colombianas, como os aztecas, maias e incas. O estudo da história humana nas Américas antes do surgimento desses impérios demorou bem mais tempo para se estabelecer.
Ainda hoje o grande desafio da arqueologia americana é determinar quando, aproximadamente, a espécie humana aportou no continente. O segundo grande desafio é conseguir mapear a expansão e a ocupação das Américas depois da chegada.
Até alguns anos dominava o cenário o chamado “Dogma de Clóvis”. Clóvis é uma cidade mexicana na qual se encontrou o mais antigo registro humano datado, algo perto dos 11.500 anos de idade. Como os materiais arqueológicos necessitam ser datados e isso nem sempre é possível, Clóvis e seus 11.500 anos foram ficando.
Isso gerou uma luta incansável da arqueologia nos países da América do Sul e central, e mesmo de grupos dos EUA, para derrubar a datação de 11.500 anos.
Surgiram datações estimadas mais antigas rapidamente, mas o problema esbarrava sempre na questão da datação definitiva, o que significa ter a sorte de encontrar materiais orgânicos que permitam os procedimentos de datação por Carbono 14 ou algum outro método. Essa sorte nem sempre acompanha os arqueólogos: as vezes o material encontrado é pouco, as vezes está contaminado, as vezes fora de contexto, impossibilitando a associação direta entre o material datável e o restante do sítio arqueológico.
Mas mesmo quando uma fogueira é datada é necessário ter certeza de que ela foi produzida pela mão humana e não por um raio ou algum outro fenômeno natural. Para piorar a situação, quanto mais antigos os registros mais difícil é se encontrar essas situações ideais.
Por isso as datações obtidas pela arqueóloga Niede Guidon na Serra da Capivara no Piauí, e que indicariam ocupações humanas de mais de 40.000, são combatidas violentamente. Elas são tão rústicas, as fogueiras, que é impossível saber com certeza absoluta se foram feitas por humanos ou não.
Desse modo existem os verdadeiros “fronts” da luta pela escrita da história da ocupação das Américas, regiões nas quais equipes de arqueólogos se debruçam durante anos para tentar trazer luz a estas questões.
Uma dessas regiões é o litoral do Pacífico, no Chile o no Perú. Essa região é importante pois pode trazer novas informações sobre a hipótese de que a América não só foi colonizada por diversos grupos, em levas sucesivas, como também foi de “modos” diversos. Uma das teses insiste que homens das ilhas do Pacífico teriam conseguido chegar às Américas em balsas. Se isso realmente aconteceu, ou se foi o inverso – homens das Américas ocupando as ilhas – a resposta deve estar no litoral do Pacífico.
Outro front continua sendo a fronteira norte, a região do Alaska, por onde teriam cehgado as levas de humanos através do estreito de Bering, nas diversas glaciações que congelavam a passagem. Se o caminho dos humanos pelas Américas começou com uma longa marcha a pé a partir da Ásia os vestígios mais antigos devem estar por lá.
No centro-oeste do Brasil, na região do Mato Grosso, encontra-se outra linha de batalha. O centro do continente – já sabemos – foi uma região de trânsito de povos diversos, que foram se espalhando e se cruzando ao longo dos milênios. É lá que provavelmente teremos uma idéia melhor da formação dos povos americanos modernos, os indígenas que estavam aqui quando os colonizadores europeus chegaram.
Na Amazônia está a grande frente da cultura tupi, uma das mais extensas das Américas. Foi lá, provavelmente, que o amendoin e a mandioca foram domesticados, tornando-se parte essencial da alimentação dos povos americanos. Também entre a Amazônia e os Andes resta a linha de batalha na qual se discute de onde o milho veio, e como foi domesticado e se difundiu.
Nas Minas Gerais, em Lagoa Santa, há o front liderado pelo antropólogo físico Walter Neves, um dos mais terríveis adversários de “Clóvis”. A famosa “Luzia” (uma brincadeira “brasileira” com o famoso esqueleto de “Lucy” encontrado na África e que, até o momento, é o mais antigo) é uma das provas mais contundentes que existem de que a colonização nas Américas começou antes dos 11.500 anos e que não foi realizada apenas por uma matriz ásiática. Luzia tem claros traços negróides ao contrário de boa parte dos povos americanos que é de origem mongolóide.
Em cada uma dessas regiões há os “generais”, arqueólogos experimentados – como Walter Neves, Eduardo Neves, Denis Vialou, Niede Guidon, Tom Dillehey – que a cada temporada de escavação levam seus exércitos de pesquisadores, estagiários, para passar semanas, as vezes meses, lutando para obter resultados cada vez mais reveladores. Esses arqueólogos compõem um grupo restrito que discutem continuamente, mas raramente concordam em muitos pontos, dada a complexidade das situações a ausência de dados definitivos.
Assim, em cada uma desses “teatros de batalha” a história humana nas Américas, antes que o continente tivesse esse nome, continua a ser escrita, tal como um recordista olímpico, lutando para “baixar resultados” e chegar cada vez mais próximo da verdade.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura
Tags: Américas, Arqueologia, colonização, Escavações, Sítios arqueológicos
28/03/2009 - 17:56
Nos últimos anos a arqueologia tem se transformado profundamente, mas não em seus aspectos “científicos”. Nenhuma grande teoria surgiu, nenhum método revolucionário, nenhuma descoberta de “arromba”, mas, mesmo assim, a arqueologia vem mudando.
Há alguns dias uma migo meu, professor universitário, me chamou para um café. No bate papo me contou que um grupo de professores de uma universidade pública paulista pretende abrir um curso de graduação para formar arqueólogos. Ele, como “consultor” do projeto veio conversar comigo a respeito da carreira e do “mercado de trabalho” para o arqueólogo no Brasil, pois, embora não seja uma arqueólogo de formação, trabalho há vários anos na área.
Fiz para ele um breve comentário a respeito das mudanças na carreira e o quanto isso está associado às mudaças do mundo em geral, sobretudo em seus aspectos sociais.
Diferentemente das ciências “duras” a arqueologias é uma ciência que vive do contato com os povos. Apesar de estudar culturas que existiram há muito tempo, as vezes milhares de anos, a arqueologia vive profundamente no contato e do contato com povos distintos.
Até algumas décadas o arqueólogo, diante de um desconhecimento e da insipiente valorização do “patrimônio cultural”, podia se deslocar para quase qualquer parte do planeta, realizar suas escavações contratando locais por preços modicos e retornar tranquilamente para sua universidade sem ter que dar maiores esclarecimentos para ninguém.
A primeira mudança ocorreu quando os países passaram a adotar medidas mais rígidas no controle de seu patrimônio histórico e arqueológico, o que se fez em função de um processo de valorização do mesmo.
Em verdade os arqueólogos jamais se preocuparam realmente com a dimensão ética de seu trabalho por conta própria, sempre que o fizeram foi em função de pressões externas. A mudança nas legislações nacionais a respeito do patrimônio foi a primeira dessas circunstâncias, obrigando os cientistas a se questionarem a respeito do direito dos povos em manter sua própria memória, materializada em objetos.
Mas a coisa se complicou exponencialmente depois disso.
Quando os “profetas da globalização” e da “pós-modernidade” surgiram decretando o fim das utopias, das identidades, dos países, enfim, do mundo como o conhecíamos, a primeira – e apressada – conclusão foi a de que os povos do mundo todo se tornariam uma geléia geral de imitadores baratos da cultura estadosunidense. Já estavam prevendo que Mickey Mouse e hamburgueres seriam encontrados e adorados em aldeias nanbikwaras, em utus e tutsis, entre uigures, nepaleses, tibetanos ou quechuas.
Mas isso não ocorreu. Ao menos não tão simplóriamente assim e não com os resultados “pacificadores” esperados.
Com a difusão dos meios de comunicação e do acesso a meios não controlados de informação os povos que eram tidos como “em extinção” passaram a acompanhar toda sorte de questionamento a respeito dos poderes dagrandes indústrias e dos países. Junto com a diversão barata produzida nos EUA chegaram também as discussões em fóruns sociais, informações sobre organizações sociais, sobre disputas judiciais em defesa dos direitos humanos, ambientais e afins, o que gerou um efeito cascata entre os povos “tradicionais”.
O resultado para a arqueologia foi uma porta fechada, ou bastante mais restrita.
Grande parte das escavações ocorre em áreas que pertencem a povos tradicionais, ou o que é escavado se remete aos seus antepassados. Deste modo, diante de décadas de indiferença com os problemas das populações vivas, os arqueólogos passaram a ter problemas para pesquisar os mortos.
Do mesmo modo as populações se deram conta de que o patrimônio lhes pertence, que suas identidades estão intimamente ligadas a ele e que não pode dispor dele de modo aleatório. Compartilhar talvez, quando a parceria é boa para ambos – pesquisadores e comunidades - ceder indistintamente provavelmente nunca mais.
E foi o que disse para meu amigo professor: o profissional que hoje sentimos falta não é do “escavador”, do “técnico em arqueologia”. Esse profissional é útil em trabalhos relativamente simples, como em salvamentos em áreas que serão inundadas, ou por onde passarão estradas. O profissional do qual carecemos é o “mediador de conflitos” e “gestor de patrimônio”.
Ou seja, um profissional mais próximo às comunidades, capaz de entender suas demandas e diante de inúmeros protagonistas conseguir ajudar na solução dos conflitos, garantindo o uso responsável do patrimônio.
Recentemente povos andinos reinvindicaram o direito de utilizarem para suas plantações sistemas de irrigação construidos em tempos dos incas. E por que não? Eles são os legítimos descendentes desse povo. O arqueólogo, ou o historiador, tem que atuar nessa situação como um mediador e com um tanto de humildade para reconhecer que a ciência é apenas uma dimensão a ser observada.
Mas, infelizmente, o caminho parece ser longo e as soluções distantes. A maioria dos cursos insiste em formar profissionais para uma carreira absolutamente afundada no autismo acadêmico, incapaz de interagir com a sociedade, indiferente às demandas do outro e arrogante em sua defesa científica.
Alguns bons exemplos surgem aqui e acolá, mas ainda é muito pouco.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história, Direitos Humanos
Tags: Arqueologia, Movimentos Sociais, Sociedade
17/03/2009 - 18:27
Em 1994, na minha primeira ida à Bolívia, estava caminhando calmamente pelo gigantesco sítio arqueológico de Tiwanaku, nas proximidades de La Paz, quando fui interpelado por um camponês. Figura típica quechua (uma das etnias às quais a grande maioria da população boliviana pertence): baixinho, atarracado, muito moreno de sol, rosto enrugado, de chinelos, com um colete por cima de uma camisa surrada.
O camponês perguntou, sem maiores delongas, se eu estaria interessado em comprar uma legítima estatueta inca que el, ao cavar a sepultura de seu pai, encontrara no sopé das montanhas. Não, não estava, e na hora declinei delicadamente. Mas fiquei remoendo na mente a cena de Indiana Jones e a Ultima Cruzada, na qual ele – Indi - está no convés de um navio lutando pela posse da Cruz de Coronado e diz: Isto deve ficar em um museu.
Depois, vendo se afastar o pobre camponês, a idéia de desfez de tão absurda: Nem se tratava da Cruz de Coronado, nem o pequeno quechua era um bandido perigoso, um terrível colecionar ou contrabandista de objetos arqueológicos. Com o passar dos anos a reprimenda que me ensaiei ao boliviano foi se tornando cada vez mais estúpida.
Não que eu defenda o comércio ilegal de objetos arqueológicos, paleontológicos, históricos ou artísticos, patrimônios nacionais, mas um pouco de bom senso ajuda a interpretar as leis.
A questão é antiga. Basta uma pequena visita aos museus ingleses, franceses, estadosunidenses, alemães ou russos para ver o que é profissionalismo em questão de roubo, saque e contrabando. Pouquíssimas peças desses museus foram obtidas por permuta ou doação. Sem as guerras e as espoliações o British Museum ou o Louvre seriam menos atraentes aos turistas atuais.
Mas, dizem os defensores (a maioria desses países, é claro): São águas passadas. Não podemos culpabilizar o presente pelos erros do passado.
Cinismo. Puro cinismo, pois poderiam muito bem repatriar as peças e garantir, inclusive, uma melhoria no turismo cultural dos países saqueados (boa parte deles sempre num miserê danado).
Não é a toa que a arqueologia, até tempos recentes, era vista como atividade de saqueadores, ladrões de túmulos. Figuras como Heinrich Schliemann, Hiran Binguan, entre tantos outros, foram verdadeiros contrabandistas em larga escala, entulhando os museus de seus países com objetos peruanos, gregos, cretenses, etc.
Isso gerou um trauma tão grande em alguns países que a legislação que trata do assunto é um verdadeiro cipoal de leis. Na Turquia, por exemplo, qualquer ameaça ao patrimônio histórico e arqueológico é tratada com rigores de lei islâmica, o trânsito de pesquisadores e de objetos dentro do país é absolutamente vigiado.
O precedente que gerou isso é bastante ruim: Schliemann, ao escavar a suposta cidade de “Tróia” (ainda no final do século XIX) carregou para a Alemanha uma quantidade gigantesca de artefatos, a grande maioria feita de ouro e pedras preciosas (o que chamou de “Tesouro de Príamo”). Na invasão soviética a Alemanha, no fim da Segunda Guerra Mundial, o tesouro foi levado para Moscou e repousa no famoso museu Puschkin. Em décadas recentes esse “tesouro” gerou uma disputa internacional completamente maluca: os turcos exigem repatriação do tesouro, pois o sítio de Tróia fica no atual território da Turquia, contudo, quando a cidade era “viva” ela pertencia ao mundo grego, portanto os gregos também requerem a posse dos objetos. Os alemães, por sua vez, dizem que Schliemann escavou legalmente o tesouro e, portanto, tem o direito de ficar com ele, e os russo, por fim, argumentam que os objetos estão na conta das “indenizações de guerra”, pelo estrago causado pelos nazistas durante a invasão à União Soviética. E completam: quem quiser o tesouro que se atreva a ir buscá-lo em Moscou.
Está bom assim?
Mas há mais. Uma caravela portuguesa, indo para o Brasil quando afundou no final do século XVI, cheia de dobrões de ouro, encontrada em território maritimo internacional pertence a quem? Ao Brasil, a Portugal ou aos espanhóis (que controlavam Portugal naquela época)?
O caso é que a legislação não é simples e nem todos os países são partidários das convenções internacionais a respeito do patrimônio cultural, o que facilita o comércio e o contrabando de peças em determinadas regiões do mundo.
Um dos problemas que tornam o controle do tráfico de peças arqueológicas mais difícil do que o de arte é que cada “obra de arte” é absolutamente singular e conhecida, facilmente reconhecível. Mas os objetos arqueológicos não. Boa parte deles é relativamente “comum”, ou seja, existem dezenas, centenas de peças semelhantes, as quais, as vezes, até pertencem legalmente a coleções particulares. Mas, é claro, essas peças são menos cobiçadas pelos colecionadores. Por outro lado, parte dos objetos arqueológicos é difícil ou impossível de ser contrabandeada, como sarcófagos, portais, etc.
O Brasil sempre teve menos problemas do que países como o Perú, a Bolívia, Grécia, Turquia, China, Índia, México, no que diz respeito a cobiça pelos objetos arqueológicos, mas isso tem mudado e a recorrência de furtos a museus históricos e artísticos brasileiros nos últimos anos expôs nossa vulnerabilidade. Por sorte, em quase todos os casos, eram ladrões de galinha e foram facilmente pegos. Mas nem sempre será assim.
O pior de tudo é que quando pegam os bandidos, somente os ”executantes” vão para a cadeia, quando vão. Os grandes colecionadores, os “mandantes”, que chegam a ”encomendar” objetos para suas coleções, raramente são identificados e mais raramente são punidos. O motivo é simples: são donos de grandes fortunas, banqueiros, empresários, investidores, políticos.
Por isso, no final das contas, mesmo sendo errado, a venda de uma estatueta pelo camponês boliviano (encontrada ou não no enterro do pai) é uma gota d’água no oceano do contrabando internacional de patrimônio histórico, artístico e arqueológico.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico
Tags: Arqueologia, Artefatos, Bolívia, Contrabando, Museus
11/03/2009 - 09:09
Conhecer sítios arqueológicos, ou complexos arqueológicos pela América do Sul é tarefa bem mais complexa do que parece. É claro que o básico é relativamente simples: basta pegar um vôo até Lima, no Perú, um ônibus ou trem até Cuzco, outro até Machu Picchu e, bingo, estará num dos sítios arqueológicos mais badalados das Américas e mesmo do mundo. Mas terá perdido vários outros pontos de interesse, alguns, na minha opinião, mais interessantes ainda.
Um dos problemas é que entre um local ser reconhecido como sítio arqueológico e se tornar uma área de visitação vai um longo caminho, o qual não depende somente do interesse científico que uma área tem. Entra aí algo que chamamos de “musealização”, ou seja, a transformação de um objeto de estudo das ciências em uma atração turística.
É claro que existem lugares mais ou menos turísticos, mais ou menos acessíveis e níveis de interesse. Uma coisa é você querer chegar a Machu Picchu de ônibus muito confortável, outra é querer fazer a trilha inca e passar até sete dias subindo montanha e passando em pinguelas sobre desfiladeiros. E o mesmo pode ser dito para Nazca ou na Patagônia, que são regiões deserticas nas quais alguns se aventuram em jornadas de trekking.
Também há a questão de que, comparando com a Europa, o Egito e a América Central, a América do Sul ainda tem poucos sítios arqueológicos visitáveis. A esmagadora maioria se encontra no Perú e na Bolívia, depois há áreas interessantes na Colômbia, Equador, Chile, Argentina. No Brasil são raras as áreas de visitação, como a Serra da Capivara ou no Museu Arqueológico de Xingó.
Parte dessa “ausência” de áreas de visitação no Brasil se deve a pouca ou nenhuma divulgação, mas também a precária estrutura de turismo. Se não funciona como devia nem para o cidadão ir para uma praia de veraneio imagine para ir a um sítio arqueológico no meio do sertão?
Mas, acompanhando a falta de estrutura, penso que também o preconceito seja parcialmente responsável. Quando se fala de arqueologia as pessoas logo imaginam grandes templos, tumbas, pirâmides, castelos, no máximo grandes complexos de pintura rupestre. No Brasil nossa arqueologia é diversa e não conseguimos ainda atrair igual atenção para sambaquis, cavernas com pinturas rupestres, petroglifos, etc. A tentativa mais bem sucedida ainda é a da Profa. Niede Guidon no Parque da Serra da Capivara.
Contudo, se quiser fazer um tour pela arqueologia da América do Sul eu recomendaria com uma visita inicial justamente pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, para se ter uma idéia do alvorecer da espécie humana nas Américas. O parque é fantástico e não é acidental que seja um Patrimônio da Humanidade. Se tivesse um pouco de tempo esticaria até o Museu Arqueológico de Xingó, em Alagoas, na beira do São Francisco.
De lá partiria para a Patagônia e Terra do Fogo onde existem conjuntos de pinturas rupestres interessantíssimos e dignos de visita, além da paisagem que é lindíssima. Com isso iria para Sipán, no Perú, região mais ao norte, de uma cultura menos conhecida do que a incaica, mas tão fascinante quanto. Há alguns anos a descoberta de uma tumba de um soberado dessa cultura – o Senhor de Sipán, como foi apelidado – significou uma das descobertas arqueológicas mais importantes das últimas décadas. O museu construído para receber os pertences achados é igualmente incrível.
De lá iria para Nazca, onde ficam os famosos desenhos gigantescos, os quais (infelizmente?) não eram pistas de pouso para discos voadores, mas sinais de orientação para caravanas comerciais que atravessavam a região.
Ainda no Perú é importante conhecer Ollantaytambo, antiga fortaleza no caminho para Machu Picchu, bem como Pisac Viejo e o complexo todo que fica em Cuzco, a antiga capital Inca, como Sacsayuaman, nas proximidades da cidade. Por fim, para não dizer que foi a Roma e não viu o Papa, iria a Machu Picchu, linda, mas cheia de um comércio horrível e ofensivamente caro controlado pelos ingleses.
Pelo Perú, ainda, é possível ir até a fronteira com a Bolívia na região do Titicaca e, já do lado boliviano, pela cidade de Copacabana ir às ilhas do lago. A Ilha do Sol e a Ilha da Lua são lugares importantes para a cultura incaica – ou proto-incaica – e possuem sítios arqueológicos interessantes e de fácil acesso, além de estarem implantados num cenário de tirar o fôlego.
De lá é possível ir a La Paz onde, nos arredores, fica Tiwanaku, uma cidadela que foi o coração do império do Tawantinsuyo (o nome do Império inca) durante muito tempo. Ao lado de Tiwanaku há Puka Pukara, a distância de uma caminhada de dez minutos, que também é interessantíssimo.
Quase todos estes locais, durante alguns meses no ano, recebem novas equipes de arqueólogos que continuam seus trabalhos de pesquisa. São sítios gigantescos e que exigem décadas e mais décadas de trabalho para que se faça o trabalho da forma mais criteriosa possível. Então, não é incomum chegar a um desses sítios e encontrar barracas montadas e um monte de gente com parafernalhas entrando e saíndo de buracos.
Existem outros tantos lugares fantásticos, mas boa parte deles em áreas de acesso restrito, como reservas naturais, terras indígenas ou altas montanhas.
Por fim, incluiria ainda Sete Povos das Missões no Rio Grande do Sul, e já de volta ao Brasil, local que marca justamente essa interface entre a cultura indígena americana e a chegada do colonizador europeu, com desdobramentos absolutamente trágicos. É um sítio de arqueologia histórica, mas igualmente interessante e belo.
Com isso não terá visto nem a ponta do iceberg da arqueologia na América do Sul, mas, com certeza, terá visto a parte mais significativa daquilo que está disponível ao público e com estrutura para receber o visitante.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura
Tags: América do Sul, Arqueologia, Bolívia, Machu Picchu, Patagonia, Perú, Serra da Capivara, Sítios arqueológicos, Tiwanaku, Turismo
05/03/2009 - 08:36
Desde que fui trabalhar com arqueologia algumas coisas me chamam a atenção no comportamento dos arqueólogos enquanto grupo, enquanto “bando”.
É claro que são considerações de um historiador, uma visão parcialmente “de fora”, e, talvez, eles não concordem com algumas delas (talvez porque jamais “pensaram” a respeito delas).
Toda profissão tem sua cultura particular, um conjunto de elementos que formam e dão unidade ao “bando”, é algo bastante antropológico em verdade. É como a preocupação que médicos e advogados tem em serem chamados de “Doutores” sem jamais terem feito um doutorado, faz parte da cultura da profissão e ir contra ela implica em ser visto como alguém estranho. Quanto mais se rebele contra essas “tradições” das profissões menos te verão como um deles.
E isso acontece com todos os grupos humanos. Historiadores costumam alimentar um gosto particular por literatura, música e cinema. Não que escrevam bem, sejam bons músicos ou façam cinema, mas se ao conversar com outro historiador ele não conhecer nada dessas áreas certamente lhe olharão meio torto.
Com os arqueólogos ocorre a mesma coisa.
Escavando no sul de Minas Gerais, olho para o campo e vejo três figuras. De longe parecem versões mais ou menos gordinhas e com ligeiras diferenças de altura da mesma pessoa.
Rodolfo, Pedro e Vinícius. Rodolfo é geógrafo especializado em geomorfologia (o estudo da formação do relevo terrestre, dos marcos geográficos como montanhas, cordilheiras, rios, etc). Pedro, português, é historiador e antes de desembarcar em São Paulo passou uma temporada com sua esposa brasileira na terra natal dela, no nordeste. Vinicius, estudante de história do interior de São Paulo, já trabalhou com toda especie de arqueologia existente no Brasil, de pré-história a lixo industrial.
Rodolfo é um bonachão, tranquilo ao extremo, anda para lá e para cá com uma prancheta e um equipamento de GPS anotando dados do terreno e, sobretudo, em que pontos do terreno os objetos foram encontrados. No final das contas a responsabilidade de organizar tudo isso “espacialmente” é dele, bem como dizer ao restante do pessoal como aquele terreno se formou, o que ajuda e muito a saber mais sobre o grupo humano que produziu o material arqueológico escavado.
Pedro é o diretor da escavação. É o mais velho, tem lá seus trinta e poucos anos, e tão tranquilo quanto Rodolfo (ou Dorfo). É um sarrista a moda portuguesa, com muita sutileza. Muito sério no trabalho, mas capaz de tornar o convivio em algo mais suave, apesar da “brutalidade” do trabalho.
Vinicius, o terceiro, é um gozador em tempo integral. Tem seus vinte e muitos anos e o humor característico dos moradores do Vale do Paraíba em São Paulo. O tempo todo está tirando com a cara de alguém, pesquisador ou trabalhador assistente de escavação. Acentuou sua verve cômica trabalhando com braçais no centro oeste do Brasil.
Uma coisa que me impressionou desde o início é o quanto a arqueologia é um universo “masculino”. É claro que existem arqueólogas, muitas aliás, mas quando elas entram no trabalho de campo se estabelece um código de conduta, de comportamento, que é muito masculino. As brincadeiras, a forma de se relacionar, de falar, é tudo muito da cultura masculina. Nesse sentido a arqueologia me lembra muito a política, outro universo no qual prevalece uma cultura masculina.
Isso não tem nada a ver, vale lembrar, com machismo. As mulheres são respeitadas da mesma forma, tem as mesmas oportunidades, mas invariavelmente, as que sobrevivem no meio, se masculinizam no trato.
Os homens, por sua vez, se mantém numa eterna sensação de “juventude”, talvez acentuada pela impressão de que a vida é uma sucessão de viagens e escavações. Não é. A arqueologia feita nas universidades escava muito pouco, a grande maioria do tempo é gasta em laboratórios e bibliotecas. Mas na arqueologia de “contrato” ou de “salvamento”, aquela que é feita fora das universidades, é comum que um arqueólogo fique meses, as vezes anos, pulando de escavação em escavação.
Com isso formam uma tribo da qual já falei aqui. Todo mundo se conhece mais ou menos no meio e há, é claro, a cadeia alimentar do ramo, na qual se tem uma idéia de quem pode mais ou menos. Sobreviver a lei da selva, literalmente, não é nada fácil.
As três figuras parecidas – todos de roupa bege, de barba e bigode, de chapéu de palha na cabeça e óculos – são sobreviventes e conseguiram em grande medida se libertar dessa sensação de “eterna juventude”, se tornaram profissionais de verdade.
O risco dessa cultura da liberdade, da juventude experimentada eternamente, é que muitas vezes leva os ingressantes a se esquecerem que antes de qualquer coisa a arqueologia é uma profissão, que a arqueologia também é um ramo instável e que somente aqueles que possuem “planos” de carreira sólidos conseguem viver dela.
Não existe uma solução universal, mas há alguns princípios que configuram aqueles que ultrapassam a barreira da “arqueologia como curtição”. Ter planos paralelos que consigam completar ou se valer da arqueologia é uma boa estratégia.
Rodolfo é pesquisador de geomorfologia e usa a arqueologia para ter acesso a dados privilegiados. Pedro toca sua pesquisa pessoal paralela e se habilita para o ensino universitário. Vinicius é historiador e no aperto volta para a antiga área. Os três adoram a arqueologia e “vivem dela”, mas não vivem só dela.
Mas há o outro lado, mesmo entre os muito competentes. Há amigos meus que estão há cinco ou seis anos saltando de lá para cá, como ciganos. Isso cansa um dia. Você chega certo dia no quarto de um hotel qualquer, muitas vezes no meio do nada, e toma um “choque de realidade”.
Ai começa a fazer a contabilidade dos anos de arqueologia, e da própria vida: o que ganhou? o que perdeu? o que aprendeu valeu a pena?
E não vai consolar muito dizer, como o poeta, que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Chegar a conclusão de que nos ultimos anos sua vida tem sido uma incessante troca de companhias, longe da família, as vezes tendo perdido a namorada (o), o que é relativamente comum depois de tantos meses fora de casa, não é um resultado muito bom se não pensou nisso com alguma antecedência.
O retorno nem sempre é fácil, implica em recuperar relações deixadas como terreno baldio, com mato a crescer, retomar estudos. Muitos abandonam amargurados a arqueologia e a maldizem pro resto da vida, quando, na realidade, foram co-responsáveis pela situação toda.
Mais do que os riscos de acidentes em campo, animais perigosos, clima implacável, creio que o maior risco da arqueologia é seduzir como sereia espíritos ansiosos por experiências limite, e depois de muito tempo cobrar o preço por isso, que as vezes pode ser bastante caro.
Isso não é para soar desistimulante. A arqueologia é fantástica, as experiências são únicas e enriquecedoras, tudo é muito sedutor. O necessário é saber do preço que se cobra por isso e buscar uma visão mais realista, mais responsável com relação a própria vida.
Como diz um ditado popular: Todo mundo vê as pingas que tomo, mas não os tombos que levo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Carreira, Escavação, História
19/02/2009 - 10:19
O Mato Grosso foi a escola de arqueologia prática para muita gente. Eu entre elas. Não é muito fácil, mesmo no Brasil, encontrar áreas relativamente preservadas onde se possa escavar tranquilamente. O Mato Grosso ofereceu, e oferece, ainda essa possibilidade para muito arqueólogos brasileiros, em começo de carreira.
Sempre que eu chegava a Cuiabá, ou à alguma cidade do interior do estado, havia uma legião de novos arqueólogos e arqueólogas sedentos por cair no primeiro capão de mato que vissem pela frente. Eu, como sempre fui tido como um “tipo tranquilo” pouco me alterava com as novas oportunidades. É claro que sempre achei o máximo – a não ser quando, literalmente, ”dava merda” -, mas com os pés no chão.
Quando cheguei em Lucas do Rio Verde estava acompanhado de Luigi e Kleid. O primeiro um arqueólogo velho de guerra, gente boníssima, que hoje se tornou professor de uma universidade federal na Bahia. Kleid seguia os rumos do irmão mais velho, já arqueólogo. Goiano de nascimento era um tipo igualmente tranquilo.
Certa vez, na cidade de Brasnorte, o prefeito recomendou que cortasse o cabelo e tirasse o colar de coquinhos do pescoço, caso contrário seria confundido com gente de ONG e, consequentemente, um alvo móvel. Kleid nem cortou o cabelo nem tirou os coquinhos do cangote, e nem por isso morreu. Há muito de cachorro que ladra e não morde por ai. O que não significa que não haja os que mordam de verdade.
No primeiro dia em que estavamos na cidade fizemos uma incursão a nossa área de escavação. Uma hora e tanto a pé ladeira a baixo – o que significa uma “ladeira a cima” na volta – cortando uma floresta de tabocas.
Malditos bambuzinhos que batem por todos os lados e que, quando cortado, se tornam espetos no chão como uma armadilha de vietcongue. Terríveis. Uma vez que escorregue e caia num tabocal terá problemas sérios.
Terminado o tabocal, pensamos, tolos, que os flagelos haviam passado. Entramos num maldito pântano na beira do rio onde estávamos. Pelo menos não batia na cara nem espetava. Mas atolava como os diabos. A certa altura enfiei meus pés no tal que fiquei com lama pelos joelhos. Para sair só de gatinhas. Arranca uma perna, depois outra, engatinha no pântano até uma área mais fime e dai recomeça a caminhada. Numa dessas minha bota ficou.
Porcaria de bota, aliás, de solado colado, cuja lama ácida – por conta do material biológico em decomposição – derreteu a cola. Kleid e Luigi, mais leves, bem mais leves aliás, indo a frente. Mas, em compensação pegando todas as bolotas de formigas que haviam.
A certa altura paramos no charco, eram umas 11:30 da manhã. Havia tanta formiga que ficamos dentro de poças d’água na tentativa de escapar um pouco delas. Mas existem algumas especies que devem ter sido treinadas pela marinha, pois atravessaram as poças e começaram a subir por nossas calças, mordendo tão doloridamente quanto torquesas.
Por incrível que pareça Luigi e Kleid estavam se divertindo muito. Parei e pensei: Que tipo de maluco é esse que sente prazer com o sofrimento? Ok, masoquisatas não são novidade, mas mesmo no sofrimento há limites de conforto. E alí não havia nenhum.
Depois de umas tantas horas chegamos ao local indicado pelo satélite e tão logo começamos a trabalhar as ferramentas quebraram todas, indicando que, qualquer pessoa de bom senso, deveria tomar o caminho de volta e esperar a ziquezira passar.
Mas arqueólogos são conhecidos pela falta de bom senso. E graças Deus não escalam montanhas, senão morreriam como moscas devido a sua ausência quase absoluta de prudência e bom senso.
Depois de outras tantas horas Luigi e Kleid retornaram, eu já havia pegado o caminho da roça há tempos, sem bota, andando descalço como um flagelado, mordido por todos os lados, imprestável.
No final, apesar do absurdo ainda temos algo que chamamos de “ciência” e que jovens como Kleid acham divertido. No final das contas eles dizem: Melhor estar aqui do que num escritório fechado vendo concreto.
Isso alimenta as levas e mais levas de jovens que se enfiam nos buracos da arqueologia, grande parte deles no Mato Grosso.
Quando cheguei lá pela primeira vez o estado havia se tornado um grande canteiro de obras, com hidrelétricas brotando como cogumelos em todos os cantos, e arqueólogos trabalhando em cada uma dessas obras para salvarem um pouquinho do passado.
Antes do Mato Grosso o grande canteiro havia sido o Tocantins, e , agora, o Pará surge como a próxima bola da vez. O triste disso é que a arqueologia parece acompanhar o rastro da destruição. Nem sempre, é verdade, mas em boa parte das vezes. Tentando, aqui e ali, diminuir a desgraça toda.
E com isso enfiando dezenas de jovens, e não tão jovens, da estranha tribo, em buracos de escavação pelos sertões do Brasil.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Escavação, Mato Grosso, Sertões
15/02/2009 - 12:13
Todos os anos, em verdade a cada semestre, centenas de jovens em idade universitária desembarcam no centro oeste do país, nas florestas amazônicas, no sertão nordestino, nas praias de Santa Catarina. Seu objetivo imediato: passar algumas semanas numa escavação arqueológica de verdade, entre trincheiras, sondagens, aparelhos GPS, pás, peneiras, baldes, trenas, metros, barro e mosquitos, muitos mosquitos.
Aqueles que estão ali pela segunda vez talvez tenham aprendido algumas lições práticas e tenham providenciado também roupas longas – mesmo sob o sol escaldante – largos chapéus de palha, protetor solar, repelente de insetos, botas resistentes, capas de chuva, aparelhos tocadores de MP3.
Mas boa parte deles estará ali pela primeira vez e, mesmo com os demais sabendo do sofrimento alheio, terão de passar sozinhos pelas provações de seu primeiro campo.
Por incrível que pareça as garotas – em geral mais inteligentes do que os rapazes – gostam tanto dessa experiência quanto eles e chegam em quantidade equivalente. Todas muito meninas, tanto quanto os rapazes (embora alguns exibam vastas cabeleiras e barbas, conquistadas a custo durante seus primeiros anos de curso universitário em humanidades).
Com algum tempo vão aprender também que barbas e cabelos longos tem benefícios e desvantagens. Se estiver sendo atacado por insetos ou sob um sol de rachar mamona a barba e o cabelo vão te proteger e diminuir a área exposta. Por outro lado, o calor será maior e se trombar com um cacho de formigas, carrapatos, micuins ou qualquer coisa que entranhe em seus pelos se arrependerá amargamente de não ter raspado até o último fio do seu corpo.
Pergunto a um deles: O que te fez buscar a arqueologia?
“Nenhuma outra atividade me ofereceria a oportunidade de conhecer lugares tão distantes sem ter de gastar nada, aprendendo e ainda ganhando alguma coisa. Além do mais os campos de arqueologia são o mais próximo que você terá de uma experiência comunitária com gente da sua idade.”
A verdade é que alguém que sobreviva aos dois primeiros anos da arqueologia tem grandes chances de se tornar um grande conhecedor do país e mesmo de lugares mais distantes, como América Latina, Oriente Médio, Grécia. E isso sem ter que depender dos recursos familiares.
Mas há sempre num acampamento de arqueólogos – ou mesmo numa pensãozinha pouco recomendável perdida no oco do mundo – muita gente que foi atraída pelos filmes de aventura. Tesouros, templos escondidos, canibais e coisas do tipo ainda povoam as cabecinhas juvenis de muitos que chegam as salas de aula de arqueologia, mas, mesmo depois de um ou dois semestres de aula, os sonhos não se dissipam totalmente. Nunca vi nenhum destes jovens não ficar absolutamente eufórico diante da escavação de uma urna funerária, de um enterramento. Sem contar os que se dedicam à arqueologia clássica, à egiptologia ou à subaquática, escavando navios afundados, resgatando “tesouros de pirata” (embora não possam ficar com um dobrãozinho sequer).
Eles levantam de manhã, por volta das seis da matina, põem roupa surrada, tomam café, passam protetor nas partes expostas, arruma ma roupa de modo a não deixar espaço para insetos entrarem, tomam um banho de repelente, arrumam a mochila, preparam o lanche, conferem o equipamento pessoal, as anotações, metem o chapéu na cabeça e vão para o transporte coletivo, em geral uma Kombi caindo aos pedaços. Muito tempo sacolejando até o ponto mais próximo da escavação, dividindo espaço com trabalhadores braçais contratados na região, para fazerem o esforço mais bruto. Chegam ao lugar, e então mais uma longa caminhada, que pode durar até hora ou mais. Por volta das oito ou nove da manhã estão finalmente escavando.
Depois de algum tempo cada um está ensimesmado em sua tarefa. No ouvido os fones tocando em geral heavy metal, um ou outro com um gosto musical mais alternativo, MPB, música etnica, Banda Calypso, já ouvi de tudo nos fones de companheiros.
Mas há sempre os hiperativos.
Daniel, turismólogo de formação abandonou a carreira de preparação de viagens para se meter no meio do mato. Mineiro do sul, de sotaque curioso, pula de um lado para outro nas escavações. Barbudo, cabeludo, sempre de macacão, pula numa trincheira, anota algo, pula pra fora, corre atrás de uma trena, bate uma foto da escavação, faz anotações, corre e comenta algo com o chefe de campo, pula de novo pra dentro da trincheira e vai assim até o horário do almoço, quando para por vinte minutos para rapidamente engolir seu sanduíche.
Se deu bem na arqueologia, passa suas temporadas, apesar de ainda não ser um “arqueólogo ao pé da letra”, entre o Chile, Estados Unidos e os sertões do Brasil, apesar da ausência do diploma (o que o impossibilita de “assinar” os relatórios de campo) é bastante respeitado na tribo.
Há outros, como Levi, de família judaica que sabe lá Deus porque veio parar na arqueologia, embora seja um caso que poderíamos chamar de “vocação”. Desde pequeno fantasiava com escavações milagrosas. Depois rodou a Europa, América Latina e foi parar nos Estados Unidos. Levi é “low profile” no trabalho, embora seja o tipo esquentado, do que dá uma cadeirada na cabeça de um caboclo que tenha lhe ofendido num bailão no centro oeste. Além do mais é fã incondicional de todo tipo de música tida como “brega”. Seu MP3 nunca é disputado pelos demais (talvez seja uma estratégia dele).
Gilberto, por outro lado, é um caso especial. Morador de Carapicuiba em São Paulo, negro, se tornou um especialista em Grécia do período clássico, lê grego e latim, fala fluentemente francês, inglês, espanhol e grego moderno. É um lorde inglês que venceu todas as apostas contrárias que a vida fez a seu respeito. Esteve na Grécia mais vezes do que a maioria dos classicistas de sua idade – e muitos até bem mais velhos.
Mas, curiosamente, essa massa disforme de personalidades convive – nem sempre pacificamente – numa escavação. E sem contar com os que acabaram de chegar e tem a nítida impressão de que foram embarcados por engano num Navio Pirata, cheio de gente mal encarada, suja e falando um dialeto próprio cheio de brincadeiras particulares, extraídas de episódios lendários compartilhados pela tribo.
Por incrível que pareça esta turba de gente estranha está ali para fazer ciência, embora quase nenhum tenha a principio partido para esta vida para “fazer ciência”. A ciência é uma consequência de uma escolha de “estilo de vida”, o que se assemelha, em verdade, muito ao mundo dos alpinistas. Ninguém vai se tornar alpinista por que quer desenvolver novas técnicas, novos equipamentos, mas porque quer abraçar uma “idéia” a respeito da vida.
E tanto quanto a escalada a pratica de campo na arqueologia pode se tornar um vício, capaz de destruir relações pessoais, de criar problemas sérios de ordem psicologica e social, mas são casos extremos.
Mas, ainda assim, verá, no final do dia, aqueles mesmos sujeitos, ainda mais sujos, mais cansados, mais barbudos e cabeludos, mais estropiados voltarem também mais felizes em Kombis precárias para seu alojamento, alimentar o anedotário arqueológico e as lendas da tribo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Carreira, Escavação, Trabalho
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