21/07/2009 - 07:00
Dana Merril, fotografo dos EUA encarregado de registrar os trabalhos da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no meio da selva amazônica, nos deixou um dos mais valiosos conjuntos de imagens da luta do homem contra a natureza, a qual, como sempre, se mostrou trágica.
Hoje a coleção de imagens pertence ao acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, o Museu do Ipiranga, e estão preservadas para a posteridade, depois de passarem décadas em risco de desaparecimento. O mesmo não se pode dizer de parte dos elementos materiais que um dia constituíram a estrada de ferro, nem da memória de seus trabalhadores e descendentes.
O acesso ao coração da América do Sul foi um desafio desde o início da colonização européia, no século XVI, e talvez até mesmo dos povos ancestrais que habitaram as Américas pelo que as escavações arqueológicas vêm mostrando nos últimos anos. Apesar de se associar com frequencia a Amazônia ao isolamento, espaço ermo, de difícil acesso, essa idéia somente é válida com algumas observações.
Praticamente toda a Amazônia é ocupada há milênios, com maior ou menor intensidade, e os grandes cursos fluviais da região permitiram tráfego regular tanto aos povos nativos quanto aos colonizadores. A colonização das margens do Amazonas, do rio Negro, Tapajós, Jaú e outros tantos da região é praticamente contemporânea a colonização do litoral nordestino (sempre tida como das mais antigas).
Mas essa antiguidade não significa que o trânsito tenha sido – ou seja – fácil. Algumas rotas são particularmente difíceis e ainda hoje são desafios significativos. Em toda a região amazônica, talvez, a mais temida seja a do complexo de rios que une o Guaporé, o Madeira, o Beni (na Bolívia), o Mamoré, rota “natural” para quem pretende ir ao coração do continente, mas que como quase nenhum outro trajeto cobrou vidas humanas ao longo dos séculos.
As tentativas de se estabelecer uma rota regular para ligar as regiões do Guaporé até o litoral atlântico por via fluvial são muito anteriores a Estrada de Ferro Madeira Mamoré e antes mesmo do surgimento das máquinas a vapor. Desde o século XVIII, quando a Coroa Portuguesa mandou erguer Vila Bela da Santíssima Trindade, a beira do rio Guaporé, para garantir seus limites territoriais diante da Espanha, que sucessivas tentativas foram empreendidas com o objetivo de encontrar saída mais rápida e menos tortuosa para o oceano Atlântico.
Em geral a rota empregada para se chegar até a beira do Guaporé literalmente cortava o continente, indo através de Goiás ou por rio cruzando São Paulo e Mato Grosso (sempre “capitanias” e não “estados” nesse período).
Contudo a série de corredeiras, quedas d’água, grupos indígenas hostis, bandos de espanhóis armados e diversas doenças – sobretudo a malária – sempre manteve a rota em condições precárias de funcionamento.
Os planos para vencer a série de cachoeiras vem desde este período e atravessou todos os planos de construção de ferrovias no trajeto.
O fato é simples: com os saltos os comboios de barcaças e canoas devia ser descarregado, a carga carregada nas costas para subir ou descer a cachoeira através das margens. As canoas e barcaças rebocadas lentamente com cordas através do próprio salto ou em picadas abertas em terra firme, sempre demandando dias de trabalho extenuante nos quais, para piorar, as expedições ficavam ainda mais expostas aos riscos.
Com a independência dos países da América Latina as tensões de fronteira – que haviam marcado as relações entre Portugal e Espanha ao longo do período colonial – mudaram de sentido e a Bolívia recorrentemente solicitou ao Brasil que permitisse e axiliasse na obtenção de uma saída para o Atlântico. Os primeiros estudos para a construção da ferrovia datam da década de 1860.
É claro que também Brasil e Bolívia tinham inúmeros problemas fronteiriços, dentre os quais o que acabou por ceder ao primeiro o território do Acre, de posse boliviana, mas ocupado por seringueiros brasileiros.
Na negociação para a solução do problema a Bolívia colocou como condição a construção de uma rota de saída para o mar. Em verdade a situação piorara para os bolivianos quando no último conflito entre eles, peruanos e chilenos (1882). No conflito a Bolívia perdeu sua última saída para o oceano Pacífico, ficando completamente cercada no interior do continente, e sendo obrigada a aceitar a tributação peruana, ou chilena, para importar e exportar.
Até sua conclusão, já no período republicano, o empreendimento passou pelas mãos de estadosunidenses, ingleses e brasileiros e todos sifreram diante de um dos territórios mais inóspitos da Terra (retratado por Manoel Rodrigues Ferreira em A Ferrovia do Diabo e Francisco Foot Hardman em Trem Fantasma: a modernidade na selva). Além dos embates com indígenas caripunas e ataques de animais selvagens a malária, mais do que qualquer outro inimigo, ceifou a vida de centenas e centenas de trabalhadores alemães, chineses, italianos e brasileiros que se enfurnavam na selva durante o boom das mega construções.
Processo semelhante, e ainda mais cruel, ocorreu durante a construção do Canal do Panamá. A mortalidade nessas obras era tão grande que costumava-se a contabilizar os mortos por números de quilômetros ou de dormentes (exageros, é claro, mas que não reduzem os elevados números de óbitos).
O fato é que, mesmo concluída, Madeira-Mamoré jamais conseguiu se sustentar na floresta de modo estável. As fotos de Dana Merril mostram cenas assustadoras de trechos inteiros de trilhos engolidos por valas ou arrastados por enxurradas, no meio de um mundo de lama e água. De fundo sempre uma muralha de árvores testemunhando silenciosamente o trabalho sem fim dos operários.
O paradoxo da situação encontra-se justamente neste choque entre a idéia de “modernidade” encarnada pela figura da locomotiva – símbolo de uma época – e da incapacidade de se sustentá-la diante do universo natural. Euclides da Cunha, ao visitar a região dos seringais no Acre (de onde surgiu sua obra A margem da história), dizia que na Amazônia tudo é monumental, mas de uma monumentalidade inacabada, agreste, hostil, onde tudo concorre para afastar a presença humana, indesejada. A infinitude de águas e floresta – para ele – era uma natureza em revolução, sem a estabilidade de outras regiões, sem o ambiente mais acolhedor que possibilitava a humanidade.
Depois de idas e vindas a Madeira-Mamoré foi lentamente deixada para tras, para ser devorada pela floresta, com seu território reinvindicado pela “natureza revoltosa” que Euclides viu. Ainda hoje as comunidades da região são relativamente diminutas, embora a floresta tenha encontrado na soja e no gado adversários poderosos e aparentemente incansáveis. Mas, como a história da própria ferrovia demonstra, uma coisa é a vitória circunstancial, outra é a vitória definitiva, e ao que parece a derrota definitiva desse espaço monumental, cobrará antes nossa própria existência.
Mas, insistimos em incorrer em erros semelhantes (A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa como escreveu Marx), caso contrário, décadas depois, não satisfeitos com Madeira Mamoré, nossos ditadores militares decidiram abrir sua versão asfáltica, a Transamazônica. A qual, em boa medida, repetiu a tragédia da Mad Maria.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Amazônia, Bolívia, Brasil, Estrada de Ferro, Madeira mamoré
25/02/2009 - 22:20
Em 1909, num bizarro duelo para a limpeza da honra, Euclides da Cunha morria por uma bala disparada por um jovem oficial do exército, Dilermando de Assis. Com a morte de Euclides desapareceu uma das mentes mais brilhantes e um dos observadores mais agudos que a literatura brasileira já havia produzido.
Certa vez Professor Antonio Cândido, um de nossos maiores conhecedores da literatura brasileira, disse que, para ele, os dois maiores expoentes da nossa escrita eram Machado de Assis e Guimarães Rosa. Penso que Euclides da Cunha viria logo atrás, alguns décimos de segundo depois dos dois gigantes de nossa língua.
Não é acidental que Os Sertões foi considerado um dos cem livros mais importantes da história da literatura mundial (tudo bem que essas listas sempre são “egocêntricas” e refletem apenas o gosto pelas literaturas européias, o que, em verdade, aumenta ainda mais a deferência da inclusão do livro de Euclides).
Euclides teve uma carreira um tanto erratica, reflexo de seu temperamento explosivo e de um espírito romântico tardio. Cursou a Academia Militar da Praia Vermelha justamente no início da República. Muito cedo abraçou o ideal republicano e foi um “Florianista” convicto. Mas tinha uma incrível habilidade para se meter em encrencas e por mais de uma vez se viu no meio das tramas políticas da capital, parte das vezes por conta de seu casamento com Ana, filha de um importante oficial do exército.
Quando conseguiu sua baixa do exército – no qual se habilitou ao trabalho com a engenharia – passou a colaborar com a imprensa (o que já fazia antes, mas com menor liberdade). Foi justamente nesse contexto que estourou o conflito armado no sertão nordestino, e que Canudos passou a ser um nome conhecido em todas as capitais do Brasil.
Aproveitando o fato de ser militar da reserva, Euclides conseguiu que lhe autorizassem acompanhar a derradeira expedição militar, de outro lado representava o jornal O Estado de São Paulo no front. Foi justamente essa oportunidade que lhe forneceu a matéria prima para escrever sua obra prima.
Dividida em três partes – A Terra, O Homem, A Guerra – Euclides revelava as grandes influências que recebera dos pensadores deterministas do século XIX, mas as quais utilizou com beleza superior.
Alma sensível, o escritor testemunhou uma verdadeira barbárie no sertão, e por mais que tivesse tecido comentários pouco elogiosos a respeito dos sertanejos (que muitos confundem, por conta da famosa frase que diz que “o sertanejo é antes de tudo um forte”), se questionou profundamente a respeito de quem efetivamente era uma ameaça a humanidade: os maltrapilhos esfomeados do sertão ou as tropas federais, as quais não perdoaram mulheres, velhos ou crianças.
Curiosamente, tanto na academia militar quanto na campanha de Canudos, Euclides foi companheiro de outro militar ilustre: Candido Mariano da Silva Rondon. Mas, diferentemente de Rondon, Euclides não tinha vocação efetiva para a vida militar, nem tanta fidelidade política quanto o mato-grossense.
Depois da experiência aterradora, Euclides se empenhou mais na vida de engenheiro, sendo responsável por inúmeras obras pelo interior de São Paulo e Rio de Janeiro.
Produziu ainda um outro trabalho brilhante, muito menos conhecido do que seu texto sobre Canudos: A margem da história.
Na subida dos rios amazônicos, no meio da floresta, e novamente acompanhando a vida dos caboclos amazônicos – a versão das florestas dos sertanejos que vira na catinga nordestina – escreveu um trabalho que descreve uma natureza em conflito.
Para Euclides tudo na Amazônia desaconselhava a presença humana. Resultado de formações geológicas novas, na sua opinião, a região era ainda o cenário de um colossal conflito entre as forças naturais. O gigantismo da natureza, do espaço, demonstrava um quadro de guerra na qual o ser humano era a peça mais frágil, e por isso desaconselhável á permanência. Dia a dia estabelecia-se a luta péla sobrevivência numa floresta sem a calma e a receptividade da mata atlântica.
Quando desci, em 2007, os rios Negro e Amazonas, durante 30 dias de navegação, era impossível não relembrar as descrições de Euclides da Cunha, e pensar no quanto ele tinha ou não razão. De fato, geólogos e biologos concordam que a Amazônia ainda é uma floresta jovem e que, se nós não a dizimarmos, terá ainda uma longa história de amadurecimento pela frente, assim como o cerrado teve.
Infelizmente Euclides não pode escrever muito mais do que isso, pois sua natureza tão inquieta e revoltosa quanto a visão que tinha da floresta, ou do sertanejo, levou ele até as raias de um duelo inglório, o qual apagou para sempre um dos espíritos mais brilhantes e sensíveis que já produzimos.
PS: Recebi o comentário da Profa. Anabelle Loivos no qual me indicou o belíssimo trabalho em parceria da UERJ com a UFRJ “100 anos sem Euclides”. Vale a pena conferir o site e, se estiver no Rio de Janeiro (mesmo que de passagem) tentar pegar uma casquinha de alguma das inúmeras ações do projeto.
O link é: http://www.projetoeuclides.iltc.br
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, História do Brasil
Tags: Amazônia, Centenário, Euclides da Cunha, Os Sertões
05/12/2008 - 18:59

Como tratei no último post a respeito do plano do gverno federal para barrar o desmatamento da Amazônia acho bacana tratar um pouco a respeito da história da colonização dessa região.
Ao contrário doq ue muitos pensam a Amazônia não foi um território inóspito, deixado para segundo plano durante séculos, nem foi das últimas regiões a serem colonizadas pelos europeus. Em verdade o centro-oeste brasileiro foi uma região ocupada mais tardiamente do que a Amazônia.
É claro que, quando falamos de colonização da Amazônia, estamos tratando das grandes vias de interiorização, de ocupação, ou seja, os gigantescos rios amazônicos (o Amazonas, o Tocantins, o Pará, o Madeira, o Negro, o Tapajós, o Solimões). As regiões mais distantes destes rios, ou mesmo às margens de seus afluentes menores, demoraram mais a serem ocupadas.
O fato é que ainda no século XVI, logo depois da “oficialização” da posse portuguesa sobre o território nas Américas, exploradores vários passaram a incursionar pelo Amazonas, seja subindo seu curso, seja em inusitadas viagens descendo o curso do rio desde sua nascente na América espanhola.
Talvez até mesmo alguns dos comandantes das expedições de Colombo tenham navegado pelo Amazonas, o que motivo de debate ainda hoje.
Mas explorar não é colonizar, e a colonização de fato demandaria ainda algum tempo. As primeiras atividades colonizadoras na região se deram por oriundos de Portugal, mas, principalmente por missionários católicos (carmelitas, jesuitas e franciscanos) que foram se alojando em locais de antigas aldeias indigenas.
Vale dizer que, quando os europeus chegaram a Amazônia, esta estava vastamente ocupada por povos indígenas, desde tempos imemoriais. A grande maioria das cidades amazônias (Manaus, por exemplo) se desenvolveram sobre antigas aldeias, nas quais colonos ou missionários se estabeleceram.
Contudo, com o avanço da colonização, e os resultados trágicos do contato entre índios e europeus, levou ao esvaziamento e fuga dos indígenas para regiões cada vez mais distantes, principalmente dos grandes rios, vias preferenciais de comunicação.
Cidades inteiras foram abandonadas, como o Velho Airão.
Boa parte das ações colonizadoras se concentrava na exploração de riquezas naturais amazônias – de modo parecido, porém sem nenhuma sustentabilidade, com o que as empresas de cosméticos oprema hoje na região. Breu, pimenta, castanhas, pau rosa e outros tantos produtos da floresta eram mandados para a Europa a partir de Belém, de onde se deu a origem do mercado Ver o peso (que tem esse nome devido a uma requisição da população da cidade para que a Coroa Portuguesa construísse um posto para se “ver o peso” das mercadorias que seguiam para a Europa).
Com a expulsão dos jesuítas e a mudança dos códigos que regulamentavam o trabalho indígena no século XVIII essa economia entrou em crise, se bem que boa parte dos indígenas – os sobreviventes ao contato – já haviam fugido para regiões mais distantes.
Um século depois foi a economia da extração da borracha que imperou na região.
Contudo, contudo, uma coisa é fato irrefutável: apesar de todas as mudanças na economia amazônica, é um fenômeno do século XX a agressão deliberada a região, com o desmatamento desmedido para a agricultira e para a pecuária. Os processos anteriores podem ter sido prejudiciais aos indígenas, aos seringueiros, mas muito menos ao bioma.
As grandes cidades também se tornaram um problema na região. Com toda a sinceridade, fiquei chocado com Manau quando a vi. Com a quantidadede ocupação desordenada, com os igarapés sufocados pela cidade. Também com Belém, um pouco menos com Santarém.
Até o século XIX e começo do XX a história da região havia sido uma história da exploração, não da degradação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Amazônia, colonização, História do Brasil
02/12/2008 - 10:10

Ontem o presidente da República e o Ministro do Meio Ambiente lançaram um plano que a imprensa e os próprios autores chamaram de “ousado” para conter o desmatamento da Amazônia.
Detesto ser o Advogado do Diabo, mas poucas vezes vi tanta pirotecnia para o oco. Talvez esteja errado, as informações não tenham sido corretamente divulgadas pela imprensa (li uns quatro ou cinco veículos diferentes que davam, ou não, o mesmo pacote de informações, o que me leva a crer que ou o plano não tem muito o que divulgar ou a imprensa é coletivamente tapada, com maior probabilidade de que sejam ambas as coisas).
Não conheço a Amazônia como os povos amazônicos, nem como as pessoas que lá trabalham há anos, mas conheço um pouquinho e, no geral, mais do que a média.
Passei um ano e meio entre idas e vindas em algumas regiões da Amazônia, em projetos diferentes de proteção e difusão do patrimônio cultural. Estive muito tempo no Mato Grosso, sobretudo na sua parcela amazônica. Depois fui ao Amazonas, ao Pará. Curiosamente estive justamente nos estados que merecem maior atenção pelo risco que hoje representam a preservação do ambiente.
Fiquei assutado quando vi o presidente dizendo que ele, o ministro do meio ambiente e o da justiça se reuniriam para elaborar um plano de fiscalização. Oras, mas que raios de plano é este que não há desde o início a perspectiva de fiscalização? Será que da noite para o dia os madeireiros e agricultores que conheci por lá vão se arrepender de seus atos e, conjuntamente, se tornarão os novos baluartes da proteção ambiental expiando assim suas penas e por obra e arte do Espírito Santo?
O problema da preservação da Amazônia é análogo ao de tantos outros no Brasil, por principio, não na forma. A devastação progride não pela imensa força de madeireiros, agricultores, criadores de gado, não. Em sua grande maioria é gente simples, de pouca instrução, com indiferença atroz pelo ambiente, imediatista, gananciosa, e sem muita articulação.
Os sojicultores possuem uma organização maior, respaldados pelo desejo do governo em tornar o tal grão no novo maná da humanidade, capaz de virar combustível, ração animal e, de vez em quando, até alimento. Tudo em nome da “reversão do aquecimento global”.
Mas, desmatadores e poluidores das mais diversas feições, mandam e desmandam, fazem o que bem querem não pela sua imensa força e organização, mas pela ausência vergonhosa do Estado brasileiro.
Quando estive, ano passado, no Parque Nacional do Jaú, um dos maiores do país, deu para entender porque ele esta bem preservado: as cidades distam dele dezenas, centenas de quilômetros. Certamente não seria pelos dois fiscais do Ibama que encontramos no flutuante (balsa alojamento e atracadouro muito comum na Amazônia) deitados em suas redes, sem combustível para as voadeiras (botes rápidos) e acompanhados de uma dupla de pesquisadores de macacos.
Nisso o presidente foi sincero: Não é possível esperar que um fical sozinho do Ibama com um carro sem combustível vai fiscalizar a Amazônia.
Com certeza. Ou ele estará preocupado em manter a própria vida – pois o Estado não lhe dá qualquer respaldo e proteção ao seu trabalho -, ou estará trabalhando em algo quixotescamente, por pura vocação budista, ou terá se tornado o novo aliado de contraventores, participando do butim amazônico.
Em 2005 por bem pouco minha equipe não foi crivada de balas do Mato Grosso por ter sido confundida com uma equipe do Ibama. E isso já havia acontecido outra vez, em Crateús, Ceará, em 2004. Mas aí estamos falando da caatinga, e não da Amazônia, como se os demais ecosistemas ou biomas não tivessem tão ou mais ameaçados do que a gigantesca floresta.
Resumo da Ópera: a não ser que o governo apresente instrumento reais, eficazes de imediata implantação (moralização e aparelhamento do Ibama), legislação dura, fiscalização eficiente, punição exemplar e irrevogável, este será um plano tal e qual se mostrou ontem, vapor, cortina de fumaça, ação de dissimulação.
E não adianta colocar a culpa nas ONGs, na ausência de conhecimento, etc, etc, etc. Nem uma única folha é arrancada de Terra Indígena sem que os moradores saibam, todo caboclo que se preza conhece cada igarapé de sua região, cada paranã (grandes canais que correm paralelos aos rios). Se eles conseguem sem sistemas de satélites, helicopteros e afins o governo consegue…se quiser.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História do Brasil, Política ambiental
Tags: Amazônia, desmatamento, Política ambiental
Voltar ao topo