02/02/2009 - 21:28
Há algumas décadas ocorreu um rebuliço na academia européia. Historiadores e arqueólogos classicistas (os que estudam o Mundo Antigo) se arrepiaram ao ver a publicação de Black Athena de Martin Bernal.
Noutra ocasião já comentei aqui como o mundo acadêmico europeu entrou em crise quando pesquisadores começaram a demonstrar que os textos atribuidos a Homero, a Ilíada e a Odisséia, eram obras constituidas por aedos, cantadores populares da antiguidade que decoravam os textos e os cantavam em público. Ou seja, os textos tidos como fundadores da cultura européia eram obras de “analfabetos” uma vez que foram constituidos antes da invenção da escrita.
Martin Bernal promoveu a mesma revolta, pois defendia em seu livro que os gregos deviam muito de sua cultura e sua religião aos…africanos. É claro que essa reação às idéias de Bernal denunciavam o forte racismo que imperava, e ainda impera, nos meios academicos europeus (e não só neles). O suprassumo da cultura européia, os gregos, descenderem culturalmente dos africanos? Impossível para ele admitirem.
Mas as idéias de Bernal são muito cabíveis. Se observarmos a estrutura da religião grega antiga e de parte das religiões africanas as semelhanças vão muito aém das meras coincidências.
Em ambas as religiões o panteão de deuses é formado por uma infinidade de deidades maiores e menores, que se casam entre si, que tem descendência, e quem tem qualidades e defeitos humanos. Em ambas as religiões os deuses são manifestações de forças naturais, do controle dessas forças.
Obaluayê, orixá das doeças e das curas, filho de Nanã, orixá da morte, muito se parece com Esculápio, deus da cura (cujo bastão, o caduceu, é simbolo da medicina no ocidente). E assim por diante com os deuses gregos e seus duplos africanos iorubás: Afrodite/Obá, Zeus/Obatalá.
E assim como entre os gregos as religiões africanas não possuiam uma unidade, em cada região adorava-se uma entidade diversa, um orixá diferente. Nas cidades-estado do mundo grego haviam as divindades locais e aquelas mais amplas, adoradas em quase todo o mundo de língua grega.
Quando os africanos foram trazidos para as Américas seu sistema original se desorganizou, pois não só se misturaram membros de muitas regiões, religiões e até etnias, como seus deuses perderam relação com as regiões de origem (na África haviam inúmeros orixás que eram relacionados a marcos geográficos, como rios, montanhas).
A solução foi se re-organizar a religiosidade. O resultado é que boa parte dos orixás se perdeu. Na África existem centenas deles, mas no Brasil são pouco mais de vinte, e menos ainda entre estes são reverenciados em todo o território nacional. Parte só é cultuada ainda na Bahia e outros estados do nordeste.
Um dos orixás poderosos, de culto nacional, é Iemanja, a rainha do mar, deusa que foi associada à Nossa Senhora osNavegantes ou Nossa Senhora da Conceição da Praia (dependendo da região do Brasil).
Sua festa, ocorrida neste dia 02 de fevereiro, é uma das maiores festas religiosas do Brasil, ainda que realizada de modo descentralizado. E, no candomblé, é certamente a maior festa, ou, ao menos, a mais visível.
O antropólogo Darcy Ribeiro atribuia esse “sucesso” de Iemanja ao fato de que era uma deusa do amor, a mãe de muitos orixás. Nada mais adequado para o povo brasileiro, tão cheio de chamegos na visão dele. Dizia ele que à Iemanjá não se vai pedir a cura das doenças, mas mais amor, mais carinho, um “amante mais gostoso”, como escreveu com todo seu deboche.
Odô iá é a sudação imemorial em iorubá à orixá dos mares. Pierre Verger dizia que seu nome era originário do rio Yemonja, no interior da África, e que foi trazido para o litoral durante as migrações dospovos pelo continente.
De qualquer modo é uma das festas mais belas das religiões presente no Brasil, com milhares de pessoas fazendo suas oferendas no mar, em barquinhos ou despejando vidros de água de colônia e maços de rosas e palmas de várias cores.
Inesquecível, aliás, era Clara Nunes cantando sambas compostos em homenagem à Iemanjá.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura, História do Brasil
Tags: África, Candoblé, Festa, Grécia Antiga, Iemanja, Religião
28/12/2008 - 21:37

Mesmo tendo aberto mão dos presentes do Bom Velhinho – como escrevi no post anterior – dia 27 de Dezembro este que vos escreve completou mais um ano de vida e os generosos amigos decidiram lhe presentear.
Entre os presentes recebi um DVD de um irmão meu (não, não tenho irmãos biológicos, logo promovi alguns de “alma” à categoria fraternal por acumulação de milhas). Aliás, recebi o DVD e o CD da Orquestra Mediterrânea, lançado pelo selo do SESC-SP.
Em 2005 o SESC-SP promoveu um dos festivais mais bacanuxos que já vi por estas bandas. A Mostra de Arte Mediterrâneo reuniu durante um mês, aproximadamente, artistas de diversas partes da Europa, África e Oriente Médio que são banhadas pelo Velho Mar.
Como ápice da Mostra foi montada uma orquestra composta por músicos dessas regiões que estavam se apresentando individualmente durante o período. Sob a batuta de três maestros brasileiros – Livio Tragtenberg, Magda Pucci e Carlinhos Antunes – a orquestra fez duas apresentações, das quais nasceram o DVD e o CD. Eu estava no primeiro dia no SESC Pinheiros.
O fantástico da idéia de se realizar uma mostra de arte “mediterrânea” é o fato de este velhíssimo mar congregar culturas tão diversificadas e tão comunicantes ao mesmo tempo.
Acho o Mediterrâneo uma das provas mais contundentes de que a chamada “globalização” é incapaz de acabar com a diversidade cultural. Os povos da bacia do Mediterrâneo estão em contato intenso há milhares de anos, e nem por isso se transformaram numa geléia geral.
O mar já foi controlado por gregos, árabes, romanos, fenícios, egípcios, italianos, ingleses e nada disso foi capaz de reduzí-los a uma pasta uniforme. Gregos e romanos criaram colônias pela costa do mar, árabes, venezianos e genoveses invadiram e dominaram regiões, os cruzados controlaram o mar durante as Cruzadas, os bizantinos impuseram sua força durante séculos, e toda a costa do mar continua diversa, com infinitas cores, sons, religiões, tecidos, alimentos.
Dizem, alguns historiadores da cultura (helenistas em sua grande maioria) que o mundo grego foi o berço do ocidente. Grande mentira, o ocidente nasceu no mar, no Mediterrâneo, o mais oriental dos mares ocidentais.
Ao longo da história humana o Mediterrâneo funcionou como caldeirão cultural, uma intensa rota de tráfego, de trocas, que ainda hoje cumpre seu papel. Apesar de outros mares no mundo terem importância crucial na história de seus povos – como o mar da China, o Oceano Índico, o Pacífico, o Caribe – nenhum deles teve a intensidade de troca como o “Nosso Mar” (Mare Nostrum) como o chamaram os romanos.
Uma das raras coisas que os povos do Mediterrâneo concordaram foi em assimilar e fundamentar suas culturas sobre o tripé alimentar formado pela videira, pela oliveira e pelo trigo. Não importa à que culinária você decida ir, invariavelmente encontrará o vinho, ou as uvas, o azeite e o pão.
De tão importante, de tão “universal” para os povos da bacia do mar, os três elementos foram consagrados como parte da liturgia cristã e grega. Não é acidental que gregos usassem os três elementos em seus rituais, e depois deles os cristãos.
A mostra de arte Mediterrâneo foi um momento raro para que pudéssemos vislumbrar um pouco desse passado fascinante e intenso, e tão parte de nossa alma, apesar de estarmos a milhares de quilômetros e centenas de anos distantes dele. E o espetáculo da Orquestra foi realmente “a cereja do bolo” como diz um amigo meu, possibilitando a experiência sonora e visual dessa diversidade milenar.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura
Tags: África, História Europa, Mediterrâneo, Mostra de Arte Mediterrâneo
22/11/2008 - 14:15
Tudo bem. Sou um homem sem palavra. Decidi romper com meu AI-5 auto-imposto e postar algo que não seja receita de bolo de cenoura nem poesia condoreira aqui.
Juro que não sou somali, pirata, nem tinha informações privilegiadas quando decidi escrever aqui a respeito da história da pirataria. Mas, numa daquelas coincidências do destino, ocorreu que, junto com a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial (alguns dizem desde 1929), temos um dos maiores surtos de pirataria no Oceano Índico desde a época de ouro da pirataria.
Esse recrudescimento (não é renascimento, pois a pirataria nunca “morreu”) me fez lembrar de uma série de questões, algumas diretamente ligadas ao assunto, outras que oferecem correlação.
O Oceano Índico, na costa oriental da África, é uma região clássica da pirataria. No século XVIII Madagascar era uma “república” ou “reino” pirata (depende de seu modo de ver as coisas). Piratas ingleses rumavam exatamente para onde hoje os piratas somalis mantêm o mega-petroleiro cativo e atacavam implacavelmente as embarcações mercantis da região. Sem nenhuma nação com poder para coibi-los na região tornaram o Índico um verdadeiro território pirata, cuja navegação oferecia riscos absurdos.
Então, há uma pergunta: Porque essa região é recorrentemente invadida por levas de piratas?
Dizer que a pirataria jamais deixou de existir ali somente lança o problema mais para trás. Na realidade, a ausência de estados nacionais fortes na região e a rota mercantil secular que passa por ali torna a África Oriental num lugar particularmente atraente à pirataria.
Em segundo lugar, a pirataria, como escrevi anteriormente, é uma forma muito eficiente de ganhar dinheiro e uma ótima saída para homens que tem poucas chances na vida. Sem dúvida a situação endêmica de miséria na África acaba arrastando centenas, senão milhares de homens, para a carreira da pirataria. É claro que são poucos que enveredam por ela e não é a miséria a única causa, mas é uma precipitadora.
A situação análoga à qual me referia era a da nossa “pirataria a seco” que foi o cangacismo no sertão nordestino. Não eram as secas e carestia a única causa de acirramento do cangacismo, mas toda vez que o sertão entrava num ciclo de miséria aumentavam os bandos de cangaceiros. Some-se a isso a profunda desigualdade social no sertão e o mando e o desmando dos coronéis durante séculos. Isso criava um ambiente de revolta e injustiça que levava muitos jovens ao crime. Há um excelente livro sobre isso: Guerreiros do sol de Frederico Pernambucano de Mello (para meus amigos historiadores que pedem que eu indique ou referencie leituras).
Penso que a situação africana é semelhante. Não é por causa da miséria que alguns africanos optam pela vida da pirataria, mas quando o mundo decidiu esquecer a África a sua própria sorte, parte dos africanos decidiu retribuir ao mundo na mesma moeda.
As histórias de “O coração das Trevas” contado por Joseph Conrad e “Alá e as crianças soldado de” Ahmadou Kouroma são exemplos de como, historicamente, a África foi desarticulada em sua já frágil estabilidade pela ação dos estrangeiros.
Para ver a matéria do Ultimo Segundo a respeito do sequestro do petroleiro clique aqui:
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2008/11/20/piratas_pedem_us_25_milhoes_para_liberar_petroleiro_saudita_2123250.html
E para ler a postagem a respeito da história da pirataria clique aqui: http://indianasilva.blig.ig.com.br/2008/11/19204202.html
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História do oriente, Sem categoria
Tags: África, História Moderna, Pirataria