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01/07/2009 - 06:58

Como os Estados Unidos se tornaram a “nação da liberdade”

Hoje os soldados americanos começaram a se retirar do Iraque, depois de seis anos do mais pleno fracasso, desperdício de vidas, recursos, bens materiais, paz regional. E sempre com a alegação de que o exército dos Estados Unidos da América estavam levando a “liberdade” para um país “sufocado por um ditador”.

 

Depois da II Guerra Mundial o discurso estadosunidense a respeito da “liberdade” foi cada vez mais fruto de risadas irônicas da comunidade internacional. Ao final da grande guerra os EUA mantinham a imagem de defensores da liberdade e de responsáveis pela queda do nazi-fascismo, ao lado da Inglaterra e da França. Demorou décadas até que a história do front oriental – sobretudo da batalha de Stalingrado – viesse plenamente a tona e se desvelasse o quanto a derrota perante os soviéticos foi um golpe irreversível nas tropas alemãs. Até lá os EUA continuaram como “paladinos da liberdade”.

Também nas décadas seguintes o crescente intervencionismo estadosunidense nas questões nacionais mundo a fora começou a minar sua imagem perante a comunidade internacional, culminando com a trágica e vexatória Guerra do Vietnã. Com cada vez mais poder um suas mãos, e controlando virtualmente boa parte dos organismos internacionais, os EUA cresceram sua arrogância e sua indiferença diante da opinião alheia, o que acabou por desqualificar quase que completamente sua auto-proclamada “terra da liberdade”.

O visitante que chega a Nova Iorque mal consegue imaginar a cidade sem a “Estátua da Liberdade”, símbolo nacional sem que seja “oficial”, o que certamente deve provocar alguma sensação de paradoxo na cabeça de alguns: como pode ser este o país da “liberdade”?

A questão é que, contextualmente, os EUA foram, um dia, o país da “liberdade”, expresso na sua “memória nacional”, em seus símbolos, marcos, lugares, histórias.

Até o dia 4 de julho de 1776, quando os representantes das treze colônias da Inglaterra publicaram sua declaração de Independência, tal rompimento entre colônias e metrópoles era quase que inimaginável e nenhuma ação até então obtivera qualquer sucesso efetivo.

O chamado “antigo regime” estabelecera durante séculos a relação entre as terras conquistadas nas Américas, África, Ásia, Oceania e suas metrópoles na Europa. Uma relação assimétrica, hierárquica, em aspectos econômicos, jurídicos, burocráticos, mas também sociais e culturais. As “colônias” – como o Brasil, Angola, Moçambique, os territórios espanhóis, os ingleses no Caribe, etc. – eram inferiores as metrópoles em praticamente tudo, contudo, representavam as parcelas mais “polpudas” das rendas das Coroas européias.

Na ocupação dos cargos administrativos e militares, na cobrança dos impostos, na concessão de benefícios, nas liberdades, as colônias raramente conseguiam estabelecer situações que fossem ao menos equivalentes a das metrópoles.

Em casos específicos as demandas dos colonos eram respondidas com violência ou com mais apertamento dos administradores, com a imposição de leis, tributos, regras ultrajantes, cujo objetivo era não somente produzir lucros mas, também, demonstrar a inferioridade e submissão das colônias.

Quando as treze colônia sda Inglaterra inverteram o jogo, com ajuda dos franceses, e romperam seus laços com a metrópole o que era uma possibilidade remota, uma sonho quase, passou a ser considerada um caminho viável e se tornou uma referência para gerações de lideranças regionais. Nessa época não era um ato de subserviência ou de ausência de princípios se “inspirar nos EUA”.

Apesars da inúmeras atrocidades que os os estadosunidenses cometeram para expandir seu território – como nos episódios da conquista do Novo México, na dizimação dos povos indígenas -, coisas que, em verdade, todas as nações americanas cometeram, os Estados Unidos se conformaram ao longo do século XIX como um território aberto às possibilidades. Imigrantes irlandeses, italianos, eslavos, seguiam aos milhares em busca de oportunidades, em busca de “fazer a América”. Também o fato de em meados do século o país ter se livrado da escravidão – após a Guerra da Secessão -, embora não do racismo, manteve sua fama de terra da liberdade (em certos aspectos).

Foi essa fama que os governos, e a população dos EUA, alimentaram durante as décadas. Mas, como diriam os iluministas, ”o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. O crescente poder dos EUA a partir do início do século XX (pois esse país “potência” que conhecemos é um fato do século XX) foi acompanhado também da crescente perca de alguns dos princípios que fundaram o país, e também da crescente indigestão internacional em relação aos atos dos governos dos EUA.

Algumas regiões dos EUA mantiveram esse perfil mais “libertário”, como Nova Iorque, mas o sul e o centro do país, compostos pela população mais conservadora, mais preconceituosa e menos informada a respeito do mundo, passou a ter cada vez mais importância da política nacional, carregando para a atuação dos EUA  na esfera internacional uma série de procedimentos que adoram internamente. A Estátua da Liberdade teve de se conformar com a convivência de selas, botas e chapéus de vaqueiro, como nos últimos oito anos.

Boa parte do desafio do atual presidente é justamente recompor esses princípios e recuperar a credibilidade dos EUA como “país da liberdade” tanto internamente quanto perante a comunidade internacional.

Mas há ainda outro problema: o que os EUA entenderam como “liberdade” durante esses dois séculos é muito diverso do que hoje parte da comunidade internacional entende como tal. O direito de portar seu rifle, de ter impostos baixos, liberdade de comércio, de escolha de governantes parece muito pouco diante dos desafios que o mundo enfrenta e que espera que os EUA passem a enfrentar conjuntamente. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea Tags: , , ,
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