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16/07/2009 - 07:11
“Fez, pois, o Senhor da parte do Senhor chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo enviado do céu; e destruiu essascidades, e todo o país em volta, todos os habitantes das cidades, e toda verdura da terra.” (Gen, 19: 24-25)
Com palavras que retomavam a história das cidades destruidas de Sodoma e Gomorra, narrada no livro de Gênesis, o padre italiano Dom Peppino Diana acusava a máfia napolitana – conhecida popularmente como Camorra e internamente como O Sistema – de conduzir sua terra à destruição, à eliminação, à decadência absoluta de todo e qualquer valor humano (cristão ou de quase todos os outros credos). A semelhança fonética entre Gomorra e Camorra parecia ainda outra crueldade acusatória da mosntruosidade que se estabeleceu na região de Napoles e que se disseminou – inclusive pelo mundo – como um gigantesco e incontrolável tumor de malignidade incomparável.
Dom Peppino foi morto com cinco tiros na secretaria de sua igreja, no dia de seu aniversário, a mando de um dos clãs da máfia napolitana, a mando dos De Falco. Seu amigo de infância, Cipriano, escreveu um discurso para ser lido nos funerais de Dom Peppino, mas, completamente imobilizado, sequer foi a cerimônia. No discurso novamente empregava a alusão a Gomorra.
Gomorra, e Sodoma, teriam sido duas cidades elamitas na smargens do Mar Morto que foram dizimadas pela ira divina por terem irremediavelmente se degradado e incorrido em toda forma de perversão. É desse episódio a famosa história da esposa de Lot, que contrariou as ordens celestiais e olhou para traz, sendo transformada numa estátua de sal.
Muitos anos depois, um dos jovens que corriam pelas ruas das cidadezinhas da região de Napoles, tornando-se jornalista, adotou Gomorra como palavra título/chave/símbolo para seu livro sobre os anos recentes da Camorra e os bastidores de seus negócios. Com isso Roberto Saviano passou a incorporar a lista dos protegidos da polícia italiana. Ele se tornou o que a máfia chama de “Homem Morto”. Pessoa jurada de morte, irrevogável.
Como ele mesmo descreve em Gomorra, a morte pode demorar um, cinco, vinte anos, mas as famílias jamais esquecem e sempre confirmam o ditado que diz que a “vingança é um prato que come frio”. Talvez, por isso, Saviano saiba que sua opção em denunciar de modo agudo o “making-of” dos negócios camorristas decretou uma situação que provavelmente o acompanhará para o resto de sua vida, o que pode ser em minutos, anos, horas, dependendo do descuido de sua escolta e do afinco de seus “killers”.
Mas a questão não é exatamentea Camorra na Itália, ou em Nápoles, mas suas ramificações, braços, tentáculos, que associados a outras máfias – como a chinesa – conseguem alcançar as mais distantes regiões do planeta, e os negócios mais variados, desde aqueles que são claramente suspeitos – como construção civil, especulação imobiliária, coleta de lixo, transporte público – até aqueles aparentemente “inocentes”, como roupas e acessórios de luxo, ou brinquedos infantis.
O terrível dos esquemas camorristas – e não só deles, de outras tantas máfias espalhadas pelo mundo, muitas delas associadas entre si, como conglomerados internacionais – é que eu, você, e boa parcela da humanidade acabamos por colaborar com eles, consciente ou inconscientemente. Recentemente as operações da Polícia Federal na Daslu e essa semana na Tânia Bulhões – no Jardim Europa, em São Paulo – revelam essas implicações.
Parte das operações mafiosas não é destinada ao abastecimento do comércio popular com produtos falsificados ou pirateados, mas o abastecimento de redes de alto luxo localizadas em Nova Iorque, Paris, Roma, Londres, São Paulo e Rio de Janeiro. Objetos de marcas consagradas, vendidas por milhares de dólares, euros ou reais, são fabricados – como é amplamente sabido – no sudeste asiático ou em periferias do mundo, como Napoles e o Brás em São Paulo. As mesmas oficinas, os mesmos costureiros, as mesmas máquinas são empregadas para fazer os objetos originais, repassados pelas marcas oficiais, e as cópias. Essas cópias podem ser desde a falsificação mais grosseira e barata até peças confeccionadas de modo praticamente idêntico, com a mesma qualidade, inclusive.
Essas peças, depois, são enviadas para lojas como a Daslu em São Paulo e outras tantas em ruas de comércio de luxo como a Oscar Freire, ou Shoppings caríssimos. Elas entram nos países com notas frias, com valores muito inferiores, ou como rpodutos “originais” com preços baixos ou de “liquidação”. Facilitar a documentação e os trâmites burocráticos é outra atividade muito lucrativa das máfias.
Depois os endinheirados irão a essas lojas comprar bolsas Louis Vitton, Gucci, Versace, etc., a rios de dinheiro, mas produzidos com trabalho sub-humano, por miseráveis, cheios de produtos tóxicos, sonegando impostos, corrompendo funcionários públicos e policiais, juizes, financiando a prostituição, o tráfico de armas e drogas, e a matança que acompanha os processos de manutenção ou troca de poder entre os grupos rivais.
No casaco da senhora que cruza a Oscar Freire está a mancha do sangue de jovens italianos, de trabalhadores chineses, de ilegais bolivianos, de soldados do tráfico das favelas brasileiras. As roupas, relógios, carros, bolsas, há a marca daquilo tudo que destrói a humanidade. É Gomorra.
Mas também me lembrou isso tudo da argumentação de jovens de classe média que alegam que seu “baseadinho” não induz nem financia a violência, que isso é coisa de “drogas pesadas”, como o crack, a coca e a heroína, além da mais de uma centena de compostos que pode ser transformada em “Ecstasy”. Quando o filme Tropa de Elite mostrou que o Rei estava nú e que isso nada mais era do que uma retórica vazia e hipócrita de quem se recusa a pensar sobre suas atitudes e sua responsabilidade, acusarm Padilha – o diretor – de tudo quanto foi possível, mas, principalmente, de “reacionário”. Pois colaborar com o crime organizado e com as máfias, incentivar a matança, é certamente – para esses – uma atitude muito “revolucionária”.
Contudo, mesmo que você não compre produtos evidentemente falsos, contrabandeados, de lojas e fábricas envolvidas em escândalos e sob investigação, ainda correrá o risco de estar colaborando com a pior escória que há sobre a face da terra. Parte do dinheiro dos negócios escusos do crime organizado é “lavado” em empresas aparentemente idôneas – como ocorreu com a Parmalat e a Cirio na Itália, ligadas na região de Napoles a Camorra -, ou empregado em ações “isentas”, como patrocínio a clubes de futebol, restauro, benemerências e afins. De onde vem o dinheiro usado para pagar mais de 200 milhões pela compra de Cristiano Ronaldo? De Kaká? Como podem comprar um jogador por 100 milhões e depois revendê-lo por 15? Será que o licenciamento de produtos, os títulos, direitos de imagem, etc, são o suficiente para justificar tais investimentos? Não é suspeito que as maiores transações do futebol ocorram justamente envolvendo os países onde a máfia é mais forte, como a Itália, a Espanha e os países do leste europeu?
Se compra uma camisa de um clube milionário corre seriamente o risco de estar ajudando a “legalizar” o dinheiro obtido com extorsão, assassinato e tráfico. Nos campeonatos nacionais também as bolas de futebol são manchadas pelo sangue do crime organizado.
Não há a idéia de “negócios ilegais” ou “legais” para o crime organizado, são apenas negócios – como lembra Saviano. Por isso não vêem distinção entre a venda de cocaina e o financiamento de um time de futebol italiano, “Family Busines, capisce?”
Sem contar, é claro, o envolvimento, que não é um braço, mas o tronco todo, nas obras públicas, coleta de lixo e transporte público. Se querem uma relação que deveria ser investigada pela Polícia Federal em São Paulo basta vasculhar os negócios envolvendo a “Revitalização da Cracolândia”. Vasculhem e verão se não acham.
A retirada de toxicômanos das ruas do bairro foi realizada apenas e tão somente porque dois dias antes os comerciantes da área se rebelaram e tocaram fogo no meio da rua. Nada planejado, nada projetado, apenas uma resposta midiática. Por isso a senhora Vice Prefeita, que sequer sabe quantos pontos de atendimento a usuários de drogas existem na cidade, nem onde ficam, nem o que fazem, nem como funcionam, foi pega de surpresa. Por isso não havia qualquer estrutura para receber as pessoas. Por isso elas voltaram poucas horas depois para seus velhos pontos.
Quando entrevistaram os responsáveis pela ação insistiram no caráter organizado, “planejado”, “preparado” da retirada das pessoas. A mando de quem? A quem interessava isso? Estavam respondendo somente aos comerciantes locais? Duvido.
O fato inelutável é que mais do que em qualquer outra época da humanidade é necessário que cada ato seja acompanhado de uma infinidade de perguntas, até mesmo a compra de um pacote de biscoito. Isso é um inferno? Talvez não, talvez o termo tenha sido encontrado por Dom Peppino Diana: Gomorra.
E assim como o Bispo Romero, assassinado na Nicaragua por denunciar os abusos, Dom Diana foi fuzilado, mas jamais permitiu perder aquilo que não só no cristianismo, mas em muitos credos e culturas, é conhecido como “o dom profético da palavra”. A capacidade de usar a fala e a escrita para acusar, denunciar e buscar um mundo decente.
Dom, aliás, que transcende as religiões, como o mostrou Emile Zola ao escrever o famoso panfleto “J’acuse” onde denunciava a farsa do exército frances para incriminar Dreyfus, ou usado por Eduardo Alves da Costa quando escreveu “No caminho com Maiakovsky” do qual reproduzo um trecho:
“Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
Autor: indianasilva - Categoria(s): Sem categoria
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19/05/2009 - 07:06
Se eu atropelar uma vaca no meio da rua, em Mumbay, serei linchado publicamente? Quando chegar em casa sempre verei minha família, vestida com cores extravagantes, dançando no meio da sala? Realmente precisaria passar por longos rituais caso um “intocável” encostasse em mim? Tenho que tomar banho nas águas do sagrado Ganges (inclusive com restos de cabelo, pelos, cinzas de gente morta, excrementos e afins)?
Por essas e outras dúvidas, que afligem as incautas alminhas dos “telespectadores”, elaborei um rápido guia para as culturas indianas, um “Lonely Planet Televisivo” capaz de servir de primeiríssima aproximação com uma região realmente fantástica (as vezes até demais, inclusive para os autores de novelas). Mais do que um “verdades e mentiras” é um “princípios e recomendações” a respeito de algo que efetivamente é um universo em sí.
Anos atrás, quando decidi estudar um pouco sobre história e cultura indiana, meu primeiro choque – ou desestímulo – começou no primeiro parágrafo da primeira página do primeiro livro que peguei sobre o assunto (de um pesquisador alemão, os quais, aliás, devem ter algum “karma” relacionado a Índia dada a quantidade deles que estuda a região). O texto dizia literalmente que é impossível tratar a ”Índia” como algo único, homogêneo, logo não há a “Índia” senão como unidade política, como estado nacional. Culturalmente falando há milhares de Índias.
Dadas as provas cabais que o autor dava em seu livro dessa diversidade eu desisti de me tornar um especialista no assunto, me contentando em estudar coisas mais simples, há que diga que na Índia há tantos físicos e matemáticos porque era a coisa mais fácil a se estudar depois de desistir da história regional.
O fato é que a região na qual está a Índia atual (que pouco tem a ver com os antigos estados, impérios que existiram na região) é uma das mais antigas áreas de desenvolvimento da humanidade. Os livros sagrados para os hindus – o Mahabaratha, do qual faz parte o Baghavad Ghita, por exemplo – foram escritos muito antes da Bíblia, além de serem gigantescas narrativas de sagas que envolvem homens e deuses ao longo de gerações no mesmo enredo.
Mas, mesmo assim, essa cultura hindu era apenas uma das várias que existiam no sub-continente indiano. Sem haver uma religião centralizada – como no catolicismo - cada área desenvolveu características particulares, tal como entre os antigos gregos, ou entre os povos celticos. Deuses grandes e poderosos, como Brahma, Shiva e Vishnu, conviviam nos cultos locais com deuses absolutamente específicos (de um único rio, de uma única floresta).
Ao longo de milhares de anos a região passou por inúmeras organizações sociais distintas, mas raramente com grandes unidades, os famosos Marajás e Rajás eram lideranças políticas locais em determinada época, tal como os barões na Idade Média européia. Comandavam desde estados poderosos e maiores, até micro-reinos.
Milhares de grupos distintos se encontravam sob o domínio desses potentados locais, desde pessoas de pele escura até as bem brancas, passando por vários tons de acobreado, compondo etnias, tribos diversas.
Em algumas áreas, como na fronteira do atual Paquistão (a Caxemira) a influência do islamismo também tornou-se muito forte a partir do século VII a.D., quando levas de muçulmanos invadiram a Ásia Central e de lá se dispersaram até o extremo oriente. No norte da Índia, por outro lado, o florescente budismo (que nasceu do hinduísmo, alguns costumam comparar a revolução budista diante do hinduismo com a que o cristianismo teve em relação ao judaíismo) seguiu em direção ao norte e ao leste, chegando ao Tibet, ao Nepal, a China e ao Japão, para depois, praticamente, desaparecer da Índia.
Os preceitos a respeito das vacas sagradas, dos banhos rituais no Ganges, das superstições, dizem respeito apenas a uma parcela do povo do atual Índia (alguns mais, outros menos comuns). Da mesma forma o interior da Índia é composto de áreas ainda profundamente rurais, muito diferentes das grandes cidades como Calcutá, Nova Delhi e Mumbay, até mesmo no perfil de sua população.
Essa diversidade, e o domínio de grupos sobre outros, bem como a fundamentação no ancestral hinduismo (com sua crença na evolução do ser, vivendo no “samsara”, até chegar ao “nirvana”, que é o estado de integração absoluto com o cosmo, de interrupção do dharma, o ciclo de reencarnações ligadas a superação dos desejos e do sofrimento, geradas e carregadas pelo “karma”) acabou por produzir o sistema de “castas”. Diferentemente dos “grupos sociais”, como entre nós, a “casta” não pode ser superada ao longo da vida. Em sociedades como a nossa um cidadão pode nascer numa família pobre, mas, ao final da vida, ter se tornado rico ou até presidente da república. No hinduismo a casta é resultado do karma que o indivíduo carrega, e sua superação somente é possível com a morte sem novos acumulos de “dívidas” e a reencarnação numa existência melhor.
Quando o Império inglês sofreu a oposição final, a resistência contra o domínio colonial, depois da Segunda Guerra Mundial, liderada por Mohandas Gandhi, o Mahatma, o sistema de castas foi um dos grandes desafios para o estabelecimento de um país com povos hindus e não hindus. A grande massa muçulmana – que tem preceitos absolutamente diversos dos hindus – jamais aceitou a determinação de posições sociais a partir de uma determinação de nascimento. Além do mais questões relacionadas as leis também pesavam no relacionamento entre os grupos. O resultado foi que, após a independência da Índia, parte dos muçulmanos rompeu com o governo e criou em momentos distintos dois outros países de maioria islâmica: primeiro o Paquistão e depois Bangladesh.
Durante esse processo, de trocas de populações entre os países, milhares e milhares de pessoas morreram tentando atravessar as fronteiras. Vem desde aí as divergências entre a Índia e o Paquistão que até hoje aterorizam aquela região, com a ameaça de uma guerra nuclear regional.
Contudo, mesmo na Índia permanecem grupos que pertencem a credos distintos. No extremo norte do país, por exemplo, estabeleceu-se quase que um micro-Tibet depois que o Dalai Lama teve de fugir de Lhasa. Também após a Segunda Guerra Mundial a China decidiu anexar o Tibet, reinvindicando direitos milenares sobre aquela região. Durante anos o governo tibetano tentou resistir, mas no final da década de 1950, diante de uma iminente tentativa de eliminação do governo do Tibet o Dalai Lama e seu governo fugiram para o norte da Índia, estabelecendo-se na cidade de Daramsala. Um dos efeitos disso, hoje, é um renascimento do budismo no norte da Índia, depois de ter quase desaparecido da região.
Diversos filmes já retrataram a Índia e – é claro – cada um deles enfatizando uma região, um estrato social, uma época. Em “Passagem para a Índia” de David Lean, por exemplo, o foco era a relação entre uma população ilustrada local – na figura de um médico indiano – com a burocracia inglesa colonial, que via a Índia e seus povos como “bárbaros” ou quase, com o seres de outro planeta.
Em “Caminho das Índias” – apesar de haver personagens que encarnariam grupos diversos da Índia (uns mais credulos, outros conciliando a religião com a ciência)- a dimensão caricata da sociedade indiana é enfatizada. Acreditar que uma vaca é sagrada para nós pode ser tão engraçado, ou absurdo, quanto imaginar que um santo foi mergulhado em óleo fervente e saiu vivo, ou que pastilhas de farinha podem ser transformadas durante um rito em ”carne de um Deus” (nada contra nenhuma das crenças, mas o que é absurdo ou engraçado muda se invertemos o ponto de vista da questão).
Mas a novela, infelizmente, não propõe essa dimensão da questão e os indianos são constantemente colocados em situações no mínimo “curiosas”.
Vale lembrar que a primeira base de abastecimento e comércio de Portugal na Ásia foi nas Índias, em Goa, na virada do século XV para o XVI. Como a ocupação do Brasil se deu quase simultaneamente houve um transplante não desprezível de elementos, traços culturais, práticas de lá para cá. Nosso litoral, que tantos gostam com coqueirais, só foi possível graças a vindo do coco para cá, já que a flora da nossa costa tinha muita coisa, menos coqueiros.
Os temperos que passaram a visitar os pratos portugueses, e os doces também, vinham através da Índia (como a canela, o cravo, a pimenta do reino, a noz moscada, açafrão, cúrcuma, outras pimentas).
Esse visual que ocupa as telinhas de TV todas as noites é inspirada numa mania relativamente nova na Índia (pensando é claro numa civilização de mais de 5.000 anos) que são so filmes de Bollywood, os quais, nem precisamos ir muito longe, são uma mescla de elementos indianos do sul cosmopolita, principalmente, com traços da cultura estadosunidense.
O fato é que o que vemos não são as cultutas indianas, mas uma representação dela. A coisa é tão complexa que elementos que se imagina serem absolutamente indianos não são. Um caso clássico é o do famoso “curry”, o mais “indiano” dos temperos. Mas o “curry” não é indiano, e sim inglês. Depois de séculos de colonização (inciada e mantida naquilo que passou a ser conhecido como “Grande Jogo”, a disputa entre a Russia e Inglaterra pelo domínio da Ásia) a grande quantidade de funcionários da coroa britanica que voltavam para o seu país, saudosos da Índia criaram um tempero que mesclava elementos da colônia e tinham um “sabor de Índia”. O curry indiano nada tem a ver com aquele que se popularizou mundo a fora.
Para quem gosta de literatura, além do famoso Salman Rushdie (o qual encarnou bem esse enclave religioso da Índia moderna), de Tagore, de Aravind Adinga, recomendo a leitura de Rudyard Kipling, jornalista e escritor inglês que nasceu e viveu na Índia no começo do século XX. De Kipling são as obras primas “O livro da Selva” (que ficou mais conhecido pelo seu personagem principal, Mowgli), “Kim” (que descreve fantásticamente o ambiente do “Grande Jogo”), “O homem que queria ser rei” (que virou filme com Sean Connery no papel principal). Mas é necessário sempre ter cuidado: é a leitura de inglês sobre a Índia, e não a Índia como ela é, ou como os indianos a vêem.
No Rajastão dificilmente você veria pessoas em suas casas vestidas como nas novelas ou mesmo nos filmes de Bollywood, ou se comportando exatamente daquele jeito. É claro, trata-se de ficção, mas a “vida imita a arte” e sem dúvida muitos imaginarão daqui para diante que a Índia seja toda exatamente daquele jeito, tal como muitos, mundo a fora, ainda pensam que a capital do Brasil é Buenos Aires e falamos castelhano.
Comentário a alguns comentários:
Bom, em primeiro lugar posso indicar uma bibliografia extensa para quem quiser saber mais a respeito da Índia – aliás, muitos dos que reclamaram usam “Índia” no singular, justamente uma das coisas que disse ser equivocado. Para começar recomendo aos apressadinhos lerem “Cultura e Imperialismo ” de Edward Said, para terem um minimo de embasamento teórico a respeito da questão.
Mas mesmo assim o que a maioria quer saber é se eles se vestem assim ou assado, se fazem isso ou aquilo. Para isso existem almanaques e outros textos. O comentário, como em geral faço, tem como objetivo esclarecer alguns procedimentos da industria do divertimento e até mesmo da mídia em geral em homogeneizar, simplificar e caricaturizar as culturas, os países, os grupos sociais. Por isso disse que, na verdade, era um texto de “princípios e orientações”, mas, muitos só lêem o que querem ler. Mesmo assim foi uma brincadeira. Como historiador da Universidade de São Paulo - isso é para o cidadão que me mandou voltar para a escola (aliás, no que você é formado???) – devo dizer que qualquer item minusculo dessa história poderia render uma vida de estudo. Uma colega de universidade, por exemplo, passou anos de estudo, em seu doutorado, pesquisando a influência que a arte helenistica, trazida com o exército de Alexandre o Grande, deixou na arte budista, sobretudo nas representações de Buda (aliás, “um” dos Budas, ou uma das “manifestações” de Buda).
Não é uma crítica a Globo nem a quem quer que seja, apesar de não gostar de como Gloria Perez encaminha as narrativas dela e de como ela representa as culturas diferentes. Depois ficamos ofendidos quando num filme dos EUA as praias do Rio de Janeiro aparecem com macacos andando na areia e as pessoas falando espanhol.
Creio que boa parte das pessoas que ficaram irritadas devem ser telespectadores assiduos e gostariam que eu simplesmente ficasse dizendo porque a vaca é sagrada, porque os hindus queimam seus mortos ou porque se lavam no Ganges. Até poderia fazer isso, mas não é a proposta de um blog, e, sobretudo, do meu blog. Mas, volto a dizer, para os que quiserem posso indicar uma bibliografia. Infelizmente a parte substancial dela terão de ler em bibliotecas das Universidades públicas de São Paulo, pois são textos que não circulam, ou edições estrangeiras (em francês, inglês, espanhol, italiano ou alemão).
Uma coisa que me choca efetivamente é o fato de porque alguém não gostou de um texto - ou porque não atendeu suas expectativas – simplesmente dterminar que quem escreveu não sabe do que está falando. Oras, isso é uma arrogância típica do brasileiro, típica de quem despreza o conhecimento, o estudo, e que valoriza toda sorte de palpiteiros. Sinceramente isso raramente ocorre com povos que valorizam mais o estudo. Infelizmente, as vezes, temos que chamar as pessoas para um “tête a tête”, já que está acusando, tem que provar. Inclusive sempre coloquei para estes que escrevem comentários mais “ácidos” (na realidade mal educados, a acidez é um recurso retórico que exige mais refinamento e conteudo) a possibilidade de enviarem um texto com a mesma dimensão, adequado para a linguagem de internet. Publicaria o texto e o submeteria ao crivo de leitores variados do blog bem como de “especialistas” no tema.
Em geral ninguém topa.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Sem categoria
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13/02/2009 - 00:13
Cara (o) amiga (o), está chocado com a afirmativa que encabeça este texto? Das duas uma: espero que esteja revoltado e refute radicalmente a idéia, mas tomando posturas que efetivamente demonstrem, na prática, que é uma pessoa livre de tais males. Dois: se esta revoltado porque acha a afirmativa injusta e jamais identificou nenhuma atitude prteconceituosa e racista no Brasil então é hora de fazer uma reflexão mais profunda.
Estava lendo agora pouco um texto que o companheiro de IG, Luiz Nassif, postou em sua página, remetido a ele por um de seus leitores. O leitor pregava cautela, muita cautela, mas muita, muita, muita cautela ao investigar o caso da brasileira agredida na Suiça (que ele confunde com Suécia, apesar de dizer que mora na Alemanha!!). De acordo com ele é normal mulheres grávidas passarem por distúrbios emocionais, o que poderia ter levado a moça a se auto flagelar, se bater e provocar o aborto das crianças.
Este caro leitor está voltando da Idade Média a pé. Lá, nos tempos da Inquisição, era comum e razoavelmente aceito que o testemunho de uma mulher valesse metade do testemunho de um homem (até porque elas, oras bolas, foram feitas de uma reles costela). Como diria um amigo meu, em tom de galhofa: Quietas suas costelas!
O fato é que não há nada de engraçado nisso e sinceramente me embrulhou o estômago o comentário do leitor.
Recorrentemente as mulheres eram acusadas de feitiçaria, bruxaria, e em grande parte das vezes essas acusações vinham acompanhadas de conteudo sexual. Ou seja, acusavam-nas de práticas demoniacas associadas a sua sexualidade. Mulheres que se relacionavam com demônios, que enfeitiçavam os homens, que faziam horrores com seus poderes vitais.
O cristianismo medieval catalizou a pior parcela de muitas tradições culturais para criar uma sociedade sexista na qual a mulher podia ser vítima de quase tudo e sua sexualidade era constantemente vítima de mutilação e perseguição.
O comentário postado na página de Nassif é de caráter medieval ao associar a desconfiança da veracidade do caso à “disturbios emocionais” causados pela gravidez da moça. Antes da criação da psicanálise milhares de mulheres eram submetidas a tratamentos horrendos, com choques elétricos, banhos frios, confinamentos, lobotomias, por serem diagnosticadas como “histéricas”, doença que atribuiam aos “furores sexuais”.
Não bastasse um leitor se posicionar deste modo outros tantos vieram no seu encalço, reforçando suas iguais desconfianças. Todos homens. Coincidência ou preconceito? Porque não perguntamos às mulheres se elas quando ficam gravidas tem desejos de se mutilar, tacar a cabeça na parede, se bater até abortar?
Tratando do racismo, Florestan Fernandes costumava dizer que o brasileiro “tem preconceito de ter preconceito”, ou seja, não só é preconceituoso como é incapaz de reconhecer isso (o que seria um primeiro passo rumo a redenção).
No texto anterior expus o quanto o conceito de “barbárie” é socialmente construído e o quanto ele comporta dois pesos e duas medidas. Parece-me que minha insinuação estava correta no que diz respeito ao nosso “auto-engano”, a nossa tendência em concordar com acertivas absurdas, somente porque aprendemos há muito que “povos civilizados” não fazem certas coisas.
Dois comentários de leitores, tão medievais em suas mentalidades quanto o autor do texto: um deles dizia que a imprensa brasileira esta superestimando o caso pois precisa desviar o foco da crise econômica. O outro dizia que há mais nazistas no Brasil do que lá, e que aqui sim seria perigoso alguém ser vítima de tal agressão.
Pasmem!!
Pode ser que a história seja inventada. Sim, pode. Tudo é possível nesse mundo, mas, havemos de concordar que não é digno de uma polícia duvidar do testemunho de alguém que sofreu tal violência, e ainda destratar a representante diplomática do Brasil. Mas, para esses leitores, isso seria normal se tivesse ocorrido no Rio de Janeiro, não na Suiça.
Alguns alegavam que o Brasil anda “criando problemas” com países amigos, com os quais mantemos boas relações, tal como a Itália. Será que a memória de alguns é tão curta a ponto de não se lembrar do descaso da Suiça e da Itália em todos, todos os casos de pedido de investigação de lavagem de dinheiro sujo, evasão de divisas, acobertamento do crime organizado, da corrupção?
Será que as pessoas não se lembram que a Suiça se manteve neutralmente guardando dinheiro nazista e estadosunidense ao mesmo tempo? Isso é ético? Mas, não falamos, afinal os suiços são “civilizados”, tais coisas não ocorrem por lá, num dos maiores paraísos de dinheiro sujo do planeta.
Ok, ok, são problemas diferentes, falávamos de um caso de agressão. Então porque mencionaram crises econômicas e a posição do Itamaraty?
O pior de tudo é que o brasileiro – como categoria, genérico mesmo – tem preconceito com negros, nordestinos, pobres, mulheres e, o que é esquizofrênico, temos preconceito de nós mesmos, a ponto de atribuir o direito a dúvida ao outro, mesmo quando somos as vítimas. Em qualquer situação civilizada a vítima é vítima até que se prove o contrário – para isso existe a polícia e a justiça -, mas, quando é um caso que envolve brasileiros e estrangeiros o brasileiro é “vítima suspeita” até que seja irrefutável a culpa do outro. Não esqueçamos o caso Jean Charles ou vamos dizer que a polícia londrina foi correta no caso e na apuração das responsabilidades?
O fato é que a moça agredida além de ter sido agredida cometeu dois crimes ao nascer: nascer brasileira e nascer mulher. E desses crimes alguns brasileiros (da Santa Inquisição?) não a absolvem.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, Sem categoria
Tags: Agressão, Direitos Humanos, Neo-nazismo, Preconceito, Racismo, Suiça
02/02/2009 - 11:11
Ontem o domingo foi daqueles dias que, se soubéssemos, deveríamos ficar na cama para ver se ele começa diferente, ou se ele desaparece. Mas, como a vida é feita de doces e amargos…
Acordei e fui ao computador, como em geral faço quase todos os dias. Abro o e-mail e recebo a mensagem, recém enviada, do falecimento de um velho amigo.
Angelo Paulo Loli foi chefe escoteiro quando eu era moleque e devo dizer que quando tinha lá meus 14 ou 15 anos eu o achava um mala. Coisas de adolescente. Pelo contrário, Loli sempre simpatizou comigo, gratuitamente creio.
Loli era uma criatura curiosa, já havia pertencido a uma montanha de grupos escoteiros do ABC Paulista, sempre mudava e sempre era bem vindo. Nunca ouvi dizer de uma briga que tivesse tido com alguém. Mas, sujeito de princípios, sempre que alguma coisa lhe cheirava mal pegava seu boné e ia cantar em outra freguesia.
Além do mais era um formador. Lembro desde sempre dele dando cursos de formação para outros educadores escoteiros. Tinha uma brincadeira que fazia todo santo curso: saia da sala e voltava com o crachá invertido para testar a atenção dos cursantes. De tão batido o recurso perdeu eficácia e virou piada, quase uma lenda. Mas ninguém se importava em verdade.
Quando entrei na faculdade sai do escotismo e deixei de ver a quase todos, inclusive o Loli. Mas, certo dia, quando estava na biblioteca da história na USP (quando a biblioteca de história e geografia ainda era separada das demais humanidades), dou de cara com Loli sentado a um computador e com uma pilha de livros de pinturas rupestres ao lado.
Somente então fui descobrir uma das paixões do velho Loli: as pinturas rupestres e os povos indígenas brasileiros. Paixão que levou até seus últimos dias.
Depois disso fiquei um novo bom tempo sem vê-lo. O reecontrei numa padaria do bairro onde moro e que fica mais ou menos na “fronteira” com aquele onde morava. Batiamos papo e, curiosamente, com o passar dos anos as afinidades cresceram absurdamente. Pelo fato de eu estudar história e ele ser um pesquisador diletante havia muito o que falar.
Quando ele descobriu que eu havia ido trabalhar na arqueologia e estava em contato direto com povos indígenas mal se contia de felicidade. Toda vez que me encontrava, as vezes visitando o velho grupo escoteiro, fazia questão de fazer propaganda minha para quem quer que estivesse conversando. Chamava a molecada do grupo e me apresentava, contava histórias.
Certo dia marcamos um café aqui em casa. Veio e me trouxe de presente uma escultura em madeira, uma réplica de um Moai (as estátuas monumentais da Ilha de Páscoa), perfeita. Dei de presente a ele uma mexedor de beiju feito pelos mehinaku do Xingú em forma de pássaro. Ficamos conversando durante horas.
Na hora de ir embora disse que havia aprendido muito, que hoje a situação havia se invertido e eu me tornara mestre dele. Orgulho e vergonha, o primeiro pelo elogio, o segundo por não me achar efetivamente merecedor dele. Disse que estava feliz. Nos despedimos e foi a última vez que estive com Loli.
Marcamos, através de recados, de nos encontrar novamente. Não deu certo.
Ontem recebi a notícia e bateu um banzo forte, um cansaço mesmo. Da perda de um amigo que acreditava na natureza, nas boas ações humanas e no respeito ao passado e aos diferentes.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Sem categoria
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27/01/2009 - 09:39
Uma das coisas que acho mais bacanas são as histórias das comidas. Não somente a história da alimentação, mas das comidas mesmo, dos pratos.
Estudei durante dois anos história da alimentação e quase me especializei nessa área, mas, por mudanças inesperadas de rumo, fui parar no estudo da cidade de São Paulo. A história da alimentação se preocupa com os hábitos alimentares ao longo do tempo, os cardápios, as dietas, as tabelas nutricionais, as mentalidades em torno do alimento e dos hábitos de produção, consumo e descarte dos produtos. É uma área fascinante, que nos leva ao que Hegel dizia ser um dos “porões da humanidade”.
A história das comidas é apenas uma parte da vasta história da alimentação, mas tão reveladora quanto. Nos pratos que consumimos está todo o universo social, cultural, econômico, tecnológico que compõe nosso mundo.
Quem nunca ouviu a história de como nasceu a feijoada? Comida de sezala, feita com feijão e restos não aproveitados pelas Casas Grandes: tripas, cabeças, orelhas, rabos, pés. Com o tempo o prato – um dos famosos pratos de “uma panela só”, como a paella, como o putchero, a cassoulet, a bouillabaisse, o yakissoba – foi promovido às mesas dos senhores, com acompanhamentos requintados e carnes nobres, costelas, lombos, carnes secas, linguiças.
Mas existem casos curiosíssimos que poucos conhecem. O famoso carpaccio, por exemplo, recebeu esse nome por um motivo insuspeito. Em Veneza havia uma senhora para a qual seu médico havia receitado o consumo de carne crua, devido a problemas gástricos. Mas comer carne crua, crua mesmo é praticamente um tabu nas culturas. Os pratos de carne crua jamais são “exatamente” cruas. Seja o kibe cru, o steak tartar, os sashimis, todos eles exigem preparações tão complexas, cortes tão especiais e precisos que não podem ser considerados “carne crua”. Então, a tal senhora procurou um de seus restaurantes prediletos em Veneza e descreveu seu problema para o dono.
No dia seguinte ele apareceu com uma receita que envolvia finas lâminas de carne sem nenhuma gordura e super macias cobertas de molho forte, para contrastar e “cozinhar” a carne sem fogo. O vermelho da carne era tão intenso e brilhante que decidiu batizar o prato com o nome de um famoso pintor veneziano, celébre pelos tons vermelhos de seus quadros, Vittore Carpaccio (1460 – 1525/1526).
Há também casos curiosos como o da atribuição a alguns piratas do nome de “bucaneiros”. Eles eram assim denominados por acamparem nas praias e cozinharem em fogões rúticos no chão, chamados de “boucan”, sobre os quais colocavam uma grelha de gravetos. Sobre essas grelhas colocavam partes de caça ou peixe para cozinharem rusticamente.
Acontece que “boucan” é um termo que vem de outro parte do mundo, na qual os franceses haviam aprendido a cozinhar dessa forma. Quem conhece um pouco da culinária indígena no Brasil reconhece bem este tipo de fogão e de técnica de cozimento, o famoso…”moquém”. Os franceses, que perambularam por estas bandas nos séculos XVI e XVII aprenderam com nossos indígenas a cozinhas no chão e adotaram a corruptela “boucan” para o moquém.
No caso das bebidas as histórias são tão deliciosas quanto as das comidas. Uma das que adoro é a da criação do drink “Side car”. feito com conhaque ou brandy, Cointreau e suco de limão. Reza a lenda que num famoso bar de Paris estava o bartender preparando seus coqueteis quando, de repente, uma motocicleta desgovernada entrou pela vidraça que dava para a rua. Inspirado pela cena inusitada misturou os ingrediente que tinha a mão e batizou com o nome do carrinho de passageiros que acompanhava as motocicletas, “Side Car”.
Recomendações de livros saborosos sobre o tema: História da alimentação no Brasil de Câmara Cascudo, Açúcar de Gilberto Freire, Comida de Felipe Fernandez Armesto, Veneza de Fernanda de Camargo Moro. E bom apetite.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Sem categoria
Tags: Alimentação, Bucaneiros, Carpaccio, Feijoada, História
19/01/2009 - 21:17
Dia 25 de janeiro, dia da conversão do apóstolo do “gentio”, Paulo de Tarso, tornou-se o dia da festa de aniversário da cidade de São Paulo, batizada em sua homenagem, uma cidade que – por acidente do destino – se tornou megalópole que faz jus ao seu padroeiro: uma cidade de estrangeiros.
Já escrevi inúmeras vezes aqui a repeito de Sampa (até porque é a minha humilde especialização acadêmica), então sempre fico me perguntando: O que de novo vou conseguir escrever a respeito de São Paulo em poucos parágrafos?
Pergunta um tanto besta, pois se há um lugar onde sempre há algo a se dizer – bem ou mal – é São Paulo.
Esses dias fui assistir Rebobine por favor, filme mais recente de Michel Gondry. No filme há uma frase – dita por Mya Farrow – que é lapidar e que chamou atenção minha e de meu amigo historiador que me acompanhava: “O passado nos pertence, podemos mudá-lo como quisermos.”
Verdade maior, como diria Guimarães Rosa. E o caso de São Paulo é absolutamente esclarecedor.
Surgida de um conjunto de assentamentos indígenas e de um Colégio Jesuítico implantado no começo de 1554, a vila de São Paulo de Piratininga (que só ganhou essa condição anos depois, com a anexação da população vinda de Santo André da Borda do Campo, abandonada após o grande conflito indígena que assolou o planalto de Piratininga naquela década) era um assentamento que possuia mais valor simbólico do que econômico para a Coroa Portuguesa.
Sua população se manteve absolutamente diminuta durante séculos - comparando, é claro, com as cidades litorâneas do período colonial, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
Basta lembrar que durante um bom tempo a Capitania chamara-se de São Vicente e não de São Paulo, nome que mudou quando a possessão voltou às mãos da Coroa Portuguesa.
Com o passar dos séculos São Paulo granjeou poder estratégico nos negócios da colônia, seja como bastião de defesa dos limites do sul – sempre ameaçados por espanhóis -, seja pelas descobertas de ouro, pelo fornecimento de mão de obra indígena ou, em tempos mais recentes, como grande entroncamento de rotas de comércio. Mas, até o final do século XIX jamais fora uma “grande cidade” em termos de espaço e demografia. Nem fora uma cidade opulenta, com ouro saltando dos altares como na Bahia ou nas Minas Gerais.
Entretanto, como a personagem do filme de Gondry, escritores paulistas trataram de tomar conta do passado e adaptá-lo ao seu bel prazer. Com isso criou-se toda uma mitologia a respeito do passado de São Paulo, o qual passou a ser heróico e, ao mesmo tempo, como um prenúncio, um presságio de um futuro glorioso que lhe esperava no século XX.
Quando a cidade fez 450 anos lembro-me de uma revista que trouxe estampada na capa a notícia: “O século paulista”. Muito sintomático dessa interpretação. Como se a cidade tivesse brotado como um cogumelo após as chuvas, lá pelo final do século XIX.
O fato é que a cidade vinha se armando desde o final do século XVIII, quando saída de uma crise violenta – a qual chegou a levar a extinção administrativa da Capitania de São Paulo em 1748 – começou a se reorganizar sobre uma nova economia eminentemente mercantil, comercial. O ouro que faltava nos altares das igrejas de São Paulo, e que levou muitos historiadores a interpretarem a cidade como “pobre”, estava sendo investido, guardado, emprestado, gerando condições materiais que possibilitaram o salto econômico entre o século XIX e XX.
A cidade não ganhou na loteria, como muitos entenderam, mas fez sua caderneta de poupança secular. São Paulo há séculos vinha se tonando uma investidora conservadora nos gastos supérfluos, o que permitia o uso dos excedentes em novos negócios.
E raramente se comportou como um núcleo preconceituoso – claro, racismo e preconceito existem em todos os lugares e contextos -. A cidade assimilou rapidamente os grupos de estrangeitos ou de brasileiros de outras regiões. Mesmo o ranço dos famílias das elites paulistas, que no começo do século XX ainda ficavam propalando sua história “quatrocentona” (alegando que suas famílias estavam na cidade desde a época de sua fundação), não chegou a comprometer o conjunto da sociedade paulista.
Os pensadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – o IHGSP – entre o final do século XIX e começo do XX fizeram um esforço fenomenal pra moldar a história de São Paulo aos desejos dos vivos, aos desejos das elites paulistanas ansiosas por justificar a grandeza do estado e da cidade e a dívida que a nação tinha para com eles.
Por isso uma professora minha costumava dizer que na USP não ensinávamos a história de São Paulo pois todas as disciplinas lá eram uma espécie de “história de São Paulo”. De fato a leitura corrente ainda hoje da independência do Brasil é uma interpretação “paulista” dos fatos, a qual coloca os politicos e as elites de cá em situação de protagonismo absoluto.
Seja como for, ainda creio que São Paulo se tornou uma cidade generosa que ao invés de insistir no que é “tradicionalmente paulista” criou uma interpretação pelo avesso: tudo o que está em São Paulo é a cara de São Paulo. É uma identidade que se define pela pluralidade e pela “antropofagia”, como queriam os modernistas de 22, não pela exclusão.
Por isso a escolha de São Paulo – apóstolo de “estrangeiros”, a definição de “gentio” - foi curiosamente adequada a cidade.
Com seus 455 anos de existência a cidade continua jovem e com uma incrível capacidade de se amoldar a novos desafios, a novas situações, é um incrível caso de regeneração.
Obviamente que é uma cidade que carrega seus milhões de problemas e desafios – e muitas promessas não cumpridas por sucessivos prefeitos e governadores -.
Por fim, segue a maravilhosa letra da canção São Paulo, São Paulo do Premeditando o Breque (Premê para os íntimos) que mostra exatamente esse apreço pelo incongruente, pela dissonância, pelo paradoxo, pela ironia que é a cidade de São Paulo, enternamente dividida entre o amor e o ódio de todos.
É sempre lindo andar na cidade de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São PauloNa grande cidade me realizar
Morando num BNH.
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo
Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo
E pra você criança muita diversão e poluição
Tomar um banho no Tietê ou ver TV.
Na grande cidade me realizar
Morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali
Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi
Pari,
Butantã, Utinga, Embu e Imirim, Brás, Brás, Belém
Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo
Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé
Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo
Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro
Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo
Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá.
Na grande cidade me realizar morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia
Na periferia a fábrica escurece o dia
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Sem categoria
Tags: 455 anos, Aniversário, Cidade, História, São Paulo
11/01/2009 - 21:03
Um leitor escreveu dias atrás que minha análise a respeito da formação do racismo e da xenofobia era inconsistente, blá, blá, blá. Que no caso palestino isso deveria ser avaliado de outro modo e blá, blá, blá. Que racista era minha atitude em relação aos israelenses (!!!!!), e blá, blá, blá.
De certa forma, quem escreve ou se manifesta publicamente está sujeito a ser alvo de toda ordem de crítica e de “falar mal”. Outro dia vi um leitor dizendo que o Alberto Dines era desinformado, mal intencionado, sei lá mais o quê. Dines!!! Um dos maiores jornalistas vivos do Brasil. O amigo Ricardo Kotscho, também daqui do IG, constantemente se vê diante dos chamados “cachorros loucos”, gente que entra nos blogs e só falta escrever: Só não te mato porque não posso!
Quando entrei no curso de história, há muitos anos, um professor peruano visitante, Rodrigo Montoya (o maior especialista vivo em cultura incaica), da Universidad San Marco de Lima, pediu para que nós alunos de primeiro semestre escrevessemos uma “crítica” sobre um texto que nos indicou. Apavorado fui conversar com nossa professora de metodologia, Ana Maria Camargo (outra sumidade em arquivística), e perguntei: Professora, o que é uma crítica?
Ela me olhou, por cima das lentes do óculos, como sempre fazia, e disse: Só posso lhe dizer que criticar é diferente de falar mal!
Parece vago, mas é, em sua essência, exato o comentário de Ana Maria Camargo.
Anos depois, lendo o livro de outro professor meu (brilhante), Nicolau Sevcenko, encontrei uma belíssima esplanação semântica da palavra “crítica”: vem do grego, da palavra krinein, que significa “fazer juizo”, “ajuizar”, dela veio a palavra “cernere”, do latim, que quer dizer exatamente a mesma coisa, dai o verbo “discernir”.
Quando numa sociedade há ausência de “crítica” a mesma entra em “crise” (do mesmo radical grego, ou seja, a ausência de discernimento, de ajuizamento).
Outro, antes de Sevcenko, que discorreu longamente a respeito disso, e no qual ele bebeu, foi Reinhart Koselleck.
De qualquer modo, o que as pessoas – em sua maioria – estão acostumadas a fazer é falar mal, não a criticar. E nisso incluo alguns “articulistas” que se tornaram comentadores em épocas nas quais qualquer um que tivesse tempo livre poderia se tornar um jornalista, historiador, sociologo. Isso mudou em grande medida, mas ainda há resquícios.
Um dos problemas que envolve essa questão toda é a confusão que as pessoas fazem entre isenção e ausência de opinião, ou melhor, entre isenção e ética. Ninguém é isento, mas as pessoas devem ser éticas.
Ninguém pode fugir à sua própria história, formação, origens, influências, mas ser desonesto é outra coisa.
No caso do conflito entre israelenses e palestinos isso é fermento para o pão.
As pessoas em grande maioria só conseguem pensar: Bom, se ele está criticando as ações do Estado de Israel neste caso, logo ele é antissemita, racista, xenófobo. Quer a destruição de Israel.
Ou o contrário: Se está expondo as razões de Israel ele é contra os palestinos, é sionista, radical.
É difícil entender que a crítica – e não o falar mal – é pontual: Está se criticando a ação do exército israelense no tratamento da questão palestina, na Faixa de Gaza, nesta ocasião. Não está se atacando o Estado como um todo, todos seus cidadãos, os judeus, a religião judaica ou seja lá o que for.
Mas essa falta de compreesão de alguns leva a uma dicotomia que é absolutamente falsa e cria o que Cacá Diegues chamou há décadas de “patrulhas ideológicas”.
Ou seja, não se pode criticar ações do exército israelense que logo você é antissemita, não se pode criticar ações do Movimento Negro que logo você é racista, não se pode criticar ações de do PSDB que você é petista, ou o inverso.
A verdade é que o “livre pensamento”, a “crítica” é incomoda, pois é mais fácil falar mal e simplesmente tentar desqualificar algo ao estilo Oswald de Andrade: Não vi e não gostei.
Mas ainda há uma outra dimensão do problema.
Já comentei a respeito disso em outras ocasiões, mas vou retomar o assunto. Quando você fica doente do coração consulta um cardiologista e não um funileiro. Então porque pessoas que jamais chegaram perto de um texto de história se sentem no direito de desqualificar o trabalho e as idéias de quem o fez e faz há anos?
Ok, uma sociedade livre implica em que qualquer pessoa tenha o direito de criticar as ideias do outro, mas tentar indicar “supostos erros” sem ter absolutamente nada em mãos (a não ser outros textos que selecionadamente lhe respaldam, em geral tão ruins quanto) não é criticar, é somente falar mal.
O debate aberto é fundamental para sociedades democráticas, mas isso implica em que os debatedores usem ferramentas iguais, estejam igualmente expostos. Não se pode colocar pesos diferentes para competir nas mesmas categorias.
Além do mais há uma outra deformação da questão: debater as idéias não significa querer destruir quem tem uma opinião diversa da minha. Assim ensinavam os iluministas, mas muitos preferem dizer que você é um verme, simplesmente porque sua interpretação do tema (a qual é respaldada em anos de estudo, aliás) é contrária à ideologia do outro.
No final, o exercício da convivência democrática é dificultada, muito porque se confunde a liberdade de expressão e franqueza no debate com um “vale tudo do palavrório” no qual as pessoas entram com habilidades diferentes, armas diferentes e se pegam no ringue até que alguém jogue a toalha.
Sempre que surge aqui esse tipo de crítica adoto uma postura que imagino ser democrática e justa: Um debate embasado, com indicação de fontes, de leituras, com análise crítica dos autores nos quais cada um se sustenta.
Afinal de contas, não é porque Hitler escreveu “Minha luta” que as idéias que estão ali sejam razoáveis e as informações verdadeiras.
Para saber o que é uma coisa e outra é necessário estudo, reflexão e respeito, moedas em falta no mercado, infelizmente.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, Imprensa, Sem categoria
Tags: Crítica, História, Imprensa, Jornalismo
04/01/2009 - 11:59
Certa vez, um jornalista estadosunidense que cobrira as sucessivas guerras no Oriente Médio durante 20 anos definiu a situação da seguinte forma:
“Nas últimas décadas iraquianos guerrearam com iranianos, sírios contra libaneses, xiitas contra sunitas, turcos e iraquianos contra curdos, e todos contra Israel.”
Noutra ocasião o mesmo jornalista disse que a única coisa na qual os árabes concordaram foi em jamais concordar entre si.
Mais uma vez a situação se repete no Oriente Médio, e cada personagem encenando o papel que se espera dele.
Israel, um Estado Nacional legítimo, chancelado pela grande maioria das nações do globo, se defende de atos de provocação, mas com força desmedida e com o apoio inconsequente e irresponsável dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos incentivam veladamente Israel, garantindo que, com a eterna incerteza entre árabes e israelenses, mantenha seus fiapos de poder na região, pois aparecem sempre como os “mediadores”, aqueles que sustentam um mínimo de civilidade na região. Situação, ao menos essa, que vem mudando, com o descarte dos EUA, mas sem avanços de paz ou civilidade.
Boa parte das nações árabes indignadas com o massacre de população civil, mas sem qualquer disposição em apoiar movimentos como o Hamas (os quais ameaçam os próprios governos de países como o Egito, a Turquia, a Jordânia).
Os militantes do Hamas, e de outros movimentos extremistas, dizendo que os israelenses mergulharão numa longa noite, bravatas de quem só tem a retórica como armamento de defesa.
Os europeus um pouco mais isentos, mas sem peito para enfrentar o apoio estadosunidense à Israel, da mesma forma que a Rússia e a China, os quais tem eles próprios problemas com extremistas (como no caso dos chechenos) em seus territórios.
O governo de Israel tendo de aguentar um bando de extremistas sionistas, os quais querem dialogar tanto quanto o próprio Hamas, e tendo ainda que bombardear para que, não perdendo a eleição, a situação piore ainda mais.
Ou seja, todos na mesma situação há décadas.
Quer dizer, com uma única mudança: os extremistas vem ganhando mais força a cada ano, e o massacre de civis somente joga mais fermento no pão.
Mas, no fim, no fim mesmo, a comunidade internacional, a ONU e os EUA são efetivamente os responsáveis pela desgraça toda, posto que os acordos firmados depois do final da II Guerra Mundial, que previam a criação de dois estados, um judeu e outro palestino, no Oriente Médio, só foi cumprido em sua parcela israelense.
É claro que os arábes não deram apoio aos palestinos como a comunidade judaica deu a Israel, e isso também deve ser colocado na conta das responsabilidades.
E, até que me provem o contrário, muitos israelenses e palestinos, estadusunidenses, gente do mundo todo, continua trabalhando na lógica do quanto pior para eles, melhor para nós.
A sorte, ou azar, das populações do Oriente Médio, é que estão no meio do mundo, entre a África, a Europa e a Ásia, e tem muito petróleo, pois se fosse um continente como a Oceania ou a África, europeus e estadusunidenses já teriam emparedado-os e os deixado a própria sorte, o qua talvez solucionasse o problema. Ou não é isso que as potências têm feito com a África?
Em verdade as potências mundiais só estão preocupadas com os ítens que lhes afetam: oferta de petróleo, ameaça a segurança interna por conta de comunidades judaicas e imigrantes islâmicos. Ponto final.
O resto, balas, bombas e destruição, que fique para israelenses e palestinos.
E isso também é assim há décadas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, Sem categoria
Tags: Faixa de Gaza, Guerra, Israel, Palestina
10/12/2008 - 20:25
Lembrava hoje que, há dez anos, comemorávamos na USP os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e é curioso como na ocasião tudo me parecia mais simples do que hoje.
A carta da declaração foi composta num esforço diplomático único, ainda na esteira do choque da II Guerra Mundial, dos horrores do nazismo – não só dele, mas principalmente -, e da criação da Organização das Nações Unidas (a qual substituiu a falida Liga das Nações).
Reza a lenda que o representante brasileiro na redação da carta – Austregésilo de Athayde, acadêmico falecido da ABL – era dos mais radicais na defesa da expansão dos direitos humanos, mas, no conjunto, acabaram por optar por uma versão menos libertária do documento.
Em verdade a idéia de “Direitos Humanos” vinha sendo gestada há séculos por filósofos e juristas e deve muito ao chamado “direito natural”, ou seja, aqueles direitos que os homens recebem imediatamente ao nascer e, portanto, são direitos inalienáveis.
Um dos aspectos mais complexos da declaração é justamente o do direito a vida, o qual é negado – por exemplo – a executores de certos crimes em países como os Estados Unidos, Somália, Arábia Saudita, China.
O filósofo francês Michel Foucault descreve em seu livro Vigiar e punir a execução na Idade Média francesa da pena de morte de um jovem acusado de matar o próprio pai (crime de parricídio).
O jovem foi amarrado a um tronco em frente a uma igreja, numa das mãos estava atada a faca com a qual cometera o crime. Com tenazes arrancaram os mamilos do jovem. Jogaram chumbo derretido nos buracos feitos pelas tenazes. Sobre as mãos despejaram alcatrão incandescente.
Depois amarraram cada membro de seu corpo num cavalo e estes foram incitados a sair em disparada estraçalhando o indivíduo. Como o tempo estava chuvoso, os cavalos derraparam não arrancando plenamente os membros. O carrasco então se dirigiu ao jovem e com uma faca ajudou a cortar as juntas.
Ainda vivo – surpreendentemente – o jovem foi jogado numa fogueira e, finalmente, morreu.
Isso ocorreu antes que juristas, como Césare Beccaria (já na Idade Moderna), publicassem textos condenando a pena de morte e denunciando sua injustiça e ineficácia. Enquanto a pena de morte é um ato de vingança e de educação pelo medo outras penas são “disciplinadoras” e educam pelo exemplo.
Na constituição da Declaração Universal dos Direitos Humanos – filha tardia da Declaração dos Direitos do Homem – são ainda esses princípios que regem a carta. Foucault – nos anos de 1960, 1970 – ainda diria: Toda morte é um assassinato.
Outro aspecto que tornou-se um complicador para a implantação da carta dos direitos humanos é o fato de haver no mundo culturas absolutamente distintas, as quais os ocidentais de formação judaico-cristã temos dificuldade as vezes em entender e aceitar.
Alguns dos povos indígenas com os quais trabalhei tem ainda o hábito de matar as crianças que nascem com defeitos físicos graves. Para nós isso parece um horror, mas para eles, que tem que migrar constantemente, numa comunidade na qual todos tem que colaborar, faz sentido tal medida.
Em alguns países islâmicos – principalmente na África – a lapidação (morte por apedrejamento) de mulheres por “crimes” contra a moral faz parte dos códigos penais dos Estados (baseados na sharia, a lei islâmica). Muitos de nós acha isso bárbaro.
Nos Estados Unidos a pena de morte leve anualmente centenas de pessoas aos corredores de extermínio, em sua grande maioria negros e latinos, e eu acho isso uma barbárie, mas está inserido no código cultural de vários estados daquele país.
A Declaração dos Direitos Humanos foi um avanço gigantesco, pois norteou o comportamento de vários órgãos internacionais e se tornou mais um instrumento na defesa da vida e da dignidade humana, porém é patente que num mundo no qual há Guantánamo, os presídios brasileiros, os tribunais chineses, as lapidações em países africanos, ainda temos um longo caminho a percorrer.
Isso sem falar nos atos indiretos, como invasões militares, bloqueios, sanções econômicas, embargos, que não ferem diretamente a Declaração, mas criam situações e conjunturas que lesam sim os direitos previstos na carta.
Em suma, há que se comemorar pelos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, porém há muito mais que se refletir e investir para que tendo um mundo mais justo não seja necessário haver mais uma declaração que preveja o direito humano a dignidade e a vida, algo que, sendo obvio não seria mais lembrado.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, Sem categoria
Tags: Direitos Humanos, História contemporânea
01/12/2008 - 19:48

Feliz Natal…
Por enquanto, ao menos até o dia 25, é o nome de um filme fantástico, um dos mais belos que vi nos últimos tempos.
Em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial colocando em lados opostos austríacos e alemães de um lado, ingleses e franceses de outro. Mesmo com ingleses e franceses sendo adversários históricos, curiosamente, nas duas guerra mundiais (ou na Grande Guerra – 1914 a 1945, de acordo com alguns historiadores) eles lutaram lado a lado.
Mas o mundo, no final do ano de 1914, ainda era o mundo do século XIX, das antigas convenções, das antigas etiquetas e da antiga guerra, muito diferente do que apareceria depois.
Apesar de toda guerra ser brutal, até 1914 um código de conduta quase cavalheiresco imperava nos exércitos. Estar nos exércitos, ao menos para os oficiais – muitos deles nobres – era uma honra e uma tradição secular familiar.
Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, no final do ano de 1914, um fato que hoje soa quase surreal ocorreu entre os exércitos inimigos.
Na noite de natal o exércitos acordaram uma trégua festiva, afinal, como escreveu o historiador Jacques Le Goff, se há algo que pode ser identificado como fundador e unificador da cultura européia, este algo é o cristianismo.
Independentemente do lado que defendiam na guerra todos, ou quase todos, eram cristãos.
Durante a trégua os soldados de ambos os lados sairam das trincheiras para confraternizar com os adversários, com quem, até há pouco, trocavam balas. Cantaram canções natalinas, compartilharam o pouco que tinham, mostraram fotos de família.
No dia seguinte ainda disputaram partidas de futebol até que, lembrados pelos seus superiores – em seus quartéis generais aquecidos e perto de suas famílias – foram obrigados a voltar para a carnificina. A sequencia da história foi horrível e inaugurou a era da guerra total, na qual dizimar o adversário é sinônimo de vitória.
O filme Feliz Natal conta esta história de um modo sensível. É um filme de guerra contra a guerra, bem ao gosto dos europeus.
Sem grandes cenas de batalha, sem cenários gigantescos e sequências interminaveis de balas e explosões como O Resgate do soldado Ryan, Feliz Natal (Joyeux Nöel no original, produção de um monte de países) investe na qualidade da história e na sensibilidade do público. Lindo demais, e um ótimo filme para ver e perceber como os sentimentos podem ser tão contraditórios na vida.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História e cinema, Sem categoria
Tags: Europa, História contemporânea, Natal, Primeira Guerra Mundial
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