Arquivo da Categoria Política ambiental
13/10/2009 - 07:07

Museu é um lugar onde são reunidos objetos de arte, históricos, arqueológicos, antropológicos ou de qualquer outra forma “colecionáveis”, os quais são expostos ao público com fins diversos, certo? Parcialmente certo, ou, melhor dizendo, cada vez menos certo.
Na realidade os museus vão continuar sendo “também” isso, mas não somente. Há muito os museus (”templo das Musas” do antigo grego) passaram a ser muito mais do que espaços onde se encontram coleções de coisas diversas (animais, obras de arte, objetos “históricos”) para serem também instituições de pesquisa, de ensino, de educação e, há menos tempo, talvez, de lazer.
Mas uma das constantes dos museus – a de serem instituições localizadas num único edifício ou num conjunto de edifícios associados, fechados e longe da luz do dia – está lentamente perdendo sua hegemonia para dar espaço, justamente, às áreas amplas, abertas, nas quais a própria paisagem e o ambiente fazem parte da “coleção” do museu.
No extremo sul de Portugal, a oeste, encontra-se o “Promontorium Sacrum”, faixa de Europa encastelada sobre penhascos que foi citada pela primeira vez nos textos gregos da antiguidade, há mais de 2500 anos. Para os romanos ali estava o ponto onde Hercules realizara um de seus 12 famosos trabalhos, abrindo com os braços uma passagem pelo Mediterrâneo. Para além de Gibraltar ergueram uma pedra cerimonial a qual batizou o local: O Promontório Sagrado, o qual já em tempos de portugueses passou a ser referenciado pela corruptela do nome romano e se tornou Sagres.
Em Sagres – no promontório, na imagem acima - foi erguido um farol, uma fortaleza e uma gigantesca Rosa dos Ventos já no século XV, muito provavelmente na época de Dom Henrique o Navegador, irmão do rei de Portugal e Mestre da Ordem de Cristo. Dom Henrique recebeu a alcunha de “O Navegador” justamente por ser o grande incentivador das navegações portuguesas, as quais gerenciava a partir da cidade de Lagos, próxima ao promontório.
Em torno de Sagres surgiu, inclusive, a história da lendária “Escola de Sagres”, núcleo formado por Dom Henrique reunindo os maiores especialistas em navegação conhecidos à sua época, de todas as etnias, credos e cores. Lenda popularizada e romantizada, mas que jamais se deu tal como nas histórias.
Como, então, colocar dentro de um museu um farol, uma cidade e um promontório, e mais ainda, um mar e um oceano, além da luminosidade, do vento, dos odores, componentes todos que trazem o visitante para uma experiência de instantes que o carregam para a história antiga ou para o século XV, como o Navegador olhando no horizonte seus navios se afastando rumo à África?
Os Museus a Céu Aberto, como vêm sendo chamados, buscam justamente essa dimensão “experiêncial” ampla que somente o contato com o ambiente é capaz de proporcionar. Nesses lugares edifícios, sítios arqueológicos, paisagens, elementos naturais, populações de animais selvagens e, até mesmo, comunidades locais compõem um todo que somente faz sentido se mantidos íntegros, no conjunto.
Na Europa são dezenas de experiências já, a maioria delas associada ou ao período neolítico ou à Idade Média (o que permite, inclusive, algumas ações de gosto questionável como a de colocar a população local empregada no museu vestida com trajes de época). Há, também, cidades que se tornaram quase inteiramente um conjunto de bens históricos ou arqueológicos, como Évora e Óbidos também em Portugal, exigindo uma mudança na forma de ver esses elementos e buscando integrá-los num mesmo plano, compondo, enfim, um museu a céu aberto não pensado dessa forma desde o início.
No Brasil algumas iniciativas começam a ganhar força, como o conjunto da Serra da Capivara no Piauí, de longe a melhor experiência brasileira (embora com vários problemas e desafios a serem vencidos), mas ainda não temos um projeto que pense desde o início o conjunto de bens, de patrimônios, móveis e imóveis, materiais e imateriais, culturais e naturais, como uma unidade e no qual nós mergulhamos em busca de uma experiência ampla e não apenas de informação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico, Política ambiental, Política cultural
Tags: Céu Aberto, Museologia, Museus, Portugal, Sagres, Serra da Capivara
01/10/2009 - 06:54
As transformações nos ambientes – que se aceleraram nas últimas décadas – vêm provocando não apenas o aumento do risco de desaparecimento de espécies biológicas e paisagens, como, também, de modos de vida tradicionais.
No nosso litoral comunidades de pescadores tradicionais estão diminuindo em ritmo acelerado devido a diversos fatores: a pesca indiscriminada por empresas do setor, as quais promovem arrastos com redes gigantescas, capturando uma quantidade de animais maior do que a que o ambiente consegue repor, além de animais em idade prematura, impedindo a reprodução. Também o aumento da poluição do oceano, sobretudo nas áreas mais próximas às costas e nas regiões mais densamente povoadas e o próprio descontrole dos pequenos pescadores concorre para a degradação do ambiente que fatalmente levará ao desaparecimento dessas populações.
Em algumas regiões, como em São Paulo, são chamados de “caiçaras”, em outras apenas de pescadores. Suas formas de existência mudam um tanto de região para região, mas, de modo geral, se assentam em alguns traços culturais comuns.
Esses pescadores, a grande maioria vivendo em pequenas comunidades, espalhadas em enseadas, praias isoladas, ilhas, canais ou estuários, tem na pesca e na coleta de animais marinhos ou associados a esse ambiente (como siris, caranguejos, moluscos diversos, as vezes algumas aves), a base tanto de sua alimentação quanto de sua economia.
Na pesca buscam o que vai para a panela de suas casas, mas também o pouco excedente que será vendido para fora da comunidade. Alguns trabalham eventualmente para outros pescadores, de barcos maiores, ou servem como guias de pescaria amadora. Contudo, todos eles tem a pesca como o elemento definidor de suas vidas, de seu modo, inclusive, de ver e entender o mundo.
Um dos maiores bens dessas comunidades é o fato d epoderem transmitir às próximas gerações uma autonomia enorme com relação a sobrevivência. Em nossas sociedades industriais nenhum pai é capaz de garantir que seu filho terá como se alimentar depois de adulto, mas, embora isso tenha diminuido muito, entre os pescadores tradicionais ocorre o inverso. Cada um sabe que sua descendência será garantida pelo fato de que ao menos os meios fundamentais serão garantidos pela pesca.
Dorival Caymi, um apaixonado por esse universo cultural, eternizou a vida desses pescadores em suas canções e trouxe um pouco dos sonhos, desejos e angústias do viver no mar. A divisão do afeto dos pescadores entre quem está em terra e o que vem do mar, a alegria da pesca bem sucedida, a incerteza de quem vai para o infinito das águas.
Dizem em alguns lugares da Bahia que o pescador de tanto suportar o balanço do mar, estando em terra firme, anda como que embalando o corpo, reproduzindo o movimento do oceano.
Muito antes do primeiro europeu botar o pé no continente americano toda uma cultura da pesca já havia se desenvolvido nos litorais do que hoje chamamos de Brasil. A famosa cultura que construiu os “sambaquis” (literalmente “os empilhadores de conchas”) já era uma cultura de pescadores ao seu modo; nos sítios arqueológicos de sambaquis é muito comum encontrar não apenas as conchas restantes da alimentação, mas outras tantas empregadas como navalhas, como adornos, anzóis rústicos, restos de vários animais marinhos, indicando uma larga utilização dos recursos do mar.
E, por coincidência, estas terras foram colonizadas por outra cultura, justamente aquela que entre as européias havia desenvolvido ao extremo as habilidades para a vida no mar e para a pesca: a portuguesa.
Também em Portugal, desde um passado imemorial, se desenvolveu uma cultura voltada para o oceano. Depois da formação do reino e da constante ameaça de anexação pelos espanhóis o povo português teve de ainda mais investir na exploração do oceano, como única rota, única porta para o mundo e para sua própria sobrevivência material.
Na chegada às Américas uma cultura “náutica” econtrou outra, a indígena dos litorais, sobretudo as do tronco tupi, cuja junção se tornou a base cultural dos nossos caiçaras.
A cultura desses nossos pescadores tradicionais contemporâneos é uma verdadeira síntese das técnicas de navegação, de construção de embarcações, de pesca, de orientação no mar, de conhecimento empírico das condições climáticas, das correntes reunidas pelos portugueses e pelos indígenas ao longo de séculos e séculos de vivência no mar.
Por isso as práticas empregadas por essas populações, como as de Ilha Diana e Monte Cabrão em Santos, ou em Mangaratiba no Rio de Janeiro, ou Matriz de Camaragibe em Alagoas, ou em tantos outros lugares do sul ao norte do Brasil, são ainda tão eficientes para os desafios ecológicos aos quais estão submetidos, conjunto construído através do teste cotidiano de cada elemento ao longo do tempo.
As palafitas, edificações elevadas em pilares para escapar do excesso de umidade, tem sido abandonada em função das construções de alvenaria rentes ao chão, com enormes perdas de qualidade de vida, embora muitos vejam isso como “progresso”. E assim com outros tantos elementos dessas comunidades, passando uma falsa impressão de “melhoria”.
É claro que essas culturas se transformaram durante esses séculos e a transformação é uma condição da cultura, mudar continuamente, mas mantendo a coesão, contudo, depois do encurralamento, agora essas nossas populações de pescadores tradicionais correm o risco de passarem definitivamente para o campo somente da memória, pela aceleração das transformações em nossas regiões costeiras. E nesse caso transformação não significa imediatamente melhoria de vida, até porque essa pode ser obtida sem a desfiguração das culturas.
Conseguir garantir que essas populações mantenham aquilo que consideram importante para si, promover a melhoria das condições de vida delas sem obrigá-las a abandonar sua coesão social, incentivar o uso sábio dos recursos marinhos e costeiros buscando a manutenção do ambiente natural e dos povos que os ocupam, usam e tem nele suas referências simbólicas é o conjunto de desafios que não está pela frente, está agora, com as populações de pescadores dentro do tufão.
E não atropelar tudo sob a justificativa de “promover o desenvolvimento econômico e social da nação”. Se não somos capazes de aprender nada com essas populações tradicionais, nem de garantir que tenham o direito a existência com a manutenção de sua integridade cultural, que tipo de desenvolvimento e de erradicação da miséria seremos capazes de oferecer ao restante de nossa população?
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Política ambiental, Política cultural
Tags: Caiçaras, Pesca, Pescadores Tradicionais
24/08/2009 - 06:30
Seis horas da manhã e seu despertador toca como se fosse o carrasco te levando pra forca. Resignadamente você se levanta, vai ao banheiro, começa a se arrumar para sair, tiritando de frio, “batendo queixo” como diria um amigo. Se enrola como uma cebola em blusas, camisas de manga longa, casacos, toucas, cachecóis, luvas e sai para a batalha. Quando chega ao destino suas bochechas estão vermelhas, o nariz duro e os dedos das mãos e pés rígidos.
Se você está reclamando deveria agradecer pelos milhares de anos de desenvolvimento tecnológico e cultural que lhe possibilitaram, ao menos, ter roupas mais leves, práticas, quentes, eficientes contra o frio e a umidade.
É claro que nascemos nesse mundo, com todas essas”facilidades” tecnológicas e não nos damos conta do quanto deve ter sido difícil viver lutando contra os fatores climáticos há milhares – ou mesmo centenas – de anos. A história humana foi, e é, em grande medida a história da tentativa de controlar a natureza se tornar menos suscetível aos seus fatores (a disponibilidade de alimento, o clima, o acesso à água, a proteção contra catástrofes naturais). Da Revolução Industrial – começada no século XVIII – para cá esse desejo de controlar se acelerou a ponto de colocar em risco a própria existência da espécie, com a transformação radical de alguns sistemas e o virtual esgotamento de recursos vitais. Mas este será um assunto para os arqueólogos do futuro, se nossa espécie sobreviver e se ainda houver arqueologia.
Há algumas décadas, nos Alpes, descobriu-se um cadáver mumificado pelo gelo de um homem. Sua morte datava de alguns milhares de anos e devia ser um dos últimos homens de outra espécie (sim, a nossa, a homo sapiens, é apenas a espécie que sobreviveu a evolução, ou que incorporou outra, ou outras, assunto ainda em aberto, mas nem sempre estivemos “sós”) fugindo em busca da sobrevivência.
No exame de seu corpo foi encontrado um ferimento causado por uma flexa de sílex, pequeno, mas o suficiente para minar com o sangramento as energias do homem. Seu rosto demonstrava aparentemente um esforço final para tentar se safar do ferimento, do frio e, possivelmente, de seus perseguidores. Estava vestido com botas e uma espécie de casaco de peles de animais. Portava uma faca de sílex também e outros apetrechos comuns ao caçador do período.
Sua morte foi causada pela somatória do ferimento, com a consequente perda de sangue, com o esforço físico e a baixa temperatura, tudo, certamente, acentuado e acelerado pelo frio.
Quase em todos os contextos arqueológicos ditos “pré-históricos” (detesto esse termo…mas é o que temos) o exame dos enterramentos, das condições de solo preservadas, do pólem misturado a este no passado, geralmente nos revelam terríveis dramas para conseguir se adequar as condições climáticas extremas e garantir a sobrevivência do grupo. Calor, frio, seca, chuvas torrenciais, vento, elementos que podiam gerar desafios sazonais aos grupos humanos ou promover verdadeiros cataclismas em escala global quando prolongados e pouco perceptíveis no dia a dia.
A arqueologia e outras tantas ciências que estudam o passado, humano ou não, ainda tem uma infinidade de perguntas a serem respondidas a respeito das mudanças climáticas ao longo do tempo e da dimensão da influência disso na espécie humana.
O filme A Era do Gelo (e suas sequências) – ou mesmo O dia depois de amanhã – trouxeram novamente o assunto à tona, e aí há um dos pontos pacíficos a respeito do nosso passado e da história do clima: tanto as glaciações quanto os períodos de aquecimento não só interferiram radicalmente no desenvolvimento de nossa espécie como modelaram as áreas que foram ocupadas mais densamente, nossas bases culturais.
Um período especialmente curioso, conhecido como “Jovem Dryas” (de 10800 a 9600 a.C.), estabeleceu aproximadamente mil anos de “seca”, ou seja, de diminuição do principal elemento associado à abundância de alimento: a água. O que as escavações no Oriente Médio vêm revelando é uma verdadeira involução tecnológica, social, econômica, em função da diminuição do alimento provocado pelo Jovem Dryas.
Ou seja: vilas desapareceram, grupos sedentários ou semi-sedentários voltaram ao nomadismo, grupos grandes se fragmentaram, dando origem a bandos que disputavam cada vez mais, e mais violentamente, o pouco alimento que havia disponível. A agricultura estancou seu processo de desenvolvimento tecnológico e as áreas povoadas diminuiram com uma sensível diminuição também dos grupos humanos (é difícil saber se o declínio demográfico da espécie humana foi absoluto ou apenas relativo).
Mais conhecidas do que o Jovem Dryas são as “glaciações”, períodos de diminuição da temperatura global devido a fatores ainda não totalmente compreendidos (a teoria mais forte atribui o resfriamento a mudanças nos movimentos ou na inclinação do planeta, sutis, mas suficientes para causarem tal efeito). Mas as glaciações não eram compostas apenas pela “queda da temperatura”, mas por uma rede de eventos climáticos que se desdobravam, obvimente, em uma cadeia de eventos biológicos, geológicos. Esses movimentos parecem ser cíclicos, ou seja, retornam de tempos em tempos, embora não saibamos exatamente se isso é regular ou não, e sendo regular qual é a regularidade dessas glaciações. Sabemos, contudo, que houveram grandes glaciações e outras menores, inter-cíclicas, as últimas delas em período relativamente próximo a colonização do continente americano pela espécie humana, há aproximadamente 20000.
Com o resfriamento a área de gelo do planeta aumentou, principalmente nos pólos, mas, também, nas grandes altitudes. Com o aumento da camada de gelo - o qual foi tanto horizontal quanto vertical – áreas que eram cobertas de florestas desapareceram. Outras se tornaram estepes, e, de modo geral, isso significou menos caça, menos frutos, menos comida, menos áreas habitáveis.
Essa água congelada, obviamente, provocou uma menor quantidade de água em estado líquido circulando no planeta e, por conta do peso das geleiras, pressão sobre o solo de algumas regiões. Em algumas áreas o nível do mar abaixou e aldeias costeiras ficaram mais longe de sua fonte de alimento. Áreas que eram isoladas – como ilhas e continentes – foram interligadas por “pontes de gelo”, possibilitando a migração de espécies animais, entre elas a humana.
O mundo ficou efetivamente mais violento, com graves embates entre grupos humanos para controlar áreas nas quais os recursos necessários à sobrevivência fossem mais abundantes. Nosso “antepassado”, encontrado congelado nos Alpes, provavelmente não sabia que estava vivendo num dos maiores dramas da história humana, mas seu desconhecimento não o poupou das consequências.
Ao longo de nossa história uma infinidade de tecnologias foi criada para diminuir nossa suscetibilidade ao frio: roupas mais quentes, as quais começaram com peles de animais e chegaram as fibras especiais de hoje, que evitam a perda de calor. Casas, fogueiras, aquecedores, sistemas que possibilitaram o homem chegar a um dos mais inóspitos lugares do planeta, o coração do Pólo Sul, no qual a temperatura circula facilmente na casa dos 60 graus centígrados negativos.
Mesmo em tempos mais recentes o frio – ou a ausência dele – foi um fator relevante nos rumos da humanidade. Alguns pesquisadores da Idade Média (como os franceses Georges Duby e Phillippe Arriès)alegam que uma ligeira alteração para cima da temperatura média possibilitou que as lavouras fossem mais generosas (também causado pela introdução de novas tecnologias, como a rotação e arados mais eficientes), e, consequentemente, as pessoas tivessem menos fome, e assim terem mais filhos e mais saudáveis.
Agora, certamente, estamos vivendo numa nova etapa, que possivelmente vai se acentuar, com o aquecimento planetário. Diferentemente de outros períodos da história dessa vez temos consciência de que está ocorrendo (embora muitos neguem), também, dessa vez, somos responsáveis pelo processo. Igual ao passado há uma coisa: assim como eles não sabemos se conseguiremos vencer o desafio e perpetuar a espécie e nossas culturas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Migrações, Política ambiental, Pré-história
Tags: Arqueologia, Clima, Frio, Glaciação, Jovem Dryas, Meio ambiente
06/06/2009 - 07:09
A cada ano a cidade de São Paulo acumula recordes de congestionamentos. Lembro de que até alguns anos congestionamentos de 60 ou 80 Km eram tidos como “monstruosos”, agora estamos nos aproximando dos 200 Km. Uma série de fatores sempre é lembrada como causa do nosso “infarto urbano”: excesso de carros de passeio, caminhões que cruzam a cidade para irem de um lado para o outro do país, sistema de transportes públicos precário, vias mal conservadas, falta de educação, desrespeito às leis de trânsito, etc, etc.
Sem descartar nenhuma dessas causas eu acrescentaria outras duas, de ordem histórica, e que continuam sendo precariamente combatidas pelos poderes públicos. Anos atrás, quando comecei a estudar a evolução urbana da cidade de São Paulo, por conta dos trabalhos em arqueologia, fiquei impressionado com duas conclusões.
A cidade de São Paulo se desenvolveu desde seus primórdios como área de entrocamento, de encruzilhada, de rotas que ligavam diversas regiões da colônia. Do extremo sul vinham as rotas que traziam animais de carga, sobretudo mulas, e carne seca das “charqueadas”, as quais seguiam para Minas Gerais e Goiás. Para isso passavam na área de São Paulo. Depois essas rotas passaram a abastecer também o Vale do Paraíba (região de Guaratinguetá, São José dos Campos, Taubaté) e o Rio de Janeiro.
Também vinham rotas da região de Goiás e do Mato Grosso em direção ao sul ou ao porto de Santos, sempre passando por São Paulo. De Santos, por sua vez, subiam vários produtos, entre eles sal e ferramentas e chegavam através do Caminho do Mar, o qual literalmente entrava na cidade pela região do Ipiranga.
Parte significativa desses caminhos surgidos nos séculos XVI, XVII, XVIII derivavam de antigos caminhos indígenas que eram empregados tanto para trocas comerciais entre os povos originais das Américas quanto para guerras. O próprio Caminho do Mar era em sua origem um caminho indígena. Os jesuítas e colonos quando aqui se estabeleceram se apropriaram do conhecimento dos povos indígenas e, pode-se dizer, que apenas assim conseguiram sobreviver no planalto paulista.
Do centro da ocupação da região, do “quartel general”, a vila de São Paulo de Piratininga, saiam caminhos que ligavam aos assentamentos e aldeamentos jesuiticos que se espalhavam no entorno, como em Pinheiros, Cotia, Itapecerica, Embu. Assim surgiram os caminhos tradicionais da região: o caminho dos Pinheiros, a estrada para Goiás, o caminho do Norte, o caminho do Mar.
Os indígenas, ao escolherem esses traçados, muito tempo antes dos portugueses chegarem, haviam empregado todo seu conhecimento da topografia da região, optando pelas melhores opções de trânsito, considerando que o núcleo original de São Paulo está assentado sobre uma elevação entre dois pequenos vales, o do Anhangabaú e o do Tamanduateí. Em suas “costas” há o espigão onde se localiza a avenida Paulista, exatamente em sua “espinha dorsal”.
Ocorre que esses caminhos eram tão funcionais, tão perfeitamente escolhidos para quem transitava a pé ou a cavalo, que os séculos foram passando, a cidade crescendo, a população aumentando, os transportes mudando, e os itinerários se mantendo. Os antigos caminhos foram mantidos, como pequenas alterações.
O caminho que ia para Pinheiros virou a Consolação-Rebouças, o que ia para os assentamentos jesuíticos virou parcialmente a rodovia Raposo Tavares. Para outra banda da cidade, sobre o antigo caminho do Guaré, surgiu a avenida Tiradentes. Para o Norte surgiu sobre o caminho antigo a Rangel Pestana e no lugar do Caminho do Mar temos a Anchieta. Apesar de todas as modernizações dessas vias – alargamentos, duplicações – nada foi capaz de vencer a obviedade de que os caminhos antigos atendiam a antigas necessidades. Eram ótimos para quem vivia como os paulistas do século XVIII. Hoje viraram problemas.
A segunda constatação é de que, assim como há séculos, as rotas de pessoas e de comércio continuam passando pela cidade, aliás, somente se intensificaram. As mercadorias produzidas nas mais diversas regiões do Brasil continuam cruzando a cidade para chegar até o porto de Santos e tanto as estradas (Imigrantes e Anchieta) quanto a estrada de ferro estão entupidas quase tanto quanto as vias principais da cidade de São Paulo. Ou seja, não conseguimos nesse período de tempo nem imaginar formas melhores de escoar nossas produção, de fazê-la cruzar o país, nem conseguimos repensar a dinâmica de deslocamento das populações dentro da cidade e na região do entorno.
Isso foi ainda mais agravado com a “conurbação” como diriam meus amigos geógrafos, a junção de áreas urbanas de cidades distintas pelo crescimento da ocupação. Ou seja, virou tudo uma gigantesca malha de bairros que se sucedem sem que consigamos perceber claramente quando termina uma cidade e começa outra. Ligando essas regiões ainda estão os antigos caminhos de São Paulo.
Efetivamente a grande idéia em termos de deslocamento é a fuga das áreas centrais, o contorno, coisa que era desnecessária e impensável para quem andava a pé ou de cavalo, mas que para veículos automotores, que ficam horas presos em congestionamento, vale a pena. Por isso o Rodo-anel significa não apenas uma solução técnica, mas uma revolução na mentalidade de deslocamento no planalto paulista. É claro que se tívessemos investido em planejamento urbano isso teria sido começado a ser implantado há décadas. Infelizmente não foi assim.
Agora resta rezar (e cobrar) para que a fuga dos antigos caminhos fique pronta o mais rápido possível – o que parece estar difícil de ocorrer. Mesmo assim, apenas um dos problemas estará resolvido. O do trânsito interno da cidade exige ainda outra revolução mental e estrutural: estrutural para que tenhamos opções de transporte, mental para que os paulistas passem a deixar em casa uma das coisas que mais amam em suas vidas, seus carros.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Anchieta, Caminho do Mar, Caminhos, Cidade, Congestionamento, Consolação, Estradas, Imigrantes, Rebouças, Rodo-anel, São Paulo, Tiradentes, Transportes, Vias
16/12/2008 - 22:54
Lendo agora a pouco os comentários na postagem de Ricardo Kotscho a respeito da saída da família Mesquita da frente do Estadão vi algo que achei, no ´minimo, interessante.
Certo leitor dizia para meu companheiro de IG que ao invés de ficar se preocupando com temas do passado, lembranças e afins, deveria estar mais atento a decisões que “lesam” os brasileiros, como a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Queria fazer uma correção, antes de tudo: não há “Reserva Indígena”, mas “Terra Indígena”. Quem tem reserva é petróleo, é Mata Atlântica, bauxita, tungstênio, baleia jubarte e afins. Indígenas tem “TERRA”.
Bom, a demarcação da Raposa Serra do Sol já rendeu milhões de litros de tinta e um palavrório interminável para algo que é relativamente simples, embora as leis brasileiras tendam a torcer as coisas até deixá-las quase incompreensíveis.
Até a chegada dos europeus toda a América, TODA, era terra indígena, ocupada há milhares de anos. Os diversos povos e etnias que ocupavam o continente se deslocavam e se assentavam pelo território mediante suas disputas particulares. Uns grupos eram nômades, outros semi-nômades, outros sedentários. Coletores, caçadores, agricultores, cada qual com sua cultura particular.
Hoje os povos indígenas não ocupam mais do que uma fração da mesma América. Muitas foram as causas da dizimação desses povos, ou do encurralamento deles, em terras cada vez mais distantes ou em situações cada vez mais “guetificadas”, como os que vivem em Parelheiros na grande São Paulo.
É claro que hoje somos uma nação plural, de muitas culturas, etnias, cores, crenças, numa mistura absolutamente irreversível e que, em grande medida, é o nosso diferencial diante das demais nações do planeta. Então, fazer um retorno à América antes de Colombo e “devolver” as terras aos indígenas não é exatamente o caso, assim como não é possível repatriar os africanos, alemães, italianos, portugueses. A história é irreversível.
Mas, da mesma forma, a história é feita aos poucos, não aos solavancos, ao trancos. Portanto, temos que distinguir casos e casos.
Um exemplo disso é a necessidade de distinguir terras que foram ocupadas pelos brancos há quatrocentos anos – como no planalto paulista – e as que foram ocupadas há poucas décadas, como do Roraima.
Para uma vida humana cinquenta ou cem anos é bastante tempo, mas para a história, e para um povo, dependendo do que se trata, não é quase nada. Entendo a revolta de colonos que chegaram há trinta, quarenta anos, mas entendo ainda mais a luta de quem estava ali há séculos, milênios.
Boa parte da ocupação do centro oeste e do norte do Brasil se deu no século XX, na Era Vargas e durante o Regime Militar, como forma de “civilizar”, ocupar e “proteger” o território nacional. Parte dos colonos levada para essas regiões vinha da região sul, onde a escassez de terras levava ao êxodo rural, a desertificação e ao surgimento de movimentos sociais como o que deu origem ao MST.
A conta da “pacificação” do sul foi paga pelos povos indígenas em grande medida. Mas não há como fazer Vargas ou os militares serem responsabilizados legalmente por isso. Mas a justiça pode evitar que outras injustiças continuem sendo cometidas.
O argumento de que sem o arroz plantado pelos colonos a economia do estado irá a falência é um subterfúgio, um sofisma para justificar o injustificável. Solucionar o problema dos colonos é responsabilidade do Estado brasileiro, não dos indígenas. É o Estado que tem que oferecer alternativas.
Mas, com grande frequencia, tende-se a inverter a lógica e atropelar as decisões que devem ser tomadas. Para evitar uma maior desaceleração da economia rompe-se com os tratados de meio ambiente, e muitos acreditam. Ora, que invista-se em tecnologia limpa, e movimente a economia com isso. Em verdade o que querem dizer é: preservem MINHA economia, MEU negócio e não a economia do mundo, ou do país.
O mesmo ocorre com a questão indígena. As terras indígenas são tidas como entraves para o “desenvolvimento”, ora, que se desenvolva de outro modo, afinal a humanidade não é quadrada.
Por fim, o argumento de os indígenas não precisam de tanta terra, ou de que não precisam da continuidade territorial é absolutamente insensível e voltado para si.
Imagine se alguém cortasse seu bairro ao meio, ou sua cidade. Imagine se alguém chegasse para você e determinasse que, a partir de agora, teria apenas meio banheiro, pois eles haviam decidido que suas necessidades não exigiam tanto espaço assim.
Cada cultura indígena se comporta de um modo diverso, possui necessidades diferentes e avaliar isso não é tarefa para quem deseja suas terras.
Há muitas décadas tornaram os xavantes – um povo que históricamente migrou – num povo sedentário às margens do rio Kuluene, no Mato Grosso. Depois tentaram lhes ensinar a cultura do arroz. O resultado, depois de anos, é a desarticulação da cultura tradicional (pois, encurralada em suas terras, não podem mais caçar), tornaram-se dependentes do arroz, o que lhes trouxe vários males que não tinham, como a obesidade, a hipertensão, a diabetes. As aldeias, antes com 300 indivíduos, se esfacelaram em unidades de 30, para que, com mais representantes, recebam mais verbas do governo. Os jovens, sem expectativa entregam-se em massa ao alcoolismo e outras drogas, usando, muitas vezes os cartões de assistência federal de seus avós, apreendidos por comerciantes locais que vendem ilegalmente bebidas alcolicas aos indígenas.
Por essas e outras, muitas das quais vi pessoalmente, creio que o Supremo – oxalá – tomou a decisão certa. E que o Estado brasileiro tome as devidas providências para garantir a eficácia da decisão e a reparação aos colonos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História do Brasil, Política ambiental
Tags: História do Brasil, Indígenas, Raposa Serra do Sol, Terras Indigenas
05/12/2008 - 18:59

Como tratei no último post a respeito do plano do gverno federal para barrar o desmatamento da Amazônia acho bacana tratar um pouco a respeito da história da colonização dessa região.
Ao contrário doq ue muitos pensam a Amazônia não foi um território inóspito, deixado para segundo plano durante séculos, nem foi das últimas regiões a serem colonizadas pelos europeus. Em verdade o centro-oeste brasileiro foi uma região ocupada mais tardiamente do que a Amazônia.
É claro que, quando falamos de colonização da Amazônia, estamos tratando das grandes vias de interiorização, de ocupação, ou seja, os gigantescos rios amazônicos (o Amazonas, o Tocantins, o Pará, o Madeira, o Negro, o Tapajós, o Solimões). As regiões mais distantes destes rios, ou mesmo às margens de seus afluentes menores, demoraram mais a serem ocupadas.
O fato é que ainda no século XVI, logo depois da “oficialização” da posse portuguesa sobre o território nas Américas, exploradores vários passaram a incursionar pelo Amazonas, seja subindo seu curso, seja em inusitadas viagens descendo o curso do rio desde sua nascente na América espanhola.
Talvez até mesmo alguns dos comandantes das expedições de Colombo tenham navegado pelo Amazonas, o que motivo de debate ainda hoje.
Mas explorar não é colonizar, e a colonização de fato demandaria ainda algum tempo. As primeiras atividades colonizadoras na região se deram por oriundos de Portugal, mas, principalmente por missionários católicos (carmelitas, jesuitas e franciscanos) que foram se alojando em locais de antigas aldeias indigenas.
Vale dizer que, quando os europeus chegaram a Amazônia, esta estava vastamente ocupada por povos indígenas, desde tempos imemoriais. A grande maioria das cidades amazônias (Manaus, por exemplo) se desenvolveram sobre antigas aldeias, nas quais colonos ou missionários se estabeleceram.
Contudo, com o avanço da colonização, e os resultados trágicos do contato entre índios e europeus, levou ao esvaziamento e fuga dos indígenas para regiões cada vez mais distantes, principalmente dos grandes rios, vias preferenciais de comunicação.
Cidades inteiras foram abandonadas, como o Velho Airão.
Boa parte das ações colonizadoras se concentrava na exploração de riquezas naturais amazônias – de modo parecido, porém sem nenhuma sustentabilidade, com o que as empresas de cosméticos oprema hoje na região. Breu, pimenta, castanhas, pau rosa e outros tantos produtos da floresta eram mandados para a Europa a partir de Belém, de onde se deu a origem do mercado Ver o peso (que tem esse nome devido a uma requisição da população da cidade para que a Coroa Portuguesa construísse um posto para se “ver o peso” das mercadorias que seguiam para a Europa).
Com a expulsão dos jesuítas e a mudança dos códigos que regulamentavam o trabalho indígena no século XVIII essa economia entrou em crise, se bem que boa parte dos indígenas – os sobreviventes ao contato – já haviam fugido para regiões mais distantes.
Um século depois foi a economia da extração da borracha que imperou na região.
Contudo, contudo, uma coisa é fato irrefutável: apesar de todas as mudanças na economia amazônica, é um fenômeno do século XX a agressão deliberada a região, com o desmatamento desmedido para a agricultira e para a pecuária. Os processos anteriores podem ter sido prejudiciais aos indígenas, aos seringueiros, mas muito menos ao bioma.
As grandes cidades também se tornaram um problema na região. Com toda a sinceridade, fiquei chocado com Manau quando a vi. Com a quantidadede ocupação desordenada, com os igarapés sufocados pela cidade. Também com Belém, um pouco menos com Santarém.
Até o século XIX e começo do XX a história da região havia sido uma história da exploração, não da degradação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Amazônia, colonização, História do Brasil
02/12/2008 - 10:10

Ontem o presidente da República e o Ministro do Meio Ambiente lançaram um plano que a imprensa e os próprios autores chamaram de “ousado” para conter o desmatamento da Amazônia.
Detesto ser o Advogado do Diabo, mas poucas vezes vi tanta pirotecnia para o oco. Talvez esteja errado, as informações não tenham sido corretamente divulgadas pela imprensa (li uns quatro ou cinco veículos diferentes que davam, ou não, o mesmo pacote de informações, o que me leva a crer que ou o plano não tem muito o que divulgar ou a imprensa é coletivamente tapada, com maior probabilidade de que sejam ambas as coisas).
Não conheço a Amazônia como os povos amazônicos, nem como as pessoas que lá trabalham há anos, mas conheço um pouquinho e, no geral, mais do que a média.
Passei um ano e meio entre idas e vindas em algumas regiões da Amazônia, em projetos diferentes de proteção e difusão do patrimônio cultural. Estive muito tempo no Mato Grosso, sobretudo na sua parcela amazônica. Depois fui ao Amazonas, ao Pará. Curiosamente estive justamente nos estados que merecem maior atenção pelo risco que hoje representam a preservação do ambiente.
Fiquei assutado quando vi o presidente dizendo que ele, o ministro do meio ambiente e o da justiça se reuniriam para elaborar um plano de fiscalização. Oras, mas que raios de plano é este que não há desde o início a perspectiva de fiscalização? Será que da noite para o dia os madeireiros e agricultores que conheci por lá vão se arrepender de seus atos e, conjuntamente, se tornarão os novos baluartes da proteção ambiental expiando assim suas penas e por obra e arte do Espírito Santo?
O problema da preservação da Amazônia é análogo ao de tantos outros no Brasil, por principio, não na forma. A devastação progride não pela imensa força de madeireiros, agricultores, criadores de gado, não. Em sua grande maioria é gente simples, de pouca instrução, com indiferença atroz pelo ambiente, imediatista, gananciosa, e sem muita articulação.
Os sojicultores possuem uma organização maior, respaldados pelo desejo do governo em tornar o tal grão no novo maná da humanidade, capaz de virar combustível, ração animal e, de vez em quando, até alimento. Tudo em nome da “reversão do aquecimento global”.
Mas, desmatadores e poluidores das mais diversas feições, mandam e desmandam, fazem o que bem querem não pela sua imensa força e organização, mas pela ausência vergonhosa do Estado brasileiro.
Quando estive, ano passado, no Parque Nacional do Jaú, um dos maiores do país, deu para entender porque ele esta bem preservado: as cidades distam dele dezenas, centenas de quilômetros. Certamente não seria pelos dois fiscais do Ibama que encontramos no flutuante (balsa alojamento e atracadouro muito comum na Amazônia) deitados em suas redes, sem combustível para as voadeiras (botes rápidos) e acompanhados de uma dupla de pesquisadores de macacos.
Nisso o presidente foi sincero: Não é possível esperar que um fical sozinho do Ibama com um carro sem combustível vai fiscalizar a Amazônia.
Com certeza. Ou ele estará preocupado em manter a própria vida – pois o Estado não lhe dá qualquer respaldo e proteção ao seu trabalho -, ou estará trabalhando em algo quixotescamente, por pura vocação budista, ou terá se tornado o novo aliado de contraventores, participando do butim amazônico.
Em 2005 por bem pouco minha equipe não foi crivada de balas do Mato Grosso por ter sido confundida com uma equipe do Ibama. E isso já havia acontecido outra vez, em Crateús, Ceará, em 2004. Mas aí estamos falando da caatinga, e não da Amazônia, como se os demais ecosistemas ou biomas não tivessem tão ou mais ameaçados do que a gigantesca floresta.
Resumo da Ópera: a não ser que o governo apresente instrumento reais, eficazes de imediata implantação (moralização e aparelhamento do Ibama), legislação dura, fiscalização eficiente, punição exemplar e irrevogável, este será um plano tal e qual se mostrou ontem, vapor, cortina de fumaça, ação de dissimulação.
E não adianta colocar a culpa nas ONGs, na ausência de conhecimento, etc, etc, etc. Nem uma única folha é arrancada de Terra Indígena sem que os moradores saibam, todo caboclo que se preza conhece cada igarapé de sua região, cada paranã (grandes canais que correm paralelos aos rios). Se eles conseguem sem sistemas de satélites, helicopteros e afins o governo consegue…se quiser.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História do Brasil, Política ambiental
Tags: Amazônia, desmatamento, Política ambiental
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