iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo da Categoria Patrimônio histórico

13/10/2009 - 07:07

Museus a céu aberto

 

 

 

AlgarveSagres

Museu é um lugar onde são reunidos objetos de arte, históricos, arqueológicos, antropológicos ou de qualquer outra forma “colecionáveis”, os quais são expostos ao público com fins diversos, certo? Parcialmente certo, ou, melhor dizendo, cada vez menos certo.

 

Na realidade os museus vão continuar sendo “também” isso, mas não somente. Há muito os museus (”templo das Musas” do antigo grego) passaram a ser muito mais do que espaços onde se encontram coleções de coisas diversas (animais, obras de arte, objetos “históricos”) para serem também instituições de pesquisa, de ensino, de educação e, há menos tempo, talvez, de lazer.

Mas uma das constantes dos museus – a de serem instituições localizadas num único edifício ou num conjunto de edifícios associados, fechados e longe da luz do dia – está lentamente perdendo sua hegemonia para dar espaço, justamente, às áreas amplas, abertas, nas quais a própria paisagem e o ambiente fazem parte da “coleção” do museu.

No extremo sul de Portugal, a oeste, encontra-se o “Promontorium Sacrum”, faixa de Europa encastelada sobre penhascos que foi citada pela primeira vez nos textos gregos da antiguidade, há mais de 2500 anos. Para os romanos ali estava o ponto onde Hercules realizara um de seus 12 famosos trabalhos, abrindo com os braços uma passagem pelo Mediterrâneo. Para além de Gibraltar ergueram uma pedra cerimonial a qual batizou o local: O Promontório Sagrado, o qual já em tempos de portugueses passou a ser referenciado pela corruptela do nome romano e se tornou Sagres.

Em Sagres – no promontório, na imagem acima - foi erguido um farol, uma fortaleza e uma gigantesca Rosa dos Ventos já no século XV, muito provavelmente na época de Dom Henrique o Navegador, irmão do rei de Portugal e Mestre da Ordem de Cristo. Dom Henrique recebeu a alcunha de “O Navegador” justamente por ser o grande incentivador das navegações portuguesas, as quais gerenciava a partir da cidade de Lagos, próxima ao promontório.

Em torno de Sagres surgiu, inclusive, a história da lendária “Escola de Sagres”, núcleo formado por Dom Henrique reunindo os maiores especialistas em navegação conhecidos à sua época, de todas as etnias, credos e cores. Lenda popularizada e romantizada, mas que jamais se deu tal como nas histórias.

Como, então, colocar dentro de um museu um farol, uma cidade e um promontório, e mais ainda, um mar e um oceano, além da luminosidade, do vento, dos odores, componentes todos que trazem o visitante para uma experiência de instantes que o carregam para a história antiga ou para o século XV, como o Navegador olhando no horizonte seus navios se afastando rumo à África?

Os Museus a Céu Aberto, como vêm sendo chamados, buscam justamente essa dimensão “experiêncial” ampla que somente o contato com o ambiente é capaz de proporcionar.  Nesses lugares edifícios, sítios arqueológicos, paisagens, elementos naturais, populações de animais selvagens e, até mesmo, comunidades locais compõem um todo que somente faz sentido se mantidos íntegros, no conjunto.

Na Europa são dezenas de experiências já, a maioria delas associada ou ao período neolítico ou à Idade Média (o que permite, inclusive, algumas ações de gosto questionável como a de colocar a população local empregada no museu vestida com trajes de época). Há, também, cidades que se tornaram quase inteiramente um conjunto de bens históricos ou arqueológicos, como Évora e Óbidos também em Portugal, exigindo uma mudança na forma de ver esses elementos e buscando integrá-los num mesmo plano, compondo, enfim, um museu a céu aberto não pensado dessa forma desde o início.

No Brasil algumas iniciativas começam a ganhar força, como o conjunto da Serra da Capivara no Piauí, de longe a melhor experiência brasileira (embora com vários problemas e desafios a serem vencidos), mas ainda não temos um projeto que pense desde o início o conjunto de bens, de patrimônios, móveis e imóveis, materiais e imateriais, culturais e naturais, como uma unidade e no qual nós mergulhamos em busca de uma experiência ampla e não apenas de informação.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico, Política ambiental, Política cultural Tags: , , , , ,
12/08/2009 - 07:00

Canudos: milenarismo, miséria e arqueologia no sertão

Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.

 

Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.

Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.

Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.

A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.

Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.

Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.

Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.

Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.

As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.

Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.

O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).

A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.

Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.

Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.

Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.

Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , , , , ,
23/07/2009 - 06:55

Sete Povos das Missões

No filme A Missão do diretor francês Roland Joffé, Robert De Niro faz um caçador de indígenas espanhol, Dom Rodrigo, que após matar seu próprio irmão num duelo para a limpeza de sua honra (o irmão lhe traira com sua noiva) abandona a vida que levara até então e entra para a Companhia de Jesus, a Ordem Jesuítica, como forma de expurgar sua culpa.

 

Um paradoxo curioso, uma vez vez que foram justamente os jesuítas que se dedicaram com maior empenho a catequização dos indígenas nas Américas e encarnaram durante dois séculos e meio o grande poder em oposição aos colonos e bandeirantes na disputa pela “administração” dos povos nativos. Dom Rodrigo de caçador de índios passa a catequizador, num processo absolutamente traumático.

O filme foi bancado com dinheiro proveniente da própria Companhia de Jesus, como parte das ações da mesma a fim de se contrapor a boa parte da literatura que tratou-a como mais uma “destruidora dos povos nativos americanos”. Sem querer se despir da indefensável responsabilidade por “descaracterizar” e promover o esgarçamento dessas sociedades indígenas, os jesuítas procuravam no filme de Joffé se colocar em campo diverso daquele reservado aos bandeirantes, colonos e outras formas de caçadores de indígenas.

A verdade é que, boa parte dos historiadores ao longo do século XX tratou os jesuítas quase como bandeirantes de batina, um equívoco severo. A antiga Companhia de Jesus teve responsabilidade sim na desestruturação das sociedades nativas das Américas, mas certamente eram muito diversos dos “caçadores de escravos”.

Apesar do filme se passar numa floresta tropical, um universo “amazônico”, a história foi claramente inspirada nas chamadas Guerras Guaraníticas, que colocaram em lados contrários jesuítas e indígenas (quase todos guaranís,  daí o nome) e os exércitos de Portugal e Espanha. A tragédia da dizimação das missões jesuíticas, da escravização de boa parte de seus indígenas, da expulsão dos religiosos das Américas (seguida da extinção da ordem pelo Vaticano) em meados do século XVIII teve como cenário a região que hoje conhecemos como Sete Povos das Missões, patrimônio localizado no interior do Rio Grande do Sul.

A região de Sete Povos recebeu indígenas e jesuítas em fuga diante dos ataques de bandeirantes paulistas realizados nas antigas missões, no século XVII, localizadas nas margens dos rios Tibagi e Paranapanema, hoje estado do Paraná. Se deslocaram mais ao sul, na esperança de que a distância do núcleo de onde vinham os caçadores de indígenas, a vila de São Paulo de PIratininga, tornasse o negócio menos atraente e mais perigoso.

O resultado dessa “internação” dos jesuítas e guaranis foi a criação de um verdadeiro “estado indigena religioso”, de magnitude inédita no mundo. As igrejas, das quais restam as ruínas em Sete Povos, construidas em pedra entalhada, cantaria, demonstram o refinamento das artes e ofícios aprendidos pelos guaranis. Música, teatro, escultura, em Sete Povos das Missões os jesuitas chegaram o mais próximo daquilo que imaginavam ser a construção de um “paraíso terrestre”.

Contudo, tal organização, com milhares e milhares de indígenas, não só impediu a continuidade da economia de apresamento dos paulistas, como se tornou algo absolutamente incomodo para as coroas ibéricas. O todo poderoso ministro português de Dom José I, o Marquês de Pombal, tinha calafrios ao ouvir falar em jesuitas. Nutriu por eles ódio mortal por toda a vida e não poupou esforços para acabar com a ordem religiosa.

As coroas temiam que a região das missões se tornasse uma estado rebelde, nem espanhol, nem português, religioso, com gestão autônoma. Essa foi a gota d’água, a sentença de morte para as missões. Em uma situação inusitada – por conta dos séculos de guerras e disputas um com o outro – os exércitos de Portugal e Espanha atacaram conjuntamente as missões. Da resistência indígena surgiram inúmeros mitos, entre eles o de Sepé Tiarajú, lider indíegan que comandou os guaranis até mesmo após a destruição das missões.

Em verdade, boa parte da resistência indígena se deveu ao medo profundo de que o encerramente das missões decretasse a escravização de milhares e milhares deles (temor justificável e plenamente comprovado).

Muitos indígenas conseguiram fugir e se internar em regiões ainda mais distantes, mas os Sete Povos desapareceram como estrutura, como sociedade.

Certa vez, conversando com Alfredo Bosi, lhe perguntei o que significou a expulsão dos jesuítas das Américas, e ele respondeu: Uma perda incomensurável nas artes, nas letras, na ilustração que se configurava com os indígenas.

Bosi tem absoluta razão. Embora a ação religiosa jesuitica tenha desarticulado as sociedades indigenas tais como eram ate então – mas disso não tinham a mesma concepção do que nós, hoje – o esforço empreendido para com os indígenas foi não só para a catequeze, mas para a construção de uma civilização, que, diante do que ocorria no restante do continente com os indígenas, era uma ação transformadora e, talvez por isso dizimada, em grande medida “subversiva” diante dos olhos das coroas ibéricas.

Nos campos do interior do Rio Grande do Sul repousam as ruinas de Sete Povos, um dos episódios mais dramáticos e comoventes da história das Américas, onde sonho e pesadelo se sucederam com intervalo de poucas décadas. Patrimônio histórico protegido, preservado, guarda em suas paredes caidas, tetos destruídos, o testemunho da fúria que se abateu sobre as missões e da resistência digna, ainda que ineficaz, dos guaranis.

Sítio histórico brasileiro, administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, Sete Povos das Missões merece ser conhecido por todos, e diante daqueles esqueletos de pedra conduzir a imaginação ao século XVIII, numa reverência as histórias, a grande e as pequenas, das vidas de cada um dos indigenas e religiosos que viveram e morreram ali.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História Moderna, História da América Latina, História da cultura, História do Brasil, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , , ,
02/07/2009 - 07:16

“Nova Luz” é golpe na cidade de São Paulo

Em breve começará um dos mais escancarados golpes envolvendo o poder público e grupos inescrupulosos (para não dizer mais do que isso) do setor imobiliário em São Paulo. Esse golpe vem disfarçado, vem com embalagem para presente e cheio de pirotecnias envolvendo a “revitalização” do bairro da Luz, ou da Cracolândia como conhecemos mais claramente.

 

Já escrevi aqui em algumas outras ocasiões, mas vou repetir: o modelo de “requalificação”, “reurbanização” ou seja lá como desejem chamar, do bairro da Luz é elitista, voltado para a criação de um conjunto de monumentos para o usufruto de uma parcela irrisória da população paulista, não reintegra a região à cidade, não propõe usos cotidianos para a mesma, exclui e acentua a marginalização da população local e incentiva a saída daqueles que já estão lá de modo organizado e produtivo, como comerciantes e alguns moradores remanescentes. Em suma, é um fracasso em termos de política de gestão do patrimônio cultural, de reurbanização, de gestão pública.

É claro, se você deseja uma cidade cenográfica, mantida a custos astronômicos pelo poder público e dedicada a menos de 10% da população, ok, este é o seu modelo. Não é o que eu, particularmente, acredito.

Depois das obras da Pinacoteca, da Sala São Paulo, da Estação Pinacoteca, da Estação da Luz e do Museu da Língua Portuguesa, agora prefeitura e governo do estado promovem novo avanço no processo de espoliação da cidade através das iniciativas da chamada “Nova Luz” e do “Palácio da Dança”.

Antes que alguém pense algo equivocado vou ser direto: acho que temos sim que ter cada um desses bens na cidade, o estado deve sim investir em música erudita, artes plásticas, dança, etc, etc. Não sou contra a participação da iniciativa privada. Mas tudo tem que ter um “como” e um “porque”.

O fato é que depois de milhões e milhões de reais em investimento a região continua sendo um bolsão de miséria e degradação humana, ampliado graças ao efeito “sinuca”. O primeiro choque promovido pelo estado nos usuários de drogas e traficantes da região não só não extinguiu o problema como o espalhou pelas ruas do entorno, aumentando a área da Cracolândia. As obras executadas na região – como os museus e salas de espetáculo – não promoveram uma reocupação do bairro, mas somente um uso exclusivista dos muros para dentro. Do lado de dentro da Sala São Paulo você tem taças de champagne, os melhores músicos do mundo, e janelas com vedação para que o “público” não veja o que há do lado de fora. Evita que o pivete cole seu rosto na vidraça ou que afronte a “moral e os bons costumes” que imperam do lado de dentro. Ao final de cada espetáculo a audiência desce ao subsolo e pega seus carros, indo embora sem ter tido qualquer forma de interação com o bairro. A Sala São Paulo, tal como foi pensada e como opera, poderia ser até em Marte que nenhuma diferença faria.

Em doses maiores ou menores a mesma situação se repete com cada uma das demais obras que custaram as burras aos cofres públicos. Menos mal o Museu da Língua que é fantástico e foi bancado em parte significativa pela iniciativa privada, além de atender ao público escolar.

O projeto “Nova Luz” deveria ter o complemento: “velha especulação imobiliária”.

De novo não tem nada, o oportunismo e a prevaricação do poder público são tão velhos quanto o próprio estado.

O projeto simplesmente transfere à iniciativa privada o direito de exploração de um enorme quadrilátero privilegiadíssimo, incluindo o direito a desapropriação de imóveis. Quando este bloco urbano estiver “requalificado” ou “revitalizado” ele terá, nada mais, nada menos, do que duas estações de metrô de linhas distintas (azul e amarela), duas linhas de trem, dezenas de linhas de ônibus, acesso fácil à marginal Tietê e a avenida do Estado, a vizinhança da Sala São Paulo, da Pinacoteca, do Museu da Língua e do futuro Palácio da Dança. Estará a dez minutos de metrô da avenida Paulista, cinco de São Bento ou da Liberdade, vinte da USP e da Faria Lima, e quinze do Mackenzie, da Vila Madalena ou da Oscar Freire. Quase nada não é?

Mas a prefeitura está trantando o assunto como “uma questão social”, de “inclusão”, de “revitalização”. Nomes outros para pura especulação imobiliária e para o assalto dos contribuintes paulistas e paulistanos.

E a que preço para a iniciativa privada que fará essa “grande caridade” para a cidade de São Paulo? Quase nada, pois comprará os direitos de “revitalização” da Cracolândia, a região mais mal afamada da cidade. Ou seja, o poder público estará passando a região que mais atraiu investimentos estatais em cultura e transporte para a iniciativa privada pelo preço de um “bolsão de miséria, violência e dependência química”. Ouro a preço de lixo.

Mas isso tudo tem passado sem qualquer maior rumor da sociedade ou da mídia. Tudo em nome da cultura, das artes e da recuperação da Cracolândia.

Os comerciantes do bairro estão parcialmente divididos: quem está fora da zona delimitada está mais otimista, quem está dentro teme que sejam” desapropriados” em nome da revitalização. O mais terrível é que a prefeitura alega que ela “fiscalizará” e “determinará” os rumos da região, isso mais me assusta do que tranquiliza. Afinal os interesses das pessoas se misturam na confusão e na prevaricação do poder público com a iniciativa privada. Em nenhum momento a sociedade civil foi chamada a opinar ou a questionar o processo ou os méritos dele.

O governo do estado de São Paulo entrará com sua parcela, construíndo o Palácio da Dança, em frente a Sala São Paulo, investindo outras tantas dezenas de milhões.

Enquanto isso varrerão os “indesejáveis” para alguma periferia, ou outro recanto do centro. Se vierem moradores para a Luz serão de altíssimo padrão, e não da enorme parcela que luta para que seja dada uma destinação social aos imóveis trancados e emparedados há décadas.

A massa de ”indesejáveis” irá servir novamente aos interesses da especulação imobiliária, pois irão colaborar para formar a má fama de alguma outra região, a qual poderá ser igualmente loteada a iniciativa privada em prol da “recuperação urbana”. E utilizarão a Luz como “exemplo” de boa solução, de “sucesso”, assim como Puerto Madero na Argentina.

Com tudo isso nem a  cidade ganhará nada, nem o patrimônio cultural será valorizado, nem haverá inclusão social, nem o término do tráfico e do consumo de crack. Quem já tem muito terá ainda mais, quem não tem continuará não tendo, ou terá ainda menos, pois se trata de desvio do bem público, e a cidade continuará com suas áreas degradadas, por incompetência, por descaso ou por puro maquiavelismo diabólico de gente voraz por dinheiro sujo.

Não é isso que chamo de “revitalização”. Revitalização significa trazer novamente a vida, não decretar definitivamente a morte de uma região.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História de São Paulo, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , , , ,
20/06/2009 - 07:00

“Tesouros-Bibliotecas”

Muito se falou nos últimos anos, com a difusão das tecnologias digitais, do fim do “livro impresso”. As infinitas possibilidades que o universo digital proporciona funcionaram como um lampejo, um estalo, que para alguns foi a epifania, o sinal da revolução do texto. Mas os livros estão aí, e já passaram por inúmeras “revoluções” e várias vezes se decretou seu fim, sem que isso jamais tivesse ocorrido.

 

Uma prova cabal, e fantástica, disso são as “Bibliotecas-Tesouro”. Coleções de valor inestimável que reunem textos escritos em épocas diversas, em suportes diversos, além de manuscritos, pergaminhos e outros tipos de materiais. Através dos acervos dessas bibliotecas é possível se acompanhar a história da escrita até bem próximo de seu surgimento. Se somarmos, então, as coleções de alguns museus pelo mundo (que guardam, por exemplo, as famosas tabuletas de argila com escrita cuneiforme, pois era feita com varetas em “cunha”) então teremos algo bem próximo do todo.

No Brasil temos algumas dessas bibliotecas, as quais possuem obras mais antigas do que nosso próprio país. Dentre elas destaco duas, das quais gosto particularmente: a Biblioteca Nacional e a Brasiliana da USP (sobre a qual comentei na postagem anterior).

Nossa Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, tem uma história digna de livro de suspense. Em meados do século XVIII a cidade de Lisboa sofreu um terrível terremoto que a devastou. Entre milhares de mortos e de prédios destruidos encontrava-se também a biblioteca dos reis de Portugal. Parte significativa de seu acervo foi perdida no trágico acidente. Na reconstrução da cidade e de seus prédios, que foi feita dentro de um grande plano de reforma, a monarquia decidiu reerguer a biblioteca e dotá-la de um acervo tão impressionante quanto o que fora perdido, como símbolo da sobrevivência e da superação portuguesa.

Em 1808, quando a família real portuguesa deixou Portugal e transferiu a sede da monarquia para o Rio de Janeiro a biblioteca veio junto, ou melhor, parte dela. A outra parte foi esquecida no meio da correria em caixotes no porto. Esse restante somente viria anos depois para se reintegrar ao conjunto.

Remontada ela ganhou nova casa no Rio de Janeiro e quando Dom João VI retornou a Portugal ela acabou ficando com o Príncipe Regente Dom Pedro. Mas, daí vai que este declarou a independência do Brasil e a biblioteca foi ficando, ficando, depois a perda foi indenizada a Portugal e ela se tornou o gérmen de nossa Biblioteca Nacional, da qual vai o “sítio” de internet: http://www.bn.br/portal/

Nela há tesouros fantásticos e certamente é uma das bibliotecas mais importantes do mundo.

A Brasiliana da USP se formou a partir da criação do Instituto de Estudos Brasileiros (o IEB) por Sérgio Buarque de Holanda e a qual foi anexando acervos particulares como os de Mário de Andrade, Guimarães Rosa entre outros. Incorporou-se também a Coleção Lamego, formada por textos medievais. Recentemente o IEB recebeu a guarda da Biblioteca Guita e José Mindlin (de 40.000 volumes raros) a qual se uniu parcialmente a já existente na instituição, das duas surge a Brasiliana, outra digna do título de “patrimônio cultural”, os recursos digitais (que somam esforços, não acabam com os livros) possibilitam a consulta em qualquer parte do mundo: www.brasiliana.usp.br

Pelo mundo a fora existem outras ainda mais incríveis, como a famosa Biblioteca do Vaticano. Além de suas coleções raríssimas que incluem não só textos cristãos, mas de muitos outros credos e povos, a aura de mistério garante sua fama. A existência de arquivos secretos desperta há muito a curiosidade e as especulações de curiosos e pesquisadores. Em verdade boa parte desses “arquivos secretos” é composta por textos que se chocavam com a doutrina católica e que foram mantidos distantes do público durante os períodos de controle da igreja sobre o trânsito de informações através da leitura. Muitos deles já não são mais “secretos”, mas há os que ainda são, e poucos sabem efetivamente tudo o que há lá dentro. A biblioteca, como se pode imaginar, foi formada por séculos e séculos de aquisições, o que lhe garante o título de biblioteca mais importante do mundo ocidental. Para quem quiser dar uma olhadinha (inclusive nos “secretos”) ai está o endereço:  http://www.vaticanlibrary.va/

Na França há a Biblioteca Nacional, também oriunda de acervos do período real –  http://www.bnf.fr/ -. Suas origens remontam o século XIV, no reinado de Carlos V, o Sábio, o qual mandou instalar o início da coleção no Louvre. Sua coleção contava com 917 manuscrutos, que, infelizmente se dispersaram. A biblioteca foi recuperada a partir de 1461 e é dessa que nasce a atual.

Um dos desafios das “bibliotecas nacionais”, como a da França e a do Brasil, é o crescimento de seu acervo, pois recebem um exemplar de cada livro publicado em seus respectivos paises. Ou seja, um crescimento exponencial.

O mesmo ocorre com outras duas bibliotecas fantásticas: a Britânica e a Alemã.

A britânica - http://www.bl.uk/ - e a Alemã – http://www.d-nb.de/eng/index.htm - também possuem acervos incríveis, dedicados em grande parte aos textos de suas respectivas línguas.

Uma biblioteca que merece menção, embora não seja uma biblioteca de “raros”, é a Alexandrina, tentativa contemporânea de restaurar a antiga Biblioteca de Alexandria, mítica e incendiada durante a invasão árabe em meados do primeiro milênio da Era Cristã. Seu endereço é -  http://www.bibalex.org/English/index.aspx - especial atenção para sua arquitetura arrojada e para a audaciosa missão de reunir o conhecimento universal.

Por fim, a não menos famosa Biblioteca do Congresso dos EUA:  http://www.loc.gov/index.html

Criada em 1800 pelo presidente John Adams a Biblioteca do Congresso cresceu graças aquisição de coleções de diversas partes, entre elas as de alguns brasileiros. Com sua austeridade com cara de estadosunidense do período da Independência, seu acervo é impecável, e rígido no uso.

Em qualquer um dos casos, e poderíamos incluir ainda as bibliotecas budistas, as dos islâmicos, ou a do Japão, a conclusão é a mesma: os livros ainda são o símbolo maior de uma “cultura literária”, estabelecido há mais de 2000 anos, são também o suporte de texto mais estável que conhecemos além das pedras, por isso duram e graças a sua raridade e beleza tornaram-se verdadeiros tesouros que povoam nosso imaginário. E certamente não será a cultura digital que diminuirá nosso interesse por eles.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , , ,
17/06/2009 - 07:00

Nem tudo na USP é crise e pancadaria

Em tempos de crise universitária, de choque no Campus, de pseudo-alunos reinvindicando sabe-se lá o quê, é difícil convencer a sociedade de que a USP é um espaço sério, importante e que justifica – e muito – o alto investimento realizado pelo Estado nela. Mas, para o bem de todos – pois é a sociedade que ganha – há lampejos de lucidez e fatos que nos lembram porquê aquilo – a universidade – é um patrimônio, uma vitória da sociedade brasileira conquistada há décadas e que deve ser melhorada, ampliada, aperfeiçoada, apoiada, não jogada no lixo por meia dúzia de pessoas que nada contribui para a instituição ou para a própria sociedade.

 

Ontem a tarde ocorreu no auditório do Masp – o Museu de Arte Moderna de São paulo – o lançamento da etapa digital da “Biblioteca Brasiliana da USP” a qual une o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros – uma das unidades da USP – com a Biblioteca Guita e José Mindlin. O acervo do IEB/USP por si só já é um patrimônio nacional de valor inestimável: nele se encontram as bibliotecas e coleções pertencentes a Mário de Andrade, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Ernani da Silva Bruno entre tantos outros. É um tesouro que pertence a sociedade brasileira.

A Biblioteca Mindlin, por sua vez, não fica atrás: reune aproximadamente 40.000 volumes, todos raros, lindos, inestimáveis, impecáveis, reunidos pelo bibliófilo José Mindlin e sua esposa Guita ao longo de 80 anos. Mindlin, ele próprio um uspiano de primeira hora, foi aluno da Direito São Francisco nos primeiros anos de incorporação a USP, e Guita (falecida ainda nos anos de 1990) decidiram em concordância com seus filhos – eles também uspianos – ceder este inestimável patrimônio à sociedade brasileira, entendendo que esta era a melhor e mais justa destinação de acervo tão impressionante. Um ato, diga-se de passagem, de uma generosidade, de uma grandeza incomum entre o empresariado brasileiro – que via de regra, e diferentemente dos EUA, pouco ou nada contribuiu com nossas universidades. Esta coleção, que agora estabelece a biblioteca universitária mais importante do Brasil e uma das mais importantes do mundo, recebeu o nome de “Brasiliana”, e está a espera da conclusão do prédio que irá recebê-la no próximo ano.

Mas, tanto a Biblioteca Guita e José Mindlin quanto o acervo do IEB exigiam uma coisa, para possibilitar o acesso aos livros, que nem todos tem: poder se deslocar pessoalmente até o acervo.

Agora, com um moderníssimo sistema de digitalização esse acervo está pouco a pouco sendo franqueado a qualquer ser humano, de qualquer parte do globo, sem qualquer exigência, desde que ele possua um ponto de acesso a internet. Na Brasiliana Digital – projeto de invejar nossos amigos franceses e “gringos” – o viajante virtual pode ler os livros com a cara que eles tem, na ordem emq ue foram escritos, com os erros, correções, cores, falhas. Pode ver as imagens, copiá-las, se apropriar de partes do texto, copiar o livro todo e re-imprimí-lo em sua casa. Só falta o inconfundível odor dos livros. E o mais importante: livre, livre, absolutamente livre.

Pode parecer inexplicável minha ênfase na condição “franca” do acervo digital, mas há menos de dois anos, quando solicitei cópias digitais de pranchas de livros da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo a “dona do acervo” que me atendeu disse que isso não era permitido, pois tal difusão de informações teria colaborado para os ladrões que furtaram o acervo meses antes. Mas, é claro, se eu pagasse a história mudava…

Apesar do acervo da Biblioteca Mario de Andrade ser “público” eu, como cidadão, fui impedido de acessá-lo e empregá-lo em pesquisa. Porquê? Simplesmente porque um patrimônio “público”, de propriedade de todos os brasileiros, havia sido tomado por uma quadrilha como objeto pessoal, alvo de mandos e desmandos sem critérios, a não ser o das conveniências e das pequenas corrupções.

Há um princípio que rege tudo o que é único, que é raro: quanto mais difuso, quanto mais reproduzido menos risco corre de desaparecimento. Isso vale para espécies biológicas e vale para livros, informações, arquivos. Por isso, se quer garantir que algo chegue às próximas gerações reproduza ao máximo, garanta o mais livre acesso às cópias.

Ao final do evento fui cumprimentar meu antigo professor (e orientador), hoje coordenador da Biblioteca Guita e José Mindlin, Prof. Istvan Jancsó. Me perguntou ele: E aí? O que achou?

Respondi: “Hoje a USP conseguiu recuperar um pouco do meu respeito perdido por ela.”

Daí ele riu e disse que sempre fazemos isso. Ele sabe que não é bem assim, mas alí, não era hora de cobrar mais justamente quando parte da universidade faz um gesto de ir ao encontro da sociedade e do mundo moderno. Sem contar, obviamente, o esforço pessoal que Istvan e sua equipe fizeram para viabilizar o recebimento da Biblioteca Mindlin.

A potencialidade desse acervo é inesgotável. Como alguém que trabalha com patrimônio cultural imagino que bem gerenciada durante anos a Brasiliana pode realmente fazer algo que as humanidades da USP nunca conseguiram efetivamente: cumprir seu papel de parceira da sociedade brasileira para além da cômoda justificativa de que formamos “professores e pesquisadores para a sociedade”.

No mais, isso é prova de que, como sempre e como diria o poeta: Eles passarão, eu passarinho.

Ou na frase do sábio Mindlin: Nós passamos, os livros ficam.

É essa universidade que deve ficar.

 

E aí vai o endereço do “sítio”, como diriam meus amigos lusitanos: www.brasiliana.usp.br

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , ,
15/06/2009 - 06:55

O Ministério da Cultura e a Irmã Dulce

Tenho acompanhado de perto as discussões a respeito da reforma da Lei Rouanet, a qual acho muito importante (tanto a reforma quanto a lei). Semana passada mesmo fui assistir o debate com o ministro da cultura aqui em SP, do qual o “colega de blog” Claudio Abramo também participou.

 

O fato é que é impossível chegar a um consenso absoluto a respeito do novo formato da lei, mas, por outro lado, também é possível se adotar princípios e procedimentos que acabam com práticas que incomodam a grande maioria dos envolvidos na área, e incomodariam também a parcela esmagadora da população se esta soubesse o que ocorre. Um desses “itens” é o da figura do “captador” de recursos, em verdade um lobbysta profissional, especializado em bater de porta em porta das grandes empresas (em geral naquelas que possui alguns contatos) e apresentar projetos que quase nunca criou e que não irá executar. Com isso recebe 10% do valor captado – permitido pela lei – quando não outros valores repassados por debaixo do pano pelos interessados em captar recursos para seus projetos, isso quando os próprios funcionários das empresas não recebem “agrados” para escolher este ao invés daquele projeto para destinar seus recursos (ou melhor, do Estado). Outro aspecto que deve – ou deveria – acabar é o da escolha dos projetos a serem incentivados pelas empresas, sendo que o valor entregue é do Imposto de Renda sobre pessoa jurídica, portanto dinheiro público. O terceiro aspecto que deveria ser erradicado é o do desequilíbrio entre as áreas da cultura envolvidas: cinema e música, atualmente, representam a parcela do “leão” das captações. Menos de 20% é distribuído entre todo o restante das atividades que você possa imaginar, de publicação de livro à restauro de bens históricos, de arqueologia à circo.

O MinC reconhece estas distorções e propôs uma reforma de lei que pretende diminuí-las em alguns casos e erradicá-las em outros. Não penso que a Rouanet, desde que foi criada, somente beneficiou “artistas consagrados”, como outro colega de blog, Regis Bonviccino, escreveu. Projetos sérios, de gente sem tanta projeção assim, ou que ganhou projeção a partir do investimento, se beneficiou da lei Rouanet. Mas ele tem razão quando diz que se investiu absurdamente em casos patéticos, humilhantes mesmo para o MinC e para a nação, como o do Bradesco-Cirque (o qual vendeu ingressos a R$300,00 e captou milhões no banco, que debitou isso do IR devido ao governo, investiu esses recursos numa empresa canadense, o Cirque, e que, ainda por cima, utilizou o circo para sua publicidade institucional).

Também é fato que o MinC – ou boa parte dele – confunde “cultura” com “artes do espetáculo”. Décadas foram gastas para esclarecer a diferença entre as duas, mas o ministério se faz de desentendido com relação a isso. As artes compõem o universo da cultura, mas não é a mesma coisa nem o esgota. Ou seja, quase todo o dinheiro investido em “cultura” na realidade foi para “espetáculos”, não para “cultura”.

A respeito do conceito de “cultura”, já o discuti aqui outras tantas vezes.

Mas, sinceramente, essa confusão – ou “aparente” confusão, nunca sabemos o que há por trás – tem implicações muito sérias. A declaração que Juca Ferreira fez esta semana dizendo que o MinC não tem vocação para “Irmã Dulce” é ofensiva e descabida, além de trazer em seu bojo relações pessoais que não são condizentes com pessoas que ocupam cargos públicos.

Dizia o ministro que não há na atual lei critérios que proibam artistas consagrados de serem beneficiados por ela, portanto, não haveria ferramentas legais para impedir que artistas como Caetano Veloso recebecem seus incentivos (ele solicita auxílio para sua turnê nacional). Reconhecia o ministro que Paula Lavigne, produtora e ex-esposa de Caetano, lhe telefonou para pedir esclarecimentos a respeito da negativa da comissão que avalia os projetos.

Claudio Abramo poderia discorrer com mais propriedade a respeito dessa questão, mas eu, na minha humilde condição de historiador – que trabalha cotidianamente com a “preservação do patrimônio cultural brasileiro” –  me senti profundamente ofendido enquanto cidadão por essa prevaricação assumida entre a esfera pública e a privada.

A negativa foi feita por um órgão técnico, o qual deveria ser soberano em suas decisões, cabendo recurso apenas de modo formal. Gostaria de saber se eu, por acaso, tivesse um projeto de proteção ao patrimônio arqueológico negado pela comissão poderia tomar o telefone e a liberdade de ligar para um ministro de Estado para “pedir esclarecimentos”? Isso me parece, no mínimo, anti-ético, com tendência a degenerar em ilegalidade. Ou seja: é assunto sério e que envolve uma forma de desvio de dinheiro público para a iniciativa privada, pois, nesse caso, o ministro tem poder de isoladamente reverter a decisão da comissão e considerando uma forma de pressão direta do privado sobre o público.

Diz o ministro: O show de Caetano sairia pela metade com o incentivo segundo seus produtores.

Mas, oras, Caetano já é acessivel a quase toda a população brasileira, e mesmo sem incentivo seus shows estarão lotados, e mesmo que muitos não possam pagá-lo não faltariam oportunidades para vê-lo “na faixa” em shows abertos em qualquer lugar do Brasil. Se querem torná-lo mais acessivel porque não se exige a realização de shows públicos da turnê em troca do incentivo? Simplesmente o barateamento não é justificativa. A rede SESC faz muito mais do que isso sem dar cambau no dinheiro da Rouanet (embora tenham benefícios das leis para redirecionarem valores gerados pelo comércio).

O lado ofensivo, ao qual me referi, da declaração do minsitro associa artistas bem sucedidos à concessão de benefícios e artistas “supostamente” mal sucedidos que não deveriam ter beneficios. Se não foi o que quiz dizer, foi o que acabou dizendo. Mas, voltando ao caso da arqueologia, que é uma área complexa em termos de “público”: vamos supor que estejamos necessitando de recursos para preservar uma coleção de objetos líticos (ferramentas de pedra ou o refugo da produção destas), que são importantes para a memória dos povos que ocuparam estas terras antes de nós, será que o MinC nos negaria apoio simplesmente pelo fato de que não “somos bem sucedidos” com o público? Porque não estamos na mídia? Não damos visibilidade? Será que se eu ensinar minha equipe a cantar Sampa ou Tigresa enquanto escava eles me concedem a benesse federal? Ou se ligar para Juca Ferreira me fazendo passar por “velho amigo” para pedir “esclarecimentos”?

Mas a ofensa vai mais longe, pois trata a cultura como uma área de “fortes” e “fracos” (ou o termo “Irmã Dulce” não se referiu a caridade?), e, como no filme, “os fracos não devem ter vez”. Oras, não sou dos que pensam que a única possibilidade de trânsito cultural é no “mercado de cultura”, posso citar dezenas de exemplos de como tanto as culturas quanto a produção artística independente são resistentes, mas, também não vamos nos iludir e pensar que certos produtos ”artísticos” (confundidos sempre com “cultura”) são tão difundidos não porque são “mercadorias” vendidas por grandes empresas que contam com aparatos midiáticos poderosíssimos, mas porque são incrivelmente bons e universalmente compreendidos. Se for assim vou quebrar meus CDs da Banda de Pífanos de Caruaru e correr comprar a coleção completa da obra do KLB. Se o critério que o MinC e o ministro usam para determinar quem pode ou não receber incentivos é o “sucesso”, ou uma interpretação disso, então pronto, como diriam em algumas regiões do nordeste: é a eugenia cultural e artística estabelecida, a limpeza racial através da seleção dos mais “fortes”.

No dia do debate saí bastante decepcionado, pois nada de novo foi acrescentado, apenas um ato político para uma platéia que ouviu o que queria ouvir. Depois da entrevista de Juca Ferreira fiquei seriamente preocupado com a possibilidade de piora nos rumos do investimento em cultura, afinal de contas, com o MinC administrando ele próprio os recursos e seus critérios de distribuição de investimento tão “personalistas”, o que impede que Paula Lavigne ou qualquer outro produtor ligue para “um velho amigo” para “apenas” pedir “esclarecimentos”?

Não que imagine que isso não ocorra já, nem que nunca tenha ocorrido, mas quando um ministro de Estado diz isso publicamente e acha absolutamente normal, é sinal de que as coisas pioraram…

 

 

PS: A respeito de outro assunto, mudando de “pato para ganso”. Professora Anabelle Loivos me avisa que o site oficial do projeto “100 anos sem Euclides da Cunha” está no ar, segue aí o link novo, que também está na postagem a respeito do escritor:  http://www.projetoeuclides.iltc.br

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , ,
15/05/2009 - 07:26

O direito ao esquecimento

Uma das afirmações que mais ouvimos a respeito da sociedade brasileira é que somos um país sem memória. Isso, na realidade, me parece que até diminuiu um tanto nos últimos anos – a afirmação constante de nossa suposta ausência de memória -, mas continua a ser bastante dita, ou insinuada.

 

Tanto quanto a afirmação de que não temos memória é insistente a afirmação de que o Brasil despreza sua história, que não tratamos como devemos nosso patrimônio, etc., etc.  É claro que aí há uma mistura, certa confusão, entre o que é história e o que é memória e do quanto as duas estão imbricadas, mas operam de modos distintos e com funções específicas. Desse tema, aliás, tratei inúmeras vezes aqui.

Há uns dois anos eu fazia um curso de gestão de patrimônio cultural quando numa das aulas o arquiteto/professor relatou uma história curiosa: numa certa cidade do sul do Brasil, para a qual ele prestava consultoria na elaboração de seu plano diretor, a população desejava que uma antiga mina da cidade, já desativada, fosse aterrada e sobre ela criado um parque público. O arquiteto achou isso um horror, um atentado contra a história coletiva, contra a memória, contra o passado de gerações de trabalhadores de lá. Propôs que, ao invés de ser aterrada, a mina fosse transformada num espaço de memória, um museu cênico, ao ar livre. A população recusou.

Na aula o arquiteto continuava a manifestar sua indignação diante de tal “barbárie”, exemplo da “ausência” ou “desprezo” pela memória e pela história características da sociedade brasileira.

Eu, que trabalho cotidianamente com isso, e que tenho como obrigação transitar por entre as populações e mediar os interesses e desejos de grupos diversos noq ue toca a questão do patrimônio cultural, tive de discordar do “Caro colega”.

Não é somente no Brasil que há um “partido da memória”, muito ativo, muito militante, composto por todo tipo de pessoa que defende a preservação da memória a qualquer custo, e quase sem critérios. Nos países europeus, no Japão, no Oriente Médio, sempre há um grupo defendendo a “preservação da memória”, mesmo que sem refletir muito a respeito disso.

Com frequencia me pergunto: Se a memória é constituida em um processo social, que envolve dimensões pessoais e coletivas, mas que depende profundamente do equipamento “cérebro” (e hoje, talvez, até de outras partes do corpo, como as pesquisas vêm indicando), como é possível deliberar-se assim tão pragmaticamente, objetivamente sobre a “preservação da memória”?

Em geral as pessoas confundem a preservação do patrimônio histórico, cultural, artístico, paisagístico, etc, etc, com “preservar a memória”. Proteger esses “marcos” não implica necessariamente que alguma memória seja preservada, afinal das contas as memórias existem somente enquanto as sociedades vivem, e morrem com elas. Sem os humanos não há memória alguma. Portanto, preservar um prédio, uma praça, uma mina não significa que há alguma garantia de que uma suposta memória daquilo será guardada.

Mas também há o problema da plasticidade das memórias. Faça um teste “caseiro” e pergunte aos presentes de uma festa de um ano atrás o que cada um se lembra dela, quais sensações sentiu, como as pessoas estavam vestidas. Invariavelmente “Tia Fulana” estava agradável, linda e feliz para uns e “reservada, triste, chata como sempre” para outros, e isso não é algo verificável, não é um dado objetivo, é uma “percepção” a respeito de algo, que é seletiva e filtrada pela própria pessoa que guarda a informação em sua memória.

Contudo, e apesar dessas “questões menores”, não foram esses os temas da minha contraposição às colocações do arquiteto/professor.

Para isso vou lembrar (para usar um termo adequado a esse tema) uma história batida de um conto de Jorge Luis Borges (batido é o uso do conto, não o conto do genial Borges em si…antes que algum argentino me acuse de ser “despeitado”). Borges escreveu um conto chamado “Funes, o memorioso”, a respeito de um cidadão que tinha uma memória impressionante, capaz de guardar todos os detalhes de tudo que já havia visto na vida. Lembrava-se de expressões de rosto de pessoas, de detalhes de cada folha de árvore, de cada fala, e isso era um verdadeiro pesadelo. O fato é que tão ocupado com o “lembrar-se” não sobrava tempo, nem disposição, para as outras atividades cerebrais, como a de “criar”. No mais, desconfiava-se que Funes fosse mesmo pouco dotado de inteligência.

Vejo as sociedades como “Funes coletivos”, e sua capacidade de sobrevivência, de criação, de existência cotidiana, depende dos graus com os quais mesclam lembranças e esquecimentos. Se não fossemos capazes de esquecer estaríamos muito provavelmente ainda cortando animais caçados com lâminas de pedra lascada.

Diante disso disse ao arquiteto que se as pessoas da comunidade queriam “esquecer” sua mina, esse desejo deveria ser respeitado, e ainda mais por ele que nada tinha a ver com a história. Um direito sonegado aos povos, aos grupos sociais, é o do “esquecimento”.

Esquecer-se é um ato necessário para a sobrevivência, o excesso de lembranças emperra a vida, gera recalques, ressentimentos (o “sentir novamente” e novamente, e novamente). Episódios dolorosos – guerras, surtos de doenças, tragédias naturais – não devem ser “forçosamente esquecidas” pelo desejo de grupos políticos, mas também não precisam ser “obrigatoriamente lembradas” por setores isolados. Certamente, no caso da mina, muita dor envolveu a história das famílias locais e do trabalho de extração, o que provavelmente desencadeou o desejo de, literalmente, “enterrar o passado”.

Que direito temos nós de dizer que eles não podem esquecer algo de sua própria história?

É claro que isso é uma situação específica, e cada situação dispõe novas peças no tabuleiro. As vezes algumas sociedades querem apagar traços que lembrem a história de outras sociedades, como no caso da explosão dos Budas gigantes no Afeganistão pelos talebans.

E há casos ainda mais polêmicos, como a construção de um memorial ao Holocausto no centro de Berlin, o que é terrível para muitos alemães, ou a manutenção de antigos campos de concentração no leste europeu. Uns tem o direito de lembrar, mas outros também tem o direito de esquecer, senão partimos de uma premissa de que tudo que cada povo fez ao longo da história deve ser acumulado, armazenado, lembrado e levado ao tribunal do Juizo Final.

Por mais paradoxal que possa parecer, defendo hoje radicalmente o direito dos grupos humanos de decidir pela lembrança ou esquecimento de elementos de seu passado.

No final, não creio também que a sociedade brasileira seja ”sem memória” ou despreze a história. Tenho para comigo que a história é uma das ferramentas fundamentais para a existência das sociedades, pois é ela que – através da transmissão, geração a geração – nos dá os parâmetros pelos quais nos inserimos no mundo. Basta conversar com um caboclo, ou um sertanejo qualquer que verá o quanto conhece da história que lhe é importante: de seu local, de seu ofício, de sua família. Também verá que tem muita memória. Mas, muito provavelmente, desprezará ou nada conhecerá da chamada “história oficial”, cheia de nomes, eventos, datas, relações, pois essa, para ele, não faz a menor diferença.

E se solicitado a contar a sua história dirá, como muitas vezes ouvi: Eu não conheço nada de história.

Conhece sim, mas prendeu a vida toda que história é somente aquela que é contada nos colégios, ou aquela que o caso arquiteto quer manter a força sobre uma comunidade.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , ,
14/04/2009 - 07:00

Cracolândia: revitalização estética sem inclusão social

 

A bucólica cena do Jardim da Luz no final do século XIX é um exemplo do quão imprevisível é o futuro e de quanto podemos piorar as condições humanas, sobretudo nas grandes cidades.

 

Nos últimos dias uma série de reportagens vêm explicitando a sociedade o que o cidadão que trãnsita pela região da Luz já sabe há muito: os midiáticos projetos de revitalização do bairro, a extinção da Cracolândia, a humanização da região não passaram de promessas eleitoreiras e investimentos estatais e privados pesados feitos para conceder acesso à cultura àqueles que já a tem, e muito.

A região da Luz até o século XVIII era conhecida como Guaré e, em verdade, pouco mais era do que um imenso campo, com manchas de bosques nos quais a população paulistana ainda ia caçar. Quando participei das escavações ao lado da Estação da Luz, em 2006, no local onde esta sendo construída a estação Luz da Linha 4 – Amarela do Metrô, encontramos em um depósito de dejetos, no meio de potes de sal da Holanda e de aguardente, provavelmente do século XIX, espinhos de porco do mato junto com ossos de boi, o que indica que nessa época a alimentação do paulistano ainda era completada com caça. Caça obtida, muito provavelmente, nos campos do Guaré.

A Luz manteve seu aspecto “rural” durante muito tempo, inclusive esse foi um dos motivos que levaram à construção do Jardim da Luz, aproveitando os bons ares da região. A ocupação dessa área começou a mudar quando no século XVIII Frei Galvão obteve autorização do governador de São Paulo, Dom Luis de Souza Botelho Mourão, para abrir um convento ali.

Apesar da proibição na época pela Coroa portuguesa de abertura de novas casas religiosas – por influência direta do Marquês de Pombal, o anti-clerical ministro todo poderoso de Dom José I – Frei Galvão obteve a autorização e começou a construção do convento, parte do qual se encontra ainda lá hoje (local onde encontraram as freiras mumificadas no início do ano passado).

Com a construção do convento – dedicado a Nossa Senhora da Luz – a região passou a ser conhecida pelo nome que carrega até hoje. No final do século XVIII outro governador de São Paulo criou ali um local para feiras livres, as quais ficaram conhecidas como “Feira de Pilatos” (apelido do governador), o que também animou a região.

O caminho que ligava o centro da cidade – região do Mosteiro de São Bento – a Luz era conhecido como Caminho do Guaré, hoje o conjunto das ruas Florêncio de Abreu, Brigadeiro Tobias e avenida Tiradentes.

Quando a São Paulo Railway decidiu construir ali sua estação terminal na capital, em meados do século XIX (por conta de ser a área mais plana possível e, por conseguinte, com economia de energia pelas locomotivas), parte do Jardim da Luz foi cortado. Contudo, com o afluxo de viajantes vindos do porto de Santos, muitos precisando de hospedagem, o entorno da estação se transformou em uma área hoteleira e também de parada de coches que levavam as pessoas até o centro da cidade.

O bairro começou a se expandir e abrigar casarões e pequenas chácaras. Esse perfil do bairro se manteve com ligeiras alterações (como o desaparecimento das chácaras) até meados do século XX. Fábricas chegaram, cinemas, boates, restaurantes, bares. Mas foi na segunda metade do século XX que a Luz iniciou seu purgatório.

A região se despovoou diante da perda de qualidade de vida, também se desindustrializou. A famosa “maloca” cantada por Adoniran Barbosa em “Saudosa maloca” era um casarão localizado na região, que na época já tinha se tornado uma área abandonada e invadida por sem tetos.

Os cinemas de rua fecharam um a um e a prostituição chegou, principalmente na rua Aurora. Depois veio o restante: jogo, assaltos, tráfico, mendicância, afastando dia a dia ainda mais a população da região.

Nos anos de 1990 a região passou a  ser a “capital” paulista do consumo do crack, droga que se caracteriza pelo baixo preço, pela rápida dependência e pela igualmente rápida morte do usuário. É o lixo do lixo das drogas químicas. E por ser barata acessível à população miserável das ruas do centro. A situação ficou tão caótica e violenta que as ruas perto da Estação Julio Prestes – dos Andradas e entorno – ficaram conhecidas como Cracolândia.

Diante do vexame público os governos Estadual e Municipal decidiram agir e anunciaram sucessivos planos de revitalização da região, usando como modelo as revitalizações de áreas degradadas nos Estados Unidos (a região portuária de Nova Iorque, por exemplo) e na Espanha.

Já nessa época urbanistas mais conscienciosos alertavam aos administradores públicos do risco desses modelos de revitalização, pois eles tendiam a “espetacularização” e “monumentalização” das áreas, sem qualquer processo de inclusão social.

O efeito sobre a população marginal é conhecido como “efeito bilhar”. Para quem conhece um pouco do jogo basta lembrar o que ocorre com as bolas no início da partida: elas estão agrupadas em triãngulo numa extremidade da mesa. O jogador que inicia a partida “estoura” a aglomeração com uma forte pancada da bola branca. O que acontece com as bolas?

Com as populações marginais, nesse modelo de revitalização, ocorre o mesmo. Você dá uma forte “pancada” na aglomeração, mas sem qualquer processo de assimilação os indivíduos tendem a se espalhar e ampliar a área problemática.

O governo do estado, sobretudo, investiu fábulas na construção da Sala São Paulo, Pinacoteca, Estação da Luz, Estação Pinacoteca, mas sem promover qualquer interação desses “monumentos” com seu entorno. As pessoas que visitam esses lugares chegam em ônibus fretados, carros particulares ou de metrô. Entram por passagens subterrãneas ou exclusivas, saem de uma portaria do metrô e entram na do museu e em nada interagem com o ambiente externo.

Boa parte das pessoas acha lindo, parabeniza o governo pela iniciativa, pelas lindas exposições e espetáculos, mas quando as luzes do palco se apagam, e a polícia que estava ali para garantir a segurança dos visitantes vai embora, uma população que se escondeu durante o dia nas frestas dos predios decadentes, nos becos da região, tomam as ruas com sua rotina de vício, violência e marcha para a auto-destruição.

O poder público finge que não os vê, ou talvez não veja mesmo.

Isso é chamado de “revitalização”, mas a cidade continua doente, apenas uma parcela da população parece acreditar que os problemas foram sanados. E, a bem da verdade, o governo gasta mais com a OSESP num único mês do que gastou até hoje para recuperar a população que é tocada para os bueiros quando a polícia chega, e que é mantida longe das vistas dos frequentadores de concertos de musica erudita.

Antes que alguém me interprete mal: adoro a OSESP e acho um gasto importante, mas não pode ser o único, e não será ele, da forma que tem sido feito, que acabará com a Cracolândia.

Depois do prefeito de São Paulo ter anunciado o fim da Cracolândia ela agora decidiu se impor – pois não é possível escondê-la para sempre. Hoje ela é três ou quatro vezes maior do que era, por conta do efeito bilhar.

E a região da Luz, apesar dos investimentos milionários, parece permanecer muito longe ainda de voltar ao seu aspecto acolhedor que teve até o início do século XX.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, História de São Paulo, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , ,
10/04/2009 - 20:27

O Santo Sepulcro em Jerusalém

No final do século XI o exército cristão da Primeira Cruzada conseguiu finalmente entrar na cidade sagrada de Jerusalém para completar a obra que motivara a expedição: libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados para o cristianismo da dominação islâmica.

 

Encontraram do lado de dentro das muralhas da cidade – datadas da época da dominação romana na Palestina, no começo do primeiro milênio de nossa época - a Basílica do Santo Sepulcro, supostamente construida sobre o túmulo de Cristo.

Nos anos seguintes os cruzados investiram fábulas em ouro, prata, pedras preciosas para enriquecer o túmulo de Jesus, e deixá-lo “digno de um rei”. Riquezas, obviamente, tanto arrecadadas entre a nobreza européia quanto saqueada de potentados islâmicos, derrotados pelo caminho. Doações menores também engordaram os cofres para o embelezamento do Santo Sepulcro, mas muitos dos fiéis eram tão pobres que mais precisavam do que podiam dar ajuda.

A Basílica encontrada pelos cruzados era, na realidade, uma reconstrução da primeira, construida no século IV pela mãe do imperador romano Constantino. Helena e o bispo Macário desejosos em encontrar o lugar onde fora sepultado Cristo empreenderam uma grande escavação numa área interna aos muros da cidade.

Na realidade os sepultamentos não podiam ser realizados dentro da área da cidade na época de Cristo, mas o local escavado foi anexado à área urbana de Jerusalém somente no século II d.C., quando o imperador romano Adriano mandou que se encontrasse um local adequado para a construção de um Foro e de um templo dedicado a Vênus, Jupiter e Juno (o Templo Capitolino).

Os homens da administração romana indicaram, então, a região do Golgota (em hebraico “crânio” ou “caveira”), morro onde eram realizadas as execuções de condenados e uma área de túmulos. Era nessa região que, provavelmente, se encontrava o túmulo escavado na rocha pertencente a José de Arimatéia, rico judeu, próximo a Jesus, que emprestou para seu sepultamento. A área foi então aterrada, sem que se retirassem as pedras base, e o templo edificado.

Foi nessa área que dois séculos depois Helena e Macário começaram as escavações, encontrando logo em seguida as pedras tumulares. Num dos nichos encontrados teriam sido localizados os madeiros que foram utilizados na crucificação de Cristo e dos dois ladrões.

Essa história do “Santo Lenho”, aliás, rendeu muito durante a Idade Média, fazendo o número de relíquias (objetos ligados a vida dos santos ou de Cristo) se multiplicar exponencialmente. Cada igreja queria ter um numero mais impressionante do que a outra de relíquias, até porque isso lhes garantia maiores doações e maior visitação de fiéis, numa verdadeira disputa turística-mercadológica. Isso acabou por promover uma crescente falsificação de relíquias que garantiam que um único santo tivesse seis braços, dez pernas, três cabeças. O famoso “Sudário de Turim” (o pano que teria coberto o corpo de Cristo após a crucificação, era apenas um dentre tantos, o que implica obviamente a pergunta: quantas vezes ele foi coberto??

Uma piada corrente na Idade Média costumava dizer que haviam tantas lascas da Santa Cruz que seria possível com elas construir a Arca de Noé.

Mas isso não era um problema sério na época da Imperatriz Helena, e ela mandou erguer uma igreja suntuosa sobre o antigo Templo Capitolino. Contudo, no século VII, os persas invadiram a cidade e botaram a igreja no chão. A antiga igreja possuia cinco naves além de uma cripta onde estavam repousadas as cruzes encontradas.

A destruição de 614 começou a ser revertida quinze anos depois, quando o um abade de nome Modesto iniciou sua reconstrução. Depois de concluida manteve-se intacta durante quatro séculos, quando durante a invasão árabe liderada pelo califa Haken – em 1009 - novamente a igreja foi completamente destruida.

 Nos anos seguintes a igreja foi reerguida, mas de modo bastante simples, até mesmo por conta da dominação islâmica na cidade. Foi nesse ponto que os cavaleiros cruzados a encontraram com a tomada de Jerusalém no final do século XI. Com sua nova ornamentação a Basílica foi sagrada em 1149.

Ao longo da Idade Média o Santo Sepulcro foi o “pomo da discórdia” entre cristãos e islâmicos e sua “libertação” utilizada como argumento para sucessivas cruzadas. É claro que outros motivos de ordem econômica ou social estavam por trás destes movimentos, mas o Santo Sepulcro jamais saiu da pauta dos reis e papas na medievalidade.

Contudo, apesar da retomada de Jerusalém aos árabes por Saladino, a Basílica se manteve praticamente intacta até ser novamente destruída por um incêndio em 1808. Durante a dominação árabe foi garantido o acesso dos cristãos ao Santo Sepulcro – motivo de interesse desses -, desde que se pagasse uma generosa taxa de admissão – motivo do interesse dos senhores da cidade.

Ao longo desse tempo milhares de fiéis peregrinaram para lá, para adorar o túmulo e ver o mistério do acendimento sem intervenção humana da lamparina que ilumina o sepulcro. No século XIV, Mafeo e Nicolo Polo – pai e tio  de Marco Polo – realizaram uma viagem a Jerusalém a fim de levar para Kublai Kan – o qual ficara impressionado com as histórias a respeito de Cristo contadas pelos mercadores venezianos – um vidro com um pouco do azeite que queima no Santo Sepulcro, tal era a fama de miraculoso do local.

A reconstrução da basílica, após o incêndio em 1808, foi em grande parte bancada por monges gregos, o que garantiu uma forte presença dos ortodoxos na manutenção da igreja. Mas essa reconstrução também determinou a retirada de inúmeros símbolos cristãos latinos, inadequados para os padrões ortoxos. Com o tempo a administração do Sepulcro passou a ser compartilhada entre ordens de seis diferentes igrejas cristãs: a copta, a armênia, a síria, a abissínia, além da grega-ortodoxa e a latina (ou romana).

Ainda hoje a abertura da igreja é realizada por um membro de uma ordem e o fechamento por um de outra ordem, evitando as brigas de tapas que marcaram décadas de relação conflituosa dentro do santuário.

Milhares de turistas e peregrinos visitam anualmente o Santo Sepulcro, movimento que diminui toda vez que a cidade de Jerusalém se vê abalada por séries de violência entre palestinos e israelenses, os quais disputam o direito de ter a cidade como sua capital, embora, atualmente, ela pertença à Israel, condição não reconhecida por muitas nações do mundo.

De qualquer forma parece muito paradoxal que o local mais agrado para o cristianismo tenha uma milenar história ligada a violência e a intranquilidade, posto que o “sepultado” morreu por valores completamente contrários. Mas essas são as contradições que compõem e movem a história.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente, História medieval, Patrimônio histórico Tags: , , , ,
Voltar ao topo