Arquivo da Categoria Migrações
24/08/2009 - 06:30
Seis horas da manhã e seu despertador toca como se fosse o carrasco te levando pra forca. Resignadamente você se levanta, vai ao banheiro, começa a se arrumar para sair, tiritando de frio, “batendo queixo” como diria um amigo. Se enrola como uma cebola em blusas, camisas de manga longa, casacos, toucas, cachecóis, luvas e sai para a batalha. Quando chega ao destino suas bochechas estão vermelhas, o nariz duro e os dedos das mãos e pés rígidos.
Se você está reclamando deveria agradecer pelos milhares de anos de desenvolvimento tecnológico e cultural que lhe possibilitaram, ao menos, ter roupas mais leves, práticas, quentes, eficientes contra o frio e a umidade.
É claro que nascemos nesse mundo, com todas essas”facilidades” tecnológicas e não nos damos conta do quanto deve ter sido difícil viver lutando contra os fatores climáticos há milhares – ou mesmo centenas – de anos. A história humana foi, e é, em grande medida a história da tentativa de controlar a natureza se tornar menos suscetível aos seus fatores (a disponibilidade de alimento, o clima, o acesso à água, a proteção contra catástrofes naturais). Da Revolução Industrial – começada no século XVIII – para cá esse desejo de controlar se acelerou a ponto de colocar em risco a própria existência da espécie, com a transformação radical de alguns sistemas e o virtual esgotamento de recursos vitais. Mas este será um assunto para os arqueólogos do futuro, se nossa espécie sobreviver e se ainda houver arqueologia.
Há algumas décadas, nos Alpes, descobriu-se um cadáver mumificado pelo gelo de um homem. Sua morte datava de alguns milhares de anos e devia ser um dos últimos homens de outra espécie (sim, a nossa, a homo sapiens, é apenas a espécie que sobreviveu a evolução, ou que incorporou outra, ou outras, assunto ainda em aberto, mas nem sempre estivemos “sós”) fugindo em busca da sobrevivência.
No exame de seu corpo foi encontrado um ferimento causado por uma flexa de sílex, pequeno, mas o suficiente para minar com o sangramento as energias do homem. Seu rosto demonstrava aparentemente um esforço final para tentar se safar do ferimento, do frio e, possivelmente, de seus perseguidores. Estava vestido com botas e uma espécie de casaco de peles de animais. Portava uma faca de sílex também e outros apetrechos comuns ao caçador do período.
Sua morte foi causada pela somatória do ferimento, com a consequente perda de sangue, com o esforço físico e a baixa temperatura, tudo, certamente, acentuado e acelerado pelo frio.
Quase em todos os contextos arqueológicos ditos “pré-históricos” (detesto esse termo…mas é o que temos) o exame dos enterramentos, das condições de solo preservadas, do pólem misturado a este no passado, geralmente nos revelam terríveis dramas para conseguir se adequar as condições climáticas extremas e garantir a sobrevivência do grupo. Calor, frio, seca, chuvas torrenciais, vento, elementos que podiam gerar desafios sazonais aos grupos humanos ou promover verdadeiros cataclismas em escala global quando prolongados e pouco perceptíveis no dia a dia.
A arqueologia e outras tantas ciências que estudam o passado, humano ou não, ainda tem uma infinidade de perguntas a serem respondidas a respeito das mudanças climáticas ao longo do tempo e da dimensão da influência disso na espécie humana.
O filme A Era do Gelo (e suas sequências) – ou mesmo O dia depois de amanhã – trouxeram novamente o assunto à tona, e aí há um dos pontos pacíficos a respeito do nosso passado e da história do clima: tanto as glaciações quanto os períodos de aquecimento não só interferiram radicalmente no desenvolvimento de nossa espécie como modelaram as áreas que foram ocupadas mais densamente, nossas bases culturais.
Um período especialmente curioso, conhecido como “Jovem Dryas” (de 10800 a 9600 a.C.), estabeleceu aproximadamente mil anos de “seca”, ou seja, de diminuição do principal elemento associado à abundância de alimento: a água. O que as escavações no Oriente Médio vêm revelando é uma verdadeira involução tecnológica, social, econômica, em função da diminuição do alimento provocado pelo Jovem Dryas.
Ou seja: vilas desapareceram, grupos sedentários ou semi-sedentários voltaram ao nomadismo, grupos grandes se fragmentaram, dando origem a bandos que disputavam cada vez mais, e mais violentamente, o pouco alimento que havia disponível. A agricultura estancou seu processo de desenvolvimento tecnológico e as áreas povoadas diminuiram com uma sensível diminuição também dos grupos humanos (é difícil saber se o declínio demográfico da espécie humana foi absoluto ou apenas relativo).
Mais conhecidas do que o Jovem Dryas são as “glaciações”, períodos de diminuição da temperatura global devido a fatores ainda não totalmente compreendidos (a teoria mais forte atribui o resfriamento a mudanças nos movimentos ou na inclinação do planeta, sutis, mas suficientes para causarem tal efeito). Mas as glaciações não eram compostas apenas pela “queda da temperatura”, mas por uma rede de eventos climáticos que se desdobravam, obvimente, em uma cadeia de eventos biológicos, geológicos. Esses movimentos parecem ser cíclicos, ou seja, retornam de tempos em tempos, embora não saibamos exatamente se isso é regular ou não, e sendo regular qual é a regularidade dessas glaciações. Sabemos, contudo, que houveram grandes glaciações e outras menores, inter-cíclicas, as últimas delas em período relativamente próximo a colonização do continente americano pela espécie humana, há aproximadamente 20000.
Com o resfriamento a área de gelo do planeta aumentou, principalmente nos pólos, mas, também, nas grandes altitudes. Com o aumento da camada de gelo - o qual foi tanto horizontal quanto vertical – áreas que eram cobertas de florestas desapareceram. Outras se tornaram estepes, e, de modo geral, isso significou menos caça, menos frutos, menos comida, menos áreas habitáveis.
Essa água congelada, obviamente, provocou uma menor quantidade de água em estado líquido circulando no planeta e, por conta do peso das geleiras, pressão sobre o solo de algumas regiões. Em algumas áreas o nível do mar abaixou e aldeias costeiras ficaram mais longe de sua fonte de alimento. Áreas que eram isoladas – como ilhas e continentes – foram interligadas por “pontes de gelo”, possibilitando a migração de espécies animais, entre elas a humana.
O mundo ficou efetivamente mais violento, com graves embates entre grupos humanos para controlar áreas nas quais os recursos necessários à sobrevivência fossem mais abundantes. Nosso “antepassado”, encontrado congelado nos Alpes, provavelmente não sabia que estava vivendo num dos maiores dramas da história humana, mas seu desconhecimento não o poupou das consequências.
Ao longo de nossa história uma infinidade de tecnologias foi criada para diminuir nossa suscetibilidade ao frio: roupas mais quentes, as quais começaram com peles de animais e chegaram as fibras especiais de hoje, que evitam a perda de calor. Casas, fogueiras, aquecedores, sistemas que possibilitaram o homem chegar a um dos mais inóspitos lugares do planeta, o coração do Pólo Sul, no qual a temperatura circula facilmente na casa dos 60 graus centígrados negativos.
Mesmo em tempos mais recentes o frio – ou a ausência dele – foi um fator relevante nos rumos da humanidade. Alguns pesquisadores da Idade Média (como os franceses Georges Duby e Phillippe Arriès)alegam que uma ligeira alteração para cima da temperatura média possibilitou que as lavouras fossem mais generosas (também causado pela introdução de novas tecnologias, como a rotação e arados mais eficientes), e, consequentemente, as pessoas tivessem menos fome, e assim terem mais filhos e mais saudáveis.
Agora, certamente, estamos vivendo numa nova etapa, que possivelmente vai se acentuar, com o aquecimento planetário. Diferentemente de outros períodos da história dessa vez temos consciência de que está ocorrendo (embora muitos neguem), também, dessa vez, somos responsáveis pelo processo. Igual ao passado há uma coisa: assim como eles não sabemos se conseguiremos vencer o desafio e perpetuar a espécie e nossas culturas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Migrações, Política ambiental, Pré-história
Tags: Arqueologia, Clima, Frio, Glaciação, Jovem Dryas, Meio ambiente
22/03/2009 - 18:41


Houve um tempo, num passado distante, onde as pessoas podiam passear tranquilamente pelas proximidades do rio Tamanduatei sem que seus ouvidos fossem destruidos por implacáveis vendedores de apitos “Aiaiai Titiaaaaaa…” e “Cóóóóó´cócócócócócóóóó…”, tempo no qual os paulistanos eram felizes e não sabiam.
Se o inferno existir tenho certeza absoluta que lá encontraremos milhares de vendedores dos apitos que infestam as esquinas da rua 25 de Março e seus arredores. Imagino que o próprio Demo deva ter um desses. E isso agravado, é claro, pelas centenas de milhares de pessoas que transitam ali trombando umas com as outras cheias de sacolas, camelôs com barracas e plasticos especialmente preparados para escapar aos “rapas” da Guarda Civil Municipal, contingentes dessa guarda que ficam zanzando de lá para cá levando olé dos camelôs, trombadinhas, trombadões, correlatos, vendedores da milagrosa “Banha do Peixe Boi da Amazônia”, sempre acompanhada da inesquecível e salutar “Banha do Peixe Elétrico”.
Enquanto isso incríveis “Carriolas Elétricas” (o correlato da 25 de Março dos Trios Elétricos) divulgam suas mercadorias, CDs da “Gravaciones Originales Ltda.” dos últimos sucessos das rádios, como Village People, Locomia, Peter Cetera, Anita Ward, KC and Sunshine Band e afins.
Depois de curtir a novidade de Miami Sound Machine num deles, você pode atravessar a rua e entrar na igreja ortodoxa síria-libanesa de Nossa Senhora e acender uma vela pedindo a proteção, para que possa chegar vivo até a Ladeira Porto Geral sem ser jogado para trás por algum carregador que desce da rua Florêncio de Abreu levando um saco de mangueiras.
Enfim, o Paraíso das Compras, uma experiência sensorial e social inesquecível que atrai todos os dias uma multidão de fãs. Um sucesso absoluto há décadas.
Mas, esse perfil da rua mais “Pós Moderna” do Brasil e, quiçá, do Mundo, só foi possível depois de uma longa história, na qual a rua foi se moldando paulatinamente, ou anexando, talvez, novas características e “funções”, até descambar nesse universo quase caótico (o quase é apenas retórico) de hoje.
Até 1849 o local onde está implantada a Rua 25 de Março era uma terrível várzea do Tamanduateí, que naquela região era conhecida como “Sete Voltas” dadas as curvas que o rio fazia (típico de rios de planalto, os quais são dados a enchentes períodicas).
Neste ano foi realizada a “retificação do rio” (gostaria de saber como é que se “corrige” algo que é natural) e aterradas as várzeas. Com isso o sopé do morro onde está o centro da cidade de São Paulo pode ser utilizado na expansão da área urbana. Foi ai que se abriu a primeira rua, chamada “De baixo” sintomaticamente. Mais acima estava o Caminho do Guaré, ou da Luz, a atual Florêncio de Abreu.
A Ladeira Porto Geral já estava por ali, e seu nome era justamente porque, antes da retificação do leito do Tamanduateí ela dava realmente num porto fluvial que atendia a cidade, trazendo e levando mercadorias.
Em 1865 a municipalidade decidiu alterar os nomes das ruas, tirando o aspecto “pitoresco” que algumas delas tinham. Até então ainda existiam na cidade as ruas da Freira, da Cruz Preta, do Jogo de Bola, a ladeira do Acu, rua de Baixo, beco do Inferno e dai por diante.
Nessa mudança a rua De baixo passou a ser denominada 25 de Março em homenagem ao dia da promulgação da Constituição do Império do Brasil promulgada por D. Pedro I em 1824), mesmo motivo pelo qual a ladeira do lado da Porto Geral foi denominada “Da Constituição”.
Anos depois foi determinada a construção de uma praça com mercado, a qual concentrou o comércio de gêneros que, até então, era realizado na rua das Casinhas, ao lado do Pátio do Colégio.
Com o histórico do antigo portinho do Tamanduateí e com o novo mercado a 25 de Março foi se consolidando como área de comércio popular. Mas não era somente isso que havia ali. Também existiam oficinas de carruagens e carroças, uma escola alemã e entreposto de tropeiros que chegavam do interior com suas mulas carregadas de mercadorias.
No começo do século XX, com a chegada das sucessivas levas de imigrantes, estabeleceram-se na região os sírios e libaneses com suas lojas de tecidos. Gostaram tanto da região e foram tão bem sucedidos que as novas ruas passaram a receber nomes de personagens ilustres da comunidade sírio-libanesa. Os palacetes que foram sendo erigidos na região também foram obra dos “turcos” (que a comunidade não me veja dizendo isso, mas é como ficaram conhecidos em todo o Brasil), com direito até mesmo a uma simpática igrejinha ortodoxa encrustrada no meio de um quarteirão.
Também nas primeiras décadas do século XX encomendou-se ao famoso engenheiro/arquiteto Ramos de Azevedo o projeto de um novo mercado municipal, o Mercadão da rua da Cantareira.
Nas décadas seguintes a comunidade sírio-libanesa teve de abrir espaço para coreanos, peruanos, bolivianos que também começaram a se estabelecer por ali. Mas, como cada uma dessas comunidades se especializou num certo tipo de mercadoria, parece que aprenderam a viver com alguma harmonia. Os sírio e libaneses no comércio de tecidos, cortinas, tapetes, os coreanos com eletro-eletrônicos e os peruanos e bolivianos com artigos para bijuterias e objetos típicos de seus países, como ponchos, quenas, “artesanias”.
Mas a 25 de Março pode ser muito enganadora. Para a grande maioria a 25 é sinônimo de comércio barato, produtos falsificados, contrabando. Também é, mas não somente. Alí você encontra objetos de prata legítimos, cristais da Bohemia, Swarowski, objetos de luxo, tecidos ricos. E, tanto quanto a população das periferias e de outras regiões do Brasil que vêm para fazer suas compras também a classe média e média-alta vai para a 25 buscar “baxinxas”.
Mesmo no Mercadão Municipal os preços praticados não são os mais baratos, os demais mercados municipais (Lapa, Pinheiros, Ipiranga) são bem mais em conta, mas quem vai ao da Cantareira está atrás de algo mais do que simplesmente economia e produtos diferenciados. Está a busca de uma experiência sensorial, social e histórica. Quer comer algo com “identidade”.
Mas, se não quiser pagar tanto, basta ir a algum dos vários empórios árabes da região e se fartar com acepipes do oriente a preços innclivelmente módicos. Esfihas de zathar, quibes de nozes, pães folha, tâmaras secas, abacaxis caramelados, pistaches, halew, charutos, berinjelas em conserva, água de laranjeira, licor de romãs, arak, doces folhados, pasteis de nata com mel… Tudo por poucos reais, sempre fresquinhos para atender a comunidade.
Por isso não acho que seja a avenida Paulista a rua mais “paulista” de São Paulo, mas a 25 de Março, muito mais plural, mais caótica, suja e limpa, rica e pobre, barata e cara, com um mundaréu de gente falando as línguas e sotaques mais improváveis, e impossível de ser amada a primeira vista.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Migrações
Tags: 25 de Março, Comércio, Coreanos, Gastronomia, Libaneses, Mercadão, São Paulo, Sírios, Tamanduateí
20/03/2009 - 15:29

José Padilha lançou recentemente seu documentário Garapa, o qual, curiosamente, foi bem acolhido no festival de Berlin e criticado ferozmente no Brasil, sobretudo pelos críticos profissionais de cinema.
Para a crítica brasileira Padilha opera uma “estetização da miséria”, uma manipulação dos sentimentos através de recursos visuais pra lá de batidos, como o uso do preto e branco e operações “demagógicas” diante das câmeras (como a de dar remédio para uma família com a filha doente).
Antes de entrar no mérito da questão quero lembrar uma experiência pela qual passei nos idos de 1999.
Pouco depois de eu entrar no curso de história da Universidade de São Paulo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado completava sua longa viagem de sete anos por diversas regiões do mundo fotografando os deslocamentos populacionais e começava a planejar a exposição de seu novo livro, o qual se chamaria Êxodos.
Em São Paulo a exposição seria montada no SESC Pompéia e, para isso, eles necessitavam de uma equipe interdisciplinar de monitores (formada por historiadores, sociólogos, artistas plásticos, fotógrafos, etc.) que fosse capaz de trabalhar junto ao público as diversas dimensões da obra de Salgado (considerado um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, se não o mais importante).
O processo seletivo contou com quase 800 inscrições e, dentre os vinte e poucos selecionados, eu me encontrava. Durante quatro meses aproximadamente vivi cotidianamente com a obra de Salgado, passando por cursos com especialistas de diversas áreas do conhecimento, por bate-papos com o próprio fotógrafo, etc.
Ao final havíamos nos tornando conhecedores bastante competentes da obra fotográfica de ”Tião” (como os amigos o chamam).
Contudo, apesar do sucesso estrondoso da exposição, me acostumei a ouvir críticas bastante ácidas a obra do fotógrafo brasileiro. A mais recorrente delas dizia que Salgado fazia uma “estetização da miséria”, uma espécie de voyeurismo da desgraça, da morte, da fome, da doença e da guerra. Quase como um documentarista dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Segundo parte significativa de seus críticos, Salgado se valia da desgraça do outro para construir sua carreira, para ganhar dinheiro, para se fazer famoso. Também diziam que suas fotos eram montadas, que muitas das cenas foram “encenadas” e que sua preocupação era eminentemente estética, mostrando uma suposta indiferença para com os problemas da humanidade.
Certo dia um visitante, um velhinho de seus 70 anos, me interrompeu aos berros uma explicação que dava a um grupo de alunos do Colégio Palmares para dizer que tudo aquilo era uma “farsa”.
Depois disso, nos anos seguintes, me tornei amigo de vários fotógrafos ou vários amigos meus se tornaram fotógrafos, e entre eles também era recorrente esse tipo de crítica ao trabalho do Salgado.
Sim, é fato, as fotos do Salgado são tecnicamente perfeitas, o apuro em todas as etapas de produção é impressionante, mas porque ao se fotografar a “tragédia” tem que se fazer de modo precário ou sem apuro?
Os quadros, então, de Bosch, de Chagall, de Picasso, de Portinari, devem ser queimados, pois também representaram a desgraça humana com grande técnica.
Mas há quem vá dizer que a fotografia, ou o fotojornalismo, encontra-se numa esfera diversa das artes plásticas, que o fotojornalismo não é “arte”, mas jornalismo visual.
Mas como jornalismo, como texto, como narrativa, a fotografia é tão parcial quanto qualquer outra linguagem. Ela não é a “realidade”, mas uma representação da realidade, construida pelo autor, o qual seleciona aquilo que deseja contar.
Mas, contudo, contudo, o que mais me impressiona é a idéia subjacente nas críticas de que as imagens não revelam uma realidade palpável, efetiva, mas são “manipulações estéticas”. Realizações para produzir efeitos emotivos baratos no público.
Dez anos depois a crítica, e muitos dos críticos são os mesmos de 1999, diz o mesmo a respeito do documentário de José Padilha, citando inclusive sua escolha pelo preto e branco como parte dessa manipulação, tal e qual disseram de Salgado.
E também como na crítica a exposição Êxodos, fica pairando no ar a insunuação de que a desgraça mostrada não é real, mas um truque de prestidigitador para tocar corações sensíveis.
Nesses dez anos pude viajar por diversas regiões do Brasil e da América do Sul e, com toda a sinceridade, não me parece que os críticos, boa parte dos quais jamais saiu dos circuito Jardins-Higienópolis-Morumbi, sejam as pessoas mais habilitadas a dizer o quanto essas realidades existem ou não.
Se não há fome, não há guerra, não há epidemia, não há desigualdade social e exploração, então chegamos ao fim dos tempos e já estamos habitando o Paraiso Terreal, em preto e branco ou a cores, para agradar os críticos.
A opção de Salgado e de Padilha pelo branco e preto é tão legítima quanto a minha opção por escrever o cabeçalho deste texto em vermelho, ou do crítico ao fazer uma citação, são recursos estéticos sim, porque somos seres humanos e essa é uma das dimensões que nos difere dos demais seres vivos, o fato de sermos seres culturais.
O preto e branco traz uma série de referências emocionais, sensoriais? Sim, tanto quanto as demais cores. E qualquer suporte visual de informação – o texto escrito, o vídeo, a fotografia – traz isso, mais ou menos consciente. E isso faz parte da mensagem que você deseja transmitir.
As fotos de uma guerra poderiam ser feitas com tons quentes, tendendo para o vermelho, o laranja. Mas isso ocorre com qualquer construção de imagem, e faz parte de nossa “educação visual”, a qual recebemos desde a primeira infância e vai se consolidando ao longo da vida.
Independentemente das discusões a respeito da “manipulação estética” o que me parece é que parte da crítica não consegue suportar a idéia de que, com ou sem apuro, em preto e branco ou a cores, a fome, a guerra, a doença estão lá.
Talvez porque não faça parte do mundo diletante da crítica de arte, a qual, paradoxalmente, vive de discutir “estética” e pouco mais do que isso.
Esse tipo de crítica tende a desviar o foco da questão, que é o cerne das narrativas, que é o argumento, o roteiro de uma exposição, de um livro, de um documentário.
Sem contar que colabora para manter parte do universo na percepção de que o mundo limita-se àquilo que vejo e que me toca pessoalmente, e que tudo o que me é trazido de longe, através das câmeras, é tão ficcional quanto uma novela de TV ou um filme da Disney.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da arte, História da cultura, História e cinema, Imprensa, Migrações
Tags: Crítica, Documentario, Exodos, Exposição, Fotografia, Garapa, José Padilha, Sebastião Salgado
15/01/2009 - 12:45
Nós, brasileiros, somos todos, em alguma medida, árabes, e isso acontece independentemente do desejo ou da aprovação de cada um de nós.
Recentemente em seu blog Luis Nassif (a menção a ele nada tem a ver com o sobrenome, mas vá lá) comentava o quanto características culturais brasileiras, como a flexibilidade e a tendência à acomodação das discordâncias, e ainda nosso histórico de poucos conflitos externos, passou a pesar favoravelmente na escolha de executivos brasileiros para cargos em multinacionais.
Em grande medida isso se deve ao que Darcy Ribeiro (antropólogo brasileiro) descreveu como características de um “povo novo”, diferente dos povos tradicionais, ou “testemunho”, que são as populações autóctones, naturais de um local há milênios, diferentes também do que ele chamava de “povos transplantados”, povos que estão no Novo Mundo, mas que guardaram as características, quase todas, de suas regiões de origem, como é o caso dos australianos e canadenses.
Nós, bem como outros povos da América Latina, somos uma intensa mistura de absolutamente tudo que há no mundo em termos de humanidade. Se a globalização é real podemos dizer que somos efetivamente um “povo global”.
Na escola muitos aprenderam que a formação do povo brasileiro se deu a partir de três matrizes: a indígena, a portuguesa e a africana. Mas isso é na realidade infinitamente mais complexo. Além das correntes migratórias do século XIX e XX (italianos, espanhóis, portugueses, alemães, judeus, polacos, sírios, libaneses, japoneses, e mais recentemente coreanos e bolivianos) nos primeiros séculos de colonização já havíamos passado por processos de assimilação de outros povos, mesmo que pontualmente.
Quando fui ao sertão nordestino pela primeira vez, me lembro da quantidade de “sararás” que vi por lá, gente de pele morena, cabelos encarapinhados, mas louros e de olhos verdes ou azuis. Herança da holandesada que ocupou boa parte do nordeste no século XVII.
Em 2007, quando desci o Amazonas de barco, na passagem por Santarém e outras cidades da calha do Negro e do Amazonas, me espantei com a influência islâmica na região, herança de portugueses islamizados que foram retirados da África e transplantados para a Amazônia há séculos.
Mesmo entre os portugueses que chegaram aqui nos primeiros séculos era impressionante a quantidade de pessoas de origem africana, judaica, árabe, além de genoveses, holandeses, franceses. Portugal, de tão pouca população, não podia ter pudores tão profundos na escolha de suas gentes do mar, por isso se parecia muito mais com uma Legião Estrangeira do que com um exército de nobres cavaleiros medievais com suas longas (e muitas vezes inventadas) linhagens familiares.
O desencadeamento da Inquisição Moderna e a perseguição aos judeus portugueses foi um passo importante para a decadência do reino e de suas finanças.
Mas o fato é que a tal da “matriz lusitana” que deu origem ao povo brasileiro é a mais “vira lata” possível (o que eu acho ótimo, aliás). Nenhum povo europeu nos séculos XV, XVI, XVII tinha mais flexibilidade e adaptabilidade do que os portugueses, elemento o qual herdamos largamente.
Portugal aprendeu a ser assim justamente pela longa ocupação árabe na Península Ibérica, a qual se estendeu por praticamente oito séculos. Neste período os portugueses assimilaram as noções de astronomia, de higiene e saúde, a matemática, além da poesia, os cantos e a alimentação árabe. Desde o Oriente Médio os povos árabes percorreram o norte da África (que passou a se chamar “Magreb” depois de islamizado) e penetraram na Europa pelo estreito de Gibraltar.
Neste sul de Portugal e da Espanha foram criados incríveis califados que foram a glória da medievalidade Ibérica. Cidades como Córdoba, Granada, Almeria eram um lampejo de civilidade numa Europa profundamente bárbara para nossos padrões. É claro que no contexto medieval essa percepção não é cabível, mas para nós, contemporâneos, os hábitos árabes pareceriam muito mais familiares do que o dos Francos, Castellanos, Bretões e afins.
Por que isso? Exatamente porque a marca da cultura árabe se fez nos povos ibéricos, os quais trataram de difundi-la sobretudo no novo mundo.
As técnicas para a produção de açúcar, cuja economia movimentou a colônia durante séculos, é profundamente árabe, e com elas as decorrências como a doçaria. Um dos doces mais tradicionais do Brasil, o qual, de acordo com Gilberto Freyre, tinha “gosto de colônia”, os alfenins, são árabes até a raiz.
Também na arquitetura, o gosto pelos recortes nos beirais, pelos solares (que permitem tomar sol no fundo das casas sem dar vista a rua), ou os muxarabies (telas de madeira que permitem as mulheres olharem das janelas para as ruas sem serem vistas pelos passantes) são todas invenções árabes assimiladas pelos portugueses e trazidas ao Brasil.
E, em tempos mais recentes, não há quem nunca tenha passado numa “lujinha” e comprado um tecido “baratinha, baratinha”, uma verdadeira “baxinxa”, tal foi a participação dos árabes na constituição do comércio varejista no Brasil do século XX.
Por tudo isso é justo que sejamos também muito árabes em nossa cultura.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História da cultura, Migrações
Tags: Árabes, Brasil, Cultura Brasileira, História, Povo
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