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Arquivo da Categoria Memória e história

07/09/2009 - 07:29

O Sete de Setembro como “Marco” da Independência

O Sete de Setembro de 1822 não “nasceu” nem histórico nem como “data nacional”, marco da Independência do Brasil. Datas, bem como “personagens”, monumentos, interpretações, são construções históricas, obras que se dá ao longo do tempo, muito ou pouco.

 

Para nós parece tão natural que o Sete de Setembro seja a nossa data maior, o marco da Independência, que é muito difícil imaginarmos uma outra situação diversa. Esse fenômeno não é exclusividade nossa, também ocorreu com o 14 de Julho na França (data da Queda da Bastilha, durante a Revolução Francesa), com o 4 de Julho nos Estados Unidos (data de sua Independência), e com tantos outros países.

A “escolha” de uma data, ou seu reconhecimento como “marco”, não é uma questão “isenta” de interesses, não é um dado objetivo, mas uma peça fundamental na construção da história que se deseja perpetuar.

No caso da Independência do Brasil o processo se deu de modo incerto, errático, construido dia a dia e somente consolidado muitos anos depois. Basta lembrarmos que o monarca que aqui ficou, Dom Pedro, era filho primogênito de Dom João VI e, portanto, herdeiro do trono português, assim, com a morte do rei de Portugal, o Imperador do Brasil teria sob sua coroa novamente os dois reinos (e esta situação somente foi solucionada com a abdicação de D. Pedro I em 1831 para reinvindicar o trono português e tornar-se, lá, Dom Pedro IV).

O processo de independência brasileiro teve alguns momentos chave, independentemente de se tornarem “datas nacionais”: o Dia do Fico, a dia do “Grito”, a Aclamação de Dom Pedro, entre outros, os quais foram tecendo o processo político que consolidou a independência.

Obviamente que a separação política de Portugal somente teve efeito pelo endosso, participação de parte das elites, as quais interessava a independência. Nem foi um processo tocado a revelia ou contra a família real (como no caso das colônias de Espanha nas Américas ou dos EUA), nem foi um processo tocado por um herdeiro rebelde, contra sua família ou contra as elites coloniais. Daí, também, a singularidade de nossa Independência.

Com isso a “história de nossa Independência” deveria atender as necessidades tanto da família real brasileira (mesmo após a abdicação de Dom Pedro I, mantida na figura de seu filho, Pedro II) quanto das elites que apoiaram a separação. Em cada um dos momentos do processo que levou a separação de Portugal uma feição do jogo político se ressaltava: na aclamação, por exemplo, enfatizava-se o reconhecimento, a chancela do “povo” ao monarca Pedro I, o 7 de setembro enfatizava a personalidade do príncipe, sua “decisão pessoal”, seu caráter “heróico”.

Por isso a escolha da data nacional dependia de qual momento seria eleito como o do “nascimento da nação”. Para os que desejavam estabelecer uma monarquia muito mais liberal no Brasil, com poderes bastante limitados ao Imperador, era muito mais desejável que a data nacional fosse a da Aclamação, ou a da Constituição do Império (cuja primeira versão foi vetada por Dom Pedro I pos restringir demais seus poderes). Por outro lado, para Dom Pedro I, depois seu filho, e para os grupos mais próximos à monarquia e mais conservadores o 7 de setembro era muito mais adequado, pois atrelava a independência brasileira a virtude do Imperador.

Não foi sem muito debate, brigas, idas e vindas, que o 7 de setembro se consolidou como data nacional brasileira e isso revela a força que os grupos conservadores assumiram não somente na política imperial brasileira, mas, também, na “construção do estado nacional”, o que implicava, inclusive, na decisão de “como ensinaremos nossa história”.

E foi essa que ficou, se consolidou e desdobrou, deixando marcos comemorativos pelo país todo. E, depois de tantas e tantas décadas, a lembrança de quem nem sempre o Sete de Setembro foi nossa data nacional praticamente se esvaiu, consolidando, finalmente, a figura de Dom Pedro I e os episódios – que dificilmente saberemos como efetivamente foi – ocorridos as margens do riacho Ipiranga na volta do Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, após sua visita a São Paulo.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , ,
26/08/2009 - 06:52

A Independência e o bairro do Ipiranga

Quase ninguém o conhece pelo seu nome de “cartório”: Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Pelo seu “apelido”, Museu do Ipiranga, é, certamente, dos museus mais conhecidos do Brasil, talvez o mais conhecido. Implantado no topo de uma colina – a qual foi acentuada graças a uma movimentação monumental de terra, com vistas a acentuar a visão magestática do edifício – o Museu observa a pequena várzea, hoje quase toda canalizada e encoberta, do riacho que deu nome a região e que, por acidente do destino, pôs definitivamente seu nome na história do Brasil.

Quando era aluno nunca me coloquei essa questão, mas, depois, passei a me perguntar se para muitos a coisa toda – o episódio da “Independência” – não acaba sendo ensinado de um modo bastante “incompreensível”.  Para começar o que D. Pedro, o Príncipe Regente, estava fazendo naquela região com sua comitiva se a capital era no Rio de Janeiro? Como com um simples “Ato” um Príncipe consegue executar uma “Independência”?

Isso sem contar nas piadinhas que sempre correram dizendo que D. Pedro parou as margens do riacho para “aliviar” a barriga, que estava montado em um burro e não num cavalo, e daí para diante.

Em verdade a “Independência” do Brasil é um episódio numa história longa que envolve as mudanças na economia, na política, na sociedade do mundo ocidental a partir do começo do século XVIII, naquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “Era das Revoluções”. Outro historiador, brasileiro, Fernando Novais, chamou esse processo longo de “Crise do Antigo Regime”, ou seja, uma crise que envolveu as bases do capitalismo tal como vinha se desenvolvendo desde o início da Idade Moderna, com as exclusividades das Metrópoles no comércio com as suas colônias, com o poder absoluto dos monarcas, com a exclusão política dos proprietários sem nobreza (os burgueses).

Nesse vagalhão histórico foram arrastadas as monarquias de várias nações, colônias se tornaram independentes – Estados Unidos da América, Brasil, os países da América Latina -, outras monarquias tiveram de se submeter a regimes regidos por constituições (as chamadas Monarquias Constitucionais). O mundo mudou radicalmente e irreversivelmente. Mas tudo isso demorou décadas e mais décadas para se consolidar, e somente quando o processo havia se alastrado por regiões inteiras e com a abrangência envolvendo praticamente todos os setores da existência humana – a política, a economia, a sociedade, a cultura – é que parte das pessoas se deu conta de que estava vivendo uma era de transformações, uma gigantesca revolução.

Em 1821 tanto Dom João VI, rei de Portugal, quanto seu filho, D. Pedro, tinham noção de que o processo de transformações havia se espalhado e sua reversibilidade era difícil, senão improvável. Muito provavelmente o monarca e seu filho articularam formas de “perder os anéis e manter os dedos”, ou seja, aplacar ânimos, se manter na crista da onda sem ser tomado pelo vagalhão. Uma solução possível era admitir um processo de independência conduzido pelo próprio herdeiro do trono português, com o apoio ou a aliança com grupos de proprietários brasileiros que vissem isso como uma vantagem, em sintonia com seus interesses.

Provavelmente era isso que D. Pedro fazia em São Paulo no começo de setembro de 1822: articulando forças que garantissem sua manutenção no trono e resposta imediata a grupos contrários ou tropas portuguesas.

O caminho realizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo nessa época cortava os campos do Ipiranga, uma área pouco ocupada, nas proximidades da cidade. Por ali passava o famoso “Caminho do Mar”, o qual descia em direção a Santos e era a principal rota de escoamento da produção de São Paulo, bem como a principal sua porta de entrada. Antes de chegar no trecho serrano o caminho se dividia e outra rota seguia em direção a capital, o Rio de Janeiro.

Ao se afastar da cidade, voltando para o Rio de Janeiro, a comitiva do Príncipe Regente recebe a famosa carta que o teria feito proclamar a Independência. Certamente Dom Pedro, depois das confabulações com os políticos paulistas, saiu da cidade com a certeza do apoio e seguro para tomar a decisão difícil de oficializar o rompimento com a Metrópole (o que significava um problema muito mais grave para com os políticos e as elites portuguesas do que para com seu pai, afinal as posses se mantinham na família de qualquer modo).

Nem foi um ato intempestivo, nem uma “comédia” como as vezes tentam deixar parecer (como fez recentemente o jornalista Eduardo Bueno). É claro, a cena pintada muito depois, e que hoje adorna o salão principal do Museu do Ipiranga (ops…Paulista), foi constituída com o objetivo de dar uma versão grandiloquente para o momento e dentro dos princípios da pintura clássica do período. Mas, quem acredita que Napoleão realmente vivenciou as cenas tal como os quadros as representam?

Entre o final do século XIX e começo do XX os políticos paulistas decidiram tornar o Ipiranga num monumento a céu aberto, um cenário de um grande teatro histórico. Daí a construção do monumento a Independência, depois do mausoléu, do Museu, etc. Mas não parou por aí, pois outro objetivo desses políticos era associar diretamente a independência do Brasil a participação das elites paulistas nela. Por isso cercaram o coração da história, a colina do Ipiranga e o Monumento, com ruas que levam os nomes dos políticos paulistas ou que relembram valores morais caros a memória deles: rua dos Patriotas, Xavier Curado, rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois, rua do Manifesto, rua Silva Bueno, rua Auriverde.

Vale lembrar que o Sete de Setembro não foi imediatamente compreendido como a “data nacional”, até porque isso determinava a escolha de uma “forma de contar” a história da Independência (não a única). Assim, o Sete de Setembro e o bairro do Ipiranga só se tornaram relacionados a história da separação do Brasil de Portugal ao longo do século XIX e isso só se completou com a comemoração do Centenário da Independência, em 1922.

E, de fato, a movimentação de terra na colina do Ipiranga, a canalização do córrego, a construção das ruas, mudaram tanto o cenário original que hoje é muito pouco provável saber exatamente onde os eventos ocorreram. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
12/08/2009 - 07:00

Canudos: milenarismo, miséria e arqueologia no sertão

Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.

 

Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.

Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.

Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.

A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.

Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.

Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.

Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.

Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.

As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.

Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.

O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).

A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.

Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.

Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.

Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.

Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , , , , ,
03/08/2009 - 07:00

Samba, suor e cerveja…

Boa parte do mundo em que vivemos é composta das idéias que temos a respéito do mundo. Não vivemos numa realidade absolutamente “objetiva”, material, palpável, mas de idéias, concepção, imagens, que foram formadas ao longo de décadas, séculos e até milênios. Na história os campos que se ocupam dessa esfera da existência são denominados “história das idéias” e “história do imaginário”, e um dos grandes baratos dessas áreas de conhecimento é descobrir que idéias que pensamos que sempre existiram ou que são “naturais” foram, em verdade, construídas.

 

É comum que “naturalizemos” um monte de coisas em nossas vidas. Umas prova disso é a recorrência de pessoas que não sabem o nome da rua detrás daquela onde mora. É claro, em geral conhece a rua, sabe chegar lá, sabe o que tem lá, mas é “tão natural” que jamais parou para “pensar” sobre ela.

Dizia um professor meu que nada mais normal de que um peixe ignorar a água.

Acontece que também no que diz respeito às chamadas “identidades” isso ocorre. Identidade é um tema que ganhou força com a formação dos estados nacionais, creceu após as “Revoluções”, quando as tais “identidades” se reorganizaram sobre a idéia de “povo” como base uma nação, e retomaram força diante do processo que tem sido chamado de “globalização”, no qual cada vez mais grupos humanos são postos frente a frente e com rapidez crescente.

A Europa, e grande parte de seus países, senão todos, passaram – e continuam – a refletir sobre sua “identidade” diante da possibilidade – ou medo – de sumirem sob o título de “europeus”. Uma das respostas a esse temor foi o recrudescimento de grupos extremistas, fundamentados na idéia de uma “pureza cultural” muito mais do que étnica. O que é ser holandês? Alemão? Francês? Croata? Russo?

Entre os europeus a idéia de “grupo” fechado, ou restrito, é muito mais comum e muito mais antiga do que a idéia de “flexibilidade” e de “plasticidade” que viscejou na maioria dos países americanos, impossibilitados por razões óbvias de sustentarem qualquer idéia de “povo” assentada em aspectos “étnicos” (e tanto a antropologia quanto a arqueologia vêm demonstrando que mesmo o conceito de “etnicidade” é menos sustentável do que parecia, em suma, rumamos em direção a conclusão científica de que não existe praticamente nenhum grupo “etnico” tal como se imaginava até então).

Entre nós, americanos, a idéia de miscigenação é um dos componentes essenciais da construção das “identidades”, excetuando-se casos específicos como certos bolsões do sul dos EUA, partes do Canadá, alguns grupos indígenas. Claro que em determinados momentos da história desses países, sobretudo em seus períodos escravistas, a definição de “identidade” esbarrava constantemente na de “cidadão” e, por consequência, na de “direitos políticos”, o que manteve inúmeras restrições a admissão da idéia de um caráter mestiço para esses povos.

De qualquer forma a “idéia de mestiçagem” como componente da formação dos povos americanos é também uma construção histórica, é um item do “imaginário”. Como imaginário possui aspectos que lhe dão base na realidade, que lastreiam, mas há – obviamente – divergências, paradoxos, incompatibilidades que são sublimadas sob a idéia mais ampla.

Samba, cerveja, carnaval, país tropical, malandragem, futebol, são itens que compõem a “identidade nacional” brasileira, que gostemos de todos eles ou não, é assim que muitos nos vêem ainda e é assim que nos mostramos para os outros durante muito tempo.

Quase todos estes elementos são criações do imaginário brasileiro no século XX. Aqueles associados as populações afro-descendentes principalmente, e pelo claro preconceito que era ainda maior do que é. O samba perseguido nos suburbios do Rio de Janeiro, ou sem expressividade absoluta em outras regiões, como na Bahia. A capoeira? Proibida, coisa de bandido, de malandro, assim como a navalha.

A cerveja? Nem bebida popular era. Só com a incorporação dos hábitos trazidos com os alemães no século XIX ela paulatinamente começou a ganhar espaço, mas teve de se adaptar ao paladar de gente que vive numa terra muito mais quente. Futebol, esporte de ingleses, comum entre os marinheiros que encostavam em nossos portos. O fato é que se um brasileiro retornasse ao Rio de Janeiro de 1910, carregando o máximo de elementos que são tidos como formadores de nossa identidade nacional, provavelmente não seria sequer reconhecido como “brasileiro”, e correndo sério risco de ser detido pela autoridade policial.

O carnaval ainda era muito mais regrado – embora os visitantes europeus desde o século XIX vissem nosso festejo como “bárbaro” ou “menos civilizado do que entre eles - e nada de samba e mulatas.

Ainda restava no começo do século um certo desconforto com o clima e as elites suspiravam pelos ares “temperados” da Europa. Ainda havia muitos intelectuais que culpavam o clima pelos nossos hábitos “desregrados”, pela “lascívia”, pelo “atraso”, pela falta de “empenho”, “preguiça”, enfim, por parte daquilo que viam como características negativas da “brasilidade”.

A virada, ou reinterpretação, desses elementos ocorreu paulatinamente a partir dos anos de 1930, com o governo de Getúlio Vargas, num processo ainda pouco estudado. A literatura que surgia – acadêmica ou ficcional – passava a valorizar aspectos que hoje temos como “comuns”, entre eles a miscigenação. As artes, a música, a arquitetura, inúmeros campos de atuação sofreram uma remodelagem para forjar um novo imaginário brasileiro, que se apropriou de diversos ítens históricos, mas que primou pela idéia de “plasticidade”, da capacidade de continuamente absorver e interpretar novos elementos, provenientes das mais diversas origens culturais.

Foi essa gigantesca operação “imaginária” que possibilitou que Carmem Miranda e Pelé se tornassem personagens que “carregam” a “identidade nacional”. Mas que, observados a miúde, possuem diversos “senões”.

De qualquer modo samba, suor e cerveja são elementos construídos de nosso imaginário nacional, não são “naturais”, nem existiram sempre tal como os vemos. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
27/07/2009 - 06:31

Os portugueses eram burros?

Há alguns anos um historiador português foi apresentar uma conferência no departamento de história da Universidade de São Paulo e abriu sua fala contando uma piada de brasileiro (as quais são comuns entre nossos amigos lusitanos). Na sequência um professor brasileiro foi comentar a conferência e começou dizendo que, ao contrário do colega, não iria contar uma piada de português. Não contaria pois, como todos sabemos, não existem piadas de português, é tudo verídico.

 

A platéia – obviamente, formada por brasileiros - ovacionou o comentário e fez corar o camarada “da terrinha”. Contudo, piadas a parte, o fato é que nossa sociedade habituou-se a tratar os portugueses como carentes de “imaginação”, sem “inteligência”. Daí a infinidade de piadas e adjetivos pouco elogiosos como “burruga” ou “burruguês”.

Mas a coisa não para por aí. Muitos alunos, quando se sentam para assistir as aulas de história, ainda são acostumados a ouvirem toda sorte de anedota sobre nossos “colonizadores”. Já ví toda sorte de comentário, quando era aluno ou quando era professor: Dom João VI era um preguiçoso, covarde, comedor de frango, burro pacas. Dona Maria, sua mãe, louca de pedra, doente, literalmente insana. Carlota Joaquina, que era espanhola, mas casada com Dom João VI, uma megera, além de ter hábitos e moral questionáveis. Dom Pedro (I para nós brasileiros e IV para os portugueses) um galanteador, uma piada como político. Ouvi também incontáveis vezes que uma das provas da burrice portuguesa é que todo ouro que retiraram do Brasil teria ido parar em cofres ingleses. E daí para diante.

Contráriamente, quanto mais se aprofunda na história de Portugal e da colonização da América, mais se impressiona com a situação diamentralmente oposta. É impossível não se espantar com a inteligência portuguesa e com a incrível plasticidade cultural que possibilitou que um reino minúsculo colonizasse regiões tão díspares quanto a América, África, Índia e extremo oriente (Timor e Macau).

Portugal foi o primeiro reino europeu a se constituir como “nação”, unido, antecipando o que, na Espanha – por exemplo – ocorreria somente séculos depois. E também na França, Itália, Alemanha, as quais somente se unificaram no século XIX.

A tecnologia naval empregada pelos lusitanos era o que havia de mais moderno no século XV e foi amparado nela que chegaram às Índia, às Américas.

Mas isso muitos já ouviram, mesmo que tenham feito questão de esquecer.

Apesar de Portugal ter sido um reino pequeno e com população diminuta sua política era respeitada entre os europeus e os negociadores portugueses tidos como duríssimos e com astúcia de raposas. A diplomacia brasileira, tida como uma das mais competentes do mundo, tem suas raízes justamente na diplomacia portuguesa, a qual, apesar de todas as fragilidades, conseguiu manter a independência do reino (excetuando-se, claro, momentos críticos como o da União Ibérica, 1580-1640, e das invasões napoleônicas no começo do século XIX).

Dom João VI, por dua vez, era tido como uma dos monarcas mais brilhantes de seu tempo, embora tenha herdado um reino de pouca força militar. A transferência da corte para o Rio de Janeiro foi uma solução de mestre, um golpe genial na política expansionista de Napoleão, pois inverteu a lógica portuguesa e tornou o Brasil – fonte da maior parte da renda da coroa – a sede do Império.

De alguns anos para cá me impressionei com um outro elemento genial da política portuguesa e que garantiu as dimensões continentais do território brasileiro. A pergunta sempre retorna: Como um reino tão pequeno conseguiu se apoderar de território tão grande?

Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, sociólogo e antropólogo respectivamente, defenderam que o incentivo – mesmo que velado – a miscigenação garantiu a ocupação do território, enquanto outros reinos buscavam ao máximo evitar qualquer mistura de seus colonos com nativos ou escravos. Mas isso explicaria apenas a densidade demográfica e não a extensão do território.

Comecei a entender melhor a questão quando passei a trabalhar em regiões fronteiriças do Brasil. Em todas elas encontramos fortalezas, cidades fortificadas ou ruinas de antigos fortes. Ao investigar um pouco sobre a história de cada lugar verifica-se que essas ocupações eram verdadeiras “cabeças de ponte”, postos avançados da colonização portuguesa. E entre estes postos avançados e as cidades dignas desse título mais próximas centenas, as vezes milhares de quilômetros restavam tal como eram antes da chegada dos portugueses: ocupados quase que somente pelos povos tradicionais.

Esse conjunto de fortalezas e outras estruturas formaram ao longo dos séculos um cordão, um rosário que forjou as fronteiras brasileiras. Tanto o é que com pequenas diferenças nossos limites territoriais em terra firme são ainda marcados por esses pontos: o forte Príncipe da Beira e Vila Bela da Santíssima Trindade no Mato Grosso, a região do antigo Presídio do Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, a área de São Gabriel da Cachoeira no Amazonas, e assim por diante.

Com isso, política deliberada, pensada pelos portugueses, todo território para trás desta linha permaneceu em propriedade lusitana, e depois brasileira. Por isso muitas áreas somente foram colonizadas e plenamente exploradas no século XX, enquanto algumas regiões de fronteira, muito mais distantes, estavam ocupadas desde o século XVII ou XVIII.

O fato é que a disseminação da fama de de “burros” dos portugueses esteve associada a motivos políticos, por disputas entre comerciantes da “terra” (brasileiros) e portugueses desde o século XVIII, e se acentuou após a independência do Brasil. Até aí, tudo bem, faz parte da disputa política, do embate entre grupos. O estranho, e dispensável – além de negativo – é insistir nisso para além das piadas.

Quando isso entra na sala de aula e o professor ensina a piada como se fosse verdade, fato, então temos um problema sério. Pois colonizados por “burros” o que seremos?

Boa parte de nossa plásticidade cultural, de nossa criatividade, resistência, deve-se a matriz lusitana de nossa cultura.

As piadas podem ser deixadas somente para os amigos portugueses.

 

PS: Talvez esteja na net. Recebi recentemente um vídeo de uma aula a respeito de uma tal “”Batalha das Toninhas” da I Guerra Mundial, travada pela marinha brasileira. Nunca vi um professor de história falar tantos absurdos, sempre denegrindo, diminuindo, ridicularizando o povo do qual ele, curiosamente, faz parte. Isso é uma decorrência de como muitos ainda tratam nosso processo de formação histórica. É possível fazer graça e ser divertido sem ridicularizar ou diminuir o outro.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
14/07/2009 - 06:47

A origem do famoso “Homem do Saco”

Eu nunca passei por isso – meus pais tinham técnicas mais “liberais” para me convencer a fazer algo -, mas vários amigos de infância foram disciplinados sob a força do medo do famigerado “Homem do Saco”.

 

Outros tinham figuras alternativas que os pais invocavam na hora do aperto: Se não comer vou chamar o Homem do Saco! ou Criança sem educação o Bicho Papão leva embora! E aí por diante – com figuras que caíram em desuso, inclusive, como a Cuca.

Particularmente, sempre imaginei que eram criações “caseiras” essas figuras de terror, coisas que se perdem na memória do tempo ou que cada família tem a sua, sem qualquer padronização ou regulamentação. Mas há alguns anos foi lançado um livro com as “histórias de fada que as mães não contam”, ou seja, uma versão “Pulp Fiction” de Chapeuzinho Vermelho e afins. Tarantino deve ter lido os contos de fada no original para se inspirar.

Boa parte deles foi criada na Idade Média e tinha como objetivo disciplinar crianças – e adultos também – e difundir um tipo específico de moral, contos “pedagógicos” diríamos. Dentro da lógica educacional da Idade Média, é claro.

Mas nunca havia visto nenhuma referência às origens dessas figuras como o Homem do Saco, dessas “lendas urbanas” ancestrais. Dia desses me caiu nas mãos um livro curioso – apesar de terrivelmente mal escrito – que acabou com essa tormentosa dúvida que me seguia desde a infância: quem foi o Homem do Saco?

Na Europa havia desde a Idade Média até a Modernidade um hábito comum entre a plebe que era o de atribuir a membros da nobreza qualquer autoria de crimes bizarros não esclarecidos. Ainda no século XIX, em Londres, corria fortemente o boato de Jack o Estripador era o príncipe (o qual tinha algum tipo de doença que a família escondia de todas as formas).

Então seria uma boa aposta creditar a nobreza ou a alguém ligado a ela a identidade secreta dessa figura (responsável por fazer desaparecer crianças). Mas isso, sinceramente não havia me ocorrido.

As desconfianças da plebe em relação a nobreza tinham várias origens e motivos. Além da questão da exploração social que era clara e cotidiana – manifesta na série de obrigações devidas aos nobres – havia também a percepção clara de que em certas famílias de nobres certas deficiências passavam de geração a geração.

Isso se acentuou quando os estados nacionais começaram a ser formados e as monarquias unificaram seus territórios através de contratos de casamentos cada vez mais fechados. Ou seja, no final da Idade Média e começo da Modernidade a quantidade de pessoas envolvidas nos acordos matromoniais para manutenção de terras diminuiu gradativamente, levando a uma situação que, na Europa, os nobres eramq uase todos aparentados, próximos ou distantes, o que exigia complexos estudos genealógicos para que um casamento fosse permitido pela Igreja e que se desdobrava em lutas intermináveis nos processos de sucessão dos reinos.

Esses casamentos praticamente endogâmicos acabaram por favorecer a transmissão de modo hereditário de certas doenças, como a hemofilia e a epilepsia. Além disso muitos contraiam sífilis, que em seus estágios avançados provoca disturbios mentais.

Além disso o excesso de poder, sem quase nenhuma instância capaz de acusar, julgar e punir, promovia em muitos membros da nobreza uma sensação de onipotência que descambava para a crueldade pura e simples ou a ausência de qualquer parâmetro de respeito ao outro.

No leste da Europa algumas das histórias mais cruéis envolvendo membros da nobreza se desenrolaram. Um dos casos mais célebres é justamente de Vlad Tepes III, o Dracul, que pela sua ferocidade no combate aos mouros que tentaram invadir a Transilvânia durante seu reinado – depois estendida a outros adversários – inspirou o escritor inglês Bran Stoker na composição de seu “Drácula”. Dracul tinha com o medida de aterrorização dos inimigos mandar empalar em campo aberto os adversários presos.

Uma das famílias ligadas a casa de Vlad Tepes, os Báthory, originários da Hungria, foi o ambiente onde nasceu a história do “Homem do Saco”.

Elizabeth Báthory (nascida em 1560 ou 1561) casou-se muito jovem com o herdeiro de outra família nobre húngara, Ferenc Nadasdy (que trocou seu sobrenome pelo da esposa por ser de família mais importante na Hungria). Desde os primeiros anos o casal nutria um prazer comum em praticar inúmeros atos de crueldade.

Ambos os noivos vinham de históricos de violência e atos de sadismo quando crianças, aplicados a animais e servos, além do prazer comum em assistir execuções públicas. Elizabeth, apesar da incrível educação (conhecia latim, grego, alemão, além de ser famosa pela beleza), era desde muito cedo evitada pelos servos e mesmo por parentes.

Diz a tradição que certa feita, irritada com uma serva que “falava demais”, mandou costurar sua boca. Após ficar viúva passou a empregar seus servos mais próximos para capturar jovens da região – daí a história do “Homem do Saco” – os quais desapareciam para sempre depois de serem levados ao castelo de Cachtice, residência de Báthory.

A situação se estendeu durante anos e só foi interrompida quando filhas jovens da pequena nobreza local passaram também a desaparecer. Diante disso o rei da Hungria, Matias, enviou um de seus homens de confiança – primo de Elizabeth – para investigar o caso.

Não se sabe exatamente a dimensão do horror que encontrou no interior do castelo, mas ela foi isenta de responsabilidade (atribuida totalmente aos seus servos, acusados de “bruxaria”) para não provocar um constrangimento a nobreza. De qualquer modo ela foi trancafiada no castelo até sua morte.

É claro que “quem conta um conto aumenta um ponto”, e muitas histórias ao redor de Báthery foram aumentadas – como a que diz que doente, de cama, ordenou que lhe trouxessemuma jovem, a qual mordeu a jugular e o ombro, arrancando sangue que acreditava ser remédio para seu mal. Ou a história de que se banhava em sangue de suas vítimas.

A memória da região acabou por consolidar essas versões, sejam elas verdadeiras ou não. O fato é que o emissário do rei, ao vasculhar o castelo, teria encontrado ao menos 50 ossadas enterradas no porão, além de diversas moças agonizantes, mutiladas de formas bizarras. Teria ele contabilizado mais de 650 desaparecimentos na região.

Mesmo sendo um número pouco crível é indiscutível que algum mal rodeava Cachtice, e que boa parte de suas vítimas foram capturadas pelos servos de Elizabeth, dando origem a história dos homens que capturam crianças. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História medieval, Memória e história Tags: , , , , ,
05/07/2009 - 07:24

5 de julho de 1924, o início da “Revolução Esquecida”

No dia 5 de julho de 1924 comemorava-se o segundo aniversário do episódio conhecido como “18 do Forte”, quando jovens oficiais do exército, ao final de uma rebelião no Forte de Copacabana, marcharam contra as tropas legalistas que os cercavam quase num sacrifício público. Em verdade nem todos eram militares, mas o evento – que passou a  ser conhecido pela tal nome – tornou-se um marco no chamado “movimento tenentista”, uma tentativa de reformar a nação e modernizá-la através da intervenção de jovens militares ilustrados oriundos das camadas médias da população.

 

Apesar de desbaratado o levante ele se tornou um referencial aos tenentistas e, no 5 de julho de 1924, foi a vez de militares da cidade de São Paulo se rebelarem. Os revoltosos, liderados por homens como Joaquim e Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Campos e João Cabanas, tomaram postos fundamentais na cidade e exigiram a entrega do cargo de governador do estado por Carlos de Campos.

Diante da recusa deste, bombardearam o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo na época. Mas nem Campos renunciou nem os rebeldes conseguiram manter sua posição. Tropas federais passaram a bombardear São Paulo e a nascente aviação brasileira colaborou, espalhando terror por bairros operários como a Moóca.

Diante da situação os rebelados fugiram para o interior do estado, se estabelecendo em Bauru.

Aproximadamente um mês após o início do movimento, os revoltosos – após sofrerem uma terrível derrota ao atacarem a cidade de Três Lagoas no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) – fugiram para o Rio Grande do Sul, onde incorporaram Luiz Carlos Prestes e seus homens, dando origem a famosa “Coluna Prestes”, um dos mais longos movimentos de guerrilha da história brasileira.

O desejo dos rebeldes de 1924 era fundado nas propostas de 1922: modernização do Brasil, reformas eleitorais, investimento em ensino e outras medidas que visavam colocar o Brasil menos distante das nações ditas “civilizadas”. Na realidade tanto o movimento tenentista como outras manifestações daquele começo de anos 20 – como o movimento Modernista – eram fundamentados num desejo de “modernização”, o que implicava em alguma medida no rompimento com o passado brasileiro. Esse rompimento era visto de modos diversos, indo desde a recusa quase que completa até a idéia de “antropofagia”. A movimentação política possuía um forte caráter estético tanto quanto a arte possuía um forte caráter político. Uma movimentação concentrada na classe média – ainda mais restrita naquela época -, um desejo de criar uma sociedade “projetada”, “teorizada” em boa medida.

Os governos oligarquicos significavam para esses homens “modernistas” um entrave difícil de ser ultrapassado de modo legal, democrático, inclusive pelo fato de todo o Estado Brasileiro ser organizado a partir de regras construídas por eles próprios. Daí a recorrência ao uso das armas, refletindo também uma visão romântida da “revolução” que imperava desde a disseminação – parcial – dos bastidores da Revolução Francesa de 1789.

Apesar da Revolução de 1924 ter sido “esquecida” – tanto que carrega ainda esse apelido – ela teve um papel importante na configuração da movimentação política na década de 1920 e teve desdobramentos durante muitos anos.

Mas um aspecto é particularmente curioso: mesmo sendo o conflito que mais atingiu a cidade de São Paulo em sua história, mesmo sendo a única situação na qual a cidade foi bombardeada (nem em 1842, na Revolução Liberal, nem em 1932, na Revolução Constitucionalista a cidade chegou a ser bombardeada), ela foi “esquecida”. Porque?

Como se pode esquecer desse movimento mesmo com bairros como Perdizes e Moóca sendo bombardeados?

Penso que existem vários motivos: o primeiro deles é justamente a formação social do movimento, com pouca adesão das camadas populares, diferentemente de 1932, quando houve uma mobilização popular significativa no estado de São Paulo. Em segundo lugar pelo fato de revelar um passado político que não interessava a muitos “ex-revoltosos”, membros do governo desde que Getúlio Vargas assumiu a nação após a Revolução de 1930. Talvez, também, por ter sido realmente um episódio traumático para a cidade.

O fato é que ocorreu uma concorrência de fatores, uma “engenharia da memória” que levou 1924 a se tornar a Revolução “Esquecida”, apesar de sua importância, exemplo que ilustra de modo bastante singular o quanto o passado – intermediado pela memória – pode ser “modelado” e o quanto é “escorregadio”. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , ,
15/05/2009 - 07:26

O direito ao esquecimento

Uma das afirmações que mais ouvimos a respeito da sociedade brasileira é que somos um país sem memória. Isso, na realidade, me parece que até diminuiu um tanto nos últimos anos – a afirmação constante de nossa suposta ausência de memória -, mas continua a ser bastante dita, ou insinuada.

 

Tanto quanto a afirmação de que não temos memória é insistente a afirmação de que o Brasil despreza sua história, que não tratamos como devemos nosso patrimônio, etc., etc.  É claro que aí há uma mistura, certa confusão, entre o que é história e o que é memória e do quanto as duas estão imbricadas, mas operam de modos distintos e com funções específicas. Desse tema, aliás, tratei inúmeras vezes aqui.

Há uns dois anos eu fazia um curso de gestão de patrimônio cultural quando numa das aulas o arquiteto/professor relatou uma história curiosa: numa certa cidade do sul do Brasil, para a qual ele prestava consultoria na elaboração de seu plano diretor, a população desejava que uma antiga mina da cidade, já desativada, fosse aterrada e sobre ela criado um parque público. O arquiteto achou isso um horror, um atentado contra a história coletiva, contra a memória, contra o passado de gerações de trabalhadores de lá. Propôs que, ao invés de ser aterrada, a mina fosse transformada num espaço de memória, um museu cênico, ao ar livre. A população recusou.

Na aula o arquiteto continuava a manifestar sua indignação diante de tal “barbárie”, exemplo da “ausência” ou “desprezo” pela memória e pela história características da sociedade brasileira.

Eu, que trabalho cotidianamente com isso, e que tenho como obrigação transitar por entre as populações e mediar os interesses e desejos de grupos diversos noq ue toca a questão do patrimônio cultural, tive de discordar do “Caro colega”.

Não é somente no Brasil que há um “partido da memória”, muito ativo, muito militante, composto por todo tipo de pessoa que defende a preservação da memória a qualquer custo, e quase sem critérios. Nos países europeus, no Japão, no Oriente Médio, sempre há um grupo defendendo a “preservação da memória”, mesmo que sem refletir muito a respeito disso.

Com frequencia me pergunto: Se a memória é constituida em um processo social, que envolve dimensões pessoais e coletivas, mas que depende profundamente do equipamento “cérebro” (e hoje, talvez, até de outras partes do corpo, como as pesquisas vêm indicando), como é possível deliberar-se assim tão pragmaticamente, objetivamente sobre a “preservação da memória”?

Em geral as pessoas confundem a preservação do patrimônio histórico, cultural, artístico, paisagístico, etc, etc, com “preservar a memória”. Proteger esses “marcos” não implica necessariamente que alguma memória seja preservada, afinal das contas as memórias existem somente enquanto as sociedades vivem, e morrem com elas. Sem os humanos não há memória alguma. Portanto, preservar um prédio, uma praça, uma mina não significa que há alguma garantia de que uma suposta memória daquilo será guardada.

Mas também há o problema da plasticidade das memórias. Faça um teste “caseiro” e pergunte aos presentes de uma festa de um ano atrás o que cada um se lembra dela, quais sensações sentiu, como as pessoas estavam vestidas. Invariavelmente “Tia Fulana” estava agradável, linda e feliz para uns e “reservada, triste, chata como sempre” para outros, e isso não é algo verificável, não é um dado objetivo, é uma “percepção” a respeito de algo, que é seletiva e filtrada pela própria pessoa que guarda a informação em sua memória.

Contudo, e apesar dessas “questões menores”, não foram esses os temas da minha contraposição às colocações do arquiteto/professor.

Para isso vou lembrar (para usar um termo adequado a esse tema) uma história batida de um conto de Jorge Luis Borges (batido é o uso do conto, não o conto do genial Borges em si…antes que algum argentino me acuse de ser “despeitado”). Borges escreveu um conto chamado “Funes, o memorioso”, a respeito de um cidadão que tinha uma memória impressionante, capaz de guardar todos os detalhes de tudo que já havia visto na vida. Lembrava-se de expressões de rosto de pessoas, de detalhes de cada folha de árvore, de cada fala, e isso era um verdadeiro pesadelo. O fato é que tão ocupado com o “lembrar-se” não sobrava tempo, nem disposição, para as outras atividades cerebrais, como a de “criar”. No mais, desconfiava-se que Funes fosse mesmo pouco dotado de inteligência.

Vejo as sociedades como “Funes coletivos”, e sua capacidade de sobrevivência, de criação, de existência cotidiana, depende dos graus com os quais mesclam lembranças e esquecimentos. Se não fossemos capazes de esquecer estaríamos muito provavelmente ainda cortando animais caçados com lâminas de pedra lascada.

Diante disso disse ao arquiteto que se as pessoas da comunidade queriam “esquecer” sua mina, esse desejo deveria ser respeitado, e ainda mais por ele que nada tinha a ver com a história. Um direito sonegado aos povos, aos grupos sociais, é o do “esquecimento”.

Esquecer-se é um ato necessário para a sobrevivência, o excesso de lembranças emperra a vida, gera recalques, ressentimentos (o “sentir novamente” e novamente, e novamente). Episódios dolorosos – guerras, surtos de doenças, tragédias naturais – não devem ser “forçosamente esquecidas” pelo desejo de grupos políticos, mas também não precisam ser “obrigatoriamente lembradas” por setores isolados. Certamente, no caso da mina, muita dor envolveu a história das famílias locais e do trabalho de extração, o que provavelmente desencadeou o desejo de, literalmente, “enterrar o passado”.

Que direito temos nós de dizer que eles não podem esquecer algo de sua própria história?

É claro que isso é uma situação específica, e cada situação dispõe novas peças no tabuleiro. As vezes algumas sociedades querem apagar traços que lembrem a história de outras sociedades, como no caso da explosão dos Budas gigantes no Afeganistão pelos talebans.

E há casos ainda mais polêmicos, como a construção de um memorial ao Holocausto no centro de Berlin, o que é terrível para muitos alemães, ou a manutenção de antigos campos de concentração no leste europeu. Uns tem o direito de lembrar, mas outros também tem o direito de esquecer, senão partimos de uma premissa de que tudo que cada povo fez ao longo da história deve ser acumulado, armazenado, lembrado e levado ao tribunal do Juizo Final.

Por mais paradoxal que possa parecer, defendo hoje radicalmente o direito dos grupos humanos de decidir pela lembrança ou esquecimento de elementos de seu passado.

No final, não creio também que a sociedade brasileira seja ”sem memória” ou despreze a história. Tenho para comigo que a história é uma das ferramentas fundamentais para a existência das sociedades, pois é ela que – através da transmissão, geração a geração – nos dá os parâmetros pelos quais nos inserimos no mundo. Basta conversar com um caboclo, ou um sertanejo qualquer que verá o quanto conhece da história que lhe é importante: de seu local, de seu ofício, de sua família. Também verá que tem muita memória. Mas, muito provavelmente, desprezará ou nada conhecerá da chamada “história oficial”, cheia de nomes, eventos, datas, relações, pois essa, para ele, não faz a menor diferença.

E se solicitado a contar a sua história dirá, como muitas vezes ouvi: Eu não conheço nada de história.

Conhece sim, mas prendeu a vida toda que história é somente aquela que é contada nos colégios, ou aquela que o caso arquiteto quer manter a força sobre uma comunidade.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , ,
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