Êxodos, Garapa e as “manipulações estéticas”
José Padilha lançou recentemente seu documentário Garapa, o qual, curiosamente, foi bem acolhido no festival de Berlin e criticado ferozmente no Brasil, sobretudo pelos críticos profissionais de cinema.
Para a crítica brasileira Padilha opera uma “estetização da miséria”, uma manipulação dos sentimentos através de recursos visuais pra lá de batidos, como o uso do preto e branco e operações “demagógicas” diante das câmeras (como a de dar remédio para uma família com a filha doente).
Antes de entrar no mérito da questão quero lembrar uma experiência pela qual passei nos idos de 1999.
Pouco depois de eu entrar no curso de história da Universidade de São Paulo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado completava sua longa viagem de sete anos por diversas regiões do mundo fotografando os deslocamentos populacionais e começava a planejar a exposição de seu novo livro, o qual se chamaria Êxodos.
Em São Paulo a exposição seria montada no SESC Pompéia e, para isso, eles necessitavam de uma equipe interdisciplinar de monitores (formada por historiadores, sociólogos, artistas plásticos, fotógrafos, etc.) que fosse capaz de trabalhar junto ao público as diversas dimensões da obra de Salgado (considerado um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, se não o mais importante).
O processo seletivo contou com quase 800 inscrições e, dentre os vinte e poucos selecionados, eu me encontrava. Durante quatro meses aproximadamente vivi cotidianamente com a obra de Salgado, passando por cursos com especialistas de diversas áreas do conhecimento, por bate-papos com o próprio fotógrafo, etc.
Ao final havíamos nos tornando conhecedores bastante competentes da obra fotográfica de ”Tião” (como os amigos o chamam).
Contudo, apesar do sucesso estrondoso da exposição, me acostumei a ouvir críticas bastante ácidas a obra do fotógrafo brasileiro. A mais recorrente delas dizia que Salgado fazia uma “estetização da miséria”, uma espécie de voyeurismo da desgraça, da morte, da fome, da doença e da guerra. Quase como um documentarista dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Segundo parte significativa de seus críticos, Salgado se valia da desgraça do outro para construir sua carreira, para ganhar dinheiro, para se fazer famoso. Também diziam que suas fotos eram montadas, que muitas das cenas foram “encenadas” e que sua preocupação era eminentemente estética, mostrando uma suposta indiferença para com os problemas da humanidade.
Certo dia um visitante, um velhinho de seus 70 anos, me interrompeu aos berros uma explicação que dava a um grupo de alunos do Colégio Palmares para dizer que tudo aquilo era uma “farsa”.
Depois disso, nos anos seguintes, me tornei amigo de vários fotógrafos ou vários amigos meus se tornaram fotógrafos, e entre eles também era recorrente esse tipo de crítica ao trabalho do Salgado.
Sim, é fato, as fotos do Salgado são tecnicamente perfeitas, o apuro em todas as etapas de produção é impressionante, mas porque ao se fotografar a “tragédia” tem que se fazer de modo precário ou sem apuro?
Os quadros, então, de Bosch, de Chagall, de Picasso, de Portinari, devem ser queimados, pois também representaram a desgraça humana com grande técnica.
Mas há quem vá dizer que a fotografia, ou o fotojornalismo, encontra-se numa esfera diversa das artes plásticas, que o fotojornalismo não é “arte”, mas jornalismo visual.
Mas como jornalismo, como texto, como narrativa, a fotografia é tão parcial quanto qualquer outra linguagem. Ela não é a “realidade”, mas uma representação da realidade, construida pelo autor, o qual seleciona aquilo que deseja contar.
Mas, contudo, contudo, o que mais me impressiona é a idéia subjacente nas críticas de que as imagens não revelam uma realidade palpável, efetiva, mas são “manipulações estéticas”. Realizações para produzir efeitos emotivos baratos no público.
Dez anos depois a crítica, e muitos dos críticos são os mesmos de 1999, diz o mesmo a respeito do documentário de José Padilha, citando inclusive sua escolha pelo preto e branco como parte dessa manipulação, tal e qual disseram de Salgado.
E também como na crítica a exposição Êxodos, fica pairando no ar a insunuação de que a desgraça mostrada não é real, mas um truque de prestidigitador para tocar corações sensíveis.
Nesses dez anos pude viajar por diversas regiões do Brasil e da América do Sul e, com toda a sinceridade, não me parece que os críticos, boa parte dos quais jamais saiu dos circuito Jardins-Higienópolis-Morumbi, sejam as pessoas mais habilitadas a dizer o quanto essas realidades existem ou não.
Se não há fome, não há guerra, não há epidemia, não há desigualdade social e exploração, então chegamos ao fim dos tempos e já estamos habitando o Paraiso Terreal, em preto e branco ou a cores, para agradar os críticos.
A opção de Salgado e de Padilha pelo branco e preto é tão legítima quanto a minha opção por escrever o cabeçalho deste texto em vermelho, ou do crítico ao fazer uma citação, são recursos estéticos sim, porque somos seres humanos e essa é uma das dimensões que nos difere dos demais seres vivos, o fato de sermos seres culturais.
O preto e branco traz uma série de referências emocionais, sensoriais? Sim, tanto quanto as demais cores. E qualquer suporte visual de informação – o texto escrito, o vídeo, a fotografia – traz isso, mais ou menos consciente. E isso faz parte da mensagem que você deseja transmitir.
As fotos de uma guerra poderiam ser feitas com tons quentes, tendendo para o vermelho, o laranja. Mas isso ocorre com qualquer construção de imagem, e faz parte de nossa “educação visual”, a qual recebemos desde a primeira infância e vai se consolidando ao longo da vida.
Independentemente das discusões a respeito da “manipulação estética” o que me parece é que parte da crítica não consegue suportar a idéia de que, com ou sem apuro, em preto e branco ou a cores, a fome, a guerra, a doença estão lá.
Talvez porque não faça parte do mundo diletante da crítica de arte, a qual, paradoxalmente, vive de discutir “estética” e pouco mais do que isso.
Esse tipo de crítica tende a desviar o foco da questão, que é o cerne das narrativas, que é o argumento, o roteiro de uma exposição, de um livro, de um documentário.
Sem contar que colabora para manter parte do universo na percepção de que o mundo limita-se àquilo que vejo e que me toca pessoalmente, e que tudo o que me é trazido de longe, através das câmeras, é tão ficcional quanto uma novela de TV ou um filme da Disney.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da arte, História da cultura, História e cinema, Imprensa, Migrações Tags: Crítica, Documentario, Exodos, Exposição, Fotografia, Garapa, José Padilha, Sebastião Salgado
