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Arquivo da Categoria Imprensa

20/03/2009 - 15:29

Êxodos, Garapa e as “manipulações estéticas”

José Padilha lançou recentemente seu documentário Garapa, o qual, curiosamente, foi bem acolhido no festival de Berlin e criticado ferozmente no Brasil, sobretudo pelos críticos profissionais de cinema.

 

Para a crítica brasileira Padilha opera uma “estetização da miséria”, uma manipulação dos sentimentos através de recursos visuais pra lá de batidos, como o uso do preto e branco e operações “demagógicas” diante das câmeras (como a de dar remédio para uma família com a  filha doente).

Antes de entrar no mérito da questão quero lembrar uma experiência pela qual passei nos idos de 1999.

Pouco depois de eu entrar no curso de história da Universidade de São Paulo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado completava sua longa viagem de sete anos por diversas regiões do mundo fotografando os deslocamentos populacionais e começava a planejar a exposição de seu novo livro, o qual se chamaria Êxodos.

Em São Paulo a exposição seria montada no SESC Pompéia e, para isso, eles necessitavam de uma equipe interdisciplinar de monitores (formada por historiadores, sociólogos, artistas plásticos, fotógrafos, etc.) que fosse capaz de trabalhar junto ao público as diversas dimensões da obra de Salgado (considerado um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, se não o mais importante).

O processo seletivo contou com quase 800 inscrições e, dentre os vinte e poucos selecionados, eu me encontrava. Durante quatro meses aproximadamente vivi cotidianamente com a obra de Salgado, passando por cursos com especialistas de diversas áreas do conhecimento, por bate-papos com o próprio fotógrafo, etc.

Ao final havíamos nos tornando conhecedores bastante competentes da obra fotográfica de ”Tião” (como os amigos o chamam).

Contudo, apesar do sucesso estrondoso da exposição, me acostumei a ouvir críticas bastante ácidas a obra do fotógrafo brasileiro. A mais recorrente delas dizia que Salgado fazia uma “estetização da miséria”, uma espécie de voyeurismo da desgraça, da morte, da fome, da doença e da guerra. Quase como um documentarista dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Segundo parte significativa de seus críticos, Salgado se valia da desgraça do outro para construir sua carreira, para ganhar dinheiro, para se fazer famoso. Também diziam que suas fotos eram montadas, que muitas das cenas foram “encenadas” e que sua preocupação era eminentemente estética, mostrando uma suposta indiferença para com os problemas da humanidade.

Certo dia um visitante, um velhinho de seus 70 anos, me interrompeu aos berros uma explicação que dava a um grupo de alunos do Colégio Palmares para dizer que tudo aquilo era uma “farsa”.

Depois disso, nos anos seguintes, me tornei amigo de vários fotógrafos ou vários amigos meus se tornaram fotógrafos, e entre eles também era recorrente esse tipo de crítica ao trabalho do Salgado.

 Sim, é fato, as fotos do Salgado são tecnicamente perfeitas, o apuro em todas as etapas de produção é impressionante, mas porque ao se fotografar a “tragédia” tem que se fazer de modo precário ou sem apuro?

Os quadros, então, de Bosch, de Chagall, de Picasso, de Portinari, devem ser queimados, pois também representaram a desgraça humana com grande técnica.

Mas há quem vá dizer que a fotografia, ou o fotojornalismo, encontra-se numa esfera diversa das artes plásticas, que o fotojornalismo não é “arte”, mas jornalismo visual.

Mas como jornalismo, como texto, como narrativa, a fotografia é tão parcial quanto qualquer outra linguagem. Ela não é a “realidade”, mas uma representação da realidade, construida pelo autor, o qual seleciona aquilo que deseja contar.

 Mas, contudo, contudo, o que mais me impressiona é a idéia subjacente nas críticas de que as imagens não revelam uma realidade palpável, efetiva, mas são “manipulações estéticas”. Realizações para produzir efeitos emotivos baratos no público.

Dez anos depois a crítica, e muitos dos críticos são os mesmos de 1999, diz o mesmo a respeito do documentário de José Padilha, citando inclusive sua escolha pelo preto e branco como parte dessa manipulação, tal e qual disseram de Salgado.

E também como na crítica a exposição Êxodos, fica pairando no ar a insunuação de que a desgraça mostrada não é real, mas um truque de prestidigitador para tocar corações sensíveis.

Nesses dez anos pude viajar por diversas regiões do Brasil e da América do Sul e, com toda a sinceridade, não me parece que os críticos, boa parte dos quais jamais saiu dos circuito Jardins-Higienópolis-Morumbi, sejam as pessoas mais habilitadas a dizer o quanto essas realidades existem ou não.

Se não há fome, não há guerra, não há epidemia, não há desigualdade social e exploração, então chegamos ao fim dos tempos e já estamos habitando o Paraiso Terreal, em preto e branco ou a cores, para agradar os críticos.

A opção de Salgado e de Padilha pelo branco e preto é tão legítima quanto a minha opção por escrever o cabeçalho deste texto em vermelho, ou do crítico ao fazer uma citação, são recursos estéticos sim, porque somos seres humanos e essa é uma das dimensões que nos difere dos demais seres vivos, o fato de sermos seres culturais.

O preto e branco traz uma série de referências emocionais, sensoriais? Sim, tanto quanto as demais cores. E qualquer suporte visual de informação – o texto escrito, o vídeo, a fotografia – traz isso, mais ou menos consciente. E isso faz parte da mensagem que você deseja transmitir.

As fotos de uma guerra poderiam ser feitas com tons quentes, tendendo para o vermelho, o laranja. Mas isso ocorre com qualquer construção de imagem, e faz parte de nossa “educação visual”, a qual recebemos desde a primeira infância e vai se consolidando ao longo da vida.

Independentemente das discusões a respeito da “manipulação estética” o que me parece é que parte da crítica não consegue suportar a idéia de que, com ou sem apuro, em preto e branco ou a cores, a fome, a guerra, a doença estão lá.

Talvez porque não faça parte do mundo diletante da crítica de arte, a qual, paradoxalmente, vive de discutir “estética” e pouco mais do que isso.

Esse tipo de crítica tende a desviar o foco da questão, que é o cerne das narrativas, que é o argumento, o roteiro de uma exposição, de um livro, de um documentário.

Sem contar que colabora para manter parte do universo na percepção de que o mundo limita-se àquilo que vejo e que me toca pessoalmente, e que tudo o que me é trazido de longe, através das câmeras, é tão ficcional quanto uma novela de TV ou um filme da Disney. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da arte, História da cultura, História e cinema, Imprensa, Migrações Tags: , , , , , , ,
11/01/2009 - 21:03

Sobre alhos e bugalhos: crítica, análise e estudo.

Um leitor escreveu dias atrás que minha análise a respeito da formação do racismo e da xenofobia era inconsistente, blá, blá, blá. Que no caso palestino isso deveria ser avaliado de outro modo e blá, blá, blá. Que racista era minha atitude em relação aos israelenses (!!!!!), e blá, blá, blá.

 

De certa forma, quem escreve ou se manifesta publicamente está sujeito a ser alvo de toda ordem de crítica e de “falar mal”. Outro dia vi um leitor dizendo que o Alberto Dines era desinformado, mal intencionado, sei lá mais o quê. Dines!!! Um dos maiores jornalistas vivos do Brasil. O amigo Ricardo Kotscho, também daqui do IG, constantemente se vê diante dos chamados “cachorros loucos”, gente que entra nos blogs e só falta escrever: Só não te mato porque não posso!

Quando entrei no curso de história, há muitos anos, um professor peruano visitante, Rodrigo Montoya (o maior especialista vivo em cultura incaica), da Universidad San Marco de Lima, pediu para que nós alunos de primeiro semestre escrevessemos uma “crítica” sobre um texto que nos indicou. Apavorado fui conversar com nossa professora de metodologia, Ana Maria Camargo (outra sumidade em arquivística), e perguntei: Professora, o que é uma crítica?

Ela me olhou, por cima das lentes do óculos, como sempre fazia, e disse: Só posso lhe dizer que criticar é diferente de falar mal!

Parece vago, mas é, em sua essência, exato o comentário de Ana Maria Camargo.

Anos depois, lendo o livro de outro professor meu (brilhante), Nicolau Sevcenko, encontrei uma belíssima esplanação semântica da palavra “crítica”: vem do grego, da palavra krinein, que significa “fazer juizo”, “ajuizar”, dela veio a palavra “cernere”, do latim, que quer dizer exatamente a mesma coisa, dai o verbo “discernir”.

Quando numa sociedade há ausência de “crítica” a mesma entra em “crise” (do mesmo radical grego, ou seja, a ausência de discernimento, de ajuizamento).

Outro, antes de Sevcenko, que discorreu longamente a respeito disso, e no qual ele bebeu, foi Reinhart Koselleck.

De qualquer modo, o que as pessoas – em sua maioria – estão acostumadas a fazer é falar mal, não a criticar. E nisso incluo alguns “articulistas” que se tornaram comentadores em épocas nas quais qualquer um que tivesse tempo livre poderia se tornar um jornalista, historiador, sociologo. Isso mudou em grande medida, mas ainda há resquícios.

Um dos problemas que envolve essa questão toda é a confusão que as pessoas fazem entre isenção e ausência de opinião, ou melhor, entre isenção e ética. Ninguém é isento, mas as pessoas devem ser éticas.

Ninguém pode fugir à sua própria história, formação, origens, influências, mas ser desonesto é outra coisa.

No caso do conflito entre israelenses e palestinos isso é fermento para o pão.

As pessoas em grande maioria só conseguem pensar: Bom, se ele está criticando as ações do Estado de Israel neste caso, logo ele é antissemita, racista, xenófobo. Quer a destruição de Israel.

Ou o contrário: Se está expondo as razões de Israel ele é contra os palestinos, é sionista, radical.

É difícil entender que a crítica – e não o falar mal – é pontual: Está se criticando a ação do exército israelense no tratamento da questão palestina, na Faixa de Gaza, nesta ocasião. Não está se atacando o Estado como um todo, todos seus cidadãos, os judeus, a religião judaica ou seja lá o que for.

Mas essa falta de compreesão de alguns leva a uma dicotomia que é absolutamente falsa e cria o que Cacá Diegues chamou há décadas de “patrulhas ideológicas”.

Ou seja, não se pode criticar ações do exército israelense que logo você é antissemita, não se pode criticar ações do Movimento Negro que logo você é racista, não se pode criticar ações de do PSDB que você é petista, ou o inverso.

A verdade é que o “livre pensamento”, a “crítica” é incomoda, pois é mais fácil falar mal e simplesmente tentar desqualificar algo ao estilo Oswald de Andrade: Não vi e não gostei.

Mas ainda há uma outra dimensão do problema.

Já comentei a respeito disso em outras ocasiões, mas vou retomar o assunto.  Quando você fica doente do coração consulta um cardiologista e não um funileiro. Então porque pessoas que jamais chegaram perto de um texto de história se sentem no direito de desqualificar o trabalho e as idéias de quem o fez e faz há anos?

Ok, uma sociedade livre implica em que qualquer pessoa tenha o direito de criticar as ideias do outro, mas tentar indicar “supostos erros” sem ter absolutamente nada em mãos (a não ser outros textos que selecionadamente lhe respaldam, em geral tão ruins quanto) não é criticar, é somente falar mal.

O debate aberto é fundamental para sociedades democráticas, mas isso implica em que os debatedores usem ferramentas iguais, estejam igualmente expostos. Não se pode colocar pesos diferentes para competir nas mesmas categorias.

Além do mais há uma outra deformação da questão: debater as idéias não significa querer destruir quem tem uma opinião diversa da minha. Assim ensinavam os iluministas, mas muitos preferem dizer que você é um verme, simplesmente porque sua interpretação do tema (a qual é respaldada em anos de estudo, aliás) é contrária à ideologia do outro.

No final, o exercício da convivência democrática é dificultada, muito porque se confunde a liberdade de expressão e franqueza no debate com um “vale tudo do palavrório” no qual as pessoas entram com habilidades diferentes, armas diferentes e se pegam no ringue até que alguém jogue a toalha.

Sempre que surge aqui esse tipo de crítica adoto uma postura que imagino ser democrática e justa: Um debate embasado, com indicação de fontes, de leituras, com análise crítica dos autores nos quais cada um se sustenta.

Afinal de contas, não é porque Hitler escreveu “Minha luta” que as idéias que estão ali sejam razoáveis e as informações verdadeiras.

Para saber o que é uma coisa e outra é necessário estudo, reflexão e respeito, moedas em falta no mercado, infelizmente.

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, Imprensa, Sem categoria Tags: , , ,
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