Arquivo da Categoria História medieval
18/09/2009 - 06:55
Oficialmente, hoje, a tortura é proibida na grande maioria dos países democráticos, embora, nos cantos das prisões, delegacias, ou mesmo nos becos e matagais, ela continue sendo praticada também em quase todos os países. Em alguns mais, em outros menos, mas são raros os que podem se orgulhar e dizer sem receio que aboliram a tortura de seus territórios.
De modo “simples” a tortura é a prática de se obter confissões, revelações, informações através da coerção pela dor física ou psicológica. Teóricamente, diante do medo ou da dor o “informante” ou o “investigado” passaria a revelar coisas que normalmente negaria ou esconderia do outros modos.
Se, tecnicamente, a tortura é isso, na realidade tudo é muito mais cruel. Já na esteira das lutas pela redemocratização do Brasil a Igreja Católica encampou uma longa pesquisa sobre o tema, a qual resultou num dossiê chamado “Tortura Nunca Mais”, o qual se tornou um marco da luta pelos direitos humanos. Uma das coisas mais assustadoras revelada pelos testemunhos dos torturados pe a estranha e doentia relação que se estabelece entre torturador e torturado.
Colocado em situação degradante – nú, sujo, amordaçado, amarrado, encapuçado -, absolutamente exposto, indefeso, o ser humano se transforma radicalmente e o torturador, muitas das vezes, penetra no fundo da alma dos torturados, torna-se uma presença na mente além das marcas que deixa no corpo. Ele investiga, te contradiz, expõe detalhes de sua vida, ameaça pessoas que lhe são caras, duvida de você mesmo quando diz apenas a verdade, ou diz apenas o que sabe, a ponto do torturado chegar a duvidar de si próprio. A sanidade mental do torturado se esvai.
O torturador, por sua vez, se apossa do corpo e da alma da vítima, cria uma compulsão doentia, prazer sádico em controlar o outro.
Oficialmente a tortura – seja como punição, seja como recurso de investigação – está banida há muito tempo, processo que começou já na Idade Moderna e foi defendido por pensadores como Césare Beccaria. O processo é bem acompanhado no clássico livro “Vigiar e Punir” de Michael Foucault, o qual, inclusive, começa coma descrição da tortura impingida, como castigo, a um francês condenado a morte por parricídio (assassinato do pai).
Um dos motivos que levou a tortura a ser banida – além da disseminação dos Direitos Humanos – foi a contínua refutação dos testemunhos obtidos sob tortura, procedimento que, na Idade Média, era absolutamente disseminado.
Em inúmeros filmes, e livros, a tortura medieval é apresentada como “o supra sumo” da tortura, coisa que, na realidade, é muito subjetiva e difícil de avaliar. Mas, de fato, era uma prática “aceita”, ou seja, não era errado, ilegal ou imoral, não era anti-cristão praticar a tortura para obter uma confissão ou como punição.
A Santa Inquisição – movimento da Igreja Católica movido para coibir e debelar ações tidas como heréticas (fora do cânone, das regras, da Igreja) – ficou famosa pelo uso indiscriminado da tortura por inquisidores como o espanhol Torquemada.
Rodas para se esticar as pessoas, bolas de metal sobre fogueiras, sacos com animais vivos amarrados as parte do corpo do torturado, prensas de pés e mãos, ferros de marcar, tenazes para arrancar unhas e pedaços de carne, tudo o que hoje vemos como absolutamente degradante como forma de investigação e de justiça.
Mulheres e judeus foram alvos preferenciais da Inquisição e, consequentemente, da tortura. Muitas vezes o torturado chegava a conclusão de que admitir uma culpa falsa era a única possibilidade de morrer com menos dor, de por fim ao sofrimento. Tanto nos casos de acusação de “bruxaria” (o mais recorrente contra as mulheres) como no de acusação por “judaísmo” muitos preferiram confessar qualquer coisa para evitar o prosseguimento da tortura.
O historiador italiano Carlo Ginzburg ao investigar os processos da Inquisição na Ítalia no começo da Idade Moderna observou que até mesmo as confissões eram padronizadas, o que indica que, diante do desespero dos acusados, os inquisidores ditavam admissões de culpa, às quais os torturados apenas respondiam positivamente.
Na realidade todo o sistema de “justiça” era radicalmente diverso do nosso e, sobretudo no caso dos julgamentos pela Igreja Católica, as culpas, muitas das vezes, estava decidida antes do término do julgamento. Por isso, diante da condenação irreversível, alguns “aceleravam” o processo admitindo qualquer coisa.
Quando condenadas a morte na fogueira por bruxaria, caso tivessem confessado e se “redimido”, as acusadas tinham a “benesse” de serem estranguladas antes de serem queimadas, evitando a dolorosa morte por asfixiamento. Caso não confessassem eram queimadas diretamente.
Um dos casos mais horrendos envolvendo a tortura na Idade Média foi o do julgamento dos líderes da Ordem dos Templários durante o reinado de Felipe o Belo. Endividado com os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, o rei francês decidiu “derrubar” a ordem, justamente num momento em que o papado estava quase sob sua tutela. Sem quem lhe fizesse oposição, Felipe os denunciou por heresia e conduziu, através de seus homens de confiança, como o conselheiro Enguerand de Marigny, interrogatórios contra os dignatários da ordem, entre eles o Grão Mestre Jacques de Molay.
Diante da tortura – na qual tiveram suas peles queimadas ou arrancadas, seus corpos perfurados, barbas e cabelos arrancados – os cavaleiros recorrentemente confessavam fazerem cultos ao demônio, terem relações homossexuais, sacrificarem crianças, adorarem deuses pagãos. Justamente a Ordem que encarnou como nenhuma outra o espírito da Cruzada e que se tornou símbolo do poder militar da Igreja Católica!!
Contudo, no dia do interrogatório final os dignitários retiraram todas suas confissões, e denunciaram as torturas. Com isso foram condenados a morte na fogueira e antes que emissários papais chegassem para rever o processo, foram queimados na Ile de France.
Esse episódio, ocorrido no início do século XIV, ainda se repetiria milhares de vezes nos séculos seguintes, até chegar ao ponto de ser considerado uma aberração diante dos direitos humanos e da justiça. Exatamente por isso é importante lembrar desse longo trajeto até aqui quando vemos acusados – independentemente da gravidade das acusações que recaem sobre eles – sendo torturados como forma de obter confissão, informação ou como forma de punição ou castigo. Além de indigna, de degradante, de covarde e criminosa, a tortura jamais trouxe a regeneração ou a verdade, objetivos buscados pela justiça.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História Moderna, História contemporânea, História da cultura, História medieval
Tags: Idade Média, Justiça, Tortura
15/09/2009 - 06:36
Essa frase de Karl Marx (traduzida de formas diversas) se tornou uma máxima recorrente nos trabalhos de história, e muitas vezes nos textos de “não historiadores”. O sentido dela, buscado por Marx, era o de dar a percepção de que os homens (como “espécie humana”, não como “gênero”), embora sejam os construtores da história, pois ela deriva de suas ações, expectativas, anseios, lutas, limitações, não possuem essa consciência plena, até mesmo porque cada ser humano é uma parte minúscula num universo de desejos e ações de complexidade inimaginável. Ao mesmo tempo a frase de Marx sempre trouxe um ar de “incerteza”, de “indefinição do futuro”, contido no “não saber” que encerra a máxima.
Lembro que uma professora minha, de graduação, costumava a dizer, em tom de piada, que seria risível imaginar que Dom Diniz, rei português do começo do século XIV, sabia que no futuro os pinheiros que mandara plantar na cidade de Leiria seriam utilizados para a construção de muitas das naus que foram empregadas nas grandes navegações. E ela o imitava: “Ora, pá, vamos a andar rápido com estes pinheiros pois havemos de navegar. Anda, anda.”
As teorias a respeito da história – o que implica, claro, na relação que estabelecemos com o tempo e nossa capacidade e formas de alteração no decorrer dele – sempre se deparam com a relação estabelecida entre os três tempos que fundamentam o pensamento ocidental: o passado, o presente e o futuro.
Para pensadores alinhados com as idéias de Marx – o que não significa que sejam “marxistas” – essa idéia da história como algo movido pelas lutas, disputas, tensões humanas, mas indefinida em seu futuro imediato, contrasta com a idéia de um “fim da história” algo “milenarista” (escatológico seria o termo correto, feio, mas correto). Isso porque busca-se ao fim a constituição de uma sociedade ideal, ou seja, embora o intervalo de tempo entre a atualidade e a meta seja indefinido, o objetivo está posto, o fim está desenhado.
Muitos já comentaram a respeito da influência da religião judaica no pensamento de Karl Marx, dai uma possivel relação entre a idéia de “fim”, de retorno ao princípio ideal comum - parcialmente - entre o judaísmo e o pensamento de Marx.
Mas, independentemente disso, a própria história nos prega peças, as quais estão continuamente nos obrigando a buscar explicações mais consolidadas, mais adequadas às realidades que sempre são mais complexas do que imaginamos.
O caso do mesmo Dom Diniz, citado pela minha professora, é exemplar.
De acordo com ela as ações de Dom Diniz estariam completamente descoladas do futuro, o emprego dos pinheiros na construção dos navios que levaram Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral seria apenas uma confluência de fatores, uma casualidade do destino.
Mas, parece que não foi bem assim.
Poucos anos antes de Dom Diniz mandar plantar os pinheirais em Leiria a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida mais popularmente como Ordem dos Templários, foi processada e extinta pelo Papa, com ação direta e em favor do rei francês Felipe, o Belo.
No processo de dissolução da Ordem, e da prisão de seus principais homens (entre eles o Grão Mestre Jacques De Molay), os Templários – avisados certamente das tensões que corriam nos corredores de Paris – trataram de por a salvo os principais bens, assim como parte significativa de sua documentação.
Muitas lendas foram criadas a respeito desses eventos. Teria a esquadra templária levantado âncoras do porto francês onde estava atracada três dias antes da deflagração da caça aos irmãos da ordem, tendo depois disso desaparecido para sempre. Também a bordo da esquadra estaria o conteúdo de três carroças escoltadas para o porto por cinquenta monges templários, o que deu origem a inúmeros mitos a respeito do “Tesouro Templário”.
De fato mesmo sabemos que muito pouco tempo depois o rei português, Dom Diniz, nomeou o primeiro almirante do reino de Portugal, sem que, até então, houvesse uma esquadra que justificasse tal nomeação. Também é fato que a relação entre os Templários e os monarcas portugueses foi excelente desde a fundação da Ordem e do acolhimento deles em território português pela rainha D. Teresa. É certo, ainda, que Dom Diniz se recusou a entregar os bens da Ordem dos Templários à Santa Sé, obtendo a autorização para criar uma nova ordem em Portugal, a Ordem de Cristo, a qual herdou os bens templários.
Aproximadamente cento e cinquenta anos depois desses eventos Portugal se lançou de modo pioneiro às grandes navegações e elas encabeçadas pela Ordem de Cristo (cujo símbolo, do qual lembramos bem de nossos livros de história por estarem nas velas das naus portuguesas, a cruz vermelha sobre o fundo branco, é uma ligeira adaptação do emblema da Ordem do Templo). Um dos mentores e responsáveis pela empreitada das navegações: Dom Henrique, o Navegador, irmão do rei de Portugal e mestre da Ordem de Cristo, morador de Lagos, onde fica o promontório de Sagres, famoso pela “mítica escola de navegação” (a qual jamais existiu como “espaço”, como “lugar físico”).
Alguns historiadores defendem que para Portugal confluiu, além de muitos templários, o conjunto de documentos e informações técnicas reunidas pelos cavaleiros da ordem durante toda sua existência navegando no Mediterrâneo, levando peregrinos e tropas para a Terra Santa. Nesse trabalho acumularam profundo conhecimento de astronomia, navegação, matemática, cartografia, produzidos pelos árabes, venezianos, genoveses e outros tantos povos da bacia do Mediterrâneo, além de conhecimento proveniente do oriente distante e trazido através da Palestina, povos com os quais mantiveram contato constante.
Os portugueses, povo que soube assimilar a herança islâmica, teria aproveitado igualmente bem todo esse conjunto de “saberes” trazido na fuga dos templários. Apropriado e operacionalizado pela coroa portuguesa, católica e profundamente alinhada com o espírito cruzadístico de levar a fé católica a todos os recantos do mundo. Talvez em nenhuma outra Coroa o sentido da “cruzada” encarnado pela Ordem do Templo tivesse encontrado mais perfeita acolhida.
Curiosamente, o mesmo rei que acolheu os templários fugitivos, que criou a Ordem de Cristo, que nomeou o primeiro almirante português, que garantiu a manutenção dos bens templários em território português e sob controle da coroa, foi o que mandou plantar os pinheirais em Leiria, tão adequados a construção naval. Imaginava o futuro o rei português e seus próximos? Estavam a projetar o futuro?
É claro, não tinham como saber que efetivamente isso se concretizaria num futuro tão distante, mas dizer que não projetaram nada, que mesmo em sua visão católica de espera do retorno do Messias, não tenham tomado providencias para seguir um rumo especifico, parece também pouco crível.
Então, os homens podem não saber como fazem a história, mas isso, provavelmente, não é sempre.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História medieval
Tags: Dom Diniz, Navegações, Ordem de Cristo, Ordem do Templo, Portugal, Templários
14/07/2009 - 06:47
Eu nunca passei por isso – meus pais tinham técnicas mais “liberais” para me convencer a fazer algo -, mas vários amigos de infância foram disciplinados sob a força do medo do famigerado “Homem do Saco”.
Outros tinham figuras alternativas que os pais invocavam na hora do aperto: Se não comer vou chamar o Homem do Saco! ou Criança sem educação o Bicho Papão leva embora! E aí por diante – com figuras que caíram em desuso, inclusive, como a Cuca.
Particularmente, sempre imaginei que eram criações “caseiras” essas figuras de terror, coisas que se perdem na memória do tempo ou que cada família tem a sua, sem qualquer padronização ou regulamentação. Mas há alguns anos foi lançado um livro com as “histórias de fada que as mães não contam”, ou seja, uma versão “Pulp Fiction” de Chapeuzinho Vermelho e afins. Tarantino deve ter lido os contos de fada no original para se inspirar.
Boa parte deles foi criada na Idade Média e tinha como objetivo disciplinar crianças – e adultos também – e difundir um tipo específico de moral, contos “pedagógicos” diríamos. Dentro da lógica educacional da Idade Média, é claro.
Mas nunca havia visto nenhuma referência às origens dessas figuras como o Homem do Saco, dessas “lendas urbanas” ancestrais. Dia desses me caiu nas mãos um livro curioso – apesar de terrivelmente mal escrito – que acabou com essa tormentosa dúvida que me seguia desde a infância: quem foi o Homem do Saco?
Na Europa havia desde a Idade Média até a Modernidade um hábito comum entre a plebe que era o de atribuir a membros da nobreza qualquer autoria de crimes bizarros não esclarecidos. Ainda no século XIX, em Londres, corria fortemente o boato de Jack o Estripador era o príncipe (o qual tinha algum tipo de doença que a família escondia de todas as formas).
Então seria uma boa aposta creditar a nobreza ou a alguém ligado a ela a identidade secreta dessa figura (responsável por fazer desaparecer crianças). Mas isso, sinceramente não havia me ocorrido.
As desconfianças da plebe em relação a nobreza tinham várias origens e motivos. Além da questão da exploração social que era clara e cotidiana – manifesta na série de obrigações devidas aos nobres – havia também a percepção clara de que em certas famílias de nobres certas deficiências passavam de geração a geração.
Isso se acentuou quando os estados nacionais começaram a ser formados e as monarquias unificaram seus territórios através de contratos de casamentos cada vez mais fechados. Ou seja, no final da Idade Média e começo da Modernidade a quantidade de pessoas envolvidas nos acordos matromoniais para manutenção de terras diminuiu gradativamente, levando a uma situação que, na Europa, os nobres eramq uase todos aparentados, próximos ou distantes, o que exigia complexos estudos genealógicos para que um casamento fosse permitido pela Igreja e que se desdobrava em lutas intermináveis nos processos de sucessão dos reinos.
Esses casamentos praticamente endogâmicos acabaram por favorecer a transmissão de modo hereditário de certas doenças, como a hemofilia e a epilepsia. Além disso muitos contraiam sífilis, que em seus estágios avançados provoca disturbios mentais.
Além disso o excesso de poder, sem quase nenhuma instância capaz de acusar, julgar e punir, promovia em muitos membros da nobreza uma sensação de onipotência que descambava para a crueldade pura e simples ou a ausência de qualquer parâmetro de respeito ao outro.
No leste da Europa algumas das histórias mais cruéis envolvendo membros da nobreza se desenrolaram. Um dos casos mais célebres é justamente de Vlad Tepes III, o Dracul, que pela sua ferocidade no combate aos mouros que tentaram invadir a Transilvânia durante seu reinado – depois estendida a outros adversários – inspirou o escritor inglês Bran Stoker na composição de seu “Drácula”. Dracul tinha com o medida de aterrorização dos inimigos mandar empalar em campo aberto os adversários presos.
Uma das famílias ligadas a casa de Vlad Tepes, os Báthory, originários da Hungria, foi o ambiente onde nasceu a história do “Homem do Saco”.
Elizabeth Báthory (nascida em 1560 ou 1561) casou-se muito jovem com o herdeiro de outra família nobre húngara, Ferenc Nadasdy (que trocou seu sobrenome pelo da esposa por ser de família mais importante na Hungria). Desde os primeiros anos o casal nutria um prazer comum em praticar inúmeros atos de crueldade.
Ambos os noivos vinham de históricos de violência e atos de sadismo quando crianças, aplicados a animais e servos, além do prazer comum em assistir execuções públicas. Elizabeth, apesar da incrível educação (conhecia latim, grego, alemão, além de ser famosa pela beleza), era desde muito cedo evitada pelos servos e mesmo por parentes.
Diz a tradição que certa feita, irritada com uma serva que “falava demais”, mandou costurar sua boca. Após ficar viúva passou a empregar seus servos mais próximos para capturar jovens da região – daí a história do “Homem do Saco” – os quais desapareciam para sempre depois de serem levados ao castelo de Cachtice, residência de Báthory.
A situação se estendeu durante anos e só foi interrompida quando filhas jovens da pequena nobreza local passaram também a desaparecer. Diante disso o rei da Hungria, Matias, enviou um de seus homens de confiança – primo de Elizabeth – para investigar o caso.
Não se sabe exatamente a dimensão do horror que encontrou no interior do castelo, mas ela foi isenta de responsabilidade (atribuida totalmente aos seus servos, acusados de “bruxaria”) para não provocar um constrangimento a nobreza. De qualquer modo ela foi trancafiada no castelo até sua morte.
É claro que “quem conta um conto aumenta um ponto”, e muitas histórias ao redor de Báthery foram aumentadas – como a que diz que doente, de cama, ordenou que lhe trouxessemuma jovem, a qual mordeu a jugular e o ombro, arrancando sangue que acreditava ser remédio para seu mal. Ou a história de que se banhava em sangue de suas vítimas.
A memória da região acabou por consolidar essas versões, sejam elas verdadeiras ou não. O fato é que o emissário do rei, ao vasculhar o castelo, teria encontrado ao menos 50 ossadas enterradas no porão, além de diversas moças agonizantes, mutiladas de formas bizarras. Teria ele contabilizado mais de 650 desaparecimentos na região.
Mesmo sendo um número pouco crível é indiscutível que algum mal rodeava Cachtice, e que boa parte de suas vítimas foram capturadas pelos servos de Elizabeth, dando origem a história dos homens que capturam crianças.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História medieval, Memória e história
Tags: Assassinatos, Cachtice, Elizabeth Bathery, Hungria, Nobreza, Transilvânia
12/06/2009 - 21:40
Antes do cristianismo se espalhar pela Europa no começo da nossa era a nova religião passou por diversas alterações que acentuaram seu caráter “judaico”. Os pesquisadores da história do cristianismo concordam que o formato que a religião tem hoje difere muito da que foi estabelecida na Palestina há dois mil anos. Até a conversão de Saulo de Tarso – o Apóstolo Paulo, o único dos apóstolos convertido após a morte de Cristo – todos os seguidores eram judeus. De diversas correntes do judaísmo, mas judeus.
É difícil saber ao certo até que ponto o movimento de Jesus e seus seguidores era um rompimento com o judaísmo ou a tentativa de uma “reforma” do mesmo. O que sabemos hoje foi obtido através do estudo de textos diversos escritos naquela época, como os manuscritos do Mar Morto ou textos romanos (como do “historiador” judeu convertido Flávio Josefo), de escavações arqueológicas ou de textos cristãos, todos eles escritos muitos anos após a morte de Cristo. Por isso é complexo determinar o que exatamente se passava na pequena comunidade de seguidores do “Rabi” (como eram chamados os doutos nas leis judaicas que tinham o direito de ensiná-las).
Outra coisa que se sabe é que a influência de Paulo – que era grego, por isso chamado de “apóstolo do gentio” (gentio era a palavra grega para designar os “não gregos”) – foi fundamental nesse processo de atenuação do caráter judaico do cristianismo. Com isso o cristianismo foi definitivamente se consolidando como uma nova fé e não mais – se é que o foi algum dia – uma reforma do judaísmo.
É provável que parte do ritual da comunhão – ou talvez ele todo – seja de origem grega e não judaíca, entre outros elementos. De qualquer forma o fato é que o cristianismo se valeu de uma incrível plasticidade para se difundir mundo a fora. Ele foi agregando elementos de diversos credos, tradições, dando novos sentidos a antigas práticas e garantindo sua difusão. Por isso se tornou uma religião de grande expansão, diferentemente do islamismo, que se difundiu, entre outros motivos, por atender às demandas dos povos mais pobres e de estabelecer uma ligação direta entre os sentidos da religião e o cotidiano das sociedades.
Quando o cristianismo começou a se espalhar mais rapidamente pela Europa, no começo da Idade Média, uma das práticas mais eficientes na conversão dos povos foi a da criação de um grande grupo de santos e santas, seres humanos como qualquer um, mas que, segundo os católicos possuem uma conexão especial com o divino, portanto capazes de interceder em favor do resto da humanidade. É importante lembrar que até a Reforma Protestante, já no começo da Idade Moderna, a existência dos santos era reconhecida como comum ao mundo cristão – católico, ortodoxo ou de outras vertentes que já existiam. Somente depois houve uma recusa por parte dos reformistas – luteranos, calvinistas, etc. - da pertinência da devoção aos santos, o que foi a base do princípio comum hoje aos cristão evangélicos, pentecostais, etc.
De qualquer modo os santos foram “incorporando” características oriundas de antigas crenças e características locais. Por isso tantas manifestações de “Nossa Senhora”, em cada região ela assumiu uma feição diversa.
Mas há casos bastante interessantes, como os dos santos irlandeses ou do Oriente, como o próprio São Jorge.
Antes do cristianismo se difundir a religião romana – em boa parte desdobramento das crenças gregas clássicas – já havia se espalhado pelas regiões dominadas pelo Império. Depois de séculos de ocupação romana muitas populações se sentiam praticamente romanos, embora fossem de regiões que hoje pertencem a Espanha, Portugal, França, Alemanha. Com isso estruturas comuns as cidades romanas na península itálica – berço do Império – começaram a se espalhar também pelas demais áreas da Europa, como Coliseus, Fóruns, Termas, etc. Também templos dedicados às divindades romanas foram erguidos por todos os lados.
Santo Antonio, na verdade Martim Antonio Franciscano, nasceu em Lisboa, no final do século XII, e ingressou na ordem franciscana. A convite do próprio Francisco de Assis partiu para a Itália e para a França. Na Itália pregou, e faleceu, na cidade de Pádua, em 1231 - por isso é chamado também de Santo Antonio de Pádua -, onde havia um gigantesco templo dedicado a deusa Ceres, protetora da agricultura e da fertilidade para os romanos. No templo de Ceres as mulheres que queriam engravidar ou que procuravam maridos faziam oferendas ou pequenos rituais em homenagem a deusa.
Santo Antonio provavelmente foi associado “aos casamentos” justamente pelo fato de ter se ligado a Pádua. A tradição defende que Antonio era um exímio conciliador de “casamentos”, mas enquanto era vivo sua fama era a de grande doutor no evangelho e nas leis, por isso apelidade de “martelo dos hereges”.
Sua fama de casamenteiro se difundiu muito mais em Portugal e no Brasil do que na própria Itália e a quantidade de práticas recomendadas às moças “casadoiras” para encontrar marido é quase que infindável: colocar a imagem do Santo de ponta cabeça, tirar o menino Jesus de seus braços, afogá-lo, amarrar com corda, carregar o pau de sua bandeira ou fazer chá da casca do tronco, ou as mais modernas como colocá-lo no freezer, como vi dia desses. Mas Santo Antonio não foi o único a receber atributos de deuses pagãos, o mesmo ocorreu com inúmeros outros e garantiu a aceitação do cristianismo pelos povos ao redor do mundo.
Por isso, não perca-se tempo: é do dia 12 para 13 de junho que o pobre do Santo deve ser “cobrado”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História medieval
Tags: Casamenteiro, Catolicismo, Franciscano, Lisboa, Pádua, Santo Antonio
11/05/2009 - 07:30
Nos últimos dias o noticiário internacional esteve dividido entre a expansão da gripe suína, agora chamada por um nome mais “técnico”, e a visita que o Papa está fazendo a algumas regiões do Oriente Médio.
Em verdade Ratzinger tenta se redimir pela insinuação de que o islamismo, e o profeta Maomé, pregavam a violência, feita ano passado. Ao mesmo tempo o Papa, ou sua chancelaria, tenta voltar a reduzir a distância entre as fés, processo que é longo e que foi fortemente incentivado pelo Papa João Paulo II.
Faz quase 1500 anos que cristãos e muçulmanos tentam se entender naquela região, a questão judaica somente tomou o papel protagonista nesse contexto de conflitos após a criação do Estado de Israel em 1948. Talvez justamente pelo aparecimento de um opositor com feição de “estado nacional”, de “país”, a questão religiosa entre muçulmanos e cristão, mais especificamente católicos, passou para segundo plano.
O fato é que mesmo após o encerramento do grande ciclo das guerras religiosas entre cristãos e muçulmanos na Palestina (embora tenham se mantido em dimensões menores na região, ou mesmo em outras regiões do planeta, como nos Balcãs e no leste europeu) a relação entre o papado e os estados islâmicos jamais foi plenamente tranquila.
É verdade que é impossível se apagar completamente da memória eventos tão marcantes para os povos daquela região como as sucessivas Cruzadas, a tomada de Constantinopla pelos turcos-otomanos, a batalha de Lepanto e tantos outros momentos traumáticos para ambos os lados. Mas isso não significa que as relações tenham que ser eternamente marcadas por acusações mútuas e lembranças mais ou menos inconscientes de preceitos discriminatórios de ambas as fés.
Há um caso curioso que se passou com o Papa João Paulo II. Visitando a Sinagoga de Roma (fato histórico por promover a reaproximação entre católicos e judeus, outra relação problemática e ainda mais antiga do que a com os islâmicos), Karol Wojtila disse que para os cristãos os judeus eram seus “irmãos mais velhos”.
Bom, para a maioria das pessoas tal comentário seria uma grande deferência, um elogio simpático, familiar mesmo, trazendo para o seio da intimidade, do mesmo grupo, pessoas com as quais se debateu durante praticamente dois milênios. Mas isso não é tão simples quanto parece para pessoas que conhecem profundamente o Antigo Testamento, como o Papa e os Rabinos.
Em um dos episódios mais importantes do “Livro”, Esaú e Jacó disputam a preferência do pai, o qual está praticamente cego, então o filho mais velho, pastor de cabras vende sua primogenitura para o filho mais jovem por um “prato de lentilhas”. É um momento de rompimento na história, no qual o filho mais velho, o primogênito, vende de modo tolo e quase humilhante seu direito tradicional, base da sociedade e da sucessão familiar para o irmão mais jovem, trazendo com isso toda uma carga de culpa e de inferioridade.
A lembrança dessa passagem, da relação entre irmãos mais jovens e mais velhos, não se pode garantir que estava consciente na mente do Papa João Paulo II, mas foi notada por alguns comentadores, como o historiador italiano d eorigem judaica Carlo Ginzburg. O fato é que consciente ou não, está gravada na memória, através de uma longa educação teológica, determinados preceitos que estabelecem como as pessoas de um credo vêem as de outro. Romper com isso não é fácil, nem instantâneo.
Apesar das argumentações apresentadas pelos porta-vozes do Vaticano, explicando que o sentido das palavras do Papa Bento XVI foram alterados e sua fala descontextualizada, o fato é que na memória de Ratzinger está gravado esse conjunto de idéias que fundamentaram o cristianismo durante séculos, o que não significa que ele possa, queira ou deva se manifestar publicamente assentado nele.
Nesta semana o Papa visitará lugares sagrados para o cristianismo na área mais “quente” da Palestina – excetuando-se, obviamente, a Faixa de Gaza – que é o setor de Jerusalém. Basta lembrar que a última explosão de violência dos islâmicos contra judeus na área ocorreu com a provocação que o então candidato Ariel Sharon fez ao visitar a Mesquita de Al-Aqsa, lugar sagrado para as três religiões, sob controle religioso islâmico, mas em território reinvindicado por Israel (Jerusalém não é reconhecida oficialmente como território israelense, pois de acordo com as determinações da ONU deveria haver algume espécie de compartilhamento com os palestinos).
As visitas dos representantes da “cristandade” a Jerusalém quase sempre foram complexas e cheias de significados e implicações, desde a época das grandes peregrinações medievais. Afinal de contas, foi para garantir o acesso cristão a esses lugares (pelo menos esse era o “argumento formal”) que as Cruzadas foram conclamadas.
De qualquer modo, gestos de boa vontade são bem vindos de todos os lados, mesmo sem o Papa poder se proclamar como porta voz da cristandade. Resta saber se seus atos e falas não trarão novas implicações diante dessa longa e conflituosa relação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura, História do oriente, História medieval
Tags: Bento XVI, Diplomacia, Jerusalém, João Paulo II, Karol Wojtila, Palestina, Papa, Ratzinger
30/04/2009 - 07:00

No começo do século XIV um intenso trânsito de mercadorias agitava o Mediterrâneo, ligando redes de comércio da Ásia as mais diversas regiões da Europa. Boa parte desse comércio desembarcava nos portos da península itálica ou no litoral mediterrâneo dos reinos espanhóis ou da França.
Costumeiramente, nos navios de genoveses e venezianos, chegavam artigos de luxo, sedas, especiarias, pedras preciosas, madeiras raras, incenso, além de hábitos, costumes, novos alimentos. Mas naquele início de século chegou um dos artigos que mais provocou a transformação das estruturas, da economia e sociedade européia no declínio da Idade Média: a peste bubônica ou, como era conhecida também, a peste negra.
A peste chegou a Europa pelos portos marítimos, através dos ratos que infestavam os porões e suas pulgas. Com a total ausência de procedimentos de limpeza das cidades, do mínimo de profilaxia, ratos, pulgas e a peste, transmitida pela picada destas, rapidamente se disseminou. As casas nos centros urbanos medievais eram umidas, escuras, esfumaçadas, com os pisos forrados de palha para proteger do frio, com telhados rústicos e, as vezes, homens e animais domésticos dividindo espaço para otimizarem o aproveitamento do calor corporal. Além disso o lixo era despejado nos fundos, nas ruas, atirados pelas janelas, criando monturos por todos os lados. Em suma, um paraíso para ratos e pulgas.
Em poucos meses a doença, originária da Ásia, se propagou pelas cidades européias sem que qualquer método eficaz de combate a doença fosse conhecido. Vilas inteiras foram dizimadas, em alguns casos não sobrou gente suficiente nem para enterrar os mortos. Nessa época surgiram movimentos religiosos extremados, crentes de que seu mundo pagava por pecados, sofria um castigo divino.
A grande epidemia varreu mais de um terço da população européia e continuou aparecendo em surtos menores durante décadas. Famílias que tinham tres ou quatro herdeiros deixaram apenas um, outras nem isso, o resultado foi uma acumulação de bens que foi fator fundamental na reorganização da economia européia e a estruturação das bases do que seria a Idade Moderna.
Em 1918, por sua vez, a Gripe Espanhola (chamada também na época de Influenza) no prazo de um ano promoveu mais de 50 milhões de mortos por todo mundo. Na cidade de São Paulo dizia-se que havia se abatido a desgraça dos 4 Gs: a Gripe, as Greves operárias, as Geadas e os Gafanhotos (os quais atacaram os cafezais, ainda um importante produto na economia paulista). Cemitérios novos tiveram de ser construidos na cidade para abrigar uma quantidade inédita de mortos.
O fato é que a história da espécie humana foi forjada na luta contra diversos desafios naturais, entre eles as epidemias. Em inúmeros casos, nas Américas, na Ásia, as epidemias, ao longo da história, foram importantes fatores de transformação social, chegando até a arrancar o chão de sob os pés de gigantescos impérios.
Por mais que o ser humano possua uma capacidade única entre os animais de agir conscientemente contra essas ameaças não podemos esquecer que somos seres vivos como qualquer outra espécie e que estamos sujeitos aos desafios da evolução tanto quanto uma pinheiro ou uma lula. Até a I Guerra Mundial a ausência de antibióticos agravava ainda mais nossa fragilidade diante de elementos que sequer podemos enxergar a olho nú.
Mas uma coisa é certa também: parte dos impactos causados pelas epidemias, pandemias e afins, é agravada pelas grandes aglomerações humanas e pelo desequilíbrio de determinados componentes naturais, como as criações em larga escala de aves e porcos (assim como a peste foi causada em grande medida pela explosão demográfica dos ratos associada a baixa imunidade dos desnutridos europeus da Idade Média).
Como as aglomerações humanas geralmente são das condições que mais agravam o risco de disseminação de epidemias, históricamente a alternativa foi a fuga para os campos, longe das cidades. O clássico livro de Bocaccio, Decameron, é inspirado nesse contexto. Durante uma epidemia de peste dez jovens fogem da cidade onde moram e passam a residir no campo a espera do fim do surto. Para passar o tempo cada um deles é convocado a contar em um dia dez histórias para o divertimento dos demais, as chamadas “jornadas”, completando dez dias, cem histórias (na realidade o livro não possui cem histórias, pois ficou inacabado). Com o fim da epidemia retornam a cidade.
Outra característica comum as epidemias ao longa da história é a mistura intensa que ocorre entre procedimentos profiláticos eficazes e muita crendice. Curas milagrosas, mandingas, simpatias se mesclam com medidas de limpeza, isolamento. Os “médicos” (ou “físicos” como eram chamados na época) medievais quando iam atender pacientes de peste vestiam roupas sinistras, com bicos de corvos impregnados de essências aromáticas, as quais acreditavam protegê-los da doença. Furavam os bulbões que surgiam com lancetas para operar sangrias.
Mesmo hoje isso ocorre fartamente. No começo da epidemia de AIDS, nos anos de 1980, pessoas evitavam apertos de mão, abraços, ou mesmo respirar o mesmo ar diante da falta de informação – e do preconceito – a respeito das formas de transmissão.
No final a humanidade está relativamente acostumada a conviver – e sobreviver, pelo menos até hoje – às epidemias, as quais passaram a compor o conjunto de elementos capazes de alterar os rumos da história em determinadas circunstâncias.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História medieval
Tags: AIDS, Cidades, Epidemias, Gripe Espanhola, Gripe suína, Idade Média, Pandemias, Peste
10/04/2009 - 20:27

No final do século XI o exército cristão da Primeira Cruzada conseguiu finalmente entrar na cidade sagrada de Jerusalém para completar a obra que motivara a expedição: libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados para o cristianismo da dominação islâmica.
Encontraram do lado de dentro das muralhas da cidade – datadas da época da dominação romana na Palestina, no começo do primeiro milênio de nossa época - a Basílica do Santo Sepulcro, supostamente construida sobre o túmulo de Cristo.
Nos anos seguintes os cruzados investiram fábulas em ouro, prata, pedras preciosas para enriquecer o túmulo de Jesus, e deixá-lo “digno de um rei”. Riquezas, obviamente, tanto arrecadadas entre a nobreza européia quanto saqueada de potentados islâmicos, derrotados pelo caminho. Doações menores também engordaram os cofres para o embelezamento do Santo Sepulcro, mas muitos dos fiéis eram tão pobres que mais precisavam do que podiam dar ajuda.
A Basílica encontrada pelos cruzados era, na realidade, uma reconstrução da primeira, construida no século IV pela mãe do imperador romano Constantino. Helena e o bispo Macário desejosos em encontrar o lugar onde fora sepultado Cristo empreenderam uma grande escavação numa área interna aos muros da cidade.
Na realidade os sepultamentos não podiam ser realizados dentro da área da cidade na época de Cristo, mas o local escavado foi anexado à área urbana de Jerusalém somente no século II d.C., quando o imperador romano Adriano mandou que se encontrasse um local adequado para a construção de um Foro e de um templo dedicado a Vênus, Jupiter e Juno (o Templo Capitolino).
Os homens da administração romana indicaram, então, a região do Golgota (em hebraico “crânio” ou “caveira”), morro onde eram realizadas as execuções de condenados e uma área de túmulos. Era nessa região que, provavelmente, se encontrava o túmulo escavado na rocha pertencente a José de Arimatéia, rico judeu, próximo a Jesus, que emprestou para seu sepultamento. A área foi então aterrada, sem que se retirassem as pedras base, e o templo edificado.
Foi nessa área que dois séculos depois Helena e Macário começaram as escavações, encontrando logo em seguida as pedras tumulares. Num dos nichos encontrados teriam sido localizados os madeiros que foram utilizados na crucificação de Cristo e dos dois ladrões.
Essa história do “Santo Lenho”, aliás, rendeu muito durante a Idade Média, fazendo o número de relíquias (objetos ligados a vida dos santos ou de Cristo) se multiplicar exponencialmente. Cada igreja queria ter um numero mais impressionante do que a outra de relíquias, até porque isso lhes garantia maiores doações e maior visitação de fiéis, numa verdadeira disputa turística-mercadológica. Isso acabou por promover uma crescente falsificação de relíquias que garantiam que um único santo tivesse seis braços, dez pernas, três cabeças. O famoso “Sudário de Turim” (o pano que teria coberto o corpo de Cristo após a crucificação, era apenas um dentre tantos, o que implica obviamente a pergunta: quantas vezes ele foi coberto??
Uma piada corrente na Idade Média costumava dizer que haviam tantas lascas da Santa Cruz que seria possível com elas construir a Arca de Noé.
Mas isso não era um problema sério na época da Imperatriz Helena, e ela mandou erguer uma igreja suntuosa sobre o antigo Templo Capitolino. Contudo, no século VII, os persas invadiram a cidade e botaram a igreja no chão. A antiga igreja possuia cinco naves além de uma cripta onde estavam repousadas as cruzes encontradas.
A destruição de 614 começou a ser revertida quinze anos depois, quando o um abade de nome Modesto iniciou sua reconstrução. Depois de concluida manteve-se intacta durante quatro séculos, quando durante a invasão árabe liderada pelo califa Haken – em 1009 - novamente a igreja foi completamente destruida.
Nos anos seguintes a igreja foi reerguida, mas de modo bastante simples, até mesmo por conta da dominação islâmica na cidade. Foi nesse ponto que os cavaleiros cruzados a encontraram com a tomada de Jerusalém no final do século XI. Com sua nova ornamentação a Basílica foi sagrada em 1149.
Ao longo da Idade Média o Santo Sepulcro foi o “pomo da discórdia” entre cristãos e islâmicos e sua “libertação” utilizada como argumento para sucessivas cruzadas. É claro que outros motivos de ordem econômica ou social estavam por trás destes movimentos, mas o Santo Sepulcro jamais saiu da pauta dos reis e papas na medievalidade.
Contudo, apesar da retomada de Jerusalém aos árabes por Saladino, a Basílica se manteve praticamente intacta até ser novamente destruída por um incêndio em 1808. Durante a dominação árabe foi garantido o acesso dos cristãos ao Santo Sepulcro – motivo de interesse desses -, desde que se pagasse uma generosa taxa de admissão – motivo do interesse dos senhores da cidade.
Ao longo desse tempo milhares de fiéis peregrinaram para lá, para adorar o túmulo e ver o mistério do acendimento sem intervenção humana da lamparina que ilumina o sepulcro. No século XIV, Mafeo e Nicolo Polo – pai e tio de Marco Polo – realizaram uma viagem a Jerusalém a fim de levar para Kublai Kan – o qual ficara impressionado com as histórias a respeito de Cristo contadas pelos mercadores venezianos – um vidro com um pouco do azeite que queima no Santo Sepulcro, tal era a fama de miraculoso do local.
A reconstrução da basílica, após o incêndio em 1808, foi em grande parte bancada por monges gregos, o que garantiu uma forte presença dos ortodoxos na manutenção da igreja. Mas essa reconstrução também determinou a retirada de inúmeros símbolos cristãos latinos, inadequados para os padrões ortoxos. Com o tempo a administração do Sepulcro passou a ser compartilhada entre ordens de seis diferentes igrejas cristãs: a copta, a armênia, a síria, a abissínia, além da grega-ortodoxa e a latina (ou romana).
Ainda hoje a abertura da igreja é realizada por um membro de uma ordem e o fechamento por um de outra ordem, evitando as brigas de tapas que marcaram décadas de relação conflituosa dentro do santuário.
Milhares de turistas e peregrinos visitam anualmente o Santo Sepulcro, movimento que diminui toda vez que a cidade de Jerusalém se vê abalada por séries de violência entre palestinos e israelenses, os quais disputam o direito de ter a cidade como sua capital, embora, atualmente, ela pertença à Israel, condição não reconhecida por muitas nações do mundo.
De qualquer forma parece muito paradoxal que o local mais agrado para o cristianismo tenha uma milenar história ligada a violência e a intranquilidade, posto que o “sepultado” morreu por valores completamente contrários. Mas essas são as contradições que compõem e movem a história.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente, História medieval, Patrimônio histórico
Tags: Basílica, Cruzadas, Jerusalém, Jesus Cristo, Santo Sepulcro
15/07/2008 - 17:00

Na imagem acima – provavelmente – um funcionário do Grande Khan (título mongol que seria o similar a “imperador”) entrega aos irmãos Matteu e Niccolo Polo (pai de Marco Polo) uma placa em ouro com um salvo-conduto autorizando-os a atravessarem o império mongol com segurança e auxílio das autoridades imperiais.
A história é narrada no livro ditado por Marco Polo na cadeia a Rustichelo de Pisa, por isso temos uma idéia do que continha na placa que esta sendo entregue na imagem.
Kublai Khan, um dos maiores governantes da história da China, era neto de Gengis Khan, o famoso conquistador da Ásia. Esta imagem provavelmente se passa em Kambaluc – ou Kambhalic – capital recém criada para o império chinês pelo próprio Kublai Khan.
Kambaluc é a atual Beijing, ou Pequim, como era chamada pelos ocidentais até pouco tempo. Inclivelmente, boa parte das coisas que imaginamos serem chinesas, em verdade, são de origem mongol e incorporadas a China somente após a aconquista dessa por Gengis Khan.
Com a invasão mongol a China passou por um processo de assimilação da cultura mongol, boa parte disso forçado pelos Khans mongóis e seus funcionários designados a administração das inúmeras regiões do vasto império.
Ao longo dos séculos os elementos culturais mongóis passaram a fazer parte de forma tão íntima da China que passamos a vê-los como se sempre tivessem sido chineses, como a própria cidade de Beijing, tão mongol em sua origem.
Foi durante esse período, século XIII, que diversos credos se espalharam pelo império chinês, como o próprio cristianismo. Kublai Khan memso era uma figura curiosa e interessada em credos outros, talvez pelo fato de os mongóis serem de uma cultura muito plástica, de povos nômades, acostumados às mudanças e adaptações frequentes. Um dos episódios mais curiosos da família Polo é justamente o pedido de Kublai para que o Papa lhe envie 100 sábios cristãos para travarem debates com religiosos de outras religiões do império, como budistas, islâmicos e xintoístas.
Tais sábios jamais chegaram a Kambaluc. O recém eleito Papa enviou apenas dois frades franciscanos, os quais fugiram de volta tão logo os irmãos Polo saíram dos limites de influência do cristianismo.
De qualquer forma Kublai Khan foi uma figura interessantíssima e um dos pilares do Império Chinês, tal como ele permaneceu até a Revolução Cultural Chinesa de 1949. É claro que do século XIII ao XX há um longo processo de transformações, mudanças políticas, anexações, perdaes de território, mas os elementos culturais são de transformação mais lenta, e por isso a chegada dos mongóis na China forjou a cultura desta região tal como ela nos chegou.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, História medieval
Tags: Ásia central, China, Kublai Khan, Marco Polo, Mongóis
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