Arquivo da Categoria História e cinema
22/09/2009 - 07:00
Uma fonte inesgotável de roteiros para o cinema foi desde o seu início, há mais de cem anos, a História. De fato – mesmo sendo suspeito para falar a respeito – acho que poucas coisas são tão fascinantes quanto a própria História. Nela está todo tipo de gênero que alimenta o trabalho do cinema de “contar histórias”: tragédias, dramas pessoais, coletivos, dramas psicológicos, aventuras, épicos, romances, comédias.
É claro que não devemos confundir as “histórias contadas pelo cinema” (ou pela literatura, pelo teatro) com a História (acontecimento, o ocorrido). Assim como a o que os historiadores escrevem a história que aparece nas telonas do cinema é o que chamamos de “representação”, uma interpretação, um ponto de vista a respeito de algo que ocorreu.
Mas, mesmo sendo uma representação e não a ” história tal como ela foi” (se é que existe essa objetividade como algo possível de ser encontrado), o cinema além de diversão proporciona ótimas oportunidades de aprendizado e sempre um bom tema para bate-papos mais ou menos inflamados ou discussões em salas de aula.
Também em termos de “exatidão” há vários níveis de “correção”, ou seja, existem situações um tanto absurdas ou deturpações do sentido da História e há boas interpretações. De qualquer modo é sempre prudente olhar com cautela a “exatidão” da interpretações cinematográficas (até porque não é essa a preocupação nem o objetivo dos cineastas).
Assim há alguns filmes que particularmente adoro e que além de assistir muitas e muitas vezes usei em várias oportunidades com meus antigos alunos (em tempos de graduação, quando trabalhava como professor).
Apesar das críticas à forma de se comportar do personagem principal Gladiador (Ridley Scott, EUA, 2000) é uma recomposição notável do mundo romano no período Imperial. A organização das províncias de Roma, a política, a organização militar, as técnicas de combate. Também sobre Roma é impossível não citar Spartacus (Stanley Kubrik, EUA, 1960) e o período da rebelião dos escravos. O cotidiano dos gladiadores é apresentado de modo bastante aproximado. Mas o melhor de Roma não é um filme, mas a série Roma (duas temporadas). Absolutamente genial, com preciosismo nos detalhes – a ponto de usar quase que somente atores italianos da região de Roma – e dedicada a política que se entranhava cotidianamente entre as famílias de patrícios (a nobreza romana) e se espalhava por entre a plebe na passagem para o Império, do assassinato de Júlio César à ascenção de Augusto.
Sobre nosso período colonial um dos favoritos é 1492: a descoberta do Paraíso também de Ridley Scott (ESP/FRA/ING, 1992). A viagem de Colombo, suas disputas dentro da Espanha, a dúvida dentro dos navios – incrivelmente fiéis -, e o deslumbramento seguido do fracasso do sonho de encontrar as Índias através do ocidente. A Missão, de Roland Joffé (ING, 1986) acompanha o fim do sonho jesuítico nas Américas em meados do século XVIII, quando as missões são debeladas pelos exércitos da Espanha e de Portugal. Lindo, inclusive a trilha sonora do genial Ennio Moriconne. Aguirre, a cólera dos Deuses de Werner Herzog (RFA, 1972) é um clássico absoluto da história da colonização e exploração das Américas, embora seja um filme bem mais difícil de ser assistido.
Tratando-se de história do Brasil um dos meus preferidos é Bye Bye Brasil de Cacá Diegues (BRA, 1972), filme que, sem ser um libelo da luta contra a ditadura, é um vagalhão contra o país que passou a ser construído em busca do sonho do “progresso”, custe o que custar. Do mesmo Cacá Diegues ainda há Quilombo (BRA, 1984) e Ganga Zumba (BRA, 1963), ambos sobre Palmares e o complexo de Quilombos surgidos durante e após a invasão holandesa no nordeste brasileiro.
Ainda há Desmundo (BRA 2003), sobre o período colonial, Ação entre amigos (BRA, 1998) a respeito da ditadura e das sequelas dela, O ano em que meus pais saíram de férias (BRA, 2008), também sobre a ditadura e aluta armada, mas sob a ótica de uma criança, Cidade de Deus (BRA, 2002) sobre a criação do bairro que empresta o nome ao filme e o itinerário da violência do Rio de Janeiro nos últimos trinta anos. A lista seria imensa, contando desde os “blockbusters” até filmes alternativos, curtas metragens, produções estrangeiras de pequena circulação, cinema de arte, sobre temas corriqueiros – como a II Guerra Mundial -, e assuntos mais específicos, como A Batalha de Argel (ITA, 1966) de Gillo Pontecorvo, a respeito da Guerra de Independência da Argélia. Há, até mesmo, os filmes sobre personagens históricos que trazem consigo todo o panorama de uma época: Shakespeare apaixonado, Elisabeth, Minha amada imortal, O homem da capa preta, Sete anos no Tibet, Gandhi, Um grito de liberdade, Bird, Todos os homens do presidente.
E os épicos: Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A ponte sobre o Rio Kway, Quo Vadis?, Ben Hur, Os Dez Mandamentos, E o Vento Levou, El Cid, Passagem para a Índia.
Como nota especial vale lembrar de Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro (ESP, 2006) que sem ser um filme “histórico” especificamente trata como poucos do período da Guerra Civil Espanhola, lírico e brutal ao mesmo tempo.
Todos temos nossas listas de “preferidos” e facilmente se enchem páginas com eles. De qualquer modo o cinema é um grande divulgador do interesse pela história e, ao mesmo tempo, um voraz devorador de “histórias”, parceria que parece sobreviver a todas as “crises de criatividade” da indústria cinematográfica.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da arte, História da cultura, História e cinema
Tags: Cinema, Épicos, Filmes Históricos
20/03/2009 - 15:29

José Padilha lançou recentemente seu documentário Garapa, o qual, curiosamente, foi bem acolhido no festival de Berlin e criticado ferozmente no Brasil, sobretudo pelos críticos profissionais de cinema.
Para a crítica brasileira Padilha opera uma “estetização da miséria”, uma manipulação dos sentimentos através de recursos visuais pra lá de batidos, como o uso do preto e branco e operações “demagógicas” diante das câmeras (como a de dar remédio para uma família com a filha doente).
Antes de entrar no mérito da questão quero lembrar uma experiência pela qual passei nos idos de 1999.
Pouco depois de eu entrar no curso de história da Universidade de São Paulo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado completava sua longa viagem de sete anos por diversas regiões do mundo fotografando os deslocamentos populacionais e começava a planejar a exposição de seu novo livro, o qual se chamaria Êxodos.
Em São Paulo a exposição seria montada no SESC Pompéia e, para isso, eles necessitavam de uma equipe interdisciplinar de monitores (formada por historiadores, sociólogos, artistas plásticos, fotógrafos, etc.) que fosse capaz de trabalhar junto ao público as diversas dimensões da obra de Salgado (considerado um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, se não o mais importante).
O processo seletivo contou com quase 800 inscrições e, dentre os vinte e poucos selecionados, eu me encontrava. Durante quatro meses aproximadamente vivi cotidianamente com a obra de Salgado, passando por cursos com especialistas de diversas áreas do conhecimento, por bate-papos com o próprio fotógrafo, etc.
Ao final havíamos nos tornando conhecedores bastante competentes da obra fotográfica de ”Tião” (como os amigos o chamam).
Contudo, apesar do sucesso estrondoso da exposição, me acostumei a ouvir críticas bastante ácidas a obra do fotógrafo brasileiro. A mais recorrente delas dizia que Salgado fazia uma “estetização da miséria”, uma espécie de voyeurismo da desgraça, da morte, da fome, da doença e da guerra. Quase como um documentarista dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Segundo parte significativa de seus críticos, Salgado se valia da desgraça do outro para construir sua carreira, para ganhar dinheiro, para se fazer famoso. Também diziam que suas fotos eram montadas, que muitas das cenas foram “encenadas” e que sua preocupação era eminentemente estética, mostrando uma suposta indiferença para com os problemas da humanidade.
Certo dia um visitante, um velhinho de seus 70 anos, me interrompeu aos berros uma explicação que dava a um grupo de alunos do Colégio Palmares para dizer que tudo aquilo era uma “farsa”.
Depois disso, nos anos seguintes, me tornei amigo de vários fotógrafos ou vários amigos meus se tornaram fotógrafos, e entre eles também era recorrente esse tipo de crítica ao trabalho do Salgado.
Sim, é fato, as fotos do Salgado são tecnicamente perfeitas, o apuro em todas as etapas de produção é impressionante, mas porque ao se fotografar a “tragédia” tem que se fazer de modo precário ou sem apuro?
Os quadros, então, de Bosch, de Chagall, de Picasso, de Portinari, devem ser queimados, pois também representaram a desgraça humana com grande técnica.
Mas há quem vá dizer que a fotografia, ou o fotojornalismo, encontra-se numa esfera diversa das artes plásticas, que o fotojornalismo não é “arte”, mas jornalismo visual.
Mas como jornalismo, como texto, como narrativa, a fotografia é tão parcial quanto qualquer outra linguagem. Ela não é a “realidade”, mas uma representação da realidade, construida pelo autor, o qual seleciona aquilo que deseja contar.
Mas, contudo, contudo, o que mais me impressiona é a idéia subjacente nas críticas de que as imagens não revelam uma realidade palpável, efetiva, mas são “manipulações estéticas”. Realizações para produzir efeitos emotivos baratos no público.
Dez anos depois a crítica, e muitos dos críticos são os mesmos de 1999, diz o mesmo a respeito do documentário de José Padilha, citando inclusive sua escolha pelo preto e branco como parte dessa manipulação, tal e qual disseram de Salgado.
E também como na crítica a exposição Êxodos, fica pairando no ar a insunuação de que a desgraça mostrada não é real, mas um truque de prestidigitador para tocar corações sensíveis.
Nesses dez anos pude viajar por diversas regiões do Brasil e da América do Sul e, com toda a sinceridade, não me parece que os críticos, boa parte dos quais jamais saiu dos circuito Jardins-Higienópolis-Morumbi, sejam as pessoas mais habilitadas a dizer o quanto essas realidades existem ou não.
Se não há fome, não há guerra, não há epidemia, não há desigualdade social e exploração, então chegamos ao fim dos tempos e já estamos habitando o Paraiso Terreal, em preto e branco ou a cores, para agradar os críticos.
A opção de Salgado e de Padilha pelo branco e preto é tão legítima quanto a minha opção por escrever o cabeçalho deste texto em vermelho, ou do crítico ao fazer uma citação, são recursos estéticos sim, porque somos seres humanos e essa é uma das dimensões que nos difere dos demais seres vivos, o fato de sermos seres culturais.
O preto e branco traz uma série de referências emocionais, sensoriais? Sim, tanto quanto as demais cores. E qualquer suporte visual de informação – o texto escrito, o vídeo, a fotografia – traz isso, mais ou menos consciente. E isso faz parte da mensagem que você deseja transmitir.
As fotos de uma guerra poderiam ser feitas com tons quentes, tendendo para o vermelho, o laranja. Mas isso ocorre com qualquer construção de imagem, e faz parte de nossa “educação visual”, a qual recebemos desde a primeira infância e vai se consolidando ao longo da vida.
Independentemente das discusões a respeito da “manipulação estética” o que me parece é que parte da crítica não consegue suportar a idéia de que, com ou sem apuro, em preto e branco ou a cores, a fome, a guerra, a doença estão lá.
Talvez porque não faça parte do mundo diletante da crítica de arte, a qual, paradoxalmente, vive de discutir “estética” e pouco mais do que isso.
Esse tipo de crítica tende a desviar o foco da questão, que é o cerne das narrativas, que é o argumento, o roteiro de uma exposição, de um livro, de um documentário.
Sem contar que colabora para manter parte do universo na percepção de que o mundo limita-se àquilo que vejo e que me toca pessoalmente, e que tudo o que me é trazido de longe, através das câmeras, é tão ficcional quanto uma novela de TV ou um filme da Disney.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da arte, História da cultura, História e cinema, Imprensa, Migrações
Tags: Crítica, Documentario, Exodos, Exposição, Fotografia, Garapa, José Padilha, Sebastião Salgado
09/02/2009 - 08:11
Fui com uma amiga comprar alguns DVDs, aproveitar o final de semana para ver filmes e…bingo, encontrei uma pérola lá por R$12,90. Cantando na chuva estava lá, na gôndola dando bobeira e ele praticamente “pulou” para minha cestinha de compras.
Diversão garantida com Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds. Ok, alguns amigos dizem que sou “um clássico” e por isso gosto de coisas “clássicas”. Já disse aqui inúmeras vezes que, para mim, clássico é algo tão bom que é capaz a sobreviver aos vagalhões dos modismos.
Mas há coisas que não conseguem sobreviver a esses vagalhões da história, e Cantando na chuva trata justamente de um desses momentos. Para quem não conhece, o musical da MGM conta a história de uma dupla de astros do cinema mudo (Kelly e Jean Hagen) que são surpreendidos pela criação do cinema falado.
Lina (Hagen) tem uma voz horrenda, impossível de ser mostrada, o que é uma tragédia para a criação do cinema falado. Don (Kelly), por sua vez, que não tem esse problema, conhece acidentalmente uma atriz que tem uma voz linda (e não só a voz, Debbie Reynolds), mas que é absolutamente desconhecida e ganha a vida fazendo figurações.
Obviamente Don (Kelly) se apaixona por Kathy (Debbie Reynolds) e buscam, juntos com o amigo Cosmo interpretado por O’Connor, encontrar uma solução para o dilema. Em verdade o roteiro – como diriam os tecnicos dessa área – trata-se da história de amor de Kelly e Debbie Reynolds, o restante é apenas a caracterização do ambiente.
Mas o fantástico de Cantando na chuva é que, mesmo sendo um musical romântico, ele traz um dilema sério, que é o das superações tecnológicas. Um outro filme, o clássico O crepúsculo dos deuses, também trata desse mesmo tema, mas de forma mais contundente.
O fato é que a criação do cinema falado determinou uma crise imensa entre os atores do antigo cinema mudo, pois não era apenas uma questão de fazê-los falar, mas de toda uma estética de representação para a qual não estavam preparados. No cinema mudo imperava a profunda expressividade da face e dos gestos, todos muito exagerados para compensar a ausência de tons de voz, das pausas, de tudo aquilo que a linguagem falada traz. A linguagem do corpo devia compensar a ausência da linguagem falada.
Quando disseram aos atores que eles deveriam falar situações ridículas se processaram, como as encarnadas por Kelly no filme. No cinema mudo o ator não estava preocupado com o texto, ele tinha de transmitir uma “idéia”, reforçada pelas inserções de frases curtas na tela. Num dos momentos do filme Kelly, cortejando Jean Hagen, repete “eu te amo” uma duzia de vezes, o que no cinema falado provoca um acesso de riso na platéia.
Muitos não conseguiram fazer a transição e foram atropelados pelo vagalhão tecnológico.
Mas esse não é o único caso. Mais recentemente a Kodak quase desapareceu do mercado pois não foi capaz de acompanhar com a mesma velocidade que as concorrentes a transição da fotografia analógica para a digital. Suas fábricas de rolo quase despareceram por completo. Hoje ela sobrevive da venda de papel fotografico e outros produtos, mas foi atropelada pela história.
As vezes isso não ocorre, como no caso dos livros, cuja morte já foi decretada umas mil vezes – pelos e-books, pelos audio livros -, mas que continua firme e forte há milhares de anos.
De qualquer modo, mesmo que seja apenas para a diversão, Cantando na chuva é um filme fantástico, considerado um dos dez mais da história do cinema. Um clássico, rararar. E, além de ser ótimo, é muito instrutivo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História e cinema
Tags: Cantando na Chuva, Cinema, Cinema mudo, Filme, Gene Kelly, História, Musical
14/12/2008 - 10:20

Inveja. Inveja mortal, daquelas de mandar o cidadão direto para o círculo mais profundo dos infernos. Senti minha alma “obscura como o coração de Judas Iscariotes” como diria a sabedoria popular. Sensação que senti, e que revelo com sinceridade – virtude capaz de redimir parcialmente minha pena -, ao ver a série Capitu de Luis Fernando Carvalho inspirada no romance Dom Casmurro de Machado de Assis.
Obviamente que minha inveja não foi daquelas como a de Salieri, que não suportando a superioridade de Mozart, talvez tenha lhe envenenado a taça. Mas, vá lá, foi inveja sim.
Fiquei boquiaberto quando vi a mistura realizada por Carvalho, empregando uma fotografia saturada, com tons dourados que lembram uma igreja barroca, envelhecido em alguns pontos, claro e escuro como uma pintura de Caravaggio. A atuação dos atores com toques do teatro mambembe – o que me lembrou muito as performances do Grupo Galpão, talvez por conta da presença de Paulo José na equipe de produção -, com dança, malabarismos. A trilha sonora provocadora, realizando contrapontos e surpreendendo diante do que poderia se tornar algo óbvio.
Nota especial para o tema Elephant Gun de um maluco estadosunidense chamado Beirut (em verdade Zac Condom) que casou de tal forma com a imagem que parece ter sido feito especialmente para a série. O bandolin tocado na introdução, com a voz anasalada como a de um bardo renascentista, seguida de um acordeon, tal como num realejo, formam um conjunto hipnótico que, somado com as imagens velozes, entrecortadas, de tons profundos oferecem uma experiência realmente inovadora para a TV.
É fantástico pensar como um conjunto de referências tão diversas conseguem se harmonizar tão bem e não parecerem um pastiche, uma colagem non sense. Mas isso tem um motivo.
Assim como minha inveja mortal, o romance de Machado de Assis trabalha sobre os mais humanos dos sentimentos: o ciúme, a dúvida, o orgulho, o medo.
Numa aula de roteiro o professor invariavelmente diria ao aluno: toque a alma de seu espectador.
Parece óbvio, mas, por mais óbvio que seja, é das tarefas mais difíceis de serem realizadas. Tocar a alma de alguém significa conseguir entrar num código antigo, íntimo e coletivo ao memso tempo, em algo que é “humano” antes de ser desta ou daquela cultura, deste ou daquele tempo. Poucos o fazem, e por isso se tornam obras superiores, se tornam clássicos.
Machado de Assis conseguiu, ao escrever Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Bras Cubas, Quincas Borba, atingir o ápice da genialidade da espécie humana. Um russo, um esquimó, um somaliano, um sikh ou um uzbeque lendo as histórias de Machado vertidas para sua língua se comoveria certamente, pouco ou muito, mas se comoveriam. Assim como nos comovemos com Shakespeare, Dostoievsky, Tolstói, Dante.
São códigos que estão no fundo, no conjunto de elementos que nos fazem humanos. Por isso são potentes deste tamanho. Coisa sabida por indivíduos como Carl Jung e Joseph Campbell (psicólogo e estudioso das mitologias).
Os sons e imagens selecionadas vão no memso caminho, apesar de tão diversas as referências. São ítens que passaram a compor o imaginário ocidental, base de nossa cultura e plenamente inteligíveis mesmo que o espectador não tenha deles qualquer informação pregressa.
E, reconheçamos, tratar de Machado de Assis é prova final para a cultura brasileira. Tratar de Machado é ao mesmo tempo tarefa exigida e hercúlea, basta lembrarmos dos gigantes da cultura brasileira que se deram ao trabalho de estudar, escrever, filmar Machado de Assis.
Entre os acadêmicos (das universidades, não da ABL), tratar de Machado é coisa para poucos. John Gledson, Chalhoub, Schwarz, e outro gigante, hoje acadêmico (duplamente acadêmico, como brinca) como Machado de Assis: Alfredo Bosi.
Daí a dimensão do desafio em levar Dom Casmurro às telas.
De tão complexo, Machado de Assis continua revelance faces, ou se mantendo passível de novas interpretações. Das avaliações mais conservadoras, o “Bruxo do Cosme Velho” (como foi apelidado) passou a ser visto como um escritor capaz de inverter a ordem das coisas sem que muitos dos leitores percebam, insinuando traços de subversão da ordem onde todos viam apenas submissão. Tal como os gregos, Machado de Assis cultivou a ironia, a sátira como punhais afiadíssimos e que cativam geração após geração.
Lançar Capitu como o centro da narrativa, apesar do mesmo levar como título Dom Casmurro, é um artifício insinuado no texto (como ao se dirigir o escritor as suas “leitoras”) e que tendo se tornado o título da série muito provavelmente receberia aprovação de Machado.
E, oxalá, sou obrigado a admitir que ainda é possível vida inteligente na televisão (mesmo que por volta das 24:00).
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, História do Brasil, História e cinema
Tags: Capitu, Dom Casmurro, História, Literatura Brasileira, Machado de Assis, Televisão
01/12/2008 - 19:48

Feliz Natal…
Por enquanto, ao menos até o dia 25, é o nome de um filme fantástico, um dos mais belos que vi nos últimos tempos.
Em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial colocando em lados opostos austríacos e alemães de um lado, ingleses e franceses de outro. Mesmo com ingleses e franceses sendo adversários históricos, curiosamente, nas duas guerra mundiais (ou na Grande Guerra – 1914 a 1945, de acordo com alguns historiadores) eles lutaram lado a lado.
Mas o mundo, no final do ano de 1914, ainda era o mundo do século XIX, das antigas convenções, das antigas etiquetas e da antiga guerra, muito diferente do que apareceria depois.
Apesar de toda guerra ser brutal, até 1914 um código de conduta quase cavalheiresco imperava nos exércitos. Estar nos exércitos, ao menos para os oficiais – muitos deles nobres – era uma honra e uma tradição secular familiar.
Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, no final do ano de 1914, um fato que hoje soa quase surreal ocorreu entre os exércitos inimigos.
Na noite de natal o exércitos acordaram uma trégua festiva, afinal, como escreveu o historiador Jacques Le Goff, se há algo que pode ser identificado como fundador e unificador da cultura européia, este algo é o cristianismo.
Independentemente do lado que defendiam na guerra todos, ou quase todos, eram cristãos.
Durante a trégua os soldados de ambos os lados sairam das trincheiras para confraternizar com os adversários, com quem, até há pouco, trocavam balas. Cantaram canções natalinas, compartilharam o pouco que tinham, mostraram fotos de família.
No dia seguinte ainda disputaram partidas de futebol até que, lembrados pelos seus superiores – em seus quartéis generais aquecidos e perto de suas famílias – foram obrigados a voltar para a carnificina. A sequencia da história foi horrível e inaugurou a era da guerra total, na qual dizimar o adversário é sinônimo de vitória.
O filme Feliz Natal conta esta história de um modo sensível. É um filme de guerra contra a guerra, bem ao gosto dos europeus.
Sem grandes cenas de batalha, sem cenários gigantescos e sequências interminaveis de balas e explosões como O Resgate do soldado Ryan, Feliz Natal (Joyeux Nöel no original, produção de um monte de países) investe na qualidade da história e na sensibilidade do público. Lindo demais, e um ótimo filme para ver e perceber como os sentimentos podem ser tão contraditórios na vida.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História e cinema, Sem categoria
Tags: Europa, História contemporânea, Natal, Primeira Guerra Mundial
25/10/2008 - 18:18

Muitos já se fizeram a mesma questão: por quê um clássico é um clássico?
As respostas não variam muito. Algo se torna clássico por que é algo superior aos seus semelhantes, por que toca em questões fundamentais, fala a muitos, fala ao íntimo, torna-se uma referência. Enfim, há muito motivos pelos quais algo se torna um “clássico”, e nem sempre os motivos vem todos juntos.
Na minha modestíssima opinião algo é “clássico” acima de tudo por que é muito bom, é inquestionavelmente bom, é indiscutivelmente bom. Bom a ponto de se tornar uma referência para muitas pessoas e conseguir continuar sendo uma referência apesar das mudanças da história, das pessoas, das idéias e até das economias. Um clássico é algo capaz de sobreviver a sucessivas quebras das bolsas de valores.
David Lean é um clássico que só filmou clássicos: Doutor Jivago, A ponte sobre o rio Kwai, Grandes esperanças, Lawrence da Arábia, Uma passagem para a Índia.
Já escrevi sobre os filmes de Lean aqui noutra ocasião – ele era genial, é, de longe, meu diretor preferido – mas penso que vale uma breve divagação a respeito de Uma passagem para a Índia, filme de 1984 que acabei de rever.
Em primeiro lugar, e retomando meus tempos de professor crente fiel do cinema como recurso didático: o filme é uma aula sobre o neo-colonialismo inglês e a questão indiana, a qual culmina com a independência do país à época de Gandhi.
Lembro de meus tempos de graduação quando assistimos Apocalipse now com a professora Lilia Schwarcz (num projeto que tínhamos do nosso cineclube, o Pandora). O tema da discussão que se seguiu era justamente a dimensão antropológica do filme de Copolla realizado sobre o livro O coração das trevas de Joseph Conrad.
O livro de Conrad é uma leitura aguda do neo-colonialismo na África, e ele é tido como uma das grandes referências da literatura que é ambientada nas colônias européias espalhadas pelas Américas, Ásia e África.
Particularmente sempre preferi outros autores a Conrad (e jamais achei o tal livre algo absurdamente genial, mas até aí é questão de paladar como diria um amigo meu).
Muitos trataram do neo-colonialismo. No caso do neo-colonialismo inglês na Índia dois nomes são fundamentais: Rudyard Kipling e E. M. Forster.
Kypling é muito mais famoso do que Forster, grande parte disso em função de seu famoso O livro da jângal (a história de Mowgli, o menino lobo). Mas há outros livros que adoro de Kypling, como Kim e sua infinidade de contos, entre eles O homem que queria ser rei, o qual virou filme há várias décadas com Sean Connery no papel principal.
Mesmo a história de Mowgli, sem contar suas adaptações infanto-juvenis, é uma trama das mais bacanas, com muita sensibilidade, imersa num mundo que, para os ingleses, transitava entre a realidade e o sonho.
E é justamente essa uma das dimensões culturais do livro de Forster (que, diga-se de passagem, acho que deu um filme melhor do que o texto).
O historiador Edward Said – infelizmente falecido há alguns anos -, especializado em relações culturais e literatura, dizia em seu livro (ele também um clássico) Cultura e imperialismo que um dos pilares do imperialismo, do neo-colonialismo também, é fazer os povos dominados aceitarem sua sujeição como um reconhecimento da superioridade cultural do invasor.
No filme de David Lean essa dimensão domina a cena em toda primeira parte, encarnada na figura do médico indiano Dr. Aziz que a todo custo busca se aproximar dos ingleses e tem neles seu maior referêncial. Para Aziz os ingleses, embora estejam em sua terra, desprezem seu povo, se isolem em seus clubes, o fazem devido sua clara superioridade cultural.
Aproximar-se dos ingleses promove a ilusão de que é possível conviver em pé de igualdade, ilusão subta e violentamente frustrada.
Assim como na história real, a quebra da ilusão leva a revolta e a rebelião, crescente e igualmente violenta.
No caso indiano esse processo demandou muitas e muitas décadas, até a dominação inglesa cair, em meados do século XX, e a Índia se tornar um país independente.
Mas o filme de Lean não segue até aí, permanece na década de 1920, quando a sensação de rebelião e a rejeição ao domínio inglês crescem cotidianamente. Embora Dr. Aziz não seja o personagem principal do filme é nele que se encarna a tensão da história. Uma perfeição cinematográfica.
São duas horas e quarenta minutos – ok, Lean não fazia filmes breves – de um bombardeio de situações que levam invariavelmente o espectador a indignação, a perplexidade e a revolta. Por isso é um clássico: ele é capaz de tocar nos sentimentos mais viscerais das pessoas.
A fotografia, como sempre, é um desbunde, um dos pontos altos nos filmes do diretor.
Pois então pegue o filme e separa três horas de sua vida para mergulhar no universo neo-colonial, num mundo que desabou com a II Guerra Mundial. Se tiver a oportunidade passe aos alunos, mesmo sendo longo, mesmo não tendo bombas, explosões, cenas de luta e efeitos especiais.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História e cinema, Sem categoria
Tags: Cinema, David lean, História, India, Neo-colonialismo, Passagem para a Índia
17/10/2008 - 07:50
Há alguns anos, quando comecei a resenhar para o IG, recebi o livro do historiador estadunidense Stephen Ambrose, O dia D. Foi uma das leituras mais frustrantes que já fiz e espinafrei o livro na minha resenha.
O livro, eu escrevi, era um amontoado de patriotadas que, a meu ver, deturpam a história da II Guerra Mundial. Pouco antes eu havia lido e resenhado Stalingrado de Antony Beevor, um primor de trabalho a respeito do conflito. Um das diferenças essenciais entre os dois livros é que enquanto Beevor para compor sua obra analisou os arquivos ingleses, alemães e soviéticos a respeito da batalha de Stalingrado, e portanto tinha uma visão de como cada lada percebia a situação, Ambrose sempre se pautou pela versão oficial do governo dos Estados Unidos.
Sem diminuir a importândia do Dia D, a desestruturação do exército alemão começou no front oriental, no assombroso massacre de Stalingrado. Quem lê Ambrose pensa que até 6 de junho de 1944 a Alemanha continuava como uma gigantesca máquina bélica, capaz de sobrepujar o globo.
Por isso, quando chegou outro livro de Ambrose às minhas mãos, Band of Brothers (Companhia de Heróis), larguei ele empoeirando em alguma estante da minha biblioteca (mentira, jamais permite que meus livros empoeirem, por pior que alguns sejam).
Não dei a menor pelota para o que eu pensava ser mais uma saraivada de patriotadas estadunidenses de Ambrose.
Bom, os anos passaram. Há umas duas semanas estava eu cobrando um amigo que me emprestasse as duas temporadas de Roma, mas ambas estavam emprestadas para outro amigo nosso.
Queria ver mesmo a série, afinal, como historiador, como cinéfilo e como associado bissexto do mundo do cinema, era tanto prazer quanto dever assistí-la.
Diante da indisponibilidade da série já estava eu indo em busca de algum clássico que comprei e ainda não assisti. Mas o meu amigo me fez uma contraproposta, me ofereceu a série da HBO Band of Brothers. Puxei pela memória: humm, esse nome não me é estranho..ahh sim, é mais uma patuscada do Ambrose.
Diante da insistência do amigo peguei a caixa com seis discos (dez episódios e os extras). Fui assistir o primeiro e ocorreu um fenômeno Helman Chips com a série: é impossível assistir um só.
Fiquei pensando depois: onde estão as patuscadas do Ambrose?
Fui ler o livro negligenciado há anos.
Bom, Band of Brothers, tanto o livro quanto a série, contam a trajetória da Companhia Easy, dos paraquedistas dos Estados Unidos da américa, formada em 1942 e batizada em operações reais justamente no Dia D.
Depois da invasão da Normandia a Companhia Easy participou da Operação Market Garden na Holanda, da Batalha das Ardenas, da Batalha de Bastogne, da libertação da Bélgica e, finalmente, como prêmio pela sua excepcional atuação, foi responsável pela tomada do Ninho da Águia, a sede nazista nos Alpes, local onde Hitler reunião seu alto comando, a Aspen Nazista.
O fantástico dessa Companhia era que, sendo todos eles voluntários, se tornaram um grupo de irmãos, como o próprio título diz (título, aliás, tirado de uma peça de Shakespeare, de um diálogo de Henrique V).
O livro é bacana, apesar de ser Ambrose, mas a série é fantástica. Sob direção executiva de Spielberg e Tom Hanks a apologia ao exército estadunidense se tornou uma visão sensível da II Guerra Mundial, onde não há vencedores, mas pessoas comuns arrastadas pelo turbilhão da história.
Assistir a série me lembrou outros dois filmes geniais: Feliz Natal e Nós que aqui estamos por vós esperamos de Marcelo Mazagão.
Neles há a confluência no fato de que a única coisa que difere homens de exércitos inimigos é estarem em lados opostos. Todos tem uma família, profissão, uma história, sonhos, desejos, e agrande, a esmagadora maioria preferia estar no cinema ou pescando do que ali trocando tiros.
A guerra só é elegante e sedutora para quem vê filmes ou a propaganda dos exércitos, o cotidiano é trágico, é desanimador, por mais que as pessoas acreditem num ideal, numa missão.
É claro que poucos falariam mal de si mesmo, e esperar isso do cinema estadunidense seria ainda mais improvável, mas dentro do que é possível numa série que tem o objetivo de divertir (cinema e televisão são, antes de tudo, diversões) Band of Brothers é realmente fantástica.
E, analisando friamente, apesar das barbaridades perpetradas por todos os lados na II Guerra Mundial, os alemães deflagraram o conflito (e a história que os revisionistas tem há alguns anos tentado emplacar, de que a população não sabia o que ocorria, que o extermínio era obra exclusiva dos nazistas, etc, etc, não cola, não me convence, ninguém esconde milhões de cadáveres sem que ninguém veja).
Então, recomendo fortemente a série, o Ambrose pode continuar servindo de peso de papéis ou de calço para a mesa. E sugiro também a leitura de Antony Beevor, de todos os livros dele sobre a II Guerra Mundial (são vários, todos ótimos).
Ai vai uma das resenhas que escrevi sobre livros do Beevor: http://igeducacao.ig.com.br/igler/materias/247001-247500/247061/247061_1.html
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História e cinema
Tags: Band of Brothers, Cinema, Paraquedistas, Segunda Guerra Mundial, Televisão
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