Arquivo da Categoria História do oriente
28/05/2009 - 07:00
Nos últimos dias o conflito entre as duas Coréias, que povoa o noticiario internacional já há alguns anos, tomou proporções de tensão somente vistas no começo dos anos de 1950 quando o conflito armado eclodiu matando aproximadamente 3 milhões de coreanos de ambos os lados, além de soldados das Nações Unidas enviados para promover a retomada de Seul, capital sul-coreana invadida pelo exército do norte.
Em verdade a atual tensão entre as duas Coréias mistura elementos atuais e questões mal resolvidas, decorrências retardatárias da Guerra Fria e mesmo do neo-colonialismo europeu.
Em geral há duas correntes de interpretação da chamada “Guerra Fria”. A primeira delas, mais conhecida do público em geral, defende que a guerra política, econômica, ideológica entre o bloco capitalista e o bloco socialista realmente tinha potencial para descambar para um conflito armado de proporções inimagináveis, o qual, muito provavelmente, acabaria com a vida humana na Terra tal como a conhecemos. A segunda corrente de interpretação, defendida pelo historiador inglês Eric Hobsbawm, diz que – na realidade – a Guerra Fria, por ser regulada por arsenais nucleares equivalentes (o que gerava o que se chamou de Garantia de Destruição Mútua, GDM), jamais teve chance de se concretizar, o que levou as duas grandes potências, União Soviética e Estados Unidos, a deslocarem os conflitos para as periferias do mundo, financiando guerrilhas, exércitos, milícias, etc.
De fato, tanto na Coréia quanto mais tarde no Vietnã, foi esse quadro que se viu e que “financiou” o conflito armado. No pós II Guerra Mundial ambos os blocos não mediram esforços para aumentar suas áreas de influência, mas sem se comprometer oficialmente. O norte da Coréia, que faz divisa com a China, foi fortemente influenciado pela presença dos comunistas, ao passo que o sul sofreu pressão estadosunidense. Em 1950 o conflito entre as duas áreas – a socialista e a capitalista – estourou com um rápido avanço do exército do norte que tomou Seul. Liderados pelos EUA tropas da ONU desembarcaram na península (naquela época tropas das Nações Unidas se envolviam em combates diretos, coisa que foi abolida posteriormente, por isso hoje chamadas de “tropas de paz”). O contra-ataque conseguiu empurrar o exército socialista de volta para o norte e consolitar a linha do Paralelo 38 como área de separação das tropas inimigas.
Os soldados dos EUA e da Grã Bretanha tentaram avançar sobre o norte, mas foram rechaçados pela intervenção dos chineses e soviéticos, sustentando as tropas norte coreanas. Diante disso criou-se um impasse no qual nenhum dos dois lados tinha forças suficientes para garantir a vitória sobre o adversário. Dois anos depois, em 1953, as duas Coréias assinaram um cessar-fogo, mas a guerra efetivamente jamais foi declarada encerrada.
Parte dessa política no sudeste asiático foi promovida pela intervenção de nações européis ao longo dos séculos XVIII, XIX e começo do XX, naquilo que conhecemos como “neo-colonialismo”. Mesmo processo que levou a ocupação da Índia, da Birmânia, do Camboja. Essa presença européia acentuou – via de regra – os antagoniosmos regionais, os quais existiam por si só. Grupos de adesão aos europeus e outros de resistência passaram a se confrontar diretamente e assim se mantiveram mesmo depois da saída dos colonizadores, processo que se encerrou em grande medida justamente com a II Guerra Mundial.
Por isso os grupos antagônicos passaram a se alinhar com socialistas ou capitalistas, muitas vezes por pura conveniência material: quem oferecesse melhores recursos recebia a adesão. Esse movimento, aliás, também ocorreu com as nações africanas.
Essa tensão se arrastou durante décadas e perdeu força quando no período entre 1989 (a queda do muro de Berlin) e 1991 (fim da União Soviética) o chamado mundo “bipolar” se tornou muito mais complexo, com infinitos atores no cenário. Na Europa o socialismo deixou em grande medida de ser um adversário e muitas naçõe spuderam se reconciliar depois de décadas (é claro que outras implodiram depois do fim da força que as mantinha unidas desapareceu, como foi o caso da Tchecoslováquia e da Iugoslávia).
Mas, no oriente, a presença da China manteve ainda resquícios dessa bipolaridade, até memso porque se os elementos ideológicos perderam força o antagonismo econômico entre China e EUA ganhou, o que fez os orientais manterem sua política de braço forte na região.
Mas, no caso da Coréia do Norte, há ainda motivos recentes, criados depois dos eventos da Guerra Fria. A manutenção de líderes políticos obtusos, num país sem democracia e que investiu mais dinheiro em armamento do que em educação criou um paradoxo diante do vizinho do sul, o qual se tornou uma potência econômica, com níveis altíssimos de instrução e cidadania. Por mais absurdo que isso possa parecer o conflito entre as duas Coréias é um conflito também entre dois países que estão em “tempos” distintos de existência: um luta para desenvolver tecnologia avançada, o outro para ter petróleo e alimento. É como a cena do exército comunista chinês sendo recebido pelos resistentes tibetanos armados com lanças.
Mas, sabendo disso, os líderes norte-coreanos adotaram uma língua que todos entendiam bem nas décadas de 1950, 1960, que é o “atomiquês”, e que naquela época funcionava.
É claro que o desafio explícito dos norte-coreanos à ONU e a quase toda comunidade mundial também se assenta no conhecimento do fracasso da política internacional dos EUA nos últimos dez anos, a qual colecionou fracassos um atrás do outro (Afeganistão, Somália, Iraque). Também se fundamenta no fato de que as potências que tem mais poder e influência desrespeitam as regras que querem que os outros cumpram, tal como os EUA desrespeitaram o Conselho de Segurança da ONU ao invadir o Iraque e Israel desrespeita ao não cumprir nem uma única resolução do mesmo órgão nas últimas três décadas. Mas poderíamos ainda acrescentar a França, que realizou testes nucleares há poucos anos na Polinésia, ou o governo inglês que apoiou os EUA em todas as circunstâncias, ou o Japão, que depois de cinquenta anos de pacifismo, decidiu se “empanar” com os estadosunidenses na aventura iraquiana, situação absolutamente chocante.
No final das contas o que vemos é um país miserável empregando as mesmas manobras que as grandes potências usaram até hoje e a única línguagem que crêem que os faça serem ouvidos. Infelizmente que mais pagará por isso são so vizinhos do sul em especial, e a humanidade como um todo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do oriente
Tags: Capitalismo, China, Comunismo, Coréia do Norte, EUA, Guerra Coréia, Guerra Fria, Nuclear, ONU, União Soviética
11/05/2009 - 07:30
Nos últimos dias o noticiário internacional esteve dividido entre a expansão da gripe suína, agora chamada por um nome mais “técnico”, e a visita que o Papa está fazendo a algumas regiões do Oriente Médio.
Em verdade Ratzinger tenta se redimir pela insinuação de que o islamismo, e o profeta Maomé, pregavam a violência, feita ano passado. Ao mesmo tempo o Papa, ou sua chancelaria, tenta voltar a reduzir a distância entre as fés, processo que é longo e que foi fortemente incentivado pelo Papa João Paulo II.
Faz quase 1500 anos que cristãos e muçulmanos tentam se entender naquela região, a questão judaica somente tomou o papel protagonista nesse contexto de conflitos após a criação do Estado de Israel em 1948. Talvez justamente pelo aparecimento de um opositor com feição de “estado nacional”, de “país”, a questão religiosa entre muçulmanos e cristão, mais especificamente católicos, passou para segundo plano.
O fato é que mesmo após o encerramento do grande ciclo das guerras religiosas entre cristãos e muçulmanos na Palestina (embora tenham se mantido em dimensões menores na região, ou mesmo em outras regiões do planeta, como nos Balcãs e no leste europeu) a relação entre o papado e os estados islâmicos jamais foi plenamente tranquila.
É verdade que é impossível se apagar completamente da memória eventos tão marcantes para os povos daquela região como as sucessivas Cruzadas, a tomada de Constantinopla pelos turcos-otomanos, a batalha de Lepanto e tantos outros momentos traumáticos para ambos os lados. Mas isso não significa que as relações tenham que ser eternamente marcadas por acusações mútuas e lembranças mais ou menos inconscientes de preceitos discriminatórios de ambas as fés.
Há um caso curioso que se passou com o Papa João Paulo II. Visitando a Sinagoga de Roma (fato histórico por promover a reaproximação entre católicos e judeus, outra relação problemática e ainda mais antiga do que a com os islâmicos), Karol Wojtila disse que para os cristãos os judeus eram seus “irmãos mais velhos”.
Bom, para a maioria das pessoas tal comentário seria uma grande deferência, um elogio simpático, familiar mesmo, trazendo para o seio da intimidade, do mesmo grupo, pessoas com as quais se debateu durante praticamente dois milênios. Mas isso não é tão simples quanto parece para pessoas que conhecem profundamente o Antigo Testamento, como o Papa e os Rabinos.
Em um dos episódios mais importantes do “Livro”, Esaú e Jacó disputam a preferência do pai, o qual está praticamente cego, então o filho mais velho, pastor de cabras vende sua primogenitura para o filho mais jovem por um “prato de lentilhas”. É um momento de rompimento na história, no qual o filho mais velho, o primogênito, vende de modo tolo e quase humilhante seu direito tradicional, base da sociedade e da sucessão familiar para o irmão mais jovem, trazendo com isso toda uma carga de culpa e de inferioridade.
A lembrança dessa passagem, da relação entre irmãos mais jovens e mais velhos, não se pode garantir que estava consciente na mente do Papa João Paulo II, mas foi notada por alguns comentadores, como o historiador italiano d eorigem judaica Carlo Ginzburg. O fato é que consciente ou não, está gravada na memória, através de uma longa educação teológica, determinados preceitos que estabelecem como as pessoas de um credo vêem as de outro. Romper com isso não é fácil, nem instantâneo.
Apesar das argumentações apresentadas pelos porta-vozes do Vaticano, explicando que o sentido das palavras do Papa Bento XVI foram alterados e sua fala descontextualizada, o fato é que na memória de Ratzinger está gravado esse conjunto de idéias que fundamentaram o cristianismo durante séculos, o que não significa que ele possa, queira ou deva se manifestar publicamente assentado nele.
Nesta semana o Papa visitará lugares sagrados para o cristianismo na área mais “quente” da Palestina – excetuando-se, obviamente, a Faixa de Gaza – que é o setor de Jerusalém. Basta lembrar que a última explosão de violência dos islâmicos contra judeus na área ocorreu com a provocação que o então candidato Ariel Sharon fez ao visitar a Mesquita de Al-Aqsa, lugar sagrado para as três religiões, sob controle religioso islâmico, mas em território reinvindicado por Israel (Jerusalém não é reconhecida oficialmente como território israelense, pois de acordo com as determinações da ONU deveria haver algume espécie de compartilhamento com os palestinos).
As visitas dos representantes da “cristandade” a Jerusalém quase sempre foram complexas e cheias de significados e implicações, desde a época das grandes peregrinações medievais. Afinal de contas, foi para garantir o acesso cristão a esses lugares (pelo menos esse era o “argumento formal”) que as Cruzadas foram conclamadas.
De qualquer modo, gestos de boa vontade são bem vindos de todos os lados, mesmo sem o Papa poder se proclamar como porta voz da cristandade. Resta saber se seus atos e falas não trarão novas implicações diante dessa longa e conflituosa relação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura, História do oriente, História medieval
Tags: Bento XVI, Diplomacia, Jerusalém, João Paulo II, Karol Wojtila, Palestina, Papa, Ratzinger
10/04/2009 - 20:27

No final do século XI o exército cristão da Primeira Cruzada conseguiu finalmente entrar na cidade sagrada de Jerusalém para completar a obra que motivara a expedição: libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados para o cristianismo da dominação islâmica.
Encontraram do lado de dentro das muralhas da cidade – datadas da época da dominação romana na Palestina, no começo do primeiro milênio de nossa época - a Basílica do Santo Sepulcro, supostamente construida sobre o túmulo de Cristo.
Nos anos seguintes os cruzados investiram fábulas em ouro, prata, pedras preciosas para enriquecer o túmulo de Jesus, e deixá-lo “digno de um rei”. Riquezas, obviamente, tanto arrecadadas entre a nobreza européia quanto saqueada de potentados islâmicos, derrotados pelo caminho. Doações menores também engordaram os cofres para o embelezamento do Santo Sepulcro, mas muitos dos fiéis eram tão pobres que mais precisavam do que podiam dar ajuda.
A Basílica encontrada pelos cruzados era, na realidade, uma reconstrução da primeira, construida no século IV pela mãe do imperador romano Constantino. Helena e o bispo Macário desejosos em encontrar o lugar onde fora sepultado Cristo empreenderam uma grande escavação numa área interna aos muros da cidade.
Na realidade os sepultamentos não podiam ser realizados dentro da área da cidade na época de Cristo, mas o local escavado foi anexado à área urbana de Jerusalém somente no século II d.C., quando o imperador romano Adriano mandou que se encontrasse um local adequado para a construção de um Foro e de um templo dedicado a Vênus, Jupiter e Juno (o Templo Capitolino).
Os homens da administração romana indicaram, então, a região do Golgota (em hebraico “crânio” ou “caveira”), morro onde eram realizadas as execuções de condenados e uma área de túmulos. Era nessa região que, provavelmente, se encontrava o túmulo escavado na rocha pertencente a José de Arimatéia, rico judeu, próximo a Jesus, que emprestou para seu sepultamento. A área foi então aterrada, sem que se retirassem as pedras base, e o templo edificado.
Foi nessa área que dois séculos depois Helena e Macário começaram as escavações, encontrando logo em seguida as pedras tumulares. Num dos nichos encontrados teriam sido localizados os madeiros que foram utilizados na crucificação de Cristo e dos dois ladrões.
Essa história do “Santo Lenho”, aliás, rendeu muito durante a Idade Média, fazendo o número de relíquias (objetos ligados a vida dos santos ou de Cristo) se multiplicar exponencialmente. Cada igreja queria ter um numero mais impressionante do que a outra de relíquias, até porque isso lhes garantia maiores doações e maior visitação de fiéis, numa verdadeira disputa turística-mercadológica. Isso acabou por promover uma crescente falsificação de relíquias que garantiam que um único santo tivesse seis braços, dez pernas, três cabeças. O famoso “Sudário de Turim” (o pano que teria coberto o corpo de Cristo após a crucificação, era apenas um dentre tantos, o que implica obviamente a pergunta: quantas vezes ele foi coberto??
Uma piada corrente na Idade Média costumava dizer que haviam tantas lascas da Santa Cruz que seria possível com elas construir a Arca de Noé.
Mas isso não era um problema sério na época da Imperatriz Helena, e ela mandou erguer uma igreja suntuosa sobre o antigo Templo Capitolino. Contudo, no século VII, os persas invadiram a cidade e botaram a igreja no chão. A antiga igreja possuia cinco naves além de uma cripta onde estavam repousadas as cruzes encontradas.
A destruição de 614 começou a ser revertida quinze anos depois, quando o um abade de nome Modesto iniciou sua reconstrução. Depois de concluida manteve-se intacta durante quatro séculos, quando durante a invasão árabe liderada pelo califa Haken – em 1009 - novamente a igreja foi completamente destruida.
Nos anos seguintes a igreja foi reerguida, mas de modo bastante simples, até mesmo por conta da dominação islâmica na cidade. Foi nesse ponto que os cavaleiros cruzados a encontraram com a tomada de Jerusalém no final do século XI. Com sua nova ornamentação a Basílica foi sagrada em 1149.
Ao longo da Idade Média o Santo Sepulcro foi o “pomo da discórdia” entre cristãos e islâmicos e sua “libertação” utilizada como argumento para sucessivas cruzadas. É claro que outros motivos de ordem econômica ou social estavam por trás destes movimentos, mas o Santo Sepulcro jamais saiu da pauta dos reis e papas na medievalidade.
Contudo, apesar da retomada de Jerusalém aos árabes por Saladino, a Basílica se manteve praticamente intacta até ser novamente destruída por um incêndio em 1808. Durante a dominação árabe foi garantido o acesso dos cristãos ao Santo Sepulcro – motivo de interesse desses -, desde que se pagasse uma generosa taxa de admissão – motivo do interesse dos senhores da cidade.
Ao longo desse tempo milhares de fiéis peregrinaram para lá, para adorar o túmulo e ver o mistério do acendimento sem intervenção humana da lamparina que ilumina o sepulcro. No século XIV, Mafeo e Nicolo Polo – pai e tio de Marco Polo – realizaram uma viagem a Jerusalém a fim de levar para Kublai Kan – o qual ficara impressionado com as histórias a respeito de Cristo contadas pelos mercadores venezianos – um vidro com um pouco do azeite que queima no Santo Sepulcro, tal era a fama de miraculoso do local.
A reconstrução da basílica, após o incêndio em 1808, foi em grande parte bancada por monges gregos, o que garantiu uma forte presença dos ortodoxos na manutenção da igreja. Mas essa reconstrução também determinou a retirada de inúmeros símbolos cristãos latinos, inadequados para os padrões ortoxos. Com o tempo a administração do Sepulcro passou a ser compartilhada entre ordens de seis diferentes igrejas cristãs: a copta, a armênia, a síria, a abissínia, além da grega-ortodoxa e a latina (ou romana).
Ainda hoje a abertura da igreja é realizada por um membro de uma ordem e o fechamento por um de outra ordem, evitando as brigas de tapas que marcaram décadas de relação conflituosa dentro do santuário.
Milhares de turistas e peregrinos visitam anualmente o Santo Sepulcro, movimento que diminui toda vez que a cidade de Jerusalém se vê abalada por séries de violência entre palestinos e israelenses, os quais disputam o direito de ter a cidade como sua capital, embora, atualmente, ela pertença à Israel, condição não reconhecida por muitas nações do mundo.
De qualquer forma parece muito paradoxal que o local mais agrado para o cristianismo tenha uma milenar história ligada a violência e a intranquilidade, posto que o “sepultado” morreu por valores completamente contrários. Mas essas são as contradições que compõem e movem a história.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente, História medieval, Patrimônio histórico
Tags: Basílica, Cruzadas, Jerusalém, Jesus Cristo, Santo Sepulcro
07/04/2009 - 17:03
Semana Santa me fez lembrar de algumas situações bizarras. Há algum tempo, no começo de 2007, o cineasta James Cameron lançou um documentário produzido para a Discovery, chamado The lost tomb of Jesus (A tumba perdida de Jesus), no qual ele acompanhava o trabalho de um grupo de “arqueólogos” israelenses que teriam encontrado o verdadeiro, e material, túmulo de Jesus Cristo.
A jogada de publicidade de Cameron, pra lá de oportunista, parece ter tido menos efeito do que ele esperava, pois a coisa morreu no circo que ele montou para “apresentar a descoberta”. A impressão que ficou é que as pessoas tiveram dois tipos de reação diante da palhaçada toda. Umas olharam e pensaram: “Arqueólogos? Ossada de Cristo? Ok. E eu sou Napoleão Bonaparte vou reinvindicar o trono da França.” Outras pensaram: “Ossada de Cristo? Ok. E o que isso muda de fato o mundo?”
De qualquer forma ficou Cameron, seus arqueólogos (ou não), e a bendita ossada. O mundo continuou o mesmo. Quem é cristão continuou, quem não era não deu a mínima, o Vaticano não foi abalado, nem nenhuma outra igreja cristã. Isso somente lembrou o cineasta de que a fé transcende questões científicas e o melhor que há a se fazer (nesses casos específicos) é cada uma se manter com suas atribuições e responsabilidades. A Igreja Católica, aliás, também deveria se lembrar disso de vez em quando e não se meter em questões científicas, como a condenação ao uso de preservativos pelos seus fiéis. Mas esse não é o tema essencial aqui.
A questão é que há todo um segmento da história, da arqueologia, da linguística dedicado ao estudo dos assuntos relacionados a vida na Palestina no período que vai de uns dois mil anos antes de Cristo até alguns séculos após sua morte. Esse campo de estudo é denominado comumente de “Bíblico”. Arqueologia bíblica, História bíblica, etc.
O objetivo desse campo de estudos é compreender e revelar melhor a vida dos povos no período que é coberto pela Bíblia.
Sempre achei complicado determinar um documento religioso, “inspirado” como dizem os “povos do livro” (judeus, cristãos e islâmicos), como baliza de pesquisa, como base. Mas é um campo de estudo atraente realmente, mesmo com suas complicações.
Basta ver a quantidade de filmes que tocam nesse tema. A própria série do Indiana Jones tem dois episódios dedicados ao tema: o primeiro, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, no qual vão em busca da Arca da Aliança e Indiana Jones e a Última Cruzada o qual transita entre a busca pelo Santo Graal e as história de cavalaria da Idade Média. Sobre o tema do túmulo de Cristo há O Corpo que narra como seria a descoberta de uma suposta ossada de Jesus (será que foi daí que Cameron tirou sua aventura? Tentando fazer a vida imitar a arte?). Mais recentemente o escritor Dan Browm encheu os bolsos graças ao tema, com Código Da Vinci, que, na realidade, trata da descendência de Cristo ou não. E do suporto túmulo de Maria Magdalena.
Em geral a chamada “Arqueologia Bíblica” vai melhor quando se distanciam de uma “história pessoal”. Ou seja, quando evitam ficar tentando elucidar se Abrãao realmente existiu, onde esta enterrado Moisés, se Cristo deixou sua ossada, etc, etc.
Já houve quem quisesse escavar o topo do Monte Ararat, na divisa entre a Turquia e a Armênia para verificar se a mancha que se vê de longe é a Arca de Noé!!!!
Como poucas áreas a arqueologia bíblica pode descambar para um sensacionalismo desmedido e uma confusão dos Diabos (sem trocadilhos, por favor) entre fé e ciência.
Mas há muita pesquisa séria. A recuperação dos famosos Manuscritos do mar Morto tem revelado muito sobre as crenças de uma comunidade judaica chamada “essênios”, que tinham um centro à beira do mar Morto e guardaram nas cavernas das montanhas próximas milhares de documentos descobertos acidentalmente por um pastor há décadas. As crenças dos essênios teriam sido uma das bases do cristianismo.
Também escavações em Jerusalém vêm revelando a história da formação da “Cidade Santa”, com suas sucessivas construções e destruições, iluminando passagens como a relação dos hebreus com seus visinhos, bem como a formação do próprio povo hebreu e de sua crença.
Outras pesquisas vêm esclarecendo melhor a história da dominação romana na Palestina e as relações de poder com os monarcas locais, como Herodes (cujo reinado é citado como o que envolveu o nascimento de Cristo). Também obtivemos mais informações a respeito das culturas da “Terra Santa”, seus hábitos, economia, sociedade.
O assunto realmente é fantástico, mas é sempre bom tomar cuidado com “pesquisas” promovidas por gente obscura, com interesses comerciais ou políticos por detrás, e, também, para não misturar “as estações”.
Os valores que as religiões difundem tem importância e sentidos transcendentes, não é a descoberta da Arca da Aliança ou do Graal que vai mudar isso.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente
Tags: Árqueologia Bíblica, Bíblia, Jerusalém, Jesus Cristo, terra Santa
20/12/2008 - 21:29

Uma pesquisa feita com a população inglesa revelou que 70% dela não crê que Jesus Cristo tenha nascido do modo que a Bíblia relata. A informação era dada na reportagem como uma insinuação a respeito de um suposto “ateísmo” dos ingleses, interpretação que creio ser simplista e longe da realidade.
Em verdade não perguntaram se a população acreditava ou não em Jesus Cristo, nem se seu nascimento estava relacionado a manifestação do divino, mas apenas se acreditavam que havia nascido “exatamente” como a Bíblia relata.
Oras, as duas coisas não tem necessariamente uma a ver com a outra.
E, na realidade, nem mesmo penso que seja essencial para a maioria dos cristãos crer no nascimento de Cristo tal como é descrito. Boa parte das pessoas tem a percepção, consciente ou inconsciente, de que os significados profundos trazidos pela história de Cristo estão além da necessidade da comprovação da “veracidade” dos fatos, como se fosse necessário que a Polícia Científica fizesse uma reconstituição do evento.
A história do nascimento de Cristo, desde a concepção mágica, pelo Espírito Santo, representado por uma pomba, até sua morte e ressurreição, seguida da ascenção aos céus, recupera elementos imemoriais das religiões do oriente próximo e do mundo grego.
O judaísmo, religião da qual nasceu o cristianismo, se formou a partir da influência de várias religiões orientais, como o mazdaísmo, o maniqueísmo e elementos até mesmo oriundos dos gregos.
Entre estes últimos os nascimentos míticos eram componentes essenciais de sua religião. Deuses e heróis nasciam de modo especial, era um traço distintivo que marcava desde a primeira infância a vida dos mesmos. De Zeus à Hércules todos tinham nascimentos especiais, cercados de anúncios, presságios, profeciais.
Mas, dentre todos estes, o nascimento que parece ter mais influenciado o cristianismo é o de Dionisio, filho de Zeus, conhecido como Baco entre os latinos.
Para muitos Dionisio é apenas o Deus do Vinho, mas, entre os gregos, seu culto era de importância enorme, complexo e profundamente místico, daí os chamados “mistérios dionisíacos”.
O centro do culto a Dionísio ocorria justamente na celebração de seu nascimento, ocorrido de modo absolutamente fantástico. Hera, a esposa ciumenta de Zeus, ao saber que seu esposo teria um filho com outra mulher preparou uma de suas armadilhas. Foi até a mãe de Dionisio, que ainda o gestava no ventre, e, disfarçada, incitou-lhe a exigir, como prova de amor, que Zeus se mostrasse a ela tal como era.
Sendo ela uma mortal, jamais poderia ver Zeus em sua forma real, pois assim seria imediatamente desintegrada. Mas ela, não sabendo disso, pediu a Zeus que ele lhe prometesse cumprir um desejo seu, fosse ele qual fosse. Zeus prometeu. Ela, então, lhe pediu para que se mostrasse tal como era.
Sendo um deus e não podendo descuprir uma promessa, mas, ao mesmo tempo, sabendo que a mulher morreria imediatamente, Zeus, ao se mostrar, arrancou a criança do ventre da mãe e a alojou em sua coxa. Com a morte da mãe, Zeus terminou de gestar o filho em sua própria coxa.
Mas, mesmo assim, Hera não se satisfez e durante a vida da criança tentou lhe matar de todas as formas. Numa delas perseguidores foram atras de Dionisio que, para fugir, foi se transformando em diversos animais, até que, transformado em touro foi cercado, morto e esquartejado. Mas Zeus reuniu seus pedaços e Dionisio reviveu.
Osíris entre os egípcios também foi esquartejado per seu inimigo, Set, e reunido por sua esposa/irmã, Isis, renascendo. Cristo, seviciado e morto também renasceu pela graça de seu Pai/Deus. Homem e Deus, tal como Dionísio e Osíris.
Anualmente as sacerdotisas de Dionisio – as quais eram vegetarianas rituais – matavam um touro, esquartejavam-no e partilhavam sua carne e seu sangue, em memória ao sacrifício de Dionísio, celebrando, assim, seu renascimento. Quando não havia um touro para o sacrifício, as sacerdotisas partilhavam pão, rasgando o com as mãos, e bebiam vinho, símbolos da carne e do sangue de Dionísio.
Também durante o inverno, a população grega, devota de Dionísio, pindurava nos pinheiros daquela região, durante as festas dionisíacas, no inverno, réplicas de brinquedos de criança nos pinheiros da região, como forma de lembrar a infância do deus. Debaixo das árvores depositavam excedentes de comida, para quem precisasse durante o inverno.
A figura de Afrodite, deusa da fertilidade, era comumente representada carregando uma pomba numa das mãos – tal como na figura acima -, um símbolo tão antigo quanto o da serpente, outro animal associado a sua figura.
Mas, isso tudo, não é para dizer que o cristianismo “copiou” os gregos, os egípcios ou os antigos persas, mas para lembrar da força de certas crenças, do valor simbólico que elas tem, da força do mito do nascimento, morte e ressurreição, ciclos da terra e da vida, mais antigos do o homem e que acompanham desde sempre nossa existência como espécie.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura, História do oriente
Tags: cristianismo, Dionisio, mitologia, Natal, Zeus
29/11/2008 - 20:47
Boa parte do mundo ficou chocada nesta semana com o conjunto de ataques realizados por extremistas islâmicos a cidade de Mumbai na Índia.
Para nós, brasileiros, os ataques na Índia dividiram espaço na mídia com a tragédia de Santa Catarina que, ao que tudo indica, está longe de acabar e não ficará sozinha, trazendo junto Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A Índia – país, nação – é uma invenção absolutamente moderna e muito ligada a figura de Mahatma Gandhi. Quando fui ler pela primeira vez a respeito da Índia, há uns dez anos, a supresa inicial foi a de perceber que falar em Índia antiga fazia tanto sentido como falar em Grécia antiga.
Tanto uma quanto a outra, na realidade, eram formadas por inúmeras unidades autônomas. No caso do mundo grego eram as Cidade-Estados, na mundo hindú reinos e principados. Só que, para o caso indiano, há uma agravante ainda maior na sua complexidade histórica.
Enquanto o mundo grego era composto majoritariamente por uma etnia – não que não houvesse outras, mas de menor proporção e influência – no mundo indiano centenas de etnias disputavam espaço, compondo de modo diverso cada um dos reinos e principados. Além disso há o complexo sistema de castas do hinduismo que indica a posição, profissão, acesso que cada indivíduo tem na sociedade.
Para complicar ainda mais, nos séculos VII, VIII chegaram até ao sub-continente indiano os muçulmanos e, depois, os cristãos. Esse concerto de coisas pasosu a ter uma feição mais unitária quando os ingleses dominaram a Índia e durante séculos controlaram seus povos.
Obviamente que isso não justifica a presença inglesa na região, mas indica uma dos efeitos: o fortalecimento do sentimento nacionalista indiano. Em meados do século XIX grupos indianos se levantaram contra a dominação inglesa, mas foram dominados novamente.
Essa situação se estendeu até 1947 quando, no pós guerra, Mahatma Gandhi liderando a campanha de Desobediência Civil obteve a independência da Índia. Na campanha pela independêcia indiana, Gandhi concluiu que adotar os mesmos princípios do levante armado de um século antes seria um equívoco e convocou a população indiana a desrespeitar pacíficamente as normas, regras e leis impostas pelos britânicos (as quais chegavam ao limite de obrigar os indianos a comprarem sal inglês).
Depois de um longo processo a Inglaterra se retirou do “Vice Reino da Índia”, encerrando a “era de ouro” do colonialismo inglês (ao menos para os ingleses).
Entretanto na própria retirada inglesa a Índia rachou em duas, com o surgimento de um país para abrigar sua gigantesca população islâmica, o Paquistão. Vai daí que as relações entre os dois países jamais foi pacífica (sobretudo na disputa pela mineralmente rica região da Cashemira).
Tempos depois uma segunda disputa levou a ciraçao de Bangladesh, outra nação islâmica. Com estas disputas políticas acirradas – e depois animadas pelo belicismo atômico – islâmicos e hindus passaram a se hostilizar ainda mais. O crescente radicalismo islâmico no Afeganistão (fronteira com o Paquistão) deu refúgio, armas e treinamento para as investidas no Oaquistão e, agora, no coração da Índia.
Como se vê a situação é muito mais complicada e preocupante do que geralmente a população comum do ocidente costuma perceber. E, da mesma forma, isso nos indica que a solução através da força está longe de ser eficaz.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História do oriente
Tags: fundamentalismo, hinduismo, India, islamismo, Oriente
22/11/2008 - 14:15
Tudo bem. Sou um homem sem palavra. Decidi romper com meu AI-5 auto-imposto e postar algo que não seja receita de bolo de cenoura nem poesia condoreira aqui.
Juro que não sou somali, pirata, nem tinha informações privilegiadas quando decidi escrever aqui a respeito da história da pirataria. Mas, numa daquelas coincidências do destino, ocorreu que, junto com a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial (alguns dizem desde 1929), temos um dos maiores surtos de pirataria no Oceano Índico desde a época de ouro da pirataria.
Esse recrudescimento (não é renascimento, pois a pirataria nunca “morreu”) me fez lembrar de uma série de questões, algumas diretamente ligadas ao assunto, outras que oferecem correlação.
O Oceano Índico, na costa oriental da África, é uma região clássica da pirataria. No século XVIII Madagascar era uma “república” ou “reino” pirata (depende de seu modo de ver as coisas). Piratas ingleses rumavam exatamente para onde hoje os piratas somalis mantêm o mega-petroleiro cativo e atacavam implacavelmente as embarcações mercantis da região. Sem nenhuma nação com poder para coibi-los na região tornaram o Índico um verdadeiro território pirata, cuja navegação oferecia riscos absurdos.
Então, há uma pergunta: Porque essa região é recorrentemente invadida por levas de piratas?
Dizer que a pirataria jamais deixou de existir ali somente lança o problema mais para trás. Na realidade, a ausência de estados nacionais fortes na região e a rota mercantil secular que passa por ali torna a África Oriental num lugar particularmente atraente à pirataria.
Em segundo lugar, a pirataria, como escrevi anteriormente, é uma forma muito eficiente de ganhar dinheiro e uma ótima saída para homens que tem poucas chances na vida. Sem dúvida a situação endêmica de miséria na África acaba arrastando centenas, senão milhares de homens, para a carreira da pirataria. É claro que são poucos que enveredam por ela e não é a miséria a única causa, mas é uma precipitadora.
A situação análoga à qual me referia era a da nossa “pirataria a seco” que foi o cangacismo no sertão nordestino. Não eram as secas e carestia a única causa de acirramento do cangacismo, mas toda vez que o sertão entrava num ciclo de miséria aumentavam os bandos de cangaceiros. Some-se a isso a profunda desigualdade social no sertão e o mando e o desmando dos coronéis durante séculos. Isso criava um ambiente de revolta e injustiça que levava muitos jovens ao crime. Há um excelente livro sobre isso: Guerreiros do sol de Frederico Pernambucano de Mello (para meus amigos historiadores que pedem que eu indique ou referencie leituras).
Penso que a situação africana é semelhante. Não é por causa da miséria que alguns africanos optam pela vida da pirataria, mas quando o mundo decidiu esquecer a África a sua própria sorte, parte dos africanos decidiu retribuir ao mundo na mesma moeda.
As histórias de “O coração das Trevas” contado por Joseph Conrad e “Alá e as crianças soldado de” Ahmadou Kouroma são exemplos de como, historicamente, a África foi desarticulada em sua já frágil estabilidade pela ação dos estrangeiros.
Para ver a matéria do Ultimo Segundo a respeito do sequestro do petroleiro clique aqui:
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2008/11/20/piratas_pedem_us_25_milhoes_para_liberar_petroleiro_saudita_2123250.html
E para ler a postagem a respeito da história da pirataria clique aqui: http://indianasilva.blig.ig.com.br/2008/11/19204202.html
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História do oriente, Sem categoria
Tags: África, História Moderna, Pirataria
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