iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo da Categoria História do Brasil

25/09/2009 - 06:40

Mais uma da série “Mitos”: O Brasil é um país pacífico?

Quantas vezes você já ouviu dizer que o Brasil é um país pacífico? Que um dos elementos que diferenciam nosso processo de Independência do de outras nações é a ausência de conflitos armados? Que tendemos à acomodação e que países onde há processos mais “violentos” a política em geral é melhor?

 

Eu ouvi isso durante todos os meus anos escolares, e continuo ouvindo de muitas pessoas, sobretudo as de mais idade. Em geral compara-se a Independência do Brasil com a das antigas colônias da Espanha, onde a separação se deu apenas através de uma longa luta, ou mesmo no caso dos EUA e a Guerra de Independência contra a Inglaterra (culminando no ano de 1776). Comparam ainda a constituição do nosso Estado e dos nossos poderes políticos com a França, onde a Revolução Francesa (de 1789) estabeleceu um marco de rompimento e recriação parcial do país.

Em verdade essas comparações partem de dois conjuntos de desconhecimento e da construção de um mito: o desconhecimento da história dessas outras regiões, o desconhecimento de nossa própria história e a construção do mito do povo brasileiro como um povo pacífico, “afável”, tendendo sempre à acomodação.

A respeito da história desses países seria extenso e nem tão útil assim se extender, vale saber que conhecemos sempre fragmentos e que nem sempre esses povos resolveram suas disputas políticas pelo embate direto. Mesmo quando assim o fizeram as consequências foram desastrosas e traumáticas. A Guerra de Secessão dos EUA, em meados do século XIX, deixou marcas profundas no país e demorou décadas para ser superado o ódio entre o norte e o sul (e com o estabelecimento de uma grande vantagem política para o norte vencedor da guerra).

Da parte do Brasil, por outro lado, frequentemente se “esquecem” episódios que diriam algo bem diverso a respeito de nossa história. Logo após a declaração de Independência a região do Pará e do Maranhão não se posicionou imediatamente a favor da separação com Portugal (na época o Grão Pará e o Maranhão conformavam uma região autônoma em relação ao Brasil). A união com o Brasil somente foi possobilitada graças a força das armas apoiada com negociações políticas intensas. Depois da renúncia de Dom Pedro I, e antes que seu filho e herdeiro – Pedro II – pudesse ser coroado, teve início o que chamamos de “Período Regencial”, o qual o governo era formalmente exercido por um “regente” indicado para tal cargo. Nos anos da Regência pipocaram pelo Brasil movimentos que esperavam uma independência diversa daquela que se estava construíndo, o mais longo desses movimentos, a Farroupilha, somente se encerrou muitos anos depois.

Com o cenário de grande indefinição política que se instalou com a renúncia de Dom Pedro I, uma série de grupos que almejavam formas distintas de independência daquela que se havia estabelecido abriu fogo contra o governo do Império arrastando o Brasil para uma longa década de conflitos armados em praticamente todas as regiões do território.

Depois da relativa estabilidade que significou o II Reinado, com a coroação de Dom Pedro II, o país voltou a se envolver em sérios conflitos: Canudos, o Contestado, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes, A Revolução de 1930, o Golpe Militar de 1964 e daí para diante.

Estivemos longe de ser um “povo pacífico”, bem como nos mantivemos distantes de uma democracia consolidada, construída e experimentada cotidianamente, a qual somente se efetivou coma  eleição de Collor de Mello (e que deu no que deu).

Contudo, e apesar desse retrospecto, ficamos marcados como “povo pacífico” que não gosta de “embates”. Mito, é claro, que tem algo de razão quando também lembra que nossa incrível plasticidade é um traço cultural marcante, uma incrível adaptabilidade a situações e lugares (herança que herdamos dos portugueses em grande medida). Os mitos, em geral, não são “mentiras”, mas modelações de elementos reais de acordo com fins outros.

A idéia de “flexibilidade”, “pouca rigidez” veio desde tempos de colônia e das avaliações profundamente estereotipadas de viajantes europeus, parte disso herdamos também de Portugal, que entre os povos europeus – pelo fato de ter assimilado tão bem mouros e judeus e africanos e asiáticos em outros tempos – também gozava da fama de ser “meio flexível demais”.

Ingleses, bávaros, prussianos, tenderam a ser mais rigorosos no juízo dos brasileiros do que outros viajantes de raíz latina, como os franceses.

E essa idéia se transmitiu e encontrou difusores poderosos, como Gilberto Freyre e Paulo Prado, os quais viam como virtude e vício do povo brasileiro uma suposta “plasticidade”, uma “meiguice” que tendia a acomodação ao invés do embate.

Cada um deles escreveu isso e abraçou a idéia por motivos bem específicos, mas isso acabou penetrando também nas interpretações dos historiadores e - em consequência – nos livros didáticos, disseminando ainda mais a versão.

Em suma, nossa história não foi menos ou mais sangrenta do que a de outros povos, embora tenhamos – certamente – nossas especificidades culturais e históricas, e como na letra de Fado Tropical de Chico Buarque temos a capacidade de misturar no mesmo gesto o golpe duro e presto com uma alma que instantaneamente se ressente, verdadeira ou falsamente.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
07/09/2009 - 07:29

O Sete de Setembro como “Marco” da Independência

O Sete de Setembro de 1822 não “nasceu” nem histórico nem como “data nacional”, marco da Independência do Brasil. Datas, bem como “personagens”, monumentos, interpretações, são construções históricas, obras que se dá ao longo do tempo, muito ou pouco.

 

Para nós parece tão natural que o Sete de Setembro seja a nossa data maior, o marco da Independência, que é muito difícil imaginarmos uma outra situação diversa. Esse fenômeno não é exclusividade nossa, também ocorreu com o 14 de Julho na França (data da Queda da Bastilha, durante a Revolução Francesa), com o 4 de Julho nos Estados Unidos (data de sua Independência), e com tantos outros países.

A “escolha” de uma data, ou seu reconhecimento como “marco”, não é uma questão “isenta” de interesses, não é um dado objetivo, mas uma peça fundamental na construção da história que se deseja perpetuar.

No caso da Independência do Brasil o processo se deu de modo incerto, errático, construido dia a dia e somente consolidado muitos anos depois. Basta lembrarmos que o monarca que aqui ficou, Dom Pedro, era filho primogênito de Dom João VI e, portanto, herdeiro do trono português, assim, com a morte do rei de Portugal, o Imperador do Brasil teria sob sua coroa novamente os dois reinos (e esta situação somente foi solucionada com a abdicação de D. Pedro I em 1831 para reinvindicar o trono português e tornar-se, lá, Dom Pedro IV).

O processo de independência brasileiro teve alguns momentos chave, independentemente de se tornarem “datas nacionais”: o Dia do Fico, a dia do “Grito”, a Aclamação de Dom Pedro, entre outros, os quais foram tecendo o processo político que consolidou a independência.

Obviamente que a separação política de Portugal somente teve efeito pelo endosso, participação de parte das elites, as quais interessava a independência. Nem foi um processo tocado a revelia ou contra a família real (como no caso das colônias de Espanha nas Américas ou dos EUA), nem foi um processo tocado por um herdeiro rebelde, contra sua família ou contra as elites coloniais. Daí, também, a singularidade de nossa Independência.

Com isso a “história de nossa Independência” deveria atender as necessidades tanto da família real brasileira (mesmo após a abdicação de Dom Pedro I, mantida na figura de seu filho, Pedro II) quanto das elites que apoiaram a separação. Em cada um dos momentos do processo que levou a separação de Portugal uma feição do jogo político se ressaltava: na aclamação, por exemplo, enfatizava-se o reconhecimento, a chancela do “povo” ao monarca Pedro I, o 7 de setembro enfatizava a personalidade do príncipe, sua “decisão pessoal”, seu caráter “heróico”.

Por isso a escolha da data nacional dependia de qual momento seria eleito como o do “nascimento da nação”. Para os que desejavam estabelecer uma monarquia muito mais liberal no Brasil, com poderes bastante limitados ao Imperador, era muito mais desejável que a data nacional fosse a da Aclamação, ou a da Constituição do Império (cuja primeira versão foi vetada por Dom Pedro I pos restringir demais seus poderes). Por outro lado, para Dom Pedro I, depois seu filho, e para os grupos mais próximos à monarquia e mais conservadores o 7 de setembro era muito mais adequado, pois atrelava a independência brasileira a virtude do Imperador.

Não foi sem muito debate, brigas, idas e vindas, que o 7 de setembro se consolidou como data nacional brasileira e isso revela a força que os grupos conservadores assumiram não somente na política imperial brasileira, mas, também, na “construção do estado nacional”, o que implicava, inclusive, na decisão de “como ensinaremos nossa história”.

E foi essa que ficou, se consolidou e desdobrou, deixando marcos comemorativos pelo país todo. E, depois de tantas e tantas décadas, a lembrança de quem nem sempre o Sete de Setembro foi nossa data nacional praticamente se esvaiu, consolidando, finalmente, a figura de Dom Pedro I e os episódios – que dificilmente saberemos como efetivamente foi – ocorridos as margens do riacho Ipiranga na volta do Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, após sua visita a São Paulo.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , ,
04/09/2009 - 06:15

30 anos de Anistia

Ulisses Guimarães discursava no plenário da Câmara, em Brasília, 1979, defendendo a promulgação da Lei da Anistia, mas titubeava a respeito do âmbito dessa anistia. Atrás dele um coro de deputados e nas galerias manifestantes, sobretudo parentes de exilados, “soprava” ao ouvido do deputado as três palavras que queriam ver inclusas no texto final: Ampla, geral e irrestrita.

 

Ulisses Guimarães acabou por empregar as três para definir o perfil da Anistia que defendia, não sem sentir a pressão em sua nuca vinda das galerias do plenário da Câmara.

Ocorre que há anos se discutia o estabelecimento de uma anistia como passo primordial para a pacificação dos ânimos, para a conciliação política do país, o reestabelecimento da democracia, mas, mais difícil do que abraçar a idéia da anistia era definir os limites dela.

Ela contemplaria ambos os lados? Ditadura e oposição? Ela seria aplicável a militares? Cobriria acusados de crimes de morte? Reestabeleceria direitos políticos também? Inúmeras questões que se relacionavam diretamente com as três definições sopradas ao ouvido do deputado: “Ampla, geral e irrestrita”.

Esse modelo significava que ambos os lados em toda e qualquer circunstância seriam anistiados, sem qualquer senão para os acusados e, teóricamente, impossibilitando ações futuras contra indivíduos em específico (daí, recentemente, ter ocorrido a barafunda no judiciário no julgamento de um militar acusado da prática de tortura durante a ditadura. Ele não poderia ser condenado pelo fato de ter sido “anistiado”, mas foi reconhecido como responsável por um crime, o que gerou revolta de alguns militares e mesmo de alguns juristas).

A campanha pela Anistia somente ganhou força no Brasil por conta da mudança no perfil dos exilados a parti do segundo momento da Ditadura. Após o Golpe de 64 o primeiro grupo de exilados era composto por políticos históricos ligados ao antigo governo Vargas (como Jango e Brizola), líderes históricos das esquerdas (como Prestes do Partido Comunista e Francisco Julião das Ligas Camponesas) ou gente ligada diretamente ao governo (como Darcy Ribeiro, da Casa Civil, Santiago Dantas, economista). Em suma, os cabeças do regime que os golpistas desejavam derrubar.

Porém, depois de 1969, com a promulgação do AI-5, o governo ditatorial acentuou sua brutalidade e isolou os grupos de militares mais moderados, os quais haviam liderado o governo entre 1964 e 1969. Com isso teve início os chamados “Anos de Chumbo”, o período mais violento da ditadura e que passou a envolver grupos de militantes até então distantes da disputa. Além disso o regime pós 69 passou também a perseguir grupos artísticos e intelectuais que não necessariamente militavam, mas cujas idéias ou estéticas incomodavam aos ditadores. Nesse torvelinho estudantes, professores universitários, poetas, músicos, diretores de teatro, atores, passaram a ser alvo da perseguição política, a qual, muitas das vezes terminava com o exílio.

Com a subida de Geisel ao poder começa o período que chamamos de “Distenção” com a flexibilização do regime ditatorial, a chamada “distenção gradual” liderada pelo General Golbery do Couto e Silva. Mesmo assim o regime permanecia sendo uma ditadura, o que levou a muitos jovens de classe média a buscarem uma espécie de auto-exílio.

Assim, na segunda metade dos anos de 1970, acumulavam-se em alguns países preferenciais (México, França, EUA, Canadá, Inglaterra) três grupos de exilados: Militantes históricos, exilados desde 1964, exilados por motivos ideológicos e estéticos, mas não necessariamente militantes, saídos do país após 1969, e, por fim, jovens que decidiram acrescentar ao seu curriculo um período de auto-exilio, quando este já não era da rudeza que tivera entre 1964 e 1974 aproximadamente.

De fato foi apenas quando o segundo grupo foi mandado para fora do país que a classe média brasileira, que em boa medida sustentara politicamente a ditadura, começou a sentir na própria carne os absurdos do regime. Enquando eram líderes políticos a serem exilados a classe média brasileira se calou, decidiu abrir a boca e retirar seu apoio quando seus filhos, amigos, conhecidos, parentes entraram na barca dos esquecidos em algum país mundo a fora.

O terceiro grupo, dos auto-exilados, praticamente não contou nessa equação.

A perda do apoio da classe média foi um golpe definitivo na sustentabilidade da ditadura e coincide com a distenção (uma resposta a esse grupo social). É quando surgem as primeiras manifestações pró-anistia.

Muitos decidiram não esperar a anistia geral e voltaram ao Brasil por conta e risco, apostando que o regime não os tocaria diante da crescente perda de apoio. Foi o que fez, por exemplo, Darcy Ribeiro (o qual, portador de um tumor no pulmão, creditava sua permanência no Brasil a um ato concendido a um morimbundo).

Henfil, irmão do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (exilado no México), tornou-se o grande propagandista da campanha pela Anistia, desenhando incansavelmente sua famosa Graúna militando pela Anistia. Nesse processo João Bosco e Aldir Blanc compuseram a música que se tornou o hino do movimento: O Bêbado e a Equilibrista, cantada por Elis Regina (que tomou isso como uma reconciliação com Henfil, com quem brigara por ter cantado anos antes na Olímpiada do Exército). Na canção se diz “que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete…na nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarisses…” alusão a D. Maria, mãe de Henfil e Betinho e Clarisse Herzog, esposa do jornalista assassinado durante tortura em São Paulo, Vladimir Herzog.

Com o crescimento da campanha levas e levas de exilados não esperaram a aprovação da lei, e todo desembarque nos aeroportos brasileiros eram verdadeiras festas e atos pela assinatura do texto definitivo.

Curiosamente a lei da Anistia apenas consolidou – quando foi finalmente assinada – uma situação “de fato”, o retorno dps exilados. E foi um passo importante rumo a redemocratização do país, embora ainda tivéssemos de esperar mais dez anos para votar livremente (responsabilidade direta de muitos políticos que hoje pintam de democratas, mas que articularam nos bastidores em 1984 contra a aprovação das Diretas já, ou que se beneficiaram diretamente do estabelecimento de uma “ditadura civil”, sem farda, mas ditadura, como José Sarney, o mesmo…)

Há poucos anos o cartunista Angeli publicou uma tira que acho genial a respeito da ditadura e da Anistia. Estava lá: Anistiados, primeiro quadrinho, o general, segundo quadrinho, o torturador, terceiro quadrinho, o guerrilheiro, quarto quadrinho “Menos o Zé, o trabalhador”. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , ,
02/09/2009 - 07:00

Porque ficamos unidos?

Porque nos mantivemos como uma país unido após nosso processo de independência enquanto nossos vizinhos de fragmentaram em inúmeras nações?

 

Essa é uma pergunta que segue a história do pensamento brasileiro desde que se consolidou nossa Independência política no começo do século XIX. Mais uma das questões primordiais que raramente são colocadas às pessoas, e que levam a imaginarem que a história tem um certo ar de “coisa pronta”, favas contadas. Tal como a Independência é tratada na maioria dos colégios, e mesmo na mídia, resta um ar de que ou foi fruto de um ato isolado e intempestivo do Príncipe Regente ou uma sequência “natural” do nosso período colonial.

Nem uma coisa, nem outra.

Também é muito comum se ouvir dizer que nos mantivemos unidos pois havia uma língua em comum, cercados por povos colonizados pelos espanhóis, que eramos uma única colônia enquanto os territórios coloniais espanhóis estavam divididos em vários vice-reinados.

Mais uma vez isso não se sustenta.

Às vésperas da Idependência o Brasil não era visto, nem compreendido pelos seus habitantes, como um único território, o Grão Pará e o Maranhão, por exemplo, abarcavam toda a região amazônica portuguesa como território administrativamente autônomo ao restante da colônia, formando, em verdade, dois grandes blocos. Em termos de colonização também não havia qualquer uniformidade: no sul uma forte presença hispânica, por conta dos séculos de disputa territorial, no nordeste resquícios da presença holandesa, e traços de tentativas de colonização francesa em alguns pontos, sem contar a influência inglesa em outras áreas, como na bacia do Amazonas.

Por outro lado, nossos vizinhos espanhóis também tinham uma língua para uniformizá-los, e a existência dos Vice-Reinados (três deles) não contribuiu para a formação de apenas três novos países, mas de muitos mais.

Então, porque o Brasil, cuja independência se deu quase que simultaneamente a dos países de colonização hispânica, se manteve unido enquanto eles se dividiam e dividiam cada vez mais?

Esse assunto já rendeu milhares de páginas de estudos, mas, hoje, tendemos a admitir como hipótese mais consistente a que contempla os seguintes motivos:

1 – Nossa independência foi conduzida pelo próprio Príncipe Regente, herdeiro direto do trono de Portugal, em associação com parte das elites brasileiras. Isso impediu que a separação de Portugal se desse através de uma guerra de independência, a qual teria de ser tocada por lideranças locais.

2 – Esse Príncipe Regente muito provavelmente nutria esperanças, bem como seu pai – Dom João VI – de que, passadas as turbulências políticas, o Império Português pudesse ser recomposto na figura de Dom Pedro (I para nós e depois IV para os portugueses), Imperador do Brasil e herdeiro do trono português. A fragmentação do território, assim, não interessava a ele, Dom pedro, nem a Dom João VI, nem a parte das elites envolvidas no processo.

3 – As próprias elites brasileiras viam na manutenção da unidade, e do próprio D. Pedro, a garantia de certa estabilidade, a qual havia se dissolvido nas colônias espanholas, gerando prejuízos astronômicos. Além disso, durante um processo revolucionário sempre há a possibilidade de que surjam grupos e líderes populares fora do controle das elites, podendo encaminhar o processo para rumos inesperados e desastrosos para os grupos de proprietários.

4 – A pouca participação popular no processo de Independência no Brasil, e um pouco mais significativa nas colônias espanholas, o que gerou situações que tenderam a fragmentação lá, e, ao mesmo tempo, um desacordo mais sistemático entre as elites criolas (espanhóis nascidos nas Américas) de que regime de governo adotar (república, monarquia, monarquia constitucional, etc.) e da conveniência ou não de manter a unidade territorial e política.

Como sabemos nos mantivemos unidos, enquanto nossos vizinhos se fragmentaram acabando com os sonhos de um dos líderes da independência dos países hispânicos, Simon Bolívar, o qual desejava vê-los unidos. Mas isso tudo não se deu senão ao longo de décadas de disputas, negociações, tratados e conflitos que por muito pouco não promoveram a fragmentação também do nosso território – como quase ocorreu com o levante Farroupilha. Por isso, hoje, dizemos que não tivemos uma “Independência”, mas um “Processo de Independência” acompanhado em boa parte da “Construção do Estado Nacional Brasileiro”, ou seja, do Brasil como país (na época como Império, o que também tem a ver com a idéia de manter as especificidades regionais, diferentemente de um “Reino” onde subentende-se uma unidade a priori). Esse processo teria se completado apenas na década de 1850, quase 30 anos após o famoso 7 de setembro (o qual também somente foi aceito como “data nacional” ao longo do processo e dos acordos políticos).

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , ,
26/08/2009 - 06:52

A Independência e o bairro do Ipiranga

Quase ninguém o conhece pelo seu nome de “cartório”: Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Pelo seu “apelido”, Museu do Ipiranga, é, certamente, dos museus mais conhecidos do Brasil, talvez o mais conhecido. Implantado no topo de uma colina – a qual foi acentuada graças a uma movimentação monumental de terra, com vistas a acentuar a visão magestática do edifício – o Museu observa a pequena várzea, hoje quase toda canalizada e encoberta, do riacho que deu nome a região e que, por acidente do destino, pôs definitivamente seu nome na história do Brasil.

Quando era aluno nunca me coloquei essa questão, mas, depois, passei a me perguntar se para muitos a coisa toda – o episódio da “Independência” – não acaba sendo ensinado de um modo bastante “incompreensível”.  Para começar o que D. Pedro, o Príncipe Regente, estava fazendo naquela região com sua comitiva se a capital era no Rio de Janeiro? Como com um simples “Ato” um Príncipe consegue executar uma “Independência”?

Isso sem contar nas piadinhas que sempre correram dizendo que D. Pedro parou as margens do riacho para “aliviar” a barriga, que estava montado em um burro e não num cavalo, e daí para diante.

Em verdade a “Independência” do Brasil é um episódio numa história longa que envolve as mudanças na economia, na política, na sociedade do mundo ocidental a partir do começo do século XVIII, naquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “Era das Revoluções”. Outro historiador, brasileiro, Fernando Novais, chamou esse processo longo de “Crise do Antigo Regime”, ou seja, uma crise que envolveu as bases do capitalismo tal como vinha se desenvolvendo desde o início da Idade Moderna, com as exclusividades das Metrópoles no comércio com as suas colônias, com o poder absoluto dos monarcas, com a exclusão política dos proprietários sem nobreza (os burgueses).

Nesse vagalhão histórico foram arrastadas as monarquias de várias nações, colônias se tornaram independentes – Estados Unidos da América, Brasil, os países da América Latina -, outras monarquias tiveram de se submeter a regimes regidos por constituições (as chamadas Monarquias Constitucionais). O mundo mudou radicalmente e irreversivelmente. Mas tudo isso demorou décadas e mais décadas para se consolidar, e somente quando o processo havia se alastrado por regiões inteiras e com a abrangência envolvendo praticamente todos os setores da existência humana – a política, a economia, a sociedade, a cultura – é que parte das pessoas se deu conta de que estava vivendo uma era de transformações, uma gigantesca revolução.

Em 1821 tanto Dom João VI, rei de Portugal, quanto seu filho, D. Pedro, tinham noção de que o processo de transformações havia se espalhado e sua reversibilidade era difícil, senão improvável. Muito provavelmente o monarca e seu filho articularam formas de “perder os anéis e manter os dedos”, ou seja, aplacar ânimos, se manter na crista da onda sem ser tomado pelo vagalhão. Uma solução possível era admitir um processo de independência conduzido pelo próprio herdeiro do trono português, com o apoio ou a aliança com grupos de proprietários brasileiros que vissem isso como uma vantagem, em sintonia com seus interesses.

Provavelmente era isso que D. Pedro fazia em São Paulo no começo de setembro de 1822: articulando forças que garantissem sua manutenção no trono e resposta imediata a grupos contrários ou tropas portuguesas.

O caminho realizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo nessa época cortava os campos do Ipiranga, uma área pouco ocupada, nas proximidades da cidade. Por ali passava o famoso “Caminho do Mar”, o qual descia em direção a Santos e era a principal rota de escoamento da produção de São Paulo, bem como a principal sua porta de entrada. Antes de chegar no trecho serrano o caminho se dividia e outra rota seguia em direção a capital, o Rio de Janeiro.

Ao se afastar da cidade, voltando para o Rio de Janeiro, a comitiva do Príncipe Regente recebe a famosa carta que o teria feito proclamar a Independência. Certamente Dom Pedro, depois das confabulações com os políticos paulistas, saiu da cidade com a certeza do apoio e seguro para tomar a decisão difícil de oficializar o rompimento com a Metrópole (o que significava um problema muito mais grave para com os políticos e as elites portuguesas do que para com seu pai, afinal as posses se mantinham na família de qualquer modo).

Nem foi um ato intempestivo, nem uma “comédia” como as vezes tentam deixar parecer (como fez recentemente o jornalista Eduardo Bueno). É claro, a cena pintada muito depois, e que hoje adorna o salão principal do Museu do Ipiranga (ops…Paulista), foi constituída com o objetivo de dar uma versão grandiloquente para o momento e dentro dos princípios da pintura clássica do período. Mas, quem acredita que Napoleão realmente vivenciou as cenas tal como os quadros as representam?

Entre o final do século XIX e começo do XX os políticos paulistas decidiram tornar o Ipiranga num monumento a céu aberto, um cenário de um grande teatro histórico. Daí a construção do monumento a Independência, depois do mausoléu, do Museu, etc. Mas não parou por aí, pois outro objetivo desses políticos era associar diretamente a independência do Brasil a participação das elites paulistas nela. Por isso cercaram o coração da história, a colina do Ipiranga e o Monumento, com ruas que levam os nomes dos políticos paulistas ou que relembram valores morais caros a memória deles: rua dos Patriotas, Xavier Curado, rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois, rua do Manifesto, rua Silva Bueno, rua Auriverde.

Vale lembrar que o Sete de Setembro não foi imediatamente compreendido como a “data nacional”, até porque isso determinava a escolha de uma “forma de contar” a história da Independência (não a única). Assim, o Sete de Setembro e o bairro do Ipiranga só se tornaram relacionados a história da separação do Brasil de Portugal ao longo do século XIX e isso só se completou com a comemoração do Centenário da Independência, em 1922.

E, de fato, a movimentação de terra na colina do Ipiranga, a canalização do córrego, a construção das ruas, mudaram tanto o cenário original que hoje é muito pouco provável saber exatamente onde os eventos ocorreram. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
17/08/2009 - 07:00

E se fossemos holandeses?

De tempos em tempos aparece alguém dizendo que uma das pragas de nossa formação histórica é justamente o fato de termos sido colonizados pelos portugueses e não por algum outro povo europeu não latino, como ingleses, alemães ou holandeses.

 

Esse tipo de argumentação tem ficado cada vez mais raro, mas ainda aparece aqui ou acolá. Reflete o que boa parte dos brasileiros aprendeu nas escolas nas últimas décadas, somado ao estado de “perplexidade”, de estagnação, que o país viveu durante anos, sobretudo durante o período da ditadura militar.

O cálculo dos que ensinavam, e de muitos que aprendiam, era o seguinte: os Estados Unidos da América também foram colônias (13 no começo) da Inglaterra, e se tornaram um país sólido, avançado, economicamente forte. Nós também fomos uma colônia, portanto não seria a colonização em si a responsável pelo atraso, mas a matriz, o povo que conduziu a colonização.

Essa argumentação também traz no bojo certo comodismo e dissimulação, pois joga na matriz colonial todas as mazelas pelas quais passamos ao longo de nossa história, inclusive aquelas ocorridas após a independência. Certa feita, num programa do Jô Soares (não me lembro se já era na atual emissora, mas, se não me engano, foi na época do lançamento do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado), o entrevistador perguntou ao escritor português José Saramago se ele não pensava que parte de nossas deficiências eram de responsabilidade da colonização portuguesa. Saramago respondeu: “Bom, você culparam Portugal pela colonização, depois de independentes culparam a Inglaterra pela dominação no século XIX, depois vieram os americanos e os culparam também. Quando é que vocês vão assumir a responsabilidade pelo seu próprio futuro?”

Ao mesmo tempo, na interpretação de nossa história, surgiu a tese de força de que nossas mazelas nem eram decorrência da colonização em si, nem da nação que nos colonizou, mas da “forma” ou “modelo” de colonização. Lembram da história de “colonização de povoamento” X “colonização de exploração” (sinto arrepios só em citar essa história…)?

Essa linha de interpretação tomava os EUA como modelo ideal de colonização de povoamento – por isso teria “dado certo” – ao passo que nós – modelo de “colonização de exploração” – havíamos nos tornado a pátria das desigualdades e do atraso. Um dos grandes responsáveis pela difusão dessa tese foi o historiador Caio Prado Jr. a partir dos anos de 1940.

Mas, e o sul dos EUA? Escravismo, monocultura, latifúndio… E nossas “MInas Gerais”: exploração mineral, trabalhadores livres em boa medida, propriedades menores. O modelo de “povoamento” X “exploração” também não parece muito funcional.

Mas, mais do que “modelos” o que merece ser questionado é o conceito de “dar certo” ou “dar errado”, de “desenvolvimento” e de “justiça social”.

No meio dessa discussão sempre houve quem lembrasse da ocupação holandesa no nordeste como uma “incrível oportunidade perdida”  de termos tido uma “história ligada a uma nação desenvolvida”, como se fosse nossa chance de passar para o lado no qual os EUA supostamente estariam.

É claro que as argumentações em geral cortam aquilo que lhes é menos favorável. Mas, vamos lembrar um pouco o retrospecto da invasão holandesa.

Os “Países Baixos”, por questões sucessórias, estavam ligados a Espanha, mas se rebelaram, declarando-se independentes. No último quartel do século XVI a Espanha e os Países Baixos se encontravam em franco conflito.

Portugal era parceiro comercial dos holandeses no refino, transporte e distribuição do açúcar na Europa, bem como no financiamento da lavoura e até mesmo no tráfico de escravos africanos. Contudo, após a morte do herdeiro português Dom Sebastião, o jogo político e econômico europeu mudou.

Também por questões dinásticas o herdeiro do trono português era o rei de Espanha, Filipe II, o qual fez valer seus direitos. Em 1580 estava consolidada a chamada “União Ibérica”, com os dois reinos sob o controle do mesmo monarca (situação que se extenderia até 1640). Não seria tolerável que uma colônia pertencente a Portugal tivesse como parceiro comercial  principal inimigo da Espanha. Diante disso se ordenou a interrupção de todo o trato com os Países Baixos, representado nesses negócios pela Companhia das ìndias Ocidentais (a W.I.C.).

Os holandeses decidiram contratacar tomando as regiões produtoras de açúcar: Pernambuco, Bahia, Paraíba. A empreitada toda foi pensada como uma ação ecônomica, da qual, inclusive, se venderam ações na bolsa de Amsterdã.

A invasão – tarefa extremamente custosa – não foi nada fácil e em diversas regiões os holandeses foram expulsos, como da Bahia. Finalmente conseguiram se assentar em Olinda e Recife, controlando a produção da Zona da Mata pernambucana, não sem que os engenhos fossem severamente avariados (o que exigiu mais investimentos para recuperar a capacidade produtiva).

Excetuando os investimentos que foram realizados por ordem do homem forte da W.I.C., João Maurício de Nassau, e a liberação da pratica religiosa (os Países Baixos eram predominantemente compostos de protestantes calvinistas, com grande presença de judeus), pouco se alterou no regime: a escravidão e o tráfico continuaram sendo as bases do trabalho, o açúcar continuou sendo o principal produto, a monocultura extensiva permaneceu como a base da organização espacial e comercial.

Mas houve que visse na ocupação holandesa algo “especial”, como um período áureo da história regional.

Nassau foi diversas vezes acusado de corrupção e enriquecimento ilícito às custas da W.I.C., um dos fatos pelos quais foi retirado do cargo. Quando estourou a Guerra de Restauração, após o fim da União Ibérica e retomada da Independência por Portugal (1640), empreendida em sua maioria por colonos, praticamente sem ajuda do exército português, a resposta holandesa foi violetíssima e as propriedades novamente destruídas (o caos instaurado pelo conflito foi o fermento para o crescimento da confederação de quilombos de Palmares, na Serra da Barriga).

Depois da expulsão do holandeses – após, inclusive, o pagamento de “indenização” por Portugal – a região demorou muito a se reorganizar e retomar sua vida, e os antigos invasores foram desenvolver sua própria cultura do açúcar nas Antilhas, tornando o mercado do produto cada vez mais competitivo e com margens de lucro apertadas.

De qualquer modo os holandeses tiveram a oportunidade de fazer das Antilhas um “Canadá” ou um “EUA”, mas não fizeram. O fato é que cada região teve suas especificidades históricas, sociais, culturais, e como diria Marx “Os homens fazem a história, só não o sabem como”. Os “modelos explicativos” em geral mais empobrecem do que elucidam os problemas.

Mas numa coisa tivemos vantagem inquestionável: Jamais passamos pelo constrangimento de torcer numa copa pelo “Carrossel Holandês”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , , , , ,
12/08/2009 - 07:00

Canudos: milenarismo, miséria e arqueologia no sertão

Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.

 

Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.

Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.

Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.

A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.

Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.

Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.

Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.

Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.

As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.

Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.

O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).

A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.

Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.

Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.

Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.

Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , , , , ,
07/08/2009 - 06:32

O que eram os “Senados” e o que é o nosso

Boa parte da população brasileira, nos últimos tempos, gostaria de registrar um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra o Congresso Nacional e, especificamente, contra o Senado (o qual, junto com a Câmara, forma o Congresso). A quantidade de “artigos” nos quais poderiam ser enquadradas as nossas “excelências” os(as) senadores(as) seria espantosa, mas, principalmente, pesaria a acusação de má fé e estelionato. Ou seja, o ato de enganar outrem e aplicar golpes contra aquele que lhe faz alguma espécie de pagamento. Como somos nós que pagamos os salários deles (bem como é nosso o dinheiro que desperdiçam ou que surrupiam direta ou indiretamente) somos os “lesados” da história, as vítimas e, portanto, portadores do direito de realizar uma queixa policial.

 

O mais impressionante disso tudo é que até então o Senado havia se resguardado da bandalheira que corria solta na Câmara. Não que fossem mais honestos, ou mais responsáveis, mas, certamente, eram mais discretos e metidos em encrencas mais grossas. Contudo a perseguição a José Sarney desencadeou um efeito dominó que – muito provavelmente irá ser arquivado, como sempre ocorreu – mas que, também, custará, que, sabe até quando, a nesga de credibilidade que ainda restava ao legislativo brasileiro.

No meio dessa barafunda, muitos se perguntam: Qual é a função do Senado se já existe a Câmara? Não é uma sobreposição de funções?

É, pelo que se tornou, mas não deveria ser, pelo que já foi.

A instituição ”Senado” é atiquíssima, embora tenha passado por inúmeras transformações ao longo do tempo. Talvez o Senado mais famoso da história tenha sido o de Roma, sobretudo em seu período Republicano. O Senado era o lugar onde os representantes das famílias de cidadãos, de patrícios, se reuniam e decidiam os rumos da cidade, da República. Sua origem ocorreu em uma sociedade absolutamente dividida entre os “cidadãos” (aqueles que eram livres, com posses, nascidos no local, pertencente a uma das famílias de originais, portanto com direito políticos) e uma massa de excluídos políticos (plebeus, estrangeiros e escravos).

Esse sistema se manteve enquanto a sociedade antiga se sustentou, e enquanto as cidades eram menores e a representação política era absolutamente pessoal e presencial. O crescimento das cidades, dos impérios, provocou mudanças nessa forma de organização, levando a ampliação do conceito de cidadania (e portanto de representação política), como no caso de Roma, que passou a aceitar homens nascidos nas províncias e nas colônias.

Com o fim do Império Romano, no século V, a “instituição” do Senado praticamente desapareceu no ocidente até o período moderno (depois do século XV), quando uma nova classe social começou a ganhar importância e força política, através do seu enriquecimento.

Essa classe social, a burguesia, paulatinamente granjeou força e forçou a concessão de direitos políticos a eles (os quais eram vedados pelo fato de não serem de origem nobre). Por mais ricos que fossem os burgueses, na maior parte da Europa, o acesso ao poder direto estava praticamente vedado pelo sistema monárquico. Contudo, na Inglaterra, a situação começou a mudar.

Lá a figura do monarca era acompanhada do conselho de nobres, mas a Revolução Inglesa, do século XVII, colocou a burguesia definitivamente no tabuleiro do jogo e o conselho de nobres teve de aceitar a existência de um segundo lugar de representação, um conselho de homens “comuns”. Daí surgiu o sistema chamado de “bicameral”, com uma ”Câmara Baixa” (dos “comuns”, dos burgueses) e outra, denominada ”Câmara Alta” (formada pelos Lords), sistema que ainda vigora na Inglaterra.

Nesse sistema o monarca passou a ter seus poderes – até então absolutos – delimitados por uma carta constitucional e pelas “câmaras”. Mas a Câmara Alta, por ser formada por nobres, geralmente estava mais próxima da figura do monarca, e mais aderente a suas perspectivas.

Deste modo a Câmara Alta servia de intermediária nas discussões cotidianas entre os “comuns” e a figura do monarca, era um braço independente, porém ligado pelas origens sociais ao rei ou rainha.

Esse sistema – depois do século das Revoluções Burguesas, o XVIII – se manteve com ou sem monarquias, e passou a ser copiado em várias regiões, principalmente nos países recém independentes das Américas.

No Brasil o sistema foi adotado desde o período monárquico. No Império Brasileiro os senadores eram nomeados pelo Imperador, e tidos como os homens mais próximos e de confiança. Em geral um político somente era nomeado senador depois de uma longa carreira, de grande destaque na política da Corte, e, também, de fortuna considerável. Era o coroamento de uma carreira política, geralmente começada muito cedo na província de origem.

Boa parte dos ministros do Império eram oriundos do Senado (e seus cargos de senador eram vitalícios).

Com o fim da monarquia o sistema teve novamente que se adequar, mas a idéia de duas câmaras, uma mais popular e outra mais restrita, foi preservada e se manteve assim até hoje.

Por isso, em geral, os senadores são políticos de grande destaque em seus estados (posto que agora tais cargos são eletivos). Basta ver a trajetória deles e se verá a quantidade de ex-governadores(as) que agora ocupa assento no Senado.

Mas, diante dos rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas o Senado foi paulatinamente perdendo seu caráter mais “elevado”, de discussões mais profundas, de lugar não de políticos, mas de “estadistas”. O Senado foi se tornando o depósito das raposas velhas, de políticos que acumularam fortunas e controlam grupos enormes, como o caso do falecido ACM, ou mesmo de José Sarney.

Esse esvaziamento das funções do Senado (que justamente por teóricamente ter um perfil mais reflexivo, mais adensado de discussão, tem mandatos de oito anos, sem renovação total da casa a cada pleito) gera a constante dúvida: O que o Senado faz que a Câmara não faz?

Atualmente muito pouco, por conta desse esvaziamento e precarização dos quadros políticos que ocupam suas vagas.

E entre os senados da antiguidade ou da modernidade e o nosso há ainda uma diferença essencial: Neles a função era exercida sem que isso se configurasse como um “emprego”, embora desde a antiga Roma senadores utilizassem suas funções para enriquecerem ainda mais (talvez com mais elegância e menor avidez, mas o faziam, inclusive com desvio de espólios de guerra, ocupação de terras em áreas conquistadas e afins). Não sendo funcionários, não tendo acesso a “administração” imediata da cidade, da República, do Reino, não podiam se valer tanto de seus cargos para situações bizarras como o favorecimento de namorados de netas e nomeações secretas.

De qualquer forma o que vemos é que o sistema de duas casas legislativas foi pensado para ter uma baixa e outra alta, mas hoje, no Brasil, temos duas casas baixas, baixíssimas aliás. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História antiga, História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , , , ,
03/08/2009 - 07:00

Samba, suor e cerveja…

Boa parte do mundo em que vivemos é composta das idéias que temos a respéito do mundo. Não vivemos numa realidade absolutamente “objetiva”, material, palpável, mas de idéias, concepção, imagens, que foram formadas ao longo de décadas, séculos e até milênios. Na história os campos que se ocupam dessa esfera da existência são denominados “história das idéias” e “história do imaginário”, e um dos grandes baratos dessas áreas de conhecimento é descobrir que idéias que pensamos que sempre existiram ou que são “naturais” foram, em verdade, construídas.

 

É comum que “naturalizemos” um monte de coisas em nossas vidas. Umas prova disso é a recorrência de pessoas que não sabem o nome da rua detrás daquela onde mora. É claro, em geral conhece a rua, sabe chegar lá, sabe o que tem lá, mas é “tão natural” que jamais parou para “pensar” sobre ela.

Dizia um professor meu que nada mais normal de que um peixe ignorar a água.

Acontece que também no que diz respeito às chamadas “identidades” isso ocorre. Identidade é um tema que ganhou força com a formação dos estados nacionais, creceu após as “Revoluções”, quando as tais “identidades” se reorganizaram sobre a idéia de “povo” como base uma nação, e retomaram força diante do processo que tem sido chamado de “globalização”, no qual cada vez mais grupos humanos são postos frente a frente e com rapidez crescente.

A Europa, e grande parte de seus países, senão todos, passaram – e continuam – a refletir sobre sua “identidade” diante da possibilidade – ou medo – de sumirem sob o título de “europeus”. Uma das respostas a esse temor foi o recrudescimento de grupos extremistas, fundamentados na idéia de uma “pureza cultural” muito mais do que étnica. O que é ser holandês? Alemão? Francês? Croata? Russo?

Entre os europeus a idéia de “grupo” fechado, ou restrito, é muito mais comum e muito mais antiga do que a idéia de “flexibilidade” e de “plasticidade” que viscejou na maioria dos países americanos, impossibilitados por razões óbvias de sustentarem qualquer idéia de “povo” assentada em aspectos “étnicos” (e tanto a antropologia quanto a arqueologia vêm demonstrando que mesmo o conceito de “etnicidade” é menos sustentável do que parecia, em suma, rumamos em direção a conclusão científica de que não existe praticamente nenhum grupo “etnico” tal como se imaginava até então).

Entre nós, americanos, a idéia de miscigenação é um dos componentes essenciais da construção das “identidades”, excetuando-se casos específicos como certos bolsões do sul dos EUA, partes do Canadá, alguns grupos indígenas. Claro que em determinados momentos da história desses países, sobretudo em seus períodos escravistas, a definição de “identidade” esbarrava constantemente na de “cidadão” e, por consequência, na de “direitos políticos”, o que manteve inúmeras restrições a admissão da idéia de um caráter mestiço para esses povos.

De qualquer forma a “idéia de mestiçagem” como componente da formação dos povos americanos é também uma construção histórica, é um item do “imaginário”. Como imaginário possui aspectos que lhe dão base na realidade, que lastreiam, mas há – obviamente – divergências, paradoxos, incompatibilidades que são sublimadas sob a idéia mais ampla.

Samba, cerveja, carnaval, país tropical, malandragem, futebol, são itens que compõem a “identidade nacional” brasileira, que gostemos de todos eles ou não, é assim que muitos nos vêem ainda e é assim que nos mostramos para os outros durante muito tempo.

Quase todos estes elementos são criações do imaginário brasileiro no século XX. Aqueles associados as populações afro-descendentes principalmente, e pelo claro preconceito que era ainda maior do que é. O samba perseguido nos suburbios do Rio de Janeiro, ou sem expressividade absoluta em outras regiões, como na Bahia. A capoeira? Proibida, coisa de bandido, de malandro, assim como a navalha.

A cerveja? Nem bebida popular era. Só com a incorporação dos hábitos trazidos com os alemães no século XIX ela paulatinamente começou a ganhar espaço, mas teve de se adaptar ao paladar de gente que vive numa terra muito mais quente. Futebol, esporte de ingleses, comum entre os marinheiros que encostavam em nossos portos. O fato é que se um brasileiro retornasse ao Rio de Janeiro de 1910, carregando o máximo de elementos que são tidos como formadores de nossa identidade nacional, provavelmente não seria sequer reconhecido como “brasileiro”, e correndo sério risco de ser detido pela autoridade policial.

O carnaval ainda era muito mais regrado – embora os visitantes europeus desde o século XIX vissem nosso festejo como “bárbaro” ou “menos civilizado do que entre eles - e nada de samba e mulatas.

Ainda restava no começo do século um certo desconforto com o clima e as elites suspiravam pelos ares “temperados” da Europa. Ainda havia muitos intelectuais que culpavam o clima pelos nossos hábitos “desregrados”, pela “lascívia”, pelo “atraso”, pela falta de “empenho”, “preguiça”, enfim, por parte daquilo que viam como características negativas da “brasilidade”.

A virada, ou reinterpretação, desses elementos ocorreu paulatinamente a partir dos anos de 1930, com o governo de Getúlio Vargas, num processo ainda pouco estudado. A literatura que surgia – acadêmica ou ficcional – passava a valorizar aspectos que hoje temos como “comuns”, entre eles a miscigenação. As artes, a música, a arquitetura, inúmeros campos de atuação sofreram uma remodelagem para forjar um novo imaginário brasileiro, que se apropriou de diversos ítens históricos, mas que primou pela idéia de “plasticidade”, da capacidade de continuamente absorver e interpretar novos elementos, provenientes das mais diversas origens culturais.

Foi essa gigantesca operação “imaginária” que possibilitou que Carmem Miranda e Pelé se tornassem personagens que “carregam” a “identidade nacional”. Mas que, observados a miúde, possuem diversos “senões”.

De qualquer modo samba, suor e cerveja são elementos construídos de nosso imaginário nacional, não são “naturais”, nem existiram sempre tal como os vemos. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
30/07/2009 - 07:04

Onde foi parar o ouro brasileiro?

Onde foram parar as toneladas e mais toneladas de ouro que a Coroa Portuguesa extraiu das Minas Gerais ao longo do século XVIII?

 

Quando era aluno no colégio ouvi a explicação clássica para o assunto, a qual a grande maioria dos alunos ainda ouve: as minas de ouro foram descobertas durante nosso período colonial e, portanto, o ouro extraído foi parar, primeiramente, nos cofres portugueses. Portugal, por sua vez, possuía um profundo desequilíbrio comercial com a Inglaterra – a qual já manufaturava tecidos. Assim, o ouro procedente do Brasil era empregado por Portugal para compensar o desvantajoso comércio entre os dois reinos, sendo que de Portugal para a Inglaterra seguiam quase que somente produtos agrícolas ou derivados, de pouco valor agregado, como o Vinho do Porto.

Isso explicaria porque Portugal se manteve como um reino de pouca importância e majoritariamente agrícola enquanto a Inglaterra teria utilizado o ouro oriundo dessas transações comerciais para “financiar” a sua “Revolução Industrial”.

Faz sentido. É uma explicação que possui lógica e relação causal. Soluciona uma série de problemas: Onde foi para o ouro brasileiro? Porque Portugal não se industrializou? De onde vieram os recursos para a Inglaterra investir em tecnologia? Porque o ouro brasileiro ao invés de ficar em Portugal desapareceu?

Infelizmente, ou felizmente, a história sempre é mais complexa do que parece e as relações de causa e efeito não são automáticas e simples como as de bolas se chocando numa mesa de bilhar.

De alguns anos para cá historiadores britânicos tem ficado relativamente espantados ao ver que essa tese ainda é difundida entre parte dos historiadores brasileiros e em quase todo o sistema de ensino. A contestação dessa tese não é nova, direta ou indiretamente. Autores como Charles Boxer, Kenneth Maxwell e E. P. Thompson – tratando, é claro, de aspectos diversos da história de Portugal e da Inglaterra revelam quadros bastante mais complexos e que desconstróem essa relação causal simplista.

Quando as primeiras minas foram descobertas, na década de 1690, a possibilidade de uma Revolução Industrial ainda era relativamente distante, embora as movimentações no campo na Inglaterra, que levaram a liberação de mão de obra para trabalhar nas fábricas (pequenos proprietários e lavradores livres perdendo suas terras e sustento para terem de vender seu “trabalho”), já havia começado a dar sinais.

O período no qual as minas de ouro mais deram lucro foi justamente o das primeiras décadas, até meados, do século XVIII, quando a Revolução Industrial ainda engatinhava. A segunda metade do século XVIII já foi marcada pelo crescente declínio da extração aurífera, o que culminou com o ensaio de rebelião que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”.

O comércio e a transferência de riquezas, ainda mais de metais preciosos, teria de ser absolutamente veloz a ponto deles serem extraidos, transferidos para Portugal, empenhados nas trocas com a Inglaterra, e chegarem aos capitalistas e ao investimento na produção.

Mas o argumento dos ingleses nem é o da cronologia apertada, ele está assentado na própria economia inglesa e em seu comércio.

Os ingleses também possuíam deficits comerciais com algumas regiões, entre elas o extremo oriente, de onde traziam o tão famoso chá. As contas do reino, para os ingleses, fechavam quase tão negativas quanto as dos portugueses, impedindo que uma acumulação de riquezas – de ouro – restasse nas mãos dos monarcas.

Por outro lado, se seguirmos os estudos de Thompson, a respeito da formação do operariado na Inglaterra, veremos que as matrizes empregadas para alavancar a Revolução Industrial foram outras bem diversas, principalmente no aperto aos pequenos agricultores, a um menor preconceito de parte da nobreza para com os trabalhos manuais, o que lhes possibilitou atuarem como investidores, no sucesso de determinadas lavouras, na existência de redes de transporte mais eficientes e bem como de jazidas de minerais fundamentais para o processo, como o carvão mineral (sobre esse universo carvoeiro e sua importância para a indústria nascente o livro de Emile Zola, Germinal, ainda é um relato visceral e impactante).

Para os portugueses alguns elementos contribuiram negativamente para a manutenção de riquezas e sua inserção na Revolução Industrial: o primeiro ítem é a mentalidade conservadora de boa parte da nobreza portuguesa, a qual via a classe proprietária sem origens nobres com péssimos olhos. Isso afastou a nobreza, a qual possuia recursos para investir, das atividades industriais nascentes. Além do mais a nobreza protuguesa via os trabalhos manuais como degradantes ou aviltantes, nisso inclui-se as tividades dos “industriais”. Em segundo lugar a própria Coroa criou sucessivamente restrições a iniciativa, tentando manter as estruturas que haviam sustentado o sistema colonial (com controles rígidos de comercio e exclusividades). Em terceiro lugar a Coroa portuguesa era extremamente perdulária, gastando horrores para manter um grupo de ociosos. Essa nobreza cortesã (de “viver na corte”) era em boa medida sustentada com os lucros da Coroa. Gastava-se muito com luxos, pompas, circunstâncias, com produtos do Oriente, enquanto as fontes de renda despencavam (entre elas o comércio oriental, perdido há muito tempo).

O dinheiro vazava por muitos ralos e não se ocupavam de criar nenhuma nova fonte de renda (nem em ingressar na economia nascente). O grande erro da Coroa Portuguesa foi o de se aferrar a tradição mais do que seus vizinhos europeus, ainda mais frente a Inglaterra.

As tentativas de modernização do reino, como a empreendida pelo Marquês de Pombal, esbarraram ou na resistência de grupos privilegiados, na corrupção de partes do sistema, ou na insistência em retornar ou manter a antiga situação (como ocorreu com a chamada “Viradeira”, a subida ao trono de D. Maria e a queda do ministro após a morte de D. José I).

Efetivamente algum ouro brasileiro foi para na Inglaterra, mas como estes não o seguraram acabou migrando para outros bolsos. No final, o provável é que o ouro brasileiro tenha se tornado parte da massa circulante que deu fluidez ao sistema comercial entre as nações, o qual ganhava agilidade e volume a cada dia. Vale lembrar que até o final da I Guerra Mundial o padrão empregado era o “ouro”, somente depois passou a ser o dólar, ou seja, até o século XX foi o ouro a dar lastro para a emissão de moedas, procedimento parcialmente responsável na aceleração e  viabilização do capitalismo contemporâneo.

Culpar o famoso tratado dos “Panos e Vinhos” (aquele no qual Portugal vendia vinho para a Inglaterra e comprava tecidos destes) pelo escoamento da riqueza extraida do Brasil é insustentável. E haja vinho e haja pano, pois eram toneladas e toneladas de ouro extraidas todos os anos, sem contar o que saía de Goiás e Mato Grosso, além de diamantes do distrito de Serro Frio e outras pedras e metais preciosos.

O ouro brasileiro foi pesar em muitos bolsos – alguns ingleses -, mas não todo ele. A mentalidade conservadora, a estrutura social portuguesa e os gastos excessivos da Corte certamente foram mais responsáveis pelo vazamento de recursos do que um único tratado comercial.

 

PS: Texto escrito por sugestão de Carlos Alexandre Brasil.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , , , ,
Voltar ao topo