iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo da Categoria História de São Paulo

28/09/2009 - 06:51

O bairro onde nasceu o rock paulista

As cidades tem dessas coisas, uma setorização, ou um “epicentro” de certos movimentos, ofícios, atividades. É assim no Rio de Janeiro, no Recife, em Salvador, em Nova Iorque, Paris, e é em São Paulo.

Mesmo quando se trata de música a cidade tem suas “áreas” históricas, lugares que abrigaram as primeiras agitações de certos ritmos ou ondas. O Bixiga – preciso dizer? – tem sua marca gravada da história do nascimento do samba paulistano. Não só por Adoniran Barbosa, mas também pelos Demonios da Garoa, por Germano Matias, pela Vai-Vai, por Miriam Batucada, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros.  Não que o samba em São Paulo só existisse alí, mas foi naquele bairro, entre migrantes nordestinos, descendentes de italianos, populações de operários vindos de diversos lugares e com diversos tons de pele, que o samba em São Paulo tomou corpo, a ponto de merecer uma retratação do poetinha Vinícius de Moraes que – em tom de provocação – chamou a cidade de “Túmulo do Samba”.

O movimento Hip-Hop, por sua vez, não seria o mesmo sem o Largo São Bento. Um movimento tão identificado com as periferias da cidade foi tomar forma justamente no coração da urbe, do ladinho do túmulo do Cacique Tibiriçá e dos monges beneditinos. Saudosamente lembram os integrantes do movimento – como Thaide, DJ Hum, Mano Browm, Nelson Triunfo – dos encontros na São Bento (que curiosamente, este ano, durante a Virada Cultural, recebeu o “Baile Black” mais sem graça e sem identidade que já vi, enquanto os grupos de rap se apresentavam em CEUs escondidos e sem nenhuma estrutura ou apoio). Depois os bailes e atividades do movimento se espalharam pelas periferias e nos famosos bailes do Palmeiras (Barra Funda) e outros tantos pontos. Mas a identidade do Hip Hop ficou para sempre ligada a São Bento dos anos de 1980.

O rock em São Paulo ganhou uma projeção incrível no começo dos anos de 1980, com a explosão de bandas como Titãs, Ira! e Cia. Ltda. Esse movimento tomou de assalto o baixo Bixiga, na região do Café Piu Piu, Pinheiros, Augusta e outros lugares transformados em “bunker” do rock nacional.

Depois vieram os SESCs (sobretudo o Fábrica da Pompéia) e as boates, consolidando de vez o cenário rock da paulicéia, mas, mais de uma década antes, o primeiro movimento rock na cidade – digno desse nome – surgiu no bairro da Pompéia e, mais específicamente, numa única rua.

Há quem fale sobre um rock pré anos 60 no Brasil ou em São Paulo, mas seus personagens não chegavam a constituir um movimento e seu legado para a música brasileira foi muito mais pontual. De fato mesmo a coisa se deu ao longo da década de 1960.

Tempos atrás um dos representantes desse movimento – Carlini, líder da banda Tutti Fruti – numa entrevista a Clemente – represnetante d eoutro desses movimentos, o punk rock, muito ligado ao operariado da região do ABC, Moóca e Ipiranga – contava do ambiente que viveu na sua época, justamente na rua em que morava.

Rua Venâncio Ayres na Pompéi viu no prazo de meia década surgirem três lendas do rock paulista: Mutantes, Tutti Fruti e Made in Brazil.

A mais antiga delas, Mutantes, já tocava no Festival da Record onde rolou o bafão de Caetano Veloso, vaiado terrivelmente enquanto esbravejava contra a platéia (e Gil passava uma vergonha dos diabos lá atrás). Isso antes da virada da década. Depois veio a banda de Luiz Carlini, o Tutti Fruti, e por fim o Made. Todos na mesma rua e em tão pouco tempo.

Mais do que apenas uma coincidência geográfica essas três bandas imprimiram uma marca significativa tanto na musicalidade do rock nacional quanto na “forma de fazer” do rock em São Paulo. Pela primeira vez esse tipo de música feita aqui podia dizer que possuia uma “identidade”, a qual, diga-se de passagem, foi incorporada por inúmeras bandas da década seguinte, a de 1980.

Ainda hoje o bairro é ligado a esse passado e o SESC que fica alí se tornou uma referência histórica e musical do rock paulista emergente, é alí um dos lugares onde primeiro se recebem as novas bandas da cidade, e de uns anos para cá, de vários outros lugares do Brasil.

Assim a tradição se firmou, e, assim como no caso de Bixiga, embora a Pompéia não seja o único bairro onde o rock paulista tenha se desenvolvido ele se tornou uma das referências no seu registro de nascimento. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura, História de São Paulo Tags: , , , , ,
26/08/2009 - 06:52

A Independência e o bairro do Ipiranga

Quase ninguém o conhece pelo seu nome de “cartório”: Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Pelo seu “apelido”, Museu do Ipiranga, é, certamente, dos museus mais conhecidos do Brasil, talvez o mais conhecido. Implantado no topo de uma colina – a qual foi acentuada graças a uma movimentação monumental de terra, com vistas a acentuar a visão magestática do edifício – o Museu observa a pequena várzea, hoje quase toda canalizada e encoberta, do riacho que deu nome a região e que, por acidente do destino, pôs definitivamente seu nome na história do Brasil.

Quando era aluno nunca me coloquei essa questão, mas, depois, passei a me perguntar se para muitos a coisa toda – o episódio da “Independência” – não acaba sendo ensinado de um modo bastante “incompreensível”.  Para começar o que D. Pedro, o Príncipe Regente, estava fazendo naquela região com sua comitiva se a capital era no Rio de Janeiro? Como com um simples “Ato” um Príncipe consegue executar uma “Independência”?

Isso sem contar nas piadinhas que sempre correram dizendo que D. Pedro parou as margens do riacho para “aliviar” a barriga, que estava montado em um burro e não num cavalo, e daí para diante.

Em verdade a “Independência” do Brasil é um episódio numa história longa que envolve as mudanças na economia, na política, na sociedade do mundo ocidental a partir do começo do século XVIII, naquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “Era das Revoluções”. Outro historiador, brasileiro, Fernando Novais, chamou esse processo longo de “Crise do Antigo Regime”, ou seja, uma crise que envolveu as bases do capitalismo tal como vinha se desenvolvendo desde o início da Idade Moderna, com as exclusividades das Metrópoles no comércio com as suas colônias, com o poder absoluto dos monarcas, com a exclusão política dos proprietários sem nobreza (os burgueses).

Nesse vagalhão histórico foram arrastadas as monarquias de várias nações, colônias se tornaram independentes – Estados Unidos da América, Brasil, os países da América Latina -, outras monarquias tiveram de se submeter a regimes regidos por constituições (as chamadas Monarquias Constitucionais). O mundo mudou radicalmente e irreversivelmente. Mas tudo isso demorou décadas e mais décadas para se consolidar, e somente quando o processo havia se alastrado por regiões inteiras e com a abrangência envolvendo praticamente todos os setores da existência humana – a política, a economia, a sociedade, a cultura – é que parte das pessoas se deu conta de que estava vivendo uma era de transformações, uma gigantesca revolução.

Em 1821 tanto Dom João VI, rei de Portugal, quanto seu filho, D. Pedro, tinham noção de que o processo de transformações havia se espalhado e sua reversibilidade era difícil, senão improvável. Muito provavelmente o monarca e seu filho articularam formas de “perder os anéis e manter os dedos”, ou seja, aplacar ânimos, se manter na crista da onda sem ser tomado pelo vagalhão. Uma solução possível era admitir um processo de independência conduzido pelo próprio herdeiro do trono português, com o apoio ou a aliança com grupos de proprietários brasileiros que vissem isso como uma vantagem, em sintonia com seus interesses.

Provavelmente era isso que D. Pedro fazia em São Paulo no começo de setembro de 1822: articulando forças que garantissem sua manutenção no trono e resposta imediata a grupos contrários ou tropas portuguesas.

O caminho realizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo nessa época cortava os campos do Ipiranga, uma área pouco ocupada, nas proximidades da cidade. Por ali passava o famoso “Caminho do Mar”, o qual descia em direção a Santos e era a principal rota de escoamento da produção de São Paulo, bem como a principal sua porta de entrada. Antes de chegar no trecho serrano o caminho se dividia e outra rota seguia em direção a capital, o Rio de Janeiro.

Ao se afastar da cidade, voltando para o Rio de Janeiro, a comitiva do Príncipe Regente recebe a famosa carta que o teria feito proclamar a Independência. Certamente Dom Pedro, depois das confabulações com os políticos paulistas, saiu da cidade com a certeza do apoio e seguro para tomar a decisão difícil de oficializar o rompimento com a Metrópole (o que significava um problema muito mais grave para com os políticos e as elites portuguesas do que para com seu pai, afinal as posses se mantinham na família de qualquer modo).

Nem foi um ato intempestivo, nem uma “comédia” como as vezes tentam deixar parecer (como fez recentemente o jornalista Eduardo Bueno). É claro, a cena pintada muito depois, e que hoje adorna o salão principal do Museu do Ipiranga (ops…Paulista), foi constituída com o objetivo de dar uma versão grandiloquente para o momento e dentro dos princípios da pintura clássica do período. Mas, quem acredita que Napoleão realmente vivenciou as cenas tal como os quadros as representam?

Entre o final do século XIX e começo do XX os políticos paulistas decidiram tornar o Ipiranga num monumento a céu aberto, um cenário de um grande teatro histórico. Daí a construção do monumento a Independência, depois do mausoléu, do Museu, etc. Mas não parou por aí, pois outro objetivo desses políticos era associar diretamente a independência do Brasil a participação das elites paulistas nela. Por isso cercaram o coração da história, a colina do Ipiranga e o Monumento, com ruas que levam os nomes dos políticos paulistas ou que relembram valores morais caros a memória deles: rua dos Patriotas, Xavier Curado, rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois, rua do Manifesto, rua Silva Bueno, rua Auriverde.

Vale lembrar que o Sete de Setembro não foi imediatamente compreendido como a “data nacional”, até porque isso determinava a escolha de uma “forma de contar” a história da Independência (não a única). Assim, o Sete de Setembro e o bairro do Ipiranga só se tornaram relacionados a história da separação do Brasil de Portugal ao longo do século XIX e isso só se completou com a comemoração do Centenário da Independência, em 1922.

E, de fato, a movimentação de terra na colina do Ipiranga, a canalização do córrego, a construção das ruas, mudaram tanto o cenário original que hoje é muito pouco provável saber exatamente onde os eventos ocorreram. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
08/07/2009 - 09:14

1932, a “Revolução” dos “Sem Munição”

Há uns dois anos cuidávamos de uma escavação na divisa entre os estados do Paraná e de São Paulo, às margens do rio Paranapanema, próximo já do Vale do Ribeira.

 

Depois de alguns dias de trabalho me comunicaram que haviam encontrado dentro de nossa área de pesquisa alguns monturos de terra espalhados e em linha e alguns poucos cartuchos de bala, os quais, segundo a memória local, seriam dos combates da Revolução Constitucionalista de 1932 (não vou tratar aqui se foi ou não uma “revolução”, um “levante”, uma “revolta” ou uma “rebelião”, já fiz isso em outra postagem mais antiga).

O fato é que a quantidade de cartuchos deflagrados encontrada na área era bem pequena, insuficiente para que se configurasse um “campo de batalha”. Então me solicitaram para que procedesse uma pesquisa ligeira a respeito dessa “materialidade bélica” da Revolução de 1932, a fim de que pudessemos entender melhor aqueles materiais encontrados em campo durante as escavações.

Quando o movimento começou a elite política paulista havia se apressado a dizer que o estado tinha condições plenas de sustentar uma guerra contra as tropas federais, coisa na qual boa parte da população acreditou. Depois, quando o conflito já estava em andamento o discurso mudou para o da necessidade do sacrifício, com doações de ouro para compra de equipamentos, trabalho voluntário em fábricas e hospitais, mobilização civil para as tropas.

Internamente os políticos paulista foram alertados a respeito da precariedade dos estoques de matéria prima fundamentais para a indústria bélica: ferro, alumínio, cobre, etc. Além disso foram comunicados da impossibilidade de dar conta da produção – em termos de capacidade instalada – para sustentar o fogo em várias frentes, mesmo que houvesse matéria prima suficiente.

Os militares do front não sabiam disso até terem seus suprimentos cortados de modo inesperado.

Políticos paulistas foram enviados aos EUA para tentar comprar material bélico, mas o governo federal se adiantou e quando chegaram lá havia um embargo estabelecido e o dinheiro não podia adquirir absolutamente nada.

Nos demais aspectos a precariedade era similar: uniformes faltando partes, sem qualquer padronização, material médico restrito, linhas de comunicação deficientes, ausência de alimentação.

Surgiu então o “mito da improvisação”, o qual tentava ludibriar a respeito da causa perdida, muitos pensaram que uso de “matracas de madeira” poderiam barrar balas de verdade.

Em algumas frentes de batalha, como na do Vale do Paraíba, o assunto virou gozação. Ouviam-se gritos vindos das trincheiras adversárias: “Ô paulista, não esculacha com a guerra, pare de jogar pedras.”

O fato é que realmente as tropas tinham pouco mais do que isso para atirar. Em geral, na maioria dos fronts, não havia sequer dez disparos por arma disponível. A grande maioria dos fuzis, os que foram distribuídos aos voluntários, eram obsoletos e recomtavam o final do século XIX.

Quando os oficiais dos fronts perceberam – após pedidos desesperados – que jamais receberiam munição ou armas novas parte começou a pensar em recuar ou se render, o que evitou em várias circunstâncias combates mais violentos e prolongados. Esse foi o caso do Vale do Ribeira.

Diante da precariedade os oficiais optaram por não insistir em uma resistência inútil e se dividiram entre a rendição e o recuo.

Por isso na nossa área de escavação haviam tão poucos cartuchos deflagrados para justificar um campo de batalha, embora os monturos de terra denunciassem a construção de inúmeras trincheiras e ninhos de metralhadora, as quais, boa parte, ficou sem qualquer função.

Por fim, parte da capacidade instalada de São Paulo para a produção de material bélico foi bombardeada ou tomada por tropas federais, o que acelerou a derrocada da Revolução.

No fim, por mais que a memória tenha consagrado versões alternativas, a realidade é que, para os paulistas, a Revolução de 32 foi efetivamente uma “Revolução dos Sem Munição”, o que explica o rápido colapso de suas tropas e seu governo na ocasião.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil Tags: , , , , ,
05/07/2009 - 07:24

5 de julho de 1924, o início da “Revolução Esquecida”

No dia 5 de julho de 1924 comemorava-se o segundo aniversário do episódio conhecido como “18 do Forte”, quando jovens oficiais do exército, ao final de uma rebelião no Forte de Copacabana, marcharam contra as tropas legalistas que os cercavam quase num sacrifício público. Em verdade nem todos eram militares, mas o evento – que passou a  ser conhecido pela tal nome – tornou-se um marco no chamado “movimento tenentista”, uma tentativa de reformar a nação e modernizá-la através da intervenção de jovens militares ilustrados oriundos das camadas médias da população.

 

Apesar de desbaratado o levante ele se tornou um referencial aos tenentistas e, no 5 de julho de 1924, foi a vez de militares da cidade de São Paulo se rebelarem. Os revoltosos, liderados por homens como Joaquim e Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Campos e João Cabanas, tomaram postos fundamentais na cidade e exigiram a entrega do cargo de governador do estado por Carlos de Campos.

Diante da recusa deste, bombardearam o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo na época. Mas nem Campos renunciou nem os rebeldes conseguiram manter sua posição. Tropas federais passaram a bombardear São Paulo e a nascente aviação brasileira colaborou, espalhando terror por bairros operários como a Moóca.

Diante da situação os rebelados fugiram para o interior do estado, se estabelecendo em Bauru.

Aproximadamente um mês após o início do movimento, os revoltosos – após sofrerem uma terrível derrota ao atacarem a cidade de Três Lagoas no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) – fugiram para o Rio Grande do Sul, onde incorporaram Luiz Carlos Prestes e seus homens, dando origem a famosa “Coluna Prestes”, um dos mais longos movimentos de guerrilha da história brasileira.

O desejo dos rebeldes de 1924 era fundado nas propostas de 1922: modernização do Brasil, reformas eleitorais, investimento em ensino e outras medidas que visavam colocar o Brasil menos distante das nações ditas “civilizadas”. Na realidade tanto o movimento tenentista como outras manifestações daquele começo de anos 20 – como o movimento Modernista – eram fundamentados num desejo de “modernização”, o que implicava em alguma medida no rompimento com o passado brasileiro. Esse rompimento era visto de modos diversos, indo desde a recusa quase que completa até a idéia de “antropofagia”. A movimentação política possuía um forte caráter estético tanto quanto a arte possuía um forte caráter político. Uma movimentação concentrada na classe média – ainda mais restrita naquela época -, um desejo de criar uma sociedade “projetada”, “teorizada” em boa medida.

Os governos oligarquicos significavam para esses homens “modernistas” um entrave difícil de ser ultrapassado de modo legal, democrático, inclusive pelo fato de todo o Estado Brasileiro ser organizado a partir de regras construídas por eles próprios. Daí a recorrência ao uso das armas, refletindo também uma visão romântida da “revolução” que imperava desde a disseminação – parcial – dos bastidores da Revolução Francesa de 1789.

Apesar da Revolução de 1924 ter sido “esquecida” – tanto que carrega ainda esse apelido – ela teve um papel importante na configuração da movimentação política na década de 1920 e teve desdobramentos durante muitos anos.

Mas um aspecto é particularmente curioso: mesmo sendo o conflito que mais atingiu a cidade de São Paulo em sua história, mesmo sendo a única situação na qual a cidade foi bombardeada (nem em 1842, na Revolução Liberal, nem em 1932, na Revolução Constitucionalista a cidade chegou a ser bombardeada), ela foi “esquecida”. Porque?

Como se pode esquecer desse movimento mesmo com bairros como Perdizes e Moóca sendo bombardeados?

Penso que existem vários motivos: o primeiro deles é justamente a formação social do movimento, com pouca adesão das camadas populares, diferentemente de 1932, quando houve uma mobilização popular significativa no estado de São Paulo. Em segundo lugar pelo fato de revelar um passado político que não interessava a muitos “ex-revoltosos”, membros do governo desde que Getúlio Vargas assumiu a nação após a Revolução de 1930. Talvez, também, por ter sido realmente um episódio traumático para a cidade.

O fato é que ocorreu uma concorrência de fatores, uma “engenharia da memória” que levou 1924 a se tornar a Revolução “Esquecida”, apesar de sua importância, exemplo que ilustra de modo bastante singular o quanto o passado – intermediado pela memória – pode ser “modelado” e o quanto é “escorregadio”. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , ,
02/07/2009 - 07:16

“Nova Luz” é golpe na cidade de São Paulo

Em breve começará um dos mais escancarados golpes envolvendo o poder público e grupos inescrupulosos (para não dizer mais do que isso) do setor imobiliário em São Paulo. Esse golpe vem disfarçado, vem com embalagem para presente e cheio de pirotecnias envolvendo a “revitalização” do bairro da Luz, ou da Cracolândia como conhecemos mais claramente.

 

Já escrevi aqui em algumas outras ocasiões, mas vou repetir: o modelo de “requalificação”, “reurbanização” ou seja lá como desejem chamar, do bairro da Luz é elitista, voltado para a criação de um conjunto de monumentos para o usufruto de uma parcela irrisória da população paulista, não reintegra a região à cidade, não propõe usos cotidianos para a mesma, exclui e acentua a marginalização da população local e incentiva a saída daqueles que já estão lá de modo organizado e produtivo, como comerciantes e alguns moradores remanescentes. Em suma, é um fracasso em termos de política de gestão do patrimônio cultural, de reurbanização, de gestão pública.

É claro, se você deseja uma cidade cenográfica, mantida a custos astronômicos pelo poder público e dedicada a menos de 10% da população, ok, este é o seu modelo. Não é o que eu, particularmente, acredito.

Depois das obras da Pinacoteca, da Sala São Paulo, da Estação Pinacoteca, da Estação da Luz e do Museu da Língua Portuguesa, agora prefeitura e governo do estado promovem novo avanço no processo de espoliação da cidade através das iniciativas da chamada “Nova Luz” e do “Palácio da Dança”.

Antes que alguém pense algo equivocado vou ser direto: acho que temos sim que ter cada um desses bens na cidade, o estado deve sim investir em música erudita, artes plásticas, dança, etc, etc. Não sou contra a participação da iniciativa privada. Mas tudo tem que ter um “como” e um “porque”.

O fato é que depois de milhões e milhões de reais em investimento a região continua sendo um bolsão de miséria e degradação humana, ampliado graças ao efeito “sinuca”. O primeiro choque promovido pelo estado nos usuários de drogas e traficantes da região não só não extinguiu o problema como o espalhou pelas ruas do entorno, aumentando a área da Cracolândia. As obras executadas na região – como os museus e salas de espetáculo – não promoveram uma reocupação do bairro, mas somente um uso exclusivista dos muros para dentro. Do lado de dentro da Sala São Paulo você tem taças de champagne, os melhores músicos do mundo, e janelas com vedação para que o “público” não veja o que há do lado de fora. Evita que o pivete cole seu rosto na vidraça ou que afronte a “moral e os bons costumes” que imperam do lado de dentro. Ao final de cada espetáculo a audiência desce ao subsolo e pega seus carros, indo embora sem ter tido qualquer forma de interação com o bairro. A Sala São Paulo, tal como foi pensada e como opera, poderia ser até em Marte que nenhuma diferença faria.

Em doses maiores ou menores a mesma situação se repete com cada uma das demais obras que custaram as burras aos cofres públicos. Menos mal o Museu da Língua que é fantástico e foi bancado em parte significativa pela iniciativa privada, além de atender ao público escolar.

O projeto “Nova Luz” deveria ter o complemento: “velha especulação imobiliária”.

De novo não tem nada, o oportunismo e a prevaricação do poder público são tão velhos quanto o próprio estado.

O projeto simplesmente transfere à iniciativa privada o direito de exploração de um enorme quadrilátero privilegiadíssimo, incluindo o direito a desapropriação de imóveis. Quando este bloco urbano estiver “requalificado” ou “revitalizado” ele terá, nada mais, nada menos, do que duas estações de metrô de linhas distintas (azul e amarela), duas linhas de trem, dezenas de linhas de ônibus, acesso fácil à marginal Tietê e a avenida do Estado, a vizinhança da Sala São Paulo, da Pinacoteca, do Museu da Língua e do futuro Palácio da Dança. Estará a dez minutos de metrô da avenida Paulista, cinco de São Bento ou da Liberdade, vinte da USP e da Faria Lima, e quinze do Mackenzie, da Vila Madalena ou da Oscar Freire. Quase nada não é?

Mas a prefeitura está trantando o assunto como “uma questão social”, de “inclusão”, de “revitalização”. Nomes outros para pura especulação imobiliária e para o assalto dos contribuintes paulistas e paulistanos.

E a que preço para a iniciativa privada que fará essa “grande caridade” para a cidade de São Paulo? Quase nada, pois comprará os direitos de “revitalização” da Cracolândia, a região mais mal afamada da cidade. Ou seja, o poder público estará passando a região que mais atraiu investimentos estatais em cultura e transporte para a iniciativa privada pelo preço de um “bolsão de miséria, violência e dependência química”. Ouro a preço de lixo.

Mas isso tudo tem passado sem qualquer maior rumor da sociedade ou da mídia. Tudo em nome da cultura, das artes e da recuperação da Cracolândia.

Os comerciantes do bairro estão parcialmente divididos: quem está fora da zona delimitada está mais otimista, quem está dentro teme que sejam” desapropriados” em nome da revitalização. O mais terrível é que a prefeitura alega que ela “fiscalizará” e “determinará” os rumos da região, isso mais me assusta do que tranquiliza. Afinal os interesses das pessoas se misturam na confusão e na prevaricação do poder público com a iniciativa privada. Em nenhum momento a sociedade civil foi chamada a opinar ou a questionar o processo ou os méritos dele.

O governo do estado de São Paulo entrará com sua parcela, construíndo o Palácio da Dança, em frente a Sala São Paulo, investindo outras tantas dezenas de milhões.

Enquanto isso varrerão os “indesejáveis” para alguma periferia, ou outro recanto do centro. Se vierem moradores para a Luz serão de altíssimo padrão, e não da enorme parcela que luta para que seja dada uma destinação social aos imóveis trancados e emparedados há décadas.

A massa de ”indesejáveis” irá servir novamente aos interesses da especulação imobiliária, pois irão colaborar para formar a má fama de alguma outra região, a qual poderá ser igualmente loteada a iniciativa privada em prol da “recuperação urbana”. E utilizarão a Luz como “exemplo” de boa solução, de “sucesso”, assim como Puerto Madero na Argentina.

Com tudo isso nem a  cidade ganhará nada, nem o patrimônio cultural será valorizado, nem haverá inclusão social, nem o término do tráfico e do consumo de crack. Quem já tem muito terá ainda mais, quem não tem continuará não tendo, ou terá ainda menos, pois se trata de desvio do bem público, e a cidade continuará com suas áreas degradadas, por incompetência, por descaso ou por puro maquiavelismo diabólico de gente voraz por dinheiro sujo.

Não é isso que chamo de “revitalização”. Revitalização significa trazer novamente a vida, não decretar definitivamente a morte de uma região.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História de São Paulo, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , , , ,
10/06/2009 - 06:57

“A USP é nossa!!!”… É?

Nas cenas transmitidas pelas câmeras de televisão dos conflitos na Universidade de São Paulo na tarde de ontem dava para ver nitidamente uma faixa vermelha escrito: “A USP é nossa!”

 

Devo dizer logo de início: não sei quem mandou escrever aquela faixa, nem quem a segurava, mas certamente estão equivocados. A USP não é deles não. A Universidade de São Paulo, criada em 1934, laica, pública, aberta, é da sociedade paulista, coordenada pelo estado, paga com nossos impostos, destinada aos interesses dessa mesma sociedade. A USP não é desses que seguravam a faixa não.

Estou na USP desde 1999, concluí meu bacharelado, agora o mestrado, fui bolsista, estagiário de museu, e sempre me orgulhei não somente de ser da USP como trabalhar para fazer a USP “valer a pena”, dar sua resposta a sociedade que a mantém. Sei muito bem o que significa estar lá, inclusive pelo fato de meus pais virem de famílias que não deram a eles a mesma chance. Por isso me senti envergonhado hoje ao ver a Universidade servir de campo de batalha entre a polícia e estudantes (estudantes?).

Ano passado eu saia de uma aula de pós-graduação, durante a greve na qual invadiram a reitoria, e havia uma barricada no corredor do prédio. Ao me aproximar uma aluna de segundo ano, uma criança (mal educada, é claro) me barrou: Você não pode descer por aqui.

Ah é? Não posso? Porque?

Estamos em greve e o prédio está interditado!

Olha minha filha, eu sou um aluno da universidade pública. Este é um prédio público, da universidade pública. Este espaço é mantido com impostos que eu e milhões de pessoas pagam. E não vai ser você a dizer que eu não vou poder transitar livremente aqui.

Ela teve um lampejo de inteligência e saiu da frente.

Hoje penso exatamente a mesma coisa que há um ano.

Agora o que me incomoda nisso tudo é a constatação de como as coisas perderam as referências que tínhamos até pouco tempo. Boa parte das pessoas não sabe, mas até alguns anos a polícia militar não entrava no Campus da USP. Essa medida retomava os eventos de 1968, durante o regime militar, quando no antigo prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, localizado na rua Maria Antonia, no bairro de Higienópolis, alunos e professores entraram em conflito com a polícia e integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que se atocaiaram no prédio da Univeridade Mackenzie do outro lado da rua. O saldo do conflito foi um morto, muitos presos e machucados e o prédio da USP incendiado.

Depois disso os cursos foram transferidos para a Cidade Universitária, no Butantã, e feito um acordo em respeito a essa memória, no qual a polícia não entraria novamente no campus da USP.

Durante 40 anos o acordo foi cumprido, mesmo em situações absurdas. Hoje o pacto histórico acabou, debaixo de uma situação de perplexidade, pois quem estava ali defendendo a liberdade das pessoas pensarem como quiserem e agirem de acordo com suas consciências era a polícia e não os alunos.

 Infelizmente a população toma a Universidade pela sua minoria absoluta. Somos em dezenas de milhares de alunos, professores, funcionários, e ali não havia nem mil deles. A USP é uma universidade que pesquisa, desenvolve trabalhos importantes para a sociedade brasileira, que vão de medicamentos a concreto, de equações a produtos reciclados. Infelizmente, por ser tão livre, o movimento estudantil e o sindicato dos funcionários acabaram sendo tomados por grupos de partidos que usam a USP para criar situações constrangedoras para todos.

As reinvindicações dos funcionários são compreensíveis, questões salariais, etc., mas os alunos que estão alí ou são manipuladores a serviço partidário ou são massa de manobra. Não há qualquer questão atualmente que realmente mobilize os alunos da USP contra sua reitoria. Mas há uma certa responsabilidade de todos nós, pois ficando calados permitimos que esse grupo insignificante, mas barulhento e empenhado, se faça presente.

Mas, o pior de tudo, é que essa relação de omissão de muitos e ação de poucos, que em geral desagrada, é uma tônica geral da nossa sociedade, na qual houve um esvaziamento do espaço público e um desencanto com a política. É a mesma situação do Congresso, formado por muitos políticos incapazes ou corruptos, mas eleitos democraticamente pela sociedade. Eleitos justamente porque opções melhores simplesmente desistiram da vida pública. A USP está assim, mas também as outras universidades públicas.

De qualquer modo senti vergonha por ver a memória da Universidade de São Paulo ser jogada na lama por gente que em nada comunga com os ideais que norteiam a instituição desde sua criação. Senti vergonha por ver a memória de pessoas que lutaram pela democracia naquela universidade, como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Emilia Viotti da Costa, ser jogada no lixo ou misturada com as ações de gente equivocada.

Outro paradoxo dessa situação é que justamente aqueles que dizem defender ideais democráticos ou libertários adotam posturas fascistas, como bloqueio de ruas, corredores, intimidação, provocação, quebras de acordos, recusa ao diálogo.

No final, espero apenas que a sociedade continue se lembrando que a USP lhe pertence, que ela não “é” de ninguém senão da sociedade.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História de São Paulo Tags: , , ,
06/06/2009 - 07:09

Os antigos caminhos de São Paulo e os congestionamentos de hoje

A cada ano a cidade de São Paulo acumula recordes de congestionamentos. Lembro de que até alguns anos congestionamentos de 60 ou 80 Km eram tidos como “monstruosos”, agora estamos nos aproximando dos 200 Km. Uma série de fatores sempre é lembrada como causa do nosso “infarto urbano”: excesso de carros de passeio, caminhões que cruzam a cidade para irem de um lado para o outro do país, sistema de transportes públicos precário, vias mal conservadas, falta de educação, desrespeito às leis de trânsito, etc, etc.

 

Sem descartar nenhuma dessas causas eu acrescentaria outras duas, de ordem histórica, e que continuam sendo precariamente combatidas pelos poderes públicos. Anos atrás, quando comecei a estudar a evolução urbana da cidade de São Paulo, por conta dos trabalhos em arqueologia, fiquei impressionado com duas conclusões.

A cidade de São Paulo se desenvolveu desde seus primórdios como área de entrocamento, de encruzilhada, de rotas que ligavam diversas regiões da colônia. Do extremo sul vinham as rotas que traziam animais de carga, sobretudo mulas, e carne seca das “charqueadas”, as quais seguiam para Minas Gerais e Goiás. Para isso passavam na área de São Paulo. Depois essas rotas passaram a abastecer também o Vale do Paraíba (região de Guaratinguetá, São José dos Campos, Taubaté) e o Rio de Janeiro.

Também vinham rotas da região de Goiás e do Mato Grosso em direção ao sul ou ao porto de Santos, sempre passando por São Paulo. De Santos, por sua vez, subiam vários produtos, entre eles sal e ferramentas e chegavam através do Caminho do Mar, o qual literalmente entrava na cidade pela região do Ipiranga.

Parte significativa desses caminhos surgidos nos séculos XVI, XVII, XVIII derivavam de antigos caminhos indígenas que eram empregados tanto para trocas comerciais entre os povos originais das Américas quanto para guerras. O próprio Caminho do Mar era em sua origem um caminho indígena. Os jesuítas e colonos quando aqui se estabeleceram se apropriaram do conhecimento dos povos indígenas e, pode-se dizer, que apenas assim conseguiram sobreviver no planalto paulista.

Do centro da ocupação da região, do “quartel general”, a vila de São Paulo de Piratininga, saiam caminhos que ligavam aos assentamentos e aldeamentos jesuiticos que se espalhavam no entorno, como em Pinheiros, Cotia, Itapecerica, Embu. Assim surgiram os caminhos tradicionais da região: o caminho dos Pinheiros, a estrada para Goiás, o caminho do Norte, o caminho do Mar.

Os indígenas, ao escolherem esses traçados, muito tempo antes dos portugueses chegarem, haviam empregado todo seu conhecimento da topografia da região, optando pelas melhores opções de trânsito, considerando que o núcleo original de São Paulo está assentado sobre uma elevação entre dois pequenos vales, o do Anhangabaú e o do Tamanduateí. Em suas “costas” há o espigão onde se localiza a avenida Paulista, exatamente em sua “espinha dorsal”.

Ocorre que esses caminhos eram tão funcionais, tão perfeitamente escolhidos para quem transitava a pé ou a cavalo, que os séculos foram passando, a cidade crescendo, a população aumentando, os transportes mudando, e os itinerários se mantendo. Os antigos caminhos foram mantidos, como pequenas alterações.

O caminho que ia para Pinheiros virou a Consolação-Rebouças, o que ia para os assentamentos jesuíticos virou parcialmente a rodovia Raposo Tavares. Para outra banda da cidade, sobre o antigo caminho do Guaré, surgiu a avenida Tiradentes. Para o Norte surgiu sobre o caminho antigo a Rangel Pestana e no lugar do Caminho do Mar temos a Anchieta. Apesar de todas as modernizações dessas vias – alargamentos, duplicações – nada foi capaz de vencer a obviedade de que os caminhos antigos atendiam a antigas necessidades. Eram ótimos para quem vivia como os paulistas do século XVIII. Hoje viraram problemas.

A segunda constatação é de que, assim como há séculos, as rotas de pessoas e de comércio continuam passando pela cidade, aliás, somente se intensificaram. As mercadorias produzidas nas mais diversas regiões do Brasil continuam cruzando a cidade para chegar até o porto de Santos e tanto as estradas (Imigrantes e Anchieta) quanto a estrada de ferro estão entupidas quase tanto quanto as vias principais da cidade de São Paulo. Ou seja, não conseguimos nesse período de tempo nem imaginar formas melhores de escoar nossas produção, de fazê-la cruzar o país, nem conseguimos repensar a dinâmica de deslocamento das populações dentro da cidade e na região do entorno.

Isso foi ainda mais agravado com a “conurbação” como diriam meus amigos geógrafos, a junção de áreas urbanas de cidades distintas pelo crescimento da ocupação. Ou seja, virou tudo uma gigantesca malha de bairros que se sucedem sem que consigamos perceber claramente quando termina uma cidade e começa outra. Ligando essas regiões ainda estão os antigos caminhos de São Paulo.

Efetivamente a grande idéia em termos de deslocamento é a fuga das áreas centrais, o contorno, coisa que era desnecessária e impensável para quem andava a pé ou de cavalo, mas que para veículos automotores, que ficam horas presos em congestionamento, vale a pena. Por isso o Rodo-anel significa não apenas uma solução técnica, mas uma revolução na mentalidade de deslocamento no planalto paulista. É claro que se tívessemos investido em planejamento urbano isso teria sido começado a ser implantado há décadas. Infelizmente não foi assim.

Agora resta rezar (e cobrar) para que a fuga dos antigos caminhos fique pronta o mais rápido possível – o que parece estar difícil de ocorrer. Mesmo assim, apenas um dos problemas estará resolvido. O do trânsito interno da cidade exige ainda outra revolução mental e estrutural: estrutural para que tenhamos opções de transporte, mental para que os paulistas passem a deixar em casa uma das coisas que mais amam em suas vidas, seus carros.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Política ambiental Tags: , , , , , , , , , , , , ,
14/04/2009 - 07:00

Cracolândia: revitalização estética sem inclusão social

 

A bucólica cena do Jardim da Luz no final do século XIX é um exemplo do quão imprevisível é o futuro e de quanto podemos piorar as condições humanas, sobretudo nas grandes cidades.

 

Nos últimos dias uma série de reportagens vêm explicitando a sociedade o que o cidadão que trãnsita pela região da Luz já sabe há muito: os midiáticos projetos de revitalização do bairro, a extinção da Cracolândia, a humanização da região não passaram de promessas eleitoreiras e investimentos estatais e privados pesados feitos para conceder acesso à cultura àqueles que já a tem, e muito.

A região da Luz até o século XVIII era conhecida como Guaré e, em verdade, pouco mais era do que um imenso campo, com manchas de bosques nos quais a população paulistana ainda ia caçar. Quando participei das escavações ao lado da Estação da Luz, em 2006, no local onde esta sendo construída a estação Luz da Linha 4 – Amarela do Metrô, encontramos em um depósito de dejetos, no meio de potes de sal da Holanda e de aguardente, provavelmente do século XIX, espinhos de porco do mato junto com ossos de boi, o que indica que nessa época a alimentação do paulistano ainda era completada com caça. Caça obtida, muito provavelmente, nos campos do Guaré.

A Luz manteve seu aspecto “rural” durante muito tempo, inclusive esse foi um dos motivos que levaram à construção do Jardim da Luz, aproveitando os bons ares da região. A ocupação dessa área começou a mudar quando no século XVIII Frei Galvão obteve autorização do governador de São Paulo, Dom Luis de Souza Botelho Mourão, para abrir um convento ali.

Apesar da proibição na época pela Coroa portuguesa de abertura de novas casas religiosas – por influência direta do Marquês de Pombal, o anti-clerical ministro todo poderoso de Dom José I – Frei Galvão obteve a autorização e começou a construção do convento, parte do qual se encontra ainda lá hoje (local onde encontraram as freiras mumificadas no início do ano passado).

Com a construção do convento – dedicado a Nossa Senhora da Luz – a região passou a ser conhecida pelo nome que carrega até hoje. No final do século XVIII outro governador de São Paulo criou ali um local para feiras livres, as quais ficaram conhecidas como “Feira de Pilatos” (apelido do governador), o que também animou a região.

O caminho que ligava o centro da cidade – região do Mosteiro de São Bento – a Luz era conhecido como Caminho do Guaré, hoje o conjunto das ruas Florêncio de Abreu, Brigadeiro Tobias e avenida Tiradentes.

Quando a São Paulo Railway decidiu construir ali sua estação terminal na capital, em meados do século XIX (por conta de ser a área mais plana possível e, por conseguinte, com economia de energia pelas locomotivas), parte do Jardim da Luz foi cortado. Contudo, com o afluxo de viajantes vindos do porto de Santos, muitos precisando de hospedagem, o entorno da estação se transformou em uma área hoteleira e também de parada de coches que levavam as pessoas até o centro da cidade.

O bairro começou a se expandir e abrigar casarões e pequenas chácaras. Esse perfil do bairro se manteve com ligeiras alterações (como o desaparecimento das chácaras) até meados do século XX. Fábricas chegaram, cinemas, boates, restaurantes, bares. Mas foi na segunda metade do século XX que a Luz iniciou seu purgatório.

A região se despovoou diante da perda de qualidade de vida, também se desindustrializou. A famosa “maloca” cantada por Adoniran Barbosa em “Saudosa maloca” era um casarão localizado na região, que na época já tinha se tornado uma área abandonada e invadida por sem tetos.

Os cinemas de rua fecharam um a um e a prostituição chegou, principalmente na rua Aurora. Depois veio o restante: jogo, assaltos, tráfico, mendicância, afastando dia a dia ainda mais a população da região.

Nos anos de 1990 a região passou a  ser a “capital” paulista do consumo do crack, droga que se caracteriza pelo baixo preço, pela rápida dependência e pela igualmente rápida morte do usuário. É o lixo do lixo das drogas químicas. E por ser barata acessível à população miserável das ruas do centro. A situação ficou tão caótica e violenta que as ruas perto da Estação Julio Prestes – dos Andradas e entorno – ficaram conhecidas como Cracolândia.

Diante do vexame público os governos Estadual e Municipal decidiram agir e anunciaram sucessivos planos de revitalização da região, usando como modelo as revitalizações de áreas degradadas nos Estados Unidos (a região portuária de Nova Iorque, por exemplo) e na Espanha.

Já nessa época urbanistas mais conscienciosos alertavam aos administradores públicos do risco desses modelos de revitalização, pois eles tendiam a “espetacularização” e “monumentalização” das áreas, sem qualquer processo de inclusão social.

O efeito sobre a população marginal é conhecido como “efeito bilhar”. Para quem conhece um pouco do jogo basta lembrar o que ocorre com as bolas no início da partida: elas estão agrupadas em triãngulo numa extremidade da mesa. O jogador que inicia a partida “estoura” a aglomeração com uma forte pancada da bola branca. O que acontece com as bolas?

Com as populações marginais, nesse modelo de revitalização, ocorre o mesmo. Você dá uma forte “pancada” na aglomeração, mas sem qualquer processo de assimilação os indivíduos tendem a se espalhar e ampliar a área problemática.

O governo do estado, sobretudo, investiu fábulas na construção da Sala São Paulo, Pinacoteca, Estação da Luz, Estação Pinacoteca, mas sem promover qualquer interação desses “monumentos” com seu entorno. As pessoas que visitam esses lugares chegam em ônibus fretados, carros particulares ou de metrô. Entram por passagens subterrãneas ou exclusivas, saem de uma portaria do metrô e entram na do museu e em nada interagem com o ambiente externo.

Boa parte das pessoas acha lindo, parabeniza o governo pela iniciativa, pelas lindas exposições e espetáculos, mas quando as luzes do palco se apagam, e a polícia que estava ali para garantir a segurança dos visitantes vai embora, uma população que se escondeu durante o dia nas frestas dos predios decadentes, nos becos da região, tomam as ruas com sua rotina de vício, violência e marcha para a auto-destruição.

O poder público finge que não os vê, ou talvez não veja mesmo.

Isso é chamado de “revitalização”, mas a cidade continua doente, apenas uma parcela da população parece acreditar que os problemas foram sanados. E, a bem da verdade, o governo gasta mais com a OSESP num único mês do que gastou até hoje para recuperar a população que é tocada para os bueiros quando a polícia chega, e que é mantida longe das vistas dos frequentadores de concertos de musica erudita.

Antes que alguém me interprete mal: adoro a OSESP e acho um gasto importante, mas não pode ser o único, e não será ele, da forma que tem sido feito, que acabará com a Cracolândia.

Depois do prefeito de São Paulo ter anunciado o fim da Cracolândia ela agora decidiu se impor – pois não é possível escondê-la para sempre. Hoje ela é três ou quatro vezes maior do que era, por conta do efeito bilhar.

E a região da Luz, apesar dos investimentos milionários, parece permanecer muito longe ainda de voltar ao seu aspecto acolhedor que teve até o início do século XX.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura, História de São Paulo, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , ,
22/03/2009 - 18:41

A 25 de Março antes do “Aiaiai titiaaaaa…”

Rua 25 de Março depois da canalização

Rua 25 de Março em 1910

Houve um tempo, num passado distante, onde as pessoas podiam passear tranquilamente pelas proximidades do rio Tamanduatei sem que seus ouvidos fossem destruidos por implacáveis vendedores de apitos “Aiaiai Titiaaaaaa…” e “Cóóóóó´cócócócócócóóóó…”, tempo no qual os paulistanos eram felizes e não sabiam.

 

Se o inferno existir tenho certeza absoluta que lá encontraremos milhares de vendedores dos apitos que infestam as esquinas da rua 25 de Março e seus arredores. Imagino que o próprio Demo deva ter um desses. E isso agravado, é claro, pelas centenas de milhares de pessoas que transitam ali trombando umas com as outras cheias de sacolas, camelôs com barracas e plasticos especialmente preparados para escapar aos “rapas” da Guarda Civil Municipal, contingentes dessa guarda que ficam zanzando de lá para cá levando olé dos camelôs, trombadinhas, trombadões, correlatos, vendedores da milagrosa “Banha do Peixe Boi da Amazônia”, sempre acompanhada da inesquecível e salutar “Banha do Peixe Elétrico”.

Enquanto isso incríveis “Carriolas Elétricas” (o correlato da 25 de Março dos Trios Elétricos) divulgam suas mercadorias, CDs da “Gravaciones Originales Ltda.” dos últimos sucessos das rádios, como Village People, Locomia, Peter Cetera, Anita Ward, KC and Sunshine Band e afins.

Depois de curtir a novidade de Miami Sound Machine num deles, você pode atravessar a rua e entrar na igreja ortodoxa síria-libanesa de Nossa Senhora e acender uma vela pedindo a proteção, para que possa chegar vivo até a Ladeira Porto Geral sem ser jogado para trás por algum carregador que desce da rua Florêncio de Abreu levando um saco de mangueiras.

Enfim, o Paraíso das Compras, uma experiência sensorial e social inesquecível que atrai todos os dias uma multidão de fãs. Um sucesso absoluto há décadas.

Mas, esse perfil da rua mais “Pós Moderna” do Brasil e, quiçá, do Mundo, só foi possível depois de uma longa história, na qual a rua foi se moldando paulatinamente, ou anexando, talvez, novas características e “funções”, até descambar nesse universo quase caótico (o quase é apenas retórico) de hoje.

Até 1849 o local onde está implantada a Rua 25 de Março era uma terrível várzea do Tamanduateí, que naquela região era conhecida como “Sete Voltas” dadas as curvas que o rio fazia (típico de rios de planalto, os quais são dados a enchentes períodicas).

Neste ano foi realizada a “retificação do rio” (gostaria de saber como é que se “corrige” algo que é natural) e aterradas as várzeas. Com isso o sopé do morro onde está o centro da cidade de São Paulo pode ser utilizado na expansão da área urbana. Foi ai que se abriu a primeira rua, chamada “De baixo” sintomaticamente. Mais acima estava o Caminho do Guaré, ou da Luz, a atual Florêncio de Abreu.

A Ladeira Porto Geral já estava por ali, e seu nome era justamente porque, antes da retificação do leito do Tamanduateí ela dava realmente num porto fluvial que atendia a cidade, trazendo e levando mercadorias.

Em 1865 a municipalidade decidiu alterar os nomes das ruas, tirando o aspecto “pitoresco” que algumas delas tinham. Até então ainda existiam na cidade as ruas da Freira, da Cruz Preta, do Jogo de Bola, a ladeira do Acu, rua de Baixo, beco do Inferno e dai por diante.

Nessa mudança a rua De baixo passou a ser denominada 25 de Março em homenagem ao dia da promulgação da Constituição do Império do Brasil promulgada por D. Pedro I em 1824), mesmo motivo pelo qual a ladeira do lado da Porto Geral foi denominada “Da Constituição”.

Anos depois foi determinada a construção de uma praça com mercado, a qual concentrou o comércio de gêneros que, até então, era realizado na rua das Casinhas, ao lado do Pátio do Colégio.

Com o histórico do antigo portinho do Tamanduateí e com o novo mercado a 25 de Março foi se consolidando como área de comércio popular. Mas não era somente isso que havia ali. Também existiam oficinas de carruagens e carroças, uma escola alemã e entreposto de tropeiros que chegavam do interior com suas mulas carregadas de mercadorias.

No começo do século XX, com a  chegada das sucessivas levas de imigrantes, estabeleceram-se na região os sírios e libaneses com suas lojas de tecidos. Gostaram tanto da região e foram tão bem sucedidos que as novas ruas passaram a receber nomes de personagens ilustres da comunidade sírio-libanesa. Os palacetes que foram sendo erigidos na região também foram obra dos “turcos” (que a comunidade não me veja dizendo isso, mas é como ficaram conhecidos em todo o Brasil), com direito até mesmo a uma simpática igrejinha ortodoxa encrustrada no meio de um quarteirão.

Também nas primeiras décadas do século XX encomendou-se ao famoso engenheiro/arquiteto Ramos de Azevedo o projeto de um novo mercado municipal, o Mercadão da rua da Cantareira.

Nas décadas seguintes a comunidade sírio-libanesa teve de abrir espaço para coreanos, peruanos, bolivianos que também começaram a se estabelecer por ali. Mas, como cada uma dessas comunidades se especializou num certo tipo de mercadoria, parece que aprenderam a viver com alguma harmonia. Os sírio e libaneses no comércio de tecidos, cortinas, tapetes, os coreanos com eletro-eletrônicos e os peruanos e bolivianos com artigos para bijuterias e objetos típicos de seus países, como ponchos, quenas, “artesanias”.

Mas a 25 de Março pode ser muito enganadora. Para a grande maioria a 25 é sinônimo de comércio barato, produtos falsificados, contrabando. Também é, mas não somente. Alí você encontra objetos de prata legítimos, cristais da Bohemia, Swarowski, objetos de luxo, tecidos ricos. E, tanto quanto a população das periferias e de outras regiões do Brasil que vêm para fazer suas compras também a classe média e média-alta vai para a 25 buscar “baxinxas”.

Mesmo no Mercadão Municipal os preços praticados não são os mais baratos, os demais mercados municipais (Lapa, Pinheiros, Ipiranga) são bem mais em conta, mas quem vai ao da Cantareira está atrás de algo mais do que simplesmente economia e produtos diferenciados. Está a busca de uma experiência sensorial, social e histórica. Quer comer algo com “identidade”.

Mas, se não quiser pagar tanto, basta ir a algum dos vários empórios árabes da região e se fartar com acepipes do oriente a preços innclivelmente módicos. Esfihas de zathar, quibes de nozes, pães folha, tâmaras secas, abacaxis caramelados, pistaches, halew, charutos, berinjelas em conserva, água de laranjeira, licor de romãs, arak, doces folhados, pasteis de nata com mel… Tudo por poucos reais, sempre fresquinhos para atender a comunidade.

Por isso não acho que seja a avenida Paulista a rua mais “paulista” de São Paulo, mas a 25 de Março, muito mais plural, mais caótica, suja e limpa, rica e pobre, barata e cara, com um mundaréu de gente falando as línguas e sotaques mais improváveis, e impossível de ser amada a primeira vista.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Migrações Tags: , , , , , , , ,
24/01/2009 - 14:20

O antigo Anhangabaú

Aproveitando o aniversário de São Paulo neste domingo achei bacana lembrar um pouco da cidade nos seus primeiros tempos.

 

Ontem eu passava pela região do Mercado Municipal da Cantareira e ia para a Sé quando comecei a pensar como seria para um antepassado nosso andar pela antiga vila de São Paulo.

Por incrível que pareça o arruamento da “Cidade Velha”, o centro velho, era muito semelhante ao que temos ainda hoje, com pequenas alteraçõs. A Rua Boa Vista, por exemplo, que hoje liga o Largo de São Bento ao Páteo do Colégio pouco mais de cem anos, bem como a grande ladeira que passa por debaixo do viaduto que está ao lado do Páteo era a antiga Rua das Casinhas, área de comércio de gêneros da cidade durante séculos.

Algumas ruas da região da Sé desapareceram por conta da ampliação da praça e da construção da nova catedral, nisso também a antiga igreja da Sé foi demolida (ondehoje se encontra a estátua de Anchieta) e a Igreja de São Pedro dos Clérigos foi posta abaixo e hoje, sobre o seu antigo lugar, se encontra o prédio da caixa Econômica Federal.

O antigo Convento de Santa Teresa, que ficava em frente a Igreja do Carmo também desapareceu e abriu-se a praça Clóvis Bevilácqua (uma continuação, em verdade, da Praça da Sé). No miolo da Sé desapareceram duas ou três ruas e o Largo da Câmara (ou da Cadeia) foi transformado em rua, onde hoje é a Praça João Mendes, atrás da Sé.

Uma ou outra mudança no traçado. Diferentemente da ocupação dos quarteirões, os quais quase nada preservaram da arquitetura construída até meados do século XIX, a grande maioria dos edifícios que se vê no centro velho de São Paulo foi construída a partir do final do século XIX e muito mais no começo do XX, momento que determinou a destruição de inúmeros prédios centenários naquela área, como a antiga Igreja dos Remédios (onde hoje está o Tribunal de Justiça, na Praça João Mendes).

Mas penso que nenhuma área foi tão transformada quanto o velho Anhangabaú.

Essa região, antiga conhecida dos grupos indígenas que moravam no planalto paulista, levava o nome de “terra do espírito ruim” ou “maligno” (o conceito de Diabo, muitas vezes usado nas traduções de “anhanga” é absolutamente equivocado, pois na religião tradicional Tupi não existe essa figura tal como no cristianismo, o equívoco se deve aos jesuítas que tinham de traduzir par eles o conceito de “demônio”, e o mais próximo que havia era ”anhanga”).

O nome se devia ao fato da região ser cortada por um córrego que formava um pequeno vale (que hoje ainda se mantem, de um lado havendo o centro velho e do outro a região da Praça da República). Esse vale, estremamente alagadiço era fonte de recorrentes epidemias e infestações de mosquitos, o que levava os indígenas a tomarem-no como uma região bem ruim.

De modo geral aldeias indígenas, bem como sítios arqueológicos, raramente estão muito próximos dos cursos d’água, exatamente por serem fonte de doenças. A água tem que estar perto o suficiente para abastecer a vida humana e longe adequadamente para evitar que ponha a mesma vida em risco.

O Anhangabaú era assim. Durante muito tempo a cidade se manteve quase toda apenas de um lado dele, do lado de São Francisco e São Bento, e para atravessá-lo era necessário descer uma barranca (onde hoje estão os viadutos do Chá e Santa Efigênia), passar por pequenas pontes no fundo do vale, e subir a barranca do lado contrário, onde hoje estão a Estação Anhangabaú do Metrô ou perto do prédio dos Correios. Uma trabalheira.

Contudo, com o passar dos séculos a ocupação urbana foi se aproximando do fundo do vale e abrindo novas ruas, como a Rua Nova de São José, hoje conhecida como Líbero Badaró (que liga os largos do Patriarca ao de São Bento). No século XIX se abriu algumas lavouras de chá na região, pertentencentes ao coronel Arouche de Toledo Rendon (a quem pertencia boa parte das terras onde hoje está a República, daí “Largo do Arouche”). Por conta de suas plantações de chá apelidou-se o novo viaduto de “Chá”.

Com o avanço da cidade o antigo córrego se tornava cada vez mais incômodo e exigindo ou que a cidade o respeitasse ou que o alterasse profundamente. Como foi a tônica de nossa cultura atropelou-se o córrego, canalizando-o e criando o imenso boulevard. Com isso foi possível criar os imensos jardins do Teatro Municipal, os quais descem da Praça Ramos de Azevedo (o projetista do teatro) e se espraia em direção ao boulevard.

Para facilitar o trânsito entre as duas bandas da cidade (o centro velho e a chamada “cidade nova”) passou-se a utilizar os dois viadutos.

Nesse processo de “urbanização” do vale derrubaram-se também antigos casarões, como o da Baronesa de Tatuí, o qual ficava ao lado do atual viaduto do Chá.

Para nós é impressionante, e quase impossível imaginar, hoje, um vale extremamente verde, com córrego, barro, e duas pequenas pontes atravessando-o. Mais difícil ainda é tentar imaginar o que passava na cabeça de um pequeno comerciante, tendo de atravessar o lamaçal com sua mula, carregada de produtos e cansado da jornada, e ainda ser obrigado – pela Câmara da Cidade – a estacionar antes de entrar na cidade, para “lavar os pés” e não sujá-la ainda mais.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil Tags: , , ,
Voltar ao topo