Arquivo da Categoria História da Música
28/09/2009 - 06:51
As cidades tem dessas coisas, uma setorização, ou um “epicentro” de certos movimentos, ofícios, atividades. É assim no Rio de Janeiro, no Recife, em Salvador, em Nova Iorque, Paris, e é em São Paulo.
Mesmo quando se trata de música a cidade tem suas “áreas” históricas, lugares que abrigaram as primeiras agitações de certos ritmos ou ondas. O Bixiga – preciso dizer? – tem sua marca gravada da história do nascimento do samba paulistano. Não só por Adoniran Barbosa, mas também pelos Demonios da Garoa, por Germano Matias, pela Vai-Vai, por Miriam Batucada, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros. Não que o samba em São Paulo só existisse alí, mas foi naquele bairro, entre migrantes nordestinos, descendentes de italianos, populações de operários vindos de diversos lugares e com diversos tons de pele, que o samba em São Paulo tomou corpo, a ponto de merecer uma retratação do poetinha Vinícius de Moraes que – em tom de provocação – chamou a cidade de “Túmulo do Samba”.
O movimento Hip-Hop, por sua vez, não seria o mesmo sem o Largo São Bento. Um movimento tão identificado com as periferias da cidade foi tomar forma justamente no coração da urbe, do ladinho do túmulo do Cacique Tibiriçá e dos monges beneditinos. Saudosamente lembram os integrantes do movimento – como Thaide, DJ Hum, Mano Browm, Nelson Triunfo – dos encontros na São Bento (que curiosamente, este ano, durante a Virada Cultural, recebeu o “Baile Black” mais sem graça e sem identidade que já vi, enquanto os grupos de rap se apresentavam em CEUs escondidos e sem nenhuma estrutura ou apoio). Depois os bailes e atividades do movimento se espalharam pelas periferias e nos famosos bailes do Palmeiras (Barra Funda) e outros tantos pontos. Mas a identidade do Hip Hop ficou para sempre ligada a São Bento dos anos de 1980.
O rock em São Paulo ganhou uma projeção incrível no começo dos anos de 1980, com a explosão de bandas como Titãs, Ira! e Cia. Ltda. Esse movimento tomou de assalto o baixo Bixiga, na região do Café Piu Piu, Pinheiros, Augusta e outros lugares transformados em “bunker” do rock nacional.
Depois vieram os SESCs (sobretudo o Fábrica da Pompéia) e as boates, consolidando de vez o cenário rock da paulicéia, mas, mais de uma década antes, o primeiro movimento rock na cidade – digno desse nome – surgiu no bairro da Pompéia e, mais específicamente, numa única rua.
Há quem fale sobre um rock pré anos 60 no Brasil ou em São Paulo, mas seus personagens não chegavam a constituir um movimento e seu legado para a música brasileira foi muito mais pontual. De fato mesmo a coisa se deu ao longo da década de 1960.
Tempos atrás um dos representantes desse movimento – Carlini, líder da banda Tutti Fruti – numa entrevista a Clemente – represnetante d eoutro desses movimentos, o punk rock, muito ligado ao operariado da região do ABC, Moóca e Ipiranga – contava do ambiente que viveu na sua época, justamente na rua em que morava.
Rua Venâncio Ayres na Pompéi viu no prazo de meia década surgirem três lendas do rock paulista: Mutantes, Tutti Fruti e Made in Brazil.
A mais antiga delas, Mutantes, já tocava no Festival da Record onde rolou o bafão de Caetano Veloso, vaiado terrivelmente enquanto esbravejava contra a platéia (e Gil passava uma vergonha dos diabos lá atrás). Isso antes da virada da década. Depois veio a banda de Luiz Carlini, o Tutti Fruti, e por fim o Made. Todos na mesma rua e em tão pouco tempo.
Mais do que apenas uma coincidência geográfica essas três bandas imprimiram uma marca significativa tanto na musicalidade do rock nacional quanto na “forma de fazer” do rock em São Paulo. Pela primeira vez esse tipo de música feita aqui podia dizer que possuia uma “identidade”, a qual, diga-se de passagem, foi incorporada por inúmeras bandas da década seguinte, a de 1980.
Ainda hoje o bairro é ligado a esse passado e o SESC que fica alí se tornou uma referência histórica e musical do rock paulista emergente, é alí um dos lugares onde primeiro se recebem as novas bandas da cidade, e de uns anos para cá, de vários outros lugares do Brasil.
Assim a tradição se firmou, e, assim como no caso de Bixiga, embora a Pompéia não seja o único bairro onde o rock paulista tenha se desenvolvido ele se tornou uma das referências no seu registro de nascimento.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura, História de São Paulo
Tags: Made in Brazil, Mutantes, Pompéia, Rock, São Paulo, Tutti-Fruti
28/06/2009 - 07:00
Lembram da história de “Pedro e o lobo”? É uma fábula muito antiga que meu avô contava para mim: a história de um menino que vivia gritando “olha o lobo” e sempre era mentira. Mas, certo dia, o lobo era verdadeiro, e ninguém acreditou. Quando entrei na net e um amigo me disse que Michael Jackson havia morrido ocorreu exatamente a mesma coisa. Só acreditei quando vi a notícia confirmada pela BBC de Londres, pela Reuters, pelo NY Times.
Acho que além de tanta boataria que cercou a vida de Michael Jackson pesou também o fato de que certas figuras pensamos que são imortais. Quando o Papa João Paulo II morreu eu estava numa escavação do centro do Mato Grosso e ouvi a notícia pelo rádio do carro, e mesmo tendo acompanhado as notícias de sua agonia demorou um tempo para a ficha cair. No caso de Michael foi um pouco mais demorado.
Isso não tem nada a ver com “admiração” ou algo do tipo, embora ele tenha sido uma referência da minha geração. Michael havia se tornado uma instituição apesar de toda decadência que viveu na última década. Se aquilo que chamamos de cultura “pop” tivesse um rosto certamente seria o de Michael Jackson (qual deles, aliás?).
Quando outros ídolos morreram a comoção foi igualmente profunda: Elvis, John Lennon, Carlos Gardel, Rodolfo Valentino, Francisco Alves, Marilyn Monroe, Elis Regina.
A morte trágica e prematura sempre provoca uma sensação de “coisa interrompida”, “história inconclusa”, mas a de Michael compôs – por mais absurdo e triste que isso seja – sua trajetória de modo absolutamente coerente.
Fiquei tentando entender porque a morte dele é um fato singular, diverso de outros ídolos tão amados e admirados quanto.
Michael Jackson sempre é lembrado como o artísta que revolucionou o show bizz. O video clip era uma coisa antes e foi outra depois de Thriller: até então os clips eram pouco mais do que os cantores ou as bandas tocando uma música. Thriller era um “blitzkrieg” cinema, uma história relâmpago com ares impactantes como um ataque. Uma história entrecortada, cheia de subentendidos que davam velocidade a narrativa, capaz de resumir uma história de duas horas em poucos minutos. Essa linguagem de videoclip tornou-se a grande referência de linguagem de toda a geração que veio a partir de então, foi o precursor da velocidade de navegação da internet, do hipertexto, dos games. Se ficasse somente nisso Michael já seria digno de ser lembrado, mas há mais.
Sua trajetória pessoal encarnou como nenhuma outra a tensão do mundo contemporâneo: menino negro, forçado pelo pai a jornadas intermináveis de ensaios, shows e gravações que lhe roubaram a infância. O sucesso financeiro cobrou dele parte de sua saúde física e mental. A chamada “Síndrome de Peter Pan”, que se disseminou em toda uma geração, teve nele o maior de seus expoentes.
Quantos – em medidas menos agressivas – vivem a mesma situação? Comprando brinquedos de criança aos quarenta anos, se recusando a envelhecer, procurando se relacionar com pessoas profundamente mais jovens, fugindo de compromissos sociais – com exceção do trabalho – que lhe atrelem a uma vida “adulta”.
O sucesso pessoal associado a uma profunda tristeza íntima, à uma tensão para que todos os dias continuasse a ser o “ídolo surpreendente”, demanda de um mercado cultural agressivo, devorador.
Poderíamos pensar: mas os Beatles sofreram algo semelhante, ou mesmo Elvis.
Mas Elvis não viveu esse mercado cultural plenamente configurado, suas crises pessoais eram de outra ordem. O que minou a unidade dos Beatles, por sua vez, foram as divergências por dinheiro e por estilo, depois, é claro, que já tinham fortuna suficiente para não fazerem nada pelo resto de suas vidas. E embora alguns deles tenham vindo de famílias pobres ou desestruturadas – Elvis e John Lennon – eram brancos e “se tornaram” ídolos, não foram transformados em “mercadorias culturais” a força como no caso de Michael.
Ninguém é capaz de calcular o que essa conjunção de fatores deve ter provocado na cabeça de uma criança (e que continuou, em boa medida, a se comportar assim até o fim).
Michael Jackson viveu até as últimas consequências o que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”, uma sociedade na qual ”parecer” é mais importante do que “ser” ou do que “ter”. Ele viveu para “parecer”, e teve dificuldades para “ser” e para “ter”. E não estou falando exclusivamente de questões materiais (embora até estas tenhas sido comprometidas no final). Sua morte foi absolutamente envolvida pela dimensão “espetacular” de nossas vidas: em tempo real, ao vivo, sem que ninguém conseguisse definir exatamente onde terminava a encenação e começava a realidade, até onde ia o “show”. Muitos, como eu, pensaram que era apenas mais um golpe de publicidade, sinal do quanto perdemos parte de nossa capacidade de definir as fronteiras entre o real e o imaginário. E a realidade somente se revela nas questões mais cruas, mais irrevogáveis, como a morte.
No palco também foi Michael a promover uma ruptura. Apesar de bandas de rock virem desde os anos de 1960 inovando em seus shows, foi o antigo menino do “Jackson 5″ que elevou a milhonésima potência o conceito de “show”. Depois dele tudo que estivesse no palco e não somasse música, luz, dança, representação, efeitos especiais passou a ser considerado um espetáculo de música, não mais um “show”.
E sem falar, é claro, na incorporação que fez de inúmeros traços da cultura negra estadunidense, sobretudo da black music da Motowm e do nascente hip-hop, como a inconfundível batida, o baixo proeminente, o balanço, os passos de break, o estilo “black is beautiful”. Enfim, se o rock foi o “embranquecimento” da música negra para que se tornasse comercialmente palatável ao público branco, a música de Michael meteu o pé na porta e se tornou um fenômeno mundial, popular entre os herdeiros do trono inglês, os presidiários de Formosa, entre os executivos japoneses (doentes por ele) ou entre as socialites brasileiras.
Lí nestes dias incontáveis textos de críticos rançosos insistindo no fato que nos últimos quinze anos Michael Jackson não havia feito nada a não ser se meter em escândalos. O fato é que se tivesse morrido no dia seguinte ao lançamento de Thriller já teria merecido o título de “artísta que simbolizou o pop”, mas depois disso ainda produziu coisas revolucionárias (como as tecnologias empregadas no clip de Black or White).
E não devemos esquecer que “pop” é a abreviação de “popular”, e ninguém jamais o foi – e dificilmente será – na dimensão que Michael Jackson foi.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura
Tags: Michael Jackson, Pop, Thriller
14/03/2009 - 15:20
Há umas duas semanas fui com alguns amigos assistir no auditório do Ibirapuera a apresentação da Orquestra Típica Fernandez Fierro, com abertura do Arbolito.
A Orquestra encontra-se no movimento de ressurgimento do tango em Buenos Aires, interpretado visceralmente por jovens músicos. A Fernandez Fierro está justamente nesse ambiente. Jovens músicos que muito bem poderiam estar tocando rock, reggae ou qualquer outro ritmo menos “tradicional”, mas tocam tango, com “atitude” como definiu um crítico musical na turnê do ano passado.
A orquestra possui seu “bunker” no bairro tangueiro de Abasto, em Buenos Aires, no que passaram a chamar de “CAFF”, o Clube Atlético Fernandez Fierro, onde quase toda semana ocorrem apresentações do que há de melhor da música argentina contemporânea (lugar que eu faria acompanhar do La Peña del Colorado, em Palermo). Uma vez por semana a Orquestra Típica também se apresenta no CAFF.
Mas até chegar lá se apresentavam aos domingos na feira de San Telmo, como se apresentam tantas outras “orquestras típicas” (como a El Afronte), para vender discos e ganhar unos trocaditos a más.
O grupo que antecedeu a Orquestra no Ibirapuera, o Arbolito (nome emprestado de um antigo e mítico lider indígena dos pampas argentinos), encontra-se num outro movimento da música argentina e latino-americana.
O Arbolito é um tributário contemporâneo de Violeta Parra, Victor Jara, Inti Illimani, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Raices de América, Tarancón, Liliana Herrero e tantos outros. É uma mistura dos inúmeros ritmos tradicionais da América do Sul – as chacareras, milongas, guaranias, sikureadas, carnavalitos – com pitadas de rock, reggae, ska, como já haviam feitos os grupos brasileiros Raices de América e Tarancón.
E sempre com grandes doses de engajamento político e social.
Devo reconhecer que fiquei pensando: Esse tipo de música fez bastante sucesso nos anos de 1960, 1970, quando a América Latina estava afundada na escuridão de toda sorte de ditadura e nas mãos de fascistas da pior espécie (alguns dos quais ainda tentam se livrar de processos por violação dos direitos humanos). Mas, ainda terá essa música lugar nos dias de hoje?
Parte da fama desses músicos nasceu das sinas que cumpriram nas mãos dos regimes ditatoriais. O Inti Illimani fazia turnê na Itália quando ocorreu o golpe de estado no Chile, que culminou na morte de Salvador Allende. Não puderam sequer voltar para casa. Assim como os hebreus o Inti viveu décadas “no deserto”, esperandoa volta para casa. Mercedes Sosa igualmente teve de se refugiar diante da barbárie dos militares argentinos. Victor Jara, que não teve a mesma sorte, morreu na mão de covardes.
No Brasil a perseguição a músicos foi mais sensível no caso de Geraldo Vandré, mas nenhum chegou a ser assassinado. Caetano e Gil foram exilados, Chico teve de “dar um tempo”. Mas, no final dos anos de 1970, com a distenção do regime ditatorial no Brasil o cenário musical pode mudar e houve um renascimento do interesse pela música latina.
Quando Milton Nascimento lançou “Clube da Esquina 2″ inseriu algumas músicas latinas, como uma composição do cubano Pablo Milanés e Casamiento de Negros de Violeta Parra. Chico Buarque, que havia participado da gravação se fez parceiro de Milanés e fez a versão para o português de Yolanda do cubano.
Com essa aproximação com os músicos cubanos também passou a ser gravado Silvio Rodrigues, violonista da ilha, genial, que teve diversas canções suas gravadas por Milton e Sosa, como Sueño con serpientes. Aproveitando a aproximação Sosa também gravou em espanhol Maria, Maria e sua “herdeira”, Liliana Herrero, gravou mais recentemente Romaria de Renato Teixeira.
Elis Regina, no seu inesquecível “Falso Brilhante”, de 1976, gravou Gracias a la vida de Violeta Parra (um hino da música latino-americana) e Los Hermanos de Atahualpa Yupanqui, outro marco.
Lembrando dessas referências todas abandonei a idéia de que esse tipo de música havia “perdido o bonde da história”, porque, em verdade, isso se tornou um substrato da música latino-americana, que transcende os grupos de bolivianos tocando Yesterday com zampoñas (ou quenas, como seria o nome correto) na Praça da República.
E essa troca e intensa criatividade da música latina faz com que aqui ainda seja um gigantesco celeiro de ritmos e canções, que representam a grande renovação musical do mundo.
Basta lembrar que o tango é uma derivação da milonga, que é uma derivação do candombe uruguaio, que é uma criação nas Américas de um ritmo de matriz africana. Ou que os ritmos do altiplano ganharam nova dimensão quando receberam o toque acelerado do charango, um instrumento de cordas criado na improvisão e imitação das guitarras de origem ibérica.
E, no Brasil, nossa música se fez utilizando toda sorte de referência musical africana, indígena e européia. E mesmo sendo oriundos de tradições diferentes as alfaias de maracatu, tocadas na zona da mata pernambucana, conseguem dialogar perfeitamente com os bombos legueros dos pampas.
O fato é que em nenhuma outra região do planeta se criaram tantos ritmos em tão pouco tempo quanto nas Américas. O rock, o blues, o jazz, a rumba, o tango, o mambo, a salsa, o forró, o xote, o samba, o rasqueado, o carimbó, a milonga, as chacareras, etc, etc. E cada um desses ritmos com infinitas variações, como o samba canção, o samba de roda, o semba, o tambor de crioula, o samba de umbigada, a bossa nova, o pagode.
E a dedicação dos jovens cabeludos porteños ao tango – como na Fernandez Fierro – ou às chacareras – como o Arbolito – é prenamente compreensível, pois esses ritmos, originários de referências ancestrais, estão no subconsciente musical dos latino-americanos, e são a eles que retornamos recorrentemente.
E para quem não conhece recomendo que urgentemente vá ouvir algo a respeito desses musicos dos quais tratei, e será realmente mais feliz…
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História da Música, História da cultura
Tags: Fernandez Fierro, Mercedes Sosa, Milton Nascimento, musica brasileira, Musica latino-americana, Política
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