iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo da Categoria História da Literatura

12/08/2009 - 07:00

Canudos: milenarismo, miséria e arqueologia no sertão

Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.

 

Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.

Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.

Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.

A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.

Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.

Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.

Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.

Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.

As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.

Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.

O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).

A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.

Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.

Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.

Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.

Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , , , , ,
20/06/2009 - 07:00

“Tesouros-Bibliotecas”

Muito se falou nos últimos anos, com a difusão das tecnologias digitais, do fim do “livro impresso”. As infinitas possibilidades que o universo digital proporciona funcionaram como um lampejo, um estalo, que para alguns foi a epifania, o sinal da revolução do texto. Mas os livros estão aí, e já passaram por inúmeras “revoluções” e várias vezes se decretou seu fim, sem que isso jamais tivesse ocorrido.

 

Uma prova cabal, e fantástica, disso são as “Bibliotecas-Tesouro”. Coleções de valor inestimável que reunem textos escritos em épocas diversas, em suportes diversos, além de manuscritos, pergaminhos e outros tipos de materiais. Através dos acervos dessas bibliotecas é possível se acompanhar a história da escrita até bem próximo de seu surgimento. Se somarmos, então, as coleções de alguns museus pelo mundo (que guardam, por exemplo, as famosas tabuletas de argila com escrita cuneiforme, pois era feita com varetas em “cunha”) então teremos algo bem próximo do todo.

No Brasil temos algumas dessas bibliotecas, as quais possuem obras mais antigas do que nosso próprio país. Dentre elas destaco duas, das quais gosto particularmente: a Biblioteca Nacional e a Brasiliana da USP (sobre a qual comentei na postagem anterior).

Nossa Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, tem uma história digna de livro de suspense. Em meados do século XVIII a cidade de Lisboa sofreu um terrível terremoto que a devastou. Entre milhares de mortos e de prédios destruidos encontrava-se também a biblioteca dos reis de Portugal. Parte significativa de seu acervo foi perdida no trágico acidente. Na reconstrução da cidade e de seus prédios, que foi feita dentro de um grande plano de reforma, a monarquia decidiu reerguer a biblioteca e dotá-la de um acervo tão impressionante quanto o que fora perdido, como símbolo da sobrevivência e da superação portuguesa.

Em 1808, quando a família real portuguesa deixou Portugal e transferiu a sede da monarquia para o Rio de Janeiro a biblioteca veio junto, ou melhor, parte dela. A outra parte foi esquecida no meio da correria em caixotes no porto. Esse restante somente viria anos depois para se reintegrar ao conjunto.

Remontada ela ganhou nova casa no Rio de Janeiro e quando Dom João VI retornou a Portugal ela acabou ficando com o Príncipe Regente Dom Pedro. Mas, daí vai que este declarou a independência do Brasil e a biblioteca foi ficando, ficando, depois a perda foi indenizada a Portugal e ela se tornou o gérmen de nossa Biblioteca Nacional, da qual vai o “sítio” de internet: http://www.bn.br/portal/

Nela há tesouros fantásticos e certamente é uma das bibliotecas mais importantes do mundo.

A Brasiliana da USP se formou a partir da criação do Instituto de Estudos Brasileiros (o IEB) por Sérgio Buarque de Holanda e a qual foi anexando acervos particulares como os de Mário de Andrade, Guimarães Rosa entre outros. Incorporou-se também a Coleção Lamego, formada por textos medievais. Recentemente o IEB recebeu a guarda da Biblioteca Guita e José Mindlin (de 40.000 volumes raros) a qual se uniu parcialmente a já existente na instituição, das duas surge a Brasiliana, outra digna do título de “patrimônio cultural”, os recursos digitais (que somam esforços, não acabam com os livros) possibilitam a consulta em qualquer parte do mundo: www.brasiliana.usp.br

Pelo mundo a fora existem outras ainda mais incríveis, como a famosa Biblioteca do Vaticano. Além de suas coleções raríssimas que incluem não só textos cristãos, mas de muitos outros credos e povos, a aura de mistério garante sua fama. A existência de arquivos secretos desperta há muito a curiosidade e as especulações de curiosos e pesquisadores. Em verdade boa parte desses “arquivos secretos” é composta por textos que se chocavam com a doutrina católica e que foram mantidos distantes do público durante os períodos de controle da igreja sobre o trânsito de informações através da leitura. Muitos deles já não são mais “secretos”, mas há os que ainda são, e poucos sabem efetivamente tudo o que há lá dentro. A biblioteca, como se pode imaginar, foi formada por séculos e séculos de aquisições, o que lhe garante o título de biblioteca mais importante do mundo ocidental. Para quem quiser dar uma olhadinha (inclusive nos “secretos”) ai está o endereço:  http://www.vaticanlibrary.va/

Na França há a Biblioteca Nacional, também oriunda de acervos do período real –  http://www.bnf.fr/ -. Suas origens remontam o século XIV, no reinado de Carlos V, o Sábio, o qual mandou instalar o início da coleção no Louvre. Sua coleção contava com 917 manuscrutos, que, infelizmente se dispersaram. A biblioteca foi recuperada a partir de 1461 e é dessa que nasce a atual.

Um dos desafios das “bibliotecas nacionais”, como a da França e a do Brasil, é o crescimento de seu acervo, pois recebem um exemplar de cada livro publicado em seus respectivos paises. Ou seja, um crescimento exponencial.

O mesmo ocorre com outras duas bibliotecas fantásticas: a Britânica e a Alemã.

A britânica - http://www.bl.uk/ - e a Alemã – http://www.d-nb.de/eng/index.htm - também possuem acervos incríveis, dedicados em grande parte aos textos de suas respectivas línguas.

Uma biblioteca que merece menção, embora não seja uma biblioteca de “raros”, é a Alexandrina, tentativa contemporânea de restaurar a antiga Biblioteca de Alexandria, mítica e incendiada durante a invasão árabe em meados do primeiro milênio da Era Cristã. Seu endereço é -  http://www.bibalex.org/English/index.aspx - especial atenção para sua arquitetura arrojada e para a audaciosa missão de reunir o conhecimento universal.

Por fim, a não menos famosa Biblioteca do Congresso dos EUA:  http://www.loc.gov/index.html

Criada em 1800 pelo presidente John Adams a Biblioteca do Congresso cresceu graças aquisição de coleções de diversas partes, entre elas as de alguns brasileiros. Com sua austeridade com cara de estadosunidense do período da Independência, seu acervo é impecável, e rígido no uso.

Em qualquer um dos casos, e poderíamos incluir ainda as bibliotecas budistas, as dos islâmicos, ou a do Japão, a conclusão é a mesma: os livros ainda são o símbolo maior de uma “cultura literária”, estabelecido há mais de 2000 anos, são também o suporte de texto mais estável que conhecemos além das pedras, por isso duram e graças a sua raridade e beleza tornaram-se verdadeiros tesouros que povoam nosso imaginário. E certamente não será a cultura digital que diminuirá nosso interesse por eles.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , , ,
17/06/2009 - 07:00

Nem tudo na USP é crise e pancadaria

Em tempos de crise universitária, de choque no Campus, de pseudo-alunos reinvindicando sabe-se lá o quê, é difícil convencer a sociedade de que a USP é um espaço sério, importante e que justifica – e muito – o alto investimento realizado pelo Estado nela. Mas, para o bem de todos – pois é a sociedade que ganha – há lampejos de lucidez e fatos que nos lembram porquê aquilo – a universidade – é um patrimônio, uma vitória da sociedade brasileira conquistada há décadas e que deve ser melhorada, ampliada, aperfeiçoada, apoiada, não jogada no lixo por meia dúzia de pessoas que nada contribui para a instituição ou para a própria sociedade.

 

Ontem a tarde ocorreu no auditório do Masp – o Museu de Arte Moderna de São paulo – o lançamento da etapa digital da “Biblioteca Brasiliana da USP” a qual une o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros – uma das unidades da USP – com a Biblioteca Guita e José Mindlin. O acervo do IEB/USP por si só já é um patrimônio nacional de valor inestimável: nele se encontram as bibliotecas e coleções pertencentes a Mário de Andrade, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Ernani da Silva Bruno entre tantos outros. É um tesouro que pertence a sociedade brasileira.

A Biblioteca Mindlin, por sua vez, não fica atrás: reune aproximadamente 40.000 volumes, todos raros, lindos, inestimáveis, impecáveis, reunidos pelo bibliófilo José Mindlin e sua esposa Guita ao longo de 80 anos. Mindlin, ele próprio um uspiano de primeira hora, foi aluno da Direito São Francisco nos primeiros anos de incorporação a USP, e Guita (falecida ainda nos anos de 1990) decidiram em concordância com seus filhos – eles também uspianos – ceder este inestimável patrimônio à sociedade brasileira, entendendo que esta era a melhor e mais justa destinação de acervo tão impressionante. Um ato, diga-se de passagem, de uma generosidade, de uma grandeza incomum entre o empresariado brasileiro – que via de regra, e diferentemente dos EUA, pouco ou nada contribuiu com nossas universidades. Esta coleção, que agora estabelece a biblioteca universitária mais importante do Brasil e uma das mais importantes do mundo, recebeu o nome de “Brasiliana”, e está a espera da conclusão do prédio que irá recebê-la no próximo ano.

Mas, tanto a Biblioteca Guita e José Mindlin quanto o acervo do IEB exigiam uma coisa, para possibilitar o acesso aos livros, que nem todos tem: poder se deslocar pessoalmente até o acervo.

Agora, com um moderníssimo sistema de digitalização esse acervo está pouco a pouco sendo franqueado a qualquer ser humano, de qualquer parte do globo, sem qualquer exigência, desde que ele possua um ponto de acesso a internet. Na Brasiliana Digital – projeto de invejar nossos amigos franceses e “gringos” – o viajante virtual pode ler os livros com a cara que eles tem, na ordem emq ue foram escritos, com os erros, correções, cores, falhas. Pode ver as imagens, copiá-las, se apropriar de partes do texto, copiar o livro todo e re-imprimí-lo em sua casa. Só falta o inconfundível odor dos livros. E o mais importante: livre, livre, absolutamente livre.

Pode parecer inexplicável minha ênfase na condição “franca” do acervo digital, mas há menos de dois anos, quando solicitei cópias digitais de pranchas de livros da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo a “dona do acervo” que me atendeu disse que isso não era permitido, pois tal difusão de informações teria colaborado para os ladrões que furtaram o acervo meses antes. Mas, é claro, se eu pagasse a história mudava…

Apesar do acervo da Biblioteca Mario de Andrade ser “público” eu, como cidadão, fui impedido de acessá-lo e empregá-lo em pesquisa. Porquê? Simplesmente porque um patrimônio “público”, de propriedade de todos os brasileiros, havia sido tomado por uma quadrilha como objeto pessoal, alvo de mandos e desmandos sem critérios, a não ser o das conveniências e das pequenas corrupções.

Há um princípio que rege tudo o que é único, que é raro: quanto mais difuso, quanto mais reproduzido menos risco corre de desaparecimento. Isso vale para espécies biológicas e vale para livros, informações, arquivos. Por isso, se quer garantir que algo chegue às próximas gerações reproduza ao máximo, garanta o mais livre acesso às cópias.

Ao final do evento fui cumprimentar meu antigo professor (e orientador), hoje coordenador da Biblioteca Guita e José Mindlin, Prof. Istvan Jancsó. Me perguntou ele: E aí? O que achou?

Respondi: “Hoje a USP conseguiu recuperar um pouco do meu respeito perdido por ela.”

Daí ele riu e disse que sempre fazemos isso. Ele sabe que não é bem assim, mas alí, não era hora de cobrar mais justamente quando parte da universidade faz um gesto de ir ao encontro da sociedade e do mundo moderno. Sem contar, obviamente, o esforço pessoal que Istvan e sua equipe fizeram para viabilizar o recebimento da Biblioteca Mindlin.

A potencialidade desse acervo é inesgotável. Como alguém que trabalha com patrimônio cultural imagino que bem gerenciada durante anos a Brasiliana pode realmente fazer algo que as humanidades da USP nunca conseguiram efetivamente: cumprir seu papel de parceira da sociedade brasileira para além da cômoda justificativa de que formamos “professores e pesquisadores para a sociedade”.

No mais, isso é prova de que, como sempre e como diria o poeta: Eles passarão, eu passarinho.

Ou na frase do sábio Mindlin: Nós passamos, os livros ficam.

É essa universidade que deve ficar.

 

E aí vai o endereço do “sítio”, como diriam meus amigos lusitanos: www.brasiliana.usp.br

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , ,
08/05/2009 - 07:00

Por quem os sinos dobram

Há algum tempo comprei num sebo paulistano, do qual sou cliente há anos, um exemplar da primeira edição brasileira do clássico de Ernest Hemingway Por quem os sinos dobram. Esse texto de Hemingway tornou-se um épico da Guerra Civil Espanhola e compõem o conjunto das obras essenciais do escrito estadosunidense, junto com O velho e o mar, O sol também se levanta e Adeus às armas.

 

Em verdade a primeira coisa que me chamou a atenção nessa edição, de 1941 da Companhia Editora Nacional, foi o comentário na orelha do livro escrito por ninguém menos do que Monteiro Lobato. Que Lobato estava longe de ser um liberal isso não é novidade, haja visto as discussões dele com os membros do movimento modernista paulista na década de 1920, mas daí até inverter completamente o sentido de uma obra vai uma longa distância. No seu texto de apresentação, Lobato descreve a obra de Hemingway como um “libelo contra o absurdo do comunismo”, “contra a brutalidade dos republicanos na Guerra Civil Espanhola”.

Para quem conhece a obra ou a vida de Hemingway sabe que isso é absolutamente improvável. Tanto o livro é uma sequência de cenas horrorizantes da guerra civil – de um lado e de outro – quanto o próprio Hemingway era um libertário, o qual lutou nas famosas “Brigadas Internacionais” durante o conflito.

Não que gostasse dos comunistas – pelo horror a burocracia e ao controle do Estado que tinha -, mas entre os republicanos, dentre os quais um significativo grupo de comunistas, e a ameaça fascista o escritor jamais titubeou.

O historiador militar inglês Anthony Beevor, em seu livro A Batalha pela Espanha, descreve Hemingway como um verdadeiro fanfarrão, um aventureiro, mas honesto, sincero, diferente de outros, como o escritor francês André Maurois, que depois se bandeou para o lado fascista. O fato é que a montanha de celebridades que integraram as Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola (batalhões formados por voluntários de diversos países simpatizantes da causa republicana) mais fizeram propaganda do que colaboraram em armas. Saint-Exupery, Pablo Neruda, Hemingway, John dos Passos, entre tantos, estiveram nas linhas de combate, mas, em geral, quando não havia combate. Na realidade a grande maioria de voluntários, formada por trabalhadores, ficava profundamente irada com as incursões quase turísticas do grupo dos “famosos” pelas trincheiras.

De qualquer modo a obra de Hemingway é definitiva e um retrato bastante fiel do conflito – confirmado pelo texto de Beevor (cujo livro também é excelente). Completando este ano 60 anos do término do conflito, com a derrota dos republicanos (quase simultaneamente ao início da II GUerra Mundial), ocorre uma série de eventos para lembrar uma vergonhosa página da história européia, quando os governos ditos democráticos (Inglaterra, França), por medo de um governo popular (o Republicano), deixaram uma nação cair na penunbra da ditadura franquista durante décadas. O mais impressionante é que os que apoiaram Franco, Hitler e Mussolini, cairam, mas ele se manteve no poder até sua morte.

Além desses dois livros vale a pena assistir a dois filmes fundamentais que tratam direta ou indiretamente a respeito da Guerra Civil Espanhola: O Labirinto do Fauno e Ana e os lobos, os dois excelentes.

Neles, e nos livros, a cena de do Bombardeio Nazista a cidade basca de Guernica, retratada por Pablo Picasso, ganha a dimensão exata da tragédia e do horror que foi a Guerra Civil Espanhola.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura Tags: , , , ,
25/02/2009 - 22:20

100 anos sem Euclides da Cunha

Em 1909, num bizarro duelo para a limpeza da honra, Euclides da Cunha morria por uma bala disparada por um jovem oficial do exército, Dilermando de Assis. Com a morte de Euclides desapareceu uma das mentes mais brilhantes e um dos observadores mais agudos que a literatura brasileira já havia produzido.

 

Certa vez Professor Antonio Cândido, um de nossos maiores conhecedores da literatura brasileira, disse que, para ele, os dois maiores expoentes da nossa escrita eram Machado de Assis e Guimarães Rosa. Penso que Euclides da Cunha viria logo atrás, alguns décimos de segundo depois dos dois gigantes de nossa língua.

Não é acidental que Os Sertões foi considerado um dos cem livros mais importantes da história da literatura mundial (tudo bem que essas listas sempre são “egocêntricas” e refletem apenas o gosto pelas literaturas européias, o que, em verdade, aumenta ainda mais a deferência da inclusão do livro de Euclides).

Euclides teve uma carreira um tanto erratica, reflexo de seu temperamento explosivo e de um espírito romântico tardio. Cursou a Academia Militar da Praia Vermelha justamente no início da República. Muito cedo abraçou o ideal republicano e foi um “Florianista” convicto. Mas tinha uma incrível habilidade para se meter em encrencas e por mais de uma vez se viu no meio das tramas políticas da capital, parte das vezes por conta de seu casamento com Ana, filha de um importante oficial do exército.

Quando conseguiu sua baixa do exército – no qual se habilitou ao trabalho com a engenharia – passou a colaborar com a imprensa (o que já fazia antes, mas com menor liberdade). Foi justamente nesse contexto que estourou o conflito armado no sertão nordestino, e que Canudos passou a ser um nome conhecido em todas as capitais do Brasil.

Aproveitando o fato de ser militar da reserva, Euclides conseguiu que lhe autorizassem acompanhar a derradeira expedição militar, de outro lado representava o jornal O Estado de São Paulo no front. Foi justamente essa oportunidade que lhe forneceu a matéria prima para escrever sua obra prima.

Dividida em três partes – A Terra, O Homem, A Guerra – Euclides revelava as grandes influências que recebera dos pensadores deterministas do século XIX, mas as quais utilizou com beleza superior.

Alma sensível, o escritor testemunhou uma verdadeira barbárie no sertão, e por mais que tivesse tecido comentários pouco elogiosos a respeito dos sertanejos (que muitos confundem, por conta da famosa frase que diz que “o sertanejo é antes de tudo um forte”), se questionou profundamente a respeito de quem efetivamente era uma ameaça a humanidade: os maltrapilhos esfomeados do sertão ou as tropas federais, as quais não perdoaram mulheres, velhos ou crianças.

Curiosamente, tanto na academia militar quanto na campanha de Canudos, Euclides foi companheiro de outro militar ilustre: Candido Mariano da Silva Rondon. Mas, diferentemente de Rondon, Euclides não tinha vocação efetiva para a vida militar, nem tanta fidelidade política quanto o mato-grossense.

Depois da experiência aterradora, Euclides se empenhou mais na vida de engenheiro, sendo responsável por inúmeras obras pelo interior de São Paulo e Rio de Janeiro.

Produziu ainda um outro trabalho brilhante, muito menos conhecido do que seu texto sobre Canudos: A margem da história.

Na subida dos rios amazônicos, no meio da floresta, e novamente acompanhando a vida dos caboclos amazônicos – a versão das florestas dos sertanejos que vira na catinga nordestina – escreveu um trabalho que descreve uma natureza em conflito.

Para Euclides tudo na Amazônia desaconselhava a presença humana. Resultado de formações geológicas novas, na sua opinião, a região era ainda o cenário de um colossal conflito entre as forças naturais. O gigantismo da natureza, do espaço, demonstrava um quadro de guerra na qual o ser humano era a peça mais frágil, e por isso desaconselhável á permanência. Dia a dia estabelecia-se a luta péla sobrevivência numa floresta sem a calma e a receptividade da mata atlântica.

Quando desci, em 2007, os rios Negro e Amazonas, durante 30 dias de navegação, era impossível não relembrar as descrições de Euclides da Cunha, e pensar no quanto ele tinha ou não razão. De fato, geólogos e biologos concordam que a Amazônia ainda é uma floresta jovem e que, se nós não a dizimarmos, terá ainda uma longa história de amadurecimento pela frente, assim como o cerrado teve.

Infelizmente Euclides não pode escrever muito mais do que isso, pois sua natureza tão inquieta e revoltosa quanto a visão que tinha da floresta, ou do sertanejo, levou ele até as raias de um duelo inglório, o qual apagou para sempre um dos espíritos mais brilhantes e sensíveis que já produzimos. 

PS: Recebi o comentário da Profa. Anabelle Loivos no qual me indicou o belíssimo trabalho em parceria da UERJ com a UFRJ “100 anos sem Euclides”. Vale a pena conferir o site e, se estiver no Rio de Janeiro (mesmo que de passagem) tentar pegar uma casquinha de alguma das inúmeras ações do projeto.

O link é: http://www.projetoeuclides.iltc.br

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, História do Brasil Tags: , , ,
14/12/2008 - 10:20

Capitu, do romance de Machado à TV Globo

Machado de Assis com sua imagem madura, a que se celebrizou.

Inveja. Inveja mortal, daquelas de mandar o cidadão direto para o círculo mais profundo dos infernos. Senti minha alma “obscura como o coração de Judas Iscariotes” como diria a sabedoria popular. Sensação que senti, e que revelo com sinceridade – virtude capaz de redimir parcialmente minha pena -, ao ver a série Capitu de Luis Fernando Carvalho inspirada no romance Dom Casmurro de Machado de Assis.

Obviamente que minha inveja não foi daquelas como a de Salieri, que não suportando a superioridade de Mozart, talvez tenha lhe envenenado a taça. Mas, vá lá, foi inveja sim.

Fiquei boquiaberto quando vi a mistura realizada por Carvalho, empregando uma fotografia saturada, com tons dourados que lembram uma igreja barroca, envelhecido em alguns pontos, claro e escuro como uma pintura de Caravaggio. A atuação dos atores com toques do teatro mambembe – o que me lembrou muito as performances do Grupo Galpão, talvez por conta da presença de Paulo José na equipe de produção -, com dança, malabarismos. A trilha sonora provocadora, realizando contrapontos e surpreendendo diante do que poderia se tornar algo óbvio.

Nota especial para o tema Elephant Gun de um maluco estadosunidense chamado Beirut (em verdade Zac Condom) que casou de tal forma com a imagem que parece ter sido feito especialmente para a série. O bandolin tocado na introdução, com a voz anasalada como a de um bardo renascentista, seguida de um acordeon, tal como num realejo, formam um conjunto hipnótico que, somado com as imagens velozes, entrecortadas, de tons profundos oferecem uma experiência realmente inovadora para a TV.

É fantástico pensar como um conjunto de referências tão diversas conseguem se harmonizar tão bem e não parecerem um pastiche, uma colagem non sense. Mas isso tem um motivo.

Assim como minha inveja mortal, o romance de Machado de Assis trabalha sobre os mais humanos dos sentimentos: o ciúme, a dúvida, o orgulho, o medo.

Numa aula de roteiro o professor invariavelmente diria ao aluno: toque a alma de seu espectador.

Parece óbvio, mas, por mais óbvio que seja, é das tarefas mais difíceis de serem realizadas. Tocar a alma de alguém significa conseguir entrar num código antigo, íntimo e coletivo ao memso tempo, em algo que é “humano” antes de ser desta ou daquela cultura, deste ou daquele tempo. Poucos o fazem, e por isso se tornam obras superiores, se tornam clássicos.

Machado de Assis conseguiu, ao escrever Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Bras Cubas, Quincas Borba, atingir o ápice da genialidade da espécie humana. Um russo, um esquimó, um somaliano, um sikh ou um uzbeque lendo as histórias de Machado vertidas para sua língua se comoveria certamente, pouco ou muito, mas se comoveriam. Assim como nos comovemos com Shakespeare, Dostoievsky, Tolstói, Dante.

São códigos que estão no fundo, no conjunto de elementos que nos fazem humanos. Por isso são potentes deste tamanho. Coisa sabida por indivíduos como Carl Jung e Joseph Campbell (psicólogo e estudioso das mitologias).

Os sons e imagens selecionadas vão no memso caminho, apesar de tão diversas as referências. São ítens que passaram a compor o imaginário ocidental, base de nossa cultura e plenamente inteligíveis mesmo que o espectador não tenha deles qualquer informação pregressa.

E, reconheçamos, tratar de Machado de Assis é prova final para a cultura brasileira. Tratar de Machado é ao mesmo tempo tarefa exigida e hercúlea, basta lembrarmos dos gigantes da cultura brasileira que se deram ao trabalho de estudar, escrever, filmar Machado de Assis.

Entre os acadêmicos (das universidades, não da ABL), tratar de Machado é coisa para poucos. John Gledson, Chalhoub, Schwarz, e outro gigante, hoje acadêmico (duplamente acadêmico, como brinca) como Machado de Assis: Alfredo Bosi.

Daí a dimensão do desafio em levar Dom Casmurro às telas.

De tão complexo, Machado de Assis continua revelance faces, ou se mantendo passível de novas interpretações. Das avaliações mais conservadoras, o “Bruxo do Cosme Velho” (como foi apelidado) passou a ser visto como um escritor capaz de inverter a ordem das coisas sem que muitos dos leitores percebam, insinuando traços de subversão da ordem onde todos viam apenas submissão.  Tal como os gregos, Machado de Assis cultivou a ironia, a sátira como punhais afiadíssimos e que cativam geração após geração.

Lançar Capitu como o centro da narrativa, apesar do mesmo levar como título Dom Casmurro, é um artifício insinuado no texto (como ao se dirigir o escritor as suas “leitoras”) e que tendo se tornado o título da série muito provavelmente receberia aprovação de Machado.

E, oxalá, sou obrigado a admitir que ainda é possível vida inteligente na televisão (mesmo que por volta das 24:00).  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, História do Brasil, História e cinema Tags: , , , , ,
30/07/2008 - 20:16

Para ler sobre folclore: Mikhail Bakhtin

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como “sobre folclore”, mas vou justificar a inclusão.

Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.

Preferia o termo “cultura popular” ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.

Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma “pedra de toque” dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.

Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto “incrédulo” ou “ateu” pela de autor “medieval”, inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.

A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.

Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.

De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.

Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre “folclore”, ou, como preferia, “culturas populares”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da arte, História da cultura Tags: , , , ,
28/07/2008 - 09:37

Folclore, cultura e pensamento no modernismo brasileiro

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.

Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.

Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.

Mas, divergências a parte, ambos os movimentos – os modernismos paulista, pernambucano – partiam de um mesmo pressuposto.

Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.

Ao longo do século XIX o que chamaríamos de “produção cultural” brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.

Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura – excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis – reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.

Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma “identidade nacional”.

É claro que conceitos como “identidade” e “nação” são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.

A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as “raízes” brasileiras naquilo que havia antes na “invasão cultural francesa” do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.

Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os “francesismos” haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.

Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.

Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.

Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como “folclore” brasileiro.

E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da “antropofagia cultural”, do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.

Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a “antropofagia”. Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.

De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era “brasileira”. De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente “atrasada” para se tornar uma espécie de “vedete cultural”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da arte, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil Tags: , , , , , ,
24/07/2008 - 14:37

Leituras sobre o folclore

Algumas dicas de leitura para quem quer conhecer um pouco mais sobre “folclore” ou sobre “cultura popular”, como prefiro.

Estar acompanhado por bons livros, com boas reflexões sobre um tema é uma ótimo ponto de partida para qualquer incursão sobre um universo de conhecimento.

Tanto no Brasil quanto no exterior o tema “folclore”, bem como “cultura popular”, foi fartamente discutido ao longo de quase dois séculos de pensamento sobre o assunto. Coisas muito bacanas surgiram e outras nem um pouco. Mas é sempre melhor falar das coisas boas que foram produzidas sobre um assunto.

No caso brasileiro, sem a menor dúvida, o principal nome quando se trata de folclore e cultura popular é Luis da Câmara Cascudo. O escritor se debruçou sobre o tema ao longo de toda uma vida e produziu uma obra absolutamente fantástica. Nenhum outro pensador brasileiro produziu uma obra tão abrangente sobre nossas culturas populares.

Algumas de suas obras se tornaram clássicas, tanto pela força das idéias, quanto pela extensão do trabalho ou mesmo pelo pioneirismo.

Civilização e cultura é uma densa investigação, a moda da antropologia e da arqueologia, sobre o nascimento e a formação da cultura como traço distintivo da espécie humana. Hoje, passadas muitas décadas de sua publicação, arqueólogos e antropólogos do mundo todo continuam engalfinhados no tema, mas a análise de Cascudo não deve nada, pela época em que se escreveu, aos trabalhos mais recentes.

História da alimentação no Brasil é um trabalho pioneiro, numa época em que alimentação era tema somente de cozinheiras. Sua incursão pelo universo da cultura do que vai a boca é fantástica. Até o relançamento da obra, há alguns anos, o livro era vendido a preço de ouro nos sebos. leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema alimentação.

Dicionário do folcore brasileiro é uma obra de referência a qual sempre retorno, atualizado e aumentado recentemente – para a nova edição – o livro continua a ser um dos melhores salva-vidas para quem precisa de uma informação correta e rápida a respeito de alguma manifestação folclorica brasileira.

Mas há muito mais, Cascudo escreveu obras sobre artigos culturais brasileiros específicos (jangadas, redes, cachaça), sobre tecnicas vocais (Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Locuções tradicionais, etc), e muito mais.

Muita gente acusou Câmara Cascudo de ser direitista, autoritário e adepto do Integralismo. Muita gente foi, e, nos anos de 1930 no Brasil, era difícil dicernir com clareza os lados políticos em disputa.

Independentemente das cores políticas de Cascudo sua obra é leve, generosa, sem qualquer traço de preconceito ou discriminação. Pelo contrário, sempre foi um entusiasta do caldeirão cultural brasileiro.

É a primeira e uma das mais fortes referências para quem quer saber mais sobre folclore.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da cultura Tags: , ,
18/07/2008 - 09:34

18 de julho de 1936

18 de julho de 1936 foi um daqueles dias em que os desejos de lembrar e esquecer convivem íntimamente.

Naquele dia o General Franco deu um golpe de estado derrubando o governo repúblicano democraticamente eleito na Espanha e iniciando uma ditadura que duraria décadas.

Com o golpe comunistas, anarquistas e simpatizantes de todas as partes do mundo se mobilizaram para garantir a retomado do poder, dando início a Guerra Civil Espanhola.

Além dos motivos óbvios desse dia vergonhoso outro se soma. A Guerra Civil Espanhola foi vencida por Franco com ajuda da aviação alemã, já sob controle do governo nazista. E ninguém intercedeu, nenhum estado com força, na Europa ou nas Américas, tentou deter tal absurdo: nem o golpe de estado, nem a interferência alemã nos assuntos espanhóis.

Deu no que deu.

O silêncio dos estados dito democráticos garantiu a possibilidade de crescimento do poder dos estados nazi-fascistas e, quando se deram conta, os alemães já estavam dentro da Polônia, cerca de três anos depois.

A Guerra Civil Espanhola se notabilizou não só por ter sido a chamada “prévia da II Guerra Mundial”, mas por ter sido uma luta heróica e trágica. Com o apoio dos alemães – os quais bombardearam a cidade de Guernica, dando o mote para o famoso quadro de Picasso – a luta na Espanha se tornou deveras desigual e quase desesperada.

Pelos rádios, cotidianamente, simpatizantes dos repúblicanos ouviam as notícias da Guerra pelo mundo afora. Muitos se alistaram como voluntários em batalhões internacionais, como o escritor estadunidense Ernest Hemingway (que depois escreveu Por quem os sinos dobram, inspirado em sua vivência no front espanhol), o fotógrafo Robert Capa (o qual produziu a foto de um soldado republicano levando um tiro no peito no alto de uma montanha), o brasileiro Apolônio de Carvalho (dirigente do Partido Comunista), o inglês George Orwell (autor de 1984), entre tantos e tantos.

As brigadas internacionais, bem como os republicanos, caíram, mas, como disse aqui noutra ocasião, foi a derrota deles que venceu no campo da memória e não a vergonha nazi-facista.

Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro disse num discurso: “Perdi todas as lutas que travei: tentei salvar os índios e não consegui, tentei criar uma universidade do futuro e nos tomaram ela, tentei melhorar a educação brasileira e me venceram. Mas detestaria estar do lado daqueles que ganharam.”

Por esse mesmo motivo lembrar e esquecer a Guerra Civil Espanhola – em seus diversos aspectos – é ainda tão importante.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da Literatura Tags: , , , , ,
Voltar ao topo