Arquivo da Categoria História da arte
28/09/2009 - 06:51
As cidades tem dessas coisas, uma setorização, ou um “epicentro” de certos movimentos, ofícios, atividades. É assim no Rio de Janeiro, no Recife, em Salvador, em Nova Iorque, Paris, e é em São Paulo.
Mesmo quando se trata de música a cidade tem suas “áreas” históricas, lugares que abrigaram as primeiras agitações de certos ritmos ou ondas. O Bixiga – preciso dizer? – tem sua marca gravada da história do nascimento do samba paulistano. Não só por Adoniran Barbosa, mas também pelos Demonios da Garoa, por Germano Matias, pela Vai-Vai, por Miriam Batucada, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros. Não que o samba em São Paulo só existisse alí, mas foi naquele bairro, entre migrantes nordestinos, descendentes de italianos, populações de operários vindos de diversos lugares e com diversos tons de pele, que o samba em São Paulo tomou corpo, a ponto de merecer uma retratação do poetinha Vinícius de Moraes que – em tom de provocação – chamou a cidade de “Túmulo do Samba”.
O movimento Hip-Hop, por sua vez, não seria o mesmo sem o Largo São Bento. Um movimento tão identificado com as periferias da cidade foi tomar forma justamente no coração da urbe, do ladinho do túmulo do Cacique Tibiriçá e dos monges beneditinos. Saudosamente lembram os integrantes do movimento – como Thaide, DJ Hum, Mano Browm, Nelson Triunfo – dos encontros na São Bento (que curiosamente, este ano, durante a Virada Cultural, recebeu o “Baile Black” mais sem graça e sem identidade que já vi, enquanto os grupos de rap se apresentavam em CEUs escondidos e sem nenhuma estrutura ou apoio). Depois os bailes e atividades do movimento se espalharam pelas periferias e nos famosos bailes do Palmeiras (Barra Funda) e outros tantos pontos. Mas a identidade do Hip Hop ficou para sempre ligada a São Bento dos anos de 1980.
O rock em São Paulo ganhou uma projeção incrível no começo dos anos de 1980, com a explosão de bandas como Titãs, Ira! e Cia. Ltda. Esse movimento tomou de assalto o baixo Bixiga, na região do Café Piu Piu, Pinheiros, Augusta e outros lugares transformados em “bunker” do rock nacional.
Depois vieram os SESCs (sobretudo o Fábrica da Pompéia) e as boates, consolidando de vez o cenário rock da paulicéia, mas, mais de uma década antes, o primeiro movimento rock na cidade – digno desse nome – surgiu no bairro da Pompéia e, mais específicamente, numa única rua.
Há quem fale sobre um rock pré anos 60 no Brasil ou em São Paulo, mas seus personagens não chegavam a constituir um movimento e seu legado para a música brasileira foi muito mais pontual. De fato mesmo a coisa se deu ao longo da década de 1960.
Tempos atrás um dos representantes desse movimento – Carlini, líder da banda Tutti Fruti – numa entrevista a Clemente – represnetante d eoutro desses movimentos, o punk rock, muito ligado ao operariado da região do ABC, Moóca e Ipiranga – contava do ambiente que viveu na sua época, justamente na rua em que morava.
Rua Venâncio Ayres na Pompéi viu no prazo de meia década surgirem três lendas do rock paulista: Mutantes, Tutti Fruti e Made in Brazil.
A mais antiga delas, Mutantes, já tocava no Festival da Record onde rolou o bafão de Caetano Veloso, vaiado terrivelmente enquanto esbravejava contra a platéia (e Gil passava uma vergonha dos diabos lá atrás). Isso antes da virada da década. Depois veio a banda de Luiz Carlini, o Tutti Fruti, e por fim o Made. Todos na mesma rua e em tão pouco tempo.
Mais do que apenas uma coincidência geográfica essas três bandas imprimiram uma marca significativa tanto na musicalidade do rock nacional quanto na “forma de fazer” do rock em São Paulo. Pela primeira vez esse tipo de música feita aqui podia dizer que possuia uma “identidade”, a qual, diga-se de passagem, foi incorporada por inúmeras bandas da década seguinte, a de 1980.
Ainda hoje o bairro é ligado a esse passado e o SESC que fica alí se tornou uma referência histórica e musical do rock paulista emergente, é alí um dos lugares onde primeiro se recebem as novas bandas da cidade, e de uns anos para cá, de vários outros lugares do Brasil.
Assim a tradição se firmou, e, assim como no caso de Bixiga, embora a Pompéia não seja o único bairro onde o rock paulista tenha se desenvolvido ele se tornou uma das referências no seu registro de nascimento.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura, História de São Paulo
Tags: Made in Brazil, Mutantes, Pompéia, Rock, São Paulo, Tutti-Fruti
22/09/2009 - 07:00
Uma fonte inesgotável de roteiros para o cinema foi desde o seu início, há mais de cem anos, a História. De fato – mesmo sendo suspeito para falar a respeito – acho que poucas coisas são tão fascinantes quanto a própria História. Nela está todo tipo de gênero que alimenta o trabalho do cinema de “contar histórias”: tragédias, dramas pessoais, coletivos, dramas psicológicos, aventuras, épicos, romances, comédias.
É claro que não devemos confundir as “histórias contadas pelo cinema” (ou pela literatura, pelo teatro) com a História (acontecimento, o ocorrido). Assim como a o que os historiadores escrevem a história que aparece nas telonas do cinema é o que chamamos de “representação”, uma interpretação, um ponto de vista a respeito de algo que ocorreu.
Mas, mesmo sendo uma representação e não a ” história tal como ela foi” (se é que existe essa objetividade como algo possível de ser encontrado), o cinema além de diversão proporciona ótimas oportunidades de aprendizado e sempre um bom tema para bate-papos mais ou menos inflamados ou discussões em salas de aula.
Também em termos de “exatidão” há vários níveis de “correção”, ou seja, existem situações um tanto absurdas ou deturpações do sentido da História e há boas interpretações. De qualquer modo é sempre prudente olhar com cautela a “exatidão” da interpretações cinematográficas (até porque não é essa a preocupação nem o objetivo dos cineastas).
Assim há alguns filmes que particularmente adoro e que além de assistir muitas e muitas vezes usei em várias oportunidades com meus antigos alunos (em tempos de graduação, quando trabalhava como professor).
Apesar das críticas à forma de se comportar do personagem principal Gladiador (Ridley Scott, EUA, 2000) é uma recomposição notável do mundo romano no período Imperial. A organização das províncias de Roma, a política, a organização militar, as técnicas de combate. Também sobre Roma é impossível não citar Spartacus (Stanley Kubrik, EUA, 1960) e o período da rebelião dos escravos. O cotidiano dos gladiadores é apresentado de modo bastante aproximado. Mas o melhor de Roma não é um filme, mas a série Roma (duas temporadas). Absolutamente genial, com preciosismo nos detalhes – a ponto de usar quase que somente atores italianos da região de Roma – e dedicada a política que se entranhava cotidianamente entre as famílias de patrícios (a nobreza romana) e se espalhava por entre a plebe na passagem para o Império, do assassinato de Júlio César à ascenção de Augusto.
Sobre nosso período colonial um dos favoritos é 1492: a descoberta do Paraíso também de Ridley Scott (ESP/FRA/ING, 1992). A viagem de Colombo, suas disputas dentro da Espanha, a dúvida dentro dos navios – incrivelmente fiéis -, e o deslumbramento seguido do fracasso do sonho de encontrar as Índias através do ocidente. A Missão, de Roland Joffé (ING, 1986) acompanha o fim do sonho jesuítico nas Américas em meados do século XVIII, quando as missões são debeladas pelos exércitos da Espanha e de Portugal. Lindo, inclusive a trilha sonora do genial Ennio Moriconne. Aguirre, a cólera dos Deuses de Werner Herzog (RFA, 1972) é um clássico absoluto da história da colonização e exploração das Américas, embora seja um filme bem mais difícil de ser assistido.
Tratando-se de história do Brasil um dos meus preferidos é Bye Bye Brasil de Cacá Diegues (BRA, 1972), filme que, sem ser um libelo da luta contra a ditadura, é um vagalhão contra o país que passou a ser construído em busca do sonho do “progresso”, custe o que custar. Do mesmo Cacá Diegues ainda há Quilombo (BRA, 1984) e Ganga Zumba (BRA, 1963), ambos sobre Palmares e o complexo de Quilombos surgidos durante e após a invasão holandesa no nordeste brasileiro.
Ainda há Desmundo (BRA 2003), sobre o período colonial, Ação entre amigos (BRA, 1998) a respeito da ditadura e das sequelas dela, O ano em que meus pais saíram de férias (BRA, 2008), também sobre a ditadura e aluta armada, mas sob a ótica de uma criança, Cidade de Deus (BRA, 2002) sobre a criação do bairro que empresta o nome ao filme e o itinerário da violência do Rio de Janeiro nos últimos trinta anos. A lista seria imensa, contando desde os “blockbusters” até filmes alternativos, curtas metragens, produções estrangeiras de pequena circulação, cinema de arte, sobre temas corriqueiros – como a II Guerra Mundial -, e assuntos mais específicos, como A Batalha de Argel (ITA, 1966) de Gillo Pontecorvo, a respeito da Guerra de Independência da Argélia. Há, até mesmo, os filmes sobre personagens históricos que trazem consigo todo o panorama de uma época: Shakespeare apaixonado, Elisabeth, Minha amada imortal, O homem da capa preta, Sete anos no Tibet, Gandhi, Um grito de liberdade, Bird, Todos os homens do presidente.
E os épicos: Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A ponte sobre o Rio Kway, Quo Vadis?, Ben Hur, Os Dez Mandamentos, E o Vento Levou, El Cid, Passagem para a Índia.
Como nota especial vale lembrar de Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro (ESP, 2006) que sem ser um filme “histórico” especificamente trata como poucos do período da Guerra Civil Espanhola, lírico e brutal ao mesmo tempo.
Todos temos nossas listas de “preferidos” e facilmente se enchem páginas com eles. De qualquer modo o cinema é um grande divulgador do interesse pela história e, ao mesmo tempo, um voraz devorador de “histórias”, parceria que parece sobreviver a todas as “crises de criatividade” da indústria cinematográfica.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da arte, História da cultura, História e cinema
Tags: Cinema, Épicos, Filmes Históricos
28/06/2009 - 07:00
Lembram da história de “Pedro e o lobo”? É uma fábula muito antiga que meu avô contava para mim: a história de um menino que vivia gritando “olha o lobo” e sempre era mentira. Mas, certo dia, o lobo era verdadeiro, e ninguém acreditou. Quando entrei na net e um amigo me disse que Michael Jackson havia morrido ocorreu exatamente a mesma coisa. Só acreditei quando vi a notícia confirmada pela BBC de Londres, pela Reuters, pelo NY Times.
Acho que além de tanta boataria que cercou a vida de Michael Jackson pesou também o fato de que certas figuras pensamos que são imortais. Quando o Papa João Paulo II morreu eu estava numa escavação do centro do Mato Grosso e ouvi a notícia pelo rádio do carro, e mesmo tendo acompanhado as notícias de sua agonia demorou um tempo para a ficha cair. No caso de Michael foi um pouco mais demorado.
Isso não tem nada a ver com “admiração” ou algo do tipo, embora ele tenha sido uma referência da minha geração. Michael havia se tornado uma instituição apesar de toda decadência que viveu na última década. Se aquilo que chamamos de cultura “pop” tivesse um rosto certamente seria o de Michael Jackson (qual deles, aliás?).
Quando outros ídolos morreram a comoção foi igualmente profunda: Elvis, John Lennon, Carlos Gardel, Rodolfo Valentino, Francisco Alves, Marilyn Monroe, Elis Regina.
A morte trágica e prematura sempre provoca uma sensação de “coisa interrompida”, “história inconclusa”, mas a de Michael compôs – por mais absurdo e triste que isso seja – sua trajetória de modo absolutamente coerente.
Fiquei tentando entender porque a morte dele é um fato singular, diverso de outros ídolos tão amados e admirados quanto.
Michael Jackson sempre é lembrado como o artísta que revolucionou o show bizz. O video clip era uma coisa antes e foi outra depois de Thriller: até então os clips eram pouco mais do que os cantores ou as bandas tocando uma música. Thriller era um “blitzkrieg” cinema, uma história relâmpago com ares impactantes como um ataque. Uma história entrecortada, cheia de subentendidos que davam velocidade a narrativa, capaz de resumir uma história de duas horas em poucos minutos. Essa linguagem de videoclip tornou-se a grande referência de linguagem de toda a geração que veio a partir de então, foi o precursor da velocidade de navegação da internet, do hipertexto, dos games. Se ficasse somente nisso Michael já seria digno de ser lembrado, mas há mais.
Sua trajetória pessoal encarnou como nenhuma outra a tensão do mundo contemporâneo: menino negro, forçado pelo pai a jornadas intermináveis de ensaios, shows e gravações que lhe roubaram a infância. O sucesso financeiro cobrou dele parte de sua saúde física e mental. A chamada “Síndrome de Peter Pan”, que se disseminou em toda uma geração, teve nele o maior de seus expoentes.
Quantos – em medidas menos agressivas – vivem a mesma situação? Comprando brinquedos de criança aos quarenta anos, se recusando a envelhecer, procurando se relacionar com pessoas profundamente mais jovens, fugindo de compromissos sociais – com exceção do trabalho – que lhe atrelem a uma vida “adulta”.
O sucesso pessoal associado a uma profunda tristeza íntima, à uma tensão para que todos os dias continuasse a ser o “ídolo surpreendente”, demanda de um mercado cultural agressivo, devorador.
Poderíamos pensar: mas os Beatles sofreram algo semelhante, ou mesmo Elvis.
Mas Elvis não viveu esse mercado cultural plenamente configurado, suas crises pessoais eram de outra ordem. O que minou a unidade dos Beatles, por sua vez, foram as divergências por dinheiro e por estilo, depois, é claro, que já tinham fortuna suficiente para não fazerem nada pelo resto de suas vidas. E embora alguns deles tenham vindo de famílias pobres ou desestruturadas – Elvis e John Lennon – eram brancos e “se tornaram” ídolos, não foram transformados em “mercadorias culturais” a força como no caso de Michael.
Ninguém é capaz de calcular o que essa conjunção de fatores deve ter provocado na cabeça de uma criança (e que continuou, em boa medida, a se comportar assim até o fim).
Michael Jackson viveu até as últimas consequências o que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”, uma sociedade na qual ”parecer” é mais importante do que “ser” ou do que “ter”. Ele viveu para “parecer”, e teve dificuldades para “ser” e para “ter”. E não estou falando exclusivamente de questões materiais (embora até estas tenhas sido comprometidas no final). Sua morte foi absolutamente envolvida pela dimensão “espetacular” de nossas vidas: em tempo real, ao vivo, sem que ninguém conseguisse definir exatamente onde terminava a encenação e começava a realidade, até onde ia o “show”. Muitos, como eu, pensaram que era apenas mais um golpe de publicidade, sinal do quanto perdemos parte de nossa capacidade de definir as fronteiras entre o real e o imaginário. E a realidade somente se revela nas questões mais cruas, mais irrevogáveis, como a morte.
No palco também foi Michael a promover uma ruptura. Apesar de bandas de rock virem desde os anos de 1960 inovando em seus shows, foi o antigo menino do “Jackson 5″ que elevou a milhonésima potência o conceito de “show”. Depois dele tudo que estivesse no palco e não somasse música, luz, dança, representação, efeitos especiais passou a ser considerado um espetáculo de música, não mais um “show”.
E sem falar, é claro, na incorporação que fez de inúmeros traços da cultura negra estadunidense, sobretudo da black music da Motowm e do nascente hip-hop, como a inconfundível batida, o baixo proeminente, o balanço, os passos de break, o estilo “black is beautiful”. Enfim, se o rock foi o “embranquecimento” da música negra para que se tornasse comercialmente palatável ao público branco, a música de Michael meteu o pé na porta e se tornou um fenômeno mundial, popular entre os herdeiros do trono inglês, os presidiários de Formosa, entre os executivos japoneses (doentes por ele) ou entre as socialites brasileiras.
Lí nestes dias incontáveis textos de críticos rançosos insistindo no fato que nos últimos quinze anos Michael Jackson não havia feito nada a não ser se meter em escândalos. O fato é que se tivesse morrido no dia seguinte ao lançamento de Thriller já teria merecido o título de “artísta que simbolizou o pop”, mas depois disso ainda produziu coisas revolucionárias (como as tecnologias empregadas no clip de Black or White).
E não devemos esquecer que “pop” é a abreviação de “popular”, e ninguém jamais o foi – e dificilmente será – na dimensão que Michael Jackson foi.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura
Tags: Michael Jackson, Pop, Thriller
05/04/2009 - 18:47
Como diria Jesus Cristo: “Tomé, Tomé, homem de pouca fé!!!”
Bom, ai vai uma pequena amostra das pinturas rupestres de Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul.







Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da arte, História da cultura, Patrimônio histórico
Tags: Mato Grosso do Sul, Pinturas Rupestres, Sitio Arqueologico
05/04/2009 - 09:58

Em 2005 fui enviado com minha equipe para uma cidade do Mato Grosso do Sul, na divisa com Goiás, chamada Chapadão do Sul. Estava acompanhado de um amigo arqueólogo, Daniel, e nossa tarefa era fazer um levantamento prévio de patrimônio na região. Descobrimos então que numa fazenda da região haviam “pedras pintadas” (um dos nomes comuns para lugares onde há pinturas rupestres).
Tentamos conversar com o fazendeiro, mas, sabe-se lá por que cargas d’água, ele não quis nos deixar entrar nem com reza braba. Como tínhamos uma portaria do Governo Federal para tal trabalho e a fazenda dele estava dentro da área entramos assim mesmo. Meses depois ficamos sabendo que ele havia nos jurado de morte caso entrassemos de novo nas terras dele.
De qualquer modo valeu muito ter dado uma “carteirada” no cidadão. Dentro da fazenda, num cânion de vários quilômetros, há um dos conjuntos de pinturas rupestres mais impressionantes que já vi. São milhares e milhares de desenhos espalhados por paredões, abrigos naturais, grutas de entradas largas e uma gigantesca galeria que parece ter sido escavada por um antigo rio e que hoje se parece com a marquise do Ibirapuera.
Os desenhos eram feitos com pigmentos vermelho e amarelo e tanto possuiam formas geométricas, como elementos naturais (estrelas, rios), animais e seres humanos. Fantásticos.
Sempre, nessas horas, retorna a velha discussão de: Para quê esses caras faziam esses desenhos?
Não há um consenso na arqueologia a respeito disso e provavelmente jamais haverá, até porque não existe qualquer tipo de prova cabal que esclareça os motivos pelos quais seres humanos há milhares de anos faziam desenhos nas paredes.
O problema é que não são apenas “desenhos na parede”, alguns deles possuem complexidades impressionantes, obras de verdadeiros artistas, seja por conta da precisão do traço, ou pela forma de expressão dos movimentos, pela acuidade na observação de determinados fenômenos. Coisa muito complexa para ser considerada apenas uma “distração”.
Já ví interpretações mil a respeito deles.
Alguns acham que eram marcas relacionadas a rituais coletivos, de atração da caça (rituais “simpáticos”), de iniciação de xamãs (por isso algumas dessas pinturas estariam no fundo de cavernas, em áreas escuras de dificil acesso. Isso explicaria cenas de sepultamentos, seres fantásticos, meio homem, meio animal, meio planta, explicaria as infinitas cenas de caçada que existem no mundo todo. Poderiam estar relacionados a rituais de fertilidade, por isso cenas de relações sexuais.
Outros pensam que são apenas descrições do cotidiano, o que também explicaria a recorrência de cenas da vida dessas pessoas.
Há os que pensam que estavam relacionados a observações astronômicas, climáticas, etc, por isso estrelas, sequências de barrinhas (para contagem de tempo?).
Poderiam, ainda, ser indicações de áreas de caça ou de disponibilidade de recursos naturais essenciais, dai as figuras de animais, de cursos d’água.
E há os que pensam que poderia ser até obra de “ocupação de tempo”, algo parecido com nossos atuais pixadores. Coisa de gente que tinha tempo disponível e uma personalidade para ser afirmada, com a vantagem de que, naquela época, não haviam muros e propriedades particulares para sujar e infernizar.
Na realidade a diversidade de locais, desenhos e situações nas quais esses desenhos são encontrados sugere que: resposta D, todas as anteriores estão corretas.
Muito provavelmente cada desenho, ou cada conjunto de desenho esteve relacionado a uma situação específica, com funções diversas. Podiam ser empregados para rituais, para marcação de terreno, de fenômenos astronômicos, para uma “crônica do cotidiano”, ou simplesmente para marcar que “Fulano ama Cicrana” ou “A mãe de Beltrano não presta”.
Para nós esses conjuntos de imagens – além do valor e da importância científica e como patrimônio da humanidade, testemunho do passado – constituem bélissimos cenários, geralmente em lugares fantásticos e, sempre, uma provocação ao imaginário das pessoas, como no Parque Nacional da Serra da Capivara no Piauí, digno de visita e o conjunto mais impressionante do mundo de pinturas rupestres.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da arte, História da cultura, Patrimônio histórico
Tags: Interpretação, Piauí, Pinturas Rupestres, Serra da Capivara
20/03/2009 - 15:29

José Padilha lançou recentemente seu documentário Garapa, o qual, curiosamente, foi bem acolhido no festival de Berlin e criticado ferozmente no Brasil, sobretudo pelos críticos profissionais de cinema.
Para a crítica brasileira Padilha opera uma “estetização da miséria”, uma manipulação dos sentimentos através de recursos visuais pra lá de batidos, como o uso do preto e branco e operações “demagógicas” diante das câmeras (como a de dar remédio para uma família com a filha doente).
Antes de entrar no mérito da questão quero lembrar uma experiência pela qual passei nos idos de 1999.
Pouco depois de eu entrar no curso de história da Universidade de São Paulo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado completava sua longa viagem de sete anos por diversas regiões do mundo fotografando os deslocamentos populacionais e começava a planejar a exposição de seu novo livro, o qual se chamaria Êxodos.
Em São Paulo a exposição seria montada no SESC Pompéia e, para isso, eles necessitavam de uma equipe interdisciplinar de monitores (formada por historiadores, sociólogos, artistas plásticos, fotógrafos, etc.) que fosse capaz de trabalhar junto ao público as diversas dimensões da obra de Salgado (considerado um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, se não o mais importante).
O processo seletivo contou com quase 800 inscrições e, dentre os vinte e poucos selecionados, eu me encontrava. Durante quatro meses aproximadamente vivi cotidianamente com a obra de Salgado, passando por cursos com especialistas de diversas áreas do conhecimento, por bate-papos com o próprio fotógrafo, etc.
Ao final havíamos nos tornando conhecedores bastante competentes da obra fotográfica de ”Tião” (como os amigos o chamam).
Contudo, apesar do sucesso estrondoso da exposição, me acostumei a ouvir críticas bastante ácidas a obra do fotógrafo brasileiro. A mais recorrente delas dizia que Salgado fazia uma “estetização da miséria”, uma espécie de voyeurismo da desgraça, da morte, da fome, da doença e da guerra. Quase como um documentarista dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Segundo parte significativa de seus críticos, Salgado se valia da desgraça do outro para construir sua carreira, para ganhar dinheiro, para se fazer famoso. Também diziam que suas fotos eram montadas, que muitas das cenas foram “encenadas” e que sua preocupação era eminentemente estética, mostrando uma suposta indiferença para com os problemas da humanidade.
Certo dia um visitante, um velhinho de seus 70 anos, me interrompeu aos berros uma explicação que dava a um grupo de alunos do Colégio Palmares para dizer que tudo aquilo era uma “farsa”.
Depois disso, nos anos seguintes, me tornei amigo de vários fotógrafos ou vários amigos meus se tornaram fotógrafos, e entre eles também era recorrente esse tipo de crítica ao trabalho do Salgado.
Sim, é fato, as fotos do Salgado são tecnicamente perfeitas, o apuro em todas as etapas de produção é impressionante, mas porque ao se fotografar a “tragédia” tem que se fazer de modo precário ou sem apuro?
Os quadros, então, de Bosch, de Chagall, de Picasso, de Portinari, devem ser queimados, pois também representaram a desgraça humana com grande técnica.
Mas há quem vá dizer que a fotografia, ou o fotojornalismo, encontra-se numa esfera diversa das artes plásticas, que o fotojornalismo não é “arte”, mas jornalismo visual.
Mas como jornalismo, como texto, como narrativa, a fotografia é tão parcial quanto qualquer outra linguagem. Ela não é a “realidade”, mas uma representação da realidade, construida pelo autor, o qual seleciona aquilo que deseja contar.
Mas, contudo, contudo, o que mais me impressiona é a idéia subjacente nas críticas de que as imagens não revelam uma realidade palpável, efetiva, mas são “manipulações estéticas”. Realizações para produzir efeitos emotivos baratos no público.
Dez anos depois a crítica, e muitos dos críticos são os mesmos de 1999, diz o mesmo a respeito do documentário de José Padilha, citando inclusive sua escolha pelo preto e branco como parte dessa manipulação, tal e qual disseram de Salgado.
E também como na crítica a exposição Êxodos, fica pairando no ar a insunuação de que a desgraça mostrada não é real, mas um truque de prestidigitador para tocar corações sensíveis.
Nesses dez anos pude viajar por diversas regiões do Brasil e da América do Sul e, com toda a sinceridade, não me parece que os críticos, boa parte dos quais jamais saiu dos circuito Jardins-Higienópolis-Morumbi, sejam as pessoas mais habilitadas a dizer o quanto essas realidades existem ou não.
Se não há fome, não há guerra, não há epidemia, não há desigualdade social e exploração, então chegamos ao fim dos tempos e já estamos habitando o Paraiso Terreal, em preto e branco ou a cores, para agradar os críticos.
A opção de Salgado e de Padilha pelo branco e preto é tão legítima quanto a minha opção por escrever o cabeçalho deste texto em vermelho, ou do crítico ao fazer uma citação, são recursos estéticos sim, porque somos seres humanos e essa é uma das dimensões que nos difere dos demais seres vivos, o fato de sermos seres culturais.
O preto e branco traz uma série de referências emocionais, sensoriais? Sim, tanto quanto as demais cores. E qualquer suporte visual de informação – o texto escrito, o vídeo, a fotografia – traz isso, mais ou menos consciente. E isso faz parte da mensagem que você deseja transmitir.
As fotos de uma guerra poderiam ser feitas com tons quentes, tendendo para o vermelho, o laranja. Mas isso ocorre com qualquer construção de imagem, e faz parte de nossa “educação visual”, a qual recebemos desde a primeira infância e vai se consolidando ao longo da vida.
Independentemente das discusões a respeito da “manipulação estética” o que me parece é que parte da crítica não consegue suportar a idéia de que, com ou sem apuro, em preto e branco ou a cores, a fome, a guerra, a doença estão lá.
Talvez porque não faça parte do mundo diletante da crítica de arte, a qual, paradoxalmente, vive de discutir “estética” e pouco mais do que isso.
Esse tipo de crítica tende a desviar o foco da questão, que é o cerne das narrativas, que é o argumento, o roteiro de uma exposição, de um livro, de um documentário.
Sem contar que colabora para manter parte do universo na percepção de que o mundo limita-se àquilo que vejo e que me toca pessoalmente, e que tudo o que me é trazido de longe, através das câmeras, é tão ficcional quanto uma novela de TV ou um filme da Disney.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da arte, História da cultura, História e cinema, Imprensa, Migrações
Tags: Crítica, Documentario, Exodos, Exposição, Fotografia, Garapa, José Padilha, Sebastião Salgado
01/09/2008 - 07:32

Dêem uma observada atenta a esta tela acima. Seu título é Napoleão III na batalha de Solferino de autoria do pintor francês Jean-Louis-Ernest Meissonier e foi pintada em 1863.
Agora siga até a postagem abaixo e observe o quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte!, o qual foi apresentado em 1888.
O quadro foi uma encomenda da Corte justamente no momento em que a crise do sistema monarquico chegava aos seus extertores finais, o que pode justificar parcialmente a encomenda. Uma tentativa, talvez, de lembrar os políticos o quanto o Brasil, supostamente, devia a familia real por dua independência e existência.
Pedro Américo, o qual nem de longe presenciou o corrido do sete de setembro, se inspirou em quadros clássicos franceses ligados as figuras reais de lá, como o quadro de Meissonier. Mas, além disso, Américo era um pintor da escola clássica, a qual tinha procedimentos bastante claros a serem seguidos, normas de conduta na representação de figuras reais, perspectiva, movimento, etc.
Não é uma “cópia”, é uma obra que se encontra dentro de um cânone de procedimentos tecnicos e esteticos.
Além do mais muita gente critica o quadro por uma suposta “falta de realismo”. Dom Pedro estaria numa mula e não a cavalo, a guarda não estava vestida desta forma, mas de outra, etc, etc, etc.
Pode ser que seja assim, mas isso não faz do quadro uma “falsidade”. Para entender isso, temos de recorrer a mentalidade da grande maioria dos historiadores e memorialistas do século XIX.
Num texto clássico romano o grande orador Cícero dizia a um colega seu: Tudo bem, tu dizes que ele morreu de causa natural e eu digo que morreu assassinado. Pois bem, permita-me ficar com a segunda versão, pois ela atribui grandeza a história e oferece um exemplo digno de ser lembrado.
Esse procedimento, o qual guiou durante muito tempo o pensamento histórico do mundo clássico, o de que a história serve para oferecer exemplos dignos de serem seguidos (a “história mestra da vida”) foi retomado em diversos momentos ao longo do tempo.
E este procedimento estava implicito na composição da tela de Pedro Américo. Afinal de contas, o que há de nobre ou de memorável numa procissão de mulas parada numa colina e um principe regente irritado com uma carta de Lisboa?
Mas, se ao invés disso temos o evento no qual “Nasce o Brasil como nação independente” isso merece ser lembrado, merece ser dignificado, merece escoltas fabulosas, cavalos rampantes, espadas desembainhadas. Isso é digno de memória para o pensamento das pessoas do século XIX.
O quadro, assim, não é uma “farsa”, mas uma leitura do passado dentro das regras que estavam estabelecidas na época em que foi pintado.
Se tiverem um tempinho e lerem o texto abaixo verão que a prórpia data do 7 de Setembro demorou para ser aceita como data nacional. Mas, em 1888, quando ruia o edificio monarquico, o 7 de setembro já era aceito e a monarquia precisava se agarrar a memória de tempos melhores.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da arte, História do Brasil
Tags: História, Independência do Brasil, Independência ou Morte, Museu do Ipiranga, Pedro Americo, Quadro
30/07/2008 - 20:16

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como “sobre folclore”, mas vou justificar a inclusão.
Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.
Preferia o termo “cultura popular” ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.
Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma “pedra de toque” dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.
Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto “incrédulo” ou “ateu” pela de autor “medieval”, inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.
A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.
Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.
De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.
Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre “folclore”, ou, como preferia, “culturas populares”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da arte, História da cultura
Tags: Bibliografia, Cultura, Folclore, Mikhail Bakhtin, Rabelais
28/07/2008 - 09:37

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.
Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.
Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.
Mas, divergências a parte, ambos os movimentos – os modernismos paulista, pernambucano – partiam de um mesmo pressuposto.
Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.
Ao longo do século XIX o que chamaríamos de “produção cultural” brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.
Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura – excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis – reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.
Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma “identidade nacional”.
É claro que conceitos como “identidade” e “nação” são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.
A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as “raízes” brasileiras naquilo que havia antes na “invasão cultural francesa” do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.
Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os “francesismos” haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.
Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.
Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.
Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como “folclore” brasileiro.
E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da “antropofagia cultural”, do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.
Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a “antropofagia”. Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.
De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era “brasileira”. De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente “atrasada” para se tornar uma espécie de “vedete cultural”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Literatura, História da arte, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil
Tags: Antropofagia, Cultura Brasileira, Folclore, Mário de Andrade, Modernismo, Movimento Modernista, Semana de 22
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