Arquivo da Categoria História da América Latina
07/09/2009 - 07:29
O Sete de Setembro de 1822 não “nasceu” nem histórico nem como “data nacional”, marco da Independência do Brasil. Datas, bem como “personagens”, monumentos, interpretações, são construções históricas, obras que se dá ao longo do tempo, muito ou pouco.
Para nós parece tão natural que o Sete de Setembro seja a nossa data maior, o marco da Independência, que é muito difícil imaginarmos uma outra situação diversa. Esse fenômeno não é exclusividade nossa, também ocorreu com o 14 de Julho na França (data da Queda da Bastilha, durante a Revolução Francesa), com o 4 de Julho nos Estados Unidos (data de sua Independência), e com tantos outros países.
A “escolha” de uma data, ou seu reconhecimento como “marco”, não é uma questão “isenta” de interesses, não é um dado objetivo, mas uma peça fundamental na construção da história que se deseja perpetuar.
No caso da Independência do Brasil o processo se deu de modo incerto, errático, construido dia a dia e somente consolidado muitos anos depois. Basta lembrarmos que o monarca que aqui ficou, Dom Pedro, era filho primogênito de Dom João VI e, portanto, herdeiro do trono português, assim, com a morte do rei de Portugal, o Imperador do Brasil teria sob sua coroa novamente os dois reinos (e esta situação somente foi solucionada com a abdicação de D. Pedro I em 1831 para reinvindicar o trono português e tornar-se, lá, Dom Pedro IV).
O processo de independência brasileiro teve alguns momentos chave, independentemente de se tornarem “datas nacionais”: o Dia do Fico, a dia do “Grito”, a Aclamação de Dom Pedro, entre outros, os quais foram tecendo o processo político que consolidou a independência.
Obviamente que a separação política de Portugal somente teve efeito pelo endosso, participação de parte das elites, as quais interessava a independência. Nem foi um processo tocado a revelia ou contra a família real (como no caso das colônias de Espanha nas Américas ou dos EUA), nem foi um processo tocado por um herdeiro rebelde, contra sua família ou contra as elites coloniais. Daí, também, a singularidade de nossa Independência.
Com isso a “história de nossa Independência” deveria atender as necessidades tanto da família real brasileira (mesmo após a abdicação de Dom Pedro I, mantida na figura de seu filho, Pedro II) quanto das elites que apoiaram a separação. Em cada um dos momentos do processo que levou a separação de Portugal uma feição do jogo político se ressaltava: na aclamação, por exemplo, enfatizava-se o reconhecimento, a chancela do “povo” ao monarca Pedro I, o 7 de setembro enfatizava a personalidade do príncipe, sua “decisão pessoal”, seu caráter “heróico”.
Por isso a escolha da data nacional dependia de qual momento seria eleito como o do “nascimento da nação”. Para os que desejavam estabelecer uma monarquia muito mais liberal no Brasil, com poderes bastante limitados ao Imperador, era muito mais desejável que a data nacional fosse a da Aclamação, ou a da Constituição do Império (cuja primeira versão foi vetada por Dom Pedro I pos restringir demais seus poderes). Por outro lado, para Dom Pedro I, depois seu filho, e para os grupos mais próximos à monarquia e mais conservadores o 7 de setembro era muito mais adequado, pois atrelava a independência brasileira a virtude do Imperador.
Não foi sem muito debate, brigas, idas e vindas, que o 7 de setembro se consolidou como data nacional brasileira e isso revela a força que os grupos conservadores assumiram não somente na política imperial brasileira, mas, também, na “construção do estado nacional”, o que implicava, inclusive, na decisão de “como ensinaremos nossa história”.
E foi essa que ficou, se consolidou e desdobrou, deixando marcos comemorativos pelo país todo. E, depois de tantas e tantas décadas, a lembrança de quem nem sempre o Sete de Setembro foi nossa data nacional praticamente se esvaiu, consolidando, finalmente, a figura de Dom Pedro I e os episódios – que dificilmente saberemos como efetivamente foi – ocorridos as margens do riacho Ipiranga na volta do Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, após sua visita a São Paulo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil, Memória e história
Tags: Comemorações, Data Nacional, Dom Pedro I, Independência, Sete de Setembro
04/09/2009 - 06:15
Ulisses Guimarães discursava no plenário da Câmara, em Brasília, 1979, defendendo a promulgação da Lei da Anistia, mas titubeava a respeito do âmbito dessa anistia. Atrás dele um coro de deputados e nas galerias manifestantes, sobretudo parentes de exilados, “soprava” ao ouvido do deputado as três palavras que queriam ver inclusas no texto final: Ampla, geral e irrestrita.
Ulisses Guimarães acabou por empregar as três para definir o perfil da Anistia que defendia, não sem sentir a pressão em sua nuca vinda das galerias do plenário da Câmara.
Ocorre que há anos se discutia o estabelecimento de uma anistia como passo primordial para a pacificação dos ânimos, para a conciliação política do país, o reestabelecimento da democracia, mas, mais difícil do que abraçar a idéia da anistia era definir os limites dela.
Ela contemplaria ambos os lados? Ditadura e oposição? Ela seria aplicável a militares? Cobriria acusados de crimes de morte? Reestabeleceria direitos políticos também? Inúmeras questões que se relacionavam diretamente com as três definições sopradas ao ouvido do deputado: “Ampla, geral e irrestrita”.
Esse modelo significava que ambos os lados em toda e qualquer circunstância seriam anistiados, sem qualquer senão para os acusados e, teóricamente, impossibilitando ações futuras contra indivíduos em específico (daí, recentemente, ter ocorrido a barafunda no judiciário no julgamento de um militar acusado da prática de tortura durante a ditadura. Ele não poderia ser condenado pelo fato de ter sido “anistiado”, mas foi reconhecido como responsável por um crime, o que gerou revolta de alguns militares e mesmo de alguns juristas).
A campanha pela Anistia somente ganhou força no Brasil por conta da mudança no perfil dos exilados a parti do segundo momento da Ditadura. Após o Golpe de 64 o primeiro grupo de exilados era composto por políticos históricos ligados ao antigo governo Vargas (como Jango e Brizola), líderes históricos das esquerdas (como Prestes do Partido Comunista e Francisco Julião das Ligas Camponesas) ou gente ligada diretamente ao governo (como Darcy Ribeiro, da Casa Civil, Santiago Dantas, economista). Em suma, os cabeças do regime que os golpistas desejavam derrubar.
Porém, depois de 1969, com a promulgação do AI-5, o governo ditatorial acentuou sua brutalidade e isolou os grupos de militares mais moderados, os quais haviam liderado o governo entre 1964 e 1969. Com isso teve início os chamados “Anos de Chumbo”, o período mais violento da ditadura e que passou a envolver grupos de militantes até então distantes da disputa. Além disso o regime pós 69 passou também a perseguir grupos artísticos e intelectuais que não necessariamente militavam, mas cujas idéias ou estéticas incomodavam aos ditadores. Nesse torvelinho estudantes, professores universitários, poetas, músicos, diretores de teatro, atores, passaram a ser alvo da perseguição política, a qual, muitas das vezes terminava com o exílio.
Com a subida de Geisel ao poder começa o período que chamamos de “Distenção” com a flexibilização do regime ditatorial, a chamada “distenção gradual” liderada pelo General Golbery do Couto e Silva. Mesmo assim o regime permanecia sendo uma ditadura, o que levou a muitos jovens de classe média a buscarem uma espécie de auto-exílio.
Assim, na segunda metade dos anos de 1970, acumulavam-se em alguns países preferenciais (México, França, EUA, Canadá, Inglaterra) três grupos de exilados: Militantes históricos, exilados desde 1964, exilados por motivos ideológicos e estéticos, mas não necessariamente militantes, saídos do país após 1969, e, por fim, jovens que decidiram acrescentar ao seu curriculo um período de auto-exilio, quando este já não era da rudeza que tivera entre 1964 e 1974 aproximadamente.
De fato foi apenas quando o segundo grupo foi mandado para fora do país que a classe média brasileira, que em boa medida sustentara politicamente a ditadura, começou a sentir na própria carne os absurdos do regime. Enquando eram líderes políticos a serem exilados a classe média brasileira se calou, decidiu abrir a boca e retirar seu apoio quando seus filhos, amigos, conhecidos, parentes entraram na barca dos esquecidos em algum país mundo a fora.
O terceiro grupo, dos auto-exilados, praticamente não contou nessa equação.
A perda do apoio da classe média foi um golpe definitivo na sustentabilidade da ditadura e coincide com a distenção (uma resposta a esse grupo social). É quando surgem as primeiras manifestações pró-anistia.
Muitos decidiram não esperar a anistia geral e voltaram ao Brasil por conta e risco, apostando que o regime não os tocaria diante da crescente perda de apoio. Foi o que fez, por exemplo, Darcy Ribeiro (o qual, portador de um tumor no pulmão, creditava sua permanência no Brasil a um ato concendido a um morimbundo).
Henfil, irmão do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (exilado no México), tornou-se o grande propagandista da campanha pela Anistia, desenhando incansavelmente sua famosa Graúna militando pela Anistia. Nesse processo João Bosco e Aldir Blanc compuseram a música que se tornou o hino do movimento: O Bêbado e a Equilibrista, cantada por Elis Regina (que tomou isso como uma reconciliação com Henfil, com quem brigara por ter cantado anos antes na Olímpiada do Exército). Na canção se diz “que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete…na nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarisses…” alusão a D. Maria, mãe de Henfil e Betinho e Clarisse Herzog, esposa do jornalista assassinado durante tortura em São Paulo, Vladimir Herzog.
Com o crescimento da campanha levas e levas de exilados não esperaram a aprovação da lei, e todo desembarque nos aeroportos brasileiros eram verdadeiras festas e atos pela assinatura do texto definitivo.
Curiosamente a lei da Anistia apenas consolidou – quando foi finalmente assinada – uma situação “de fato”, o retorno dps exilados. E foi um passo importante rumo a redemocratização do país, embora ainda tivéssemos de esperar mais dez anos para votar livremente (responsabilidade direta de muitos políticos que hoje pintam de democratas, mas que articularam nos bastidores em 1984 contra a aprovação das Diretas já, ou que se beneficiaram diretamente do estabelecimento de uma “ditadura civil”, sem farda, mas ditadura, como José Sarney, o mesmo…)
Há poucos anos o cartunista Angeli publicou uma tira que acho genial a respeito da ditadura e da Anistia. Estava lá: Anistiados, primeiro quadrinho, o general, segundo quadrinho, o torturador, terceiro quadrinho, o guerrilheiro, quarto quadrinho “Menos o Zé, o trabalhador”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Anistia, Ditadura, Golpe 64, Henfil, Tortura
02/09/2009 - 07:00
Porque nos mantivemos como uma país unido após nosso processo de independência enquanto nossos vizinhos de fragmentaram em inúmeras nações?
Essa é uma pergunta que segue a história do pensamento brasileiro desde que se consolidou nossa Independência política no começo do século XIX. Mais uma das questões primordiais que raramente são colocadas às pessoas, e que levam a imaginarem que a história tem um certo ar de “coisa pronta”, favas contadas. Tal como a Independência é tratada na maioria dos colégios, e mesmo na mídia, resta um ar de que ou foi fruto de um ato isolado e intempestivo do Príncipe Regente ou uma sequência “natural” do nosso período colonial.
Nem uma coisa, nem outra.
Também é muito comum se ouvir dizer que nos mantivemos unidos pois havia uma língua em comum, cercados por povos colonizados pelos espanhóis, que eramos uma única colônia enquanto os territórios coloniais espanhóis estavam divididos em vários vice-reinados.
Mais uma vez isso não se sustenta.
Às vésperas da Idependência o Brasil não era visto, nem compreendido pelos seus habitantes, como um único território, o Grão Pará e o Maranhão, por exemplo, abarcavam toda a região amazônica portuguesa como território administrativamente autônomo ao restante da colônia, formando, em verdade, dois grandes blocos. Em termos de colonização também não havia qualquer uniformidade: no sul uma forte presença hispânica, por conta dos séculos de disputa territorial, no nordeste resquícios da presença holandesa, e traços de tentativas de colonização francesa em alguns pontos, sem contar a influência inglesa em outras áreas, como na bacia do Amazonas.
Por outro lado, nossos vizinhos espanhóis também tinham uma língua para uniformizá-los, e a existência dos Vice-Reinados (três deles) não contribuiu para a formação de apenas três novos países, mas de muitos mais.
Então, porque o Brasil, cuja independência se deu quase que simultaneamente a dos países de colonização hispânica, se manteve unido enquanto eles se dividiam e dividiam cada vez mais?
Esse assunto já rendeu milhares de páginas de estudos, mas, hoje, tendemos a admitir como hipótese mais consistente a que contempla os seguintes motivos:
1 – Nossa independência foi conduzida pelo próprio Príncipe Regente, herdeiro direto do trono de Portugal, em associação com parte das elites brasileiras. Isso impediu que a separação de Portugal se desse através de uma guerra de independência, a qual teria de ser tocada por lideranças locais.
2 – Esse Príncipe Regente muito provavelmente nutria esperanças, bem como seu pai – Dom João VI – de que, passadas as turbulências políticas, o Império Português pudesse ser recomposto na figura de Dom Pedro (I para nós e depois IV para os portugueses), Imperador do Brasil e herdeiro do trono português. A fragmentação do território, assim, não interessava a ele, Dom pedro, nem a Dom João VI, nem a parte das elites envolvidas no processo.
3 – As próprias elites brasileiras viam na manutenção da unidade, e do próprio D. Pedro, a garantia de certa estabilidade, a qual havia se dissolvido nas colônias espanholas, gerando prejuízos astronômicos. Além disso, durante um processo revolucionário sempre há a possibilidade de que surjam grupos e líderes populares fora do controle das elites, podendo encaminhar o processo para rumos inesperados e desastrosos para os grupos de proprietários.
4 – A pouca participação popular no processo de Independência no Brasil, e um pouco mais significativa nas colônias espanholas, o que gerou situações que tenderam a fragmentação lá, e, ao mesmo tempo, um desacordo mais sistemático entre as elites criolas (espanhóis nascidos nas Américas) de que regime de governo adotar (república, monarquia, monarquia constitucional, etc.) e da conveniência ou não de manter a unidade territorial e política.
Como sabemos nos mantivemos unidos, enquanto nossos vizinhos se fragmentaram acabando com os sonhos de um dos líderes da independência dos países hispânicos, Simon Bolívar, o qual desejava vê-los unidos. Mas isso tudo não se deu senão ao longo de décadas de disputas, negociações, tratados e conflitos que por muito pouco não promoveram a fragmentação também do nosso território – como quase ocorreu com o levante Farroupilha. Por isso, hoje, dizemos que não tivemos uma “Independência”, mas um “Processo de Independência” acompanhado em boa parte da “Construção do Estado Nacional Brasileiro”, ou seja, do Brasil como país (na época como Império, o que também tem a ver com a idéia de manter as especificidades regionais, diferentemente de um “Reino” onde subentende-se uma unidade a priori). Esse processo teria se completado apenas na década de 1850, quase 30 anos após o famoso 7 de setembro (o qual também somente foi aceito como “data nacional” ao longo do processo e dos acordos políticos).
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Formação Estado Nacional, Independência, Sete de Setembro, Unidade
17/08/2009 - 07:00

De tempos em tempos aparece alguém dizendo que uma das pragas de nossa formação histórica é justamente o fato de termos sido colonizados pelos portugueses e não por algum outro povo europeu não latino, como ingleses, alemães ou holandeses.
Esse tipo de argumentação tem ficado cada vez mais raro, mas ainda aparece aqui ou acolá. Reflete o que boa parte dos brasileiros aprendeu nas escolas nas últimas décadas, somado ao estado de “perplexidade”, de estagnação, que o país viveu durante anos, sobretudo durante o período da ditadura militar.
O cálculo dos que ensinavam, e de muitos que aprendiam, era o seguinte: os Estados Unidos da América também foram colônias (13 no começo) da Inglaterra, e se tornaram um país sólido, avançado, economicamente forte. Nós também fomos uma colônia, portanto não seria a colonização em si a responsável pelo atraso, mas a matriz, o povo que conduziu a colonização.
Essa argumentação também traz no bojo certo comodismo e dissimulação, pois joga na matriz colonial todas as mazelas pelas quais passamos ao longo de nossa história, inclusive aquelas ocorridas após a independência. Certa feita, num programa do Jô Soares (não me lembro se já era na atual emissora, mas, se não me engano, foi na época do lançamento do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado), o entrevistador perguntou ao escritor português José Saramago se ele não pensava que parte de nossas deficiências eram de responsabilidade da colonização portuguesa. Saramago respondeu: “Bom, você culparam Portugal pela colonização, depois de independentes culparam a Inglaterra pela dominação no século XIX, depois vieram os americanos e os culparam também. Quando é que vocês vão assumir a responsabilidade pelo seu próprio futuro?”
Ao mesmo tempo, na interpretação de nossa história, surgiu a tese de força de que nossas mazelas nem eram decorrência da colonização em si, nem da nação que nos colonizou, mas da “forma” ou “modelo” de colonização. Lembram da história de “colonização de povoamento” X “colonização de exploração” (sinto arrepios só em citar essa história…)?
Essa linha de interpretação tomava os EUA como modelo ideal de colonização de povoamento – por isso teria “dado certo” – ao passo que nós – modelo de “colonização de exploração” – havíamos nos tornado a pátria das desigualdades e do atraso. Um dos grandes responsáveis pela difusão dessa tese foi o historiador Caio Prado Jr. a partir dos anos de 1940.
Mas, e o sul dos EUA? Escravismo, monocultura, latifúndio… E nossas “MInas Gerais”: exploração mineral, trabalhadores livres em boa medida, propriedades menores. O modelo de “povoamento” X “exploração” também não parece muito funcional.
Mas, mais do que “modelos” o que merece ser questionado é o conceito de “dar certo” ou “dar errado”, de “desenvolvimento” e de “justiça social”.
No meio dessa discussão sempre houve quem lembrasse da ocupação holandesa no nordeste como uma “incrível oportunidade perdida” de termos tido uma “história ligada a uma nação desenvolvida”, como se fosse nossa chance de passar para o lado no qual os EUA supostamente estariam.
É claro que as argumentações em geral cortam aquilo que lhes é menos favorável. Mas, vamos lembrar um pouco o retrospecto da invasão holandesa.
Os “Países Baixos”, por questões sucessórias, estavam ligados a Espanha, mas se rebelaram, declarando-se independentes. No último quartel do século XVI a Espanha e os Países Baixos se encontravam em franco conflito.
Portugal era parceiro comercial dos holandeses no refino, transporte e distribuição do açúcar na Europa, bem como no financiamento da lavoura e até mesmo no tráfico de escravos africanos. Contudo, após a morte do herdeiro português Dom Sebastião, o jogo político e econômico europeu mudou.
Também por questões dinásticas o herdeiro do trono português era o rei de Espanha, Filipe II, o qual fez valer seus direitos. Em 1580 estava consolidada a chamada “União Ibérica”, com os dois reinos sob o controle do mesmo monarca (situação que se extenderia até 1640). Não seria tolerável que uma colônia pertencente a Portugal tivesse como parceiro comercial principal inimigo da Espanha. Diante disso se ordenou a interrupção de todo o trato com os Países Baixos, representado nesses negócios pela Companhia das ìndias Ocidentais (a W.I.C.).
Os holandeses decidiram contratacar tomando as regiões produtoras de açúcar: Pernambuco, Bahia, Paraíba. A empreitada toda foi pensada como uma ação ecônomica, da qual, inclusive, se venderam ações na bolsa de Amsterdã.
A invasão – tarefa extremamente custosa – não foi nada fácil e em diversas regiões os holandeses foram expulsos, como da Bahia. Finalmente conseguiram se assentar em Olinda e Recife, controlando a produção da Zona da Mata pernambucana, não sem que os engenhos fossem severamente avariados (o que exigiu mais investimentos para recuperar a capacidade produtiva).
Excetuando os investimentos que foram realizados por ordem do homem forte da W.I.C., João Maurício de Nassau, e a liberação da pratica religiosa (os Países Baixos eram predominantemente compostos de protestantes calvinistas, com grande presença de judeus), pouco se alterou no regime: a escravidão e o tráfico continuaram sendo as bases do trabalho, o açúcar continuou sendo o principal produto, a monocultura extensiva permaneceu como a base da organização espacial e comercial.
Mas houve que visse na ocupação holandesa algo “especial”, como um período áureo da história regional.
Nassau foi diversas vezes acusado de corrupção e enriquecimento ilícito às custas da W.I.C., um dos fatos pelos quais foi retirado do cargo. Quando estourou a Guerra de Restauração, após o fim da União Ibérica e retomada da Independência por Portugal (1640), empreendida em sua maioria por colonos, praticamente sem ajuda do exército português, a resposta holandesa foi violetíssima e as propriedades novamente destruídas (o caos instaurado pelo conflito foi o fermento para o crescimento da confederação de quilombos de Palmares, na Serra da Barriga).
Depois da expulsão do holandeses – após, inclusive, o pagamento de “indenização” por Portugal – a região demorou muito a se reorganizar e retomar sua vida, e os antigos invasores foram desenvolver sua própria cultura do açúcar nas Antilhas, tornando o mercado do produto cada vez mais competitivo e com margens de lucro apertadas.
De qualquer modo os holandeses tiveram a oportunidade de fazer das Antilhas um “Canadá” ou um “EUA”, mas não fizeram. O fato é que cada região teve suas especificidades históricas, sociais, culturais, e como diria Marx “Os homens fazem a história, só não o sabem como”. Os “modelos explicativos” em geral mais empobrecem do que elucidam os problemas.
Mas numa coisa tivemos vantagem inquestionável: Jamais passamos pelo constrangimento de torcer numa copa pelo “Carrossel Holandês”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Holanda, Invasão, Nassau, Olinda, Países Baixos, Portugal, Recife, União Ibérica
23/07/2009 - 06:55
No filme A Missão do diretor francês Roland Joffé, Robert De Niro faz um caçador de indígenas espanhol, Dom Rodrigo, que após matar seu próprio irmão num duelo para a limpeza de sua honra (o irmão lhe traira com sua noiva) abandona a vida que levara até então e entra para a Companhia de Jesus, a Ordem Jesuítica, como forma de expurgar sua culpa.
Um paradoxo curioso, uma vez vez que foram justamente os jesuítas que se dedicaram com maior empenho a catequização dos indígenas nas Américas e encarnaram durante dois séculos e meio o grande poder em oposição aos colonos e bandeirantes na disputa pela “administração” dos povos nativos. Dom Rodrigo de caçador de índios passa a catequizador, num processo absolutamente traumático.
O filme foi bancado com dinheiro proveniente da própria Companhia de Jesus, como parte das ações da mesma a fim de se contrapor a boa parte da literatura que tratou-a como mais uma “destruidora dos povos nativos americanos”. Sem querer se despir da indefensável responsabilidade por “descaracterizar” e promover o esgarçamento dessas sociedades indígenas, os jesuítas procuravam no filme de Joffé se colocar em campo diverso daquele reservado aos bandeirantes, colonos e outras formas de caçadores de indígenas.
A verdade é que, boa parte dos historiadores ao longo do século XX tratou os jesuítas quase como bandeirantes de batina, um equívoco severo. A antiga Companhia de Jesus teve responsabilidade sim na desestruturação das sociedades nativas das Américas, mas certamente eram muito diversos dos “caçadores de escravos”.
Apesar do filme se passar numa floresta tropical, um universo “amazônico”, a história foi claramente inspirada nas chamadas Guerras Guaraníticas, que colocaram em lados contrários jesuítas e indígenas (quase todos guaranís, daí o nome) e os exércitos de Portugal e Espanha. A tragédia da dizimação das missões jesuíticas, da escravização de boa parte de seus indígenas, da expulsão dos religiosos das Américas (seguida da extinção da ordem pelo Vaticano) em meados do século XVIII teve como cenário a região que hoje conhecemos como Sete Povos das Missões, patrimônio localizado no interior do Rio Grande do Sul.
A região de Sete Povos recebeu indígenas e jesuítas em fuga diante dos ataques de bandeirantes paulistas realizados nas antigas missões, no século XVII, localizadas nas margens dos rios Tibagi e Paranapanema, hoje estado do Paraná. Se deslocaram mais ao sul, na esperança de que a distância do núcleo de onde vinham os caçadores de indígenas, a vila de São Paulo de PIratininga, tornasse o negócio menos atraente e mais perigoso.
O resultado dessa “internação” dos jesuítas e guaranis foi a criação de um verdadeiro “estado indigena religioso”, de magnitude inédita no mundo. As igrejas, das quais restam as ruínas em Sete Povos, construidas em pedra entalhada, cantaria, demonstram o refinamento das artes e ofícios aprendidos pelos guaranis. Música, teatro, escultura, em Sete Povos das Missões os jesuitas chegaram o mais próximo daquilo que imaginavam ser a construção de um “paraíso terrestre”.
Contudo, tal organização, com milhares e milhares de indígenas, não só impediu a continuidade da economia de apresamento dos paulistas, como se tornou algo absolutamente incomodo para as coroas ibéricas. O todo poderoso ministro português de Dom José I, o Marquês de Pombal, tinha calafrios ao ouvir falar em jesuitas. Nutriu por eles ódio mortal por toda a vida e não poupou esforços para acabar com a ordem religiosa.
As coroas temiam que a região das missões se tornasse uma estado rebelde, nem espanhol, nem português, religioso, com gestão autônoma. Essa foi a gota d’água, a sentença de morte para as missões. Em uma situação inusitada – por conta dos séculos de guerras e disputas um com o outro – os exércitos de Portugal e Espanha atacaram conjuntamente as missões. Da resistência indígena surgiram inúmeros mitos, entre eles o de Sepé Tiarajú, lider indíegan que comandou os guaranis até mesmo após a destruição das missões.
Em verdade, boa parte da resistência indígena se deveu ao medo profundo de que o encerramente das missões decretasse a escravização de milhares e milhares deles (temor justificável e plenamente comprovado).
Muitos indígenas conseguiram fugir e se internar em regiões ainda mais distantes, mas os Sete Povos desapareceram como estrutura, como sociedade.
Certa vez, conversando com Alfredo Bosi, lhe perguntei o que significou a expulsão dos jesuítas das Américas, e ele respondeu: Uma perda incomensurável nas artes, nas letras, na ilustração que se configurava com os indígenas.
Bosi tem absoluta razão. Embora a ação religiosa jesuitica tenha desarticulado as sociedades indigenas tais como eram ate então – mas disso não tinham a mesma concepção do que nós, hoje – o esforço empreendido para com os indígenas foi não só para a catequeze, mas para a construção de uma civilização, que, diante do que ocorria no restante do continente com os indígenas, era uma ação transformadora e, talvez por isso dizimada, em grande medida “subversiva” diante dos olhos das coroas ibéricas.
Nos campos do interior do Rio Grande do Sul repousam as ruinas de Sete Povos, um dos episódios mais dramáticos e comoventes da história das Américas, onde sonho e pesadelo se sucederam com intervalo de poucas décadas. Patrimônio histórico protegido, preservado, guarda em suas paredes caidas, tetos destruídos, o testemunho da fúria que se abateu sobre as missões e da resistência digna, ainda que ineficaz, dos guaranis.
Sítio histórico brasileiro, administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, Sete Povos das Missões merece ser conhecido por todos, e diante daqueles esqueletos de pedra conduzir a imaginação ao século XVIII, numa reverência as histórias, a grande e as pequenas, das vidas de cada um dos indigenas e religiosos que viveram e morreram ali.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História Moderna, História da América Latina, História da cultura, História do Brasil, Patrimônio histórico
Tags: Bandeirantes, Companhia de Jesus, Espanha, Guerras Guaraniticas, IPHAN, Jesuitas, Portugal, Rio Grande do Sul, Sete Povos das Missões, Sitio histórico
21/07/2009 - 07:00
Dana Merril, fotografo dos EUA encarregado de registrar os trabalhos da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no meio da selva amazônica, nos deixou um dos mais valiosos conjuntos de imagens da luta do homem contra a natureza, a qual, como sempre, se mostrou trágica.
Hoje a coleção de imagens pertence ao acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, o Museu do Ipiranga, e estão preservadas para a posteridade, depois de passarem décadas em risco de desaparecimento. O mesmo não se pode dizer de parte dos elementos materiais que um dia constituíram a estrada de ferro, nem da memória de seus trabalhadores e descendentes.
O acesso ao coração da América do Sul foi um desafio desde o início da colonização européia, no século XVI, e talvez até mesmo dos povos ancestrais que habitaram as Américas pelo que as escavações arqueológicas vêm mostrando nos últimos anos. Apesar de se associar com frequencia a Amazônia ao isolamento, espaço ermo, de difícil acesso, essa idéia somente é válida com algumas observações.
Praticamente toda a Amazônia é ocupada há milênios, com maior ou menor intensidade, e os grandes cursos fluviais da região permitiram tráfego regular tanto aos povos nativos quanto aos colonizadores. A colonização das margens do Amazonas, do rio Negro, Tapajós, Jaú e outros tantos da região é praticamente contemporânea a colonização do litoral nordestino (sempre tida como das mais antigas).
Mas essa antiguidade não significa que o trânsito tenha sido – ou seja – fácil. Algumas rotas são particularmente difíceis e ainda hoje são desafios significativos. Em toda a região amazônica, talvez, a mais temida seja a do complexo de rios que une o Guaporé, o Madeira, o Beni (na Bolívia), o Mamoré, rota “natural” para quem pretende ir ao coração do continente, mas que como quase nenhum outro trajeto cobrou vidas humanas ao longo dos séculos.
As tentativas de se estabelecer uma rota regular para ligar as regiões do Guaporé até o litoral atlântico por via fluvial são muito anteriores a Estrada de Ferro Madeira Mamoré e antes mesmo do surgimento das máquinas a vapor. Desde o século XVIII, quando a Coroa Portuguesa mandou erguer Vila Bela da Santíssima Trindade, a beira do rio Guaporé, para garantir seus limites territoriais diante da Espanha, que sucessivas tentativas foram empreendidas com o objetivo de encontrar saída mais rápida e menos tortuosa para o oceano Atlântico.
Em geral a rota empregada para se chegar até a beira do Guaporé literalmente cortava o continente, indo através de Goiás ou por rio cruzando São Paulo e Mato Grosso (sempre “capitanias” e não “estados” nesse período).
Contudo a série de corredeiras, quedas d’água, grupos indígenas hostis, bandos de espanhóis armados e diversas doenças – sobretudo a malária – sempre manteve a rota em condições precárias de funcionamento.
Os planos para vencer a série de cachoeiras vem desde este período e atravessou todos os planos de construção de ferrovias no trajeto.
O fato é simples: com os saltos os comboios de barcaças e canoas devia ser descarregado, a carga carregada nas costas para subir ou descer a cachoeira através das margens. As canoas e barcaças rebocadas lentamente com cordas através do próprio salto ou em picadas abertas em terra firme, sempre demandando dias de trabalho extenuante nos quais, para piorar, as expedições ficavam ainda mais expostas aos riscos.
Com a independência dos países da América Latina as tensões de fronteira – que haviam marcado as relações entre Portugal e Espanha ao longo do período colonial – mudaram de sentido e a Bolívia recorrentemente solicitou ao Brasil que permitisse e axiliasse na obtenção de uma saída para o Atlântico. Os primeiros estudos para a construção da ferrovia datam da década de 1860.
É claro que também Brasil e Bolívia tinham inúmeros problemas fronteiriços, dentre os quais o que acabou por ceder ao primeiro o território do Acre, de posse boliviana, mas ocupado por seringueiros brasileiros.
Na negociação para a solução do problema a Bolívia colocou como condição a construção de uma rota de saída para o mar. Em verdade a situação piorara para os bolivianos quando no último conflito entre eles, peruanos e chilenos (1882). No conflito a Bolívia perdeu sua última saída para o oceano Pacífico, ficando completamente cercada no interior do continente, e sendo obrigada a aceitar a tributação peruana, ou chilena, para importar e exportar.
Até sua conclusão, já no período republicano, o empreendimento passou pelas mãos de estadosunidenses, ingleses e brasileiros e todos sifreram diante de um dos territórios mais inóspitos da Terra (retratado por Manoel Rodrigues Ferreira em A Ferrovia do Diabo e Francisco Foot Hardman em Trem Fantasma: a modernidade na selva). Além dos embates com indígenas caripunas e ataques de animais selvagens a malária, mais do que qualquer outro inimigo, ceifou a vida de centenas e centenas de trabalhadores alemães, chineses, italianos e brasileiros que se enfurnavam na selva durante o boom das mega construções.
Processo semelhante, e ainda mais cruel, ocorreu durante a construção do Canal do Panamá. A mortalidade nessas obras era tão grande que costumava-se a contabilizar os mortos por números de quilômetros ou de dormentes (exageros, é claro, mas que não reduzem os elevados números de óbitos).
O fato é que, mesmo concluída, Madeira-Mamoré jamais conseguiu se sustentar na floresta de modo estável. As fotos de Dana Merril mostram cenas assustadoras de trechos inteiros de trilhos engolidos por valas ou arrastados por enxurradas, no meio de um mundo de lama e água. De fundo sempre uma muralha de árvores testemunhando silenciosamente o trabalho sem fim dos operários.
O paradoxo da situação encontra-se justamente neste choque entre a idéia de “modernidade” encarnada pela figura da locomotiva – símbolo de uma época – e da incapacidade de se sustentá-la diante do universo natural. Euclides da Cunha, ao visitar a região dos seringais no Acre (de onde surgiu sua obra A margem da história), dizia que na Amazônia tudo é monumental, mas de uma monumentalidade inacabada, agreste, hostil, onde tudo concorre para afastar a presença humana, indesejada. A infinitude de águas e floresta – para ele – era uma natureza em revolução, sem a estabilidade de outras regiões, sem o ambiente mais acolhedor que possibilitava a humanidade.
Depois de idas e vindas a Madeira-Mamoré foi lentamente deixada para tras, para ser devorada pela floresta, com seu território reinvindicado pela “natureza revoltosa” que Euclides viu. Ainda hoje as comunidades da região são relativamente diminutas, embora a floresta tenha encontrado na soja e no gado adversários poderosos e aparentemente incansáveis. Mas, como a história da própria ferrovia demonstra, uma coisa é a vitória circunstancial, outra é a vitória definitiva, e ao que parece a derrota definitiva desse espaço monumental, cobrará antes nossa própria existência.
Mas, insistimos em incorrer em erros semelhantes (A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa como escreveu Marx), caso contrário, décadas depois, não satisfeitos com Madeira Mamoré, nossos ditadores militares decidiram abrir sua versão asfáltica, a Transamazônica. A qual, em boa medida, repetiu a tragédia da Mad Maria.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Amazônia, Bolívia, Brasil, Estrada de Ferro, Madeira mamoré
06/06/2009 - 07:09
A cada ano a cidade de São Paulo acumula recordes de congestionamentos. Lembro de que até alguns anos congestionamentos de 60 ou 80 Km eram tidos como “monstruosos”, agora estamos nos aproximando dos 200 Km. Uma série de fatores sempre é lembrada como causa do nosso “infarto urbano”: excesso de carros de passeio, caminhões que cruzam a cidade para irem de um lado para o outro do país, sistema de transportes públicos precário, vias mal conservadas, falta de educação, desrespeito às leis de trânsito, etc, etc.
Sem descartar nenhuma dessas causas eu acrescentaria outras duas, de ordem histórica, e que continuam sendo precariamente combatidas pelos poderes públicos. Anos atrás, quando comecei a estudar a evolução urbana da cidade de São Paulo, por conta dos trabalhos em arqueologia, fiquei impressionado com duas conclusões.
A cidade de São Paulo se desenvolveu desde seus primórdios como área de entrocamento, de encruzilhada, de rotas que ligavam diversas regiões da colônia. Do extremo sul vinham as rotas que traziam animais de carga, sobretudo mulas, e carne seca das “charqueadas”, as quais seguiam para Minas Gerais e Goiás. Para isso passavam na área de São Paulo. Depois essas rotas passaram a abastecer também o Vale do Paraíba (região de Guaratinguetá, São José dos Campos, Taubaté) e o Rio de Janeiro.
Também vinham rotas da região de Goiás e do Mato Grosso em direção ao sul ou ao porto de Santos, sempre passando por São Paulo. De Santos, por sua vez, subiam vários produtos, entre eles sal e ferramentas e chegavam através do Caminho do Mar, o qual literalmente entrava na cidade pela região do Ipiranga.
Parte significativa desses caminhos surgidos nos séculos XVI, XVII, XVIII derivavam de antigos caminhos indígenas que eram empregados tanto para trocas comerciais entre os povos originais das Américas quanto para guerras. O próprio Caminho do Mar era em sua origem um caminho indígena. Os jesuítas e colonos quando aqui se estabeleceram se apropriaram do conhecimento dos povos indígenas e, pode-se dizer, que apenas assim conseguiram sobreviver no planalto paulista.
Do centro da ocupação da região, do “quartel general”, a vila de São Paulo de Piratininga, saiam caminhos que ligavam aos assentamentos e aldeamentos jesuiticos que se espalhavam no entorno, como em Pinheiros, Cotia, Itapecerica, Embu. Assim surgiram os caminhos tradicionais da região: o caminho dos Pinheiros, a estrada para Goiás, o caminho do Norte, o caminho do Mar.
Os indígenas, ao escolherem esses traçados, muito tempo antes dos portugueses chegarem, haviam empregado todo seu conhecimento da topografia da região, optando pelas melhores opções de trânsito, considerando que o núcleo original de São Paulo está assentado sobre uma elevação entre dois pequenos vales, o do Anhangabaú e o do Tamanduateí. Em suas “costas” há o espigão onde se localiza a avenida Paulista, exatamente em sua “espinha dorsal”.
Ocorre que esses caminhos eram tão funcionais, tão perfeitamente escolhidos para quem transitava a pé ou a cavalo, que os séculos foram passando, a cidade crescendo, a população aumentando, os transportes mudando, e os itinerários se mantendo. Os antigos caminhos foram mantidos, como pequenas alterações.
O caminho que ia para Pinheiros virou a Consolação-Rebouças, o que ia para os assentamentos jesuíticos virou parcialmente a rodovia Raposo Tavares. Para outra banda da cidade, sobre o antigo caminho do Guaré, surgiu a avenida Tiradentes. Para o Norte surgiu sobre o caminho antigo a Rangel Pestana e no lugar do Caminho do Mar temos a Anchieta. Apesar de todas as modernizações dessas vias – alargamentos, duplicações – nada foi capaz de vencer a obviedade de que os caminhos antigos atendiam a antigas necessidades. Eram ótimos para quem vivia como os paulistas do século XVIII. Hoje viraram problemas.
A segunda constatação é de que, assim como há séculos, as rotas de pessoas e de comércio continuam passando pela cidade, aliás, somente se intensificaram. As mercadorias produzidas nas mais diversas regiões do Brasil continuam cruzando a cidade para chegar até o porto de Santos e tanto as estradas (Imigrantes e Anchieta) quanto a estrada de ferro estão entupidas quase tanto quanto as vias principais da cidade de São Paulo. Ou seja, não conseguimos nesse período de tempo nem imaginar formas melhores de escoar nossas produção, de fazê-la cruzar o país, nem conseguimos repensar a dinâmica de deslocamento das populações dentro da cidade e na região do entorno.
Isso foi ainda mais agravado com a “conurbação” como diriam meus amigos geógrafos, a junção de áreas urbanas de cidades distintas pelo crescimento da ocupação. Ou seja, virou tudo uma gigantesca malha de bairros que se sucedem sem que consigamos perceber claramente quando termina uma cidade e começa outra. Ligando essas regiões ainda estão os antigos caminhos de São Paulo.
Efetivamente a grande idéia em termos de deslocamento é a fuga das áreas centrais, o contorno, coisa que era desnecessária e impensável para quem andava a pé ou de cavalo, mas que para veículos automotores, que ficam horas presos em congestionamento, vale a pena. Por isso o Rodo-anel significa não apenas uma solução técnica, mas uma revolução na mentalidade de deslocamento no planalto paulista. É claro que se tívessemos investido em planejamento urbano isso teria sido começado a ser implantado há décadas. Infelizmente não foi assim.
Agora resta rezar (e cobrar) para que a fuga dos antigos caminhos fique pronta o mais rápido possível – o que parece estar difícil de ocorrer. Mesmo assim, apenas um dos problemas estará resolvido. O do trânsito interno da cidade exige ainda outra revolução mental e estrutural: estrutural para que tenhamos opções de transporte, mental para que os paulistas passem a deixar em casa uma das coisas que mais amam em suas vidas, seus carros.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Anchieta, Caminho do Mar, Caminhos, Cidade, Congestionamento, Consolação, Estradas, Imigrantes, Rebouças, Rodo-anel, São Paulo, Tiradentes, Transportes, Vias
04/06/2009 - 07:31
Boa parte das instituições que organizam o mundo hoje, em suas relações multilaterais, é fruto do pós guerra. Em post anterior eu insistia no quanto a tensão entre a Coréia do Norte, sua vizinha sulista e seus aliados (EUA e Japão) refletem problemas que surgiram há muitas décadas, e que foram acentuados depois da II Guerra Mundial. Da mesma forma, mundo a fora, outros tantos conflitos e organismos são ainda resquícios de um mundo traumatizado e polarizado pelo conflito mundial.
Basta ver o caso do conflito israelo-palestino, ou árabe-israelense, do leste europeu, das antigas repúblicas soviéticas, e, entre nós americanos, entre Cuba e Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), entre outras foram uma resposta a um cenário internacional que havia visto serem desarticulados quase todos os organismos pré-guerra (como a Liga das Nações). Nas Américas foi criada a Organização dos Estados Americanos, a OEA, para tentar ser o fórum de debate continental.
Mas boa parte desses organismos sucumbiu diante de um controle ideológico e econômico que negou as expectativas iniciais de um ambiente plenamente democrático. Na ONU, por exemplo, a presença no Conselho de Segurança (o órgão máximo, em verdade, da instituição, embora no papel seja a Assembléia Geral) das nações vencedoras da II Guerra Mundial (Inglaterra, França, EUA, China e União Soviética, hoje substituída pela Rússia) criou uma situação na qual as centenas de “sócios” tem que se articular a um dos dois lados do Conselho: EUA, Inglaterra e França de um canto e China e Rússia do outro (embora, às vezes, os franceses divirjam de ingleses e estadosunidenses e chineses e russos raramente concordem plenamente). Sem essa articulação é praticamente impossível ver suas demandas observadas dentro da ONU.
Com isso a ONU acabou se tornando uma espécie de “corda” no cabo de guerra da bipolaridade, embora, eventualmente, houvessem situações nas quais blocos assumiam posições divergentes. Pelo menos, na ONU, havia “outro” lado para contrabalancear o jogo político. O mesmo não podia ser dito a respeito da OEA.
Nas Américas, após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos se consolidaram como nação hegemônica e no rompimento das relações diplomáticas entre eles e o governo de Cuba, em 1962, foi realizada dentro da OEA uma operação de rolo compressor a qual levou a expulsão do país socialista de seu quadro de sócios. Somando às sanções e embargos que foram sendo implantados passo a passo, Cuba se viu obrigada a aderir ao bloco liderado pela URSS para sobreviver. O isolamento da ilha acabou por incentivar ainda mais as medidas extremistas do governo socialista na manutenção de seu regime político.
Hoje, quando a Assembléia da OEA determinou o convite ao governo cubano para que volte ao organismo, os governos dos países americanos sinalizaram mudanças significativas que mostram a possibilidade de uma América mais plural.
A primeira mudança foi a constituição de independência diplomática de boa parte dos países, os quais deram o “aval” para a campanha pró-Cuba na OEA. Países como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai foram os avalistas desse processo, e com isso garantiram que países menores, como a Guatemala, pudessem também se manifestar livremente, sem a pressão arrogante dos EUA da década de 1960. Sem esse aval de países democráticos (ok, vão dizer que nossa democracia é falha, etc, etc, mas, como disse Churchil: A democracia é o pior dos regimes, tirando todos os outros.) a pressão de nações ”aliadas” de Cuba, como a Venezuela, Bolívia, Equador, não teriam qualquer chance no conjunto americano.
Vale lembrar que também a pressão desse bloco de países – Brasil, Chile, Argentina, etc. – somente foi possível porque retomaram há quase vinte anos seu caminho democrático e sua estabilidade social e financeira (apesar de todos os problemas que ainda os afligem).
Em segundo lugar tal medida da OEA só foi viável pois os EUA estão enfraquecidos parcialmente e com problemas mais sérios a serem resolvidos. Sua participação na economia mundial despencou na última década, tendência que parece se consolidar agora com a crise (que para Maria da Conceição Tavares tem sua gênese no desequilíbrio da balança comercial entre os EUA e a China, e a favor dos orientais).
Por fim, o próprio governo dos EUA está mudando. A eleição de Obama foi uma sinalização clara do povo americano que eles querem “soluções”. O fato é que até a gestão de George W. Bush a população estadosunidense chancelou a força bruta como método de convencimento do restante do mundo. Mas ela somente trouxe mais problemas, nenhuma solução: o país ficou mais pobre, mais vulnerável, mais antipático, mais distante do futuro e das demais nações do mundo.
A política do governo Obama tem sido a de flexibilizar as relações, abrir o diálogo, mas com a difícil tarefa de não deixar transparecer alguma espécie de “fraqueza”, como se eles estivessem “abrindo a guarda” ou “pedindo água”.
Do lado cubano a saída de cena de Fidel Castro (o qual continua emitindo seus pareceres construídos na década de 1960 e 1970, mas sem qualquer relevância política) possibilitou ao governo da ilha aceitar a reaproximação com nações que ignoraram o país durante décadas (o que não significa que muito em breve veremos cubanos e estadosunidenses sentados na mesma mesa de jantar). E, tanto na ilha quando na “América” (como ainda gostam de se referir a sua terra os estadosunidenses) a geração que passa a “apitar” no jogo da política é uma que nasceu após o fim da II Guerra Mundial, e no fim da chamada “Guerra Fria”. Não é a toa que um dos grupos que mais apoiou a candidatura de Obama foi o de exilados cubanos, desejosos de que, com a morte de Fidel, EUA e Cuba consigam conviver em paz e que famílias separadas há muitos anos possam finalmente se reencontrarem, sem ter quer que fugir em balsas de bóias.
Por isso, apesar do governo cubano ter dito que a readmissão na OEA não lhe interessa (e isso faz parte do jogo de “discursos”), a decisão de fazer o convite foi efetivamente histórica e a OEA dá o primeiro passo real, público, para que seja efetivamente o que jamais foi: a Organização dos Estados Americanos e não a Organização dos Estados Unidos da América.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina
Tags: Comunismo, Cuba, embargo, EUA, Fidel Castro, Guerra Fria, Obama, OEA, Pós Guerra, Socialismo
26/05/2009 - 07:21
A arqueologia é uma ciência que depende muito da capacidade interpretativa dos arqueólogos. Essa capacidade, por sua vez, depende da confiabilidade dos dados coletados durante uma escavação.
Grande parte das pessoas imagina que a única coisa que interessa a um arqueólogo durante uma pesquisa são os objetos resgatados durante as escavações, mas isso – hoje – não é mais uma verdade. Através do uso de técnicas modernas de diversas ciências informações cruciais são passíveis de serem obtidas.
Um exemplo que acho genial é a determinação das idade, sexo e época de abate de certos animais selvagens – caçados por homens de sete ou oito mil anos atrás – através da análise da dentição dos mesmos, encontradas em sítios arqueológicos. Alguns tipos de gamos possuem dentes que mudam seu esmalte ao longo do ano, quando morrem esse processo acaba. Assim é possível saber em que época o animal foi caçado e cruzando com dados de vários outros determinar as épocas preferidas de caça de nossos ancestrais.
Técnicas engenhosas como essa são empregadas também para o estudo dos solos, encontrando os tipos vegetais preferidos, ou do revestimento formado em foices de pedra pelo corte continuo de ramos de cereais. Através desses procedimentos é possível se determinar qual era a dieta das pessoas que usaram esses objetos ou viveram em certa região.
Por isso, a cada geração de arqueólogos, surgem técnicas que permitem melhores interpretações dos achados arqueológicos e uma melhor compreensão da vida de grupos humanos que desapareceram há milhares de anos.
A arqueologia nas Américas ficou durante muito tempo dominada pelo estudo das grandes civilizações pré-colombianas, como os aztecas, maias e incas. O estudo da história humana nas Américas antes do surgimento desses impérios demorou bem mais tempo para se estabelecer.
Ainda hoje o grande desafio da arqueologia americana é determinar quando, aproximadamente, a espécie humana aportou no continente. O segundo grande desafio é conseguir mapear a expansão e a ocupação das Américas depois da chegada.
Até alguns anos dominava o cenário o chamado “Dogma de Clóvis”. Clóvis é uma cidade mexicana na qual se encontrou o mais antigo registro humano datado, algo perto dos 11.500 anos de idade. Como os materiais arqueológicos necessitam ser datados e isso nem sempre é possível, Clóvis e seus 11.500 anos foram ficando.
Isso gerou uma luta incansável da arqueologia nos países da América do Sul e central, e mesmo de grupos dos EUA, para derrubar a datação de 11.500 anos.
Surgiram datações estimadas mais antigas rapidamente, mas o problema esbarrava sempre na questão da datação definitiva, o que significa ter a sorte de encontrar materiais orgânicos que permitam os procedimentos de datação por Carbono 14 ou algum outro método. Essa sorte nem sempre acompanha os arqueólogos: as vezes o material encontrado é pouco, as vezes está contaminado, as vezes fora de contexto, impossibilitando a associação direta entre o material datável e o restante do sítio arqueológico.
Mas mesmo quando uma fogueira é datada é necessário ter certeza de que ela foi produzida pela mão humana e não por um raio ou algum outro fenômeno natural. Para piorar a situação, quanto mais antigos os registros mais difícil é se encontrar essas situações ideais.
Por isso as datações obtidas pela arqueóloga Niede Guidon na Serra da Capivara no Piauí, e que indicariam ocupações humanas de mais de 40.000, são combatidas violentamente. Elas são tão rústicas, as fogueiras, que é impossível saber com certeza absoluta se foram feitas por humanos ou não.
Desse modo existem os verdadeiros “fronts” da luta pela escrita da história da ocupação das Américas, regiões nas quais equipes de arqueólogos se debruçam durante anos para tentar trazer luz a estas questões.
Uma dessas regiões é o litoral do Pacífico, no Chile o no Perú. Essa região é importante pois pode trazer novas informações sobre a hipótese de que a América não só foi colonizada por diversos grupos, em levas sucesivas, como também foi de “modos” diversos. Uma das teses insiste que homens das ilhas do Pacífico teriam conseguido chegar às Américas em balsas. Se isso realmente aconteceu, ou se foi o inverso – homens das Américas ocupando as ilhas – a resposta deve estar no litoral do Pacífico.
Outro front continua sendo a fronteira norte, a região do Alaska, por onde teriam cehgado as levas de humanos através do estreito de Bering, nas diversas glaciações que congelavam a passagem. Se o caminho dos humanos pelas Américas começou com uma longa marcha a pé a partir da Ásia os vestígios mais antigos devem estar por lá.
No centro-oeste do Brasil, na região do Mato Grosso, encontra-se outra linha de batalha. O centro do continente – já sabemos – foi uma região de trânsito de povos diversos, que foram se espalhando e se cruzando ao longo dos milênios. É lá que provavelmente teremos uma idéia melhor da formação dos povos americanos modernos, os indígenas que estavam aqui quando os colonizadores europeus chegaram.
Na Amazônia está a grande frente da cultura tupi, uma das mais extensas das Américas. Foi lá, provavelmente, que o amendoin e a mandioca foram domesticados, tornando-se parte essencial da alimentação dos povos americanos. Também entre a Amazônia e os Andes resta a linha de batalha na qual se discute de onde o milho veio, e como foi domesticado e se difundiu.
Nas Minas Gerais, em Lagoa Santa, há o front liderado pelo antropólogo físico Walter Neves, um dos mais terríveis adversários de “Clóvis”. A famosa “Luzia” (uma brincadeira “brasileira” com o famoso esqueleto de “Lucy” encontrado na África e que, até o momento, é o mais antigo) é uma das provas mais contundentes que existem de que a colonização nas Américas começou antes dos 11.500 anos e que não foi realizada apenas por uma matriz ásiática. Luzia tem claros traços negróides ao contrário de boa parte dos povos americanos que é de origem mongolóide.
Em cada uma dessas regiões há os “generais”, arqueólogos experimentados – como Walter Neves, Eduardo Neves, Denis Vialou, Niede Guidon, Tom Dillehey – que a cada temporada de escavação levam seus exércitos de pesquisadores, estagiários, para passar semanas, as vezes meses, lutando para obter resultados cada vez mais reveladores. Esses arqueólogos compõem um grupo restrito que discutem continuamente, mas raramente concordam em muitos pontos, dada a complexidade das situações a ausência de dados definitivos.
Assim, em cada uma desses “teatros de batalha” a história humana nas Américas, antes que o continente tivesse esse nome, continua a ser escrita, tal como um recordista olímpico, lutando para “baixar resultados” e chegar cada vez mais próximo da verdade.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura
Tags: Américas, Arqueologia, colonização, Escavações, Sítios arqueológicos
22/05/2009 - 07:00
Sou um ser “pedestre”. Não que eu tenha uma habilidade para andar diversa dos demais humanos, mas gosto de andar e faço isso todos os dias. Apesar das reclamações intermináveis de amigos e parentes tenho me recusado a usar carro até hoje, não porque não goste deles, mas porque creio assim ter mais tranquilidade. O fato é que andando a pé percebemos coisas que de carro raramente vemos.
Num dos caminhos que faço regularmente para minha casa passo por um trecho de uns dois quilômetros que mageiam um córrego canalizado. Nesse curto espaço de uns dez ou doze quarteirões não há um único dia no qual eu não fique entre a indignação e o desânimo.
Há dois cruzamentos com semáforos e faixas de pesdestres que nunca são respeitados. Nas ruas onde não há semáforo os motoristas fazem as conversões sem sinalizarem (pois pensam que por não ter outro veículo atrás não precisam sinalizar também ao pedestre). Certo dia vi um senhor jogando um saco de lixo no córrego e lhe disse; “Que bonito heim meu Senhor!!”
Ele não entendeu. Quando disse que estava jogando lixo no córrego, que iria entupí-lo, que ia ajudar a promover um alagamento, etc., ele respondeu que era “apenas” um saco de tripas (urgh!). Oras, que jogasse as tripas então em seu lixo…. Não, preferiu jogar no rio, pois não queria passar uma noite com o cheiro ruim. Me deixou falando sozinho.
Há um trecho no qual a calçada está intransitável dada a quantidade de entulho que é jogado lá. Toda semana a prefeitura limpa e toda semana volta a encher. Noutro quarteirão, que não tem entulho, a calçada continua intransitável pois há uma construção e o passeio público virou depósito de material. Tijolos, pedra e areia empurram os pedestres para o meio da rua.
Numa esquina há um posto de gasolina, mas sempre que passo alí tenho receio de ser atropelado, pois boa parte dos motoristas confunde entrada de posto (que é calçada) com continuação da pista. Isso sem falar em lixo jogado pela janela, mães que mandam seus filhos de livrarem de sacos de salgadinhos, embalagens de picolés e papéis de bala em qualquer lugar.
A grande maioria dessas pessoas ou não chega sequer a “pensar” sobre o quanto esses atos tornam a vida nas cidades mais difícil ou imagina que são “errinhos”, bobagenzinhas inofensivas que não fazem mal a ninguém.
Sempre reflito o quanto isso tem seu fundamento na formação histórica da sociedade brasileira. É claro que há que se levantar a história, o processo que levou a isso, sem inocentar o presente. Somos sim os grandes responsáveis por isso e é nossa, não do passado, a obrigação de mudar as atitudes.
Não há um consenso entre historiadores a respeito do quanto nossa sociedade foi formada de modo diverso de outras tantas nas Américas e do quanto a nossa é específica. É claro a falta de educação é mundial, bem como a existência de indivíduos que tem deficiências em cidadania.
No ano passado, nas duas vezes que estive na Argentina, fiquei impressionado como um povo tão mais instruído do que o nosso, tão mais politizado, consegue ser tão pouco cidadão, cometendo absurdos tais como os que nós mesmos cometemos.
Mas aqui, no Brasil, penso que nossa cidadania deficiente vem de uma questão ainda mais profunda. Ao longo da história nossa sociedade foi marcada por uma contraposição frequente entre o poder da Coroa Portuguesa e as populações. Nem sempre era assim, mas com bastante frequencia os administradores coloniais somente apareciam para poder extrair mais benefícios para o poder central.
Em tantos assuntos a administração colonial portuguesa se omitia, deixando a solução dos problemas a cargo de particulares ou de outras organizações, como a Igreja Católica. Assim, com o tempo, foi se consolidando uma imagem de um poder distante das populações, e mais distante quanto menor as rendas, até o ponto de estar totalmente distante, como no caso dos escravos.
A sociedade brasileira, em alguma medida, se formou em contraposição ao Estado. Outra decorrência dessa situação foi a consolidação de uma impressão de que “meu” é somente aquilo que me é particular. O que está do lado de fora não é meu, nem de ninguém. Assim, o espaço público não passou a ser compreendido como “aquilo que é de todos”, mas como “aquilo que não é de ninguém”.
Imagine deixar que alguém jogue lixo na sala de sua casa? Ou que estacione o carro em frente a sua garagem? Ou que quebre a torneira de seu banheiro? Nunca…. Mas raramente alguém fica indignado quando isso acontece nas ruas, pois se esquece que aquilo também é dele.
Para complicar ainda mais o processo some-se a isso os séculos de escravidão, durante os quais foi se construíndo um sistema social no qual os direitos são escalonados e atribuídos de acordo com critérios econômicos, regionais, de cor e de gênero (bases do nosso racismo velado, muitas vezes explícito também).
Mas em outros países não foi assim também? Não exatamente.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a independência do país foi construída por uma adesão maciça da população, formada de pequenos produtores, comerciantes, gente comum. No Brasil a independência e a formação do Estado se deu através de acordos de elites, com pouca ou nenhuma participação popular.
Nos países da América espanhola, em boa parte deles, ou uma expressiva população livre (como na Argentina e no Chile) ou uma larga base indígena (como na Bolívia, no Perú, no México) garantiram a formação de sociedades que tem outras relações com o espaço e a “coisa pública”.
Não que sejam países sem problemas, melhores ou piores do que o Brasil, mas certamente países que tem outras relações entre sua população e o espaço de “todos”.
Daí temos tantas decorrências disso: a falta de participação do brasileiro no acompanhamento das coisas públicas,a ausência de fiscalização dos poderes, deputados que estão “se lixando para a opinião pública”, certo desinteresse pela educação formal, e, até, o farol vermelho cruzado.
O pobre Gérson, jogador da Copa de 70, que teve a zica de emprestar seu nome a pior criação cultural brasileira, a Lei de Gérson, que possuí um único artigo, “Eu gosto é de levar vantagem em tudo”, deve ter, até ele, sentido na pele as implicações dolorosas disso no cotidiano. Inclusive porque com tal disseminação da nossa falta de cidadania todos são vítimas e réus.
Cidadania, de fato, é diverso de “instrução” e até mesmo de “educação”. Instrução significar conhecer algo, ter saberes sobre um certo assunto. Educação é o trato, o respeito entre as pessoas, o trato social. A cidadania é o conceito mais amplo, que desde os antigos gregos (os quais tinham uma cidadania bastante excludente, pois não inseria mulheres, estrangeiros e escravos) envolve a relação do ser humano com o espaço vivido, com a “cidade”. É um conjunto de princípios de respeito para com os outros, para consigo e para com o espaço coletivo, mas que exige empenho, atuação. A cidadania é um conceito que somente pode existir se for ativo, não existe uma cidadania silenciosa, somente receptiva.
E dos elementos – instrução, educação e cidadania – é da última que todos os dias sentimos na prática sua falta.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da América Latina, História da cultura
Tags: Cidadania, Educação
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