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Arquivo da Categoria História contemporânea

25/10/2009 - 12:35

Férias!!!

A prática das ”férias” é uma criação surgida após a Revolução Industrial e a subversão da relação tradicional dos homens com o tempo.

Se alguém perguntasse a um camponês da Idade Média se ele pensava em ter “férias” isso não lhe faria qualquer sentido. Para os homens até o momento da separação da força de trabalho (detentida pelos “trabalhadores”) dos chamados “meios de produção” (máquinas, terras, equipamentos em geral, capital, detentidos pelos proprietários) a vida decorria num contínuo circular, marcado pelo tempo natural (dos eventos da natureza, como as estações do ano) e pelo tempo religioso (das festas e comemorações, quase todas elas também ligadas ancestralmente ao tempo natural e aos fenômenos da natureza).

Com isso a vida decorria sem a expectativa de uma corrida em direção a um fim, a um ponto de chegada, ela era a manifestação humana de um ciclo de nascimento, morte e ressurreição. E isso muito antes do surgimento do cristianismo ou mesmo fora das fronteiras do cristianismo.

A infinidade de sepultamentos em posição fetal dos nossos ancestrais agricultores do período neolítico insinuam a idéia de que, assim como as sementes, nossos corpos eram depositados na Terra-mãe, para que morrendo pudéssemos renascer. E assim eternamente, sem um fim, sem um ponto de chegada.

No cotidiano dos povos trabalho, descanso, diversão, devoção eram práticas que não estavam marcadas, dissociadas umas das outras, fragmentadas, compartimentadas em dias ou horários específicos. Aliás, a própria vida era percebida como um todo e não como algo composto de “partes”: minhas horas de trabalho, minhas horas de descanso, minhas horas de lazer, meu momento de devoção, etc.

Isso tudo começa a se separar com mais clareza a partir do século XVIII quando a lógica do trabalho industrial começa a invadir e pressionar a vida das pessoas. O cotidiano dentro da fábrica independe dos eventos naturais. A noite é subvertida com a iluminação artificial, o trabalho não é mais voltado para a produção de elementos essenciais à vida, mas a produção de artigos comercializáveis, os trabalhadores não dominam mais todo o processo produtivo, mas se especializam em partes específicas dele.

Em contraposição a dilapidação da vida dessas pessoas o movimento trabalhador se organizou e passou a exigir direitos básicos, mas dentro da nova lógica de tempo, de trabalho e mesmo da vida como um todo.

E nisso se inicia uma longa luta que se extende até hoje: direito a descanso semanal remunerado, limite de horas trabalhadas, compensações por acidentes, aposentadoria, licensas de saúde e…férias.

Por isso não fazia sentido falar em férias a um trabalhador que não vivedsse na lógica moderna do trabalho e da organização temporal. Férias, em suma, é a utilização de “tempo acumulado” pelo trabalhador ao longo de períodos de ocupação, tempo este a ser “gasto” de modo concentrado e não distribuido ao longo do ano como nas folgas. Idéia maluca essa, é claro, de se “acumular” ou ”guardar tempo” para se gastar depois.

Mas é o mundo em que vivemos. E assim, usando meu “vale-tempo”, minha “bolsa-tempo”, estou saído de férias e retorno no fim de novembro. Neste intervalo vou tentar escrever de vez em quando de onde quer que eu esteja.

E como diriam lá pras bandas do sul de Minas Gerais: Inté.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
16/10/2009 - 06:58

Identidades e identificações

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Quem é você? A qual grupo humano pertence? O que é esse grupo?

Respostas à perguntas aparentemente tão simples são em geral infinitamente mais complexas. Comece definindo: brasileira(o), morador(a) de tal lugar, adepto de um credo religioso. Cor de pele, profissão, ideologia política, praticante de algum esporte, interessado em alguma atividade adicional.

É isso tudo – e muito mais – suficiente para definir o que alguém é ou o que um grupo é? A impossibilidade em se reduzir o que um ser humano, ou um conjunto de seres humanos, é explica a dificuldade em encontrar e delinear o que habitualmente se chama de “identidade”.

O documento de identidade, o famoso RG, apenas nos reduz a um pequeno conjunto de informações burocráticas que nos ligam ao longo de nossas vidas ao Estado, à unidade política a qual estamos associados do nascimento à morte, mas jamais seria o suficiente para que pudessemos dizer quem é “alguém”.

A coisa apenas se complica quando ampliamos esse conceito de “identidade” para grupos formados por milhares ou milhões de indivíduos: o que é ser brasileiro? Chinês? Operário? Negro? Mulher? Ambientalista? Universitário? Militante partidário?

As ciências humanas – ou sociais – trabalham constantemente com o conceito de identidade, mas, na maioria das vezes incorrem numa espécie de pasteurização das relações humanas, da plasticidade das culturas e do livre arbítrio de cada ser humano.

Basta examinarmos alguém próximo a quem conheçamos razoavelmente bem, com pouco tempo observaremos uma série de posturas, atitudes que são contraditórias se colocadas frente a frente com a idéia de uma “identidade homogênea”.

Nem todas as atitudes do militante condizem com essa condição, o adepto do Partido Comunista que adora os jogos da NBA, a feminista que sempre sonhou em cuidar das crianças, o operário que adora música erudita e não suporta música popular, o universitário que prefere ir ao pagode do que ao show do Chico Buarque. Em verdade toda idéia de “identidade” esbarra no estereótipo e na prática histórica dos grupos humanos de buscar reduzir o diferente a meia dúzia de características, em geral opostas àquelas que imaginamos definirem o grupo ao qual pertencemos.

Todo diferente é um “bárbaro” em alguma medida como definiam parcialmente os gregos antigos, procedimento que carregamos ao longo dos milênios e que é tão difícil de ser vencido.

Recentemente o pensador francês Jean-Pierre Warnier propôs que o termo “identidade” seja substituido por “identificação”.

A diferença básica entre “identidade” e “identificação” é que o segundo conceito opera sobre o princípio da plasticidade e da volatividade das culturas, das relações humanas, dos gostos, das opções pessoais, situação que se ampliou – ou explodiu? – com o estreitamento das relações entre povos e grupos humanos diversos com as tecnologias da informação que avançaram a velocidade da luz na segunda metade do século XX.

Talvez por isso mesmo as situações que nos insinuam paradoxos tenham se multiplicado exponencialmente: japoneses que abraçaram a causa de grupos africanos ou que vêm ao Brasil tocar nas baterias de escolas de samba nos carnavais, jovens de periferias brasileiras que se identificam com ícones da política do mundo islâmico, palestinos que torcem para a seleção brasileira, alemães e holandeses que usam penteados iguais ao de Bob Marley, argelinos nos “banlieu” franceses que se identificam com os afegãos que tentam atravassar o Canal da Mancha em Calais. É claro, os grupos ainda mantêm conjuntos de valores e ítens (como bens materiais, origem étnica, nacional ou religiosa) que lhes garante a coesão, mas essa já não é vista como era há três ou quatro décadas. O mundo se complicou.

E essas “identificações”, elementos que são somados no interior de cada indivíduo e com intensidades diversas, que os ligam a outros indivíduos espalhados pelo globo através de uma rede de comunicação complexa e cheia de meandros e armadilhas (televisão, rádio, internet), se faz e desfaz o tempo todo, com volatilidade jamais vista ou imaginada. Apoios a governos, ONGs, grupos de ativismo podem se fortalecer ou ruir em espaços temporais diminutos com a divulgação de dados de uma balanço financeiro, de um escândalo, de uma atitude incorreta.

Dias atrás o principal candidato a direção da Unesco – braço da ONU dedicado a Ciência, Educação e Cultura -, um embaixador egípcio, viu sua campanha ruir e sucumbir diante da embaixadora belga diante da divulgação de comentários a respeito dos judeus e de atos que teria cometido contra a liberdade de expressão quando ocupava o cargo de ministro da cultura do Egito. Grupos ligados aos direitos humanos, a liberdade de imprensa, ao patrimônio, entre outros, moveram suas peças no tabuleiro para forçar a derrota do egípcio, contrariando todos os prognósticos de três ou quatro semanas atrás.

De fato vivemos e veremos cada vez mais um mundo organizado pelas “identificações”, pela livre associação – e tentativa constante de manipulação – dos indivíduos, pelo envolvimento em ações, valores e princípios que, mesmo que mantenham características regionais fortes (como a causa indígena no Xingú ou na Amazônia), passam a compor um conjunto de “pautas” globais. O que não significa em absoluto o fim das especificidades locais, regionais, mas apenas uma ampliação e complexificação dos envolvimentos humanos.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
06/10/2009 - 07:04

Olimpiadas e a Política

Ouvi durante estes dias, desde a escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, opiniões que vão de um extremo a outro. Uns acreditam que a vinda das Olimpíadas será um ótimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil em geral. Uma oportunidade singular para que problemas crônicos – como saúde, transporte, segurança – sejam resolvidos, uma injeção maciça de capitais no país, projeção internacional, etc. A outra parte pensa diametralmente o oposto: uma singular oportunidade para que a corrupção exploda, um desperdício de recursos e esforços, uma inversão da ordem das coisas, realizar uma Olímpiada num país que trata tão mal os esportes em geral e, especificamente, os amadores.

 

O fato essencial é que a campanha brasileira para trazer as Olímpiadas em 2016 era essencialmente um ato político amplo, uma ação no campo das relações internacionais e do posicionamento das nações no tabuleiro global.

Até então as candidaturas brasileiras haviam sido tratadas como risíveis – sobretudo a de Brasília – e o país como um todo tomado como um grande bananal. O que pesou para o resultado radicalmente diverso entre a primeira campanha e a atual Rio 2016, além da óbvia questão técnica envolvida, foi o posicionamento político do país, o qual se tornou muito mais agressivo (sem que isso implique, obviamente, em questões de “uso de força”).

Uma série de fatores corroboraram: a estabilidade política, a economia em desenvolvimento seguro e sustentado sobre pilares bastante ortodoxos, iniciativas (insuficientes, mas indicativas) para diminuir a exclusão e o abismo social brasileiro, a melhoria de índices de desenvolvimento humano, uma maior presença do país nas questões internacionais e de modo autônomo, sem rezar pela cartilha dos EUA, a aproximação com os países do BRIC (além de nós a Rússia, Índia e China), além do envolvimento com as nações africanas e da América do Sul, a criação do G20 com o Brasil a frente, a descoberta de reservas gigantescas de gás e petróleo na costa nacional.

Sem todas essas movimentações seria inimaginável pensar que o resultado das eleições do COI na sexta feira fosse diverso do que ocorrera até então: provavelmente Chicago vencendo (para não repetir o continente a receber os jogos) com um lobby fortíssimo dos EUA, tal como ocorreu na eleição de Atlanta, os europeus alinhados em torno da comodidade dos países ricos e desenvolvidos e olhando com muito desdém para as candidaturas fora do eixo América do Norte – Europa – Ásia rica.

Por sua vez o comentário de Lula a respeito da conquista da “cidadania mundial” com a vitória é absolutamente realista: depois do reconhecimento “material”, através da economia profundamente “pé no chão” do Brasil (diferente de muitos paises que continuam patinhando na crise), é necessário avançar com o país nos bens “simbólicos”, nas conquistas de valor estratégico, diplomático, como no caso da Copa do Mundo de 2014 e agora no das Olimpiadas de 2016.

A estratégia brasileira tem sido profundamente bem sucedida: cada vitória no cenário internacional alavanca a candidatura brasileira na próxima disputa, a se observar: o aumento de influência no FMI e uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A história das Olímpiadas no século XX é um pouco também a própria história política do século. Além do caso “máximo” dos boicotes recíprocos entre os EUA e a URSS durante a Guerra Fria (nos jogos de 1980 em Moscou, sem os EUA, e em 1984, Los Angeles, sem a URSS), há que se lembrar da terrível Olímpiada de 1936 em Berlin, com a tentativa nazista de provar a suposta ”supremacia ariana”. Tentativa, aliás, fracassada diante dos passos do genial corredor negro estadosunidense Jesse Owens.

Em 1968 ficou marcada a imagem dos atletas negros dos EUA no pódio com os punhos levantados e a luva negra, símbolo dos Panteras Negras, protestando contra a discriminação racial em seu país, gesto que lhes custou as medalhas olímpicas. Anos depois, em Munique, na então Alemanha Ocidental, a politização dos jogos apareceu em frente as câmeras de TV no terrível desfecho do sequestro dos atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.

Em geral apontam como diferença essencial entre as Olimpíadas Modernas e as da Antiguidade Grega a extrema politização das atuais. Sim, é fato que os jogos atuais são profundamente políticos, como é fácil perceber pelo histórico, mas, teriam sido os jogos da Grécia Antiga muito diferentes neste aspecto?

Nos acostumamos a imaginar a política como um universo a parte, autônomo, sem ligação com as demais atividades humanas. Essa divisão é recente na história do ocidente e, em verdade, é mais clara como “discurso”, como “área de estudo”, do que como elemento da vida humana.

Os jogos da Grécia antiga (e quando falamos Grécia antiga temos que pensar num “espaço cultural”, numa região que compartilhava parte de uma cultura, não num “país” como a Grécia atual) também traziam muito das relações políticas em seu interior. A vitória de um atleta nos jogos sagrados era uma afirmação da superioridade de sua cidade-estado sobre as demais naquele ramo de atividade, além de demonstrar o apreço dos Deuses por aquele mortal, que, a partir daquele instante, entrava para o panteão dos homens que seriam lembrados pelas gerações futuras, praticamente um herói.

A suspensão dos conflitos durante os jogos Olímpicos trazia para dentro destes as rivalidades estabelecidas fora, as guerras, pendengas comerciais, rixas históricas. Até mesmo a definição dos Deuses protetores de cada cidade-estado trazia essa dimensão política, visto que em diversos casos a escolha de um Deus por uma cidade previa uma disputa mitológica entre dois ou mais concorrentes.

Em Atenas, por exemplo, diz a lenda que a cidade seria dedicada a divindade que desse o presente mais útil aos homens. Palas Atena, disputando com seu tio Posseidon, enviou aos homens a oliveira, e com isso venceu a disputa. Disputa, vitória, honra, poder, influência, bens simbólicos, diversos elementos que estavam há dois mil e quinhentos anos do mundo grego antigo tanto quanto no nosso.

Por isso se há algo diverso entre as Olimpíadas Antigas e as Modernas esse elemento deve ser procurado no campo da economia, do mercado, não no das relações e valores políticos envolvidos no que, a princípio, é uma disputa “sagrada”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
28/09/2009 - 06:51

O bairro onde nasceu o rock paulista

As cidades tem dessas coisas, uma setorização, ou um “epicentro” de certos movimentos, ofícios, atividades. É assim no Rio de Janeiro, no Recife, em Salvador, em Nova Iorque, Paris, e é em São Paulo.

Mesmo quando se trata de música a cidade tem suas “áreas” históricas, lugares que abrigaram as primeiras agitações de certos ritmos ou ondas. O Bixiga – preciso dizer? – tem sua marca gravada da história do nascimento do samba paulistano. Não só por Adoniran Barbosa, mas também pelos Demonios da Garoa, por Germano Matias, pela Vai-Vai, por Miriam Batucada, Oswaldinho da Cuíca e tantos outros.  Não que o samba em São Paulo só existisse alí, mas foi naquele bairro, entre migrantes nordestinos, descendentes de italianos, populações de operários vindos de diversos lugares e com diversos tons de pele, que o samba em São Paulo tomou corpo, a ponto de merecer uma retratação do poetinha Vinícius de Moraes que – em tom de provocação – chamou a cidade de “Túmulo do Samba”.

O movimento Hip-Hop, por sua vez, não seria o mesmo sem o Largo São Bento. Um movimento tão identificado com as periferias da cidade foi tomar forma justamente no coração da urbe, do ladinho do túmulo do Cacique Tibiriçá e dos monges beneditinos. Saudosamente lembram os integrantes do movimento – como Thaide, DJ Hum, Mano Browm, Nelson Triunfo – dos encontros na São Bento (que curiosamente, este ano, durante a Virada Cultural, recebeu o “Baile Black” mais sem graça e sem identidade que já vi, enquanto os grupos de rap se apresentavam em CEUs escondidos e sem nenhuma estrutura ou apoio). Depois os bailes e atividades do movimento se espalharam pelas periferias e nos famosos bailes do Palmeiras (Barra Funda) e outros tantos pontos. Mas a identidade do Hip Hop ficou para sempre ligada a São Bento dos anos de 1980.

O rock em São Paulo ganhou uma projeção incrível no começo dos anos de 1980, com a explosão de bandas como Titãs, Ira! e Cia. Ltda. Esse movimento tomou de assalto o baixo Bixiga, na região do Café Piu Piu, Pinheiros, Augusta e outros lugares transformados em “bunker” do rock nacional.

Depois vieram os SESCs (sobretudo o Fábrica da Pompéia) e as boates, consolidando de vez o cenário rock da paulicéia, mas, mais de uma década antes, o primeiro movimento rock na cidade – digno desse nome – surgiu no bairro da Pompéia e, mais específicamente, numa única rua.

Há quem fale sobre um rock pré anos 60 no Brasil ou em São Paulo, mas seus personagens não chegavam a constituir um movimento e seu legado para a música brasileira foi muito mais pontual. De fato mesmo a coisa se deu ao longo da década de 1960.

Tempos atrás um dos representantes desse movimento – Carlini, líder da banda Tutti Fruti – numa entrevista a Clemente – represnetante d eoutro desses movimentos, o punk rock, muito ligado ao operariado da região do ABC, Moóca e Ipiranga – contava do ambiente que viveu na sua época, justamente na rua em que morava.

Rua Venâncio Ayres na Pompéi viu no prazo de meia década surgirem três lendas do rock paulista: Mutantes, Tutti Fruti e Made in Brazil.

A mais antiga delas, Mutantes, já tocava no Festival da Record onde rolou o bafão de Caetano Veloso, vaiado terrivelmente enquanto esbravejava contra a platéia (e Gil passava uma vergonha dos diabos lá atrás). Isso antes da virada da década. Depois veio a banda de Luiz Carlini, o Tutti Fruti, e por fim o Made. Todos na mesma rua e em tão pouco tempo.

Mais do que apenas uma coincidência geográfica essas três bandas imprimiram uma marca significativa tanto na musicalidade do rock nacional quanto na “forma de fazer” do rock em São Paulo. Pela primeira vez esse tipo de música feita aqui podia dizer que possuia uma “identidade”, a qual, diga-se de passagem, foi incorporada por inúmeras bandas da década seguinte, a de 1980.

Ainda hoje o bairro é ligado a esse passado e o SESC que fica alí se tornou uma referência histórica e musical do rock paulista emergente, é alí um dos lugares onde primeiro se recebem as novas bandas da cidade, e de uns anos para cá, de vários outros lugares do Brasil.

Assim a tradição se firmou, e, assim como no caso de Bixiga, embora a Pompéia não seja o único bairro onde o rock paulista tenha se desenvolvido ele se tornou uma das referências no seu registro de nascimento. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura, História de São Paulo Tags: , , , , ,
18/09/2009 - 06:55

Tortura nunca mais

Oficialmente, hoje, a tortura é proibida na grande maioria dos países democráticos, embora, nos cantos das prisões, delegacias, ou mesmo nos becos e matagais, ela continue sendo praticada também em quase todos os países. Em alguns mais, em outros menos, mas são raros os que podem se orgulhar e dizer sem receio que aboliram a tortura de seus territórios.

De modo “simples” a tortura é a prática de se obter confissões, revelações, informações através da coerção pela dor física ou psicológica. Teóricamente, diante do medo ou da dor o “informante” ou o “investigado” passaria a revelar coisas que normalmente negaria ou esconderia do outros modos.

Se, tecnicamente, a tortura é isso, na realidade tudo é muito mais cruel. Já na esteira das lutas pela redemocratização do Brasil a Igreja Católica encampou uma longa pesquisa sobre o tema, a qual resultou num dossiê chamado “Tortura Nunca Mais”, o qual se tornou um marco da luta pelos direitos humanos. Uma das coisas mais assustadoras revelada pelos testemunhos dos torturados pe a estranha e doentia relação que se estabelece entre torturador e torturado.

Colocado em situação degradante – nú, sujo, amordaçado, amarrado, encapuçado -, absolutamente exposto, indefeso, o ser humano se transforma radicalmente e o torturador, muitas das vezes, penetra no fundo da alma dos torturados, torna-se uma presença na mente além das marcas que deixa no corpo. Ele investiga, te contradiz, expõe detalhes de sua vida, ameaça pessoas que lhe são caras, duvida de você mesmo quando diz apenas a verdade, ou diz apenas o que sabe, a ponto do torturado chegar a duvidar de si próprio. A sanidade mental do torturado se esvai.

O torturador, por sua vez, se apossa do corpo e da alma da vítima, cria uma compulsão doentia, prazer sádico em controlar o outro.

Oficialmente a tortura – seja como punição, seja como recurso de investigação – está banida há muito tempo, processo que começou já na Idade Moderna e foi defendido por pensadores como Césare Beccaria. O processo é bem acompanhado no clássico livro “Vigiar e Punir” de Michael Foucault, o qual, inclusive, começa coma  descrição da tortura impingida, como castigo, a um francês condenado a morte por parricídio (assassinato do pai).

Um dos motivos que levou a tortura a ser banida – além da disseminação dos Direitos Humanos – foi a contínua refutação dos testemunhos obtidos sob tortura, procedimento que, na Idade Média, era absolutamente disseminado.

Em inúmeros filmes, e livros, a tortura medieval é apresentada como “o supra sumo” da tortura, coisa que, na realidade, é muito subjetiva e difícil de avaliar. Mas, de fato, era uma prática “aceita”, ou seja, não era errado, ilegal ou imoral, não era anti-cristão praticar a tortura para obter uma confissão ou como punição.

A Santa Inquisição – movimento da Igreja Católica movido para coibir e debelar ações tidas como heréticas (fora do cânone, das regras, da Igreja) – ficou famosa pelo uso indiscriminado da tortura por inquisidores como o espanhol Torquemada.

Rodas para se esticar as pessoas, bolas de metal sobre fogueiras, sacos com animais vivos amarrados as parte do corpo do torturado, prensas de pés e mãos, ferros de marcar, tenazes para arrancar unhas e pedaços de carne, tudo o que hoje vemos como absolutamente degradante como forma de investigação e de justiça.

Mulheres e judeus foram alvos preferenciais da Inquisição e, consequentemente, da tortura. Muitas vezes o torturado chegava a conclusão de que admitir uma culpa falsa era a única possibilidade de morrer com menos dor, de por fim ao sofrimento. Tanto nos casos de acusação de “bruxaria” (o mais recorrente contra as mulheres) como no de acusação por “judaísmo” muitos preferiram confessar qualquer coisa para evitar o prosseguimento da tortura.

O historiador italiano Carlo Ginzburg ao investigar os processos da Inquisição na Ítalia no começo da Idade Moderna observou que até mesmo as confissões eram padronizadas, o que indica que, diante do desespero dos acusados, os inquisidores ditavam admissões de culpa, às quais os torturados apenas respondiam positivamente.

Na realidade todo o sistema de “justiça” era radicalmente diverso do nosso e, sobretudo no caso dos julgamentos pela Igreja Católica, as culpas, muitas das vezes, estava decidida antes do término do julgamento. Por isso, diante da condenação irreversível, alguns “aceleravam” o processo admitindo qualquer coisa.

Quando condenadas a morte na fogueira por bruxaria, caso tivessem confessado e se “redimido”, as acusadas tinham a “benesse” de serem estranguladas antes de serem queimadas, evitando a dolorosa morte por asfixiamento. Caso não confessassem eram queimadas diretamente.

Um dos casos mais horrendos envolvendo a tortura na Idade Média foi o do julgamento dos líderes da Ordem dos Templários durante o reinado de Felipe o Belo. Endividado com os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, o rei francês decidiu “derrubar” a ordem, justamente num momento em que o papado estava quase sob sua tutela. Sem quem lhe fizesse oposição, Felipe os denunciou por heresia e conduziu, através de seus homens de confiança, como o conselheiro Enguerand de Marigny, interrogatórios contra os dignatários da ordem, entre eles o Grão Mestre Jacques de Molay.

Diante da tortura – na qual tiveram suas peles queimadas ou arrancadas, seus corpos perfurados, barbas e cabelos arrancados – os cavaleiros recorrentemente confessavam fazerem cultos ao demônio, terem relações homossexuais, sacrificarem crianças, adorarem deuses pagãos. Justamente a Ordem que encarnou como nenhuma outra o espírito da Cruzada e que se tornou símbolo do poder militar da Igreja Católica!!

Contudo, no dia do interrogatório final os dignitários retiraram todas suas confissões, e denunciaram as torturas. Com isso foram condenados a morte na fogueira e antes que emissários papais chegassem para rever o processo, foram queimados na Ile de France.

Esse episódio, ocorrido no início do século XIV, ainda se repetiria milhares de vezes nos séculos seguintes, até chegar ao ponto de ser considerado uma aberração diante dos direitos humanos e da justiça. Exatamente por isso é importante lembrar desse longo trajeto até aqui quando vemos acusados – independentemente da gravidade das acusações que recaem sobre eles – sendo torturados como forma de obter confissão, informação ou como forma de punição ou castigo. Além de indigna, de degradante, de covarde e criminosa, a tortura jamais trouxe a regeneração ou a verdade, objetivos buscados pela justiça.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História Moderna, História contemporânea, História da cultura, História medieval Tags: , ,
07/09/2009 - 07:29

O Sete de Setembro como “Marco” da Independência

O Sete de Setembro de 1822 não “nasceu” nem histórico nem como “data nacional”, marco da Independência do Brasil. Datas, bem como “personagens”, monumentos, interpretações, são construções históricas, obras que se dá ao longo do tempo, muito ou pouco.

 

Para nós parece tão natural que o Sete de Setembro seja a nossa data maior, o marco da Independência, que é muito difícil imaginarmos uma outra situação diversa. Esse fenômeno não é exclusividade nossa, também ocorreu com o 14 de Julho na França (data da Queda da Bastilha, durante a Revolução Francesa), com o 4 de Julho nos Estados Unidos (data de sua Independência), e com tantos outros países.

A “escolha” de uma data, ou seu reconhecimento como “marco”, não é uma questão “isenta” de interesses, não é um dado objetivo, mas uma peça fundamental na construção da história que se deseja perpetuar.

No caso da Independência do Brasil o processo se deu de modo incerto, errático, construido dia a dia e somente consolidado muitos anos depois. Basta lembrarmos que o monarca que aqui ficou, Dom Pedro, era filho primogênito de Dom João VI e, portanto, herdeiro do trono português, assim, com a morte do rei de Portugal, o Imperador do Brasil teria sob sua coroa novamente os dois reinos (e esta situação somente foi solucionada com a abdicação de D. Pedro I em 1831 para reinvindicar o trono português e tornar-se, lá, Dom Pedro IV).

O processo de independência brasileiro teve alguns momentos chave, independentemente de se tornarem “datas nacionais”: o Dia do Fico, a dia do “Grito”, a Aclamação de Dom Pedro, entre outros, os quais foram tecendo o processo político que consolidou a independência.

Obviamente que a separação política de Portugal somente teve efeito pelo endosso, participação de parte das elites, as quais interessava a independência. Nem foi um processo tocado a revelia ou contra a família real (como no caso das colônias de Espanha nas Américas ou dos EUA), nem foi um processo tocado por um herdeiro rebelde, contra sua família ou contra as elites coloniais. Daí, também, a singularidade de nossa Independência.

Com isso a “história de nossa Independência” deveria atender as necessidades tanto da família real brasileira (mesmo após a abdicação de Dom Pedro I, mantida na figura de seu filho, Pedro II) quanto das elites que apoiaram a separação. Em cada um dos momentos do processo que levou a separação de Portugal uma feição do jogo político se ressaltava: na aclamação, por exemplo, enfatizava-se o reconhecimento, a chancela do “povo” ao monarca Pedro I, o 7 de setembro enfatizava a personalidade do príncipe, sua “decisão pessoal”, seu caráter “heróico”.

Por isso a escolha da data nacional dependia de qual momento seria eleito como o do “nascimento da nação”. Para os que desejavam estabelecer uma monarquia muito mais liberal no Brasil, com poderes bastante limitados ao Imperador, era muito mais desejável que a data nacional fosse a da Aclamação, ou a da Constituição do Império (cuja primeira versão foi vetada por Dom Pedro I pos restringir demais seus poderes). Por outro lado, para Dom Pedro I, depois seu filho, e para os grupos mais próximos à monarquia e mais conservadores o 7 de setembro era muito mais adequado, pois atrelava a independência brasileira a virtude do Imperador.

Não foi sem muito debate, brigas, idas e vindas, que o 7 de setembro se consolidou como data nacional brasileira e isso revela a força que os grupos conservadores assumiram não somente na política imperial brasileira, mas, também, na “construção do estado nacional”, o que implicava, inclusive, na decisão de “como ensinaremos nossa história”.

E foi essa que ficou, se consolidou e desdobrou, deixando marcos comemorativos pelo país todo. E, depois de tantas e tantas décadas, a lembrança de quem nem sempre o Sete de Setembro foi nossa data nacional praticamente se esvaiu, consolidando, finalmente, a figura de Dom Pedro I e os episódios – que dificilmente saberemos como efetivamente foi – ocorridos as margens do riacho Ipiranga na volta do Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, após sua visita a São Paulo.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , ,
04/09/2009 - 06:15

30 anos de Anistia

Ulisses Guimarães discursava no plenário da Câmara, em Brasília, 1979, defendendo a promulgação da Lei da Anistia, mas titubeava a respeito do âmbito dessa anistia. Atrás dele um coro de deputados e nas galerias manifestantes, sobretudo parentes de exilados, “soprava” ao ouvido do deputado as três palavras que queriam ver inclusas no texto final: Ampla, geral e irrestrita.

 

Ulisses Guimarães acabou por empregar as três para definir o perfil da Anistia que defendia, não sem sentir a pressão em sua nuca vinda das galerias do plenário da Câmara.

Ocorre que há anos se discutia o estabelecimento de uma anistia como passo primordial para a pacificação dos ânimos, para a conciliação política do país, o reestabelecimento da democracia, mas, mais difícil do que abraçar a idéia da anistia era definir os limites dela.

Ela contemplaria ambos os lados? Ditadura e oposição? Ela seria aplicável a militares? Cobriria acusados de crimes de morte? Reestabeleceria direitos políticos também? Inúmeras questões que se relacionavam diretamente com as três definições sopradas ao ouvido do deputado: “Ampla, geral e irrestrita”.

Esse modelo significava que ambos os lados em toda e qualquer circunstância seriam anistiados, sem qualquer senão para os acusados e, teóricamente, impossibilitando ações futuras contra indivíduos em específico (daí, recentemente, ter ocorrido a barafunda no judiciário no julgamento de um militar acusado da prática de tortura durante a ditadura. Ele não poderia ser condenado pelo fato de ter sido “anistiado”, mas foi reconhecido como responsável por um crime, o que gerou revolta de alguns militares e mesmo de alguns juristas).

A campanha pela Anistia somente ganhou força no Brasil por conta da mudança no perfil dos exilados a parti do segundo momento da Ditadura. Após o Golpe de 64 o primeiro grupo de exilados era composto por políticos históricos ligados ao antigo governo Vargas (como Jango e Brizola), líderes históricos das esquerdas (como Prestes do Partido Comunista e Francisco Julião das Ligas Camponesas) ou gente ligada diretamente ao governo (como Darcy Ribeiro, da Casa Civil, Santiago Dantas, economista). Em suma, os cabeças do regime que os golpistas desejavam derrubar.

Porém, depois de 1969, com a promulgação do AI-5, o governo ditatorial acentuou sua brutalidade e isolou os grupos de militares mais moderados, os quais haviam liderado o governo entre 1964 e 1969. Com isso teve início os chamados “Anos de Chumbo”, o período mais violento da ditadura e que passou a envolver grupos de militantes até então distantes da disputa. Além disso o regime pós 69 passou também a perseguir grupos artísticos e intelectuais que não necessariamente militavam, mas cujas idéias ou estéticas incomodavam aos ditadores. Nesse torvelinho estudantes, professores universitários, poetas, músicos, diretores de teatro, atores, passaram a ser alvo da perseguição política, a qual, muitas das vezes terminava com o exílio.

Com a subida de Geisel ao poder começa o período que chamamos de “Distenção” com a flexibilização do regime ditatorial, a chamada “distenção gradual” liderada pelo General Golbery do Couto e Silva. Mesmo assim o regime permanecia sendo uma ditadura, o que levou a muitos jovens de classe média a buscarem uma espécie de auto-exílio.

Assim, na segunda metade dos anos de 1970, acumulavam-se em alguns países preferenciais (México, França, EUA, Canadá, Inglaterra) três grupos de exilados: Militantes históricos, exilados desde 1964, exilados por motivos ideológicos e estéticos, mas não necessariamente militantes, saídos do país após 1969, e, por fim, jovens que decidiram acrescentar ao seu curriculo um período de auto-exilio, quando este já não era da rudeza que tivera entre 1964 e 1974 aproximadamente.

De fato foi apenas quando o segundo grupo foi mandado para fora do país que a classe média brasileira, que em boa medida sustentara politicamente a ditadura, começou a sentir na própria carne os absurdos do regime. Enquando eram líderes políticos a serem exilados a classe média brasileira se calou, decidiu abrir a boca e retirar seu apoio quando seus filhos, amigos, conhecidos, parentes entraram na barca dos esquecidos em algum país mundo a fora.

O terceiro grupo, dos auto-exilados, praticamente não contou nessa equação.

A perda do apoio da classe média foi um golpe definitivo na sustentabilidade da ditadura e coincide com a distenção (uma resposta a esse grupo social). É quando surgem as primeiras manifestações pró-anistia.

Muitos decidiram não esperar a anistia geral e voltaram ao Brasil por conta e risco, apostando que o regime não os tocaria diante da crescente perda de apoio. Foi o que fez, por exemplo, Darcy Ribeiro (o qual, portador de um tumor no pulmão, creditava sua permanência no Brasil a um ato concendido a um morimbundo).

Henfil, irmão do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (exilado no México), tornou-se o grande propagandista da campanha pela Anistia, desenhando incansavelmente sua famosa Graúna militando pela Anistia. Nesse processo João Bosco e Aldir Blanc compuseram a música que se tornou o hino do movimento: O Bêbado e a Equilibrista, cantada por Elis Regina (que tomou isso como uma reconciliação com Henfil, com quem brigara por ter cantado anos antes na Olímpiada do Exército). Na canção se diz “que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete…na nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarisses…” alusão a D. Maria, mãe de Henfil e Betinho e Clarisse Herzog, esposa do jornalista assassinado durante tortura em São Paulo, Vladimir Herzog.

Com o crescimento da campanha levas e levas de exilados não esperaram a aprovação da lei, e todo desembarque nos aeroportos brasileiros eram verdadeiras festas e atos pela assinatura do texto definitivo.

Curiosamente a lei da Anistia apenas consolidou – quando foi finalmente assinada – uma situação “de fato”, o retorno dps exilados. E foi um passo importante rumo a redemocratização do país, embora ainda tivéssemos de esperar mais dez anos para votar livremente (responsabilidade direta de muitos políticos que hoje pintam de democratas, mas que articularam nos bastidores em 1984 contra a aprovação das Diretas já, ou que se beneficiaram diretamente do estabelecimento de uma “ditadura civil”, sem farda, mas ditadura, como José Sarney, o mesmo…)

Há poucos anos o cartunista Angeli publicou uma tira que acho genial a respeito da ditadura e da Anistia. Estava lá: Anistiados, primeiro quadrinho, o general, segundo quadrinho, o torturador, terceiro quadrinho, o guerrilheiro, quarto quadrinho “Menos o Zé, o trabalhador”. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , ,
02/09/2009 - 07:00

Porque ficamos unidos?

Porque nos mantivemos como uma país unido após nosso processo de independência enquanto nossos vizinhos de fragmentaram em inúmeras nações?

 

Essa é uma pergunta que segue a história do pensamento brasileiro desde que se consolidou nossa Independência política no começo do século XIX. Mais uma das questões primordiais que raramente são colocadas às pessoas, e que levam a imaginarem que a história tem um certo ar de “coisa pronta”, favas contadas. Tal como a Independência é tratada na maioria dos colégios, e mesmo na mídia, resta um ar de que ou foi fruto de um ato isolado e intempestivo do Príncipe Regente ou uma sequência “natural” do nosso período colonial.

Nem uma coisa, nem outra.

Também é muito comum se ouvir dizer que nos mantivemos unidos pois havia uma língua em comum, cercados por povos colonizados pelos espanhóis, que eramos uma única colônia enquanto os territórios coloniais espanhóis estavam divididos em vários vice-reinados.

Mais uma vez isso não se sustenta.

Às vésperas da Idependência o Brasil não era visto, nem compreendido pelos seus habitantes, como um único território, o Grão Pará e o Maranhão, por exemplo, abarcavam toda a região amazônica portuguesa como território administrativamente autônomo ao restante da colônia, formando, em verdade, dois grandes blocos. Em termos de colonização também não havia qualquer uniformidade: no sul uma forte presença hispânica, por conta dos séculos de disputa territorial, no nordeste resquícios da presença holandesa, e traços de tentativas de colonização francesa em alguns pontos, sem contar a influência inglesa em outras áreas, como na bacia do Amazonas.

Por outro lado, nossos vizinhos espanhóis também tinham uma língua para uniformizá-los, e a existência dos Vice-Reinados (três deles) não contribuiu para a formação de apenas três novos países, mas de muitos mais.

Então, porque o Brasil, cuja independência se deu quase que simultaneamente a dos países de colonização hispânica, se manteve unido enquanto eles se dividiam e dividiam cada vez mais?

Esse assunto já rendeu milhares de páginas de estudos, mas, hoje, tendemos a admitir como hipótese mais consistente a que contempla os seguintes motivos:

1 – Nossa independência foi conduzida pelo próprio Príncipe Regente, herdeiro direto do trono de Portugal, em associação com parte das elites brasileiras. Isso impediu que a separação de Portugal se desse através de uma guerra de independência, a qual teria de ser tocada por lideranças locais.

2 – Esse Príncipe Regente muito provavelmente nutria esperanças, bem como seu pai – Dom João VI – de que, passadas as turbulências políticas, o Império Português pudesse ser recomposto na figura de Dom Pedro (I para nós e depois IV para os portugueses), Imperador do Brasil e herdeiro do trono português. A fragmentação do território, assim, não interessava a ele, Dom pedro, nem a Dom João VI, nem a parte das elites envolvidas no processo.

3 – As próprias elites brasileiras viam na manutenção da unidade, e do próprio D. Pedro, a garantia de certa estabilidade, a qual havia se dissolvido nas colônias espanholas, gerando prejuízos astronômicos. Além disso, durante um processo revolucionário sempre há a possibilidade de que surjam grupos e líderes populares fora do controle das elites, podendo encaminhar o processo para rumos inesperados e desastrosos para os grupos de proprietários.

4 – A pouca participação popular no processo de Independência no Brasil, e um pouco mais significativa nas colônias espanholas, o que gerou situações que tenderam a fragmentação lá, e, ao mesmo tempo, um desacordo mais sistemático entre as elites criolas (espanhóis nascidos nas Américas) de que regime de governo adotar (república, monarquia, monarquia constitucional, etc.) e da conveniência ou não de manter a unidade territorial e política.

Como sabemos nos mantivemos unidos, enquanto nossos vizinhos se fragmentaram acabando com os sonhos de um dos líderes da independência dos países hispânicos, Simon Bolívar, o qual desejava vê-los unidos. Mas isso tudo não se deu senão ao longo de décadas de disputas, negociações, tratados e conflitos que por muito pouco não promoveram a fragmentação também do nosso território – como quase ocorreu com o levante Farroupilha. Por isso, hoje, dizemos que não tivemos uma “Independência”, mas um “Processo de Independência” acompanhado em boa parte da “Construção do Estado Nacional Brasileiro”, ou seja, do Brasil como país (na época como Império, o que também tem a ver com a idéia de manter as especificidades regionais, diferentemente de um “Reino” onde subentende-se uma unidade a priori). Esse processo teria se completado apenas na década de 1850, quase 30 anos após o famoso 7 de setembro (o qual também somente foi aceito como “data nacional” ao longo do processo e dos acordos políticos).

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , ,
26/08/2009 - 06:52

A Independência e o bairro do Ipiranga

Quase ninguém o conhece pelo seu nome de “cartório”: Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Pelo seu “apelido”, Museu do Ipiranga, é, certamente, dos museus mais conhecidos do Brasil, talvez o mais conhecido. Implantado no topo de uma colina – a qual foi acentuada graças a uma movimentação monumental de terra, com vistas a acentuar a visão magestática do edifício – o Museu observa a pequena várzea, hoje quase toda canalizada e encoberta, do riacho que deu nome a região e que, por acidente do destino, pôs definitivamente seu nome na história do Brasil.

Quando era aluno nunca me coloquei essa questão, mas, depois, passei a me perguntar se para muitos a coisa toda – o episódio da “Independência” – não acaba sendo ensinado de um modo bastante “incompreensível”.  Para começar o que D. Pedro, o Príncipe Regente, estava fazendo naquela região com sua comitiva se a capital era no Rio de Janeiro? Como com um simples “Ato” um Príncipe consegue executar uma “Independência”?

Isso sem contar nas piadinhas que sempre correram dizendo que D. Pedro parou as margens do riacho para “aliviar” a barriga, que estava montado em um burro e não num cavalo, e daí para diante.

Em verdade a “Independência” do Brasil é um episódio numa história longa que envolve as mudanças na economia, na política, na sociedade do mundo ocidental a partir do começo do século XVIII, naquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “Era das Revoluções”. Outro historiador, brasileiro, Fernando Novais, chamou esse processo longo de “Crise do Antigo Regime”, ou seja, uma crise que envolveu as bases do capitalismo tal como vinha se desenvolvendo desde o início da Idade Moderna, com as exclusividades das Metrópoles no comércio com as suas colônias, com o poder absoluto dos monarcas, com a exclusão política dos proprietários sem nobreza (os burgueses).

Nesse vagalhão histórico foram arrastadas as monarquias de várias nações, colônias se tornaram independentes – Estados Unidos da América, Brasil, os países da América Latina -, outras monarquias tiveram de se submeter a regimes regidos por constituições (as chamadas Monarquias Constitucionais). O mundo mudou radicalmente e irreversivelmente. Mas tudo isso demorou décadas e mais décadas para se consolidar, e somente quando o processo havia se alastrado por regiões inteiras e com a abrangência envolvendo praticamente todos os setores da existência humana – a política, a economia, a sociedade, a cultura – é que parte das pessoas se deu conta de que estava vivendo uma era de transformações, uma gigantesca revolução.

Em 1821 tanto Dom João VI, rei de Portugal, quanto seu filho, D. Pedro, tinham noção de que o processo de transformações havia se espalhado e sua reversibilidade era difícil, senão improvável. Muito provavelmente o monarca e seu filho articularam formas de “perder os anéis e manter os dedos”, ou seja, aplacar ânimos, se manter na crista da onda sem ser tomado pelo vagalhão. Uma solução possível era admitir um processo de independência conduzido pelo próprio herdeiro do trono português, com o apoio ou a aliança com grupos de proprietários brasileiros que vissem isso como uma vantagem, em sintonia com seus interesses.

Provavelmente era isso que D. Pedro fazia em São Paulo no começo de setembro de 1822: articulando forças que garantissem sua manutenção no trono e resposta imediata a grupos contrários ou tropas portuguesas.

O caminho realizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo nessa época cortava os campos do Ipiranga, uma área pouco ocupada, nas proximidades da cidade. Por ali passava o famoso “Caminho do Mar”, o qual descia em direção a Santos e era a principal rota de escoamento da produção de São Paulo, bem como a principal sua porta de entrada. Antes de chegar no trecho serrano o caminho se dividia e outra rota seguia em direção a capital, o Rio de Janeiro.

Ao se afastar da cidade, voltando para o Rio de Janeiro, a comitiva do Príncipe Regente recebe a famosa carta que o teria feito proclamar a Independência. Certamente Dom Pedro, depois das confabulações com os políticos paulistas, saiu da cidade com a certeza do apoio e seguro para tomar a decisão difícil de oficializar o rompimento com a Metrópole (o que significava um problema muito mais grave para com os políticos e as elites portuguesas do que para com seu pai, afinal as posses se mantinham na família de qualquer modo).

Nem foi um ato intempestivo, nem uma “comédia” como as vezes tentam deixar parecer (como fez recentemente o jornalista Eduardo Bueno). É claro, a cena pintada muito depois, e que hoje adorna o salão principal do Museu do Ipiranga (ops…Paulista), foi constituída com o objetivo de dar uma versão grandiloquente para o momento e dentro dos princípios da pintura clássica do período. Mas, quem acredita que Napoleão realmente vivenciou as cenas tal como os quadros as representam?

Entre o final do século XIX e começo do XX os políticos paulistas decidiram tornar o Ipiranga num monumento a céu aberto, um cenário de um grande teatro histórico. Daí a construção do monumento a Independência, depois do mausoléu, do Museu, etc. Mas não parou por aí, pois outro objetivo desses políticos era associar diretamente a independência do Brasil a participação das elites paulistas nela. Por isso cercaram o coração da história, a colina do Ipiranga e o Monumento, com ruas que levam os nomes dos políticos paulistas ou que relembram valores morais caros a memória deles: rua dos Patriotas, Xavier Curado, rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois, rua do Manifesto, rua Silva Bueno, rua Auriverde.

Vale lembrar que o Sete de Setembro não foi imediatamente compreendido como a “data nacional”, até porque isso determinava a escolha de uma “forma de contar” a história da Independência (não a única). Assim, o Sete de Setembro e o bairro do Ipiranga só se tornaram relacionados a história da separação do Brasil de Portugal ao longo do século XIX e isso só se completou com a comemoração do Centenário da Independência, em 1922.

E, de fato, a movimentação de terra na colina do Ipiranga, a canalização do córrego, a construção das ruas, mudaram tanto o cenário original que hoje é muito pouco provável saber exatamente onde os eventos ocorreram. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história Tags: , , , , ,
12/08/2009 - 07:00

Canudos: milenarismo, miséria e arqueologia no sertão

Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.

 

Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.

Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.

Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.

A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.

Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.

Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.

Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.

Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.

As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.

Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.

O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).

A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.

Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.

Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.

Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.

Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico Tags: , , , , , ,
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