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Arquivo da Categoria História antiga

06/10/2009 - 07:04

Olimpiadas e a Política

Ouvi durante estes dias, desde a escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, opiniões que vão de um extremo a outro. Uns acreditam que a vinda das Olimpíadas será um ótimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil em geral. Uma oportunidade singular para que problemas crônicos – como saúde, transporte, segurança – sejam resolvidos, uma injeção maciça de capitais no país, projeção internacional, etc. A outra parte pensa diametralmente o oposto: uma singular oportunidade para que a corrupção exploda, um desperdício de recursos e esforços, uma inversão da ordem das coisas, realizar uma Olímpiada num país que trata tão mal os esportes em geral e, especificamente, os amadores.

 

O fato essencial é que a campanha brasileira para trazer as Olímpiadas em 2016 era essencialmente um ato político amplo, uma ação no campo das relações internacionais e do posicionamento das nações no tabuleiro global.

Até então as candidaturas brasileiras haviam sido tratadas como risíveis – sobretudo a de Brasília – e o país como um todo tomado como um grande bananal. O que pesou para o resultado radicalmente diverso entre a primeira campanha e a atual Rio 2016, além da óbvia questão técnica envolvida, foi o posicionamento político do país, o qual se tornou muito mais agressivo (sem que isso implique, obviamente, em questões de “uso de força”).

Uma série de fatores corroboraram: a estabilidade política, a economia em desenvolvimento seguro e sustentado sobre pilares bastante ortodoxos, iniciativas (insuficientes, mas indicativas) para diminuir a exclusão e o abismo social brasileiro, a melhoria de índices de desenvolvimento humano, uma maior presença do país nas questões internacionais e de modo autônomo, sem rezar pela cartilha dos EUA, a aproximação com os países do BRIC (além de nós a Rússia, Índia e China), além do envolvimento com as nações africanas e da América do Sul, a criação do G20 com o Brasil a frente, a descoberta de reservas gigantescas de gás e petróleo na costa nacional.

Sem todas essas movimentações seria inimaginável pensar que o resultado das eleições do COI na sexta feira fosse diverso do que ocorrera até então: provavelmente Chicago vencendo (para não repetir o continente a receber os jogos) com um lobby fortíssimo dos EUA, tal como ocorreu na eleição de Atlanta, os europeus alinhados em torno da comodidade dos países ricos e desenvolvidos e olhando com muito desdém para as candidaturas fora do eixo América do Norte – Europa – Ásia rica.

Por sua vez o comentário de Lula a respeito da conquista da “cidadania mundial” com a vitória é absolutamente realista: depois do reconhecimento “material”, através da economia profundamente “pé no chão” do Brasil (diferente de muitos paises que continuam patinhando na crise), é necessário avançar com o país nos bens “simbólicos”, nas conquistas de valor estratégico, diplomático, como no caso da Copa do Mundo de 2014 e agora no das Olimpiadas de 2016.

A estratégia brasileira tem sido profundamente bem sucedida: cada vitória no cenário internacional alavanca a candidatura brasileira na próxima disputa, a se observar: o aumento de influência no FMI e uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A história das Olímpiadas no século XX é um pouco também a própria história política do século. Além do caso “máximo” dos boicotes recíprocos entre os EUA e a URSS durante a Guerra Fria (nos jogos de 1980 em Moscou, sem os EUA, e em 1984, Los Angeles, sem a URSS), há que se lembrar da terrível Olímpiada de 1936 em Berlin, com a tentativa nazista de provar a suposta ”supremacia ariana”. Tentativa, aliás, fracassada diante dos passos do genial corredor negro estadosunidense Jesse Owens.

Em 1968 ficou marcada a imagem dos atletas negros dos EUA no pódio com os punhos levantados e a luva negra, símbolo dos Panteras Negras, protestando contra a discriminação racial em seu país, gesto que lhes custou as medalhas olímpicas. Anos depois, em Munique, na então Alemanha Ocidental, a politização dos jogos apareceu em frente as câmeras de TV no terrível desfecho do sequestro dos atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.

Em geral apontam como diferença essencial entre as Olimpíadas Modernas e as da Antiguidade Grega a extrema politização das atuais. Sim, é fato que os jogos atuais são profundamente políticos, como é fácil perceber pelo histórico, mas, teriam sido os jogos da Grécia Antiga muito diferentes neste aspecto?

Nos acostumamos a imaginar a política como um universo a parte, autônomo, sem ligação com as demais atividades humanas. Essa divisão é recente na história do ocidente e, em verdade, é mais clara como “discurso”, como “área de estudo”, do que como elemento da vida humana.

Os jogos da Grécia antiga (e quando falamos Grécia antiga temos que pensar num “espaço cultural”, numa região que compartilhava parte de uma cultura, não num “país” como a Grécia atual) também traziam muito das relações políticas em seu interior. A vitória de um atleta nos jogos sagrados era uma afirmação da superioridade de sua cidade-estado sobre as demais naquele ramo de atividade, além de demonstrar o apreço dos Deuses por aquele mortal, que, a partir daquele instante, entrava para o panteão dos homens que seriam lembrados pelas gerações futuras, praticamente um herói.

A suspensão dos conflitos durante os jogos Olímpicos trazia para dentro destes as rivalidades estabelecidas fora, as guerras, pendengas comerciais, rixas históricas. Até mesmo a definição dos Deuses protetores de cada cidade-estado trazia essa dimensão política, visto que em diversos casos a escolha de um Deus por uma cidade previa uma disputa mitológica entre dois ou mais concorrentes.

Em Atenas, por exemplo, diz a lenda que a cidade seria dedicada a divindade que desse o presente mais útil aos homens. Palas Atena, disputando com seu tio Posseidon, enviou aos homens a oliveira, e com isso venceu a disputa. Disputa, vitória, honra, poder, influência, bens simbólicos, diversos elementos que estavam há dois mil e quinhentos anos do mundo grego antigo tanto quanto no nosso.

Por isso se há algo diverso entre as Olimpíadas Antigas e as Modernas esse elemento deve ser procurado no campo da economia, do mercado, não no das relações e valores políticos envolvidos no que, a princípio, é uma disputa “sagrada”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , , ,
28/08/2009 - 07:42

Hoje tem goiabada???????

Infelizmente, hoje, nem todo mundo mais conseguiria associar o famoso chavão “Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! E o palhaço o quê que é? É ladrão de mulher!!!” ao circo ou as piadas tradicionais dos palhaços. Mas isso fez parte da infância de muitas gerações antes da atual.

 

É difícil estabelecer quando o “Circo” surgiu, porque até mesmo o conceito de “Circo” mudou radicalmente ao longo do tempo e de cultura para cultura. O que nos vem a mente quando pensamos em circo é uma trupe de artistas diversos, que viaja carregando toda a estrutura necessária para o espetáculo, incluindo a famosa lona, o picadeiro, arquibancadas ou cadeiras, etc, mudando de cidade para cidade. Neste espetáculo teria trapézio, palhaços, malabaristas, contorcionistas, mágicos, equilibristas, e, mais antigamente, animais adestrados, bailarinas, “circo de cavalinhos” como diziam antigamente.

Hoje, novamente, o circo mudou tanto que temos que colocar sob a mesma “lona” o circo tradicional, os acrobáticos, os como Cirque du Soleil e o Imperial da China, coisas muito diversas entre si.

O nome “Circo” vem do latim e denominava os espaços “circulares” onde ocorriam os “jogos”, disputas variadas que entretinham a população. Corridas a pé, em cavalos ou carros puxados por animais, lutas de gladiadores profissionais, lutas entre prisioneiros (como cristão durante o período da perseguição, nos primeiros séculos de nossa era) e animais selvagens (leões, elefantes, rinocerontes, ursos e outros tantos tipos trazidos das regiões mais variadas do imenso império romano). O “Circo Máximo” como diziam os romanos a respeito do Coliseu.

Mas outros povos, outras culturas tinham suas próprias tradições “circenses”, como na China, na qual a arte dos malabares e do contorcionismo se desenvolveu como em quase nenhum outro lugar. Durante o reinado de Kublai Khan, o imperador que governava no período em que Marco Polo chegou a China, artistas “circenses” eram levados de várias regiões asiáticas para a capital a fim de alegrar o monarca e sua família.

Na Europa, durante a Idade Média, as trupes de artistas tinham dois grandes mercados: os salões da nobreza, para animar a grande quantidade de pessoas que ficava confinada nos castelos (incluindo as famílias nobres com sua imensa parentela), ou nas praças, sobretudo quando ocorriam as chamadas “feiras”.

Diferentemente das nossas “feiras”, as feiras medievais eram ocasiões nas quais produtores, comerciantes e artesãos se reunião em determinada cidade, e durante semanas – cotidianamente – comercializavam seus artigos. Essas feiras significavam verdadeiras festas para a população, e mesmo os nobres davam um jeito de perambular por entre as bancas. Com tal aglomeração de pessoas toda sorte de gente era atraída, não só quem queria comprar ou vender. Religiosos, pregadores, ladrões, prostitutas e artistas mambembes, sozinhos ou em trupes.

Uma das atrações principais eram os animais adestrados, como ursos dançarinos. Mas, também faziam muito sucesso as apresentações de autos, peças semi-improvisadas que tinham estilos bastante definidos, como os autos religiosos, as moralidades, os satíricos, as tragédias. Nesse período era muito difícil separar as trupes de malabares e afins dos grupos de representação, e, de fato, os artistas conheciam um pouco de cada arte. Ainda hoje grupos de teatro mambembe insistem no domínio de técnicas circenses pelos seus atores.

Na Idade Moderna, depois do século XV, os grupos de circo começaram a se conformar mais com aquilo que aprendemos a entender como “circo”. De modo mais estável. Nesses grupos foram sendo absorvidos artistas cuja arte tinha ela propria sua historia, as vezes mais longa do que a do proprio circo, como é o caso dos palhaços, cujas origens remonta talvez a pré-história.

No Brasil a primeira tradição circense a se implantar, de modo popular, foi a de origem profundamente medieval, mambembe, algo nômade em sua forma de viver. Nos sertões do nosso território o circo era um evento único, um momento esperado ansiosamente por todos, mas principalmente pelas crianças. Muitos quadros de Cândido Portinari trazem essa memória da infância no interior, como aquele no qual o palhaço, montado de costas num burrico, percorre as ruas de uma cidade divulgando o espetáculo e seguido de um bando de crianças.

Era hábito que o palhaço marcasse com giz a testa de algumas crianças que recebiam isenção no espetáculo, marca que os amigos tentavam a todo custo apagar só de maldade.

No filme de Cacá Diegues, Bye Bye Brasil, junto com o tema da modernização amorfa, desagregadora, trazida pela implantação de grandes obras e pela chegada da televisão, aparece o drama do circo do interior, da “caravana”, que dia após dia foi perdendo espaço para outras formas de entretenimento.

Nos Estados Unidos surgiram circos imensos, como o famoso Show do Oeste Selvagem de Buffalo Bill, e que deram origem a uma outra tradição, a dos circos empresa, da qual o Soleil é atualmente o maior expoente.

O fato curioso é que gerações e gerações de pesquisadores denunciaram a morte iminente do circo, mas, como diria Ariano Suassuna, todos eles morreram e o circo continua vivo. Graças, sobretudo, a duas virtudes: a de tocar em questões profundas da alma humana (o fantástico, o emocionante, o humanamente quase impossível) e de a cada época se moldar com incrível plasticidade ao novo mundo.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura Tags: , , ,
19/08/2009 - 06:40

Arqueologia mito e Arqueologia ciência

A arqueologia é um dos campos do conhecimento onde os mitos se aglutinam. Algumas ciências possuem essa característica – como a física, sobretudo a nuclear, a genética -, mas a arqueologia, certamente, é a que mais alimenta e acolhe mitos.

 

Há vários exemplos, desde os mais delirantes, como a busca por “Atlântida”, as inscrições supostamente fenícias da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro, a cidade perdida de Eldorado na Amazônia, até coisas relativamente mais “simples” como certas interpretações a respeito de Tróia e das pirâmides do Egito.

Sobre Tróia a história de sua busca é quase tão interessante quanto a da própria cidade.

No século XIX um jovem alemão, que lera a Ilíada (a história da guerra de Tróia) e que se fascinara com ela, Heinrich Schliemann, empreendeu praticamente toda sua vida para encontrar a cidade na qual se desenrolara todos os eventos narrados no livro atribuído a Homero, e onde brilharam as figuras de Heitor, Ulisses, Pátroclo, Aquiles, Ajax, Agamenôm, Helena.

Hoje, um século e meio de pesquisas depois, sabemos que a própria autoria do texto da Ilíada – bem como o da Odisséia – dificilmente pode ser atribuída a um único autor, e que quase com toda a certeza suas origens remontam poesias orais, recitadas por poetas populares – tais como nossos repentistas e cantadores -, transmitidas oralmente de geração à geração.

A história da Guerra de Tróia se remete ao passado arcaico do mundo grego e seus conteúdo é uma construção mítica muito particular a respeito de acontecimentos ocorridos na região.

Mas Schliemann e seus contemporâneos não pensavam assim. Pelo contrário, imaginavam – seguindo a corrente comum na época – que a Ilíada era um texto passível de ser seguido, como um guia para um mundo antigo, desaparecido, mas que deixara sob a terra seus últimos vestígios.

O pesquisador investiu em sua busca por Tróia parte significativa de sua fortuna, amealhada a duras penas ao longo de uma vida de privações e alguma sorte (na infância Schliemann fora acentuadamente pobre).

Concluiu, finalmente, que o sítio indicado a ele por camponeses turcos condizia com a descrição de Tróia contida na Ilíada. Arregimentou dezenas de trabalhadores e iniciou uma escavação no local quase sem critérios metodológicos como os entendemos hoje. Esse período, antes da consolidação das modernas técnicas de escavação, faziam com que a arqueologia se parecesse muito mais com uma caça ao tesouro do que com ciência.

Mas o que se buscava era em grande medida um tesouro, e nem tanto o conhecimento a respeito de um passado específico. As escavações conduzidas pelo alemão abriram valas terríveis em sua “Tróia” e objetos tidos como de menor valor (cerâmicas, telhas, tijolos) foram desprezados em benefício das buscas por objetos de ouro ou pedras preciosas, estátuas, armas.

Durante muito tempo a idéia de que se encontrara Tróia permaneceu. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a cidadela escavada pelo alemão foi revisitada por uma equipe estadosunidense de arqueólogos – cujo chefe havia composto a equipe de Schliemann. Com outros objetivos – que não o de caçar tesouros – e municiado de uma metodologia muito mais consistente um novo cenário começou a se delinear.

O próprio Schliemann notara em suas escavações que havia uma sequencia de “estratos” que provavelmente revelavam cidades que foram se sucedendo como camadas de um bolo. Escolheu entre elas aquela que mais se assemelhava a idéia que havia composto em sua mente sobre Tróia e a batizou como a “Tróia Homérica”. Todas as demais foram descartadas.

Contudo, para as novas equipes de arqueólogos, o interesse se alterara e todas as “Tróias” (quantas seriam?) lhes eram importantes. Sete momentos distintos foram identificados, sete Tróias, que acompanharam a história da ocupação humana no Oriente próximo, ao longo das idades do metal (bronze, ferro).

Nessas “Tróias” não se buscava os túmulos de Príamo, de Heitor, nem o Cavalo de Madeira, mas restos de comida, ossos, tijolos, pedaços de potes e tijelas, qualquer coisa que revelasse os cotidiano dessas sociedades.

Talvez para o grande público a história acreditada por Schliemann seja mais cativante, mais sedutora, e ados arqueólogos contemporâneos “excessivamente” técnica. O mesmo ocorreu com as escavações no Egito, sobretudo no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon por Howard Carter. Os mitos excedem em muito a capacidade de difusão da ciência arqueologia, mas, ao mesmo tempo, realimentam o interesse do público, sobretudo das crianças e jovens, pela área. E não vejo isso como algo ruim, são dimensões diversas e cada uma tem seu lugar, seu espaço e sua função.

E sempre é o sonho que move primeiro, depois os interesses “técnicos”. Alguns arqueólogos se sentem desconfortáveis com isso, e criam verdadeiros “cavalos de batalha” (sem qualquer alusão ao cavalo de madeira troiano) na defesa de uma “ciência asséptica”, sem contaminações dos mitos ou dos sonhos. A mim isso só empobrece, diminui o interesse, e nada acrescenta a ciência, nada traz de novo, nem melhor, nem a mais.

Sorte da ciência que consegue atrair para si pessoas movidas pela imaginação e não apenas pela satisfação financeira.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga Tags: , , ,
07/08/2009 - 06:32

O que eram os “Senados” e o que é o nosso

Boa parte da população brasileira, nos últimos tempos, gostaria de registrar um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra o Congresso Nacional e, especificamente, contra o Senado (o qual, junto com a Câmara, forma o Congresso). A quantidade de “artigos” nos quais poderiam ser enquadradas as nossas “excelências” os(as) senadores(as) seria espantosa, mas, principalmente, pesaria a acusação de má fé e estelionato. Ou seja, o ato de enganar outrem e aplicar golpes contra aquele que lhe faz alguma espécie de pagamento. Como somos nós que pagamos os salários deles (bem como é nosso o dinheiro que desperdiçam ou que surrupiam direta ou indiretamente) somos os “lesados” da história, as vítimas e, portanto, portadores do direito de realizar uma queixa policial.

 

O mais impressionante disso tudo é que até então o Senado havia se resguardado da bandalheira que corria solta na Câmara. Não que fossem mais honestos, ou mais responsáveis, mas, certamente, eram mais discretos e metidos em encrencas mais grossas. Contudo a perseguição a José Sarney desencadeou um efeito dominó que – muito provavelmente irá ser arquivado, como sempre ocorreu – mas que, também, custará, que, sabe até quando, a nesga de credibilidade que ainda restava ao legislativo brasileiro.

No meio dessa barafunda, muitos se perguntam: Qual é a função do Senado se já existe a Câmara? Não é uma sobreposição de funções?

É, pelo que se tornou, mas não deveria ser, pelo que já foi.

A instituição ”Senado” é atiquíssima, embora tenha passado por inúmeras transformações ao longo do tempo. Talvez o Senado mais famoso da história tenha sido o de Roma, sobretudo em seu período Republicano. O Senado era o lugar onde os representantes das famílias de cidadãos, de patrícios, se reuniam e decidiam os rumos da cidade, da República. Sua origem ocorreu em uma sociedade absolutamente dividida entre os “cidadãos” (aqueles que eram livres, com posses, nascidos no local, pertencente a uma das famílias de originais, portanto com direito políticos) e uma massa de excluídos políticos (plebeus, estrangeiros e escravos).

Esse sistema se manteve enquanto a sociedade antiga se sustentou, e enquanto as cidades eram menores e a representação política era absolutamente pessoal e presencial. O crescimento das cidades, dos impérios, provocou mudanças nessa forma de organização, levando a ampliação do conceito de cidadania (e portanto de representação política), como no caso de Roma, que passou a aceitar homens nascidos nas províncias e nas colônias.

Com o fim do Império Romano, no século V, a “instituição” do Senado praticamente desapareceu no ocidente até o período moderno (depois do século XV), quando uma nova classe social começou a ganhar importância e força política, através do seu enriquecimento.

Essa classe social, a burguesia, paulatinamente granjeou força e forçou a concessão de direitos políticos a eles (os quais eram vedados pelo fato de não serem de origem nobre). Por mais ricos que fossem os burgueses, na maior parte da Europa, o acesso ao poder direto estava praticamente vedado pelo sistema monárquico. Contudo, na Inglaterra, a situação começou a mudar.

Lá a figura do monarca era acompanhada do conselho de nobres, mas a Revolução Inglesa, do século XVII, colocou a burguesia definitivamente no tabuleiro do jogo e o conselho de nobres teve de aceitar a existência de um segundo lugar de representação, um conselho de homens “comuns”. Daí surgiu o sistema chamado de “bicameral”, com uma ”Câmara Baixa” (dos “comuns”, dos burgueses) e outra, denominada ”Câmara Alta” (formada pelos Lords), sistema que ainda vigora na Inglaterra.

Nesse sistema o monarca passou a ter seus poderes – até então absolutos – delimitados por uma carta constitucional e pelas “câmaras”. Mas a Câmara Alta, por ser formada por nobres, geralmente estava mais próxima da figura do monarca, e mais aderente a suas perspectivas.

Deste modo a Câmara Alta servia de intermediária nas discussões cotidianas entre os “comuns” e a figura do monarca, era um braço independente, porém ligado pelas origens sociais ao rei ou rainha.

Esse sistema – depois do século das Revoluções Burguesas, o XVIII – se manteve com ou sem monarquias, e passou a ser copiado em várias regiões, principalmente nos países recém independentes das Américas.

No Brasil o sistema foi adotado desde o período monárquico. No Império Brasileiro os senadores eram nomeados pelo Imperador, e tidos como os homens mais próximos e de confiança. Em geral um político somente era nomeado senador depois de uma longa carreira, de grande destaque na política da Corte, e, também, de fortuna considerável. Era o coroamento de uma carreira política, geralmente começada muito cedo na província de origem.

Boa parte dos ministros do Império eram oriundos do Senado (e seus cargos de senador eram vitalícios).

Com o fim da monarquia o sistema teve novamente que se adequar, mas a idéia de duas câmaras, uma mais popular e outra mais restrita, foi preservada e se manteve assim até hoje.

Por isso, em geral, os senadores são políticos de grande destaque em seus estados (posto que agora tais cargos são eletivos). Basta ver a trajetória deles e se verá a quantidade de ex-governadores(as) que agora ocupa assento no Senado.

Mas, diante dos rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas o Senado foi paulatinamente perdendo seu caráter mais “elevado”, de discussões mais profundas, de lugar não de políticos, mas de “estadistas”. O Senado foi se tornando o depósito das raposas velhas, de políticos que acumularam fortunas e controlam grupos enormes, como o caso do falecido ACM, ou mesmo de José Sarney.

Esse esvaziamento das funções do Senado (que justamente por teóricamente ter um perfil mais reflexivo, mais adensado de discussão, tem mandatos de oito anos, sem renovação total da casa a cada pleito) gera a constante dúvida: O que o Senado faz que a Câmara não faz?

Atualmente muito pouco, por conta desse esvaziamento e precarização dos quadros políticos que ocupam suas vagas.

E entre os senados da antiguidade ou da modernidade e o nosso há ainda uma diferença essencial: Neles a função era exercida sem que isso se configurasse como um “emprego”, embora desde a antiga Roma senadores utilizassem suas funções para enriquecerem ainda mais (talvez com mais elegância e menor avidez, mas o faziam, inclusive com desvio de espólios de guerra, ocupação de terras em áreas conquistadas e afins). Não sendo funcionários, não tendo acesso a “administração” imediata da cidade, da República, do Reino, não podiam se valer tanto de seus cargos para situações bizarras como o favorecimento de namorados de netas e nomeações secretas.

De qualquer forma o que vemos é que o sistema de duas casas legislativas foi pensado para ter uma baixa e outra alta, mas hoje, no Brasil, temos duas casas baixas, baixíssimas aliás. 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História antiga, História contemporânea, História do Brasil Tags: , , , , , ,
22/05/2009 - 07:00

A Cidadania nossa de cada dia, ou a ausência dela…

Sou um ser “pedestre”. Não que eu tenha uma habilidade para andar diversa dos demais humanos, mas gosto de andar e faço isso todos os dias. Apesar das reclamações intermináveis de amigos e parentes tenho me recusado a usar carro até hoje, não porque não goste deles, mas porque creio assim ter mais tranquilidade. O fato é que andando a pé percebemos coisas que de carro raramente vemos.

 

Num dos caminhos que faço regularmente para minha casa passo por um trecho de uns dois quilômetros que mageiam um córrego canalizado. Nesse curto espaço de uns dez ou doze quarteirões não há um único dia no qual eu não fique entre a indignação e o desânimo.

Há dois cruzamentos com semáforos e faixas de pesdestres que nunca são respeitados. Nas ruas onde não há semáforo os motoristas fazem as conversões sem sinalizarem (pois pensam que por não ter outro veículo atrás não precisam sinalizar também ao pedestre). Certo dia vi um senhor jogando um saco de lixo no córrego e lhe disse; “Que bonito heim meu Senhor!!”

Ele não entendeu. Quando disse que estava jogando lixo no córrego, que iria entupí-lo, que ia ajudar a promover um alagamento, etc., ele respondeu que era “apenas” um saco de tripas (urgh!). Oras, que jogasse as tripas então em seu lixo…. Não, preferiu jogar no rio, pois não queria passar uma noite com o cheiro ruim. Me deixou falando sozinho.

Há um trecho no qual a calçada está intransitável dada a quantidade de entulho que é jogado lá. Toda semana a prefeitura limpa e toda semana volta a encher. Noutro quarteirão, que não tem entulho, a calçada continua intransitável pois há uma construção e o passeio público virou depósito de material. Tijolos, pedra e areia empurram os pedestres para o meio da rua.

Numa esquina há um posto de gasolina, mas sempre que passo alí tenho receio de ser atropelado, pois boa parte dos motoristas confunde entrada de posto (que é calçada) com continuação da pista. Isso sem falar em lixo jogado pela janela, mães que mandam seus filhos de livrarem de sacos de salgadinhos, embalagens de picolés e papéis de bala em qualquer lugar.

A grande maioria dessas pessoas ou não chega sequer a “pensar” sobre o quanto esses atos tornam a vida nas cidades mais difícil ou imagina que são “errinhos”, bobagenzinhas inofensivas que não fazem mal a ninguém.

Sempre reflito o quanto isso tem seu fundamento na formação histórica da sociedade brasileira. É claro que há que se levantar a história, o processo que levou a isso, sem inocentar o presente. Somos sim os grandes responsáveis por isso e é nossa, não do passado, a obrigação de mudar as atitudes.

Não há um consenso entre historiadores a respeito do quanto nossa sociedade foi formada de modo diverso de outras tantas nas Américas e do quanto a nossa é específica. É claro a falta de educação é mundial, bem como a existência de indivíduos que tem deficiências em cidadania.

No ano passado, nas duas vezes que estive na Argentina, fiquei impressionado como um povo tão mais instruído do que o nosso, tão mais politizado, consegue ser tão pouco cidadão, cometendo absurdos tais como os que nós mesmos cometemos.

Mas aqui, no Brasil, penso que nossa cidadania deficiente vem de uma questão ainda mais profunda. Ao longo da história nossa sociedade foi marcada por uma contraposição frequente entre o poder da Coroa Portuguesa e as populações. Nem sempre era assim, mas com bastante frequencia os administradores coloniais somente apareciam para poder extrair mais benefícios para o poder central.

Em tantos assuntos a administração colonial portuguesa se omitia, deixando a solução dos problemas a cargo de particulares ou de outras organizações, como a Igreja Católica. Assim, com o tempo, foi se consolidando uma imagem de um poder distante das populações, e mais distante quanto menor as rendas, até o ponto de estar totalmente distante, como no caso dos escravos.

A sociedade brasileira, em alguma medida, se formou em contraposição ao Estado. Outra decorrência dessa situação foi a consolidação de uma impressão de que “meu” é somente aquilo que me é particular. O que está do lado de fora não é meu, nem de ninguém. Assim, o espaço público não passou a ser compreendido como “aquilo que é de todos”, mas como “aquilo que não é de ninguém”.

Imagine deixar que alguém jogue lixo na sala de sua casa? Ou que estacione o carro em frente a sua garagem? Ou que quebre a torneira de seu banheiro? Nunca…. Mas raramente alguém fica indignado quando isso acontece nas ruas, pois se esquece que aquilo também é dele.

Para complicar ainda mais o processo some-se a isso os séculos de escravidão, durante os quais foi se construíndo um sistema social no qual os direitos são escalonados e atribuídos de acordo com critérios econômicos, regionais, de cor e de gênero (bases do nosso racismo velado, muitas vezes explícito também).

Mas em outros países não foi assim também? Não exatamente.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a independência do país foi construída por uma adesão maciça da população, formada de pequenos produtores, comerciantes, gente comum. No Brasil a independência e a formação do Estado se deu através de acordos de elites, com pouca ou nenhuma participação popular.

Nos países da América espanhola, em boa parte deles, ou uma expressiva população livre (como na Argentina e no Chile) ou uma larga base indígena (como na Bolívia, no Perú, no México) garantiram a formação de sociedades que tem outras relações com o espaço e a “coisa pública”.

Não que sejam países sem problemas, melhores ou piores do que o Brasil, mas certamente países que tem outras relações entre sua população e o espaço de “todos”.

Daí temos tantas decorrências disso: a falta de participação do brasileiro no acompanhamento das coisas públicas,a ausência de fiscalização dos poderes, deputados que estão “se lixando para a opinião pública”, certo desinteresse pela educação formal, e, até, o farol vermelho cruzado.

O pobre Gérson, jogador da Copa de 70, que teve a zica de emprestar seu nome a pior criação cultural brasileira, a Lei de Gérson, que possuí um único artigo, “Eu gosto é de levar vantagem em tudo”, deve ter, até ele, sentido na pele as implicações dolorosas disso no cotidiano. Inclusive porque com tal disseminação da nossa falta de cidadania todos são vítimas e réus.

Cidadania, de fato, é diverso de “instrução” e até mesmo de “educação”. Instrução significar conhecer algo, ter saberes sobre um certo assunto. Educação é o trato, o respeito entre as pessoas, o trato social. A cidadania é o conceito mais amplo, que desde os antigos gregos (os quais tinham uma cidadania bastante excludente, pois não inseria mulheres, estrangeiros e escravos) envolve a relação do ser humano com o espaço vivido, com a “cidade”. É um conjunto de princípios de respeito para com os outros, para consigo e para com o espaço coletivo, mas que exige empenho, atuação. A cidadania é um conceito que somente pode existir se for ativo, não existe uma cidadania silenciosa, somente receptiva.

E dos elementos – instrução, educação e cidadania – é da última que todos os dias sentimos na prática sua falta.  

 

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da América Latina, História da cultura Tags: ,
11/05/2009 - 07:30

O Papa na Palestina, hoje como ontem…

Nos últimos dias o noticiário internacional esteve dividido entre a expansão da gripe suína, agora chamada por um nome mais “técnico”, e a visita que o Papa está fazendo a algumas regiões do Oriente Médio.

 

Em verdade Ratzinger tenta se redimir pela insinuação de que o islamismo, e o profeta Maomé, pregavam a violência, feita ano passado. Ao mesmo tempo o Papa, ou sua chancelaria, tenta voltar a reduzir a distância entre as fés, processo que é longo e que foi fortemente incentivado pelo Papa João Paulo II.

Faz quase 1500 anos que cristãos e muçulmanos tentam se entender naquela região, a questão judaica somente tomou o papel protagonista nesse contexto de conflitos após a criação do Estado de Israel em 1948. Talvez justamente pelo aparecimento de um opositor com feição de “estado nacional”, de “país”, a questão religiosa entre muçulmanos e cristão, mais especificamente católicos, passou para segundo plano.

O fato é que mesmo após o encerramento do grande ciclo das guerras religiosas entre cristãos e muçulmanos na Palestina (embora tenham se mantido em dimensões menores na região, ou mesmo em outras regiões do planeta, como nos Balcãs e no leste europeu) a relação entre o papado e os estados islâmicos jamais foi plenamente tranquila.

É verdade que é impossível se apagar completamente da memória eventos tão marcantes para os povos daquela região como as sucessivas Cruzadas, a tomada de Constantinopla pelos turcos-otomanos, a batalha de Lepanto e tantos outros momentos traumáticos para ambos os lados. Mas isso não significa que as relações tenham que ser eternamente marcadas por acusações mútuas e lembranças mais ou menos inconscientes de preceitos discriminatórios de ambas as fés.

Há um caso curioso que se passou com o Papa João Paulo II. Visitando a Sinagoga de Roma (fato histórico por promover a reaproximação entre católicos e judeus, outra relação problemática e ainda mais antiga do que a com os islâmicos), Karol Wojtila disse que para os cristãos os judeus eram seus “irmãos mais velhos”.

Bom, para a maioria das pessoas tal comentário seria uma grande deferência, um elogio simpático, familiar mesmo, trazendo para o seio da intimidade, do mesmo grupo, pessoas com as quais se debateu durante praticamente dois milênios. Mas isso não é tão simples quanto parece para pessoas que conhecem profundamente o Antigo Testamento, como o Papa e os Rabinos.

Em um dos episódios mais importantes do “Livro”, Esaú e Jacó disputam a preferência do pai, o qual está praticamente cego, então o filho mais velho, pastor de cabras vende sua primogenitura para o filho mais jovem por um “prato de lentilhas”. É um momento de rompimento na história, no qual o filho mais velho, o primogênito, vende de modo tolo e quase humilhante seu direito tradicional, base da sociedade e da sucessão familiar para o irmão mais jovem, trazendo com isso toda uma carga de culpa e de inferioridade.

A lembrança dessa passagem, da relação entre irmãos mais jovens e mais velhos, não se pode garantir que estava consciente na mente do Papa João Paulo II, mas foi notada por alguns comentadores, como o historiador italiano d eorigem judaica Carlo Ginzburg. O fato é que consciente ou não, está gravada na memória, através de uma longa educação teológica, determinados preceitos que estabelecem como as pessoas de um credo vêem as de outro. Romper com isso não é fácil, nem instantâneo.

Apesar das argumentações apresentadas pelos porta-vozes do Vaticano, explicando que o sentido das palavras do Papa Bento XVI foram alterados e sua fala descontextualizada, o fato é que na memória de Ratzinger está gravado esse conjunto de idéias que fundamentaram o cristianismo durante séculos, o que não significa que ele possa, queira ou deva se manifestar publicamente assentado nele.

Nesta semana o Papa visitará lugares sagrados para o cristianismo na área mais “quente” da Palestina – excetuando-se, obviamente, a Faixa de Gaza – que é o setor de Jerusalém. Basta lembrar que a última explosão de violência dos islâmicos contra judeus na área ocorreu com a provocação que o então candidato Ariel Sharon fez ao visitar a Mesquita de Al-Aqsa, lugar sagrado para as três religiões, sob controle religioso islâmico, mas em território reinvindicado por Israel (Jerusalém não é reconhecida oficialmente como território israelense, pois de acordo com as determinações da ONU deveria haver algume espécie de compartilhamento com os palestinos).

As visitas dos representantes da “cristandade” a Jerusalém quase sempre foram complexas e cheias de significados e implicações, desde a época das grandes peregrinações medievais. Afinal de contas, foi para garantir o acesso cristão a esses lugares (pelo menos esse era o “argumento formal”) que as Cruzadas foram conclamadas.

De qualquer modo, gestos de boa vontade são bem vindos de todos os lados, mesmo sem o Papa poder se proclamar como porta voz da cristandade. Resta saber se seus atos e falas não trarão novas implicações diante dessa longa e conflituosa relação.

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura, História do oriente, História medieval Tags: , , , , , , ,
10/04/2009 - 20:27

O Santo Sepulcro em Jerusalém

No final do século XI o exército cristão da Primeira Cruzada conseguiu finalmente entrar na cidade sagrada de Jerusalém para completar a obra que motivara a expedição: libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados para o cristianismo da dominação islâmica.

 

Encontraram do lado de dentro das muralhas da cidade – datadas da época da dominação romana na Palestina, no começo do primeiro milênio de nossa época - a Basílica do Santo Sepulcro, supostamente construida sobre o túmulo de Cristo.

Nos anos seguintes os cruzados investiram fábulas em ouro, prata, pedras preciosas para enriquecer o túmulo de Jesus, e deixá-lo “digno de um rei”. Riquezas, obviamente, tanto arrecadadas entre a nobreza européia quanto saqueada de potentados islâmicos, derrotados pelo caminho. Doações menores também engordaram os cofres para o embelezamento do Santo Sepulcro, mas muitos dos fiéis eram tão pobres que mais precisavam do que podiam dar ajuda.

A Basílica encontrada pelos cruzados era, na realidade, uma reconstrução da primeira, construida no século IV pela mãe do imperador romano Constantino. Helena e o bispo Macário desejosos em encontrar o lugar onde fora sepultado Cristo empreenderam uma grande escavação numa área interna aos muros da cidade.

Na realidade os sepultamentos não podiam ser realizados dentro da área da cidade na época de Cristo, mas o local escavado foi anexado à área urbana de Jerusalém somente no século II d.C., quando o imperador romano Adriano mandou que se encontrasse um local adequado para a construção de um Foro e de um templo dedicado a Vênus, Jupiter e Juno (o Templo Capitolino).

Os homens da administração romana indicaram, então, a região do Golgota (em hebraico “crânio” ou “caveira”), morro onde eram realizadas as execuções de condenados e uma área de túmulos. Era nessa região que, provavelmente, se encontrava o túmulo escavado na rocha pertencente a José de Arimatéia, rico judeu, próximo a Jesus, que emprestou para seu sepultamento. A área foi então aterrada, sem que se retirassem as pedras base, e o templo edificado.

Foi nessa área que dois séculos depois Helena e Macário começaram as escavações, encontrando logo em seguida as pedras tumulares. Num dos nichos encontrados teriam sido localizados os madeiros que foram utilizados na crucificação de Cristo e dos dois ladrões.

Essa história do “Santo Lenho”, aliás, rendeu muito durante a Idade Média, fazendo o número de relíquias (objetos ligados a vida dos santos ou de Cristo) se multiplicar exponencialmente. Cada igreja queria ter um numero mais impressionante do que a outra de relíquias, até porque isso lhes garantia maiores doações e maior visitação de fiéis, numa verdadeira disputa turística-mercadológica. Isso acabou por promover uma crescente falsificação de relíquias que garantiam que um único santo tivesse seis braços, dez pernas, três cabeças. O famoso “Sudário de Turim” (o pano que teria coberto o corpo de Cristo após a crucificação, era apenas um dentre tantos, o que implica obviamente a pergunta: quantas vezes ele foi coberto??

Uma piada corrente na Idade Média costumava dizer que haviam tantas lascas da Santa Cruz que seria possível com elas construir a Arca de Noé.

Mas isso não era um problema sério na época da Imperatriz Helena, e ela mandou erguer uma igreja suntuosa sobre o antigo Templo Capitolino. Contudo, no século VII, os persas invadiram a cidade e botaram a igreja no chão. A antiga igreja possuia cinco naves além de uma cripta onde estavam repousadas as cruzes encontradas.

A destruição de 614 começou a ser revertida quinze anos depois, quando o um abade de nome Modesto iniciou sua reconstrução. Depois de concluida manteve-se intacta durante quatro séculos, quando durante a invasão árabe liderada pelo califa Haken – em 1009 - novamente a igreja foi completamente destruida.

 Nos anos seguintes a igreja foi reerguida, mas de modo bastante simples, até mesmo por conta da dominação islâmica na cidade. Foi nesse ponto que os cavaleiros cruzados a encontraram com a tomada de Jerusalém no final do século XI. Com sua nova ornamentação a Basílica foi sagrada em 1149.

Ao longo da Idade Média o Santo Sepulcro foi o “pomo da discórdia” entre cristãos e islâmicos e sua “libertação” utilizada como argumento para sucessivas cruzadas. É claro que outros motivos de ordem econômica ou social estavam por trás destes movimentos, mas o Santo Sepulcro jamais saiu da pauta dos reis e papas na medievalidade.

Contudo, apesar da retomada de Jerusalém aos árabes por Saladino, a Basílica se manteve praticamente intacta até ser novamente destruída por um incêndio em 1808. Durante a dominação árabe foi garantido o acesso dos cristãos ao Santo Sepulcro – motivo de interesse desses -, desde que se pagasse uma generosa taxa de admissão – motivo do interesse dos senhores da cidade.

Ao longo desse tempo milhares de fiéis peregrinaram para lá, para adorar o túmulo e ver o mistério do acendimento sem intervenção humana da lamparina que ilumina o sepulcro. No século XIV, Mafeo e Nicolo Polo – pai e tio  de Marco Polo – realizaram uma viagem a Jerusalém a fim de levar para Kublai Kan – o qual ficara impressionado com as histórias a respeito de Cristo contadas pelos mercadores venezianos – um vidro com um pouco do azeite que queima no Santo Sepulcro, tal era a fama de miraculoso do local.

A reconstrução da basílica, após o incêndio em 1808, foi em grande parte bancada por monges gregos, o que garantiu uma forte presença dos ortodoxos na manutenção da igreja. Mas essa reconstrução também determinou a retirada de inúmeros símbolos cristãos latinos, inadequados para os padrões ortoxos. Com o tempo a administração do Sepulcro passou a ser compartilhada entre ordens de seis diferentes igrejas cristãs: a copta, a armênia, a síria, a abissínia, além da grega-ortodoxa e a latina (ou romana).

Ainda hoje a abertura da igreja é realizada por um membro de uma ordem e o fechamento por um de outra ordem, evitando as brigas de tapas que marcaram décadas de relação conflituosa dentro do santuário.

Milhares de turistas e peregrinos visitam anualmente o Santo Sepulcro, movimento que diminui toda vez que a cidade de Jerusalém se vê abalada por séries de violência entre palestinos e israelenses, os quais disputam o direito de ter a cidade como sua capital, embora, atualmente, ela pertença à Israel, condição não reconhecida por muitas nações do mundo.

De qualquer forma parece muito paradoxal que o local mais agrado para o cristianismo tenha uma milenar história ligada a violência e a intranquilidade, posto que o “sepultado” morreu por valores completamente contrários. Mas essas são as contradições que compõem e movem a história.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente, História medieval, Patrimônio histórico Tags: , , , ,
09/04/2009 - 15:07

Páscoa: duas festas e um sentido

A Páscoa cristã é uma festa que foi instituida oficialmente no Concilio de Nicéia, no ano de 325 da nossa época, determinada para que seja festejada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte.

 

A festividade, é claro, já era comemorada há séculos e era decorrente em parte da antiga festa judaica do Pessach, a qual, em sua origem celebra algo absolutamente diverso da Páscoa cristã.

De acordo com o judaísmo, há cerca de 3500, o povo hebreu – os antepassados dos atuais judeus – era mantido sob cativeiro no Egito e sua libertação foi obtida através de uma série de intervenções de Deus, em auxílio ao seu povo e a Moisés, seu líder (daí a comunidade e suas leis serem também conhecidas como “mosaicas”).

Os episódios que antecedem a fuga do Egito são fantásticos e envolvem momentos conhecidos em quase todo o ocidente como as Dez Pragas (os gafanhotos, o rio virando sangue, etc.). Tais punições, enviadas por Deus, tiveram como objetivo persuadir o Faraó a libertar os hebreus, mas, mesmo assim, este se manteve irredutível até que o massacre dos “inocentes” (das crianças primogênitas) foi realizado pela espada do “Anjo Vingador”. Para que os filhos dos hebreus não fossem igualmente massacrados, Deus ordenou que as portas de suas casas fossem marcadas com sangue de cordeiro.

Com isso o Faraó, aparentemente vencido, chamou Moisés a sua presença e permitiu a partida dos hebreus (Moisés havia sido criado na família do Faraó, após ter sido encontrado abandonado em um berço de vime no Nilo, seu próprio nome seria uma “judaização” do nome egipcio “msés”, que significa gerado, extraido, retirado, advindo de).

Mas, desejoso de vingança o Faraó ordenou ao seu exército que perseguisse a massacrasse os hebreus, episódio que deu origem a passagem da “Abertura do Mar Vermelho”, quando o mar se abre para a a passagem do “Povo de Deus” e dizima o exército egípcio.

Mas, mesmo depois da partida do Egito, os hebreus são impedidos de entrar na sua “Terra Prometida”, por conta da idolatria que penetrou entre parte deles. Como punição passam 40 anos no deserto, e o próprio Moisés jamais chegou a pisar no chão da terra destinada a seu povo.

Em memória a esses eventos, fundadores do povo hebreu, passou a se celebrar o Pessach (A Passagem), festa na qual cada evento e cada elemento dessa trajetória são lembrados através de atos, rituais e alimentos. O cordeiro consumido no Seder (a refeição ritual) lembra o sangue que salvou os inocentes hebreus, o pão ázimo o período de residência no deserto, as ervas amargas molhadas em água com sal lembram a tristeza e as lágrimas derramadas pelo povo. 

Assim o Pessach se tornou uma das festas mais importantes do calendário judaico, comemorada no 14 de Nissan (Calendário Judaíco). E era na época dessa comemoração quando ocorreram os eventos da prisão, morte e ressurreição de Cristo.

Aparentemente os discípulos se preparavam com Cristo para as festividades do Pessach quando ocorreram os eventos. A Santa Ceia seria em verdade a realização do Seder ritual. A tradição conta, inclusive, que o sepultamento de Cristo ocrreu as pressas pois já anoitecia e iria começar o Shabbat, a guarda cerimonial do dia de sábado. Por isso somente no domingo, ao entrar no sepulcro, as mulheres teriam dado conta da ausência do corpo de Jesus.

Com isso a festa judaica da Passagem, entre a nascente comunidade cristã, passou a ter o sentido de festa da Ressurreição, o que foi confirmado justamente em 325 em Niceia.

Apesar de para os judeus o Pessach estar associado ao cativeiro, fuga e êxodo, é uma festa da transformação, da renovação, o que explica a escolha do período do início da primavera no hemisfério norte (quando a natureza floresce, os animais se reproduzem, etc). Para os cristão, apesar da memória do sacrifício de Cristo (associado ao “cordeiro de Deus”, o “sacrifício ritual de Pessach”), o sentido também é o de renovação, de renascimento, o que mantém as festas ainda muito unidas no seu sentido profundo.

Os demais elementos que se popularizaram ao longo dos séculos – os ovos de presente, os coelhos – foram assimilações de elementos das religiões que existiam na Europa e na Ásia quando da expansão do cristianismo.

Quem conhece a Catedral de Brasília há de se lembrar que no gigantesco vitral existe um imenso ovo, mostrando suas duas partes, a clara e a gema. Ele nada mais é do que uma célula, o “um que gera o mundo” como está nas antigas religiões que deram origem aos credos modernos. Nessas antigas tradições tudo no início era uno, e esse uno por vontade própria e por descobrir sua própria existência passou a criar o universo através de sua essência, por isso o “um que gera o mundo”.

A célula é o símbolo disso, ou mlhor, a grande célula que é o ovo. Essa crença era comum em diversas regiões, tanto entre os povos do norte da Europa quanto entre os chineses (exatamente por pertencer a um passado tão distante que foi carregado pelos povos que foram colonizando as diversas regiões do mundo). O coelho é relativamente mais simples, um símbolo de fertilidade.

Renovação, fecundidade, fertilidade, multiplicação, renascimento, passagem, são os elementos centrais herdados pelas tradições judaica e cristã, mas oriundos de um passado imemorial.

Depois foram se adicionando elementos pontuais, como as pinturas simbólicas nos ovos, as caçadas por eles, o chocolate, etc, etc, mas o essencial já estava consolidado.    

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura Tags: , , , , , , ,
07/04/2009 - 17:03

Arqueologia na “Terra Santa”

Semana Santa me fez lembrar de algumas situações bizarras. Há algum tempo, no começo de 2007, o cineasta James Cameron lançou um documentário produzido para a Discovery, chamado The lost tomb of Jesus (A tumba perdida de Jesus), no qual ele acompanhava o trabalho de um grupo de “arqueólogos” israelenses que teriam encontrado o verdadeiro, e material, túmulo de Jesus Cristo.

 

A jogada de publicidade de Cameron, pra lá de oportunista, parece ter tido menos efeito do que ele esperava, pois a coisa morreu no circo que ele montou para “apresentar a descoberta”. A impressão que ficou é que as pessoas tiveram dois tipos de reação diante da palhaçada toda. Umas olharam e pensaram: “Arqueólogos? Ossada de Cristo? Ok. E eu sou Napoleão Bonaparte vou reinvindicar o trono da França.” Outras pensaram: “Ossada de Cristo? Ok. E o que isso muda de fato o mundo?”

De qualquer forma ficou Cameron, seus arqueólogos (ou não), e a bendita ossada. O mundo continuou o mesmo. Quem é cristão continuou, quem não era não deu a mínima, o Vaticano não foi abalado, nem nenhuma outra igreja cristã. Isso somente lembrou o cineasta de que a fé transcende questões científicas e o melhor que há a se fazer (nesses casos específicos) é cada uma se manter com suas atribuições e responsabilidades. A Igreja Católica, aliás, também deveria se lembrar disso de vez em quando e não se meter em questões científicas, como a condenação ao uso de preservativos pelos seus fiéis. Mas esse não é o tema essencial aqui.

A questão é que há todo um segmento da história, da arqueologia, da linguística dedicado ao estudo dos assuntos relacionados a vida na Palestina no período que vai de uns dois mil anos antes de Cristo até alguns séculos após sua morte. Esse campo de estudo é denominado comumente de “Bíblico”. Arqueologia bíblica, História bíblica, etc.

O objetivo desse campo de estudos é compreender e revelar melhor a vida dos povos no período que é coberto pela Bíblia.

Sempre achei complicado determinar um documento religioso, “inspirado” como dizem os “povos do livro” (judeus, cristãos e islâmicos), como baliza de pesquisa, como base. Mas é um campo de estudo atraente realmente, mesmo com suas complicações.

Basta ver a quantidade de filmes que tocam nesse tema. A própria série do Indiana Jones tem dois episódios dedicados ao tema: o primeiro, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, no qual vão em busca da Arca da Aliança e Indiana Jones e a Última Cruzada  o qual transita entre a busca pelo Santo Graal e as história de cavalaria da Idade Média. Sobre o tema do túmulo de Cristo há O Corpo  que narra como seria a descoberta de uma suposta ossada de Jesus (será que foi daí que Cameron tirou sua aventura? Tentando fazer a vida imitar a arte?). Mais recentemente o escritor Dan Browm encheu os bolsos graças ao tema, com Código Da Vinci, que, na realidade, trata da descendência de Cristo ou não. E do suporto túmulo de Maria Magdalena.

Em geral a chamada “Arqueologia Bíblica” vai melhor quando se distanciam de uma “história pessoal”. Ou seja, quando evitam ficar tentando elucidar se Abrãao realmente existiu, onde esta enterrado Moisés, se Cristo deixou sua ossada, etc, etc.

Já houve quem quisesse escavar o topo do Monte Ararat, na divisa entre a Turquia e a Armênia para verificar se a mancha que se vê de longe é a Arca de Noé!!!!

Como poucas áreas a arqueologia bíblica pode descambar para um sensacionalismo desmedido e uma confusão dos Diabos (sem trocadilhos, por favor) entre fé e ciência.

Mas há muita pesquisa séria. A recuperação dos famosos Manuscritos do mar Morto tem revelado muito sobre as crenças de uma comunidade judaica chamada “essênios”, que tinham um centro à beira do mar Morto e guardaram nas cavernas das montanhas próximas milhares de documentos descobertos acidentalmente por um pastor há décadas. As crenças dos essênios teriam sido uma das bases do cristianismo.

Também escavações em Jerusalém vêm revelando a história da formação da “Cidade Santa”, com suas sucessivas construções e destruições, iluminando passagens como a relação dos hebreus com seus visinhos, bem como a formação do próprio povo hebreu e de sua crença.

Outras pesquisas vêm esclarecendo melhor a história da dominação romana na Palestina e as relações de poder com os monarcas locais, como Herodes (cujo reinado é citado como o que envolveu o nascimento de Cristo). Também obtivemos mais informações a respeito das culturas da “Terra Santa”, seus hábitos, economia, sociedade.

O assunto realmente é fantástico, mas é sempre bom tomar cuidado com “pesquisas” promovidas por gente obscura, com interesses comerciais ou políticos por detrás, e, também, para não misturar “as estações”.

Os valores que as religiões difundem tem importância e sentidos transcendentes, não é a descoberta da Arca da Aliança ou do Graal que vai mudar isso.

 

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente Tags: , , , ,
08/03/2009 - 10:12

O Dia Internacional das Mulheres

Sempre fico na dúvida se ter “um” dia para se comemorar algo é bom ou mau negócio. É como o dia do “Trabalhador”, do “Índio”, da “Consciência Negra”, etc, etc. Quem defende diz que na realidade são marcos nas lutas pelos direitos dessas categorias, por isso devem ser sim comemorados. Quem critica diz que o estabelecimento dessas datas comemorativas enfatiza a desigualdade, pois não há a necessidade de se estabeler datas comemorativas para os duplos negativos, como “dia do patrão”, “dia do homem”, “dia do fazendeiro”.

 

No caso específico do Dia Internacional das Mulheres há um dado curioso, pois ele foi estabelecido na junção da luta pelos direitos das mulheres e da luta pelo direito das trabalhadoras. A data relembra o trágico desfecho de uma greve nos Estados Unidos no qual as trabalhadoras foram presas dentro da fábrica e mutas morreram com o início de um incêndio. Exatamente por isso a data acaba sendo uma união das duas dimensões, o feminismo e o trabalho.

O fato é que grande parte dos povos é originária de culturas “masculinas” (ou “machistas”), mas, a balança realmente pendeu quando o cristianismo e o islamismo (não por acaso dois desdobramentos do judaísmo) se espalharam pelo mundo.

Embora povos tradicionais – indígenas americanos, africanos, asiáticos – não possam ser vistos pelos olhos da igualdade de gêneros tal como a entendemos hoje é fácil reconhecer neles um sistema que funcionava muito mais como uma divisão de esferas de poder do que uma supremacia pura e simples dos homens.

Em diversas instâncias da vida dos povos tradicionais as mulheres tinham efetivamente mais poder do que os homens, sem contar seu poder de barganha – tal como na peça grega Lisístrata -. As sociedades eram entendidas em muitos povos como “complementares”, formadas por duas essências distintas, mas que não podiam existir sem a outra.

É claro que haviam diversas exceções entre os povos tradicionais, mas efetivamente a difusão do cristianismo no final da idade antiga e começo da medievalidade significou um influxo importante no direito das mulheres.

Não bastasse a proibição do acesso ao sacerdócio – proibição de origem judaica – as mulheres receberam a responsabilidade pelos descaminhos da humanidade. A história da expulsão do Paraíso começa pela influência da mulher e assim ela permanece através do restante das escrituras (muitas das quais foram alteradas ao longo da história para confirmar esse sentido).

No pensamento cristão medieval a mulher era suscetível às seduções do mal, e por isso devia passar a vida tutelada por um homem: pai, esposo ou Cristo, quando entravam para a vida religiosa.

Da mesma forma seus desejos eram vedados e qualquer incorrência em práticas milenares de cura, de ritos de fertilidade, podiam acarretar em uma acusação por bruxaria e levá-las as fogueiras da Inquisição.

Parece curioso para nós, hoje, que uma das provas para determinar se uma mulher era bruxa ou não era amarrá-la em pedras e jogar no rio para ver se boiava. Por mais absurdo que seja era a absoluta verdade.

E essa herança foi transmitida e resignificada geração após geração, e quando não se podia mais acusar as mulheres de bruxaria, no século XIX, acusavam-nas de “histeria”, males da mente causados por “furores sexuais”, por “destemperos”.

Mas, é claro, nem sempre era assim na intimidade dos lares. As pesquisas a arespeito da vida privada no Brasil Colônia, por exemplo, vem demonstrando que a visão de “família patriarcal” consagrada por Gilberto Freyre em   Casa Grande e Senzala não reflete a realidade. As mulheres compartilhavam o poder com os homens, e muitas vezes assumiam os negócios da família após a morte do marido (o que era bastante comum, visto que a longevidade masculina sempre foi menor do que a feminina).

A famosa escrava alforriada Chica da Silva, do Arraial do Tejuco, nas MInas Gerais, a qual ganhou celebridade por haver se casado com João Fernandes, o contratador de diamantes, foi um desses casos. Depois que o marido foi embora para Portugal assumiu sozinha a formação dos filhos do casal e os negócios da família, o que fez com grande competência.

De qualquer forma, o Dia Internacional da Mulher deveria ser comemorado, ao menos, pelo que o estudioso dos mitos, Joseph Campbell, disse ser um verdadeiro ato mitológico de heroísmo, que é o de gerar a humanidade.

Ou, como diz uma amiga minha: Se parir fosse uma atribuição masculina a espécie humana já teria acabado.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História antiga, História contemporânea, História da cultura Tags: , , ,
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