Arquivo da Categoria Carreira e história
20/10/2009 - 07:12
Já está se transformando numa tradição: todos os anos, quando chega o período pré-vestibular, acabo fazendo um balanço da carreira de história, da formação dos novos historiadores e do mercado de trabalho. De certa forma vejo isso como um “conselho de colega de profissão” aos milhares de candidatos que tentarão ingressar nos diversos cursos de história espalhados pelo Brasil.
A carreira ainda se divide em duas grandes “especializações”: o bacharelado, voltado para a formação de pesquisadores e, posteriormente, de professores do ensino superior e a “licenciatura”, destinada aos que pretendem se tornar educadores dos ensinos fundamental e médio.
No caso da licenciatura a situação é relativamente mais simples por um lado, e mais complexa por outro: as transformações pela qual o ensino de história nos niveis fundamental e médio vem passando acompanham a transformação do ensino em geral. No caso específico do ensino de história cada vez mais se valoriza a formação reflexiva, investigativa e crítica ao invés da conhecida insistência no “conteúdo”. É claro que isso não significa que os novos educadores possam desprezar o conteúdo simplesmente, mas ele deixa de ser o objetivo para ser o “meio”, o veículo através do qual os alunos são convidados a pesquisar e criticar (no sentido de “discernir”, “refletir” e não de “falar mal”) a trajetória dos grupos humanos ao longo do tempo.
Para isso o educador tem cada vez mais que dominar o uso de diversos suportes ou ferramentas pedagógicas: música, cinema, iconografia, recursos digitais, etc. Além do mais, exige-se também a disposição para dialogar com jovens que estão sendo alfabetizados e aprendedno a se relacionar com o conhecimento de um modo profundamente diverso daquele que se empregou até hoje, graças, em grande medida, a difusão das novas tecnologias da informação.
Em resumo isso significa que o grande desafio do ensino atual, e para o futuro imediato, será conciliar a formação necessária e desejável com um mundo de informação extremamente mutante e de uma rapidez inimaginável. Crianças e jovens que se alfabetizaram pela internet antes mesmo de aprender formalmente o B-A-BA.
Além disso o educador terá de se defrontar com a permanente disputa entre autonomia e liberdade dos alunos, entre responsabilidade e maturidade, desafios que tornam as salas de aula num espaço nem sempre pacífico.
Para os que não pretendem passar pelas salas de aula e buscam cursar o bacharelado em história os desafios são de outra ordem e não desprezíveis.
No Brasil criou-se a cultura de que o historiador – bem como parte significativa dos cientistas sociais – não tem um papel prático, pragmático, produtivo no cotidiano da sociedade. Os historiadores se contentaram – boa parte deles, jamais todos, é claro – em comodamente dizer que seu papel era o de “criticar a sociedade”, numa argumentação também cheia de arrogância.
A consequência disso foi que, enquanto os cursos de história se multiplicaram pelo país, o mercado de trabalho para os bacharéis, mestres e doutores em história cresceu proporcionalmente. Quando ingressei no curso de história da Universidade de São Paulo, no final dos anos de 1990, um concurso para professor do Departamento contava com três ou quatro candidatos em média. Hoje os concursos chegam a ter quase vinte candidatos, quando não superam esse número.
O que isso significa?
Cada professor dos cursos com programas de Pós-Graduação stricto sensu (os que atribuem títulos de Mestre e Doutor) orientam vários alunos, até dez ao mesmo tempo. Entre mestrado e doutorado – requisitos exigidos na maioria dos concursos para professor de ensino superior em universidades públicas – o aluno passa cerca de seis ou sete anos estudando antes de ingressar no mercado de trabalho. Ou seja, a cada sete anos em média temos um crescimento de – por muito pouco – 300 ou 400% de novos mestres e doutores aptos a concorrerem a vagas de professores em universidades.
É claro que a abertura de novos cursos jamais poderá acompanhar tal oferta de profissionais. Ao mesmo tempo os professores não podem recusar novos orientados de pós-graduação pois isso faz parte das suas obrigações enquando docente de uma universidade pública.
O resultado é que hoje o sistema de reposição dos quadros de historiadores dedicados ao ensino superior se degradou terrivelmente e beira o colapso.
Obviamente que nem todos mestres e doutores se tornarão professores universitários, mas as demais possibilidades “tradicionais” de trabalho para os historiadores (em museus, arquivos, centros de pesquisa, etc.) também não acompanhou o crescimento da oferta de profissionais.
Parte significativa da responsabilidade dessa situação deve-se a própria categoria, que com uma falta de objetividade incrível, sequer conseguiu regulamentar a profissão, o que significa que não existem atribuições exclusivas ao historiador (como nas áreas de restaura de patrimônio, estudo do mesmo, redação de livros didáticos de história, etc.) determinadas por lei.
Mas, apesar do cenário pouco animador, acredito na incrível capacidade do ser humano de se reinventar e solucionar na prática o que falta na estrutura júrica ou burocrática.
Com isso vemos cada vez mais historiadores ocupando espaços em áreas diversas: atividades relacionadas a proteção e gestão do patrimônio cultural, cinema, teatro, jornalismo, produção cultural, consultorias específicas, até mesmo escrevendo novelas e desenhando enredos de escolas de samba.
Há quem veja a dedicação do historiador à essas atividades como algo “aviltante” (como vi certa vez uma professora aposentada da USP dizer). Eu, da minha parte, vejo nessas atividades o futuro da profissão.
Não vejo esse futuro apenas como uma opção de mercado de trabalho, mas como um encontro esperado há séculos entre o historiador e a sociedade, entre o formado e aquela que lhe custeou a formação, como ocorre em tantas outras áreas.
Contudo, isso exige do formando uma mudança de atitude e de perspectiva diante da carreira e da própria vida. Atuar no cotidiano da sociedade, e não apenas dentro dos muros das universidades, implica em ter que refletir sobre a dimensão ética de seu trabalho, de suas escolhas, responder pelas suas opções, se envolver diretamente em debates, disputas, como ocorre com as demais profissões – e que, para o licenciado em história sempre foi algo muito mais familiar do que para o bacharel.
Isso exige também que os formandos estejam aptos a dialogar com outras disciplinas, com profissionais que tenham formações radicalmente diversas como um engenheiro, um administrador, um biólogo, que estejam aptos a trabalhar em equipes multidisciplinares e se ver como um membro de um “time” e não como uma “Diva”, tal como a formação clássica insinua.
Em suma, vejo um cenário desafiador para os(as) novos(as) historiadores(as), o que é bom (para quem gosta de desafios, de “construir soluções”). E é bom também porque o(a) novo(a) historiador(a) terá que ser, antes de tudo, um(a) “cientista cidadão(ã)”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história
Tags: Bacharelado, Carreira, Curso, Formação, História, Licenciatura, Mercado de Trabalho, Profissão
28/03/2009 - 17:56
Nos últimos anos a arqueologia tem se transformado profundamente, mas não em seus aspectos “científicos”. Nenhuma grande teoria surgiu, nenhum método revolucionário, nenhuma descoberta de “arromba”, mas, mesmo assim, a arqueologia vem mudando.
Há alguns dias uma migo meu, professor universitário, me chamou para um café. No bate papo me contou que um grupo de professores de uma universidade pública paulista pretende abrir um curso de graduação para formar arqueólogos. Ele, como “consultor” do projeto veio conversar comigo a respeito da carreira e do “mercado de trabalho” para o arqueólogo no Brasil, pois, embora não seja uma arqueólogo de formação, trabalho há vários anos na área.
Fiz para ele um breve comentário a respeito das mudanças na carreira e o quanto isso está associado às mudaças do mundo em geral, sobretudo em seus aspectos sociais.
Diferentemente das ciências “duras” a arqueologias é uma ciência que vive do contato com os povos. Apesar de estudar culturas que existiram há muito tempo, as vezes milhares de anos, a arqueologia vive profundamente no contato e do contato com povos distintos.
Até algumas décadas o arqueólogo, diante de um desconhecimento e da insipiente valorização do “patrimônio cultural”, podia se deslocar para quase qualquer parte do planeta, realizar suas escavações contratando locais por preços modicos e retornar tranquilamente para sua universidade sem ter que dar maiores esclarecimentos para ninguém.
A primeira mudança ocorreu quando os países passaram a adotar medidas mais rígidas no controle de seu patrimônio histórico e arqueológico, o que se fez em função de um processo de valorização do mesmo.
Em verdade os arqueólogos jamais se preocuparam realmente com a dimensão ética de seu trabalho por conta própria, sempre que o fizeram foi em função de pressões externas. A mudança nas legislações nacionais a respeito do patrimônio foi a primeira dessas circunstâncias, obrigando os cientistas a se questionarem a respeito do direito dos povos em manter sua própria memória, materializada em objetos.
Mas a coisa se complicou exponencialmente depois disso.
Quando os “profetas da globalização” e da “pós-modernidade” surgiram decretando o fim das utopias, das identidades, dos países, enfim, do mundo como o conhecíamos, a primeira – e apressada – conclusão foi a de que os povos do mundo todo se tornariam uma geléia geral de imitadores baratos da cultura estadosunidense. Já estavam prevendo que Mickey Mouse e hamburgueres seriam encontrados e adorados em aldeias nanbikwaras, em utus e tutsis, entre uigures, nepaleses, tibetanos ou quechuas.
Mas isso não ocorreu. Ao menos não tão simplóriamente assim e não com os resultados “pacificadores” esperados.
Com a difusão dos meios de comunicação e do acesso a meios não controlados de informação os povos que eram tidos como “em extinção” passaram a acompanhar toda sorte de questionamento a respeito dos poderes dagrandes indústrias e dos países. Junto com a diversão barata produzida nos EUA chegaram também as discussões em fóruns sociais, informações sobre organizações sociais, sobre disputas judiciais em defesa dos direitos humanos, ambientais e afins, o que gerou um efeito cascata entre os povos “tradicionais”.
O resultado para a arqueologia foi uma porta fechada, ou bastante mais restrita.
Grande parte das escavações ocorre em áreas que pertencem a povos tradicionais, ou o que é escavado se remete aos seus antepassados. Deste modo, diante de décadas de indiferença com os problemas das populações vivas, os arqueólogos passaram a ter problemas para pesquisar os mortos.
Do mesmo modo as populações se deram conta de que o patrimônio lhes pertence, que suas identidades estão intimamente ligadas a ele e que não pode dispor dele de modo aleatório. Compartilhar talvez, quando a parceria é boa para ambos – pesquisadores e comunidades - ceder indistintamente provavelmente nunca mais.
E foi o que disse para meu amigo professor: o profissional que hoje sentimos falta não é do “escavador”, do “técnico em arqueologia”. Esse profissional é útil em trabalhos relativamente simples, como em salvamentos em áreas que serão inundadas, ou por onde passarão estradas. O profissional do qual carecemos é o “mediador de conflitos” e “gestor de patrimônio”.
Ou seja, um profissional mais próximo às comunidades, capaz de entender suas demandas e diante de inúmeros protagonistas conseguir ajudar na solução dos conflitos, garantindo o uso responsável do patrimônio.
Recentemente povos andinos reinvindicaram o direito de utilizarem para suas plantações sistemas de irrigação construidos em tempos dos incas. E por que não? Eles são os legítimos descendentes desse povo. O arqueólogo, ou o historiador, tem que atuar nessa situação como um mediador e com um tanto de humildade para reconhecer que a ciência é apenas uma dimensão a ser observada.
Mas, infelizmente, o caminho parece ser longo e as soluções distantes. A maioria dos cursos insiste em formar profissionais para uma carreira absolutamente afundada no autismo acadêmico, incapaz de interagir com a sociedade, indiferente às demandas do outro e arrogante em sua defesa científica.
Alguns bons exemplos surgem aqui e acolá, mas ainda é muito pouco.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história, Direitos Humanos
Tags: Arqueologia, Movimentos Sociais, Sociedade
05/03/2009 - 08:36
Desde que fui trabalhar com arqueologia algumas coisas me chamam a atenção no comportamento dos arqueólogos enquanto grupo, enquanto “bando”.
É claro que são considerações de um historiador, uma visão parcialmente “de fora”, e, talvez, eles não concordem com algumas delas (talvez porque jamais “pensaram” a respeito delas).
Toda profissão tem sua cultura particular, um conjunto de elementos que formam e dão unidade ao “bando”, é algo bastante antropológico em verdade. É como a preocupação que médicos e advogados tem em serem chamados de “Doutores” sem jamais terem feito um doutorado, faz parte da cultura da profissão e ir contra ela implica em ser visto como alguém estranho. Quanto mais se rebele contra essas “tradições” das profissões menos te verão como um deles.
E isso acontece com todos os grupos humanos. Historiadores costumam alimentar um gosto particular por literatura, música e cinema. Não que escrevam bem, sejam bons músicos ou façam cinema, mas se ao conversar com outro historiador ele não conhecer nada dessas áreas certamente lhe olharão meio torto.
Com os arqueólogos ocorre a mesma coisa.
Escavando no sul de Minas Gerais, olho para o campo e vejo três figuras. De longe parecem versões mais ou menos gordinhas e com ligeiras diferenças de altura da mesma pessoa.
Rodolfo, Pedro e Vinícius. Rodolfo é geógrafo especializado em geomorfologia (o estudo da formação do relevo terrestre, dos marcos geográficos como montanhas, cordilheiras, rios, etc). Pedro, português, é historiador e antes de desembarcar em São Paulo passou uma temporada com sua esposa brasileira na terra natal dela, no nordeste. Vinicius, estudante de história do interior de São Paulo, já trabalhou com toda especie de arqueologia existente no Brasil, de pré-história a lixo industrial.
Rodolfo é um bonachão, tranquilo ao extremo, anda para lá e para cá com uma prancheta e um equipamento de GPS anotando dados do terreno e, sobretudo, em que pontos do terreno os objetos foram encontrados. No final das contas a responsabilidade de organizar tudo isso “espacialmente” é dele, bem como dizer ao restante do pessoal como aquele terreno se formou, o que ajuda e muito a saber mais sobre o grupo humano que produziu o material arqueológico escavado.
Pedro é o diretor da escavação. É o mais velho, tem lá seus trinta e poucos anos, e tão tranquilo quanto Rodolfo (ou Dorfo). É um sarrista a moda portuguesa, com muita sutileza. Muito sério no trabalho, mas capaz de tornar o convivio em algo mais suave, apesar da “brutalidade” do trabalho.
Vinicius, o terceiro, é um gozador em tempo integral. Tem seus vinte e muitos anos e o humor característico dos moradores do Vale do Paraíba em São Paulo. O tempo todo está tirando com a cara de alguém, pesquisador ou trabalhador assistente de escavação. Acentuou sua verve cômica trabalhando com braçais no centro oeste do Brasil.
Uma coisa que me impressionou desde o início é o quanto a arqueologia é um universo “masculino”. É claro que existem arqueólogas, muitas aliás, mas quando elas entram no trabalho de campo se estabelece um código de conduta, de comportamento, que é muito masculino. As brincadeiras, a forma de se relacionar, de falar, é tudo muito da cultura masculina. Nesse sentido a arqueologia me lembra muito a política, outro universo no qual prevalece uma cultura masculina.
Isso não tem nada a ver, vale lembrar, com machismo. As mulheres são respeitadas da mesma forma, tem as mesmas oportunidades, mas invariavelmente, as que sobrevivem no meio, se masculinizam no trato.
Os homens, por sua vez, se mantém numa eterna sensação de “juventude”, talvez acentuada pela impressão de que a vida é uma sucessão de viagens e escavações. Não é. A arqueologia feita nas universidades escava muito pouco, a grande maioria do tempo é gasta em laboratórios e bibliotecas. Mas na arqueologia de “contrato” ou de “salvamento”, aquela que é feita fora das universidades, é comum que um arqueólogo fique meses, as vezes anos, pulando de escavação em escavação.
Com isso formam uma tribo da qual já falei aqui. Todo mundo se conhece mais ou menos no meio e há, é claro, a cadeia alimentar do ramo, na qual se tem uma idéia de quem pode mais ou menos. Sobreviver a lei da selva, literalmente, não é nada fácil.
As três figuras parecidas – todos de roupa bege, de barba e bigode, de chapéu de palha na cabeça e óculos – são sobreviventes e conseguiram em grande medida se libertar dessa sensação de “eterna juventude”, se tornaram profissionais de verdade.
O risco dessa cultura da liberdade, da juventude experimentada eternamente, é que muitas vezes leva os ingressantes a se esquecerem que antes de qualquer coisa a arqueologia é uma profissão, que a arqueologia também é um ramo instável e que somente aqueles que possuem “planos” de carreira sólidos conseguem viver dela.
Não existe uma solução universal, mas há alguns princípios que configuram aqueles que ultrapassam a barreira da “arqueologia como curtição”. Ter planos paralelos que consigam completar ou se valer da arqueologia é uma boa estratégia.
Rodolfo é pesquisador de geomorfologia e usa a arqueologia para ter acesso a dados privilegiados. Pedro toca sua pesquisa pessoal paralela e se habilita para o ensino universitário. Vinicius é historiador e no aperto volta para a antiga área. Os três adoram a arqueologia e “vivem dela”, mas não vivem só dela.
Mas há o outro lado, mesmo entre os muito competentes. Há amigos meus que estão há cinco ou seis anos saltando de lá para cá, como ciganos. Isso cansa um dia. Você chega certo dia no quarto de um hotel qualquer, muitas vezes no meio do nada, e toma um “choque de realidade”.
Ai começa a fazer a contabilidade dos anos de arqueologia, e da própria vida: o que ganhou? o que perdeu? o que aprendeu valeu a pena?
E não vai consolar muito dizer, como o poeta, que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Chegar a conclusão de que nos ultimos anos sua vida tem sido uma incessante troca de companhias, longe da família, as vezes tendo perdido a namorada (o), o que é relativamente comum depois de tantos meses fora de casa, não é um resultado muito bom se não pensou nisso com alguma antecedência.
O retorno nem sempre é fácil, implica em recuperar relações deixadas como terreno baldio, com mato a crescer, retomar estudos. Muitos abandonam amargurados a arqueologia e a maldizem pro resto da vida, quando, na realidade, foram co-responsáveis pela situação toda.
Mais do que os riscos de acidentes em campo, animais perigosos, clima implacável, creio que o maior risco da arqueologia é seduzir como sereia espíritos ansiosos por experiências limite, e depois de muito tempo cobrar o preço por isso, que as vezes pode ser bastante caro.
Isso não é para soar desistimulante. A arqueologia é fantástica, as experiências são únicas e enriquecedoras, tudo é muito sedutor. O necessário é saber do preço que se cobra por isso e buscar uma visão mais realista, mais responsável com relação a própria vida.
Como diz um ditado popular: Todo mundo vê as pingas que tomo, mas não os tombos que levo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Carreira, Escavação, História
19/02/2009 - 10:19
O Mato Grosso foi a escola de arqueologia prática para muita gente. Eu entre elas. Não é muito fácil, mesmo no Brasil, encontrar áreas relativamente preservadas onde se possa escavar tranquilamente. O Mato Grosso ofereceu, e oferece, ainda essa possibilidade para muito arqueólogos brasileiros, em começo de carreira.
Sempre que eu chegava a Cuiabá, ou à alguma cidade do interior do estado, havia uma legião de novos arqueólogos e arqueólogas sedentos por cair no primeiro capão de mato que vissem pela frente. Eu, como sempre fui tido como um “tipo tranquilo” pouco me alterava com as novas oportunidades. É claro que sempre achei o máximo – a não ser quando, literalmente, ”dava merda” -, mas com os pés no chão.
Quando cheguei em Lucas do Rio Verde estava acompanhado de Luigi e Kleid. O primeiro um arqueólogo velho de guerra, gente boníssima, que hoje se tornou professor de uma universidade federal na Bahia. Kleid seguia os rumos do irmão mais velho, já arqueólogo. Goiano de nascimento era um tipo igualmente tranquilo.
Certa vez, na cidade de Brasnorte, o prefeito recomendou que cortasse o cabelo e tirasse o colar de coquinhos do pescoço, caso contrário seria confundido com gente de ONG e, consequentemente, um alvo móvel. Kleid nem cortou o cabelo nem tirou os coquinhos do cangote, e nem por isso morreu. Há muito de cachorro que ladra e não morde por ai. O que não significa que não haja os que mordam de verdade.
No primeiro dia em que estavamos na cidade fizemos uma incursão a nossa área de escavação. Uma hora e tanto a pé ladeira a baixo – o que significa uma “ladeira a cima” na volta – cortando uma floresta de tabocas.
Malditos bambuzinhos que batem por todos os lados e que, quando cortado, se tornam espetos no chão como uma armadilha de vietcongue. Terríveis. Uma vez que escorregue e caia num tabocal terá problemas sérios.
Terminado o tabocal, pensamos, tolos, que os flagelos haviam passado. Entramos num maldito pântano na beira do rio onde estávamos. Pelo menos não batia na cara nem espetava. Mas atolava como os diabos. A certa altura enfiei meus pés no tal que fiquei com lama pelos joelhos. Para sair só de gatinhas. Arranca uma perna, depois outra, engatinha no pântano até uma área mais fime e dai recomeça a caminhada. Numa dessas minha bota ficou.
Porcaria de bota, aliás, de solado colado, cuja lama ácida – por conta do material biológico em decomposição – derreteu a cola. Kleid e Luigi, mais leves, bem mais leves aliás, indo a frente. Mas, em compensação pegando todas as bolotas de formigas que haviam.
A certa altura paramos no charco, eram umas 11:30 da manhã. Havia tanta formiga que ficamos dentro de poças d’água na tentativa de escapar um pouco delas. Mas existem algumas especies que devem ter sido treinadas pela marinha, pois atravessaram as poças e começaram a subir por nossas calças, mordendo tão doloridamente quanto torquesas.
Por incrível que pareça Luigi e Kleid estavam se divertindo muito. Parei e pensei: Que tipo de maluco é esse que sente prazer com o sofrimento? Ok, masoquisatas não são novidade, mas mesmo no sofrimento há limites de conforto. E alí não havia nenhum.
Depois de umas tantas horas chegamos ao local indicado pelo satélite e tão logo começamos a trabalhar as ferramentas quebraram todas, indicando que, qualquer pessoa de bom senso, deveria tomar o caminho de volta e esperar a ziquezira passar.
Mas arqueólogos são conhecidos pela falta de bom senso. E graças Deus não escalam montanhas, senão morreriam como moscas devido a sua ausência quase absoluta de prudência e bom senso.
Depois de outras tantas horas Luigi e Kleid retornaram, eu já havia pegado o caminho da roça há tempos, sem bota, andando descalço como um flagelado, mordido por todos os lados, imprestável.
No final, apesar do absurdo ainda temos algo que chamamos de “ciência” e que jovens como Kleid acham divertido. No final das contas eles dizem: Melhor estar aqui do que num escritório fechado vendo concreto.
Isso alimenta as levas e mais levas de jovens que se enfiam nos buracos da arqueologia, grande parte deles no Mato Grosso.
Quando cheguei lá pela primeira vez o estado havia se tornado um grande canteiro de obras, com hidrelétricas brotando como cogumelos em todos os cantos, e arqueólogos trabalhando em cada uma dessas obras para salvarem um pouquinho do passado.
Antes do Mato Grosso o grande canteiro havia sido o Tocantins, e , agora, o Pará surge como a próxima bola da vez. O triste disso é que a arqueologia parece acompanhar o rastro da destruição. Nem sempre, é verdade, mas em boa parte das vezes. Tentando, aqui e ali, diminuir a desgraça toda.
E com isso enfiando dezenas de jovens, e não tão jovens, da estranha tribo, em buracos de escavação pelos sertões do Brasil.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Escavação, Mato Grosso, Sertões
15/02/2009 - 12:13
Todos os anos, em verdade a cada semestre, centenas de jovens em idade universitária desembarcam no centro oeste do país, nas florestas amazônicas, no sertão nordestino, nas praias de Santa Catarina. Seu objetivo imediato: passar algumas semanas numa escavação arqueológica de verdade, entre trincheiras, sondagens, aparelhos GPS, pás, peneiras, baldes, trenas, metros, barro e mosquitos, muitos mosquitos.
Aqueles que estão ali pela segunda vez talvez tenham aprendido algumas lições práticas e tenham providenciado também roupas longas – mesmo sob o sol escaldante – largos chapéus de palha, protetor solar, repelente de insetos, botas resistentes, capas de chuva, aparelhos tocadores de MP3.
Mas boa parte deles estará ali pela primeira vez e, mesmo com os demais sabendo do sofrimento alheio, terão de passar sozinhos pelas provações de seu primeiro campo.
Por incrível que pareça as garotas – em geral mais inteligentes do que os rapazes – gostam tanto dessa experiência quanto eles e chegam em quantidade equivalente. Todas muito meninas, tanto quanto os rapazes (embora alguns exibam vastas cabeleiras e barbas, conquistadas a custo durante seus primeiros anos de curso universitário em humanidades).
Com algum tempo vão aprender também que barbas e cabelos longos tem benefícios e desvantagens. Se estiver sendo atacado por insetos ou sob um sol de rachar mamona a barba e o cabelo vão te proteger e diminuir a área exposta. Por outro lado, o calor será maior e se trombar com um cacho de formigas, carrapatos, micuins ou qualquer coisa que entranhe em seus pelos se arrependerá amargamente de não ter raspado até o último fio do seu corpo.
Pergunto a um deles: O que te fez buscar a arqueologia?
“Nenhuma outra atividade me ofereceria a oportunidade de conhecer lugares tão distantes sem ter de gastar nada, aprendendo e ainda ganhando alguma coisa. Além do mais os campos de arqueologia são o mais próximo que você terá de uma experiência comunitária com gente da sua idade.”
A verdade é que alguém que sobreviva aos dois primeiros anos da arqueologia tem grandes chances de se tornar um grande conhecedor do país e mesmo de lugares mais distantes, como América Latina, Oriente Médio, Grécia. E isso sem ter que depender dos recursos familiares.
Mas há sempre num acampamento de arqueólogos – ou mesmo numa pensãozinha pouco recomendável perdida no oco do mundo – muita gente que foi atraída pelos filmes de aventura. Tesouros, templos escondidos, canibais e coisas do tipo ainda povoam as cabecinhas juvenis de muitos que chegam as salas de aula de arqueologia, mas, mesmo depois de um ou dois semestres de aula, os sonhos não se dissipam totalmente. Nunca vi nenhum destes jovens não ficar absolutamente eufórico diante da escavação de uma urna funerária, de um enterramento. Sem contar os que se dedicam à arqueologia clássica, à egiptologia ou à subaquática, escavando navios afundados, resgatando “tesouros de pirata” (embora não possam ficar com um dobrãozinho sequer).
Eles levantam de manhã, por volta das seis da matina, põem roupa surrada, tomam café, passam protetor nas partes expostas, arruma ma roupa de modo a não deixar espaço para insetos entrarem, tomam um banho de repelente, arrumam a mochila, preparam o lanche, conferem o equipamento pessoal, as anotações, metem o chapéu na cabeça e vão para o transporte coletivo, em geral uma Kombi caindo aos pedaços. Muito tempo sacolejando até o ponto mais próximo da escavação, dividindo espaço com trabalhadores braçais contratados na região, para fazerem o esforço mais bruto. Chegam ao lugar, e então mais uma longa caminhada, que pode durar até hora ou mais. Por volta das oito ou nove da manhã estão finalmente escavando.
Depois de algum tempo cada um está ensimesmado em sua tarefa. No ouvido os fones tocando em geral heavy metal, um ou outro com um gosto musical mais alternativo, MPB, música etnica, Banda Calypso, já ouvi de tudo nos fones de companheiros.
Mas há sempre os hiperativos.
Daniel, turismólogo de formação abandonou a carreira de preparação de viagens para se meter no meio do mato. Mineiro do sul, de sotaque curioso, pula de um lado para outro nas escavações. Barbudo, cabeludo, sempre de macacão, pula numa trincheira, anota algo, pula pra fora, corre atrás de uma trena, bate uma foto da escavação, faz anotações, corre e comenta algo com o chefe de campo, pula de novo pra dentro da trincheira e vai assim até o horário do almoço, quando para por vinte minutos para rapidamente engolir seu sanduíche.
Se deu bem na arqueologia, passa suas temporadas, apesar de ainda não ser um “arqueólogo ao pé da letra”, entre o Chile, Estados Unidos e os sertões do Brasil, apesar da ausência do diploma (o que o impossibilita de “assinar” os relatórios de campo) é bastante respeitado na tribo.
Há outros, como Levi, de família judaica que sabe lá Deus porque veio parar na arqueologia, embora seja um caso que poderíamos chamar de “vocação”. Desde pequeno fantasiava com escavações milagrosas. Depois rodou a Europa, América Latina e foi parar nos Estados Unidos. Levi é “low profile” no trabalho, embora seja o tipo esquentado, do que dá uma cadeirada na cabeça de um caboclo que tenha lhe ofendido num bailão no centro oeste. Além do mais é fã incondicional de todo tipo de música tida como “brega”. Seu MP3 nunca é disputado pelos demais (talvez seja uma estratégia dele).
Gilberto, por outro lado, é um caso especial. Morador de Carapicuiba em São Paulo, negro, se tornou um especialista em Grécia do período clássico, lê grego e latim, fala fluentemente francês, inglês, espanhol e grego moderno. É um lorde inglês que venceu todas as apostas contrárias que a vida fez a seu respeito. Esteve na Grécia mais vezes do que a maioria dos classicistas de sua idade – e muitos até bem mais velhos.
Mas, curiosamente, essa massa disforme de personalidades convive – nem sempre pacificamente – numa escavação. E sem contar com os que acabaram de chegar e tem a nítida impressão de que foram embarcados por engano num Navio Pirata, cheio de gente mal encarada, suja e falando um dialeto próprio cheio de brincadeiras particulares, extraídas de episódios lendários compartilhados pela tribo.
Por incrível que pareça esta turba de gente estranha está ali para fazer ciência, embora quase nenhum tenha a principio partido para esta vida para “fazer ciência”. A ciência é uma consequência de uma escolha de “estilo de vida”, o que se assemelha, em verdade, muito ao mundo dos alpinistas. Ninguém vai se tornar alpinista por que quer desenvolver novas técnicas, novos equipamentos, mas porque quer abraçar uma “idéia” a respeito da vida.
E tanto quanto a escalada a pratica de campo na arqueologia pode se tornar um vício, capaz de destruir relações pessoais, de criar problemas sérios de ordem psicologica e social, mas são casos extremos.
Mas, ainda assim, verá, no final do dia, aqueles mesmos sujeitos, ainda mais sujos, mais cansados, mais barbudos e cabeludos, mais estropiados voltarem também mais felizes em Kombis precárias para seu alojamento, alimentar o anedotário arqueológico e as lendas da tribo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, Carreira e história
Tags: Arqueologia, Carreira, Escavação, Trabalho
09/11/2008 - 07:00
Fim de ano é sempre assim: milhares e milhares de jovens tendo que decidir “na boca do caixa”, como diria um antigo professor meu, as carreiras que seguirão, ou que, pelo menos tentarão seguir.
É claro que o vestibular não é uma opção definitiva na vida de ninguém, mas creio que ninguém também quer passar um ou dois anos estudando e descobrir que não era nada daquilo que imaginava. De modo geral penso que prestar o vestibular um ou dois anos mais velho pode ser bem positivo, experienciar o trabalho, outras possibilidades depois do término do ensino médio pode ser um fator decisivo na hora de escolher melhor a profissão. Não é uma regra, mas penso que ajuda bastante.
De qualquer modo os jovens hoje são levados a ver a universidade como a seqüência obvia e imediata de sua formação. É como se fosse um novo grau depois da conclusão do ensino médio. Não é, e quanto mais claro o ingressante souber disso melhor para ele.
Os dois níveis anteriores de ensino, o fundamental e o médio, têm perfis de formação universal, são bastante tutelares, o aluno é conduzido pelos professores e outros educadores. Também tem um caráter disciplinar mais profundo do que a universidade.
Na maioria dos cursos superiores o professor não está preocupado se você está matando aula, copiando os trabalhos do companheiro ou chegando no horário. Se fora da sala de aula você se meter em encrenca, quase sempre, o problema será somente seu e de quem mais se envolver.
Tudo isso tem um sentido: na vida de adulto você é responsável pelos seus atos e responde por eles. Se estudar se dará bem, se for responsável idem. Mas, se por algum acaso, tentar enganar pode ser bem sucedido por algum tempo, mas inevitavelmente se dará mal. Você será cobrado como profissional, não como aluno ou filho. C’est la vie.
Milhares destes jovens procuraram o curso de história em infinitas universidades pelo Brasil todo – entre eles alguns ex-alunos meus dos quais me orgulho pacas. Então acho bacana compartilhar alguma coisa com quem vai encarar quatro anos, pelo menos, de formação para se tornar historiador ou historiadora e ter que pagar o leitinho das crianças com o suor de seu rosto.
Sempre fui muito honesto e sincero com meus alunos e também serei aqui, pois estamos lidando com vida de pessoas que ainda terão muitos anos pela frente. Falar bobagem ou se equivocar a respeito dos mortos é uma coisa, fazer o mesmo com relação aos vivos, e aos bem vivos, é outra bem diferente.
A primeira coisa que se deve perceber é que os cursos de ciências humanas e sociais são muitas vezes procurados por serem menos disputados. Se esta é sua motivação, meu amigo e minha amiga, repense sua decisão. São cursos menos disputados para entrar, mas difíceis de serem concluídos, exigem muita dedicação e se quiser ser um profissional bem sucedido terá de esforçar bastante, abdicando muitas vezes de prazeres banais, como sair com amigos, namorados e namoradas, dormir um pouquinho mais.
Se escolheu história não basta, para ser historiador, gostar de história. Muitos tiveram professores bacanas, críticos, ágeis, jovens, mas trabalhar como historiador, ou como professor de história, é bem diferente de falar mal do mundo e pregar a revolução, isso é um equívoco comum.
O historiador formado terá algumas opções de trabalho, todas bastante exigentes.
A carreira mais comum, que abriga ainda 90% ou mais dos formados, é a educação. Para ser professor do ensino fundamental ou médio o formado terá que fazer também a licenciatura (a não ser que seu curso seja já de licenciatura e não de bacharelado). Para ser professor de cursos especiais – como pré-vestibulares, para concursos e afins – não se exige a licenciatura. Para ser professor do ensino superior é necessário, ao menos, fazer uma pós-graduação e obter o título de mestre.
Neste último caso, o do ensino superior, os historiadores podem trabalhar em duas frentes diferentes: uma delas é dando aulas para alunos que se formarão em áreas distintas (direito, psicologia, pedagogia, ciências sociais, artes, etc.), a outra é dando aula para futuros historiadores e professores de história. Neste caso, se for em universidades públicas e algumas privadas, terá de dividir seu tempo entre a sala de aula, a pesquisa, a orientação de novos historiadores nos programas de pós-graduação ou em atividades burocráticas.
Uma das grandes demandas que temos é de historiadores que tenham perfil de administradores ou gestores. Ou seja, que entendam tanto de administração de museus, arquivos, projetos culturais, editoras, quanto entendem de história. O acadêmico brasileiro ainda resiste muito em aprender coisas que considera “fora de sua área de atuação”.
É justamente nessa segunda área que reside um mercado crescente, ainda que em menor velocidade do que gostaríamos. Trabalhar com museologia (desenhando e montando exposições), com arquivística (organizando arquivos públicos e privados, pesquisando e difundindo materiais que residem nos arquivos), com editoras (coordenando coleções, traduzindo livros, fazendo revisões técnicas de livros da área de especialização), com produção cultural (sendo consultor em projetos para a televisão, cinema, exposições, etc.) são opções que cresceram muito desde que eu entrei na área de história há mais de dez anos.
Existe ainda a demanda para profissionais na área de arqueologia e licenciamento ambiental, na qual os historiadores trabalham majoritariamente com o patrimônio cultural, ajudando a identificar, proteger, restaurar, promover o patrimônio.
É claro que cada uma dessas áreas possui necessidades específicas, perfis de seus trabalhadores: para umas é necessário o gosto pelo campo, pelas viagens (como na arqueologia), noutras o gosto pelas bibliotecas e arquivos, ou uma criatividade efervescente (como nas áreas de produção cultural).
Acredito seriamente que a formação do historiador é uma das mais universais possíveis e oferece qualidades fundamentais à profissionais que irão atuar nas mais diferentes áreas, mas, como em todas as profissões, nada cai do céu, portanto exige-se muito estudo e dedicação, um perfil constantemente ativo e pró-ativo, somado a capacidade analítica, sem dúvida encontrará trabalho em várias dessas áreas.
No mais o historiador aprende ao longo do curso a analisar situações (para compreender processos históricos), pessoas e a emitir opiniões críticas e propositivas a respeito de cada um dos temas que estuda, manifestando isso verbalmente ou através da escrita, sem contar o desenvolvimento de sua habilidade com a escrita. Ou seja, fundamentos desejáveis em muitos campos de atuação.
Mas há uma questão crucial: se não gosta de ler e escrever o curso e a carreira de história não são as melhores opções para ti. Terá de ler diariamente até 50, 70 páginas e escrever frenéticamente ao longo do curso e da vida profissional.
Seja como for, pelo menos dez ex-alunos meus (sim, até 2003 dei aulas), ingressaram na carreira de história ou estão tentando ingressar agora, outros tantos foram para carreiras correlatas (como ciências sociais, artes e geografia), o que significa que, mesmo mostrando as dificuldades da carreira (como em qualquer outra) optaram por ela.
A última informação que penso ser útil: escolha sua profissão pelo coração e não pelo bolso. Profissional bem remunerado é profissional bom, e para ser bom é necessário amar o que faz. Se, todos os dias da vida, tiver de levantar para o trabalho como quem vai à cadeira elétrica, será um mal profissional e certamente será mal remunerado, além de ganhar uma úlcera nervosa de brinde.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história, Sem categoria
Tags: Carreira, Historiador, Profissão, Vestibular
15/10/2008 - 07:04
Não, a pergunta não é fictícia não, amigo meu, professor universitário de sociologia ouviu tal questão há alguns meses.
Uma aluna, no meio de um bate papo semi-informal, atirou essa a queima roupa na direção do pobre lente.
Antes que desistam de ler esse texto já vou visando: não vou fazer nenhuma reclamação chorosa da situação atual do professorado, com cheiro de naftalina (sempre há alguém que diz: Porque quando eu era aluno meu professor era meu herói!!).
Bom, o mundo mudou, como sempre aconteceu desde o início dos tempos, e os lugares da educação e do educador também mudaram.
Muita gente analisou a “crise” da educação brasileira como uma crise de sucateamento, parte de um plano maquiavélico para desgraçar definitivamente a vida de quem não pode pagar a conta de um colégio particular.
Fui professor durante bons anos (pelo menos uns cinco), embora menos do que muitos que estão na profissão há dez, vinte anos. Mas foi tempo suficiente para ver algumas coisas.
Dei aula para todas as séries, tanto do médio quanto do fundamental, e jamais tive problemas com alunos, senão pontualmente. Mas isso é inerente da vida em sociedade, basta lembrarmos de quantas pessoas não gostamos e quantas não gostam de nós.
As infindáveis queixas a respeito da disciplina dos alunos jamais fizeram muito sentido para mim. Comecei então a perceber que boa parte de meus colegas não conseguiam ver algumas coisas.
Sim, o salário era ruim, as condições de trabalho também poderiam ser muito melhores, mas boa parte dos problemas ocorria porque não se davam conta de que o mundo mudou.
A educação passou por tranbsformações radicais ao longo da história. Apenas para começar, a alfabetização somente se tornou um direito/dever há uns duzentos anos na Europa e menos de cem no Brasil.
Durante a Idade Média, quase que apenas os membros da Igreja Católica eram capazes de ler e escrever. Carlos Magno, o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, mal conseguia desenhar seu nome.
Com o passar do tempo a educação se tornou também uma obrigação na formação dos nobres, mas isso ocorreu em tempos bem recentes em termos de história.
No Egito os escribas, os homens habilitados ao uso da escrita, detinham um poder fantástico no seio da sociedade. Entre os gregos do período clássico – o dos grandes filósofos, ó apogeu da polis grega, no século V a.C. aproximadamente – a escrita engatinhava e a educação formal diferia muito de cidade estado para outra. Para os espartanos a educação devia ser eminentemente física, para a guerra, entre os atenienses privilegiava-se a capacidade de exercer a cidadania (reservada somente a parte da população), o que exigia conhecimentos de política, retórica, filosofia.
A idéia de que todo cidadão deve saber ler e escrever, dominar conhecimentos básicos sobre uma imensidão de assuntos é coisa muito recente e acompanhou a difusão da tecnologia da escrita e a crescente normatização e burocratização do Estado.
Se no mundo grego – em Atenas – ser cidadão era ser livre, homem, adulto, ateniense de nascimento, no mundo após a Revolução Francesa a educação – ferramenta para a vida política – passou a ser necessidade absoluta. E isso, obviamente, exigiu uma mudança na concepção da “cidadania”.
Portanto, numa história de 2500 anos, desde o início da difusão da escrita no Ocidente, apenas há uns 200 anos passamos a ver a educação como algo que deve ser proporcionado a todos.
Nosso pais e avós nasceram e se formaram num mundo em que a educação ainda não era universal, era privilegio, talvez venha dai o enorme respeito que tinham para com alguns professores.
Alguns, pois basta ver algum relado a respeito das escolas inglesas do século XIX para ver as barbaridades que os alunos cometiam. Até as primeiras décadas do século XX as crianças podiam fumar dentro das escolas, como é perceptível na leitura do livro do educador Alexander Neil.
Ao longo dos séculos XIX e XX a educação passou também a contemplar cada vez mais a necessidade de profissionalizar os jovens, uma demanda das Revoluções Industriais e seus desdobramentos.
Diante dessa demanda, com a queda das monarquias, o estabelecimento de governos constitucionais, a ampliação da cidadania para boa parte das populações e a explosão tecnológica das Revoluções Industriais os Estados Nacionais tiveram de regulamentar a educação formal, e chamar para si a responsabilidade. Não foi por simples bondade que a educação se universalizou, ela também foi um fruto decorrente do que Eric Hobsbawm chamou de “a dupla revolução”.
Hoje passamos novamente por uma transformação na educação, não apenas de valoração, mas cultural e cognitiva. Ou seja, nossos jovens vêem a educação de um modo diferente e apreendem de modo diferente. Seus hábitos de leitura, visualização, comunicação, expressão são significativamente diferentes de qualquer outra época da humanidade.
Talvez por isso alguns educadores estejam se dando tão bem, pois adotaram linguagem contemporâneas também para a educação.
É claro que isso tem sérias consequências se não for bem administrado, mas o que vemos não é uma crise da educação, mas uma crise cultural. Os professores, que continuarão a existir e serão cada vez mais importantes num mundo onde o conhecimento é cada vez mais ferramenta de poder e de transformação social, deverão acompanhar essa mudança, sob o risco de ficarem calvos e infartados cada vez mais jovens.
Ainda em tempo: não deixei de ser professor, deixei de dar aulas. E deixei de dar aulas por um profundo desgosto com o sistema educacional, não por qualquer desgosto com os alunos ou com a educação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história
Tags: Historiador, Professor, Profissão
20/07/2008 - 10:49
Algumas discussões ocorridas neste espaço ao longo de sua existência acabaram por me levar a uma indagação: o que elas teriam em comum, ainda que envolvendo assuntos tão distintos como imigração, Revoluções, lugares pelo Brasil a fora ou mesmo a rotina do viajante?
Cheguei a uma possibilidade de entendimento que, em verdade, abre uma discussão a respeito das relações entre ciência, fé e verdade e o papel da história dentro desse universo de relações.
Parte significativa dos problemas envolvidos aqui começam no sistema educacional. Infelizmente isso não é uma exclusividade brasileira, ou de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma pesquisa, realizada há alguns anos, demonstrava que parte significativa da população dos Estados Unidos não sabia que era a terra que girava ao redor do sol e não vice-versa. Os alunos normais franceses sabem menos a respeito da Revolução Francesa do que alunos de outros países.
O físico Carl Sagan, quando escreveu O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, denunciava isso: uma comunidade global que não conseguia se relacionar com a ciência a disposição.
É claro, a ciência NÂO é uma VERDADE ABSOLUTA, a proposta dela é justamente o contrário, é se colocar a prova o tempo todo. Uma interpretação científica somente sobrevive a medida em que, colocada a prova, consiga se sustentar. Se um pedaço de pão escapa da minha mão e não cai, em condições normais, então deveremos rever os príncios de Isaac Newton a respeito da Lei da Gravitação. Como isso não acontece continuamos a achar as idéias newtonianas boas, pelo menos para nosso cotidiano imediato.
Existem cientistas radicais, quase fundamentalistas, como o biólogo Richard Dawkins que acha que qualquer pensamento que não seja o científico é sinal de ignorância e delírio. Não creio que seja assim, e não creio que seja a opinião mais corrente mesmo entre cientistas.
Se preciso tomar uma decisão tecnica, médica, jurídica, vou me ater a ciência. Quero uma opinião científica sobre se devo me operar ou não, se devo trocar o freio do meu carro, se devo e posso processar quem me caluniou, mas posso conviver achando que há mais do que isso por trás. São Tomás de Aquino dizia que a ciência fortalece a fé e não a nega.
Mas com a história as coisas parecem ainda mais complicadas, pois as pessoas – a maioria pelo menos – pensa que a história seja ou algo objetivo (como imaginam que a ciência seja) ou algo absolutamente subjetivo (como são as “histórias”, as quais cada um tem uma). Entre os dois extremos a história fica num terreno de ninguém, sob pesada fuzilaria.
Uma consideração de Dráusio Varela ao final do Estação Carandiru me parece ser interessante, dizia ele, sobre o massacre dos 111 presos no presídio: existe a “verdade” dos presos, a da polícia e a Deus, dessas só tive acesso à dos presos.
Uma das dimensões que quem trabalha com história tem que trabalhar constantemente é justamente a que nos diz que a verdade do “fato”, do “ocorrido”, jamais nos será entregue, se é que ela existe. Além do mais, a “verdade” a respeito de algo é a de quem invadiu ou de quem foi invadido? De quem venceu ou de quem perdeu? De quem dirigia uma reunião ou de quem servia café naquele dia?
Essa margem de discussão, entre as versões a respeito de algo, não comporta a desonestidade, a ética de quem pesquisa e escreve. Mesmo que aquilo que chamamos de “verdade” seja uma convenção ela precisa funcionar, precisa se submeter a prova. Não posso dizer que Fernando Collor de Mello não renunciou à presidência da República após a abertura de um processo no Congresso contra ele, acusando-o de práticas ilícitas e pedindo sua cassação. Isto é uma “verdade” consensual. Geralmente as disputas na história e nas ciências em geral se dão nas filigranas do fato e não nele em si.
Collor foi vítima de uma conspiração? Ele realmente era culpado? Derrubaram ele por motivos obscuros os quais nem sequer sabemos? Isso tudo é passível de discussão, mediante a apresentação de provas.
Nisso a história é igual às demais ciências: toda interpretação depende de ser colocada a prova para ser aceita. Uma interpretação aceita se mantém enquanto outra melhor não surgir. E a cada dia que passa essas interpretações são postas a prova, e a medida em que não dão mais conta do recado vão decaíndo, até desaparecerem, num processo longo. Até mesmo porque idéias que caíram podem sobreviver durante muito tempo em grupos específicos, ou mesmo na maioria, quando as academias, onde se produz parte do conhecimento científico, não fazem sua obrigação que é a de interagir com a sociedade.
Eu sei, todo esse processo pode parecer complicado, mas também é divertido, e necessário.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Carreira e história
Tags: Ciência, História, Historiador, Interpretação
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