Arquivo da Categoria Arqueologia
13/10/2009 - 07:07

Museu é um lugar onde são reunidos objetos de arte, históricos, arqueológicos, antropológicos ou de qualquer outra forma “colecionáveis”, os quais são expostos ao público com fins diversos, certo? Parcialmente certo, ou, melhor dizendo, cada vez menos certo.
Na realidade os museus vão continuar sendo “também” isso, mas não somente. Há muito os museus (”templo das Musas” do antigo grego) passaram a ser muito mais do que espaços onde se encontram coleções de coisas diversas (animais, obras de arte, objetos “históricos”) para serem também instituições de pesquisa, de ensino, de educação e, há menos tempo, talvez, de lazer.
Mas uma das constantes dos museus – a de serem instituições localizadas num único edifício ou num conjunto de edifícios associados, fechados e longe da luz do dia – está lentamente perdendo sua hegemonia para dar espaço, justamente, às áreas amplas, abertas, nas quais a própria paisagem e o ambiente fazem parte da “coleção” do museu.
No extremo sul de Portugal, a oeste, encontra-se o “Promontorium Sacrum”, faixa de Europa encastelada sobre penhascos que foi citada pela primeira vez nos textos gregos da antiguidade, há mais de 2500 anos. Para os romanos ali estava o ponto onde Hercules realizara um de seus 12 famosos trabalhos, abrindo com os braços uma passagem pelo Mediterrâneo. Para além de Gibraltar ergueram uma pedra cerimonial a qual batizou o local: O Promontório Sagrado, o qual já em tempos de portugueses passou a ser referenciado pela corruptela do nome romano e se tornou Sagres.
Em Sagres – no promontório, na imagem acima - foi erguido um farol, uma fortaleza e uma gigantesca Rosa dos Ventos já no século XV, muito provavelmente na época de Dom Henrique o Navegador, irmão do rei de Portugal e Mestre da Ordem de Cristo. Dom Henrique recebeu a alcunha de “O Navegador” justamente por ser o grande incentivador das navegações portuguesas, as quais gerenciava a partir da cidade de Lagos, próxima ao promontório.
Em torno de Sagres surgiu, inclusive, a história da lendária “Escola de Sagres”, núcleo formado por Dom Henrique reunindo os maiores especialistas em navegação conhecidos à sua época, de todas as etnias, credos e cores. Lenda popularizada e romantizada, mas que jamais se deu tal como nas histórias.
Como, então, colocar dentro de um museu um farol, uma cidade e um promontório, e mais ainda, um mar e um oceano, além da luminosidade, do vento, dos odores, componentes todos que trazem o visitante para uma experiência de instantes que o carregam para a história antiga ou para o século XV, como o Navegador olhando no horizonte seus navios se afastando rumo à África?
Os Museus a Céu Aberto, como vêm sendo chamados, buscam justamente essa dimensão “experiêncial” ampla que somente o contato com o ambiente é capaz de proporcionar. Nesses lugares edifícios, sítios arqueológicos, paisagens, elementos naturais, populações de animais selvagens e, até mesmo, comunidades locais compõem um todo que somente faz sentido se mantidos íntegros, no conjunto.
Na Europa são dezenas de experiências já, a maioria delas associada ou ao período neolítico ou à Idade Média (o que permite, inclusive, algumas ações de gosto questionável como a de colocar a população local empregada no museu vestida com trajes de época). Há, também, cidades que se tornaram quase inteiramente um conjunto de bens históricos ou arqueológicos, como Évora e Óbidos também em Portugal, exigindo uma mudança na forma de ver esses elementos e buscando integrá-los num mesmo plano, compondo, enfim, um museu a céu aberto não pensado dessa forma desde o início.
No Brasil algumas iniciativas começam a ganhar força, como o conjunto da Serra da Capivara no Piauí, de longe a melhor experiência brasileira (embora com vários problemas e desafios a serem vencidos), mas ainda não temos um projeto que pense desde o início o conjunto de bens, de patrimônios, móveis e imóveis, materiais e imateriais, culturais e naturais, como uma unidade e no qual nós mergulhamos em busca de uma experiência ampla e não apenas de informação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico, Política ambiental, Política cultural
Tags: Céu Aberto, Museologia, Museus, Portugal, Sagres, Serra da Capivara
24/08/2009 - 06:30
Seis horas da manhã e seu despertador toca como se fosse o carrasco te levando pra forca. Resignadamente você se levanta, vai ao banheiro, começa a se arrumar para sair, tiritando de frio, “batendo queixo” como diria um amigo. Se enrola como uma cebola em blusas, camisas de manga longa, casacos, toucas, cachecóis, luvas e sai para a batalha. Quando chega ao destino suas bochechas estão vermelhas, o nariz duro e os dedos das mãos e pés rígidos.
Se você está reclamando deveria agradecer pelos milhares de anos de desenvolvimento tecnológico e cultural que lhe possibilitaram, ao menos, ter roupas mais leves, práticas, quentes, eficientes contra o frio e a umidade.
É claro que nascemos nesse mundo, com todas essas”facilidades” tecnológicas e não nos damos conta do quanto deve ter sido difícil viver lutando contra os fatores climáticos há milhares – ou mesmo centenas – de anos. A história humana foi, e é, em grande medida a história da tentativa de controlar a natureza se tornar menos suscetível aos seus fatores (a disponibilidade de alimento, o clima, o acesso à água, a proteção contra catástrofes naturais). Da Revolução Industrial – começada no século XVIII – para cá esse desejo de controlar se acelerou a ponto de colocar em risco a própria existência da espécie, com a transformação radical de alguns sistemas e o virtual esgotamento de recursos vitais. Mas este será um assunto para os arqueólogos do futuro, se nossa espécie sobreviver e se ainda houver arqueologia.
Há algumas décadas, nos Alpes, descobriu-se um cadáver mumificado pelo gelo de um homem. Sua morte datava de alguns milhares de anos e devia ser um dos últimos homens de outra espécie (sim, a nossa, a homo sapiens, é apenas a espécie que sobreviveu a evolução, ou que incorporou outra, ou outras, assunto ainda em aberto, mas nem sempre estivemos “sós”) fugindo em busca da sobrevivência.
No exame de seu corpo foi encontrado um ferimento causado por uma flexa de sílex, pequeno, mas o suficiente para minar com o sangramento as energias do homem. Seu rosto demonstrava aparentemente um esforço final para tentar se safar do ferimento, do frio e, possivelmente, de seus perseguidores. Estava vestido com botas e uma espécie de casaco de peles de animais. Portava uma faca de sílex também e outros apetrechos comuns ao caçador do período.
Sua morte foi causada pela somatória do ferimento, com a consequente perda de sangue, com o esforço físico e a baixa temperatura, tudo, certamente, acentuado e acelerado pelo frio.
Quase em todos os contextos arqueológicos ditos “pré-históricos” (detesto esse termo…mas é o que temos) o exame dos enterramentos, das condições de solo preservadas, do pólem misturado a este no passado, geralmente nos revelam terríveis dramas para conseguir se adequar as condições climáticas extremas e garantir a sobrevivência do grupo. Calor, frio, seca, chuvas torrenciais, vento, elementos que podiam gerar desafios sazonais aos grupos humanos ou promover verdadeiros cataclismas em escala global quando prolongados e pouco perceptíveis no dia a dia.
A arqueologia e outras tantas ciências que estudam o passado, humano ou não, ainda tem uma infinidade de perguntas a serem respondidas a respeito das mudanças climáticas ao longo do tempo e da dimensão da influência disso na espécie humana.
O filme A Era do Gelo (e suas sequências) – ou mesmo O dia depois de amanhã – trouxeram novamente o assunto à tona, e aí há um dos pontos pacíficos a respeito do nosso passado e da história do clima: tanto as glaciações quanto os períodos de aquecimento não só interferiram radicalmente no desenvolvimento de nossa espécie como modelaram as áreas que foram ocupadas mais densamente, nossas bases culturais.
Um período especialmente curioso, conhecido como “Jovem Dryas” (de 10800 a 9600 a.C.), estabeleceu aproximadamente mil anos de “seca”, ou seja, de diminuição do principal elemento associado à abundância de alimento: a água. O que as escavações no Oriente Médio vêm revelando é uma verdadeira involução tecnológica, social, econômica, em função da diminuição do alimento provocado pelo Jovem Dryas.
Ou seja: vilas desapareceram, grupos sedentários ou semi-sedentários voltaram ao nomadismo, grupos grandes se fragmentaram, dando origem a bandos que disputavam cada vez mais, e mais violentamente, o pouco alimento que havia disponível. A agricultura estancou seu processo de desenvolvimento tecnológico e as áreas povoadas diminuiram com uma sensível diminuição também dos grupos humanos (é difícil saber se o declínio demográfico da espécie humana foi absoluto ou apenas relativo).
Mais conhecidas do que o Jovem Dryas são as “glaciações”, períodos de diminuição da temperatura global devido a fatores ainda não totalmente compreendidos (a teoria mais forte atribui o resfriamento a mudanças nos movimentos ou na inclinação do planeta, sutis, mas suficientes para causarem tal efeito). Mas as glaciações não eram compostas apenas pela “queda da temperatura”, mas por uma rede de eventos climáticos que se desdobravam, obvimente, em uma cadeia de eventos biológicos, geológicos. Esses movimentos parecem ser cíclicos, ou seja, retornam de tempos em tempos, embora não saibamos exatamente se isso é regular ou não, e sendo regular qual é a regularidade dessas glaciações. Sabemos, contudo, que houveram grandes glaciações e outras menores, inter-cíclicas, as últimas delas em período relativamente próximo a colonização do continente americano pela espécie humana, há aproximadamente 20000.
Com o resfriamento a área de gelo do planeta aumentou, principalmente nos pólos, mas, também, nas grandes altitudes. Com o aumento da camada de gelo - o qual foi tanto horizontal quanto vertical – áreas que eram cobertas de florestas desapareceram. Outras se tornaram estepes, e, de modo geral, isso significou menos caça, menos frutos, menos comida, menos áreas habitáveis.
Essa água congelada, obviamente, provocou uma menor quantidade de água em estado líquido circulando no planeta e, por conta do peso das geleiras, pressão sobre o solo de algumas regiões. Em algumas áreas o nível do mar abaixou e aldeias costeiras ficaram mais longe de sua fonte de alimento. Áreas que eram isoladas – como ilhas e continentes – foram interligadas por “pontes de gelo”, possibilitando a migração de espécies animais, entre elas a humana.
O mundo ficou efetivamente mais violento, com graves embates entre grupos humanos para controlar áreas nas quais os recursos necessários à sobrevivência fossem mais abundantes. Nosso “antepassado”, encontrado congelado nos Alpes, provavelmente não sabia que estava vivendo num dos maiores dramas da história humana, mas seu desconhecimento não o poupou das consequências.
Ao longo de nossa história uma infinidade de tecnologias foi criada para diminuir nossa suscetibilidade ao frio: roupas mais quentes, as quais começaram com peles de animais e chegaram as fibras especiais de hoje, que evitam a perda de calor. Casas, fogueiras, aquecedores, sistemas que possibilitaram o homem chegar a um dos mais inóspitos lugares do planeta, o coração do Pólo Sul, no qual a temperatura circula facilmente na casa dos 60 graus centígrados negativos.
Mesmo em tempos mais recentes o frio – ou a ausência dele – foi um fator relevante nos rumos da humanidade. Alguns pesquisadores da Idade Média (como os franceses Georges Duby e Phillippe Arriès)alegam que uma ligeira alteração para cima da temperatura média possibilitou que as lavouras fossem mais generosas (também causado pela introdução de novas tecnologias, como a rotação e arados mais eficientes), e, consequentemente, as pessoas tivessem menos fome, e assim terem mais filhos e mais saudáveis.
Agora, certamente, estamos vivendo numa nova etapa, que possivelmente vai se acentuar, com o aquecimento planetário. Diferentemente de outros períodos da história dessa vez temos consciência de que está ocorrendo (embora muitos neguem), também, dessa vez, somos responsáveis pelo processo. Igual ao passado há uma coisa: assim como eles não sabemos se conseguiremos vencer o desafio e perpetuar a espécie e nossas culturas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Migrações, Política ambiental, Pré-história
Tags: Arqueologia, Clima, Frio, Glaciação, Jovem Dryas, Meio ambiente
19/08/2009 - 06:40
A arqueologia é um dos campos do conhecimento onde os mitos se aglutinam. Algumas ciências possuem essa característica – como a física, sobretudo a nuclear, a genética -, mas a arqueologia, certamente, é a que mais alimenta e acolhe mitos.
Há vários exemplos, desde os mais delirantes, como a busca por “Atlântida”, as inscrições supostamente fenícias da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro, a cidade perdida de Eldorado na Amazônia, até coisas relativamente mais “simples” como certas interpretações a respeito de Tróia e das pirâmides do Egito.
Sobre Tróia a história de sua busca é quase tão interessante quanto a da própria cidade.
No século XIX um jovem alemão, que lera a Ilíada (a história da guerra de Tróia) e que se fascinara com ela, Heinrich Schliemann, empreendeu praticamente toda sua vida para encontrar a cidade na qual se desenrolara todos os eventos narrados no livro atribuído a Homero, e onde brilharam as figuras de Heitor, Ulisses, Pátroclo, Aquiles, Ajax, Agamenôm, Helena.
Hoje, um século e meio de pesquisas depois, sabemos que a própria autoria do texto da Ilíada – bem como o da Odisséia – dificilmente pode ser atribuída a um único autor, e que quase com toda a certeza suas origens remontam poesias orais, recitadas por poetas populares – tais como nossos repentistas e cantadores -, transmitidas oralmente de geração à geração.
A história da Guerra de Tróia se remete ao passado arcaico do mundo grego e seus conteúdo é uma construção mítica muito particular a respeito de acontecimentos ocorridos na região.
Mas Schliemann e seus contemporâneos não pensavam assim. Pelo contrário, imaginavam – seguindo a corrente comum na época – que a Ilíada era um texto passível de ser seguido, como um guia para um mundo antigo, desaparecido, mas que deixara sob a terra seus últimos vestígios.
O pesquisador investiu em sua busca por Tróia parte significativa de sua fortuna, amealhada a duras penas ao longo de uma vida de privações e alguma sorte (na infância Schliemann fora acentuadamente pobre).
Concluiu, finalmente, que o sítio indicado a ele por camponeses turcos condizia com a descrição de Tróia contida na Ilíada. Arregimentou dezenas de trabalhadores e iniciou uma escavação no local quase sem critérios metodológicos como os entendemos hoje. Esse período, antes da consolidação das modernas técnicas de escavação, faziam com que a arqueologia se parecesse muito mais com uma caça ao tesouro do que com ciência.
Mas o que se buscava era em grande medida um tesouro, e nem tanto o conhecimento a respeito de um passado específico. As escavações conduzidas pelo alemão abriram valas terríveis em sua “Tróia” e objetos tidos como de menor valor (cerâmicas, telhas, tijolos) foram desprezados em benefício das buscas por objetos de ouro ou pedras preciosas, estátuas, armas.
Durante muito tempo a idéia de que se encontrara Tróia permaneceu. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a cidadela escavada pelo alemão foi revisitada por uma equipe estadosunidense de arqueólogos – cujo chefe havia composto a equipe de Schliemann. Com outros objetivos – que não o de caçar tesouros – e municiado de uma metodologia muito mais consistente um novo cenário começou a se delinear.
O próprio Schliemann notara em suas escavações que havia uma sequencia de “estratos” que provavelmente revelavam cidades que foram se sucedendo como camadas de um bolo. Escolheu entre elas aquela que mais se assemelhava a idéia que havia composto em sua mente sobre Tróia e a batizou como a “Tróia Homérica”. Todas as demais foram descartadas.
Contudo, para as novas equipes de arqueólogos, o interesse se alterara e todas as “Tróias” (quantas seriam?) lhes eram importantes. Sete momentos distintos foram identificados, sete Tróias, que acompanharam a história da ocupação humana no Oriente próximo, ao longo das idades do metal (bronze, ferro).
Nessas “Tróias” não se buscava os túmulos de Príamo, de Heitor, nem o Cavalo de Madeira, mas restos de comida, ossos, tijolos, pedaços de potes e tijelas, qualquer coisa que revelasse os cotidiano dessas sociedades.
Talvez para o grande público a história acreditada por Schliemann seja mais cativante, mais sedutora, e ados arqueólogos contemporâneos “excessivamente” técnica. O mesmo ocorreu com as escavações no Egito, sobretudo no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon por Howard Carter. Os mitos excedem em muito a capacidade de difusão da ciência arqueologia, mas, ao mesmo tempo, realimentam o interesse do público, sobretudo das crianças e jovens, pela área. E não vejo isso como algo ruim, são dimensões diversas e cada uma tem seu lugar, seu espaço e sua função.
E sempre é o sonho que move primeiro, depois os interesses “técnicos”. Alguns arqueólogos se sentem desconfortáveis com isso, e criam verdadeiros “cavalos de batalha” (sem qualquer alusão ao cavalo de madeira troiano) na defesa de uma “ciência asséptica”, sem contaminações dos mitos ou dos sonhos. A mim isso só empobrece, diminui o interesse, e nada acrescenta a ciência, nada traz de novo, nem melhor, nem a mais.
Sorte da ciência que consegue atrair para si pessoas movidas pela imaginação e não apenas pela satisfação financeira.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga
Tags: Arqueologia, Heinrich Schliemann, Mito, Troia
12/08/2009 - 07:00
Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.
Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.
Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.
Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.
A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.
Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.
Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.
Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.
Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.
As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.
Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.
O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).
A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.
Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.
Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.
Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.
Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico
Tags: Antonio Conselheiro, Bahia, Canudos, Euclides da Cunha, Milenarismo, Os Sertões, República
23/07/2009 - 06:55
No filme A Missão do diretor francês Roland Joffé, Robert De Niro faz um caçador de indígenas espanhol, Dom Rodrigo, que após matar seu próprio irmão num duelo para a limpeza de sua honra (o irmão lhe traira com sua noiva) abandona a vida que levara até então e entra para a Companhia de Jesus, a Ordem Jesuítica, como forma de expurgar sua culpa.
Um paradoxo curioso, uma vez vez que foram justamente os jesuítas que se dedicaram com maior empenho a catequização dos indígenas nas Américas e encarnaram durante dois séculos e meio o grande poder em oposição aos colonos e bandeirantes na disputa pela “administração” dos povos nativos. Dom Rodrigo de caçador de índios passa a catequizador, num processo absolutamente traumático.
O filme foi bancado com dinheiro proveniente da própria Companhia de Jesus, como parte das ações da mesma a fim de se contrapor a boa parte da literatura que tratou-a como mais uma “destruidora dos povos nativos americanos”. Sem querer se despir da indefensável responsabilidade por “descaracterizar” e promover o esgarçamento dessas sociedades indígenas, os jesuítas procuravam no filme de Joffé se colocar em campo diverso daquele reservado aos bandeirantes, colonos e outras formas de caçadores de indígenas.
A verdade é que, boa parte dos historiadores ao longo do século XX tratou os jesuítas quase como bandeirantes de batina, um equívoco severo. A antiga Companhia de Jesus teve responsabilidade sim na desestruturação das sociedades nativas das Américas, mas certamente eram muito diversos dos “caçadores de escravos”.
Apesar do filme se passar numa floresta tropical, um universo “amazônico”, a história foi claramente inspirada nas chamadas Guerras Guaraníticas, que colocaram em lados contrários jesuítas e indígenas (quase todos guaranís, daí o nome) e os exércitos de Portugal e Espanha. A tragédia da dizimação das missões jesuíticas, da escravização de boa parte de seus indígenas, da expulsão dos religiosos das Américas (seguida da extinção da ordem pelo Vaticano) em meados do século XVIII teve como cenário a região que hoje conhecemos como Sete Povos das Missões, patrimônio localizado no interior do Rio Grande do Sul.
A região de Sete Povos recebeu indígenas e jesuítas em fuga diante dos ataques de bandeirantes paulistas realizados nas antigas missões, no século XVII, localizadas nas margens dos rios Tibagi e Paranapanema, hoje estado do Paraná. Se deslocaram mais ao sul, na esperança de que a distância do núcleo de onde vinham os caçadores de indígenas, a vila de São Paulo de PIratininga, tornasse o negócio menos atraente e mais perigoso.
O resultado dessa “internação” dos jesuítas e guaranis foi a criação de um verdadeiro “estado indigena religioso”, de magnitude inédita no mundo. As igrejas, das quais restam as ruínas em Sete Povos, construidas em pedra entalhada, cantaria, demonstram o refinamento das artes e ofícios aprendidos pelos guaranis. Música, teatro, escultura, em Sete Povos das Missões os jesuitas chegaram o mais próximo daquilo que imaginavam ser a construção de um “paraíso terrestre”.
Contudo, tal organização, com milhares e milhares de indígenas, não só impediu a continuidade da economia de apresamento dos paulistas, como se tornou algo absolutamente incomodo para as coroas ibéricas. O todo poderoso ministro português de Dom José I, o Marquês de Pombal, tinha calafrios ao ouvir falar em jesuitas. Nutriu por eles ódio mortal por toda a vida e não poupou esforços para acabar com a ordem religiosa.
As coroas temiam que a região das missões se tornasse uma estado rebelde, nem espanhol, nem português, religioso, com gestão autônoma. Essa foi a gota d’água, a sentença de morte para as missões. Em uma situação inusitada – por conta dos séculos de guerras e disputas um com o outro – os exércitos de Portugal e Espanha atacaram conjuntamente as missões. Da resistência indígena surgiram inúmeros mitos, entre eles o de Sepé Tiarajú, lider indíegan que comandou os guaranis até mesmo após a destruição das missões.
Em verdade, boa parte da resistência indígena se deveu ao medo profundo de que o encerramente das missões decretasse a escravização de milhares e milhares deles (temor justificável e plenamente comprovado).
Muitos indígenas conseguiram fugir e se internar em regiões ainda mais distantes, mas os Sete Povos desapareceram como estrutura, como sociedade.
Certa vez, conversando com Alfredo Bosi, lhe perguntei o que significou a expulsão dos jesuítas das Américas, e ele respondeu: Uma perda incomensurável nas artes, nas letras, na ilustração que se configurava com os indígenas.
Bosi tem absoluta razão. Embora a ação religiosa jesuitica tenha desarticulado as sociedades indigenas tais como eram ate então – mas disso não tinham a mesma concepção do que nós, hoje – o esforço empreendido para com os indígenas foi não só para a catequeze, mas para a construção de uma civilização, que, diante do que ocorria no restante do continente com os indígenas, era uma ação transformadora e, talvez por isso dizimada, em grande medida “subversiva” diante dos olhos das coroas ibéricas.
Nos campos do interior do Rio Grande do Sul repousam as ruinas de Sete Povos, um dos episódios mais dramáticos e comoventes da história das Américas, onde sonho e pesadelo se sucederam com intervalo de poucas décadas. Patrimônio histórico protegido, preservado, guarda em suas paredes caidas, tetos destruídos, o testemunho da fúria que se abateu sobre as missões e da resistência digna, ainda que ineficaz, dos guaranis.
Sítio histórico brasileiro, administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, Sete Povos das Missões merece ser conhecido por todos, e diante daqueles esqueletos de pedra conduzir a imaginação ao século XVIII, numa reverência as histórias, a grande e as pequenas, das vidas de cada um dos indigenas e religiosos que viveram e morreram ali.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História Moderna, História da América Latina, História da cultura, História do Brasil, Patrimônio histórico
Tags: Bandeirantes, Companhia de Jesus, Espanha, Guerras Guaraniticas, IPHAN, Jesuitas, Portugal, Rio Grande do Sul, Sete Povos das Missões, Sitio histórico
08/07/2009 - 09:14
Há uns dois anos cuidávamos de uma escavação na divisa entre os estados do Paraná e de São Paulo, às margens do rio Paranapanema, próximo já do Vale do Ribeira.
Depois de alguns dias de trabalho me comunicaram que haviam encontrado dentro de nossa área de pesquisa alguns monturos de terra espalhados e em linha e alguns poucos cartuchos de bala, os quais, segundo a memória local, seriam dos combates da Revolução Constitucionalista de 1932 (não vou tratar aqui se foi ou não uma “revolução”, um “levante”, uma “revolta” ou uma “rebelião”, já fiz isso em outra postagem mais antiga).
O fato é que a quantidade de cartuchos deflagrados encontrada na área era bem pequena, insuficiente para que se configurasse um “campo de batalha”. Então me solicitaram para que procedesse uma pesquisa ligeira a respeito dessa “materialidade bélica” da Revolução de 1932, a fim de que pudessemos entender melhor aqueles materiais encontrados em campo durante as escavações.
Quando o movimento começou a elite política paulista havia se apressado a dizer que o estado tinha condições plenas de sustentar uma guerra contra as tropas federais, coisa na qual boa parte da população acreditou. Depois, quando o conflito já estava em andamento o discurso mudou para o da necessidade do sacrifício, com doações de ouro para compra de equipamentos, trabalho voluntário em fábricas e hospitais, mobilização civil para as tropas.
Internamente os políticos paulista foram alertados a respeito da precariedade dos estoques de matéria prima fundamentais para a indústria bélica: ferro, alumínio, cobre, etc. Além disso foram comunicados da impossibilidade de dar conta da produção – em termos de capacidade instalada – para sustentar o fogo em várias frentes, mesmo que houvesse matéria prima suficiente.
Os militares do front não sabiam disso até terem seus suprimentos cortados de modo inesperado.
Políticos paulistas foram enviados aos EUA para tentar comprar material bélico, mas o governo federal se adiantou e quando chegaram lá havia um embargo estabelecido e o dinheiro não podia adquirir absolutamente nada.
Nos demais aspectos a precariedade era similar: uniformes faltando partes, sem qualquer padronização, material médico restrito, linhas de comunicação deficientes, ausência de alimentação.
Surgiu então o “mito da improvisação”, o qual tentava ludibriar a respeito da causa perdida, muitos pensaram que uso de “matracas de madeira” poderiam barrar balas de verdade.
Em algumas frentes de batalha, como na do Vale do Paraíba, o assunto virou gozação. Ouviam-se gritos vindos das trincheiras adversárias: “Ô paulista, não esculacha com a guerra, pare de jogar pedras.”
O fato é que realmente as tropas tinham pouco mais do que isso para atirar. Em geral, na maioria dos fronts, não havia sequer dez disparos por arma disponível. A grande maioria dos fuzis, os que foram distribuídos aos voluntários, eram obsoletos e recomtavam o final do século XIX.
Quando os oficiais dos fronts perceberam – após pedidos desesperados – que jamais receberiam munição ou armas novas parte começou a pensar em recuar ou se render, o que evitou em várias circunstâncias combates mais violentos e prolongados. Esse foi o caso do Vale do Ribeira.
Diante da precariedade os oficiais optaram por não insistir em uma resistência inútil e se dividiram entre a rendição e o recuo.
Por isso na nossa área de escavação haviam tão poucos cartuchos deflagrados para justificar um campo de batalha, embora os monturos de terra denunciassem a construção de inúmeras trincheiras e ninhos de metralhadora, as quais, boa parte, ficou sem qualquer função.
Por fim, parte da capacidade instalada de São Paulo para a produção de material bélico foi bombardeada ou tomada por tropas federais, o que acelerou a derrocada da Revolução.
No fim, por mais que a memória tenha consagrado versões alternativas, a realidade é que, para os paulistas, a Revolução de 32 foi efetivamente uma “Revolução dos Sem Munição”, o que explica o rápido colapso de suas tropas e seu governo na ocasião.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil
Tags: Armamento, Indústria Bélica, Munição, Revolução de 1932, São Paulo, Vale do Ribeira
06/06/2009 - 07:09
A cada ano a cidade de São Paulo acumula recordes de congestionamentos. Lembro de que até alguns anos congestionamentos de 60 ou 80 Km eram tidos como “monstruosos”, agora estamos nos aproximando dos 200 Km. Uma série de fatores sempre é lembrada como causa do nosso “infarto urbano”: excesso de carros de passeio, caminhões que cruzam a cidade para irem de um lado para o outro do país, sistema de transportes públicos precário, vias mal conservadas, falta de educação, desrespeito às leis de trânsito, etc, etc.
Sem descartar nenhuma dessas causas eu acrescentaria outras duas, de ordem histórica, e que continuam sendo precariamente combatidas pelos poderes públicos. Anos atrás, quando comecei a estudar a evolução urbana da cidade de São Paulo, por conta dos trabalhos em arqueologia, fiquei impressionado com duas conclusões.
A cidade de São Paulo se desenvolveu desde seus primórdios como área de entrocamento, de encruzilhada, de rotas que ligavam diversas regiões da colônia. Do extremo sul vinham as rotas que traziam animais de carga, sobretudo mulas, e carne seca das “charqueadas”, as quais seguiam para Minas Gerais e Goiás. Para isso passavam na área de São Paulo. Depois essas rotas passaram a abastecer também o Vale do Paraíba (região de Guaratinguetá, São José dos Campos, Taubaté) e o Rio de Janeiro.
Também vinham rotas da região de Goiás e do Mato Grosso em direção ao sul ou ao porto de Santos, sempre passando por São Paulo. De Santos, por sua vez, subiam vários produtos, entre eles sal e ferramentas e chegavam através do Caminho do Mar, o qual literalmente entrava na cidade pela região do Ipiranga.
Parte significativa desses caminhos surgidos nos séculos XVI, XVII, XVIII derivavam de antigos caminhos indígenas que eram empregados tanto para trocas comerciais entre os povos originais das Américas quanto para guerras. O próprio Caminho do Mar era em sua origem um caminho indígena. Os jesuítas e colonos quando aqui se estabeleceram se apropriaram do conhecimento dos povos indígenas e, pode-se dizer, que apenas assim conseguiram sobreviver no planalto paulista.
Do centro da ocupação da região, do “quartel general”, a vila de São Paulo de Piratininga, saiam caminhos que ligavam aos assentamentos e aldeamentos jesuiticos que se espalhavam no entorno, como em Pinheiros, Cotia, Itapecerica, Embu. Assim surgiram os caminhos tradicionais da região: o caminho dos Pinheiros, a estrada para Goiás, o caminho do Norte, o caminho do Mar.
Os indígenas, ao escolherem esses traçados, muito tempo antes dos portugueses chegarem, haviam empregado todo seu conhecimento da topografia da região, optando pelas melhores opções de trânsito, considerando que o núcleo original de São Paulo está assentado sobre uma elevação entre dois pequenos vales, o do Anhangabaú e o do Tamanduateí. Em suas “costas” há o espigão onde se localiza a avenida Paulista, exatamente em sua “espinha dorsal”.
Ocorre que esses caminhos eram tão funcionais, tão perfeitamente escolhidos para quem transitava a pé ou a cavalo, que os séculos foram passando, a cidade crescendo, a população aumentando, os transportes mudando, e os itinerários se mantendo. Os antigos caminhos foram mantidos, como pequenas alterações.
O caminho que ia para Pinheiros virou a Consolação-Rebouças, o que ia para os assentamentos jesuíticos virou parcialmente a rodovia Raposo Tavares. Para outra banda da cidade, sobre o antigo caminho do Guaré, surgiu a avenida Tiradentes. Para o Norte surgiu sobre o caminho antigo a Rangel Pestana e no lugar do Caminho do Mar temos a Anchieta. Apesar de todas as modernizações dessas vias – alargamentos, duplicações – nada foi capaz de vencer a obviedade de que os caminhos antigos atendiam a antigas necessidades. Eram ótimos para quem vivia como os paulistas do século XVIII. Hoje viraram problemas.
A segunda constatação é de que, assim como há séculos, as rotas de pessoas e de comércio continuam passando pela cidade, aliás, somente se intensificaram. As mercadorias produzidas nas mais diversas regiões do Brasil continuam cruzando a cidade para chegar até o porto de Santos e tanto as estradas (Imigrantes e Anchieta) quanto a estrada de ferro estão entupidas quase tanto quanto as vias principais da cidade de São Paulo. Ou seja, não conseguimos nesse período de tempo nem imaginar formas melhores de escoar nossas produção, de fazê-la cruzar o país, nem conseguimos repensar a dinâmica de deslocamento das populações dentro da cidade e na região do entorno.
Isso foi ainda mais agravado com a “conurbação” como diriam meus amigos geógrafos, a junção de áreas urbanas de cidades distintas pelo crescimento da ocupação. Ou seja, virou tudo uma gigantesca malha de bairros que se sucedem sem que consigamos perceber claramente quando termina uma cidade e começa outra. Ligando essas regiões ainda estão os antigos caminhos de São Paulo.
Efetivamente a grande idéia em termos de deslocamento é a fuga das áreas centrais, o contorno, coisa que era desnecessária e impensável para quem andava a pé ou de cavalo, mas que para veículos automotores, que ficam horas presos em congestionamento, vale a pena. Por isso o Rodo-anel significa não apenas uma solução técnica, mas uma revolução na mentalidade de deslocamento no planalto paulista. É claro que se tívessemos investido em planejamento urbano isso teria sido começado a ser implantado há décadas. Infelizmente não foi assim.
Agora resta rezar (e cobrar) para que a fuga dos antigos caminhos fique pronta o mais rápido possível – o que parece estar difícil de ocorrer. Mesmo assim, apenas um dos problemas estará resolvido. O do trânsito interno da cidade exige ainda outra revolução mental e estrutural: estrutural para que tenhamos opções de transporte, mental para que os paulistas passem a deixar em casa uma das coisas que mais amam em suas vidas, seus carros.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura, História de São Paulo, História do Brasil, Política ambiental
Tags: Anchieta, Caminho do Mar, Caminhos, Cidade, Congestionamento, Consolação, Estradas, Imigrantes, Rebouças, Rodo-anel, São Paulo, Tiradentes, Transportes, Vias
31/05/2009 - 07:00
Esses dias estava conversando com um amigo sociólogo que me dizia que fez um texto on-line da WWF (a World Wildlife Found, uma das ONGs gigantes do meio ambiente) para ver o impacto que ele causa no meio ambiente. De acordo com ele, e não tenho porque desacreditá-lo, seus banhos jamais passam de cinco minutos, mora em frente ao trabalho, portanto não usa carro cotidianamente, consome moderadamente, enfim, não tem nenhum habito que pudesse lhe indicar um “risco” para o planeta.
Mas o teste da WWF teve opinião diferente e o resultado demonstrou que, se todos os seres humanos consumissem como ele, precisaríamos de três planetas Terra para suportar tal impacto. Certamente o teste parte do principio de um “mundo ideal”, muito mais preservado, alias, do que este em que vivemos, mas, de qualquer modo, o resultado ainda é estarrecedor.
Infelizmente, para todos humanos, a conclusão do exame de impacto ambiental por padrão de consumo é real e se comprova inclusive arqueologicamente. Nossa sociedade não é a primeira a abusar dos recursos naturais, ao longo da historia humana varias culturas entraram em colapso e muitas delas simplesmente desapareceram por conta de esgotamento ambiental.
Um caso particularmente famoso é o da Ilha de Páscoa, a qual teve quase toda sua cobertura vegetal de grande porte derrubada para ser empregada na edificação dos Moais, as gigantescas esculturas de pedra. O resultado foi uma crise ambiental que provocou o desaparecimento da cultura Hapa Nui. Na atual Turquia há um sitio arqueológico particularmente importante, Çatalhoyuk, uma das primeiras cidades da humanidade, mas que desapareceu diante do caos ambiental que ela mesma provocou no seu entorno. As escavações arqueológicas, que dataram a ocupação com varias fases entre 9000 e 7000 a.C., são chocantes diante dos indícios de como teriam sido os últimos dias da cidade. Montanhas de lixo se acumulando por todos os lados, restos de material orgânico apodrecendo ao ar livre, contaminando o ar e difundido doenças. A caça no entorno desaparecida diante da falta de controle, a terra esgotada e imprestável para a agricultura, os ribeirões que abasteciam a cidade com a água suja e sem qualquer utilidade.
A cidade morreu, súbita e dolorosamente, sem deixar rastros. Provavelmente seus últimos habitantes, deixando os mortos para trás, rumaram para outro lugar, onde podem ter sido absorvidos ou dizimados por outro povo, ou levado sua vida ate os últimos representantes da comunidade.
Estudos realizados por antropólogos, arqueólogos e biólogos – a partir das informações que temos sobre padrão de consumo nas culturas ditas “pré-históricas” – indicam que jamais o planeta teria condições de suportar a população que temos hoje, mais de seis bilhões de indivíduos. Um bilhão seria um numero bastante otimista para os especialistas. Na realidade o que nossa espécie fez ao longo da historia foi criar uma serie de tecnologia e macetes para driblar as limitações naturais.
Essas tecnologias são a base da espécie humana e somente foram melhoradas com o passar do tempo. Agricultura, pastoreio, profilaxia, habitação, ferramental, não muito mais do que isso. São estas tecnologias que nos sustentaram. A agricultura hoje pode ser feita com tratores de ultima geração, quase autômatos, mas ainda é “agricultura” e emprega o principio elementar que possibilita uma planta produzir mais alimento do que ela produziria em estado selvagem. O mesmo ocorre com os animais domesticados.
Contudo, até mesmo estas tecnologias parecem ter seus limites de eficácia e não é muito inteligente abusar na aposta de que sempre conseguiremos desenvolver algo mais eficiente. Caso contrário corremos seriamente o risco de encontrarmos nosso fim tal como nossos antepassados da Ilha de Páscoa ou da Anatólia.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura
Tags: Arqueologia, Ilha de Pascoa, Meio ambiente, Populaçao, Turquia
26/05/2009 - 07:21
A arqueologia é uma ciência que depende muito da capacidade interpretativa dos arqueólogos. Essa capacidade, por sua vez, depende da confiabilidade dos dados coletados durante uma escavação.
Grande parte das pessoas imagina que a única coisa que interessa a um arqueólogo durante uma pesquisa são os objetos resgatados durante as escavações, mas isso – hoje – não é mais uma verdade. Através do uso de técnicas modernas de diversas ciências informações cruciais são passíveis de serem obtidas.
Um exemplo que acho genial é a determinação das idade, sexo e época de abate de certos animais selvagens – caçados por homens de sete ou oito mil anos atrás – através da análise da dentição dos mesmos, encontradas em sítios arqueológicos. Alguns tipos de gamos possuem dentes que mudam seu esmalte ao longo do ano, quando morrem esse processo acaba. Assim é possível saber em que época o animal foi caçado e cruzando com dados de vários outros determinar as épocas preferidas de caça de nossos ancestrais.
Técnicas engenhosas como essa são empregadas também para o estudo dos solos, encontrando os tipos vegetais preferidos, ou do revestimento formado em foices de pedra pelo corte continuo de ramos de cereais. Através desses procedimentos é possível se determinar qual era a dieta das pessoas que usaram esses objetos ou viveram em certa região.
Por isso, a cada geração de arqueólogos, surgem técnicas que permitem melhores interpretações dos achados arqueológicos e uma melhor compreensão da vida de grupos humanos que desapareceram há milhares de anos.
A arqueologia nas Américas ficou durante muito tempo dominada pelo estudo das grandes civilizações pré-colombianas, como os aztecas, maias e incas. O estudo da história humana nas Américas antes do surgimento desses impérios demorou bem mais tempo para se estabelecer.
Ainda hoje o grande desafio da arqueologia americana é determinar quando, aproximadamente, a espécie humana aportou no continente. O segundo grande desafio é conseguir mapear a expansão e a ocupação das Américas depois da chegada.
Até alguns anos dominava o cenário o chamado “Dogma de Clóvis”. Clóvis é uma cidade mexicana na qual se encontrou o mais antigo registro humano datado, algo perto dos 11.500 anos de idade. Como os materiais arqueológicos necessitam ser datados e isso nem sempre é possível, Clóvis e seus 11.500 anos foram ficando.
Isso gerou uma luta incansável da arqueologia nos países da América do Sul e central, e mesmo de grupos dos EUA, para derrubar a datação de 11.500 anos.
Surgiram datações estimadas mais antigas rapidamente, mas o problema esbarrava sempre na questão da datação definitiva, o que significa ter a sorte de encontrar materiais orgânicos que permitam os procedimentos de datação por Carbono 14 ou algum outro método. Essa sorte nem sempre acompanha os arqueólogos: as vezes o material encontrado é pouco, as vezes está contaminado, as vezes fora de contexto, impossibilitando a associação direta entre o material datável e o restante do sítio arqueológico.
Mas mesmo quando uma fogueira é datada é necessário ter certeza de que ela foi produzida pela mão humana e não por um raio ou algum outro fenômeno natural. Para piorar a situação, quanto mais antigos os registros mais difícil é se encontrar essas situações ideais.
Por isso as datações obtidas pela arqueóloga Niede Guidon na Serra da Capivara no Piauí, e que indicariam ocupações humanas de mais de 40.000, são combatidas violentamente. Elas são tão rústicas, as fogueiras, que é impossível saber com certeza absoluta se foram feitas por humanos ou não.
Desse modo existem os verdadeiros “fronts” da luta pela escrita da história da ocupação das Américas, regiões nas quais equipes de arqueólogos se debruçam durante anos para tentar trazer luz a estas questões.
Uma dessas regiões é o litoral do Pacífico, no Chile o no Perú. Essa região é importante pois pode trazer novas informações sobre a hipótese de que a América não só foi colonizada por diversos grupos, em levas sucesivas, como também foi de “modos” diversos. Uma das teses insiste que homens das ilhas do Pacífico teriam conseguido chegar às Américas em balsas. Se isso realmente aconteceu, ou se foi o inverso – homens das Américas ocupando as ilhas – a resposta deve estar no litoral do Pacífico.
Outro front continua sendo a fronteira norte, a região do Alaska, por onde teriam cehgado as levas de humanos através do estreito de Bering, nas diversas glaciações que congelavam a passagem. Se o caminho dos humanos pelas Américas começou com uma longa marcha a pé a partir da Ásia os vestígios mais antigos devem estar por lá.
No centro-oeste do Brasil, na região do Mato Grosso, encontra-se outra linha de batalha. O centro do continente – já sabemos – foi uma região de trânsito de povos diversos, que foram se espalhando e se cruzando ao longo dos milênios. É lá que provavelmente teremos uma idéia melhor da formação dos povos americanos modernos, os indígenas que estavam aqui quando os colonizadores europeus chegaram.
Na Amazônia está a grande frente da cultura tupi, uma das mais extensas das Américas. Foi lá, provavelmente, que o amendoin e a mandioca foram domesticados, tornando-se parte essencial da alimentação dos povos americanos. Também entre a Amazônia e os Andes resta a linha de batalha na qual se discute de onde o milho veio, e como foi domesticado e se difundiu.
Nas Minas Gerais, em Lagoa Santa, há o front liderado pelo antropólogo físico Walter Neves, um dos mais terríveis adversários de “Clóvis”. A famosa “Luzia” (uma brincadeira “brasileira” com o famoso esqueleto de “Lucy” encontrado na África e que, até o momento, é o mais antigo) é uma das provas mais contundentes que existem de que a colonização nas Américas começou antes dos 11.500 anos e que não foi realizada apenas por uma matriz ásiática. Luzia tem claros traços negróides ao contrário de boa parte dos povos americanos que é de origem mongolóide.
Em cada uma dessas regiões há os “generais”, arqueólogos experimentados – como Walter Neves, Eduardo Neves, Denis Vialou, Niede Guidon, Tom Dillehey – que a cada temporada de escavação levam seus exércitos de pesquisadores, estagiários, para passar semanas, as vezes meses, lutando para obter resultados cada vez mais reveladores. Esses arqueólogos compõem um grupo restrito que discutem continuamente, mas raramente concordam em muitos pontos, dada a complexidade das situações a ausência de dados definitivos.
Assim, em cada uma desses “teatros de batalha” a história humana nas Américas, antes que o continente tivesse esse nome, continua a ser escrita, tal como um recordista olímpico, lutando para “baixar resultados” e chegar cada vez mais próximo da verdade.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da América Latina, História da cultura
Tags: Américas, Arqueologia, colonização, Escavações, Sítios arqueológicos
10/04/2009 - 20:27

No final do século XI o exército cristão da Primeira Cruzada conseguiu finalmente entrar na cidade sagrada de Jerusalém para completar a obra que motivara a expedição: libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados para o cristianismo da dominação islâmica.
Encontraram do lado de dentro das muralhas da cidade – datadas da época da dominação romana na Palestina, no começo do primeiro milênio de nossa época - a Basílica do Santo Sepulcro, supostamente construida sobre o túmulo de Cristo.
Nos anos seguintes os cruzados investiram fábulas em ouro, prata, pedras preciosas para enriquecer o túmulo de Jesus, e deixá-lo “digno de um rei”. Riquezas, obviamente, tanto arrecadadas entre a nobreza européia quanto saqueada de potentados islâmicos, derrotados pelo caminho. Doações menores também engordaram os cofres para o embelezamento do Santo Sepulcro, mas muitos dos fiéis eram tão pobres que mais precisavam do que podiam dar ajuda.
A Basílica encontrada pelos cruzados era, na realidade, uma reconstrução da primeira, construida no século IV pela mãe do imperador romano Constantino. Helena e o bispo Macário desejosos em encontrar o lugar onde fora sepultado Cristo empreenderam uma grande escavação numa área interna aos muros da cidade.
Na realidade os sepultamentos não podiam ser realizados dentro da área da cidade na época de Cristo, mas o local escavado foi anexado à área urbana de Jerusalém somente no século II d.C., quando o imperador romano Adriano mandou que se encontrasse um local adequado para a construção de um Foro e de um templo dedicado a Vênus, Jupiter e Juno (o Templo Capitolino).
Os homens da administração romana indicaram, então, a região do Golgota (em hebraico “crânio” ou “caveira”), morro onde eram realizadas as execuções de condenados e uma área de túmulos. Era nessa região que, provavelmente, se encontrava o túmulo escavado na rocha pertencente a José de Arimatéia, rico judeu, próximo a Jesus, que emprestou para seu sepultamento. A área foi então aterrada, sem que se retirassem as pedras base, e o templo edificado.
Foi nessa área que dois séculos depois Helena e Macário começaram as escavações, encontrando logo em seguida as pedras tumulares. Num dos nichos encontrados teriam sido localizados os madeiros que foram utilizados na crucificação de Cristo e dos dois ladrões.
Essa história do “Santo Lenho”, aliás, rendeu muito durante a Idade Média, fazendo o número de relíquias (objetos ligados a vida dos santos ou de Cristo) se multiplicar exponencialmente. Cada igreja queria ter um numero mais impressionante do que a outra de relíquias, até porque isso lhes garantia maiores doações e maior visitação de fiéis, numa verdadeira disputa turística-mercadológica. Isso acabou por promover uma crescente falsificação de relíquias que garantiam que um único santo tivesse seis braços, dez pernas, três cabeças. O famoso “Sudário de Turim” (o pano que teria coberto o corpo de Cristo após a crucificação, era apenas um dentre tantos, o que implica obviamente a pergunta: quantas vezes ele foi coberto??
Uma piada corrente na Idade Média costumava dizer que haviam tantas lascas da Santa Cruz que seria possível com elas construir a Arca de Noé.
Mas isso não era um problema sério na época da Imperatriz Helena, e ela mandou erguer uma igreja suntuosa sobre o antigo Templo Capitolino. Contudo, no século VII, os persas invadiram a cidade e botaram a igreja no chão. A antiga igreja possuia cinco naves além de uma cripta onde estavam repousadas as cruzes encontradas.
A destruição de 614 começou a ser revertida quinze anos depois, quando o um abade de nome Modesto iniciou sua reconstrução. Depois de concluida manteve-se intacta durante quatro séculos, quando durante a invasão árabe liderada pelo califa Haken – em 1009 - novamente a igreja foi completamente destruida.
Nos anos seguintes a igreja foi reerguida, mas de modo bastante simples, até mesmo por conta da dominação islâmica na cidade. Foi nesse ponto que os cavaleiros cruzados a encontraram com a tomada de Jerusalém no final do século XI. Com sua nova ornamentação a Basílica foi sagrada em 1149.
Ao longo da Idade Média o Santo Sepulcro foi o “pomo da discórdia” entre cristãos e islâmicos e sua “libertação” utilizada como argumento para sucessivas cruzadas. É claro que outros motivos de ordem econômica ou social estavam por trás destes movimentos, mas o Santo Sepulcro jamais saiu da pauta dos reis e papas na medievalidade.
Contudo, apesar da retomada de Jerusalém aos árabes por Saladino, a Basílica se manteve praticamente intacta até ser novamente destruída por um incêndio em 1808. Durante a dominação árabe foi garantido o acesso dos cristãos ao Santo Sepulcro – motivo de interesse desses -, desde que se pagasse uma generosa taxa de admissão – motivo do interesse dos senhores da cidade.
Ao longo desse tempo milhares de fiéis peregrinaram para lá, para adorar o túmulo e ver o mistério do acendimento sem intervenção humana da lamparina que ilumina o sepulcro. No século XIV, Mafeo e Nicolo Polo – pai e tio de Marco Polo – realizaram uma viagem a Jerusalém a fim de levar para Kublai Kan – o qual ficara impressionado com as histórias a respeito de Cristo contadas pelos mercadores venezianos – um vidro com um pouco do azeite que queima no Santo Sepulcro, tal era a fama de miraculoso do local.
A reconstrução da basílica, após o incêndio em 1808, foi em grande parte bancada por monges gregos, o que garantiu uma forte presença dos ortodoxos na manutenção da igreja. Mas essa reconstrução também determinou a retirada de inúmeros símbolos cristãos latinos, inadequados para os padrões ortoxos. Com o tempo a administração do Sepulcro passou a ser compartilhada entre ordens de seis diferentes igrejas cristãs: a copta, a armênia, a síria, a abissínia, além da grega-ortodoxa e a latina (ou romana).
Ainda hoje a abertura da igreja é realizada por um membro de uma ordem e o fechamento por um de outra ordem, evitando as brigas de tapas que marcaram décadas de relação conflituosa dentro do santuário.
Milhares de turistas e peregrinos visitam anualmente o Santo Sepulcro, movimento que diminui toda vez que a cidade de Jerusalém se vê abalada por séries de violência entre palestinos e israelenses, os quais disputam o direito de ter a cidade como sua capital, embora, atualmente, ela pertença à Israel, condição não reconhecida por muitas nações do mundo.
De qualquer forma parece muito paradoxal que o local mais agrado para o cristianismo tenha uma milenar história ligada a violência e a intranquilidade, posto que o “sepultado” morreu por valores completamente contrários. Mas essas são as contradições que compõem e movem a história.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga, História da cultura, História do oriente, História medieval, Patrimônio histórico
Tags: Basílica, Cruzadas, Jerusalém, Jesus Cristo, Santo Sepulcro
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