Arquivo de agosto, 2009
28/08/2009 - 07:42
Infelizmente, hoje, nem todo mundo mais conseguiria associar o famoso chavão “Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! E o palhaço o quê que é? É ladrão de mulher!!!” ao circo ou as piadas tradicionais dos palhaços. Mas isso fez parte da infância de muitas gerações antes da atual.
É difícil estabelecer quando o “Circo” surgiu, porque até mesmo o conceito de “Circo” mudou radicalmente ao longo do tempo e de cultura para cultura. O que nos vem a mente quando pensamos em circo é uma trupe de artistas diversos, que viaja carregando toda a estrutura necessária para o espetáculo, incluindo a famosa lona, o picadeiro, arquibancadas ou cadeiras, etc, mudando de cidade para cidade. Neste espetáculo teria trapézio, palhaços, malabaristas, contorcionistas, mágicos, equilibristas, e, mais antigamente, animais adestrados, bailarinas, “circo de cavalinhos” como diziam antigamente.
Hoje, novamente, o circo mudou tanto que temos que colocar sob a mesma “lona” o circo tradicional, os acrobáticos, os como Cirque du Soleil e o Imperial da China, coisas muito diversas entre si.
O nome “Circo” vem do latim e denominava os espaços “circulares” onde ocorriam os “jogos”, disputas variadas que entretinham a população. Corridas a pé, em cavalos ou carros puxados por animais, lutas de gladiadores profissionais, lutas entre prisioneiros (como cristão durante o período da perseguição, nos primeiros séculos de nossa era) e animais selvagens (leões, elefantes, rinocerontes, ursos e outros tantos tipos trazidos das regiões mais variadas do imenso império romano). O “Circo Máximo” como diziam os romanos a respeito do Coliseu.
Mas outros povos, outras culturas tinham suas próprias tradições “circenses”, como na China, na qual a arte dos malabares e do contorcionismo se desenvolveu como em quase nenhum outro lugar. Durante o reinado de Kublai Khan, o imperador que governava no período em que Marco Polo chegou a China, artistas “circenses” eram levados de várias regiões asiáticas para a capital a fim de alegrar o monarca e sua família.
Na Europa, durante a Idade Média, as trupes de artistas tinham dois grandes mercados: os salões da nobreza, para animar a grande quantidade de pessoas que ficava confinada nos castelos (incluindo as famílias nobres com sua imensa parentela), ou nas praças, sobretudo quando ocorriam as chamadas “feiras”.
Diferentemente das nossas “feiras”, as feiras medievais eram ocasiões nas quais produtores, comerciantes e artesãos se reunião em determinada cidade, e durante semanas – cotidianamente – comercializavam seus artigos. Essas feiras significavam verdadeiras festas para a população, e mesmo os nobres davam um jeito de perambular por entre as bancas. Com tal aglomeração de pessoas toda sorte de gente era atraída, não só quem queria comprar ou vender. Religiosos, pregadores, ladrões, prostitutas e artistas mambembes, sozinhos ou em trupes.
Uma das atrações principais eram os animais adestrados, como ursos dançarinos. Mas, também faziam muito sucesso as apresentações de autos, peças semi-improvisadas que tinham estilos bastante definidos, como os autos religiosos, as moralidades, os satíricos, as tragédias. Nesse período era muito difícil separar as trupes de malabares e afins dos grupos de representação, e, de fato, os artistas conheciam um pouco de cada arte. Ainda hoje grupos de teatro mambembe insistem no domínio de técnicas circenses pelos seus atores.
Na Idade Moderna, depois do século XV, os grupos de circo começaram a se conformar mais com aquilo que aprendemos a entender como “circo”. De modo mais estável. Nesses grupos foram sendo absorvidos artistas cuja arte tinha ela propria sua historia, as vezes mais longa do que a do proprio circo, como é o caso dos palhaços, cujas origens remonta talvez a pré-história.
No Brasil a primeira tradição circense a se implantar, de modo popular, foi a de origem profundamente medieval, mambembe, algo nômade em sua forma de viver. Nos sertões do nosso território o circo era um evento único, um momento esperado ansiosamente por todos, mas principalmente pelas crianças. Muitos quadros de Cândido Portinari trazem essa memória da infância no interior, como aquele no qual o palhaço, montado de costas num burrico, percorre as ruas de uma cidade divulgando o espetáculo e seguido de um bando de crianças.
Era hábito que o palhaço marcasse com giz a testa de algumas crianças que recebiam isenção no espetáculo, marca que os amigos tentavam a todo custo apagar só de maldade.
No filme de Cacá Diegues, Bye Bye Brasil, junto com o tema da modernização amorfa, desagregadora, trazida pela implantação de grandes obras e pela chegada da televisão, aparece o drama do circo do interior, da “caravana”, que dia após dia foi perdendo espaço para outras formas de entretenimento.
Nos Estados Unidos surgiram circos imensos, como o famoso Show do Oeste Selvagem de Buffalo Bill, e que deram origem a uma outra tradição, a dos circos empresa, da qual o Soleil é atualmente o maior expoente.
O fato curioso é que gerações e gerações de pesquisadores denunciaram a morte iminente do circo, mas, como diria Ariano Suassuna, todos eles morreram e o circo continua vivo. Graças, sobretudo, a duas virtudes: a de tocar em questões profundas da alma humana (o fantástico, o emocionante, o humanamente quase impossível) e de a cada época se moldar com incrível plasticidade ao novo mundo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura
Tags: Circo, Feiras Medievais, Malabares, Palhaços
26/08/2009 - 06:52
Quase ninguém o conhece pelo seu nome de “cartório”: Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Pelo seu “apelido”, Museu do Ipiranga, é, certamente, dos museus mais conhecidos do Brasil, talvez o mais conhecido. Implantado no topo de uma colina – a qual foi acentuada graças a uma movimentação monumental de terra, com vistas a acentuar a visão magestática do edifício – o Museu observa a pequena várzea, hoje quase toda canalizada e encoberta, do riacho que deu nome a região e que, por acidente do destino, pôs definitivamente seu nome na história do Brasil.
Quando era aluno nunca me coloquei essa questão, mas, depois, passei a me perguntar se para muitos a coisa toda – o episódio da “Independência” – não acaba sendo ensinado de um modo bastante “incompreensível”. Para começar o que D. Pedro, o Príncipe Regente, estava fazendo naquela região com sua comitiva se a capital era no Rio de Janeiro? Como com um simples “Ato” um Príncipe consegue executar uma “Independência”?
Isso sem contar nas piadinhas que sempre correram dizendo que D. Pedro parou as margens do riacho para “aliviar” a barriga, que estava montado em um burro e não num cavalo, e daí para diante.
Em verdade a “Independência” do Brasil é um episódio numa história longa que envolve as mudanças na economia, na política, na sociedade do mundo ocidental a partir do começo do século XVIII, naquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “Era das Revoluções”. Outro historiador, brasileiro, Fernando Novais, chamou esse processo longo de “Crise do Antigo Regime”, ou seja, uma crise que envolveu as bases do capitalismo tal como vinha se desenvolvendo desde o início da Idade Moderna, com as exclusividades das Metrópoles no comércio com as suas colônias, com o poder absoluto dos monarcas, com a exclusão política dos proprietários sem nobreza (os burgueses).
Nesse vagalhão histórico foram arrastadas as monarquias de várias nações, colônias se tornaram independentes – Estados Unidos da América, Brasil, os países da América Latina -, outras monarquias tiveram de se submeter a regimes regidos por constituições (as chamadas Monarquias Constitucionais). O mundo mudou radicalmente e irreversivelmente. Mas tudo isso demorou décadas e mais décadas para se consolidar, e somente quando o processo havia se alastrado por regiões inteiras e com a abrangência envolvendo praticamente todos os setores da existência humana – a política, a economia, a sociedade, a cultura – é que parte das pessoas se deu conta de que estava vivendo uma era de transformações, uma gigantesca revolução.
Em 1821 tanto Dom João VI, rei de Portugal, quanto seu filho, D. Pedro, tinham noção de que o processo de transformações havia se espalhado e sua reversibilidade era difícil, senão improvável. Muito provavelmente o monarca e seu filho articularam formas de “perder os anéis e manter os dedos”, ou seja, aplacar ânimos, se manter na crista da onda sem ser tomado pelo vagalhão. Uma solução possível era admitir um processo de independência conduzido pelo próprio herdeiro do trono português, com o apoio ou a aliança com grupos de proprietários brasileiros que vissem isso como uma vantagem, em sintonia com seus interesses.
Provavelmente era isso que D. Pedro fazia em São Paulo no começo de setembro de 1822: articulando forças que garantissem sua manutenção no trono e resposta imediata a grupos contrários ou tropas portuguesas.
O caminho realizado entre o Rio de Janeiro e São Paulo nessa época cortava os campos do Ipiranga, uma área pouco ocupada, nas proximidades da cidade. Por ali passava o famoso “Caminho do Mar”, o qual descia em direção a Santos e era a principal rota de escoamento da produção de São Paulo, bem como a principal sua porta de entrada. Antes de chegar no trecho serrano o caminho se dividia e outra rota seguia em direção a capital, o Rio de Janeiro.
Ao se afastar da cidade, voltando para o Rio de Janeiro, a comitiva do Príncipe Regente recebe a famosa carta que o teria feito proclamar a Independência. Certamente Dom Pedro, depois das confabulações com os políticos paulistas, saiu da cidade com a certeza do apoio e seguro para tomar a decisão difícil de oficializar o rompimento com a Metrópole (o que significava um problema muito mais grave para com os políticos e as elites portuguesas do que para com seu pai, afinal as posses se mantinham na família de qualquer modo).
Nem foi um ato intempestivo, nem uma “comédia” como as vezes tentam deixar parecer (como fez recentemente o jornalista Eduardo Bueno). É claro, a cena pintada muito depois, e que hoje adorna o salão principal do Museu do Ipiranga (ops…Paulista), foi constituída com o objetivo de dar uma versão grandiloquente para o momento e dentro dos princípios da pintura clássica do período. Mas, quem acredita que Napoleão realmente vivenciou as cenas tal como os quadros as representam?
Entre o final do século XIX e começo do XX os políticos paulistas decidiram tornar o Ipiranga num monumento a céu aberto, um cenário de um grande teatro histórico. Daí a construção do monumento a Independência, depois do mausoléu, do Museu, etc. Mas não parou por aí, pois outro objetivo desses políticos era associar diretamente a independência do Brasil a participação das elites paulistas nela. Por isso cercaram o coração da história, a colina do Ipiranga e o Monumento, com ruas que levam os nomes dos políticos paulistas ou que relembram valores morais caros a memória deles: rua dos Patriotas, Xavier Curado, rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois, rua do Manifesto, rua Silva Bueno, rua Auriverde.
Vale lembrar que o Sete de Setembro não foi imediatamente compreendido como a “data nacional”, até porque isso determinava a escolha de uma “forma de contar” a história da Independência (não a única). Assim, o Sete de Setembro e o bairro do Ipiranga só se tornaram relacionados a história da separação do Brasil de Portugal ao longo do século XIX e isso só se completou com a comemoração do Centenário da Independência, em 1922.
E, de fato, a movimentação de terra na colina do Ipiranga, a canalização do córrego, a construção das ruas, mudaram tanto o cenário original que hoje é muito pouco provável saber exatamente onde os eventos ocorreram.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História de São Paulo, História do Brasil, Memória e história
Tags: Crise Antigo Regime, Dom Pedro, Independência, Memória, Revoluções, Sete de Stembro
24/08/2009 - 06:30
Seis horas da manhã e seu despertador toca como se fosse o carrasco te levando pra forca. Resignadamente você se levanta, vai ao banheiro, começa a se arrumar para sair, tiritando de frio, “batendo queixo” como diria um amigo. Se enrola como uma cebola em blusas, camisas de manga longa, casacos, toucas, cachecóis, luvas e sai para a batalha. Quando chega ao destino suas bochechas estão vermelhas, o nariz duro e os dedos das mãos e pés rígidos.
Se você está reclamando deveria agradecer pelos milhares de anos de desenvolvimento tecnológico e cultural que lhe possibilitaram, ao menos, ter roupas mais leves, práticas, quentes, eficientes contra o frio e a umidade.
É claro que nascemos nesse mundo, com todas essas”facilidades” tecnológicas e não nos damos conta do quanto deve ter sido difícil viver lutando contra os fatores climáticos há milhares – ou mesmo centenas – de anos. A história humana foi, e é, em grande medida a história da tentativa de controlar a natureza se tornar menos suscetível aos seus fatores (a disponibilidade de alimento, o clima, o acesso à água, a proteção contra catástrofes naturais). Da Revolução Industrial – começada no século XVIII – para cá esse desejo de controlar se acelerou a ponto de colocar em risco a própria existência da espécie, com a transformação radical de alguns sistemas e o virtual esgotamento de recursos vitais. Mas este será um assunto para os arqueólogos do futuro, se nossa espécie sobreviver e se ainda houver arqueologia.
Há algumas décadas, nos Alpes, descobriu-se um cadáver mumificado pelo gelo de um homem. Sua morte datava de alguns milhares de anos e devia ser um dos últimos homens de outra espécie (sim, a nossa, a homo sapiens, é apenas a espécie que sobreviveu a evolução, ou que incorporou outra, ou outras, assunto ainda em aberto, mas nem sempre estivemos “sós”) fugindo em busca da sobrevivência.
No exame de seu corpo foi encontrado um ferimento causado por uma flexa de sílex, pequeno, mas o suficiente para minar com o sangramento as energias do homem. Seu rosto demonstrava aparentemente um esforço final para tentar se safar do ferimento, do frio e, possivelmente, de seus perseguidores. Estava vestido com botas e uma espécie de casaco de peles de animais. Portava uma faca de sílex também e outros apetrechos comuns ao caçador do período.
Sua morte foi causada pela somatória do ferimento, com a consequente perda de sangue, com o esforço físico e a baixa temperatura, tudo, certamente, acentuado e acelerado pelo frio.
Quase em todos os contextos arqueológicos ditos “pré-históricos” (detesto esse termo…mas é o que temos) o exame dos enterramentos, das condições de solo preservadas, do pólem misturado a este no passado, geralmente nos revelam terríveis dramas para conseguir se adequar as condições climáticas extremas e garantir a sobrevivência do grupo. Calor, frio, seca, chuvas torrenciais, vento, elementos que podiam gerar desafios sazonais aos grupos humanos ou promover verdadeiros cataclismas em escala global quando prolongados e pouco perceptíveis no dia a dia.
A arqueologia e outras tantas ciências que estudam o passado, humano ou não, ainda tem uma infinidade de perguntas a serem respondidas a respeito das mudanças climáticas ao longo do tempo e da dimensão da influência disso na espécie humana.
O filme A Era do Gelo (e suas sequências) – ou mesmo O dia depois de amanhã – trouxeram novamente o assunto à tona, e aí há um dos pontos pacíficos a respeito do nosso passado e da história do clima: tanto as glaciações quanto os períodos de aquecimento não só interferiram radicalmente no desenvolvimento de nossa espécie como modelaram as áreas que foram ocupadas mais densamente, nossas bases culturais.
Um período especialmente curioso, conhecido como “Jovem Dryas” (de 10800 a 9600 a.C.), estabeleceu aproximadamente mil anos de “seca”, ou seja, de diminuição do principal elemento associado à abundância de alimento: a água. O que as escavações no Oriente Médio vêm revelando é uma verdadeira involução tecnológica, social, econômica, em função da diminuição do alimento provocado pelo Jovem Dryas.
Ou seja: vilas desapareceram, grupos sedentários ou semi-sedentários voltaram ao nomadismo, grupos grandes se fragmentaram, dando origem a bandos que disputavam cada vez mais, e mais violentamente, o pouco alimento que havia disponível. A agricultura estancou seu processo de desenvolvimento tecnológico e as áreas povoadas diminuiram com uma sensível diminuição também dos grupos humanos (é difícil saber se o declínio demográfico da espécie humana foi absoluto ou apenas relativo).
Mais conhecidas do que o Jovem Dryas são as “glaciações”, períodos de diminuição da temperatura global devido a fatores ainda não totalmente compreendidos (a teoria mais forte atribui o resfriamento a mudanças nos movimentos ou na inclinação do planeta, sutis, mas suficientes para causarem tal efeito). Mas as glaciações não eram compostas apenas pela “queda da temperatura”, mas por uma rede de eventos climáticos que se desdobravam, obvimente, em uma cadeia de eventos biológicos, geológicos. Esses movimentos parecem ser cíclicos, ou seja, retornam de tempos em tempos, embora não saibamos exatamente se isso é regular ou não, e sendo regular qual é a regularidade dessas glaciações. Sabemos, contudo, que houveram grandes glaciações e outras menores, inter-cíclicas, as últimas delas em período relativamente próximo a colonização do continente americano pela espécie humana, há aproximadamente 20000.
Com o resfriamento a área de gelo do planeta aumentou, principalmente nos pólos, mas, também, nas grandes altitudes. Com o aumento da camada de gelo - o qual foi tanto horizontal quanto vertical – áreas que eram cobertas de florestas desapareceram. Outras se tornaram estepes, e, de modo geral, isso significou menos caça, menos frutos, menos comida, menos áreas habitáveis.
Essa água congelada, obviamente, provocou uma menor quantidade de água em estado líquido circulando no planeta e, por conta do peso das geleiras, pressão sobre o solo de algumas regiões. Em algumas áreas o nível do mar abaixou e aldeias costeiras ficaram mais longe de sua fonte de alimento. Áreas que eram isoladas – como ilhas e continentes – foram interligadas por “pontes de gelo”, possibilitando a migração de espécies animais, entre elas a humana.
O mundo ficou efetivamente mais violento, com graves embates entre grupos humanos para controlar áreas nas quais os recursos necessários à sobrevivência fossem mais abundantes. Nosso “antepassado”, encontrado congelado nos Alpes, provavelmente não sabia que estava vivendo num dos maiores dramas da história humana, mas seu desconhecimento não o poupou das consequências.
Ao longo de nossa história uma infinidade de tecnologias foi criada para diminuir nossa suscetibilidade ao frio: roupas mais quentes, as quais começaram com peles de animais e chegaram as fibras especiais de hoje, que evitam a perda de calor. Casas, fogueiras, aquecedores, sistemas que possibilitaram o homem chegar a um dos mais inóspitos lugares do planeta, o coração do Pólo Sul, no qual a temperatura circula facilmente na casa dos 60 graus centígrados negativos.
Mesmo em tempos mais recentes o frio – ou a ausência dele – foi um fator relevante nos rumos da humanidade. Alguns pesquisadores da Idade Média (como os franceses Georges Duby e Phillippe Arriès)alegam que uma ligeira alteração para cima da temperatura média possibilitou que as lavouras fossem mais generosas (também causado pela introdução de novas tecnologias, como a rotação e arados mais eficientes), e, consequentemente, as pessoas tivessem menos fome, e assim terem mais filhos e mais saudáveis.
Agora, certamente, estamos vivendo numa nova etapa, que possivelmente vai se acentuar, com o aquecimento planetário. Diferentemente de outros períodos da história dessa vez temos consciência de que está ocorrendo (embora muitos neguem), também, dessa vez, somos responsáveis pelo processo. Igual ao passado há uma coisa: assim como eles não sabemos se conseguiremos vencer o desafio e perpetuar a espécie e nossas culturas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Migrações, Política ambiental, Pré-história
Tags: Arqueologia, Clima, Frio, Glaciação, Jovem Dryas, Meio ambiente
19/08/2009 - 06:40
A arqueologia é um dos campos do conhecimento onde os mitos se aglutinam. Algumas ciências possuem essa característica – como a física, sobretudo a nuclear, a genética -, mas a arqueologia, certamente, é a que mais alimenta e acolhe mitos.
Há vários exemplos, desde os mais delirantes, como a busca por “Atlântida”, as inscrições supostamente fenícias da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro, a cidade perdida de Eldorado na Amazônia, até coisas relativamente mais “simples” como certas interpretações a respeito de Tróia e das pirâmides do Egito.
Sobre Tróia a história de sua busca é quase tão interessante quanto a da própria cidade.
No século XIX um jovem alemão, que lera a Ilíada (a história da guerra de Tróia) e que se fascinara com ela, Heinrich Schliemann, empreendeu praticamente toda sua vida para encontrar a cidade na qual se desenrolara todos os eventos narrados no livro atribuído a Homero, e onde brilharam as figuras de Heitor, Ulisses, Pátroclo, Aquiles, Ajax, Agamenôm, Helena.
Hoje, um século e meio de pesquisas depois, sabemos que a própria autoria do texto da Ilíada – bem como o da Odisséia – dificilmente pode ser atribuída a um único autor, e que quase com toda a certeza suas origens remontam poesias orais, recitadas por poetas populares – tais como nossos repentistas e cantadores -, transmitidas oralmente de geração à geração.
A história da Guerra de Tróia se remete ao passado arcaico do mundo grego e seus conteúdo é uma construção mítica muito particular a respeito de acontecimentos ocorridos na região.
Mas Schliemann e seus contemporâneos não pensavam assim. Pelo contrário, imaginavam – seguindo a corrente comum na época – que a Ilíada era um texto passível de ser seguido, como um guia para um mundo antigo, desaparecido, mas que deixara sob a terra seus últimos vestígios.
O pesquisador investiu em sua busca por Tróia parte significativa de sua fortuna, amealhada a duras penas ao longo de uma vida de privações e alguma sorte (na infância Schliemann fora acentuadamente pobre).
Concluiu, finalmente, que o sítio indicado a ele por camponeses turcos condizia com a descrição de Tróia contida na Ilíada. Arregimentou dezenas de trabalhadores e iniciou uma escavação no local quase sem critérios metodológicos como os entendemos hoje. Esse período, antes da consolidação das modernas técnicas de escavação, faziam com que a arqueologia se parecesse muito mais com uma caça ao tesouro do que com ciência.
Mas o que se buscava era em grande medida um tesouro, e nem tanto o conhecimento a respeito de um passado específico. As escavações conduzidas pelo alemão abriram valas terríveis em sua “Tróia” e objetos tidos como de menor valor (cerâmicas, telhas, tijolos) foram desprezados em benefício das buscas por objetos de ouro ou pedras preciosas, estátuas, armas.
Durante muito tempo a idéia de que se encontrara Tróia permaneceu. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a cidadela escavada pelo alemão foi revisitada por uma equipe estadosunidense de arqueólogos – cujo chefe havia composto a equipe de Schliemann. Com outros objetivos – que não o de caçar tesouros – e municiado de uma metodologia muito mais consistente um novo cenário começou a se delinear.
O próprio Schliemann notara em suas escavações que havia uma sequencia de “estratos” que provavelmente revelavam cidades que foram se sucedendo como camadas de um bolo. Escolheu entre elas aquela que mais se assemelhava a idéia que havia composto em sua mente sobre Tróia e a batizou como a “Tróia Homérica”. Todas as demais foram descartadas.
Contudo, para as novas equipes de arqueólogos, o interesse se alterara e todas as “Tróias” (quantas seriam?) lhes eram importantes. Sete momentos distintos foram identificados, sete Tróias, que acompanharam a história da ocupação humana no Oriente próximo, ao longo das idades do metal (bronze, ferro).
Nessas “Tróias” não se buscava os túmulos de Príamo, de Heitor, nem o Cavalo de Madeira, mas restos de comida, ossos, tijolos, pedaços de potes e tijelas, qualquer coisa que revelasse os cotidiano dessas sociedades.
Talvez para o grande público a história acreditada por Schliemann seja mais cativante, mais sedutora, e ados arqueólogos contemporâneos “excessivamente” técnica. O mesmo ocorreu com as escavações no Egito, sobretudo no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon por Howard Carter. Os mitos excedem em muito a capacidade de difusão da ciência arqueologia, mas, ao mesmo tempo, realimentam o interesse do público, sobretudo das crianças e jovens, pela área. E não vejo isso como algo ruim, são dimensões diversas e cada uma tem seu lugar, seu espaço e sua função.
E sempre é o sonho que move primeiro, depois os interesses “técnicos”. Alguns arqueólogos se sentem desconfortáveis com isso, e criam verdadeiros “cavalos de batalha” (sem qualquer alusão ao cavalo de madeira troiano) na defesa de uma “ciência asséptica”, sem contaminações dos mitos ou dos sonhos. A mim isso só empobrece, diminui o interesse, e nada acrescenta a ciência, nada traz de novo, nem melhor, nem a mais.
Sorte da ciência que consegue atrair para si pessoas movidas pela imaginação e não apenas pela satisfação financeira.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga
Tags: Arqueologia, Heinrich Schliemann, Mito, Troia
17/08/2009 - 07:00

De tempos em tempos aparece alguém dizendo que uma das pragas de nossa formação histórica é justamente o fato de termos sido colonizados pelos portugueses e não por algum outro povo europeu não latino, como ingleses, alemães ou holandeses.
Esse tipo de argumentação tem ficado cada vez mais raro, mas ainda aparece aqui ou acolá. Reflete o que boa parte dos brasileiros aprendeu nas escolas nas últimas décadas, somado ao estado de “perplexidade”, de estagnação, que o país viveu durante anos, sobretudo durante o período da ditadura militar.
O cálculo dos que ensinavam, e de muitos que aprendiam, era o seguinte: os Estados Unidos da América também foram colônias (13 no começo) da Inglaterra, e se tornaram um país sólido, avançado, economicamente forte. Nós também fomos uma colônia, portanto não seria a colonização em si a responsável pelo atraso, mas a matriz, o povo que conduziu a colonização.
Essa argumentação também traz no bojo certo comodismo e dissimulação, pois joga na matriz colonial todas as mazelas pelas quais passamos ao longo de nossa história, inclusive aquelas ocorridas após a independência. Certa feita, num programa do Jô Soares (não me lembro se já era na atual emissora, mas, se não me engano, foi na época do lançamento do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado), o entrevistador perguntou ao escritor português José Saramago se ele não pensava que parte de nossas deficiências eram de responsabilidade da colonização portuguesa. Saramago respondeu: “Bom, você culparam Portugal pela colonização, depois de independentes culparam a Inglaterra pela dominação no século XIX, depois vieram os americanos e os culparam também. Quando é que vocês vão assumir a responsabilidade pelo seu próprio futuro?”
Ao mesmo tempo, na interpretação de nossa história, surgiu a tese de força de que nossas mazelas nem eram decorrência da colonização em si, nem da nação que nos colonizou, mas da “forma” ou “modelo” de colonização. Lembram da história de “colonização de povoamento” X “colonização de exploração” (sinto arrepios só em citar essa história…)?
Essa linha de interpretação tomava os EUA como modelo ideal de colonização de povoamento – por isso teria “dado certo” – ao passo que nós – modelo de “colonização de exploração” – havíamos nos tornado a pátria das desigualdades e do atraso. Um dos grandes responsáveis pela difusão dessa tese foi o historiador Caio Prado Jr. a partir dos anos de 1940.
Mas, e o sul dos EUA? Escravismo, monocultura, latifúndio… E nossas “MInas Gerais”: exploração mineral, trabalhadores livres em boa medida, propriedades menores. O modelo de “povoamento” X “exploração” também não parece muito funcional.
Mas, mais do que “modelos” o que merece ser questionado é o conceito de “dar certo” ou “dar errado”, de “desenvolvimento” e de “justiça social”.
No meio dessa discussão sempre houve quem lembrasse da ocupação holandesa no nordeste como uma “incrível oportunidade perdida” de termos tido uma “história ligada a uma nação desenvolvida”, como se fosse nossa chance de passar para o lado no qual os EUA supostamente estariam.
É claro que as argumentações em geral cortam aquilo que lhes é menos favorável. Mas, vamos lembrar um pouco o retrospecto da invasão holandesa.
Os “Países Baixos”, por questões sucessórias, estavam ligados a Espanha, mas se rebelaram, declarando-se independentes. No último quartel do século XVI a Espanha e os Países Baixos se encontravam em franco conflito.
Portugal era parceiro comercial dos holandeses no refino, transporte e distribuição do açúcar na Europa, bem como no financiamento da lavoura e até mesmo no tráfico de escravos africanos. Contudo, após a morte do herdeiro português Dom Sebastião, o jogo político e econômico europeu mudou.
Também por questões dinásticas o herdeiro do trono português era o rei de Espanha, Filipe II, o qual fez valer seus direitos. Em 1580 estava consolidada a chamada “União Ibérica”, com os dois reinos sob o controle do mesmo monarca (situação que se extenderia até 1640). Não seria tolerável que uma colônia pertencente a Portugal tivesse como parceiro comercial principal inimigo da Espanha. Diante disso se ordenou a interrupção de todo o trato com os Países Baixos, representado nesses negócios pela Companhia das ìndias Ocidentais (a W.I.C.).
Os holandeses decidiram contratacar tomando as regiões produtoras de açúcar: Pernambuco, Bahia, Paraíba. A empreitada toda foi pensada como uma ação ecônomica, da qual, inclusive, se venderam ações na bolsa de Amsterdã.
A invasão – tarefa extremamente custosa – não foi nada fácil e em diversas regiões os holandeses foram expulsos, como da Bahia. Finalmente conseguiram se assentar em Olinda e Recife, controlando a produção da Zona da Mata pernambucana, não sem que os engenhos fossem severamente avariados (o que exigiu mais investimentos para recuperar a capacidade produtiva).
Excetuando os investimentos que foram realizados por ordem do homem forte da W.I.C., João Maurício de Nassau, e a liberação da pratica religiosa (os Países Baixos eram predominantemente compostos de protestantes calvinistas, com grande presença de judeus), pouco se alterou no regime: a escravidão e o tráfico continuaram sendo as bases do trabalho, o açúcar continuou sendo o principal produto, a monocultura extensiva permaneceu como a base da organização espacial e comercial.
Mas houve que visse na ocupação holandesa algo “especial”, como um período áureo da história regional.
Nassau foi diversas vezes acusado de corrupção e enriquecimento ilícito às custas da W.I.C., um dos fatos pelos quais foi retirado do cargo. Quando estourou a Guerra de Restauração, após o fim da União Ibérica e retomada da Independência por Portugal (1640), empreendida em sua maioria por colonos, praticamente sem ajuda do exército português, a resposta holandesa foi violetíssima e as propriedades novamente destruídas (o caos instaurado pelo conflito foi o fermento para o crescimento da confederação de quilombos de Palmares, na Serra da Barriga).
Depois da expulsão do holandeses – após, inclusive, o pagamento de “indenização” por Portugal – a região demorou muito a se reorganizar e retomar sua vida, e os antigos invasores foram desenvolver sua própria cultura do açúcar nas Antilhas, tornando o mercado do produto cada vez mais competitivo e com margens de lucro apertadas.
De qualquer modo os holandeses tiveram a oportunidade de fazer das Antilhas um “Canadá” ou um “EUA”, mas não fizeram. O fato é que cada região teve suas especificidades históricas, sociais, culturais, e como diria Marx “Os homens fazem a história, só não o sabem como”. Os “modelos explicativos” em geral mais empobrecem do que elucidam os problemas.
Mas numa coisa tivemos vantagem inquestionável: Jamais passamos pelo constrangimento de torcer numa copa pelo “Carrossel Holandês”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da América Latina, História do Brasil
Tags: Holanda, Invasão, Nassau, Olinda, Países Baixos, Portugal, Recife, União Ibérica
12/08/2009 - 07:00
Em 2009 lembra-se os 100 anos da morte do escrito brasileiro Euclides da Cunha – a respeito de quem escrevi texto anteriormente aqui. Parte significativa da reputação de Euclides como escritor se deve a monumental obra que escreveu a respeito da guerra de dizimação do arraial de Canudos, no sertão baiano, Os Sertões.
Em Os Sertões a posição do autor não esconde uma certa perplexidade, alimentada pela contradição de seus sentimentos diante da realidade cruel que presenciou. A aridez da terra, a pobreza da região, a rusticidade dos seres humanos nascidos e criados ali, a brutalidade da resposta do governo a miséria e ao desespero da população que canalizara na crença nas palavras do Conselheiro e em alguma assistência comunitária que organizara onde abundava apenas a carência.
Talvez esteja justamente nessa humana perplexidade de Euclides um dos pontos altos de sua obra, considerada uma obra prima universal, mesmo no sectário meio da literatura européia (a qual admite “obras primas” em não mais do que quatro ou cinco idiomas, o francês, o espanhol, o inglês, o italiano e o russo). Mesmo “nossa pátria sendo nossa língua”, ou nossa língua sendo nossa “ilha”, como já disseram outros tantos, o livro de Euclides conseguiu romper as barreiras do idioma.
Canudos, ou “Belo Monte” como lhe chamavam seus moradores, surgiu da somatória de vários elementos naturais, sociais, históricos, culturais, que estavam presentes no sertão desde os séculos iniciais da colonização.
A seca é uma condição natural, um fator permanente e presente há milhares de anos, fator ao qual mesmo os povos indígenas – moradores milenares da região – estavam submetidos e que, de tempos em tempos, os obrigava a deslocamentos em direção ao litoral. As secas foram constantemente fermento para movimentos sociais nos sertões, desde Canudos até o cangaço, mas somente foi fermento porque havia material prima para “ajudar a crescer”: a desigualdade, a violência, a exploração.
Esses elementos são criações humanas e se instauraram nos sertões muito cedo também. Com a perspectiva do fim da escravidão negra, em meados do século XIX, o governo do Império criou a famosa “Lei de Terras” que através de seus inúmeros dispositivos gerava uma pressão econômica enorme sobre os pequenos proprietários rurais, obrigando-os a se desfazerem de suas terras e tornarem-se vendedores de sua mão de obra. Assim compensava-se paulatinamente a força de trabalho impedida de ser reproduzida externamente com o fim do tráfico de escravos africanos. Nesse processo surgiu também o latifúndio como marca da estrutura agrária brasileira.
Diante de uma situação na qual a participação política era profundamente apartada dessa população, na qual as leis do Império raramente chegavam ao interior senão para acentuar a exploração do trabalho, e mesmo os representantes oficiais da igreja católica cooperavam com os coronéis, a pregação milenarista de Antonio Conselheiro rapidamente granjeou adeptos.
Sua defesa de que um mundo novo estava para surgir, que o “tempo” chegara, que as desigualdades eram manifestação do fim dos tempos e, portanto, precedia o combate final entre o bem e o mal, o qual varreria da Terra os pecadores, cabia como uma luva nos anseios de uma população que deixara de acreditar em quase toda instituição: Estado, Justiça, Polícia, Igreja.
Mas a criação de um arraial nas margens do rio Vaza Barris pelos seguidores de Antonio Conselheiro despertou rapidamente a desconfiança dos fazendeiros, e confirmou o desejo daqueles em seguir suas vidas distantes das instituições que viram desde muito cedo serem os braços oficiais da exploração, apenas esperando o dia se serem resgatados pelo criador e carregados ao Paraíso, como paga pela sua existência de sofrimento.
As pregações do Conselheiro, que recorrentemente falavam da instauração de um “Novo Reino”, serviram de argumento para que o governo republicano instaurado há poucos anos denunciasse o arraial como “monarquista” e rebelde. Os fazendeiros, por sua vez, viram nisso a oportunidade de expurgar da região um grupo que podia desencadear uma ação cada vez maior de contestação da propriedade, ou outros pilares daquela sociedade.
Depois de campanhas mal sucedidas empenhadas pelo governo local a República decidiu mostrar força e agir de modo “pedagógico”, demonstrando sua disposição a manter o “republicanismo” e a ordem social vigente. Foi nesse último movimento que Euclides da Cunha testemunhou, ao lado, por ironia do destino, de Cândido Mariano da Silva Rondon, que na época liderava um batalhão do Amazonas deslocado para a Bahia e que fora companheiro de Euclides na Escola Militar da Praia Vermelha, a dizimação de Canudos.
O arraial foi arrasado num ataque final que horrorizou muitos dos presentes, e o sertão baiano, nas margens do Vaza Barris, ficou coberto de restos da luta e dos escombros do assentamento, quase todo ele feito de pau a pique coberto com folhas de “favela”, uma planta da região usada para esse fim (dai, quando parte dos soldados acampou na cidade do Rio de Janeiro para cobrar os soldos não pagos pelo governo, construíram suas casas nos moldes das que fizeram ao redor de Canudos e o nome “favela” se espalhou pela cidade).
A região voltou a ser notícia, já na segunda metade do século XX, quando o governo da ditadura decidiu construir a barragem para instalação da Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os restos de Canudos foram literalmente por água abaixo. Sob milhões de toneladas de água o testemunho material de Canudos foi escondido das vistas. Há quem defenda que a medida do governo foi mais para soterrar o passado do que para gerar energia elétrica.
Teoria da conspiração ou não, o fato é que nenhuma medida para a preservação da memória foi tomada (memória incômoda, aliás, para os militares) e na época nada foi feito para que os restos de Canudos fossem resgatados ou recolhidos para a posteridade.
Mas os legistas têm um ditado, “Os mortos não mentem”, e novamente o destino fez virar a roda, e as secas cíclicas da região – as mesmas que foram parcialmente responsáveis pela fermentação social que desembocou no episódio de Canudos – acabaram por lograr os esforços daqueles que queriam ver o passado afogado.
Nas secas mais severas desde os anos de 1980, de tempos em tempos o povoado reapareceu, como um fantasma que sai das profundezas de um lago, um espectro acusador, tal como em Hamlet de Shakespeare, e possibilitou, inclusive, trabalhos de resgate arqueológico que diminuíram o desastre promovido pelo governo ditatorial.
Infelizmente as ruínas voltam sempre a desaparecer sob as águas – inclusive o trágico cruzeiro crivado de balas que marcava o centro do arraial – impossibilitando que as pesquisas continuem por períodos muito longos. Entretanto, sempre que elas ressurgem das profundezas trazem a mesma constatação do massacre promovido pela força desproporcional da República contra uma população miserável e amparada num sonho milenarista, na esperança de conquistar num outro mundo aquilo que lhes negaram neste.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História contemporânea, História da Literatura, História do Brasil, Memória e história, Patrimônio histórico
Tags: Antonio Conselheiro, Bahia, Canudos, Euclides da Cunha, Milenarismo, Os Sertões, República
07/08/2009 - 06:32
Boa parte da população brasileira, nos últimos tempos, gostaria de registrar um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra o Congresso Nacional e, especificamente, contra o Senado (o qual, junto com a Câmara, forma o Congresso). A quantidade de “artigos” nos quais poderiam ser enquadradas as nossas “excelências” os(as) senadores(as) seria espantosa, mas, principalmente, pesaria a acusação de má fé e estelionato. Ou seja, o ato de enganar outrem e aplicar golpes contra aquele que lhe faz alguma espécie de pagamento. Como somos nós que pagamos os salários deles (bem como é nosso o dinheiro que desperdiçam ou que surrupiam direta ou indiretamente) somos os “lesados” da história, as vítimas e, portanto, portadores do direito de realizar uma queixa policial.
O mais impressionante disso tudo é que até então o Senado havia se resguardado da bandalheira que corria solta na Câmara. Não que fossem mais honestos, ou mais responsáveis, mas, certamente, eram mais discretos e metidos em encrencas mais grossas. Contudo a perseguição a José Sarney desencadeou um efeito dominó que – muito provavelmente irá ser arquivado, como sempre ocorreu – mas que, também, custará, que, sabe até quando, a nesga de credibilidade que ainda restava ao legislativo brasileiro.
No meio dessa barafunda, muitos se perguntam: Qual é a função do Senado se já existe a Câmara? Não é uma sobreposição de funções?
É, pelo que se tornou, mas não deveria ser, pelo que já foi.
A instituição ”Senado” é atiquíssima, embora tenha passado por inúmeras transformações ao longo do tempo. Talvez o Senado mais famoso da história tenha sido o de Roma, sobretudo em seu período Republicano. O Senado era o lugar onde os representantes das famílias de cidadãos, de patrícios, se reuniam e decidiam os rumos da cidade, da República. Sua origem ocorreu em uma sociedade absolutamente dividida entre os “cidadãos” (aqueles que eram livres, com posses, nascidos no local, pertencente a uma das famílias de originais, portanto com direito políticos) e uma massa de excluídos políticos (plebeus, estrangeiros e escravos).
Esse sistema se manteve enquanto a sociedade antiga se sustentou, e enquanto as cidades eram menores e a representação política era absolutamente pessoal e presencial. O crescimento das cidades, dos impérios, provocou mudanças nessa forma de organização, levando a ampliação do conceito de cidadania (e portanto de representação política), como no caso de Roma, que passou a aceitar homens nascidos nas províncias e nas colônias.
Com o fim do Império Romano, no século V, a “instituição” do Senado praticamente desapareceu no ocidente até o período moderno (depois do século XV), quando uma nova classe social começou a ganhar importância e força política, através do seu enriquecimento.
Essa classe social, a burguesia, paulatinamente granjeou força e forçou a concessão de direitos políticos a eles (os quais eram vedados pelo fato de não serem de origem nobre). Por mais ricos que fossem os burgueses, na maior parte da Europa, o acesso ao poder direto estava praticamente vedado pelo sistema monárquico. Contudo, na Inglaterra, a situação começou a mudar.
Lá a figura do monarca era acompanhada do conselho de nobres, mas a Revolução Inglesa, do século XVII, colocou a burguesia definitivamente no tabuleiro do jogo e o conselho de nobres teve de aceitar a existência de um segundo lugar de representação, um conselho de homens “comuns”. Daí surgiu o sistema chamado de “bicameral”, com uma ”Câmara Baixa” (dos “comuns”, dos burgueses) e outra, denominada ”Câmara Alta” (formada pelos Lords), sistema que ainda vigora na Inglaterra.
Nesse sistema o monarca passou a ter seus poderes – até então absolutos – delimitados por uma carta constitucional e pelas “câmaras”. Mas a Câmara Alta, por ser formada por nobres, geralmente estava mais próxima da figura do monarca, e mais aderente a suas perspectivas.
Deste modo a Câmara Alta servia de intermediária nas discussões cotidianas entre os “comuns” e a figura do monarca, era um braço independente, porém ligado pelas origens sociais ao rei ou rainha.
Esse sistema – depois do século das Revoluções Burguesas, o XVIII – se manteve com ou sem monarquias, e passou a ser copiado em várias regiões, principalmente nos países recém independentes das Américas.
No Brasil o sistema foi adotado desde o período monárquico. No Império Brasileiro os senadores eram nomeados pelo Imperador, e tidos como os homens mais próximos e de confiança. Em geral um político somente era nomeado senador depois de uma longa carreira, de grande destaque na política da Corte, e, também, de fortuna considerável. Era o coroamento de uma carreira política, geralmente começada muito cedo na província de origem.
Boa parte dos ministros do Império eram oriundos do Senado (e seus cargos de senador eram vitalícios).
Com o fim da monarquia o sistema teve novamente que se adequar, mas a idéia de duas câmaras, uma mais popular e outra mais restrita, foi preservada e se manteve assim até hoje.
Por isso, em geral, os senadores são políticos de grande destaque em seus estados (posto que agora tais cargos são eletivos). Basta ver a trajetória deles e se verá a quantidade de ex-governadores(as) que agora ocupa assento no Senado.
Mas, diante dos rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas o Senado foi paulatinamente perdendo seu caráter mais “elevado”, de discussões mais profundas, de lugar não de políticos, mas de “estadistas”. O Senado foi se tornando o depósito das raposas velhas, de políticos que acumularam fortunas e controlam grupos enormes, como o caso do falecido ACM, ou mesmo de José Sarney.
Esse esvaziamento das funções do Senado (que justamente por teóricamente ter um perfil mais reflexivo, mais adensado de discussão, tem mandatos de oito anos, sem renovação total da casa a cada pleito) gera a constante dúvida: O que o Senado faz que a Câmara não faz?
Atualmente muito pouco, por conta desse esvaziamento e precarização dos quadros políticos que ocupam suas vagas.
E entre os senados da antiguidade ou da modernidade e o nosso há ainda uma diferença essencial: Neles a função era exercida sem que isso se configurasse como um “emprego”, embora desde a antiga Roma senadores utilizassem suas funções para enriquecerem ainda mais (talvez com mais elegância e menor avidez, mas o faziam, inclusive com desvio de espólios de guerra, ocupação de terras em áreas conquistadas e afins). Não sendo funcionários, não tendo acesso a “administração” imediata da cidade, da República, do Reino, não podiam se valer tanto de seus cargos para situações bizarras como o favorecimento de namorados de netas e nomeações secretas.
De qualquer forma o que vemos é que o sistema de duas casas legislativas foi pensado para ter uma baixa e outra alta, mas hoje, no Brasil, temos duas casas baixas, baixíssimas aliás.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História antiga, História contemporânea, História do Brasil
Tags: Brasil, Império, Inglaterra, Política, Regime, Roma, Senado
03/08/2009 - 07:00
Boa parte do mundo em que vivemos é composta das idéias que temos a respéito do mundo. Não vivemos numa realidade absolutamente “objetiva”, material, palpável, mas de idéias, concepção, imagens, que foram formadas ao longo de décadas, séculos e até milênios. Na história os campos que se ocupam dessa esfera da existência são denominados “história das idéias” e “história do imaginário”, e um dos grandes baratos dessas áreas de conhecimento é descobrir que idéias que pensamos que sempre existiram ou que são “naturais” foram, em verdade, construídas.
É comum que “naturalizemos” um monte de coisas em nossas vidas. Umas prova disso é a recorrência de pessoas que não sabem o nome da rua detrás daquela onde mora. É claro, em geral conhece a rua, sabe chegar lá, sabe o que tem lá, mas é “tão natural” que jamais parou para “pensar” sobre ela.
Dizia um professor meu que nada mais normal de que um peixe ignorar a água.
Acontece que também no que diz respeito às chamadas “identidades” isso ocorre. Identidade é um tema que ganhou força com a formação dos estados nacionais, creceu após as “Revoluções”, quando as tais “identidades” se reorganizaram sobre a idéia de “povo” como base uma nação, e retomaram força diante do processo que tem sido chamado de “globalização”, no qual cada vez mais grupos humanos são postos frente a frente e com rapidez crescente.
A Europa, e grande parte de seus países, senão todos, passaram – e continuam – a refletir sobre sua “identidade” diante da possibilidade – ou medo – de sumirem sob o título de “europeus”. Uma das respostas a esse temor foi o recrudescimento de grupos extremistas, fundamentados na idéia de uma “pureza cultural” muito mais do que étnica. O que é ser holandês? Alemão? Francês? Croata? Russo?
Entre os europeus a idéia de “grupo” fechado, ou restrito, é muito mais comum e muito mais antiga do que a idéia de “flexibilidade” e de “plasticidade” que viscejou na maioria dos países americanos, impossibilitados por razões óbvias de sustentarem qualquer idéia de “povo” assentada em aspectos “étnicos” (e tanto a antropologia quanto a arqueologia vêm demonstrando que mesmo o conceito de “etnicidade” é menos sustentável do que parecia, em suma, rumamos em direção a conclusão científica de que não existe praticamente nenhum grupo “etnico” tal como se imaginava até então).
Entre nós, americanos, a idéia de miscigenação é um dos componentes essenciais da construção das “identidades”, excetuando-se casos específicos como certos bolsões do sul dos EUA, partes do Canadá, alguns grupos indígenas. Claro que em determinados momentos da história desses países, sobretudo em seus períodos escravistas, a definição de “identidade” esbarrava constantemente na de “cidadão” e, por consequência, na de “direitos políticos”, o que manteve inúmeras restrições a admissão da idéia de um caráter mestiço para esses povos.
De qualquer forma a “idéia de mestiçagem” como componente da formação dos povos americanos é também uma construção histórica, é um item do “imaginário”. Como imaginário possui aspectos que lhe dão base na realidade, que lastreiam, mas há – obviamente – divergências, paradoxos, incompatibilidades que são sublimadas sob a idéia mais ampla.
Samba, cerveja, carnaval, país tropical, malandragem, futebol, são itens que compõem a “identidade nacional” brasileira, que gostemos de todos eles ou não, é assim que muitos nos vêem ainda e é assim que nos mostramos para os outros durante muito tempo.
Quase todos estes elementos são criações do imaginário brasileiro no século XX. Aqueles associados as populações afro-descendentes principalmente, e pelo claro preconceito que era ainda maior do que é. O samba perseguido nos suburbios do Rio de Janeiro, ou sem expressividade absoluta em outras regiões, como na Bahia. A capoeira? Proibida, coisa de bandido, de malandro, assim como a navalha.
A cerveja? Nem bebida popular era. Só com a incorporação dos hábitos trazidos com os alemães no século XIX ela paulatinamente começou a ganhar espaço, mas teve de se adaptar ao paladar de gente que vive numa terra muito mais quente. Futebol, esporte de ingleses, comum entre os marinheiros que encostavam em nossos portos. O fato é que se um brasileiro retornasse ao Rio de Janeiro de 1910, carregando o máximo de elementos que são tidos como formadores de nossa identidade nacional, provavelmente não seria sequer reconhecido como “brasileiro”, e correndo sério risco de ser detido pela autoridade policial.
O carnaval ainda era muito mais regrado – embora os visitantes europeus desde o século XIX vissem nosso festejo como “bárbaro” ou “menos civilizado do que entre eles - e nada de samba e mulatas.
Ainda restava no começo do século um certo desconforto com o clima e as elites suspiravam pelos ares “temperados” da Europa. Ainda havia muitos intelectuais que culpavam o clima pelos nossos hábitos “desregrados”, pela “lascívia”, pelo “atraso”, pela falta de “empenho”, “preguiça”, enfim, por parte daquilo que viam como características negativas da “brasilidade”.
A virada, ou reinterpretação, desses elementos ocorreu paulatinamente a partir dos anos de 1930, com o governo de Getúlio Vargas, num processo ainda pouco estudado. A literatura que surgia – acadêmica ou ficcional – passava a valorizar aspectos que hoje temos como “comuns”, entre eles a miscigenação. As artes, a música, a arquitetura, inúmeros campos de atuação sofreram uma remodelagem para forjar um novo imaginário brasileiro, que se apropriou de diversos ítens históricos, mas que primou pela idéia de “plasticidade”, da capacidade de continuamente absorver e interpretar novos elementos, provenientes das mais diversas origens culturais.
Foi essa gigantesca operação “imaginária” que possibilitou que Carmem Miranda e Pelé se tornassem personagens que “carregam” a “identidade nacional”. Mas que, observados a miúde, possuem diversos “senões”.
De qualquer modo samba, suor e cerveja são elementos construídos de nosso imaginário nacional, não são “naturais”, nem existiram sempre tal como os vemos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil, Memória e história
Tags: Cerveja, Futebol, Idéias, Identidade Nacional, Imaginário, Samba
Voltar ao topo