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23/06/2009 - 10:27

A Revolução Iraniana está ruíndo?

Ontem conversava com um amigo, a respeito de outro assunto, e para ilustrar o que dizia ele me perguntou: Sobre os eventos recentes no Irã, você acha que os eventos recentes estão ligados a um problema central?

 

Esse meu amigo, é bom que eu explique, embora não seja historiador, nem arqueólogo, tem por hábito desconfiar do que é muito óbvio, resultado de anos e anos de trabalho no universo corporativo em bancos. Então, isto é uma resposta parcial, pois na hora nem havia me posto este tipo de questão, nem havia tempo para falarmos sobre isso. Como sempre puxo a brasa para minha sardinha, e penso em termos “históricos” a questão.

Assim como outras países contemporâneos o Irã é uma realidade criada há não muito tempo. Muitas vezes fazem relações entre o Irã atual e os Império Persa de séculos antes de nossa era (o mesmo império das “guerras medicas”, dos imperadores Ciro e Xerxes, aquele que está “representado” no filme “300″). Tal relação é tão improvável quanto quanto dizer que o Peru atual é o herdeiro do Império Inca ou que os mexicanos são dos aztecas ou maias. O Irã como “estado nacional” é um fato contemporâneo.

Mas, independentemente do Irã ser antigo ou contemporâneo, ele traz, obviamente, uma série de fatores culturais, políticos, econômicos, sociais que foram sendo amealhados ao longo da história. A implantação do islamismo naquela região certamente é dos mais relevantes entre estes elementos.

Ao contrário do que a imprensa ocidental regularmente costuma divulgar não há qualquer associação automática entre a corrente xiita do islamismo e o extremismo religioso, ou a violência, ou ao radicalismo. O islamismo, ao longo dos séculos, também passou por cisões as quais deram origem às suas correntes, dentre as quais as mais influentes são a do sunismo e a do xiismo. Entre outras divergências as correntes discordam na interpretação das leis corânicas e na quantidade de itens considerados autênticos e dignos de observância. Guardadas as devidas proporções é como as diferenças entre católicos romanos e católicos ortodoxos.

Em geral, o xiismo costuma a ser até mais brando em alguns aspectos do que o sunismo, mas isso também depende de outros fatores associados. No caso do Iraque, por exemplo, a maioria é sunita e os xiitas já sofreram muito nas mãos deles.

O fato do Irã adotar leis de origem islâmica não o faz “automáticamente” menos democrático do que outras regiões do mundo, afinal cada povo tem a liberdade para fazer suas leis, em números tanto absolutos quanto proporcionais os Estados Unidos condenam a pena de morte muito mais do que o Irã, o que deveria gerar reprimendas mais claras da comunidade européia (a grande opositora de tais execuções).

Antes da tomada do poder em 1979, durante a chamada Revolução islâmica (a qual implantou o governo religioso no país), o Irã era governado por um monarca fantoche dos ocidentais, o Xá Reza Pahlevi. Nesta mesma época, enquanto o restante do país vivia sob um regime de carestia permanente e de despotismo vasto as embaixadas estrangeiras estavam implantadas em verdadeiros castelos no centro da capital, com muros enormes que impediam a vista interna. As contínuas movimentações dos embaixadores ocidentais no entorno do Xá somente reforçavam as desconfianças da população e incitavam o ódio contra determinadas nacionalidades. Ou seja, a bronca contra as interferências estrangeiras no Irã não é oriunda de uma determinação religiosa, embora, pelo modo como a sociedade iraniana se organize a religião seja um forte aglutinador de pessoas e de debate.

Na Inglaterra durante o começo da Revolução Industrial houve algo semelhante: sem que a “classe trabalhadora” e o “movimento operário” existissem ainda, as sociedades bíblicas se tornaram espaços de sociabilidade e de formação política, que confluiu para a formação de uma “luta operária”.

O xiismo, organizado no entorno das figuras dos aiatolás, se tornou um aglutinador das tensões políticas iranianas. Com  a derrubada de Reza Pahlevi sobe ao poder o aiatolá Khomeini, que vivia no exílio na França.

Apesar das leis corânicas e da forte pressão dos aiatolás a população iraniana não vive na “obscuridade” tal como também se divulga ou se dá entender as vezes. O índice de escolaridade das mulheres é altíssimo e maior do que o dos homens, não há imposições do uso de burkas, como entre os talebãs, e é comum ver mulheres saíndo sozinhas, diferentemente da Arábia Saudita, parceira do ocidente, mas um país muito mais conservador.

Oposição sempre houve e sempre haverá em qualquer regime, em qualquer parte do mundo, com violência estatal ou não. Não existe de fato o que chama de estados “totalitários”. Imaginar também que somente agora houve irregularidades numa eleição também é um pouco de ingenuidade.

Então onde é que está o problema?

As questões que levaram Ahmadinejad a esbravejar contra Israel e contra o ocidente, tanto quanto as que motivam Chaves ou o “cidadão” da Coréia do Norte são semelhantes: a necessidade de se afirmar internamente. Todos estes países sabem que suas forças de ação ou reação contra a comunidade internacional (leia-se EUA, Otan, China, Rússia) são limitadíssimas e que um conflito militar seria da mesma ordem que foram os do Vietnã e do Iraque: podem evitar o sucesso dos invasores, mas ao custo de um país arrasado.

Então a subida de tom nos discursos, as ameças, são em grande parte uma encenação para seu próprio público, o qual precisa ver seu governante como um “herói” um “paladino” contra as forças opressoras do ocidente. As armas que Chaves andou comprando para a Venezuela não são capazes de barrar sequer 15 minutos de investida dos EUA, mas são mais do que o suficiente para sufocar seu inimigos internos e/ou apoiar vizinhos amigos que passem por problemas semelhantes (como ameaçou fazer no caso boliviano). A questão está muito ligada ao desejo de se manter no poder.

Com o mundo em crise econômica, os EUA querendo encontrar uma saída para seus inúmeros problemas e ainda colhendo outros que – plantados na gestão anterior – continuam brotando, muitos desses governos – Irã, Coréia – aumentam o teatro (o que não deixa de ser perigoso, é claro).

Por outro lado, as oposições internas buscam reagir de algum modo, até porque sem uma oposição externa forte a esses regimes a tendência é o aumento do rolo compressor interno. Em uma páis onde a escolaridade não é desprezível, onde há uma conjunto de universitários também significativo e com a ampla difusão de novas tecnologias de informação, a tendência era de que grupos mais afinados com os padrões ocidentais de consumo, sociabilidades, etc, começassem a pressionar mais fortemente por uma flexibilização do regime e uma aproximação do ocidente, o que é praticamente inviável diante das necessidades de “inimigos externos” que Ahmadinejad tem.

Então, penso que muito pouco essa movimentação no Irã tem a ver com o islamismo (afinal a população continua e continuará majoritariamnete xiita), também tem muito pouco a ver com “novas ilegalidades”, mas com uma disputa interna de poder no escalão abaixo dos aiatolás e a decisão de se aproximar ou não dos padrões ocidentais. Não é uma briga que reflete tensões com os EUA ou com Israel, a não ser como representação. E não penso que seja um indício de “crise da revolução iraniana”, mas uma briga entre grupos que a sustentaram esses anos todos e que, depois dos ajustes e da resolução da briga, continuarão a sustentá-la naquilo que ela lhes proporcionou de positivo.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea Tags: , , ,

2 comentários para “A Revolução Iraniana está ruíndo?”

  1. hélio pinheiro de oliveira disse:

    Respeito por demais a história e a religião do Irã: são belíssimas. Porém, a política que este país faz, assim como a de muitos outros que se opôem aos EUA e aliados, me causa espanto, pelas contradições de propósitos. Lógico, que os EUA têm interesses bélicos em todas as regiões importantes do globo e cria inimigos perigosos com muita facilidade; não nego isso. Porém, vários países querem levar vantagem nas crises com os EUA: Basta achar todas as chagas e mazelas do capitalismo selvagem e ampliá-las para os povos radicais e oprimidos do planeta. Assim, todos estes povos, logicamente, terão um ódio mortal dos EUA e de qualquer país que proceda dessa forma. Santos no Poder político mundial não existem; logo, a ganância pela glória, pelo poderio bélico e territorial se faz sentir, tanto pela parte americana, quanto pela parte de seus adversários. A indústria bélica agradece por essa infinita sucessão de conflitos entre os povos do Ocidente e os do Oriente: haja mortes! Não demora muitos anos, e finalmente estaremos nos confrontando com a temida 3a. Grande Guerra Mundial, que deve usar o que há de mais sofisticado em tecnologia de guerras e massacrar milhões de soldados e cidadãos civis inocentes etc… Por que isso ocorre, a gente até sabe; mas, dá pena ver tanto desperdício de vidas humanas inteligentes, de recursos materiais e de áreas nobres do nosso planeta sendo destruídas totalmente. Lamentável é o rumo que o mundo civilizado tem tomado nesses últimos 100 anos, visto que só as guerras conseguem mudar satisfatoriamente a ordem das coisas e não a Diplomacia e o livre debate e a negociação aberta. Perdem com isso os pacifistas, os intelectuais, os cidadãos honestos e os ordeiros, os bons trabalhadores e os inocentes, em geral. Enfim, o mundo torna-se mais e mais materialista, violento, perigoso e desumano. Deus nos acuda!!!

  2. marcosomag disse:

    A questão no Irã é muito mais de classe social do que sim ou não à Revolução Islâmica. Ahmadinejad, embora não seja nenhum socialista, praticou políticas de distribuição de renda. Moussavi é representante dos ricos. Ao que parece, o atual Presidente venceu mesmo as eleições, e Moussavi está aumentando o tom de suas reclamações pelos movimentação dos EUA em relação ao pleito. Ao que tudo indica, a NSA tem um backdoor nos softwares que mandam SMS e está usando esta porta para provocar a desinformação no Irã. Os recentes ataques de Israel a Gaza tiveram um detalhe inédito nas guerras anteriores: a estrutura de telecomunicações em Gaza foi poupada. Palestinos receberam em massas mensagens SMS incentivando a delação de militantes. Pouco antes, sírios receberam mensagens SMS massivas com críticas ao governo local. Recentemente, a CIA participou de uma feira de telecomunicações na Europa e ofereceu incentivos de bilhões de dólares para que fosse criado um serviço de voz sobre IP que acabasse com a liderança do Skype. Os criadores do Skype repeliram pressões da NSA para que revelasse o seu código de encriptação de mensagens, até agora indecifrável pelo governo dos EUA. Inimigos dos EUA, com a guerrilha taleban no Afeganistão, usam o Skype para a sua comunicação e escapam das táticas de guerra eletrônica do MI6 e CIA. A “revolução” que estaria acontecendo no Irã tem todas as características das “revoluções coloridas” tramadas pela CIA anteriormente na Ucrânia e Geórgia. A diferença da atual conspiração no Irã para as que ocorrem antes no Leste Europeu é o uso da tática de desinformação, criação de “efeito manada” e caos via telefones celulares e programas de empresas americanas que criam conteúdo para eles.

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