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20/06/2009 - 07:00

“Tesouros-Bibliotecas”

Muito se falou nos últimos anos, com a difusão das tecnologias digitais, do fim do “livro impresso”. As infinitas possibilidades que o universo digital proporciona funcionaram como um lampejo, um estalo, que para alguns foi a epifania, o sinal da revolução do texto. Mas os livros estão aí, e já passaram por inúmeras “revoluções” e várias vezes se decretou seu fim, sem que isso jamais tivesse ocorrido.

 

Uma prova cabal, e fantástica, disso são as “Bibliotecas-Tesouro”. Coleções de valor inestimável que reunem textos escritos em épocas diversas, em suportes diversos, além de manuscritos, pergaminhos e outros tipos de materiais. Através dos acervos dessas bibliotecas é possível se acompanhar a história da escrita até bem próximo de seu surgimento. Se somarmos, então, as coleções de alguns museus pelo mundo (que guardam, por exemplo, as famosas tabuletas de argila com escrita cuneiforme, pois era feita com varetas em “cunha”) então teremos algo bem próximo do todo.

No Brasil temos algumas dessas bibliotecas, as quais possuem obras mais antigas do que nosso próprio país. Dentre elas destaco duas, das quais gosto particularmente: a Biblioteca Nacional e a Brasiliana da USP (sobre a qual comentei na postagem anterior).

Nossa Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, tem uma história digna de livro de suspense. Em meados do século XVIII a cidade de Lisboa sofreu um terrível terremoto que a devastou. Entre milhares de mortos e de prédios destruidos encontrava-se também a biblioteca dos reis de Portugal. Parte significativa de seu acervo foi perdida no trágico acidente. Na reconstrução da cidade e de seus prédios, que foi feita dentro de um grande plano de reforma, a monarquia decidiu reerguer a biblioteca e dotá-la de um acervo tão impressionante quanto o que fora perdido, como símbolo da sobrevivência e da superação portuguesa.

Em 1808, quando a família real portuguesa deixou Portugal e transferiu a sede da monarquia para o Rio de Janeiro a biblioteca veio junto, ou melhor, parte dela. A outra parte foi esquecida no meio da correria em caixotes no porto. Esse restante somente viria anos depois para se reintegrar ao conjunto.

Remontada ela ganhou nova casa no Rio de Janeiro e quando Dom João VI retornou a Portugal ela acabou ficando com o Príncipe Regente Dom Pedro. Mas, daí vai que este declarou a independência do Brasil e a biblioteca foi ficando, ficando, depois a perda foi indenizada a Portugal e ela se tornou o gérmen de nossa Biblioteca Nacional, da qual vai o “sítio” de internet: http://www.bn.br/portal/

Nela há tesouros fantásticos e certamente é uma das bibliotecas mais importantes do mundo.

A Brasiliana da USP se formou a partir da criação do Instituto de Estudos Brasileiros (o IEB) por Sérgio Buarque de Holanda e a qual foi anexando acervos particulares como os de Mário de Andrade, Guimarães Rosa entre outros. Incorporou-se também a Coleção Lamego, formada por textos medievais. Recentemente o IEB recebeu a guarda da Biblioteca Guita e José Mindlin (de 40.000 volumes raros) a qual se uniu parcialmente a já existente na instituição, das duas surge a Brasiliana, outra digna do título de “patrimônio cultural”, os recursos digitais (que somam esforços, não acabam com os livros) possibilitam a consulta em qualquer parte do mundo: www.brasiliana.usp.br

Pelo mundo a fora existem outras ainda mais incríveis, como a famosa Biblioteca do Vaticano. Além de suas coleções raríssimas que incluem não só textos cristãos, mas de muitos outros credos e povos, a aura de mistério garante sua fama. A existência de arquivos secretos desperta há muito a curiosidade e as especulações de curiosos e pesquisadores. Em verdade boa parte desses “arquivos secretos” é composta por textos que se chocavam com a doutrina católica e que foram mantidos distantes do público durante os períodos de controle da igreja sobre o trânsito de informações através da leitura. Muitos deles já não são mais “secretos”, mas há os que ainda são, e poucos sabem efetivamente tudo o que há lá dentro. A biblioteca, como se pode imaginar, foi formada por séculos e séculos de aquisições, o que lhe garante o título de biblioteca mais importante do mundo ocidental. Para quem quiser dar uma olhadinha (inclusive nos “secretos”) ai está o endereço:  http://www.vaticanlibrary.va/

Na França há a Biblioteca Nacional, também oriunda de acervos do período real –  http://www.bnf.fr/ -. Suas origens remontam o século XIV, no reinado de Carlos V, o Sábio, o qual mandou instalar o início da coleção no Louvre. Sua coleção contava com 917 manuscrutos, que, infelizmente se dispersaram. A biblioteca foi recuperada a partir de 1461 e é dessa que nasce a atual.

Um dos desafios das “bibliotecas nacionais”, como a da França e a do Brasil, é o crescimento de seu acervo, pois recebem um exemplar de cada livro publicado em seus respectivos paises. Ou seja, um crescimento exponencial.

O mesmo ocorre com outras duas bibliotecas fantásticas: a Britânica e a Alemã.

A britânica - http://www.bl.uk/ - e a Alemã – http://www.d-nb.de/eng/index.htm - também possuem acervos incríveis, dedicados em grande parte aos textos de suas respectivas línguas.

Uma biblioteca que merece menção, embora não seja uma biblioteca de “raros”, é a Alexandrina, tentativa contemporânea de restaurar a antiga Biblioteca de Alexandria, mítica e incendiada durante a invasão árabe em meados do primeiro milênio da Era Cristã. Seu endereço é -  http://www.bibalex.org/English/index.aspx - especial atenção para sua arquitetura arrojada e para a audaciosa missão de reunir o conhecimento universal.

Por fim, a não menos famosa Biblioteca do Congresso dos EUA:  http://www.loc.gov/index.html

Criada em 1800 pelo presidente John Adams a Biblioteca do Congresso cresceu graças aquisição de coleções de diversas partes, entre elas as de alguns brasileiros. Com sua austeridade com cara de estadosunidense do período da Independência, seu acervo é impecável, e rígido no uso.

Em qualquer um dos casos, e poderíamos incluir ainda as bibliotecas budistas, as dos islâmicos, ou a do Japão, a conclusão é a mesma: os livros ainda são o símbolo maior de uma “cultura literária”, estabelecido há mais de 2000 anos, são também o suporte de texto mais estável que conhecemos além das pedras, por isso duram e graças a sua raridade e beleza tornaram-se verdadeiros tesouros que povoam nosso imaginário. E certamente não será a cultura digital que diminuirá nosso interesse por eles.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História da Literatura, História da cultura, Patrimônio histórico Tags: , , , , , , , , ,

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