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11/03/2009 - 09:09

Um tour pelos sítios arqueológicos da América do Sul

Conhecer sítios arqueológicos, ou complexos arqueológicos pela América do Sul é tarefa bem mais complexa do que parece. É claro que o básico é relativamente simples: basta pegar um vôo até Lima, no Perú, um ônibus ou trem até Cuzco, outro até Machu Picchu e, bingo, estará num dos sítios arqueológicos mais badalados das Américas e mesmo do mundo. Mas terá perdido vários outros pontos de interesse, alguns, na minha opinião, mais interessantes ainda.

 

Um dos problemas é que entre um local ser reconhecido como sítio arqueológico e se tornar uma área de visitação vai um longo caminho, o qual não depende somente do interesse científico que uma área tem. Entra aí algo que chamamos de “musealização”, ou seja, a transformação de um objeto de estudo das ciências em uma atração turística.

É claro que existem lugares mais ou menos turísticos, mais ou menos acessíveis e níveis de interesse. Uma coisa é você querer chegar a Machu Picchu de ônibus muito confortável, outra é querer fazer a trilha inca e passar até sete dias subindo montanha e passando em pinguelas sobre desfiladeiros. E o mesmo pode ser dito para Nazca ou na Patagônia, que são regiões deserticas nas quais alguns se aventuram em jornadas de trekking.

Também há a questão de que, comparando com a Europa, o Egito e a América Central, a América do Sul ainda tem poucos sítios arqueológicos visitáveis. A esmagadora maioria se encontra no Perú e na Bolívia, depois há áreas interessantes na Colômbia, Equador, Chile, Argentina. No Brasil são raras as áreas de visitação, como a Serra da Capivara ou no Museu Arqueológico de Xingó.

Parte dessa “ausência” de áreas de visitação no Brasil se deve a pouca ou nenhuma divulgação, mas também a precária estrutura de turismo. Se não funciona como devia nem para o cidadão ir para uma praia de veraneio imagine para ir a um sítio arqueológico no meio do sertão?

Mas, acompanhando a falta de estrutura, penso que também o preconceito seja parcialmente responsável. Quando se fala de arqueologia as pessoas logo imaginam grandes templos, tumbas, pirâmides, castelos, no máximo grandes complexos de pintura rupestre. No Brasil nossa arqueologia é diversa e não conseguimos ainda atrair igual atenção para sambaquis, cavernas com pinturas rupestres, petroglifos, etc. A tentativa mais bem sucedida ainda é a da Profa. Niede Guidon no Parque da Serra da Capivara.

Contudo, se quiser fazer um tour pela arqueologia da América do Sul eu recomendaria com uma visita inicial justamente pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, para se ter uma idéia do alvorecer da espécie humana nas Américas. O parque é fantástico e não é acidental que seja um Patrimônio da Humanidade. Se tivesse um pouco de tempo esticaria até o Museu Arqueológico de Xingó, em Alagoas, na beira do São Francisco.

De lá partiria para a Patagônia e Terra do Fogo onde existem conjuntos de pinturas rupestres interessantíssimos e dignos de visita, além da paisagem que é lindíssima. Com isso iria para Sipán, no Perú, região mais ao norte, de uma cultura menos conhecida do que a incaica, mas tão fascinante quanto. Há alguns anos a descoberta de uma tumba de um soberado dessa cultura – o Senhor de Sipán, como foi apelidado – significou uma das descobertas arqueológicas mais importantes das últimas décadas. O museu construído para receber os pertences achados é igualmente incrível.

De lá iria para Nazca, onde ficam os famosos desenhos gigantescos, os quais (infelizmente?) não eram pistas de pouso para discos voadores, mas sinais de orientação para caravanas comerciais que atravessavam a região.

Ainda no Perú é importante conhecer Ollantaytambo, antiga fortaleza no caminho para Machu Picchu, bem como Pisac Viejo e o complexo todo que fica em Cuzco, a antiga capital Inca, como Sacsayuaman, nas proximidades da cidade. Por fim, para não dizer que foi a Roma e não viu o Papa, iria a Machu Picchu, linda, mas cheia de um comércio horrível e ofensivamente caro controlado pelos ingleses. 

Pelo Perú, ainda, é possível ir até a fronteira com a Bolívia na região do Titicaca e, já do lado boliviano, pela cidade de Copacabana ir às ilhas do lago. A Ilha do Sol e a Ilha da Lua são lugares importantes para a cultura incaica – ou proto-incaica – e possuem sítios arqueológicos interessantes e de fácil acesso, além de estarem implantados num cenário de tirar o fôlego.

De lá é possível ir a La Paz onde, nos arredores, fica Tiwanaku, uma cidadela que foi o coração do império do Tawantinsuyo (o nome do Império inca) durante muito tempo. Ao lado de Tiwanaku há Puka Pukara, a distância de uma caminhada de dez minutos, que também é interessantíssimo.

Quase todos estes locais, durante alguns meses no ano, recebem novas equipes de arqueólogos que continuam seus trabalhos de pesquisa. São sítios gigantescos e que exigem décadas e mais décadas de trabalho para que se faça o trabalho da forma mais criteriosa possível. Então, não é incomum chegar a um desses sítios e encontrar barracas montadas e um monte de gente com parafernalhas entrando e saíndo de buracos.

Existem outros tantos lugares fantásticos, mas boa parte deles em áreas de acesso restrito, como reservas naturais, terras indígenas ou altas montanhas.

Por fim, incluiria ainda Sete Povos das Missões no Rio Grande do Sul, e já de volta ao Brasil, local que marca justamente essa interface entre a cultura indígena americana e a chegada do colonizador europeu, com desdobramentos absolutamente trágicos. É um sítio de arqueologia histórica, mas igualmente interessante e belo.

Com isso não terá visto nem a ponta do iceberg da arqueologia na América do Sul, mas, com certeza, terá visto a parte mais significativa daquilo que está disponível ao público e com estrutura para receber o visitante.  

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura Tags: , , , , , , , , ,

6 comentários para “Um tour pelos sítios arqueológicos da América do Sul”

  1. Flavia M disse:

    Excelente!!!! Muito Obrigada pelo artigo!! É um roteiro perfeito para leigos.
    Concordo 100% com sua afirmação sobre o preconceito e sobre as pessoas esperarem pirâmides e outros monumentos gigantes. Acho que é até por isso que não existe investimento turístico em sites cujo patrimônio é diferente destes, o que é um desperdício.

  2. JUUUUÚ *-* disse:

    APESAR DE TUDO, EU GOSTEI MUITO DISSE QUE VOCE POIS AQUI, fiz meu trabalho escola, ganhei 10,00 e estou muito feliz por voce ter coloccado na internet isso sobre sitios arqueologico…

    bjets

  3. Inês disse:

    Oi ! Estou na 5ª série. Estou fazendo um trabalho sobre sítios arqueológicos das américas – clóvis, meadowcroft, monte verde I, calico, pedra furada, itaboral, toca da esperança, lapa vermelha, lapa do boquete, santana do riacho, pedra pintada e santa eliana – tenho pouca informação e não encontro imagens para ilustrar o trabalho, será que vc pode me dar uma dica ? Obrigada, Inês

  4. elionara disse:

    eu queria saber um pouco sobre o stio arquiologico da pedra furada

  5. elias patrik de souza disse:

    estou no primeiro ano do esnsino medio a professora me mandou fazer um trabalho sobre sitios arqueologicos

  6. vanderlei disse:

    Publicidade iG Educação Indiana Silva, por Rodrigo Silva
    Indiana Silva, por Rodrigo Silva
    Arqueologia, história do Brasil e curiosidades11/03/2009 – 09:09

    Um tour pelos sítios arqueológicos da América do Sul
    Conhecer sítios arqueológicos, ou complexos arqueológicos pela América do Sul é tarefa bem mais complexa do que parece. É claro que o básico é relativamente simples: basta pegar um vôo até Lima, no Perú, um ônibus ou trem até Cuzco, outro até Machu Picchu e, bingo, estará num dos sítios arqueológicos mais badalados das Américas e mesmo do mundo. Mas terá perdido vários outros pontos de interesse, alguns, na minha opinião, mais interessantes ainda.

    Um dos problemas é que entre um local ser reconhecido como sítio arqueológico e se tornar uma área de visitação vai um longo caminho, o qual não depende somente do interesse científico que uma área tem. Entra aí algo que chamamos de “musealização”, ou seja, a transformação de um objeto de estudo das ciências em uma atração turística.

    É claro que existem lugares mais ou menos turísticos, mais ou menos acessíveis e níveis de interesse. Uma coisa é você querer chegar a Machu Picchu de ônibus muito confortável, outra é querer fazer a trilha inca e passar até sete dias subindo montanha e passando em pinguelas sobre desfiladeiros. E o mesmo pode ser dito para Nazca ou na Patagônia, que são regiões deserticas nas quais alguns se aventuram em jornadas de trekking.

    Também há a questão de que, comparando com a Europa, o Egito e a América Central, a América do Sul ainda tem poucos sítios arqueológicos visitáveis. A esmagadora maioria se encontra no Perú e na Bolívia, depois há áreas interessantes na Colômbia, Equador, Chile, Argentina. No Brasil são raras as áreas de visitação, como a Serra da Capivara ou no Museu Arqueológico de Xingó.

    Parte dessa “ausência” de áreas de visitação no Brasil se deve a pouca ou nenhuma divulgação, mas também a precária estrutura de turismo. Se não funciona como devia nem para o cidadão ir para uma praia de veraneio imagine para ir a um sítio arqueológico no meio do sertão?

    Mas, acompanhando a falta de estrutura, penso que também o preconceito seja parcialmente responsável. Quando se fala de arqueologia as pessoas logo imaginam grandes templos, tumbas, pirâmides, castelos, no máximo grandes complexos de pintura rupestre. No Brasil nossa arqueologia é diversa e não conseguimos ainda atrair igual atenção para sambaquis, cavernas com pinturas rupestres, petroglifos, etc. A tentativa mais bem sucedida ainda é a da Profa. Niede Guidon no Parque da Serra da Capivara.

    Contudo, se quiser fazer um tour pela arqueologia da América do Sul eu recomendaria com uma visita inicial justamente pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, para se ter uma idéia do alvorecer da espécie humana nas Américas. O parque é fantástico e não é acidental que seja um Patrimônio da Humanidade. Se tivesse um pouco de tempo esticaria até o Museu Arqueológico de Xingó, em Alagoas, na beira do São Francisco.

    De lá partiria para a Patagônia e Terra do Fogo onde existem conjuntos de pinturas rupestres interessantíssimos e dignos de visita, além da paisagem que é lindíssima. Com isso iria para Sipán, no Perú, região mais ao norte, de uma cultura menos conhecida do que a incaica, mas tão fascinante quanto. Há alguns anos a descoberta de uma tumba de um soberado dessa cultura – o Senhor de Sipán, como foi apelidado – significou uma das descobertas arqueológicas mais importantes das últimas décadas. O museu construído para receber os pertences achados é igualmente incrível.

    De lá iria para Nazca, onde ficam os famosos desenhos gigantescos, os quais (infelizmente?) não eram pistas de pouso para discos voadores, mas sinais de orientação para caravanas comerciais que atravessavam a região.

    Ainda no Perú é importante conhecer Ollantaytambo, antiga fortaleza no caminho para Machu Picchu, bem como Pisac Viejo e o complexo todo que fica em Cuzco, a antiga capital Inca, como Sacsayuaman, nas proximidades da cidade. Por fim, para não dizer que foi a Roma e não viu o Papa, iria a Machu Picchu, linda, mas cheia de um comércio horrível e ofensivamente caro controlado pelos ingleses.

    Pelo Perú, ainda, é possível ir até a fronteira com a Bolívia na região do Titicaca e, já do lado boliviano, pela cidade de Copacabana ir às ilhas do lago. A Ilha do Sol e a Ilha da Lua são lugares importantes para a cultura incaica – ou proto-incaica – e possuem sítios arqueológicos interessantes e de fácil acesso, além de estarem implantados num cenário de tirar o fôlego.

    De lá é possível ir a La Paz onde, nos arredores, fica Tiwanaku, uma cidadela que foi o coração do império do Tawantinsuyo (o nome do Império inca) durante muito tempo. Ao lado de Tiwanaku há Puka Pukara, a distância de uma caminhada de dez minutos, que também é interessantíssimo.

    Quase todos estes locais, durante alguns meses no ano, recebem novas equipes de arqueólogos que continuam seus trabalhos de pesquisa. São sítios gigantescos e que exigem décadas e mais décadas de trabalho para que se faça o trabalho da forma mais criteriosa possível. Então, não é incomum chegar a um desses sítios e encontrar barracas montadas e um monte de gente com parafernalhas entrando e saíndo de buracos.

    Existem outros tantos lugares fantásticos, mas boa parte deles em áreas de acesso restrito, como reservas naturais, terras indígenas ou altas montanhas.

    Por fim, incluiria ainda Sete Povos das Missões no Rio Grande do Sul, e já de volta ao Brasil, local que marca justamente essa interface entre a cultura indígena americana e a chegada do colonizador europeu, com desdobramentos absolutamente trágicos. É um sítio de arqueologia histórica, mas igualmente interessante e belo.

    Com isso não terá visto nem a ponta do iceberg da arqueologia na América do Sul, mas, com certeza, terá visto a parte mais significativa daquilo que está disponível ao público e com estrutura para receber o visitante.

    Enviado por: indianasilva – Categoria(s): Arqueologia, História da cultura

    Tags relacionadas: América do Sul, Arqueologia, Bolívia, Machu Picchu, Patagonia, Perú, Serra da Capivara, Sítios arqueológicos, Tiwanaku, Turismo
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    12/03/2009 – 14:47

    Enviado por: Flavia M

    Excelente!!!!

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