As benesses de viver num Estado laico
Não vou iniciar este texto falando do bizonho e medieval caso do arcebispo de Olinda e do Recife (que saudades de Dom Helder Câmara), pois, como diria Madre Tereza de Calcutá: Se fizerem uma passeata contra a guerra não me chamem. Mas se fizerem pela paz estarei lá. Certas idéias – como a guerra – são tão abjetas que me recuso sequer a pensar nelas. A idéia de excomungar alguém e tentar torcer a lei de todos mediante a vontade de uma única fé ou credo é tão abjeta que me recuso a pensar nela.
Mas o caso todo me faz ter orgulho de viver em um Estado laico, que tem católicos, evagélicos, luteranos, budistas, muçulmanos, judeus, xintoistas, praticantes do candomblé e seja lá mais o que for, e que não são suas leis religiosas que controlam a vida de todos.
Imagine se um hinduísta ordenasse a punição ao bispo porque ele esta comendo um bife (afinal os bois são sagrados para hinduistas)? Ou se um judeu condenasse um monge por comer um inocente torresminho? Ou se um tribunal islâmico ordenasse chicotear em praça pública o padre que cometeu um ato de pedofilia?
Infelizmente a Igreja Católica (como um todo, não determinadas alas progressistas ou indivíduos em particular), enquanto organização, está voltando a pé da Idade Média, com seus horrores de obscurantismo, ignorância, desumanidade, que foram – graças a Deus!!!!, amém – superados pelo Iluminismo e pelo Renascimento.
Desde os primeiros tremores que começaram a desmontar a estrutura social, mental, econômica da Idade Média até as revoluções burguesas – no século XVIII – foram séculos e séculos de luta contra absurdos que eram cometidos pela nobreza e pelo clero (em verdade quase dois desdobramentos da mesma matriz social), e que determinaram a ida de muitos às fogueiras da Inquisição. Giordano Bruno queimou por “ser contra a fé”, assim como Galileu teve de renunciar em tribunal às suas idéias para não ter o mesmo fim.
No Brasil a divisão final entre Igreja e Estado somente ocorreu com a República, em 1889, mas, mesmo assim, a Igreja Católica continuou a influenciar muito o Estado brasileiro. O golpe de estado em 1964 somente foi possível pois as alas conservadoras da Igreja deram seu aval aos militares, garantindo o apoio de parte significativa da população.
Mas o tempo passa e, como diriam os judeus, a Roda da Fortuna gira, e nos horrores da Ditadura após 1968 a Igreja sentiu a dor na própria carne ao ver seus frades, freiras e padres serem presos, torturados e mortos.
E o fato mais absurdo é que no cristianismo original, primitivo, muitas das idéias que são elencadas pelos “doutores em teologia” (invocados pelo infeliz bispo) simplesmente não existiam. O pecado, o inferno, o purgatório são invenções que foram sendo acrescentadas ao longo dos séculos, quase todas na Idade Média (se quiserem comprovar basta ler Jean Delumeau, O pecado e o medo, publicado, curiosamente, por uma editora católica, a Edusc, ou senão O nascimento do purgatório).
É claro que o fato de um Estado ser laico não garante sua isenção total dos preceitos religiosos, afinal as decisões são tomadas diante das pressões realizadas por grupos e seus representantes (como as chamadas “bancadas” no Congresso). Mas, ao menos, a lei não é escrita por eles e não sem longas discussões, que refletem ainda o “perfil” da população.
Já disse Alexis de Tocquevile que a democracia é a “ditadura das massas”, e por isso a vontade de minorias, às vezes, é atropelada pelo desejo da maioria. E o desafio de um Estado é conseguir garantir o respeito às posições minoritárias sem que isso se torne um caos de particularismos, mas também não se torne um rolo compressor de minorias.
Apesar das deficiências do Estado laico e dos desafios da democracia, como diria Churchil, “é o pior regime, excetuando-se todos os outros”.
Nesse caso a Igreja Católica foi a minoria e o direito da criança, a opinião da ciência, dos direitos humanos de matriz iluminista e o endosso do Estado laico (embora o bispo, com apoio do Vaticano, tenha tentado desqualificar a soberania da lei e a autonomia do governo brasileiro) prevaleceram sobre a vontade de meia dúzia de homens que não conseguiram ver o mundo mudar, pois estavam fechados em alguma masmorra da Inquisição.
Para encerrar. Sinal dos tempos: o arcebispo de Olinda e Recife já foi Dom Helder Câmara, homem ilustrado, inteligente, digno, um verdadeiro defensor da vida, da liberdade, da igualdade. Num dia, com um homem preso e sendo torturado em Pernambuco, pediram a intercessão de Dom Helder. Ele ligou para o delegado e pediu pelo homem, que disse ser seu irmão. O delegado espantou-se e disse não saber que Dom Helder tinha um irmão. O religioso respondeu: Mas é meu irmão, de mães diferentes, mas filhos do mesmo pai.
O atual bispo, provavelmente, não crê nas mesmas coisas.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura Tags: Aborto, Arcebispo Olinda e Recife, Catolicismo, Direitos Humanos
