Arqueologia no cotidiano
Tudo bem, minha geração aprendeu a gostar de arqueologia (ou o que pensávamos que era arqueologia) assistindo aos filmes do Indiana Jones.
O Indi materializava a história no nosso imaginário infantil.
Quem não gostaria de conhecer o Oriente Médio (em tempos mais seguros), a Índia, as selvas da América Central, combater o mal, usar um chicote e um chapéu todo estiloso, saltar de aviões, disputar corridas em túneis de minas obscuras, lutar contra bandidos, encontrar a Arca da Aliança, as Pedras de Shiva e o Santo Graal e, depois de tudo, ainda ficar com a mocinha? Eu queria.
Não me lembro de ter querido, com vontade efetiva, ser ou fazer outra coisa senão trabalhar com história, desde pequeno.
Contudo, para uma criança isso é uma coisa absolutamente abstrata, e continuará sendo mesmo durante sua formação como historiador.
Quando entrei no curso de história da Universidade de São Paulo, depois de uma série de confusões que aqui não vêm ao caso, optei direto por arqueologia. Queria de qualquer forma estudar arqueologia, afinal, não era ela que estudava gregos, egípcios, maias, aztecas, incas e povos afins?
Mas, novamente, o acaso acabou me levando para a história do Brasil e me distanciando da arqueologia.
Um dos motivos que pesaram neste afastamento foi minha descoberta de que a arqueologia não tinha bolas gigantes de pedra rolando, flechas envenenadas, tesouros a se descobrir, etc, mas uma infinidade de fragmentos cerâmicos, pontas de flechas, restos de fogueiras a serem analisados em laboratório ao longo de anos, nos quais a saída ao campo era apenas uma pequena parte.
Daí me lembrei da frase do Indiana Jones: “o X nunca marca o lugar, a arqueologia se faz em laboratórios e bibliotecas”.
Bom, ele tinha razão. Perceba-se que nos três filmes dele o aventureiro, quase ladrão de túmulos, vai paulatinamente dando espaço para o cientista, mais ético, mais circunspeto.
Levou ainda alguns anos para que eu pudesse me re-aproximar da arqueologia. Neste interregno deixei a história do Brasil colônia, que seria minha especialização, para trabalhar com história da cultura. Fatalmente isso me aproximou da antropologia, da etnografia, da etnologia e…da arqueologia.
Mas ninguém passa impune por anos trabalhando com Brasil, de modo que da minha paixão por estudar a coisa mais complexa já surgida no universo (este estranho país) jamais me curei. Assim, não passei somente a estudar cultura, mas culturas brasileiras.
Para continuar flertando com o acaso a minha entrada para o mundo da arqueologia não fugiu a regra. Estava trabalhando como professor há dois ou três anos e, embora adore educação e crianças, estava a ponto de matar meus coordenadores e diretores a golpes de figos podres, como dizem na Córsega.
Numa terça feira, véspera do dia mais terrível da semana (11 aulas em um único dia, nas quartas), fora me deitar lá pelas 22:00. Perto da 01:00 de quarta feira o telefone tocou e me levantei já pensando em quem havia morrido. Do outro lado um velho amigo arqueólogo.
Não, não havia morrido ninguém, nem estava preso ou precisando de dinheiro. Queria saber o que eu faria nos próximos dois meses. Bom, eu ia dar aula nas segundas quartas e sextas, sair de final de semana, freqüentar disciplinas na pós-graduação, ir ao banheiro, ao banco, enfim, fazer exatamente o que fazia até ser acordado à 01:00. Perguntou-me, então, se eu aceitava ir para o sertão pernambucano e cearense, ficar um mês pesquisando na região sua história e cultura.
Demorei muito a aceitar, algo em torno de 45 segundos cronometrados, hoje acho que 25 seriam razoáveis. Quinze dias depois eu estava integrado á equipe de arqueologia que trabalharia na região.
No meio do trabalho ele voltou a me procurar e perguntou se eu estava disposto a entrar definitivamente para a arqueologia, como historiador chefe da equipe, e se topava ficar três meses no Tocantins. Dessa vez eu realmente demorei um pouco a responder. Afinal eu teria de me demitir de dois trabalhos, trancar minha matrícula no francês, mudar radicalmente minha vida. Bom, se eu não tivesse aceitado não estaria aqui escrevendo.
Quando cheguei em São Paulo me deram 24 horas para resolver minha vida e embarcar novamente, o que não foi lá um grande problema. Feito isto, olhando agora para estes anos passados, sinto lá algum orgulho da decisão que tomei, ainda que tenha me distanciado de pessoas e lugares que me eram caros.
Efetivamente me tornei um historiador de Brasil, que trabalha como historiador e na arqueologia, puxa vida, acho que nem nos meus sonhos mais exatos de infância conseguiria imaginar uma equação mais adequada, e tão singular. É claro, a fama, o estrelato, a fortuna e as mulheres acho que vão ficar para uma outra encarnação, mas a perfeição não possível. E mais uma vez lembro de Indiana segurando as Pedras de Shiva e se lembrando da questão da fortuna, no sentido amplo e filosófico dela, não no meramente material.
Sempre existem seqüelas, o homem é em certa medida seu trabalho. Estes anos trabalhando na arqueologia mudaram meu olhar, minha relação com o mundo, minha percepção, o uso dos sentidos.
Um dos exercícios mais constantes, e mais ricos, é se acostumar a ver o chão que pisamos como uma sobreposição de tempos, literalmente uma sedimentação de poeira temporal. Os lugares são ocupados, abandonados, re-ocupados, transformados e, em cada uma destas ações, deixa marcas, cicatrizes que para o arqueólogo, para o historiador, para o geólogo, geógrafo, são verdadeiras minas de informação.
Quantos de nós pensamos nisso quando atravessamos a Praça da Sé em São Paulo?
Sim, existem cidades que receberam o título de “cidades históricas”, onde esta percepção do passado é mais clara, como em Ouro Preto, Recife, Olinda, Salvador, mas nessas a ausência de percepção, às vezes, é inversa, com as pessoas se esquecendo que o passado somente existe como lembrança, como discurso; as cidades antigas também são cidades novas, com pessoas habitando, trabalhando, transitando, construindo e destruindo.
E, no final das contas, não posso reclamar.
Neste tempo todo estive nos sertões de Pernambuco e do Ceará, no litoral alagoano, no sul da floresta amazônica, no pantanal, no Xingu, entre os xavantes, parecis, nambikwaras, bakairis, trabalhando com sertanejos, caboclos, ribeirinhos, caiçaras, pescadores, vaqueiros, refiz partes dos trajetos da expedição Langsdorff, de Cândido Mariano Rondon, trombei com vestígios da Coluna Prestes, vi as entranhas da cidade de São Paulo saltarem aos olhos nos restos das construções do século XVIII e XIX, passei por mais lugares do que muitos passam ao longo de toda uma vida.
E aprendi uma história diversa da que havia travado contato nos bancos da USP; não melhor, mas certamente mais viva, diversa, pulsante.
Então, este espaço, espero, seja um local para provocarmos os sentidos, e com eles percebermos coisas que nos passam desapercebidas, conhecer um pouquinho das entranhas da história, mas de um modo sempre vivo.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Sem categoria Tags:
O tempo das grandes descobertas passou. Grandes desbravadores, exploradores, navegantes… Mas há muito por desvendar, entender. Boas aventuras ainda nos aguardam!
Navegando na Internet encontrei esta maravilha de imagens e textos retratando a beleza de minha amazônia, pois amazonense de nascimento e atualmente estou morando em Fortaleza. Esta parte do Brasil que todos querem preservar. Vocês estão de parabens em divulgar a AMAZÔNIA. Adjalma Cunha
Sem dúvida alguma, você foi contaminado pela mais apaixonante das ciências. Parabéns pela escolha e coragem de mudar, radicalmente, sua vida e ir em busca de toda amagia que permeava sua juventude. Tenho certeza que você a encontrou.
Parabéns,
Manoel